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A escultura Spider (Aranha), da artista plástica Louise Bourgeois, chegou ao Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR), na Praça Mauá, para ficar exposta até o dia 1º de março de 2020.
Depois de permanecer pouco mais de duas décadas em regime de comodato ao lado do Museu de Arte Moderna, em São Paulo, em dezembro do ano passado a obra pertencente à Coleção Itaú Cultural começou uma série de itinerâncias pelo país: de Inhotim para Porto Alegre e de lá para Curitiba.
Agora, chega ao Rio de Janeiro acompanhada da gravura da artista Spider and Snake e de obras da coleção do próprio MAR e do acervo particular de Paulo Herkenhoff entre desenhos, manuscritos, documentos e publicações da escultora.
A obra realizada pela escultora francesa Louise Bourgeois (1911-2010) em 1996, foi vista no Brasil pela primeira vez na 23ª Bienal de São Paulo e adquirida para a Coleção Itaú Cultural. Em 1997, o Instituto a cedeu em regime de comodato ao Museu de Arte Moderna – MAM/SP, no Parque Ibirapuera. Ela permaneceu ali até 2017, em um espaço de vidro de onde podia ser observada da marquise do parque. Na ocasião, a escultura foi enviada para a Fundação Easton, em Nova York, para averiguação e restauro, de modo a garantir a sua longevidade e possibilitar a sua exibição em espaços expositivos diversos. Em dezembro passado, Spider botou o pé na estrada.
Primeiro, a obra foi levada a Minas Gerais, para ser exibida na Galeria Mata do Inhotim. Seguiu para a Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, e para o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. Agora chega ao MAR, onde ficará até março do próximo ano.
“Assim como fazemos com grande parte da Coleção Itaú Cultural, tomamos a decisão de circular uma das suas mais importantes obras internacionais e ampliar o acesso do público a esta grandiosa escultura”, diz o diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron.
Esta Spider é a primeira das seis que a artista produziu em bronze a partir de meados da década de 1990 e que estão espalhadas pelo mundo. Com ela, também chega a gravura Spider and Snake – a 15ª das 50 realizadas por Louise em 2003, com uma dimensão de 48,2 x 44,1 cm e pertencente ao acervo do Itaú.
As viagens da Spider pelo Brasil são acompanhadas de um texto do crítico de arte Paulo Herkenhoff e de um vídeo de pouco mais de cinco minutos realizado pela equipe do Itaú Cultural, com relato da também crítica Verônica Stigger. Este material foi produzido especialmente para estas itinerâncias.
Entre imagens da escultura, Verônica discorre sobre a vida da artista que se entrelaça com esta sua criação. Ela toma para si palavras de Herkenhoff para afirmar que as aranhas de Louise Bourgeois representam a mãe da artista, sintetizada em dois adjetivos aparentemente paradoxais: frágil e forte.
Diz Verônica: “A fragilidade e a força se conjugam nesta versão de Spider. À primeira vista, é uma peça imponente, até um tanto monstruosa: ela é toda em bronze, com três metros e meio de altura, oito longas patas e um núcleo central duro, todo torcido em espirais, que faz as vezes de cabeça e ventre — um grande ventre capaz de armazenar os ovos.” E conclui: “Em uma olhada mais atenta, percebe-se como, apesar da força e da rigidez do bronze, ela também é frágil, delicada: suas patas são longas e muito finas, dando a impressão de serem insuficientes para sustentar o pesado corpo da aranha.”
Feita em bronze, a escultura pesa mais de 700 quilos – 68kg, cada uma das oito patas; 113kg o corpo e 57kg a cabeça. O seu traslado, exige grande cuidado e dedicação. Com a inexistência do esboço e projeto original da escultura, a equipe do Itaú Cultural criou um aparato para garantir a sua estrutura na desmontagem e remontagem. A produção do instituto desenhou uma plataforma que é colocada debaixo dela para sustentá-la. As patas, cujas pontas são de agulha, são retiradas uma a uma enquanto uma espécie de berço se eleva da plataforma para segurar o corpo do pesado aracnídeo. Para ser remontada, o caminho é o inverso.
Criado em 2019-12-02 00:30:51
Romário Schettino -
Os integrantes do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados aprovaram hoje (5/4) o parecer alternativo pela censura escrita ao deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) em vez de suspensão do mandato por quatro meses, como queria o relator.
Mesmo assim, o curioso nesse caso é que o advertido fica sendo o ofendido, e não quem o ofendeu. Mas Jean Wyllys atribui essa vitória ao amplo apoio que recebeu da sociedade, dos intelectuais e dos partidos progressistas, durante a tramitação da acusação no Conselho.
Agora, o processo se esgota e não será mais levado ao Plenário da Câmara. A decisão foi tomada por 13 votos a favor e nenhum contrário.
Jean Wyllys (Psol-RJ), o único deputado assumidamente gay do Congresso Nacional, foi denunciado no Conselho por ter cuspido no também deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ).
O episódio aconteceu em abril do ano passado, na sessão que aprovou a abertura de processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Wyllys cuspiu em Bolsonaro em revide a palavras ofensivas, homofóbicas, durante a votação.
A decisão foi contrária ao parecer do relator do processo, Ricardo Izar (PP-SP), que havia pedido a suspensão do mandato do deputado do Psol por quatro meses.
Na sessão de hoje ele mudou a recomendação para suspensão do exercício do mandato pelo prazo de 30 dias. Mesmo assim, seu parecer não foi acolhido. Ele recebeu 4 votos favoráveis e 9 contrários.
Coube ao deputado Julio Delgado (PSB-MG) ler o parecer vencedor, pela censura escrita, que recebeu 13 favoráveis e nenhum contrário.
Fim do processo - Com a censura, o processo se esgota e não será mais levado ao Plenário da Casa para votação, diferentemente do que aconteceria se a recomendação fosse pela suspensão do mandato.
A Mesa Diretora da Câmara deverá definir agora como será aplicada a pena: se lida no Plenário, por exemplo, ou apenas publicada no Diário da Câmara dos Deputados e transmitida ao deputado.
Apesar de ter tido a pena disciplinar reduzida em relação ao proposto pelo relator, Jean Wyllys ainda pode recorrer da decisão do Conselho de Ética à Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania.
Neste caso, ele poderá questionar apenas aspectos formais, ou seja, eventuais erros na tramitação do processo. A CCJ não entra no mérito da decisão.
Entenda o caso - A ação contra Jean Wyllys foi proposta pela Mesa Diretora da Câmara (Representação 11/16), que pediu uma pena de seis meses de suspensão do mandato.
O processo disciplinar foi instaurado em outubro do ano passado. Em novembro e dezembro houve a tomada dos depoimentos, incluindo de Wyllys e Bolsonaro.
Wyllys alegou que reagiu a ofensas homofóbicas de Bolsonaro, ditas anteriormente à data do episódio e também no dia.
Bolsonaro negou a provocação e disse que no dia do impeachment dirigiu a Wyllys apenas a frase “Tchau, querida”, um dos bordões da campanha contra Dilma.
Naquele dia, o deputado do Psol votou contra o impedimento da ex-presidente. Bolsonaro votou a favor.
No parecer, Izar reconheceu que Wyllys foi provocado, mas afirmou que a atitude dele, ao revidar cuspindo, possui “natureza injuriosa” e é incompatível com o decoro parlamentar, descrito no Código de Ética da Câmara.
Hoje, ele reafirmou sua posição. “Não posso abrandar uma pena que é uma quebra de decoro parlamentar. Só se rasgar o Código de Ética”, disse.
A afirmação foi rebatida por Julio Delgado. “Uma censura por escrito não é passar a mão na cabeça”, disse.
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Com Antonio Araújo, da Agência Câmara
Criado em 2017-04-06 02:20:15
Maria Lúcia Verdi -
Um capítulo do “as palavras e as coisas”, de Foucault, se intitula Trabalho, Vida, Linguagem.
Olho em torno e vejo os desempregados, os excluídos ao relento, e os empregados do outro lado. Separação que não se costura.
A vida se expressa de infinitos modos, louváveis (quase sempre na natureza) e revoltantes (quase sempre na civilização), e nós tentamos compreender a linguagem que sai das coisas, das situações, decifrar secretas mensagens e articulá-las com as já conhecidas, resistir ao discurso do poder, a qualquer discurso de supostas verdades.
Estamos na Capital do Brasil, um Brasil tão diverso do dos anos 60, uma capital pensada para ser outra coisa. No recorte que é o Plano Piloto, a vida ondula entre as árvores e os canteiros de flores, apenas perturbada pelos que expõem, a céu aberto, uma outra verdade.
A mentira e o horror oficial, a vulgaridade e o descaso tentam convencer, com retórica lamentável, por exemplo, que a reforma da Previdência é uma reforma, não uma destruição.
Nada realmente importa para eles, os Todos Semelhantes, pois para eles nada mudará.
Por que haveria de verdadeiramente importar a vida desses trabalhadores, ou desses excluídos, se nem de fato entendem a linguagem que expressam, nascida de necessidades que desconhecem.
Passam, atravessam seu tempo histórico, cumprem mandatos, nada que transcenda.
O que nos diz a vida nas ruas é outro discurso. Descaso. Revolta. Inquietude. Resistência.
Criado em 2017-03-18 20:35:08
A peça Liberdade, Liberdade, escrita por Millôr Fernandes e Flávio Rangel, foi um sucesso retumbante em 1965, ano de sua estreia, com nomes como Paulo Autran e Nara Leão. O motivo para repercussão que teve é fácil de entender: a peça, uma colcha de retalhos de textos de dramaturgia, vida real e citações, encarava de frente a ditadura militar brasileira (1964-1984), com críticas certeiras e deboches inteligentes.
E, agora, eis Liberdade, Liberdade de volta. Com adaptações e recortes, a peça estreia hoje, sexta feira (29/11), no teatro da Casa dos 4, na 708 Norte, Bloco F, loja 42, Rua das Oficinas, às 20h e fica em cartaz até domingo, 1 de dezembro.
Há também novidades, como por exemplo a reprodução do depoimento da mãe da menina Agatha Félix, assassinada por um policial quando voltava da escola. E também há uma cena que conta um bravo incidente ocorrido no bar Beirute, de Brasília, no final dos anos 1970. Um casal de rapazes foi ameaçado de expulsão após trocarem carícias no interior do estabelecimento.
Não deu outra: em seguida, um grupo de rapazes se levantaram e se beijaram ali mesmo. O acontecimento entrou para a história da cidade como o "beijaço".
Histórias como essas e as outras, do texto original, servem para apontar o dedo ao Brasil que temos hoje. Assim, a peça de Millôr Fernandes e Flávio Rangel é atual perfeita nas suas denúncias de autoritarismo, horror e miséria que vivemos.
Ficha técnica:
Peça: Liberdade, Liberdade
Direção: Alexandre Ribondi
Assistência de direção: Josias Silva
Elenco: Luisa de Marillac, Helen Cris, Morillo Carvalho, Ismael Diniz, Rafaella Ferrugem, Igor Ariel, Júlio Rick. Vitor Zael e Rodrigo Velho
Desenho de luz: Rui Miranda
Local: Casa dos 4, na 708 Norte, Bloco F, loja 42, Rua das Oficinas.
De: Sexta (29/11) a domingo (1/12), às 20h.
Classificação etária: 16 anos
Criado em 2019-11-29 18:21:39
A mais influente liderança do Partido dos Trabalhadores (PT), especialmente durante os governos Lula e Dilma Rousseff, cumpre pena em uma prisão no Paraná.
Isso todo mundo já sabe, o que poucos conhecem é o conteúdo dessa carta escrita na prisão. Dirceu não trata a sua situação carcerária como vítima ou fim de vida.
Da realidade, extrai lições pra enfrentar o tema vital da política carcerária brasileira.
De seu cotidiano, encontra as formas de sobreviver sem pena de si mesmo, enxergando a prisão como outra trincheira de vida e luta.
Leiam com atenção o que José Dirceu escreveu e que está circulando nas redes sociais:
"Vida de preso por quem está preso
José Dirceu
Espelho é proibido. Vidro também. Então, pegue um prato grande que reflita sua imagem – e mantenha ele limpo sempre. Água mineral? Só com receita médica. A solução é ferver a água ou tomá-la “in natura” da torneira. Eu nunca tive problemas.
Saúde? É fácil cuidar. Bebida, cigarro, gordura, ou é proibido ou não existe simplesmente. Você pode pedir comida hipossódica e evitar excessos na sexta-feira, quando as famílias de todos os presos podem trazer comida. Embora o peso seja controlado. Nada que possa virar cachaça – a revista é rigorosa.
O preso deve fazer exercícios todos os dias. No meu caso, 71 anos, é light. O importante é manter os músculos lombares fortes. E as pernas. Flexão, abdominal, pesos, caminhadas. No meu caso, pelo menos 20 minutos diários. É importante tomar sol ou ingerir vitamina D – para mim, a recomendação é de 20 minutos diários. O banho de sol é de cinco dias por semana, mas na média são três por conta de chuva, normas de segurança, etc.
No mais, é ler, estudar e escrever, um pouco de tudo. Aqui tem biblioteca – e é boa. Em geral, literatura brasileira e mundial, auto-ajuda, espiritismo, cristianismo, catolicismo, correntes evangélicas. Nossos clássicos – e outros atuais — estão à disposição. Há cursos de alfabetização.
Na cadeia, você passa a dar importância às pequenas coisas. À rotina. À limpeza coletiva em sistema de rodízio. E, muito, à disciplina.
Preso primeiro chora, depois chama a mãe e seus santos, e faz remissão. Cada três dias trabalhados valem um dia de pena cumprida; cada livro lido e resenhado vale mais quatro dias; cada 12 de estudo, um dia de remissão. Assim, em 12 meses, o preso pode remir seis meses, cinco em geral.
Fora a remissão, o trabalho, a leitura, o estudo e a escrita transformam a prisão em vida produtiva e criativa, além de passar o tempo de maneira útil e agradável.
A luta do preso é para viver na cadeia “uma vida normal”, de rotina, dormir sem indutor do sono, as horas necessárias, trabalhar oito horas — e ter horas de lazer, de convivência comum.
Para os jogos – dominó e xadrez –, futebol, exercícios e caminhadas, agregar “conversa fiada”, contar estórias, falar da família, da vida, dos processos, dos amores proibidos, da liberdade … dos filhos e esposas.
Preso tem que manter cela, corredor e banheiros coletivos limpos, duas vezes por semana; tem que lavar as cuecas (a roupa é lavada na lavanderia do presídio).
Preso pode receber material de higiene pessoal e de limpeza – um Sedex com o básico de uma cesta familiar, observando as questões de segurança. Tudo de que um preso precisa para sobreviver. Os itens são básicos mesmo, nada de supérfluos.
A comida é simples, mas suficiente. No café da manhã, café com leite, pão e manteiga. No almoço e na janta, feijão (pouco, ou porque azeda ou porque está caro), muito arroz, carne e legumes.
De carne, só frango – peito! – ou carne de vaca moída ou em tiras. Ninguém pode dizer que a comida não é honesta. Dá pra sobrevier – e bem. O problema é a mesma comida meses, anos…
Mas a comida que a família traz, às sextas feiras, dia de visita, resolve a monotonia. Todas as sextas feiras, das 13 e 30 às 16 horas, preso recebe visita da família – duas pessoas. Na verdade, é o único momento em que o preso sente a liberdade, o afeto, o amor e a esperança.
Quem manda?
Mandela dizia que a pessoa mais importante na vida do preso é o carcereiro. Ele tinha toda a razão.
Manter uma relação respeitosa e civilizada com a direção do presídio e com os agentes é questão básica, direitos e deveres, como tudo na vida. No caso dos presos, direitos e deveres regulados pela Lei de Execuções Penais e pela direção do presídio.
Presídio é, no Brasil, por definição, um lugar de alta periculosidade e insalubridade, onde falta tudo.
Na verdade, não há recursos orçamentários para manutenção e reforma, mesmo tendo mão de obra de graça, a dos presos.
Os recursos não dão para o custeio. E isso com educação e saúde sendo obrigações do Estado.
A escola e o posto de saúde são ligados à estrutura administrativa do estado na região – no nosso caso, a escola é o “Faraco” e o centro médico, o CMP- Complexo Médico Penal?
O mais grave problema, inclusive aqui, no Paraná, mesmo no CMP – hoje um misto de “cadeião” e hospital – é a falta de trabalho, de colônias agrícolas e industriais, e de escolas.
O trabalho e o estudo devem ser obrigatórios para o preso, insumo básico para a ressocialização e a qualificação, além de suas repercussões na remissão da pena.
Sem trabalho, sem estudo, amontoados em celas superlotadas, os 650 mil presos do país são presas fáceis para o crime organizado.
Pior, vivem numa situação degradante e violenta que os transformam em cidadãos violentos, quando não em criminosos violentos.
Uma combinação mortal – aumento das penas, crimes hediondos e criminalização do usuário de droga – fez explodir a população carcerária em regime fechado. Com progressão só com 25% da pena cumprida, e sem indulto.
O mais grave é a incapacidade do Judiciário-MPF e dos juízes frente a um quadro de injustiça e ilegalidade único – 40% dos presos são provisórios, não julgados.
A tudo isso, soma-se a superlotação e degradação dos presídios. Fora a corrupção ou mesmo o controle dos presídios pelo crime organizado.
Quem são os responsáveis por esse estado de coisas? Os juízes das Varas de Execuções Penal responsáveis pelas penitenciárias e os conselhos e secretários de Segurança e/ou Justiça.
Na realidade, agentes do Estado, omissos e responsáveis pela situação que estamos vivendo.
Situações paliativas, como recorrer aos famosos “mutirões” para tirar da cadeia os presos que ali estão sem condenação em Segunda Instância, não resolvem.
Só postergam o problema. Também não é saída o recurso à reclusão de segurança máxima, recomendada em casos determinados.
O que pode abrir a luz no fim do túnel é uma mudança radical da política penal e penitenciária. Trabalho e estudo, qualificação do preso, separá-lo pelo tipo de crime e pena.
Mudar radicalmente o sistema pena: progressão da pena, penas menores para crimes não violentos, semi-aberto domiciliar com controle eletrônico, penas de multa e pecuniárias, trabalho comunitário, perda de patrimônio e função pública.
O preso produtivo, além de manutenção e reforma dos presídios, pode produzir móveis, material esportivo, equipamentos em geral, roupas, trabalhar em obras, infraestrutura pública etc.
E os contratos, entre o Estado e empresas, quando for o caso, podem ser administrados por entidades sem fins lucrativos.
Decisão política
Falta vontade política e decisão de mudar radicalmente a política penal e penitenciária.
Quando você convive com a dedicação dos professores, o profissionalismo dos agentes e profissionais de saúde, em condições especiais da profissão (estamos falando de uma cadeia); com presos que trabalham e estudam, no caso do semi-aberto; a conclusão, simples, é que é, sim, possível mudar o sistema. E reintegrar os presos.
O horizonte está no aprisionamento com progressão da pena. Desde que cumpridas as exigências da lei, o tempo de prisão e a remissão por trabalho-estudo."
Criado em 2017-03-31 14:15:30
Luciana da Luz Silva e Marcelo Pires Mendonça (*) -
As manifestações no Brasil e em todo o mundo por ocasião do Dia Internacional da Mulher, que este ano se articularam em torno do movimento global “8M”, têm promovido ocupações nas ruas e também proporcionado uma variedade de debates e reflexões acerca das questões de gênero e dos feminismos na sociedade.
Um dos temas mais relevantes e, talvez, um dos menos discutidos é o cerne de uma campanha lançada neste oito de março pela ONU Mulheres: “Onde estão as mulheres cientistas?”, uma iniciativa que trata sobre gênero e ciência.
Este debate envolve questões referentes às desigualdades de acesso e oportunidades para as mulheres nas diferentes áreas científicas, o teto de vidro nestas carreiras, as barreiras de acesso, a força do patriarcado, sustentado pela epistemologia positivista e pela adoção do “masculino universal” como parâmetro generalizado na maioria das pesquisas.
Em 1999 foi lançado nos Estados Unidos o livro mais emblemático sobre gênero e ciência: “O Feminismo Mudou a Ciência?”, de Londa Schienbinger (obra que chegou ao Brasil em 2001).
De caráter abrangente – tratando desde a historiografia das ciências e a evolução das questões de gênero até a cultura de gênero reproduzida em diferentes ramos da ciência – o livro faz “revelações” polêmicas e problematiza até que ponto o feminismo teve um impacto transformador na construção do conhecimento científico.
Ao relatar as consequências das desigualdades de gênero nas áreas médica e farmacêutica, Schienbinger demonstra como o patriarcado influenciou de tal forma a ciência que levou pesquisadores a supor que as doenças de homens e mulheres eram semelhantes, quando de fato não eram; ou que as doenças de homens e mulheres eram diferentes, quando de fato eram semelhantes.
Desta forma, inúmeros aspectos da saúde das mulheres têm sido pouco estudados ou até mesmo negligenciados.
Algumas informações apontadas na obra em questão são pertinentes ao debate acerca da participação das mulheres em todas as etapas e em todos os espaços da produção científica, bem como evidenciam a pertinência das epistemologias feministas.
Ao pontuar que as mulheres foram excluídas dos estudos sobre a interação entre a terapia de estrógeno e doenças cardiovasculares; que até o início dos anos 90 as mulheres eram totalmente excluídas dos estudos conduzidos para produção de novos medicamentos nos Estados Unidos, apesar de consumirem 80% dos fármacos comercializados no país; embora pouco se soubesse na época sobre os efeitos da aspirina em doenças do coração em mulheres, mulheres na idade adulta foram encorajadas a tomar uma aspirina por dia durante décadas até que em 2014 foi concluído o primeiro estudo dos efeitos deste remédio (que foi criado em 1897) nas mulheres, descobriu-se que o uso contínuo da aspirina por mulheres abaixo dos 65 anos não é benéfico para a prevenção de doenças cardiovasculares e do câncer por aumentar os riscos de sangramento gastrointestinal.
Até o início do século XXI apenas metade das drogas pesquisadas no mundo havia sido analisada segundo diferenças relacionadas ao sexo. Uma ciência construída no âmbito do patriarcado, circunscrita à pseudoneutralidade do positivismo, será edificada a partir do masculino universal como objeto básico de pesquisa.
Em tal contexto, Schienbinger constata que os corpos femininos foram considerados um desvio da norma masculina, e os estudos científicos convergiram para sua singularidade reprodutiva.
Os resultados de pesquisas médicas conduzidas entre homens em todas as demais áreas são, então, aplicados às mulheres, embora as consequências para as mulheres em termos de doenças, diagnóstico, prevenção e tratamento na esfera não reprodutiva não tenham sido adequadamente estudadas. Sendo que dar remédios às mulheres, em dosagens projetadas para homens, obviamente as expõe ao risco de doses excessivas.
Os resultados da maioria dos testes com medicamentos e protocolos de atendimento foram generalizados para as mulheres, a quem se receitavam (e ainda se receitam) dosagens planejadas para o peso e metabolismo médio dos homens.
As razões pelas quais o masculino universal segue como parâmetro em áreas científicas cujos produtos finais podem gerar riscos à integridade física e à qualidade de vida de metade da população mundial são basicamente duas: os interesses capitalistas da indústria farmacêutica, que se beneficia com os argumentos da neutralidade científica para conduzir estudos únicos com grupos heterogêneos de homens, o que reduz o custo de produção; e a outra razão é a cultura científica patriarcal, que durante séculos partiu de premissas equivocadas na condução de estudos e que nas últimas décadas vem sendo problematizada pelas práticas feministas e por cientistas feministas.
Por isso, a resposta ao questionamento da Londa Schienbinger “O feminismo mudou a ciência?” é: estamos mudando (não sem luta), mas ainda há muito a avançar.
E tais transformações são urgentes e necessárias porque diversos estudos, a exemplo das publicações de Schienbinger e outras pesquisadoras feministas, nos alertam para os riscos de uma ciência patriarcal que exclui as mulheres ao mesmo tempo em que apontam a insuficiência de dados sobre as mulheres em diversas áreas da produção científica ou, ainda, para a dificuldade de acesso aos dados existentes.
Em suma, a autora nos coloca diante do saldo de uma produção científica androcêntrica: as mulheres sofrem desnecessariamente e morrem.
Reações adversas a drogas ocorrem duas vezes mais em mulheres do que em homens. Algumas drogas que dissolvem coágulos, usadas para tratar ataques do coração, por exemplo, embora sejam benéficas à maioria dos homens, causam problemas de sangramento em muitas mulheres.
Drogas típicas para tratamento da hipertensão arterial tendem a diminuir a mortalidade masculina por ataques cardíacos, mas provaram aumentar as mortes entre mulheres.
No final da década de 90 surgiram indícios de que os efeitos de antidepressivos poderiam variar no decorrer do ciclo menstrual e desta maneira, uma dosagem constante poderia ser alta demais em alguns pontos do ciclo da mulher, e baixa demais em outros.
Em 2014, pesquisas demonstraram que hormônios femininos e diferenças na composição corporal e no metabolismo podem tornar as mulheres de 50% a 75% mais propensas a manifestar efeitos colaterais medicamentosos.
Para além do questionamento proposto pela ONU Mulheres sobre “Onde estão as mulheres cientistas?”, precisamos nos interrogar acerca de “quais são as pautas feministas relacionadas à ciência?”
Nos últimos anos temos alcançado no Brasil algumas conquistas importantes na área dos direitos sexuais e reprodutivos, como a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (de 2009) que consolidou e aperfeiçoou os avanços do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (de 1984) em áreas como clínica ginecológica, no pré-natal, parto e puerpério, no climatério, planejamento familiar, DST, câncer de colo de útero e de mama etc.
Mas os desafios são muitos e as pautas são extensas, afetam as mulheres em diferentes dimensões (estudos, mercado de trabalho, acesso à saúde, uso de medicamentos, etc.) e compõem a complexa amálgama das lutas dos feminismos.
Entretanto, uma das questões que se destaca a partir das leituras críticas da ciência patriarcal e androcêntrica, e que talvez seja a pergunta mais difícil é: “A ciência está matando as mulheres?”
A única certeza até aqui é a de que não temos sequer os elementos necessários para uma resposta definitiva. Como nos lembra Juliet Mitchell, a revolução das mulheres é a revolução mais longa.
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Referências:
CITELI , Maria Teresa. “Resenha. O feminismo mudou a ciência?”. Cadernos Pagu, n.17-18, Campinas , 2002.
MITCHELL, Juliet. Mulheres: A Revolução Mais Longa. Tradução: Rodolfo Konder. Revista Gênero. Niterói, v. 6, n. 2 - v. 7, n. 1, p. 203-232, 2006.
SCHIEBINGER, Londa. O feminismo mudou a ciência? Bauru-SP, EDUSC, 2001.
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(*) Luciana da Luz Silva é militante e pesquisadora feminista. Marcelo Pires Mendonça é professor de História da rede pública de ensino do Distrito Federal.
Criado em 2017-03-12 23:32:25
Brasília recebe o primeiro evento internacional de chá do Brasil, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, de 7 a 8 de dezembro. O Brazil Tea Festival contará com a venda de produtos, cursos, palestras e o I Simpósio Brasileiro de Chá.
A partir da primeira semana de dezembro, Brasília vai entrar para o seleto grupo de cidades que realizam festivais internacionais para difusão das delícias e saberes da segunda bebida mais consumida no mundo, depois da água.
O chá em toda sua diversidade e complexidade estará no centro das atenções do Brazil Tea Festival, primeiro evento internacional de chá do Brasil. O festival vai ocupar uma ala do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, com imersão no lendário e rico universo do chaísmo. O evento acontece no sábado, 7, e no domingo, 8, a partir das 9h, e os ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada).
Brazil Tea Festival vai promover a comercialização da bebida em suas diversas formas e sabores, cursos com especialistas - introdução ao universo do chá, preparação de drinks com a bebida, escolha da melhor água, profissão de sommelier de chá, dentre outros, workshops sobre o cultivo do chá no Brasil e um simpósio para esmiuçar os benefícios da bebida para a saúde.
O evento chega num momento em que se observa um grande crescimento do consumo de bebidas não alcoólicas no País, puxado em grande parte pelos chás vendidos prontos e gelados. Mas o universo do chá é rico, remonta a milhares de anos, contempla rituais e costumes e conjuga ciência, religião, gastronomia, socialização, cultura, economia e saúde.
O Festival
Festivais dedicados ao universo do chá já acontecem em cidades com Berlim, Amsterdã, San Francisco e Sidney. Em Brasília serão dois dias de atividade intensa, com estandes de venda de chás e infusões artesanais e de marcas diferenciadas, comercialização de produtos ligados ao consumo da bebida e diversas atividades formativas. Para começar, Brazil Tea Festival vai ensinar aos brasileiros as diferenças entre o chá e as infusões de plantas, ervas e frutas. Chás são as bebidas quentes ou frias produzidas a partir de uma única planta, a camellia sinensis. Os chazinhos de camomila, hortelã, erva cidreira e tantos outros são infusões.
Só da camellia sinensis pode-se alcançar uma enorme variedade de sabores e aromas, dependendo das condições de cultivo, coleta, preparo e acondicionamento das folhas. É do preparo da camellia sinensis que se obtém o chá em suas quatro variedades: branco, verde, oolong e preto. O branco é produzido com as folhas jovens e por brotos selecionados. Para o chá verde, são usadas folhas recém-colhidas e expostas ao calor, o que confere à bebida um sabor amargo. O chá oolong é feito com folhas cortadas ou picadas que sofrem um processo de oxidação parcial, resultando numa coloração avermelhada. E o mais famoso, o chá preto pede uma oxidação mais prolongada das folhas, ficando com uma coloração escura e sabor adstringente. Cada um tem suas propriedades benéficas para a saúde, como a redução da incidência de doenças degenerativas como câncer e doenças do coração, diminuição de peso, efeitos antibacteriano, antialérgico e antioxidante.
Para apresentar a diversidade de sabores da bebida, o evento terá um Salão de Chá, onde o público poderá participar de degustações de chás. Serão realizadas oito degustações, quatro em cada dia do evento, acompanhadas de harmonização com biscoitos. A participação será sem custo, mediante inscrições que poderão ser feitas com uma hora de antecedência no próprio local, até o número limite de 30 pessoas. As degustações serão às 11h, 14h, 17h e 20h.

Atividades de formação
Informações relevantes que conformam o imenso universo do chaísmo serão abordadas em cursos, no I Simpósio Brasileiro de Chá e no workshop cultivo de chá no Brasil, a ser desenvolvido pela Secretaria de Agricultura Familiar e Cooperativismo do Ministério da Agricultura. As atividades de formação se estenderão durante todo o sábado, 7 de dezembro e terão ingressos diferenciados.
Cursos – O festival vai oferecer quatro cursos. Em Introdução ao Estudo do Chá, o médico e estudioso Fábio Leite vai discorrer sobre a história do chá, os aspectos que caracterizam a camellia sinensis, a prática ritualística da preparação do chá e apresentar um pouco da teoria e dos aspectos práticos da degustação de chás.
Caberá à empresária Raquel Magalhães, sommelière de chá e terapeuta Ayurveda, desmistificar um pouco o mundo de cores, aromas e sabores do chá no curso Profissão Sommelier de Chá: definição e tendências desse mercado, no qual promete abordar as várias aplicações da bebida, as harmonizações com comidas e as tendências do mercado.
Em Estudo da água no preparo do chá, o primeiro Sommelier de Água Certificado do Brasil Rodrigo Resende deve surpreender os espectadores ao apresentar o imenso e maravilhoso mundo das águas minerais, mostrando as diferenças entre elas, os conceitos de degustação de água e as harmonizações. O curso oferece uma experiência sensorial pra mostrar que a escolha de uma água inadequada pode atrapalhar o sabor e os aromas do chá.

Elaboração de drinks com chá vai contar com toda a experiência do gastrólogo e mixologista Victor Quaranta, consultor de bares e restaurantes e instrutor de cursos de formação há 14 anos, para mostrar a imensa versatilidade da bebida que vem ganhando destaque na preparação de drinks. As preparações aliam as propriedades dos chás a um toque gourmet.
As inscrições já estão abertas, custam R$ 100 por pessoa para cada curso e podem ser feitas através do site do evento (clique aqui).
Simpósio – O I Simpósio Brasileiro de Chá irá discorrer sobre os benefícios já comprovados da bebida para a saúde. Será realizado na manhã do sábado, dia 7, das 9h às 12h, reunindo especialistas. As conversas terão como tema ”Efeito do consumo de chá na prevenção de doenças neurodegenerativas – Neurologista Dr. Pedro Brandão”, “Consumo de chá pode diminuir o risco de doenças metabólicas? – Endocrinologista Dra. Amanda Valadares Braga”, “O uso do chá na prevenção de doenças cardiovasculares – Cardiologista Dr. Fausto Satuffer”, “Uso de chá e doenças orais – Odontólogo Prof. Dr. Rivadávio Amorim” e “Aplicações do chá nos cuidados com a pele – Dermatologista Dra. Letícia Oba”.
Os ingressos custam R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada) e podem ser adquiridos através do site do evento: https://brazilteafestival.com.br/
Um pouco de história
São muitas as lendas que falam da origem do chá. Talvez uma das mais antigas conceda ao imperador Shen Nung a sorte de ter sido o primeiro a saborear o chá. Contam que, em 2.737 a.C., este imperador chinês que costumava tomar apenas água fervida, por questões de higiene, sentou-se embaixo de uma árvore para descansar. Ao servir-se de água fervente, observou que algumas folhas caíram no recipiente e provocaram uma mudança de cor. Shen Nung decidiu experimentar o gosto da água alterada e gostou do sabor. Mais ainda: achou a bebida revigorante. Estava inventado o chá.
Já em 200 a.C., um livro chinês fala sobre plantas medicinais e os efeitos desintoxicantes das folhas de chá. O sucesso da bebida foi tão grande que nos séculos IV e V, ela se popularizou na China e surgiram várias plantações no vale do Rio Amarelo.
O chá chegou ao Ocidente na Idade Média, junto com os carregamentos de especiarias trazidas da Ásia. Era chamado de tê na região de Fujian, dando origem ao thé francês, ao tea inglês, ao tee alemão e ao te italiano. Por terem tomado contato com a bebida em Macau, os portugueses a conheceram com o nome dado pelo dialeto local como tchá, dando origem ao nosso famoso chá.
Contam que quem criou o hábito de tomar chá na Grã-Bretanha foi uma portuguesa. Em 1662, casada com Carlos II, rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda, e grande consumidora de chá, Catarina de Bragança introduziu o hábito do consumo da bebida na corte inglesa, conferindo ao chá a atmosfera de elegância e nobreza que tem até os dias atuais.
Chá no Brasil
A primeira tentativa de introduzir o chá no Brasil partiu de D. João VI, que criou, em 1840, uma escola para ensino da cultura do chá, no Rio de Janeiro, e levou à produção da camellia sinensis em Ouro Preto, Minas Gerais. Mas foi só no começo do século XX, com a imigração japonesa, que a produção começou de fato no país.
Atualmente, o Brasil produz três tipos de chá: erva-mate, chá preto e chá verde, estes últimos introduzidos pelos japoneses na região do Vale do Ribeira, sul do estado de São Paulo. O país tem 5.000 hectares de área plantada e exporta 10 mil toneladas por ano do produto, com um consumo interno de apenas 3 mil toneladas/ano.
No Brasil, aumentou o consumo de bebidas não alcoólicas, principalmente dos chás prontos para beber, que tiveram um crescimento de 53,9% no consumo. Observa-se também um crescimento do interesse de jovens de áreas urbanas em consumir mais a bebida, não só pelos benefícios à saúde, mas também pelo sabor. São pessoas dispostas a pagar mais por chás especiais, com matéria prima de qualidade e desejosas de saber da origem do produto, contribuindo, assim, para o desenvolvimento sustentável.
Mas os números no país ainda são tímidos, comparados a outros países. Enquanto em 2013, o Brasil consumiu quase dois bilhões de xícaras de chá, uma média de 10 xícaras por pessoa por ano, na Turquia, a marca é de 1,6 mil xícaras por ano por pessoa!
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Serviço:
Brazil Tea Festival
Local: Centro de Convenções Ulysses Guimarães (Brasília/DF)
Data: Dias 7 e 8 de dezembro de 2019
Horário: 9h às 22h
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia-entrada)
Mais informações: https://brazilteafestival.com.br/
Criado em 2019-11-28 21:13:50
Em nota oficial, os bispos brasileiros convocam os cristãos e pessoas de boa vontade a se mobilizarem contra reforma da Previdência apresentada pelo governo Michel Temer.
A presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou, nesta quinta-feira (23/3), uma nota condenando a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287/2016, que prevê a mais radical reforma da Previdência no Brasil.
Na nota, a CNBB afirma que "a Previdência não é uma concessão governamental ou um privilégio. Os direitos sociais no Brasil foram conquistados com intensa participação democrática; qualquer ameaça a eles merece imediato repúdio”, salientam os bispos.
O governo federal argumenta que há um déficit previdenciário, justificativa questionada por entidades, parlamentares e até contestadas levando em consideração informações divulgadas por outros governamentais. Neste sentido, os bispos afirmam não ser possível “encaminhar solução de assunto tão complexo com informações inseguras, desencontradas e contraditórias”.
A entidade valorizou iniciativas que visam conhecer a real situação do sistema previdenciário brasileiro com envolvimento da sociedade.
Leia na íntegra:
"Nota da CNBB sobre a PEC 287/16 - Reforma da Previdência.
“Ai dos que fazem do direito uma amargura e a justiça jogam no chão”
(Amós 5,7)
O Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunido em Brasília-DF, dos dias 21 a 23 de março de 2017, em comunhão e solidariedade pastoral com o povo brasileiro, manifesta apreensão com relação à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287/2016, de iniciativa do Poder Executivo, que tramita no Congresso Nacional.
O Art. 6º. da Constituição Federal de 1988 estabeleceu que a Previdência seja um Direito Social dos brasileiros e brasileiras. Não é uma concessão governamental ou um privilégio.
Os Direitos Sociais no Brasil foram conquistados com intensa participação democrática; qualquer ameaça a eles merece imediato repúdio.
Abrangendo atualmente mais de 2/3 da população economicamente ativa, diante de um aumento da sua faixa etária e da diminuição do ingresso no mercado de trabalho, pode-se dizer que o sistema da Previdência precisa ser avaliado e, se necessário, posteriormente adequado à Seguridade Social.
Os números do Governo Federal que apresentam um déficit previdenciário são diversos dos números apresentados por outras instituições, inclusive ligadas ao próprio governo.
Não é possível encaminhar solução de assunto tão complexo com informações inseguras, desencontradas e contraditórias. É preciso conhecer a real situação da Previdência Social no Brasil. Iniciativas que visem ao conhecimento dessa realidade devem ser valorizadas e adotadas, particularmente pelo Congresso Nacional, com o total envolvimento da sociedade.
O sistema da Previdência Social possui uma intrínseca matriz ética. Ele é criado para a proteção social de pessoas que, por vários motivos, ficam expostas à vulnerabilidade social (idade, enfermidades, acidentes, maternidade…), particularmente as mais pobres.
Nenhuma solução para equilibrar um possível déficit pode prescindir de valores éticos-sociais e solidários. Na justificativa da PEC 287/2016 não existe nenhuma referência a esses valores, reduzindo a Previdência a uma questão econômica.
Buscando diminuir gastos previdenciários, a PEC 287/2016 “soluciona o problema”, excluindo da proteção social os que têm direito a benefícios.
Ao propor uma idade única de 65 anos para homens e mulheres, do campo ou da cidade; ao acabar com a aposentadoria especial para trabalhadores rurais; ao comprometer a assistência aos segurados especiais (indígenas, quilombolas, pescadores…); ao reduzir o valor da pensão para viúvas ou viúvos; ao desvincular o salário mínimo como referência para o pagamento do Benefício de Prestação Continuada (BPC), a PEC 287/2016 escolhe o caminho da exclusão social.
A opção inclusiva que preserva direitos não é considerada na PEC. Faz-se necessário auditar a dívida pública, taxar rendimentos das instituições financeiras, rever a desoneração de exportação de commodities, identificar e cobrar os devedores da Previdência.
Essas opções ajudariam a tornar realidade o Fundo de Reserva do Regime da Previdência Social – Emenda Constitucional 20/1998, que poderia provisionar recursos exclusivos para a Previdência.
O debate sobre a Previdência não pode ficar restrito a uma disputa ideológico-partidária, sujeito a influências de grupos dos mais diversos interesses.
Quando isso acontece, quem perde sempre é a verdade. O diálogo sincero e fundamentado entre governo e sociedade deve ser buscado até à exaustão.
Às senhoras e aos senhores parlamentares, fazemos nossas as palavras do Papa Francisco: “A vossa difícil tarefa é contribuir a fim de que não faltem as subvenções indispensáveis para a subsistência dos trabalhadores desempregados e das suas famílias. Não falte entre as vossas prioridades uma atenção privilegiada para com o trabalho feminino, assim como a assistência à maternidade que sempre deve tutelar a vida que nasce e quem a serve quotidianamente. Tutelai as mulheres, o trabalho das mulheres! Nunca falte a garantia para a velhice, a enfermidade, os acidentes relacionados com o trabalho. Não falte o direito à aposentadoria, e sublinho: o direito — a aposentadoria é um direito! — porque disto é que se trata.”
Convocamos os cristãos e pessoas de boa vontade, particularmente nossas comunidades, a se mobilizarem ao redor da atual Reforma da Previdência, a fim de buscar o melhor para o nosso povo, principalmente os mais fragilizados.
Na celebração do Ano Mariano Nacional, confiamos o povo brasileiro à intercessão de Nossa Senhora Aparecida. Deus nos abençoe!
Brasília, 23 de março de 2017.
Cardeal Sergio da Rocha - Arcebispo de Brasília - Presidente da CNBB
Dom Murilo S. R. Krieger, SCJ - Arcebispo de São Salvador da Bahia - Vice-Presidente da CNBB
Dom Leonardo Ulrich Steiner, OFM - Bispo Auxiliar de Brasília - Secretário-Geral da CNBB".
Criado em 2017-03-24 14:32:48
Thiago de Andrade (*) -
Uma nova agenda urbana, construída sobre os pilares de mobilidade e sustentabilidade, começa a ganhar forma na capital do país, com ações para ampliar o transporte de massa e rever marcos regulatórios, como o Código de Obras, a Lei de Uso e Ocupação do Solo e o Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília.
Tornar-se menos dependente do automóvel individual é um dos grandes desafios mundiais no planejamento urbano das metrópoles neste século 21.
Em Brasília, particularmente, essa estruturação ganhou um impulso com a sanção da Lei do Polo Gerador de Viagens no ano passado.
A lei resgata a capacidade do Estado de planejar e controlar as intervenções urbanas relacionadas à mobilidade, outrora levianamente delegadas aos empreendedores daqueles edifícios enquadrados como polos geradores de tráfego.
O Estado recolhe do empreendedor uma contrapartida de mobilidade urbana para financiar estudos e obras viárias com olhar abrangente e sistêmico, assegurando o controle social por meio de um comitê multissetorial com participação da sociedade civil.
A nova sistemática substituiu o Relatório de Impacto de Trânsito, famoso pela sigla RIT, e conservou exigência de prévia anuência de órgão de trânsito competente, conforme preconiza o Código de Trânsito Brasileiro.
Durante a vigência do RIT, o ente privado era quem contratava os estudos de tráfego no mercado, fazia as quantificações e medições necessárias e propunha ele mesmo as alterações necessárias no sistema viário ao redor do empreendimento.
Ora, por mais que considerassem um razoável raio de abrangência das ruas ao redor da edificação, os estudos do RIT eram pontuais e individuais e as medidas mitigadoras, invariavelmente, privilegiavam o próprio empreendimento, em detrimento de uma obrigatória visão sistêmica sobre a mobilidade regional.
Pior, os estudos individualmente analisados não se constituíram em um acervo útil para planejamento, pois carregavam metodologias distintas e estavam dispersos no tempo e no território.
A necessária analogia para compreensão do tráfego é a de um sistema de circulação como o sanguíneo. No corpo, um coágulo iniciado em determinada região se desloca e causa trombose em uma parte do corpo distante da origem.
As principais artérias geram danos maiores e mais nefastos, uma vez que, por hierarquia, abastecem maior número de órgãos. Igualmente, um acidente ou um fechamento de vias, por vezes, acarreta efeitos a quilômetros de distância.
Assim é o tráfego. De nada adianta criar alargamentos inconsequentes sempre privilegiando o automóvel, justamente o que a antiquada legislação fazia: viabilizava o melhor e mais fluido deslocamento pontual do automóvel, especialmente o individual, sem olhar para a mobilidade de forma complexa e multimodal.
Fazia como o meme de internet: “Tratar o problema do tráfego alargando vias é como tratar a obesidade acrescentando furos ao cinto”.
Não há registro de política pública de mobilidade bem-sucedida em que não tenha havido o necessário confronto com o carro.
No mundo, as medidas são muitas e diversas: sobretaxação do automóvel individual e do combustível, redução de seu espaço nas ruas, extinção de vagas gratuitas, cobrança de pedágio diário em centros urbanos, obrigatoriedade de abrigo privado na residência para poder comprar um carro, entre outras.
Em Brasília, estamos atrasados. Nossos normativos exigem conforto e uma tutela excessiva do automóvel, gerando garagens cada vez mais obsoletas, catedrais vazias para o automóvel, mas principalmente espaços públicos que perdem qualidade de forma acelerada ao viabilizar o carro em detrimento do pedestre, do ciclista e do transporte público.
Estudo do IPEA demonstrou que o Estado brasileiro investia, na década passada, doze vezes mais em transporte individual do que em transporte público, contados subsídios e investimentos.
Não se pode começar a enfrentar o uso excessivo do automóvel somente no dia em que o transporte público for de excelência.
Os carros são, muitas vezes, o mais confortável e conveniente meio de transporte, mas são sempre os mais ineficientes. Estudos do International Transport Forum, entidade da OCDE, indicam que o automóvel tem cerca de 97% de ineficiência, pois transporta em média 1,2 pessoa por carro e fica parado mais de 92% do tempo.
Parado ou em circulação os automóveis presentes hoje no DF ocupam no mínimo 40 milhões de m², o equivalente a 800 mil moradias populares de 50m².
Como diria o urbanista, ex-prefeito e governador Jaime Lerner, “o carro é o cigarro do século XXI”.
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(*) Thiago de Andrade é secretário de Gestão do Território e Habitação do Governo do Distrito Federal. Artigo publicado originalmente no Correio Braziliense de 7/3/2017.
Criado em 2017-03-07 13:02:01
A Caixa Cultural de Brasília recebe exposição Teoria dos Conjuntos, de Bruno Veiga, com bate-papo com o fotógrafo na Galeria Vitrine. Dia 30/11, sábado, a partir das 19h.
O premiado fotógrafo carioca Bruno Veiga estará em Brasília para um bate-papo com o público que comparecer à Galeria Vitrine da Caixa Cultural, onde está montada a exposição Teoria dos Conjuntos, que tem curadoria de Eder Chiodetto. Nesse dia serão distribuídos catálogos autografados pelo artista.
Teoria dos Conjuntos apresenta 32 fotografias (sendo alguns múltiplos) em diversos formatos e suportes, revelando diferentes aspectos dos conjuntos habitacionais da periferia de Budapeste, capital da Hungria. As imagens foram feitas ao longo de quatro viagens do fotógrafo, no período de 2015 a 2018, e demonstram como os moradores conseguem romper a padronização, expressando sua própria identidade.
No bate-papo, Bruno Veiga promete contar um pouco de como nasceu seu interesse por esses grandes prédios, revelar a relação com os moradores (algumas imagens mostram a intimidade dos apartamentos) e discorrer sobre a reflexão que ele faz a partir de tudo isso.
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Serviço:
Bate-papo com Bruno Veiga e autógrafo de catálogo
Local: Caixa Cultural Brasília (SBS Quadra 4 Lotes 3/4)
Data: 30 de novembro de 2019
Horário: 19h
Informações: (61) 3206-9448 e (61) 3206-9449
Classificação: livre
Entrada Franca.
Criado em 2019-11-28 21:03:27
Em nota oficial, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo expressam seu "mais veemente repúdio à arbitrariedade da PF, pois a condução coercitiva do blogueiro Eduardo Guimarães [do Blog da Cidadania] representa um terrível precedente, que coloca em risco um dos mais importantes princípios do jornalismo – garantir o direito da população à informação".
As entidades representativas dos jornalistas brasileiros afirmamque a "Polícia Federal, em mais uma demonstração de arbitrariedade contra os direitos inspirada na época da ditadura militar no país, viola o sigilo da fonte ao exigir que o blogueiro confirme a autoria do vazamento da informação de que o ex-presidente Lula seria conduzido coercitivamente pela PF", o que forçou o adiamento da ação policial em 2016.
Eis a íntegra da nota:
"O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) protestam contra a condução coercitiva do blogueiro Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania, levado de sua residência na capital paulista, na manhã desta terça-feira (21), para prestar depoimento à Polícia Federal (PF) no âmbito da Operação Lava Jato.
Guimarães teve seu apartamento vasculhado, foram apreendidos seu celular, notebook e um pen drive de uso pessoal e o blogueiro foi conduzido à Superintendência da PF no bairro da Lapa, zona oeste paulistana.
A Polícia Federal, em mais uma demonstração de arbitrariedade e violação de direitos inspirada na época da ditadura militar no país, quer violar o sigilo de fonte por Guimarães ter vazado a informação de que o ex-presidente Lula seria conduzido coercitivamente pela PF, o que forçou o adiamento da ação no ano passado.
Além da arbitrariedade da condução coercitiva, sem que qualquer intimação prévia tenha sido feita ao blogueiro, a PF devassa dados pessoais e desrespeita o sigilo de fonte garantido pela Constituição Federal em seu Artigo 5º, parágrafo XIV, em que define que ´“é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”.
A Polícia Federal ataca, ainda, a liberdade de imprensa e de expressão do blogueiro – a mesma PF que tem vazado informações seletivamente de acordo com os próprios interesses, sem levar em consideração os interesses da sociedade.
O SJSP e a Fenaj expressam seu veemente repúdio à arbitrariedade da Polícia Federal, pois a condução coercitiva do blogueiro também representa um terrível precedente, que coloca em risco um dos mais importantes princípios do jornalismo – garantir o direito da população à informação.
O Sindicato e a Federação também se colocam à disposição de Eduardo Guimarães para lutar contra mais esse ato de lamentável autoritarismo e censura, além de prestar solidariedade e apoio na adoção de todas as medidas legais cabíveis.
São Paulo, 21 de março de 2017.
Direção do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo
Federação Nacional dos Jornalistas – Fenaj".
Criado em 2017-03-21 19:22:30
Geniberto Paiva Campos -
Não. Não vamos falar, especificamente, sobre o governo Temer. E dos seus inacreditáveis desmandos. E tolices.
Trata-se aqui de algo mais amplo. Uma ideologia global. E que exerce profunda influência no grupo que tomou de assalto o poder no Brasil.
Na verdade, um bando de políticos farsescos, “casca grossa” que se apossou do Executivo. E, com uma pressa obscena, tratou de implementar a pauta neoliberal.
Homens de visão curta e distorcida impuseram ao país um ideário fraudulento.
Na contramão da História. Como se fosse possível, no alvorecer do século XXI, promover a marcha em direção ao passado. Destruindo todo o arcabouço social, construído há séculos.
Adotando, cinicamente, o apelido de “Salto para o Futuro” para o seu projeto retrógrado, cujas nefastas consequências já se fazem sentir: fome, desemprego, miséria. E queda exponencial da atividade econômica. E a perda da soberania.
E, de repente, em um passe de mágica, o Brasil, uma das maiores economias do mundo, retorna à condição de Colônia. Como se fosse um país de tolos. A Pátria da estultice.
Nesta hora, precisamos lembrar temas abordados por pensadores ilustres.
Algo de que nos fala Lord Keynes. Stuart Mill. Hanna Arendt. Eric Hobsbawn. George Orwell. Noam Chomsky. E outros sábios pensadores humanistas. Que sempre demonstraram preocupação com o Bicho Homem. E suas armadilhas ideológicas.
E claro, do vasto rebanho de seguidores. Ingênuos e crédulos. Absolutamente cegos. E irremediavelmente crentes.
Manipulados habilmente por “teóricos” farsescos de uma ideologia que não ousa - não pode? - dizer claramente o que pretende.
Não tem a coragem mínima de submeter o seu projeto ao escrutínio e à legitimação do voto. Sequer ao livre debate. Somente podendo agir nas sombras. Atuando nos porões.
Um caubói de filmes B americanos, Ronald Reagan, do Partido Republicano, no início dos anos 80, ao se eleger presidente dos Estados Unidos, decidiu mudar o Mundo. Para pior. Bem pior.
Contando com o seu carisma hollywoodiano e a preciosa adesão da primeira ministra inglesa, do Partido Conservador, Margareth Thatcher, a dama de ferro.
Teve início, assim, a Era Reagan. Com terríveis consequências para o seu país e para todo o Planeta. Implantaram a ”Reaganomics”. O nome de batismo da teoria neoliberal.
O Neoliberalismo, filho dileto da Globalização. Um mundo sem fronteiras. Sem limites. Para permitir a livre circulação do dinheiro. E das ideias que lhe dão suporte.
Aparentemente, a ideia inicial era a salvação da ortodoxia do sistema capitalista. Vítima de crises cíclicas, desde 1929. E que apresentava inquietantes e recorrentes sinais de fadiga e falência.
Colocar o Deus Mercado no centro do mundo. O seu devido lugar. E, claro, sob o controle da Elite.
Estava se consolidando um novo regime econômico. Em substituição ao velho Liberalismo. Sob a égide da teoria do livre mercado: o Sistema Neoliberal.
Negando direitos há séculos adquiridos pelos trabalhadores. Promovendo a concentração de renda. A miséria. O desemprego. Tudo feito de maneira sutil. Fraudulenta. E cínica.
Nem que para tanto fosse necessário, imprescindível até, fazer regredir o Estado de Bem Estar Social. Até a sua extinção. Wellfare State, um sistema que em última instância buscou instituir a Paz, a Prosperidade e a Harmonia entre o Capital e o Trabalho. Uma etapa importante na construção de uma sociedade civilizada. Um passo além da luta de classes.
Construído, em seus primórdios, com o empenho de indivíduos com visão de futuro. Também chamados Estadistas.
Bismarck, na Alemanha do século 19, com a Previdência Social. E Lord Beveridge, no Reino Unido, do Partido Liberal inglês, com o “Wellfare State”. Dois exemplos de líderes com visão estratégica.
Substituídos, enfim, por homens medíocres. Portadores de ideias toscas. Mal-acabadas. E autoritárias. Impondo um ideário incompatível com a Democracia.
A comprovação evidente de que a mediocridade é imbatível. Boçal e soberana.
A Humanidade sempre pagou – e continuará pagando – um custo bastante elevado em sua História, por conta das tolices postas em prática pelos medíocres. Bem-falantes. E pomposos.
A Alemanha paga, até hoje, o altíssimo preço da sua adesão ao Nazismo. Um sistema militarista.
O qual iria promover infindáveis conquistas territoriais. Expandido o “espaço vital” alemão.
A construção do “Reich de Mil Anos”. Proposto por um lunático que lhe prometeu o sonho da supremacia da raça ariana. Sem a mínima viabilidade histórica. O qual durou curto tempo.
Que em sua base ideológica postulava a eliminação dos judeus. O “inimigo” do Sistema. Daí o “Holocausto”. A solução final.
Um lunático perverso, insano, colocou a poderosa nação alemã de joelhos após a 2ª Guerra Mundial.
A tolerância, a omissão, enfim, a cumplicidade de uma Nação, aparentemente civilizada, com tal desvario, fez o mundo pagar em milhões de vidas humanas, perda de propriedades, direitos sociais e desorganização política.
Reconfigurando o mapa geopolítico mundial. Como isto foi possível?
Uma pergunta que só a História poderá responder.
Quando a Elite se acumplicia com a burrice, tudo pode acontecer. Até o impossível.
Receita neoliberal: um mundo para poucos
É quase inacreditável a forma como a teoria neoliberal nasceu e avançou em alguns países.
Uma surpresa. Considerando o grau de retrocesso implícito em seus fundamentos.
Uma tolice ideológica insustentável em sua prática. Mas habilmente sustentada por teóricos espertos. Regiamente pagos para assumir a voz do dono. Dando aparência conceitual respeitável a uma ideologia vã.
Povos e nações devem abdicar dos seus direitos sociais. À previdência. À inclusão. Às políticas ambientais. À soberania.
Em nome de uma teoria econômica que tende a dar errado. Liminarmente condenada ao fracasso.
Resultado que é sempre atribuído pelos seus formuladores e teóricos, despidos da necessária autocrítica e honestidade intelectual, à “insuficiente ou imperfeita aplicação da teoria neoliberal”.
Uma teoria que, em última análise, pretende restaurar o poder da Elite.
Antes de prosseguir, uma pergunta singela:
- Quanto tempo levará para que a ”inteligência” brasileira perceba, afinal, o que está acontecendo com o seu país?
O antropólogo David Harvey, da City University de New York, ex-professor de Harvard e da Johns Hopkins, em seu livro “O Neoliberalismo – História e Implicações”, faz uma análise bastante clara, irrefutável, do sistema neoliberal.
Na realidade uma espécie de autópsia dessa teoria equivocada.
Afirma o professor Harvey que a principal realização do Neoliberalismo é a “acumulação por espoliação”.
Traduzindo, trata-se da privatização e mercadificação de ativos, até então públicos, criando novas áreas de lucro: água, transporte, saúde, habitação, universidades, presídios.
Privatizações e cortes de gastos públicos, que sustentam o salário social. O estado neoliberal torna-se o principal agente de políticas redistributivas.
Direcionadas prioritariamente para a Elite. Sem a menor preocupação com a Justiça Social.
(A negação singela, simplista, dos postulados de Leão XIII, expressos na encíclica “Rerum Novarum”, há mais de um século. Documento que instituiu os fundamentos da Doutrina Social da Igreja).
Protegendo a Elite. Punindo a Classe Trabalhadora.
Outro ponto importante, enfatizado no livro do prof. Harvey, retoma o tema da Mercadificação: tudo pode ser tratado como mercadoria. Criando direitos de propriedade sobre processos, coisas e relações sociais. Tratados como coisas de mercado. Uma nova ética para todas as relações humanas.
Cria-se forte ataque à força de trabalho. Na prática, uma nova forma de semiescravidão.
Impõe-se a falácia dos “direitos individuais” em detrimento dos direitos coletivos, da igualdade e da justiça social.
E, finalmente, o neoliberalismo não mostra preocupação com a degradação ambiental. Somente importa o lucro. Sem o menor cuidado com a natureza e sua preservação.
A tortuosa adesão do Brasil ao neoliberalismo - A chegada triunfal – e surpreendente - do Brasil ao regime neoliberal não foi obra fortuita.
Seria ingenuidade política atribuir a este evento, rigorosamente planejado, ao acaso. Ou aos “erros do PT”.
Sem receio de cometer injustiças ou faltar com verdade factual, podemos afirmar que o assalto ao poder Executivo, consumado definitivamente em agosto de 2016, teve o cérebro e o cofre da operação sediados em Washington. Desde os seus primórdios.
Logo após a posse do petista Luis Inácio Lula da Silva na presidência da República, em janeiro de 2003, teve início o movimento para afastá-lo do poder.
Tal como sucedeu a outros governos trabalhistas: Getúlio Vargas (1954) e João Goulart (1964).
Governos absolutamente inaceitáveis para a truculenta elite brasileira. A “causa”, como sempre, é o moralismo seletivo udenista. Codinome “corrupção”.
Nos primeiros meses do governo Lula começaram as operações desestabilizadoras. Que culminaria com o “Mensalão”, em 2005.
Quando o judiciário brasileiro passou a aceitar acusações sem provas, desde que fosse para condenar integrantes do Partido dos Trabalhadores.
Daí a inclusão da teoria do “Domínio do Fato” e a inserção de condenações baseadas na “Literatura Jurídica”, diante da falta de evidências nos autos. Claro, desde que fossem usadas para condenar petistas.
A presença da embaixadora Liliana Ayalde em 2013, representante do governo de Washington, como chefe da embaixada americana no Brasil, não despertou maiores suspeitas.
No entanto, a embaixadora Ayalde havia, anteriormente, chefiado a representação diplomática americana em Honduras e no Paraguai. Nesta ordem.
Países onde ocorreram golpes de estado “suaves”. A nova forma de intervenção de Washington nos governos avaliados como progressistas – e, portanto, contrário aos seus interesses - na América Latina.
É fácil montar a sequência cronológica do assalto ao poder.
Movimento que recrudesce em 2013; ganha impulso em 2014, com a derrota do senador Aécio Neves; e leva cerca de dois anos para atingir o seu intento.
Afinal, era preciso cumprir o ritual para dar aparência de “legalidade” à intervenção. Brutal, em seu desfecho. Conforme as orientações de Washington.
Essencial colocar “povo nas ruas”: sempre aos domingos, vestindo amarelo.
Uma classe média dócil e obediente. Mas, sempre aos domingos.
Recuando um pouco mais no tempo, há pelo menos 10 anos, intelectuais, jornalistas, escritores, políticos de diversos partidos eram cooptados para a causa neoliberal. Com argumentos irrecusáveis.
E todas as pautas foram transformadas em temas “ideológicos”. O que obrigava os apoiadores a “fechar” sem questionamentos ou relutância, com a causa.
E assim, o Neoliberalismo chegou, triunfante, ao Brasil.
Quem pensava que o impedimento da presidente Dilma Rousseff iria satisfazer a tigrada, enganou-se.
Eles queriam mais. Muito mais. Por exemplo, fazer, com a rapidez de assaltantes, o desmonte integral do país. Com o auxílio luxuoso de colaboracionistas. E do grupo ativo da “quinta coluna”.
É este o capítulo da novela que o Povo brasileiro vive agora.
Em sua maioria, alheios. Impassíveis. Com aquele ar de despreocupada indiferença: - “não tô nem aí...”
Cenários possíveis para 2017-18? Quem se atreveria? Apenas aguardamos o esperado retrocesso civilizatório.
Criado em 2017-02-28 23:59:44
O espetáculo Atrás das paredes celebra 10 anos da Cia Plágio de Teatro e apresenta novo texto do argentino Santiago Serrano. No Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, de hoje até o dia 8 de dezembro. Serão 14 sessões, quinta-feira às 20h e de sexta a domingo sessões duplas, às 18h e às 20h.
“O homem é o lobo do homem” escreveu o filósofo inglês Thomas Hobbes em 1651, tornando mundialmente famosa a análise de que o ser humano é um animal que ameaça sua própria espécie. A frase poderia funcionar como subtítulo de Atrás das paredes, que leva para a cena situações que caracterizam o cotidiano no mundo atual.
Escrita pelo dramaturgo argentino Santiago Serrano, a peça é inédita e sua encenação se dá no contexto de comemoração pelos 10 anos de trabalho da Plágio Companhia de Teatro. Ao longo de uma década, o grupo produziu 14 montagens, algumas apresentadas em mais de 50 cidades brasileiras, e conquistou 18 prêmios.
A trama exposta em Atrás das paredes não poderia ser mais corriqueira. Num domingo, uma família se prepara para o almoço. Flora, esposa de Simão, resolve fazer uma surpresa e convida uma família vizinha para celebrar um aniversário. Aos poucos, o que estava submerso pelas aparências vai sendo revelado.
Sob a direção de Sérgio Sartório (que também integra o elenco), estão em cena atores da Cia Plágio como André Deca, Chico Sant’Anna e Daniela Vasconcelos, tendo como convidadas as atrizes Bianca Terraza e Carmem Moretzsohn. O espetáculo tem o patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC).
O espetáculo
Atrás das paredes é uma comédia dramática que provoca reflexões sobre a espécie humana. Até que ponto o homem age por instinto? Manifestada historicamente em contextos de invisibilidade, a violência hoje parece estar normalizada no cotidiano. Diariamente, assistimos à revelação de pequenos e também de grandes atos de violência (não necessariamente físicos) cometidos no segredo das quatro paredes. E se houvesse a possibilidade de visitar, de forma invisível, a intimidade de duas famílias e constatar toda sua enorme complexidade? Eis o convite que faz o dramaturgo Santiago Serrano.
O texto tem a marca do teatro realista de Santiago Serrano. Talvez por sua atuação também como psicanalista, o dramaturgo argentino tem a capacidade de criar personagens multidimensionais, que oferecem diferentes camadas de leitura. Nada é o que aparenta ser num primeiro momento. Não há bandidos nem há mocinhos. São seres humanos em toda sua riqueza e sua tragédia.

Santiago Serrano
Com 35 cinco anos de carreira, o dramaturgo argentino tem peças montadas em vários países como Brasil, Espanha e França. Premiado em concursos de dramaturgia, tem carinho especial pelo Brasil onde já teve seis peças encenadas, como Dinossauros (Grupo Cena, Brasília), Eldorado (Eduardo Okamoto, São Paulo), A Revolta (Kaus Cia Experimental de São Paulo) e bem recentemente Furacão Carmen (que estreou durante o Festival Cena Contemporânea de 2019). Tornou-se parceiro da Cia. Plágio com a encenação de Noctiluzes, escrita especialmente para o grupo. Dele, a companhia montou também Autópsia de um beija-flor e Saiba o seu lugar.
Os artistas
André Deca – Ator e produtor. Com 27 anos de carreira, ganhador do Kikito em Gramado e do Candango em Brasília, transita entre o teatro, o cinema e a televisão, indo do drama à comédia. Ao lado de Sérgio Sartório, protagonizou o espetáculo A última vida de um gato, que passou pro quatro capitais brasileiras, e Autópsia de um beija-flor. Integra a Cia. Plágio desde 2009.
Bianca Terraza – Atriz. Atualmente cursando graduação em Artes Cênicas na Universidade de Brasília, já atuou em cinema e teatro, além de campanhas publicitárias. Protagonizou os filmes Procura-se, de Iberê Carvalho, e O Mistério da Carne, de Rafaela Camelo, que teve sua estreia internacional no Sundance Film Festival 2019 e com o qual ganhou o prêmio de “Melhor Personagem” no Festival de Roteiro de Porto Alegre - Frapa 2019 e foi indicada como “Melhor Atriz” no Victory International Film Festival.
Carmem Moretzsohn – Atriz . Jornalista e atriz profissional, trabalha desde 1980, atuando em teatro com os mais importantes diretores de Brasília, em cinema e na televisão, em programas jornalísticos e de entretenimento. Recebeu o prêmio de melhor atriz de Brasília no ano de 1987, pelo trabalho em Quatro Mulheres, escrito e dirigido por Marcelo Saback. Com o espetáculo Dinossauros, de 2005, dirigido por Guilherme Reis, fez temporadas de sucesso em Brasília e no Rio de Janeiro. Também esteve em cena com Os Demônios, dirigido por Antônio Abujamra e Hugo Rodas. Com o espetáculo Cabaré das Donzelas Inocentes, de Sérgio Maggio, direção de Murilo Grossi e William Ferreira, conquistou o Prêmio SESC do Teatro Candango de Melhor Atriz. Ao longo de sua carreira, integrou companhias como o Grupo Vidas Erradas, responsável por espetáculos que marcaram a história de Brasília, como Vidas Erradas ou pode vir que não morde, e Companhia dos Sonhos, dirigida por Hugo Rodas. Atualmente, integra o Grupo Cena, com o qual encenou Varsóvia, de Patrícia Suárez, Bagatelas, de Susan Glaspell, e Inventários, de Philippe Minyana.
Chico Sant’Anna – Ator. Premiado ator, com atuação em teatro, cinema e televisão, iniciou a carreira sob as bênçãos de Bibi Ferreira, no antológico espetáculo “Gota D’Água”, de 1980, dirigido por Gianni Ratto e protagonizado pela grande dama do teatro brasileiro. De lá para cá, foram dezenas de peças teatrais, longas-metragens, filmes de publicidade, que lhe renderam vários prêmios. Em teatro, atuou sob a batuta de encenadores como Hugo Rodas (em Arlequim, servidor de dois patrões, por exemplo, criou um antológico Pantaleão), B. de Paiva, Adriano e Fernando Guimarães, Alexandre Ribondi, Guilherme Reis e Dimer Monteiro, dentre outros. Em 2011, sua performance no espetáculo Cru, de Alexandre Ribondi, lhe rendeu o Prêmio de Melhor Ator no Festival de Teatro do Rio de Janeiro – UVA. Em cinema, trabalhou com diretores como Suzana Amaral, José Eduardo Belmonte, João Batista de Andrade, Iberê Carvalho, Geraldo Moraes, Santiago Dellape, dentre outros. Por seu trabalho no filme Simples Mortais, 2008, de Mauro Giuntini, recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cinema de Pernambuco; e pela atuação no longa Cru, de Jimi Figueiredo, conquistou os prêmios de melhor ator no Festival de Cinema Guarnicê – São Luís/MA e no Festival de Cinema de Maringá. Chico Sant’Anna fez ainda participações em novelas (como O Rei do Gado, Cabocla, Da Cor do Pecado), seriados (Malhação, A Diarista, Carga Pesada), minisséries (JK, Felizes para Sempre, Mad Maria) e recentemente participou do episódio Fuga de Natal, exibido pela TV Globo em dezembro de 2018.
Daniela Vasconcelos – Atriz, produtora cultural e preparadora de elenco. Bacharel em Artes Cênicas pela Faculdade de Dulcina de Moraes, trabalha como atriz desde 1992. Formada em Assistência de direção para cinema e TV, pela AICTV Rio de Janeiro, morou na França em 2001, onde participou dos espetáculos teatrais Divulgação do filme brasileiro Couleurs Brèsil, de Carlos Marques, e Les Créatures s`évadent, dirigida pelo francês Nicola. Atuou em diversos espetáculos de diretores renomados de Brasília como Adriano e Fernando Guimarães, Eliana Carneiro, Adriana Lodi, Marcelo Alves, Débora Aquino, Sérgio Sartório e Alexandre Ribondi. Integrou o elenco do espetáculo Flor de Beco, dirigido por Marcelo Alves e Débora Aquino, ganhador de 12 prêmios em festivais nacionais – pela atuação na peça, foi indicada ao Prêmio Sesc de Teatro Candango em 2006. Fez participações em curtas-metragens e em longas como O Espaço Infinito, de Léo Belo, Noctiluzes, de Jimi Figueiredo e Sérgio Sartório, O Fim e os Meios, de Murilo Salles, dentre outros. Fez algumas publicidades e vídeos institucionais.
Sérgio Sartório – Diretor/ator. Com 21 anos de carreira, Sérgio já dirigiu e protagonizou dezenas de espetáculos no Distrito Federal, além de ter atuado em filmes premiados como Cru, de Jimi Figueiredo (filme baseado em peça homônima de Alexandre Ribondi), O Outro lado do paraíso, de André Ristum, Comeback, de Erico Rassi, Somos Tão Jovens, de Antônio Carlos Fontoura, e New Life S.A., de André Carvalheira.
Cia. Plágio
Em 2017, o grupo completou dez anos desde sua primeira montagem. Ao longo desta década foram montadas 14 peças, algumas apresentadas em mais de 50 cidades do Brasil e também em Milão, na Itália. Desde então, a companhia conquistou 18 prêmios, nas diversas categorias. As apresentações do espetáculo Cru, de Alexandre Ribondi, em 2013, e de Noctiluzes, em 2015, foram indicadas como uma das 10 melhores peças em cartaz em São Paulo e receberam quatro estrelas pela Revista Veja recomenda.
Ficha técnica:
Texto: Santiago Serrano
Direção: Sérgio Sartório
Assistente de Direção: Tomás Seferin
Elenco: André Deca, Bianca Terraza, Carmem Moretzsohn, Chico Sant’Anna, Daniela Vasconcelos e Sérgio Sartório
Iluminação: Vinícius Ferreira e Sérgio Sartório
Trilha sonora: Tomás Seferin
Cenografia e figurino: Chico Sassi
Fotos: Alexandre Magno
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Serviço:
Local: Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil Brasília
Data: de 28 de novembro a 08 de dezembro
Horário: quinta-feira, às 20h; de sexta a domingo, sessões duplas, às 18h e às 20h
Ingressos: R$ 30 e R$ 15,00 (meia) – as sessões das 18h terão entrada franca, válida para clientes Ourocard, estudantes, professores da rede pública e maiores de 60 anos.
Duração: 60min
Classificação indicativa: 16 anos.
Criado em 2019-11-28 20:51:59
Romário Schettino -
Assuntos desta coluna Brasília e Coisa & Tal: O sucesso de Lula na Paraíba, o papel podre da Polícia Federal, burrice ou crime de lesa-pátria?. E mais: Reforma da Previdência pode não passar e mobilidade espera por Joe Valle. Nota de falecimento e a sabedoria do Papa Francisco. Leiam.
O sucesso de Lula na Paraíba
A transposição do Rio São Francisco, que irá beneficiar milhares de pessoas na região do semiárido nordestino, foi reinaugurada pelos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff na cidade de Monteiro, Paraíba. A festa popular reuniu mais de 30 mil pessoas e contou com a presença do animado governador paraibano Ricardo Coutinho (PSB).
Um acontecimento que o presidente Michel Temer tentou desvirtuar. Semanas antes, Temer foi sozinho ao local para dizer que "não reivindicava a paternidade da obra", como se isso fosse possível.
Todo mundo sabe que foi Lula que enfrentou toda sorte de oposição e tirou do papel uma ideia, um projeto centenário, que ninguém ousou implementar. Ricardo Coutinho foi enfático ao defender a legitimidade de Lula e Dilma na consolidação de uma das mais importantes obras públicas dos últimos tempos.
O papel podre da Polícia Federal
A espetacular e irresponsável divulgação da Operação Carne Fraca, realizada pela Polícia Federal, deixou o Brasil atônito, o governo de calça curta e a imprensa comendo mosca.
É inacreditável que uma informação banal, como a que os policiais deram aos jornalistas despreparados, pôde virar manchete: ácido ascórbico "encontrado" em algumas carnes é altamente cancerígeno.
Qualquer estudante do ensino médio, que tenha lido o mínimo sobre a história da descoberta do Brasil, já ouviu dizer que os marinheiros portugueses chegavam às costas brasileiras com uma doença chamada escorbuto, causada pela ausência de vitamina C, ou seja, falta do ácido ascórbico encontrado em várias frutas. Era só dar uma olhada no Google.
Nossa grande imprensa dorme de touca e ajuda a causar o maior estrago nas exportações da carne brasileira. Europa, China, Chile e Coreia do Sul já suspenderam as importações e estão indo à Organização Mundial do Comércio (OMC) para reclamar.
Burrice ou crime de lesa-pátria?
A irresponsabilidade da PF não tem limites. Um caso como esse nunca poderia ter ido à imprensa sem o ministro da Saúde, o ministro da Agricultura e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A repercussão foi gigantesca e pode provocar desemprego em massa na área produtiva.
Há quem diga que essa operação faz parte de um esquema de influência dos EUA na polícia brasileira. É claro que há fiscais corruptos envolvidos, que há empresas porcas vendendo porcarias ao consumidor, mas nada justifica o pânico.
Também parece que o fisiologismo político impera na fiscalização e a corrupção continua solta, mas isso não pode contaminar os interesses nacionais.
O que vem depois?
O governo Michel Temer, depois de destruir a indústria do petróleo entregando o pré-sal, enterrar a indústria naval, agora desestabiliza a exportação de carne.
Para fingir que está preocupado, Temer leva embaixadores de países importadores de carne para comer numa churrascaria que serve carne importada. Estupidez deveria ter limite. E agora, o que mais esse governo vai fazer?
Atacar o agronegócio para derrubar os preços internacionais e abrir as portas para as multinacionais globalizadas? Não é só isso, tem a MP 759 em curso no Congresso, para permitir a venda de terras a estrangeiros, desregulamentando o Estatuto das Cidades e atacando a legislação que prevê a regularização fundiária.
O atraso promovido pelo governo pós-impeachment faz o Brasil retornar a 1930. Isso é inacreditável.
Reforma da Previdência
O que o governo Temer chama de reforma da Previdência não passa de uma destruição do pouco que se avançou em termos de proteção social aos cidadãos nas últimas décadas.
A mentirosa afirmação de que há um déficit enorme da Previdência não se sustenta a um mero cálculo de matemática. A população está mobilizada para barrar essa reforma, milhares já foram às ruas e os parlamentares estão preocupados com os votos que terão de buscar em 2018.
Muito provavelmente, a reforma não passará. Se passar, será desfigurada, para o desespero do ministro da Fazenda Henrique Meirelles.
Nota de falecimento
Circula na rede social a seguinte nota de falecimento: "É com muito pesar que comunico o falecimento, hoje (22/3), aos 74 anos, da senhora Consolidação das Leis Trabalhistas, conhecida como CLT, vítima de homicídio doloso. Deixa órfãos milhões de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros".
Mobilidade espera por Joe Valle
A promessa do presidente da Câmara Legislativa, Joe Valle, de instalar a Comissão Especial para a Mobilidade ainda não foi cumprida.
A Associação Andar a Pé – O Movimento da Gente espera que os deputados se debrucem sobre o tema mais rápido possível, pois a imobilidade urbana do pedestre só está piorando.
Tarifas do transporte público coletivo de qualidade, preços compatíveis com a realidade, obras adequadas para os ciclistas e caminhantes, tudo isso fará parte da pauta dessa Comissão.
Papa Francisco elogiado na internet
Tudo porque ele escreveu: "Os rios não bebem sua própria água; as árvores não comem seus próprios frutos. O sol não brilha para si mesmo; e as flores não espalham sua fragrância para si. Viver para os outros é uma regra da natureza. (...) A vida é boa quando você está feliz; mas a vida é muito melhor quando os outros estão felizes por sua causa". O papa é humanista e sábio.
Criado em 2017-03-21 04:23:01
Leonardo Hernandes (*) -
Em janeiro de 2013, o então governador Agnelo Queiroz assinou o Termo de Adesão ao Sistema Nacional de Cultura no qual estavam previstas, entre outras tarefas, a criação do Sistema de Cultura do DF.
De lá para cá, foram realizados inúmeros debates com a comunidade cultural, consultas públicas e uma Conferência Distrital de Cultura para tratar da criação do nosso Sistema e do Plano de Cultura.
Somente agora toda essa jornada se materializa em Projeto de Lei elaborado pela atual gestão do Governador Rodrigo Rollemberg, que encaminhou, no final de 2016, à Câmara Legislativa, o projeto para a criação da Lei Orgânica da Cultura – LOC, que institui o Sistema de Arte e Cultura do DF - SAC/DF.
O projeto já foi aprovado na Comissão de Educação, Saúde e Cultura com emendas e segue sua tramitação agora com a volta das atividades da Câmara Legislativa.
O complexo e ambicioso Projeto de Lei revoga quase toda a legislação distrital que trata das políticas culturais e se torna, praticamente, o único marco legal a tratar sobre o tema.
Assim, cerca de 300 artigos são extintos e muita coisa muda. O texto tem importantes avanços, como a desburocratização do Fundo de Apoio à Cultura – FAC/DF.
O modelo de gestão sistêmica para as políticas públicas organiza as instituições e as regras que operacionalizam uma determinada política e viabiliza, de forma contínua, a distribuição de competências e recursos, excluindo a necessidade de assinatura de convênios.
A proposta de ter para a cultura um modelo de gestão sistêmica, a exemplo do Sistema Único de Saúde – SUS, vem sendo implementada no Brasil desde 2003 pelo MinC e utiliza um Plano para definir metas e diretrizes a serem alcançadas em 10 anos.
Podemos resumir da seguinte forma: o Sistema é corpo da política, o Plano é a alma e os recursos o sangue. Somente com essas três partes funcionando em harmonia o modelo terá êxito.
Uma gestão sistêmica é fundada em três bases: desconcentração, descentralização e participação social.
A desconcentração ocorre com a organização dos componentes do Sistema e a distribuição de responsabilidades e competências dentro do mesmo órgão governamental.
No caso, a Secretaria de Cultura, Conselhos, Subsistemas e fundações. Já a descentralização é a distribuição de atribuições e recursos para outros órgãos e entes da federação, sendo esse o maior desafio desse tipo de iniciativa, principalmente no DF, onde temos Administrações Regionais e não cidades com autonomia financeira e administrativa.
FALHAS - O projeto em tramitação é falho nesses dois aspectos. Primeiro que, ao extinguir a lei do FAC e do Conselho, concentrou-se excessivamente as decisões na função do Secretário de Cultura esvaziando o poder do atual Conselho de Cultura do DF - CCDF.
O projeto não cria mecanismos efetivos para a descentralização das políticas e recursos entre as regiões do DF, atendo-se, apenas, a incluir essa atribuição da descentralização entre os princípios e objetivos.
Sem esses mecanismos não haverá Sistema. A determinação hoje existente, na atual Lei do FAC, de limite de contemplação de apenas um projeto por proponente desaparece, podendo, portanto, empresas com fins lucrativos acumularem projetos e recursos a fundo perdido.
O complexo e volumoso número de Conselhos e Colegiados da participação social previstos é pouco efetivo, tendo um aspecto meramente consultivo e acessório.
A Lei nº 111 de 1990, por exemplo, confere ao CCDF diversos e relevantes poderes, inclusive o de convocar o Secretário e aprovar o Plano de Ação da Secretaria.
Essas atribuições, dentre outras, serão extintas com a nova Lei. Essa alteração é fortemente contrária aos resultados da IV Conferência de Cultura que discutiu o projeto de Sistema de Cultura para o DF.
O Plano de Cultura Decenal não está atrelado efetivamente à gestão do Sistema. Não há nenhum dispositivo que obriga a vinculação orçamentária da Secretaria de Cultura e a execução dos recursos do Sistema de Financiamento para alcançar as metas previstas no Plano.
Assim, o Plano poderá ser apenas uma peça de intenções sem que o gestor de plantão seja obrigado a aplicar recursos para o devido alcance de suas metas.
Outra iniciativa de resultado duvidoso é a criação de duas fundações públicas de direito privado.
Uma para tratar do patrimônio histórico e artístico e outra para cuidar das artes no DF. Afora o debate da opção do governador Rollemberg de transferir para a administração privada as políticas públicas, causa estranheza a proposta de uma fundação que não resolverá o problema da preservação do patrimônio.
Uma fundação não terá o poder para emitir laudos e licenciamentos ou embargar obras. Poderá facilitar a administração, promoção e até a conservação mas não cumprirá o papel que caberia a um Instituto. Essa sim, uma necessidade urgente para a nossa Capital Patrimônio da Humanidade.
A segunda fundação tem um papel confuso. Apresentada como uma estrutura para executar as políticas para as artes tem como suas principais atribuições o fomento e a economia criativa.
O fomento é responsabilidade do Sistema de Financiamento (FAC e Lei de Incentivo) que ficam ainda mais concentrados na Secretaria e sem vínculo previsto com a nova fundação.
A economia criativa é um conceito amplo que envolve setores da inovação, tecnologia, moda, gastronomia, etc. Seria melhor tratar da Economia da Cultura, conceito mais restrito e próximo das artes.
Isso sem falar que parece pouco crível que tenhamos espaço fiscal para implementar essas duas novas estruturas diante do quadro calamitoso do orçamento do DF.
Portanto, embora a apresentação da Lei Orgânica da Cultura (LOC) seja um episódio para se comemorar e contenha avanços normativos, o presente projeto está ainda distante de resolver o desafio de estruturar uma política pública de cultura que seja capaz de fazer chegar à população de todas as cidades o acesso à fruição cultural e a vivência artística.
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(*) Leonardo Hernandes é ator, produtor e Gestor de Políticas Públicas pela UnB. Foi Subsecretário de Fomento da Secretaria de Cultura do DF entre 2011 e 2014 e Diretor de Mecanismos de Fomento do MinC até junho de 2016.
Criado em 2017-02-14 23:51:13
Antônio Carlos Queiroz (*) –
No próximo dia 4 de dezembro, a partir das 19h, a Livraria Sebinho (406 Norte,Brasília) lançará o novo livro do poeta Pedro Tierra, Pesadelo – Narrativas dos Anos de Chumbo, ilustrado por Elifas Andreato, editado pela Fundação Perseu Abramo e a editora Autonomia Literária, de São Paulo.
Por uma dessas coincidências infernais, descubro que nessa data, 4 de dezembro, no ano de 1905, nasceu o general Emílio Garrastazu Médici, tido por alguns historiadores como o mais feroz dos generais-presidentes. E o Geisel?
Pesadelo é obra do poeta Pedro Tierra e não do militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), Hamilton Pereira da Silva, a sua identidade civil. Faz diferença? Faz! O Hamilton poderia narrar as barbaridades que sofreu nos cinco anos em que esteve preso, entre 1972 e 1977. Quarenta anos depois, com as feridas ainda abertas, e com a memória já esmaecida nos detalhes, preferiu entregar a tarefa à instância de sua pessoa que domina os materiais da ficção, Pedro Tierra. “As zonas de sombra predominam sobre as que foram esclarecidas pelas abnegadas pesquisas e buscas de familiares, militantes, jornalistas, historiadores. Então, o escritor é chamado a dizer por meio da ficção a verdade que o relatório, o boletim, o depoimento não capturam”.
Ele insiste que se trata de ficção, mas talvez a palavra mais exata seja outra. Sublimação? As lutas da resistência, a repressão, a prisão e a tortura constituem a matéria-prima, agora sublimada em forma de obra de arte. “Desse modo, o escritor se liberta da solidão do ato de escrever, como testemunha, para integrar-se nessa incessante busca das sociedades e das culturas: decifrar, e não raras vezes denunciar, o sentido ou o sem sentido das tiranias que atormentam a história humana”.
Seu modelo são as “Memórias do Cárcere”, de Graciliano Ramos, “escritas a canivete”. A sua motivação, se é verdade que os poetas são mesmo “as antenas da raça”, lhe chegou há três anos na forma de uma insistente, irrefreável premonição: a sensação de que já tinha visto o filme que se desenrolava ao vivo para quem quisesse ver, e que contava a gestação no País de uma repetição de nossa história, um novo golpe, semelhante ao golpe de 64, mas dessa vez vestido da toga dos juízes e do terno dos cretinos parlamentares.
Pedro Tierra diz que vive “em tempos de tirania”. E que escreve “para quem está predisposto a indignar-se e lutar contra ela”. “Pesadelo” é, portanto, uma ferramenta da resistência contra a atual regressão histórica.
As histórias que Pedro conta são terríveis, embrulham o estômago. Algumas reanimam a esperança. Fazem a gente pensar: como é que esses meninos suportaram? Como é que o Hamilton suportou? A resposta talvez esteja numa frase que Hannah Arendt atribuiu à escritora dinamarquesa Karen Blixen (Isak Dinesen): “Todos os sofrimentos podem ser suportados se você os encaixar numa história, ou contar uma história sobre eles”.
“Sobrevivi à partida de xadrez contra a morte. Sobrevivi, talvez, para contar todas essas coisas presas nas armadilhas da memória”, diz o narrador na história do filho do alfaiate, médico, que se tornou um “cachorro” da repressão, um dedo-duro da polícia.
A primeira narrativa do livro, “Sinfonia nº 2”, ilustra o que Walter Benjamin dizia sobre a estetização da política por parte dos fascistas. Um jovem capitão, admirador de Kemal Atatürk, fundador da Turquia moderna (“Sobre os ossos dos armênios”, glosa o narrador), conduz as sessões de tortura ouvindo a Sinfonia nº 2 em Ré Maior, de Jean Sibelius.
“Sob o capuz, não se percebe de onde virá o próximo golpe. O corpo é todo tensão. Como o arco de um violino. “Tua carne será apenas tua dor”, repito comigo o que um dia se converterá em verso. O silêncio se recompõe. Súbito. Como se respondesse a um comando invisível. A volta da Sinfonia no 2, em Ré Maior, de Sibelius, vim a saber anos mais tarde, repetida a toda altura, como se atada às mãos de um maestro enlouquecido que não manejasse a batuta do regente, mas alucinadamente a manivela do dínamo. Horas sobre horas, noites sobre noites: até imprimir os acordes na medula da alma”.
Os versos que servem de epígrafe para a segunda história, a do filho alcaguete do alfaiate - e em que comparece en passant o Major Tibiriçá (coronel Carlos Brilhante Ustra, herói do presidente Jair Bolsonaro) - resumem volumes: “Viste a morte e a morte era apenas / um homem sem sonhos”.
O capítulo seguinte, “O Leitor do Livro do Apocalipse”, homenageia José Porfírio, o líder do levante camponês de Trombas e Formoso, em Goiás, nos anos 50 do século passado. O narrador relembra que a história lhe foi confiada pelo personagem antes de ser libertado e ser dissolvido na “sombra e no pó”. “Naqueles anos algumas usinas foram utilizadas, nesta atormentada geografia, para converter homens e mulheres em cinzas. Coivaras de esquecimento. Usinas de esquecimento. Para depois lançá-los à terra na estação das chuvas. E ninguém mais pudesse ferir a superfície do silêncio a que se habituaram os ouvidos de todos. E nos tornarmos incapazes, por décadas, de proferir seus nomes, no idioma herdado, e prolongar na geração seguinte o sopro de suas vidas e de sua indignação”. A operação de silenciamento, como se viu, só teve êxito em parte.
O leitor do livro do Apocalipse talvez fosse, ele próprio, um profeta, como o seu autor, o João, um prisioneiro de consciência na ilha de Patmos, sob o reinado do imperador Domiciano: “Quando eu sair daqui ninguém nunca mais saberá de mim. Conheço lugares que nem Jesus Cristo com os doze apóstolos pisou. Vou virar uma sombra. Uma sombra não se prende. Não se mete em cadeias. As sombras deslizam sobre paredes. Muros. São mais livres que os homens. As sombras não sangram: manchas de silêncio. Escapam do gume dos ferros. São defendidas da palavra. São defendidas da dor”.
Depois de ser libertado do DOI-CODI em Brasília, no dia 7 de junho de 1973, José Porfírio foi visto pela última vez por sua advogada quando apanhava um ônibus em direção a Goiânia.
Os dois capítulos seguintes, “Coragem” e “Verdade: Verdades…”, retratam o destemor dos revolucionários diante dos algozes. Em “Coragem”, dedicado ao goiano Alaor Figueiredo, “organizador de coragens”, e onde se conta a saga dos guerrilheiros e posseiros do baixo Araguaia, um velho comunista do Partidão é desprezado pelos jovens prisioneiros por reformista e conciliador. Mas é ele quem enfrenta um general que visita o pavilhão para recrutar os presos arrependidos, dispostos a falar bem do regime na televisão em troca da liberdade. “General, a cela é o espaço do preso. O último espaço. O senhor, portanto, não devia ter entrado aqui. O senhor vir até aqui oferecer a esses meninos que se arrependam em troca de qualquer coisa eu compreendo, embora não aceite. O senhor fazer essa proposta para mim, um comunista moído de pancada por seus mãos de ferro, é um insulto! O senhor se retire da cela. Aqui ninguém se arrepende!” Desde então, o velho comunista passou a ser tratado com respeito e afeto.
Em “Verdade: Verdades…”, Geraldo Marques, um negro, alto, esguio, estampa de sertanejo, desempenado e altivo, provoca um recruta catarinense de olhos azuis, perguntando pela saúde de sua mãe. O soldado tenta em vão mobilizar o oficial do dia para punir o atrevido, e se torna seu inimigo. Por que a provocação? “Nesse lugar, se você não inventa uma luta logo quando amanhece, os dentes dos dias vão comendo a carne de sua alma aos poucos. Quando você sair daqui restarão apenas os ossos. Roídos. Sem nenhuma valia. Se quiser sobreviver tem que arrumar uma encrenca todo dia. É o jeito de dizer a eles: aqui do lado de dentro tem homens e seguimos vivos”.
Outra dimensão da natureza humana, a dos compromissos éticos, é apresentada como ponta de faca no penúltimo capítulo. Um combatente do Vale do Ribeira, São Paulo, é corroído pelo arrependimento de ter executado um tenente que deixou de cumprir um combinado com o seu grupo. Com a pena de morte comutada para prisão perpétua e para 30 anos, e libertado nove anos depois, quando a ditadura agonizava, o rapaz pondera: “(Não se executam prisioneiros. É a regra da guerra. O que significa executar um prisioneiro em nome da refundação da sociedade, em nome de uma utopia de justiça e liberdade? Em nome de qualquer utopia? Que utopias autorizam execuções? Que sociedade pode nascer de um parto que despedaça a cabeça dos inimigos? O que ocorreu ali? Uma execução. Um crime de guerra. Sou um revolucionário ou um criminoso de guerra? Atravessei a linha entre a luta revolucionária e o banditismo? O que somos? Cangaceiros de Lampião, trinta anos depois? Qual é o código que nos guia? Como se constituiu o tribunal revolucionário? Quem outorgou autoridade sobre a vida e a morte dos capturados? Houve afinal um julgamento? Existe direito real de defesa nos tribunais de guerra?)”
Por fecho, a história de dois militantes do Molipo (Movimento de Libertação Popular), Neusa e Raimundo - Maria Augusta Thomaz e Márcio Beck Machado, nomes não explicitados no livro. O casal foi executado e enterrado numa fazenda de Goiás, no dia 17 de maio de 1973. Seus ossos foram depois exumados. Seus crânios, separados dos esqueletos e enviados para São Paulo. Foram condenados à prisão depois de mortos.
A pensata final não é de esperança, mas de alerta para quem está disposto a continuar a luta pela democracia, a despeito dos riscos. Por que será que no pesadelo circular de cinco séculos de nossa história, as classes dominantes sempre cortaram as cabeças dos insubmissos? Zumbi, Tiradentes, Conselheiro, Lampião, Maria Augusta e Márcio Beck… Acham que podem impedir a sua ressurreição?
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Serviço:
Título da obra: Pesadelo – Narrativas dos Anos de Chumbo
Autor: Pedro Tierra (2019)
Editoras: Autonomia Literária e Fundação Perseu Abramo
Lançamento e noite de autógrafos: 4/12, a partir das 19h na Livraria Sebinho (406 Norte)
Preço: R$ 35.
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(*) Antônio Carlos Queiroz é jornalista.
Criado em 2019-11-27 19:40:41
Em nota oficial, o Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) repudiaram a demissão do jornalista Caio Barbosa e cobraram explicações do jornal O Dia.
Segundo a nota, o desligamento ocorreu depois que o dono do jornal recebeu telefonema do prefeito Marcello Crivella (o prefeito nega) reclamando de reportagem assinada pelo jornalista Caio sobre o mau atendimento e falta de informações em alguns postos de saúde do município do Rio de Janeiro.
A matéria foi retirada do ar e colocado em seu lugar outra versão ditada pela assessoria de imprensa da prefeitura.
Eis a íntegra da nota:
“O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro (SJMRJ) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) repudiam veementemente e cobram explicações ao jornal O Dia pela demissão do repórter Caio Barbosa.
A denúncia, que suscitou protestos generalizados nas mídias sociais, chegou ao Sindicato por meio de colegas preocupados em prestar solidariedade aos jornalistas que sofrem perseguição ou agressão em consequência de sua atividade profissional, conforme determina o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros.
O desligamento teria ocorrido depois que o jornal (versão online) publicou, na última quinta-feira (16/3), reportagem sobre o mau atendimento e a falta de informações em alguns postos de saúde do município do Rio de Janeiro em função da vacinação contra a febre amarela.
De acordo com informações que chegaram ao Sindicato, a matéria desagradou ao prefeito Marcello Crivella, que acionou seus assessores e estes pediram que a reportagem fosse tirada do ar, além de exigirem a publicação de um desmentido.
No dia seguinte, para surpresa geral, Caio foi demitido após um suposto telefonema do prefeito ao dono do jornal O Dia (o prefeito nega). A matéria original foi retirada do ar e uma nova versão foi publicada.
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro e a Federação Nacional dos Jornalistas são contra a censura, a intimidação e o assédio moral – venham de onde vierem – e não irão tolerar esse tipo de postura em relação aos profissionais de imprensa.
O Sindicato irá apurar o caso e, se confirmado, junto com a Fenaj, cobrará do jornal uma posição oficial a respeito desse ataque à democracia e à liberdade de imprensa e a publicação da matéria original que foi retirada do site.”
Criado em 2017-03-21 03:53:52
Geniberto Paiva Campos (*) -
Os médicos primitivos eram os feiticeiros da tribo. Isso criou uma aura de magia da profissão médica, em seus primórdios.
Mas a evolução do conhecimento científico e a crescente e inevitável incorporação de tecnologias para diagnosticar, prevenir e tratar enfermidades recolocou a medicina num patamar mais acessível ao entendimento humano.
Alguns chegaram a afirmar que a tecnologia iria desumanizar a profissão médica. Parece que não é bem assim.
Ao contrário, até. O acesso dos pacientes às tecnologias de informação/comunicação criou a figura do “dr. Google”, de livre acesso aos pacientes, a qual obriga os médicos a uma atualização científica permanente – a educação continuada – e à troca de informações com as pessoas sob os seus cuidados e com os seus familiares.
E criou uma espécie de compartilhamento – ou cumplicidade – entre médicos e pacientes e suas famílias. Os quais passaram a fazer parte do processo de tomada de decisões diagnósticas e terapêuticas.
Em resumo, esta tem sido a característica do que se poderia chamar de medicina moderna. E novos e inacreditáveis avanços já estão sendo incorporados. A uma incrível velocidade.
No entanto, existem valores e padrões que podem ser assumidos como imutáveis - e permanentes - na prática médica.
Considerando o imenso poder que os médicos têm sobre os pacientes, existe um Código de Ética que todos os profissionais devem obedecer. E um juramento simbólico, conhecido como Juramento de Hipócrates, proferido na solenidade de formatura, onde os profissionais, em linhas gerais, prometem exercer a profissão com competência e dignidade. E humildade.
E todos são controlados por órgãos locais e de âmbito nacional, os CRMs e o CFM, autarquias públicas que têm a função de “proteger os pacientes contra eventuais desvios dos profissionais”.
(Pouca gente imagina os conselhos regionais e o federal de medicina com estas funções).
Mas há também um controle interior, talvez um impulso interno, que faz as pessoas escolherem a profissão de médico: o desejo de ajudar os indivíduos que perdem a sua saúde a recuperá-la.
De proteger a sua saúde, através da medicina preventiva. De chegar até a terapia paliativa, quando os recursos curativos se esgotam e tornam-se inúteis.
Como dizem alguns indivíduos sábios, o que orienta aqueles que escolhem a Medicina como profissão é gostar de gente. Ter por elas solidariedade. E compaixão.
Portanto, ao vestir o seu jaleco, o(a)s médico(a)s precisam estar imbuídos desses valores permanentes. E da sua nobre e digna missão. Tendo nos pacientes o seu foco permanente de cuidados. E profunda solidariedade humana.
A mídia e a ideologia política
O atual jogo político, mediado pelos partidos, mas com decisiva cumplicidade dos órgãos de comunicação, tem trazido algumas surpresas e perplexidades relacionadas ao comportamento público dos médicos e cidadãos brasileiros da classe média.
Médicos de todas as especialidades, como parte integrante do organismo social, são também submetidos a uma contínua e competente lavagem cerebral (o termo pode ser forte, mas é plenamente adequado) pela mídia.
A qual faz parte da elite econômica, que necessita do controle de todos os poderes para impor seu conteúdo ideológico, através da propaganda política e da manipulação, sem limites.
Desde o final do ano de 2002, com a ascensão do Partido dos Trabalhadores à Presidência da República, os brasileiros passaram a ser submetidos a intenso bombardeio midiático. O objetivo: criar o ódio político ideológico ao PT.
Os resultados dessa operação político-midiática tornaram-se visíveis a partir de 2005 com o chamado Mensalão. Mas como os resultados eleitorais nas três eleições presidenciais subsequentes não foram aqueles esperados, a elite brasileira optou pelo afastamento, a qualquer custo, do Partido dos Trabalhadores do poder.
Decisão que resultou num estranho e conturbado processo de impeachment. O chamado golpe jurídico-parlamentar.
Na prática, o retorno ao poder da ideologia neoliberal. Impondo ao Brasil uma pauta retrógrada e contrária aos interesses nacionais. Fazendo o Brasil regredir ao século XIX.
O que se observa agora é a atuação desastrada dos novos animais políticos criados pelos órgãos de comunicação. Inegável êxito da eficiência midiática.
Integrantes da classe média tomados pelo ódio político ideológico, habilmente inoculados pela mídia, através de lavagem cerebral impiedosa, ao longo de 14 anos de manipulação livre e irresponsável. Sem qualquer limite ético. Sem o mínimo controle.
Apenas dois exemplos atuais, relacionados à doença fatal da esposa do ex-presidente Lula, seriam suficientes para demonstrar aonde pode chegar o equivocado, injustificável comportamento desses novos animais políticos, movidos pelo ódio, e proclamando abertamente: “d. Marisa Letícia deve morrer”.
A presença de duas mulheres na porta do Hospital Sírio Libanês/SP, portando cartazes ofensivos à ex-primeira-dama, d. Marisa Letícia, internada naquele hospital por conta de grave AVC hemorrágico, do qual veio a falecer.
Os cartazes e as declarações dessas manifestantes assumiam explicitamente sua torcida pela morte da paciente.
Finalmente, a espantosa declaração de um médico neurocirurgião recomendando aos colegas que assistiam a ex-primeira-dama para, simplesmente, executar a paciente.
Em outras palavras, promover um assassinato médico – legal. Afinal, tratava-se de uma inimiga das suas convicções neoliberais, portanto, merecendo a morte. Simples assim.
O que teria levado essas pessoas – incluindo um profissional médico - a assumir publicamente tais posições?
Tão claramente contrárias ao direito à vida, inerente a todos os seres humanos? Tão distante dos sentimentos humanitários e de solidariedade que integram os mais elementares padrões e crenças religiosas? O que nos afasta, inexoravelmente, da possibilidade de vivermos numa sociedade civilizada?
Com a palavra os donos de empresas de comunicação – rádios, jornais, revistas, TVs – e seus ditos “jornalistas”, que insuflam o ódio, a mentira, a mais deslavada falsificação de notícias e interpretações da realidade, cotidianamente repetidas.
Esse tipo de animal político, produzido em suas fábricas de propaganda política-ideológica, representa o êxito inegável de mais de uma década de manipulação irresponsável.
Para onde se imagina conduzir o país, com tamanhas inverdades? Lembrar que os alemães, na década de 1930, também manipulados por Goebbels, ministro das Comunicações de Hitler, apoiavam a perseguição aos judeus.
E xingavam violentamente os que eram transportados nos trens para a morte indigna nos campos de concentração, caracterizando a “solução final”. O Holocausto, uma mancha indelével na história da humanidade.
Sabemos os resultados dessa política de extermínio. Até hoje lembrada, para que não se repita.
Nenhuma população, ou grupos de indivíduos, de qualquer país, não importando o seu nível de desenvolvimento sócio econômico e cultural, estaria livre da manipulação dos seus sentimentos coletivos. Modificados de acordo com os interesses das suas elites, como sempre manipulados pela mídia.
Como explicar o comportamento da população norte americana nas últimas décadas, senão através desse eficiente processo?
Os norte-americanos acreditam, e estão seguramente convencidos, que os Estados Unidos têm uma missão a desempenhar no mundo; que os seus exércitos participam, sempre, de “guerras justas”; que a livre competição e o livre mercado são a melhor forma de alcançar o progresso.
E aplicam as teorias de Darwin no campo sócio econômico: os mais aptos é que devem sobreviver.
Desigualdade, justiça social, exclusão econômica, ausência de direitos são apenas danos colaterais provocados pelo deus mercado.
A mídia tem um papel essencial na criação e manutenção desse ideário. Quase religião.
Fácil, portanto, culpar os animais políticos, fruto de sórdida propaganda ideológica. Reclamar a sua punição.
Mas os verdadeiros culpados estão aí. Livres. Impunes. Prontos a cometer novos crimes e delitos. Aumentado o contingente de “animais políticos”. Prontos a proclamar tolices políticas, “urbe et orbe”.
Até quando?
- Descanse em paz, d. Marisa Letícia. E perdoe aqueles que não sabem o que fazem.
Em sua memória, os versos do poeta maior, Carlos Drummond de Andrade:
“As coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão...”
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(*) Geniberto Paiva Campos (*) – médico cardiologista – CRM/DF 645
Criado em 2017-02-06 22:51:44
Chega às livrarias o novo livro do cubano Leonardo Padura: O romance da minha vida. Inédito no Brasil, a obra conta a história do exilado Fernando Terry. Após dezoito anos vivendo fora de seu país de origem, Terry consegue autorização para voltar a Cuba por um mês, atraído pela possibilidade de encontrar a lendária e desaparecida autobiografia de José María Heredia, o poeta romântico a quem dedicou sua tese de doutorado.
Nesse retorno a Cuba, o “exilado” aproveitará também para tirar a limpo seu passado e, quem sabe, curar-se do rancor que alimenta há quase duas décadas em razão da expulsão da universidade e o consequente desterro.
Heredia, seu objeto de estudo, foi ele próprio um desterrado: laureado precocemente como o maior poeta da ilha de Cuba, conheceu os deleites da glória e da fama, para repentinamente afundar-se num lodo conspiratório. Romântico incurável, o poeta, que morreu na desgraça aos 36 anos e que doou a própria vida na luta pela liberdade de seu povo, seria tardiamente reconhecido como o fundador da literatura cubana e um de seus mais notáveis frutos.
Neste envolvente romance histórico, Leonardo Padura mescla não só as narrativas do injustiçado professor Fernando Terry com a inconveniente autobiografia romanceada do poeta mas também com a história de seu filho caçula, o elo que explica o paradeiro final desses desaparecidos papéis. O romance da minha vida revela uma outra história de Cuba, sem heróis nem mártires, mas do poder avassalador e corruptivo do capital.
Sobre o autor
Nascido em Havana em 1955, Leonardo Padura Fuentes é pós-graduado em Literatura Hispano-Americana, romancista, ensaísta, jornalista e autor de roteiros para cinema. O Homem Que Amava os Cachorros é um de seus livros mais famosos no Brasil. Ganhou reconhecimento internacional com a série de romances policiais Estações Havana, estrelada pelo investigador Mario Conde, já traduzida em mais de quinze países, vencedora de diversos prêmios internacionais e adaptada para o cinema e a TV. Pelo conjunto de sua obra, Padura recebeu ainda o Premio Nacional de Literatura de Cuba, em 2012; o Princesa de Asturias, da Espanha, em 2015, e o Prêmio Barcino de Novela Histórica, em novembro de 2018. Outras obras do autor: Adeus, Hemingway; Morte em Havana (Máscaras); A neblina do passado; Paisagem de Outono; Um Passado Perfeito; Ventos de Quaresma e Hereges (2015)
Ficha técnica
Título: O romance da minha vida
Título original: La novela de mi vida
Autor: Leonardo Padura
Tradução: Monica Stahel
Páginas: 328
Preço: R$ 54
Editora: Boitempo
Criado em 2019-11-27 04:45:25
O discurso de Lula contra a reforma da Previdência - Av. Paulista, 15 de Março de 2017.

Criado em 2017-03-16 19:45:39