Total: 1890 results found.
Página 91 de 95
O Fórum Nacional de Secretários de Cultura divulgou hoje (19/6) uma Carta-Manifesto em que registra o desrespeito do governo Michel Temer para com o MinC diante dos novos fatos que envolvem os motivos da renúncia do até então ministro interino João Batista de Andrade.
O cineasta João Batista de Andrade entregou carta de demissão nesta sexta-feira (16/6) a Michel Temer, alegando impossibilidade de continuar à frente do MinC com as interferências políticas do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, na nomeação de diretores da Ancine e brutal redução no orçamento do ministério.
A vaga da Cultura está aberta desde que Roberto Freire (PPS) pediu demissão. Ele decidiu sair após a delação da JBS envolver o presidente Temer. O PMDB reivindica o cargo, mas Temer só vai decidir para quem vai dar o MinC quando voltar de viagem à Rússia.
Diante da crise instalada, assinam a carta 19 secretários de cultura de estados do Brasil, incluindo o secretário do DF, Guilherme Reis, e o presidente do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura, secretário da Cultura do Ceará, Fabiano dos Santos Piúba.
Citando o processo de mudança no Governo Federal, o Fórum afirma na carta que o Ministério da Cultura não se recuperou em sua integridade.
"Em carta assinada pelos dirigentes deste Fórum em maio de 2016, exigíamos a manutenção do MinC em sua integridade e contra sua extinção, qualquer tipo de fusão ou sua transformação em secretaria nacional", expõe o documento.
O Fórum de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura defende, portanto, a integralidade do MinC e reafirma seu lugar e o papel das políticas culturais para o desenvolvimento do Brasil, sua soberania nacional, o pensamento crítico e inventivo dos brasileiros, o desenvolvimento social e econômico, bem como para o exercício pleno da democracia.
Eis a íntegra da carta:
"Carta do Fórum Nacional dos Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura.
Diante dos novos fatos que envolvem os motivos da renúncia do ministro interino do MinC e da grave situação em que Ministério se encontra, o Fórum de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura vem a público se manifestar:
1. Desde o processo de mudança no Governo Federal, o Ministério da Cultura não se recuperou em sua integridade. Em carta assinada pelos dirigentes deste Fórum em maio de 2016, exigíamos a manutenção do MinC em sua integridade e contra sua extinção, qualquer tipo de fusão ou sua transformação em secretaria nacional;
2. A manutenção do MinC na estrutura do Governo ocorreu em função da mobilização e pressão dos campos artísticos e culturais junto com a sociedade brasileira e não por uma determinação política e estratégica do Governo;
3. No dia 16/03/2017, o Fórum de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura esteve em reunião com o então ministro Roberto Freire e lhe entregou um documento com uma pauta pragmática cobrando pelo menos os cumprimentos contratuais dos objetos firmados em torno dos convênios entre o MinC e as secretarias estaduais de cultura: Programa Cultura Viva/Pontos de Cultura, edital Economia Criativa, edital do Sistema Nacional de Cultura, Emendas Parlamentares, PAC das Cidades Históricas, Arranjos regionais da Ancine, Mapas da Cultura e SNIIC;
4. Em todo esse período o MinC não foi e nem tem sido capaz de aprovar qualquer Plano de Trabalho, responder diligências, empenhar recursos, ordenar despesas e repassar recursos financeiros referentes aos convênios com os estados da federação brasileira, acarretando em prejuízos imensuráveis para a política de descentralização dos recursos e do pacto federativo de fortalecimento do Sistema Nacional de Cultura;
5. As palavras do ex-ministro interino, João Batista de Andrade, em entrevista à Rádio Jovem Pan de São Paulo no último dia 16/06, sobre "um Ministério inviável", que "virou um lugar vago onde todo mundo é candidato sem qualquer ideia de política cultural", revelam, na verdade, a percepção, o lugar e o papel da cultura, das artes e da política cultural para o Governo que por hora dirige o país.
Dito isso, o Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura denuncia com veemência o desrespeito institucional não só com o Ministério da Cultura, mas com toda a comunidade cultural, com o riquíssimo patrimônio cultural brasileiro, o que, em última análise, é um desrespeito com a sociedade e com a garantia constitucional do direito à cultura e do acesso aos bens e serviços culturais a todos os brasileiros e brasileiras.
O Fórum de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura vem, outra vez, defender a integralidade do Ministério da Cultura e reafirmar seu lugar e o papel das políticas culturais para o desenvolvimento do Brasil, sua soberania nacional, o pensamento crítico e inventivo dos brasileiros, o desenvolvimento social e econômico, bem como para o exercício pleno da democracia.
Nestes termos, e tendo em conta a evolução recente do quadro político, o desmonte das conquistas históricas das políticas publicas de caráter social, entre elas as de Cultura, o Fórum manifesta o desejo de um novo pacto democrático para o país".
Assinam:
Fabiano dos Santos Piúba
Secretário da Cultura do Ceará
Presidente do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura
Karla Kristina Oliveira Martins
Diretora Presidente da Fundação de Cultura Elias Mansour do Estado do Acre
Mellina Freitas
Secretária de Estado da Cultura de Alagoas
Sandro Magalhães
Superintendente de Cultura da Secretaria da Cultura da Bahia
Guilherme Reis
Secretário de Cultura do Distrito Federal
João Gualberto Moreira Vasconcellos
Secretário de Estado da Cultura do Espírito Santo
Diego Galdino
Secretário de Estado da Cultura do Maranhão
Angelo Oswaldo de Araújo Santos
Secretário de Estado de Cultura de Minas Gerais
Leandro Carvalho
Secretario de Estado de Cultura de Mato Grosso
Lau Siqueira
Secretário de Estado de Cultura da Paraíba
Marcelino Granja
Secretario de Estado da Cultura de Pernambuco
Fábio Novo
Secretario de Estado da Cultura do Piauí
João Luiz Fiani
Secretário de Estado da Cultura do Paraná
André Lazaroni
Secretário de Estado da Cultura do Rio de Janeiro
Isaura A. S. R. Maia
Presidente da Fundação de Cultura José Augusto do Estado do Rio Grande do Norte
Rodnei Antonio Paes
Superintendente da Juventude, Cultura, Esporte e Lazer de Rondônia
Selma Mulinari
Secretária de Estado da Cultura de Roraima
Rodolfo Joaquim Pinto da Luz
Presidente da Fundação Catarinense de Cultura
Irineu Fontes
Secretário Executivo de Cultura de Sergipe
Criado em 2017-06-19 20:12:00
Maria do Rosário Caetano -
Está em cartaz, nos cinemas, o longa documental “Os transgressores”, de Luiz Erlanger.
O filme começa com Paulo Freire (1921-1997), o pedagogo da Libertação, vai para Carlos Tufvesson, que defende os direitos LGTB, chega a Celso Atayde, da Central Única das Favelas (CUFA) - muito sincero e divertido o depoimento do líder " marrom", que conta coisas incríveis sobre Bagulhão - e conclui com Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, que ajuda crianças portadoras de HIV.
Ainda aguardo um grande filme sobre Paulo Freire. Toni Venturi dedicou um documentário a ele. Mas o próprio Toni admite que fez um registro sem maiores pretensões para o Instituto Paulo Freire.
O episódio de “Os transgressores” colhe depoimentos até bons (de Cortella, Dimenstein, de Ladislaw Dowbar, de familiares de Freire), mas não vai fundo no pensamento do educador-filósofo.
E nem registra importante estudo de Venício Artur de Lima, cuja tese de doutorado, defendida nos EUA, aplica as ideias de Freire à Comunicação e à Cultura. A obra ganhou reedição recente.
Em 1982, em Brasília, a Frente Cultural do DF, que aglutinava sindicatos, associações profissionais, diretórios estudantis, a seccional da Orquestra Sinfônica de Brasília (OSB) e o Movimento Candango de Dinamização Cultural (CUCA) promoveu o seminário Paulo Freire e a Educação Brasileira, que resultou em um livreto de 40 páginas, fartamente ilustradas.
Foram usadas fotos do acervo do MEC da era João Goulart, quando Freire comandou processo de alfabetização de adultos em vários pontos do território nacional.

Uma sequência de fotos registra o Tu já lê. Os artigos que recheiam a publicação trazem a assinatura de Helene Barros (A Experiência de Aplicação do Método Paulo Freire de Alfabetização de Adultos em Brasília), Venício Artur de Lima (Paulo Freire e as Teorias da Comunicação) e, por fim, texto elaborado por alunos de Mestrado em Educação na UnB, que estudaram a obra do pedagogo (Paulo Freire - Fundamentos e Perspectivas de Sua Concepção Educacional).
Entre os mestrandos estava Maria Duarte, na época grande gestora cultural do SESC Brasília (sede do seminário), e presença fundamental na organização dos debates e do livro.
E na obtenção das ótimas fotos que ilustram a publicação. Que aliás, esgotou em poucos dias seus mil exemplares.
E o seminário, que contou com palestras das mestrandas da UnB, de Venício A. de Lima e de Francisco Wefort, sociólogo e futuro ministro da Cultura de FHC (e na época genro de Freire), abarrotou o auditório do SESC, na 913 Sul.
Houve até ameaça de invasão do local e, para abrigar o maior número possível de interessados, o jeito foi aceitar pessoas sentadas em colchonetes espalhados pelos corredores e fundo da sala.
Voltando ao cinema: o cineasta Flora Gomes está realizando um filme sobre Amilcar Cabral. E nele deve inserir trecho sobre a participação de Paulo Freire no processo educacional da africana Guiné-Bissau. Aguardemos, pois.
Ah, algum tempo depois, a Frente Cultural de Brasília promoveu mais um seminário sobre Freire, também muito concorrido, no Sindicato dos Professores do DF.
Uma das palestrantes, a professora Vanilda Pereira Paiva, questionou alguns aspectos do projeto do Pedagogo da Libertação e atribuiu ao Conselho Mundial das Igrejas a imensa difusão das ideias de Paulo Freire pelos cinco continentes.
Criado em 2017-06-18 12:20:16
Daniela Alvares Beskow (*) -
Atualmente está em debate na cidade de São Paulo o edital do Fomento à Dança. Esse edital tem como objetivo o financiamento do trabalho continuado de grupos e artistas da cidade e ocorre através de processo seletivo.
É um dos poucos editais/programas públicos na área de dança na cidade e, logo, bastante concorrido.
Até recentemente o período de duração do projeto era de dois anos, o que foi alterado pela atual prefeitura, para um ano.
Um dos argumentos é que dessa forma, mais artistas poderão ser contemplados.
Precisamos sair da dicotomia: muitos grupos recebem pouco X poucos grupos recebem bem.
É preciso que muitos recebam bem. Artistas precisam, assim como qualquer outro trabalhador, receber de forma digna por seus trabalhos.
Precisamos não apenas de um edital de fomento, que promove renda temporária.
Artistas, como em qualquer outra profissão, precisam de ESTRUTURA de trabalho.
Como se sabe, a grande maioria dos artistas no Brasil trabalha de forma precarizada: empregos temporários, sem carteira assinada, muitos enfrentam meses sem arrecadar o mínimo para depositar no INSS como autônomo.
Ficamos nas mãos de seleções de festivais, de empresas que buscam projetos para divulgar suas próprias marcas, de editais públicos (os poucos) concorridíssimos.
Em algumas cidades e estados do país existem alguns programas de incentivo e fomento às artes cênicas: centros culturais públicos com editais de trabalho com duração de um semestre, um ano; editais de ocupação do espaço, porém, sem remuneração.
Há também espaços públicos, alguns com nenhuma estrutura, outros com alguma estrutura, onde se pode trabalhar, ensaiar, se apresentar, mas não ser pago por isso.
A vida dos artistas no Brasil é de constante instabilidade. O que promove estabilidade?
Constância de renda e existência de direitos trabalhistas. Editais para trabalhos temporários não promovem nenhum dos dois.
Editais para trabalhos temporários deveriam existir como complemento a uma estrutura sólida de empregos na área de artes cênicas.
O que promove uma estrutura sólida de empregos? Espaços físicos e políticas a longo prazo.
1) Espaços físicos que empreguem artistas para desenvolvimento de pesquisa e apresentações;
2) E políticas a longo prazo, que promovam pesquisa continuada não necessariamente atrelada à um espaço físico, porém, com pagamentos continuados, fixos.
Tanto a estrutura física como os projetos a longo prazo devem promover salários e direitos trabalhistas como qualquer outro emprego.
Onde ocorre isso atualmente no Brasil na área de dança e artes cênicas? Nas pouquíssimas companhias fomentadas pelo poder público.
É necessária uma situação de estabilidade para todos os artistas.
Precisamos de espaços públicos, centros culturais que empreguem artistas e também de editais, fomentos e projetos continuados que paguem e empreguem artistas a longo prazo.
A grande quantidade de profissionais na área e quantidade insuficiente de editais gera um panorama onde o artista é aprovado em determinada seleção e, passado o período de trabalho, muitas vezes passam-se anos sem aprovação em novas seleções.
Essa situação gera a necessidade do artista em trabalhar em outras áreas profissionais durante os intervalos entre uma aprovação e outra, para que complemente a renda gerada pela produção independente de seus trabalhos, esta, ininterrupta e na maioria das vezes, ocorrendo em estrutura precária de trabalho.
Muitas vezes o complemento da renda se dá através da atuação na área de educação, ensinando outras pessoas seu ofício.
Porém, produção artística e educação não estão necessariamente conectadas, nem sempre a integração entre pesquisa e ensino é foco do trabalho individual do artista.
Esse panorama demonstra a ausência de uma política consistente para trabalho artístico no Brasil.
Artistas precisam de estrutura de trabalho. Será que em outras áreas profissionais o panorama descrito seria também viável?
É possível imaginar uma médica sem hospital para trabalhar? Um professor sem escola?
Editais temporários com duração de seis meses, onde, por exemplo, o médico atenderia pessoas doentes ou o professor daria aulas em espaços privados de forma temporária, por um ou dois anos?
E depois seguiria participando de outras seleções, promovendo trabalhos igualmente temporários?
Essa situação não existe, porque isso não faz o mínimo sentido. Porém, essa situação é observada no terreno das artes. Para o trabalho com artes vale qualquer coisa.
A desvalorização do trabalho artístico é imensa.
Para que existam condições dignas de trabalho para todos os artistas é preciso que haja estrutura de trabalho, espaços físicos, direitos trabalhistas e mais oferta de editais a longo do ano, que atenda a demanda qualificada de trabalhadores da arte e da cultura, impedindo que esses profissionais abandonem sua profissão ou mesmo que saiam do país em busca de melhores condições de trabalho.
Concluindo, é preciso mais respeito ao trabalho em artes cênicas.
_____________________
Texto de Daniela Alvares Beskow, bailarina e escritora. Bacharel e licenciada em Ciências Políticas, bacharel em Comunicação das Artes do Corpo e mestranda em Artes Cênicas. Publicado originalmente no site www.lasabuelitas.com
Criado em 2017-06-15 16:57:29
João Lanari Bo -
A percepção do tempo define uma civilização, dizem os compiladores. Em nenhum outro lugar que não a China a assertiva é tão verdadeira. São quatro mil anos de história, registradas por uma escrita praticamente idêntica e imutável, em meio a turbulências e catástrofes, perfídias e transcendências.
Num mundo como esse, fica claro que fantasmas tem outro status, outros tempos e espaços. Estão muito mais para interlocutores do inconsciente do que para assombrações estupefacientes.
A pessoa morre e volta para dialogar com os próximos que deixou, como nos filmes do tailandês sereno Apichatpong Weerasathakul. E agora, como no aprazível filme de estréia do chinês Zhang Hanyi, “Vida após a Vida”, com produção assinada por Jia Zhangke.
A morte é infortúnio para os que ficam, dizia Epicuro, mas os mortos volta e meia tem de lidar com pulsões dos vivos. Alguns voltam como cachorros sexopatas, outros como pássaros anônimos – no filme de Zhang, a principal volta é a encarnação temporária no corpo adolescente do próprio filho.
A mãe ausente voltando no corpo do filho, uma idéia simples e original, com uma incrível eficiência dramática – eis o enorme achado de Zhang, autor também do roteiro.
Humor absurdo e toque metafísico – como sugeriu uma espectadora no Cine Brasília – emergem desse contexto com fluidez, como se o tempo do filme fosse o próprio tempo dos personagens.
Contribuem, é claro, uma estupenda fotografia, reproduzindo um nevoeiro permanente com sutis colorações de verde e amarelo (poluição ?), na província de Shanxi, onde nasceu Jia Zhangke.
A vertigem do progresso chinês – escavadeiras, construções, terraplanagens – fornece a camada subjacente para a história, fábula que se organiza em torno do transplante de uma árvore, conforme o desejo da mãe-no-corpo-do-filho.
Será o apocalipse? para onde vai esse gigante chinês? não importa, ou não cabe nesse microcosmo que se revela no desenrolar da trama. Aqui, o que interessa são os pequenos acontecimentos, os ambientes, as pedras e as árvores, mas também a refração da luz, e o afeto quase epidérmico entre os personagens.
E o cinema, aquele que é a “música da luz”, como não se cansava de dizer Abel Gance.
Criado em 2017-06-12 18:39:22
A propósito da retrospectiva completa e exibição de obras raras do cineasta Michelangelo Antonioni, até o dia 29/5, no CCBB Brasília, brasiliarios.com publica aqui texto de João Lanari Bo sobre o cinema do diretor italiano
Em uma carta escrita no final da vida, Roland Barthes desliza com a precisão e a fluidez de sempre sobre a obra artística de Antonioni. Para ele, o diretor italiano exibe em seus filmes as três virtudes constitutivas do artista, a saber a vigilância, a sabedoria e a fragilidade.
A vigilância é a virtude de captar a história, não apenas a grande História, mas a pequena história que subjaz no círculo íntimo das existências individuais, aquelas confinadas nas temporalidades particulares.
Cada personagem com seu tempo interior, passado vivido e futuro por vir, e o presente irredutível.
Sabedoria é a presteza no discernimento, a capacidade de jamais confundir sentido e verdade. Trata-se de uma operação delicada: é mais fácil carregar o sentido e produzir um suposto realismo, que satisfaz uma demanda preconcebida da audiência.
Antonioni, ao contrário, deixa sempre aberta a rota do sentido, suas narrativas oscilam sutilmente entre o patético e o insignificante. A incerteza do sentido.
A arte de Antonioni, realça o pensador francês, é a arte do interstício.
E a fragilidade? É a resultante inevitável, a dúvida existencial que assalta o artista “à medida em que ele avança na sua vida e na sua obra”.
Exprimir-se é trilhar a linha tênue entre o testemunho do seu tempo, das mudanças do mundo, e o “simples reflexo egotista de sua nostalgia ou do seu desejo”.
O texto de Roland Barthes é tão hábil, tão sintético, que funciona como uma espécie de alegoria para atrair nossa imersão na obra. Seduzidos por essa dialética sutilíssima, somos arrastados para uma filmografia que é, a um só tempo, estimulante e elusiva, ambígua e expressiva.
Confrontado com a hesitação dos personagens, com a dispersão das causalidades que movem a narrativa clássica e produzem a consequente abstração das emoções, o espectador frustra-se, angustia-se, a exemplo do que se passa na tela.
Incompreensão
Pode-se dizer, invocando uma dessas acepções banais e verdadeiras, que os filmes de Antonioni são incompreensíveis, assim como a vida é incompreensível.
Como organizar a vida, no plano das mediações individuais que nos deparamos diariamente, com um razoável grau de certeza?
A essa indagação corresponde, para o diretor italiano, como organizar o tempo e espaço dos personagens e seus desdobramentos, com o igualmente razoável grau de certeza? Em ambos, vida e filme, um mistério.
Se o cinema, afinal de contas, é um dispositivo de mediação através das imagens – consumimos audiovisual para dispor de uma instância de identificações e correspondências, que auxiliem, voluntariamente ou não, nossa inserção no mundo – o cinema de Antonioni é a ilustração desse mecanismo, é o ato mesmo de mediar. Um ato que por definição se exerce de forma errática, incerta, em permanente estado de suspensão.
Os personagens, que encarnam essa errância, também têm dificuldade de resolver suas vidas. Uns morrem, outros simplesmente desaparecem, e alguns fazem sexo compulsivamente.
De novo: confrontados, os espectadores sentem-se abandonados, condenados a uma recepção que acontece, por infelicidade ou não, independente do filme. Um distanciamento patológico, um sentimento vago e liminarmente ansioso.
O Olhar Documental
Contudo, trata-se de um olhar que foi decantado ao longo do tempo, aperfeiçoado, polido. E que se construiu dialogando com outros olhares – neorrealismo, de início – e em permanente embate com o sistema de produção.
“Gente do Pó”, o esplêndido documentário que rodou em 1943, é um exemplo de sua tenacidade: interditado pelos fascistas, o material foi descoberto no fim da guerra na República de Salò, reduzido à metade, sem as cenas da inundação que assolava os ribeirinhos. Montado e exibido em 1947, revelou-se um prenúncio do humanismo pós-guerra de Rossellini e De Sica.
Essa tenacidade para terminar os projetos seria um traço marcante na sua trajetória. Uma passagem crucial foi a assistência que prestou a Marcel Carne no soberbo “Visitantes da Noite”, em 1942.
Apesar do seu desacordo estético com o realizador francês, Antonioni absorveu dele o rigor da composição dos planos, o alto nível de exigência no preenchimento da imagem.
Dirigiu mais curtas ainda nos anos 40, seja inserindo lixeiros na paisagem urbana, seja desvelando os bastidores das fotonovelas, e acabou desviando de rumo.
Mais tarde diria, sobre “O Grito”, de 1957: é o neorrealismo sem bicicleta.
A Autonomia da Câmera
Michelangelo escreveu muitos roteiros e argumentos, e tinha um deles na gaveta quando apareceu a oportunidade. “Cronaca di un Amore”, de 1950 (“Crimes da Alma”, título no Brasil) inaugura um método estrutural que iria retornar em trabalhos posteriores, em especial na década de 60.
Ninguém outro que Gilles Deleuze enxergou aí os fundamentos do cinema moderno, onde a câmera assume uma autonomia que a exime de seguir os movimentos dos personagens, ou de movimentar-se em direção a eles: o olhar da câmera torna-se uma função pensante, expressando intenções, sequelas e consequências internalizadas nos personagens.
O filósofo francês ilustra a proposição com a famosa sequência da escada em espiral com o elevador no eixo central: os amantes, perseguidos pela culpa da morte acidental da amiga na juventude, são premidos pelo tempo, pelo remorso pelo passado, e pela catástrofe do futuro.
Sobem a escada fugindo de um possível encontro com o marido dela, enquanto o elevador trafega, lembrando a inexorabilidade do tempo. Encontram-se encurralados no presente. Imagens-óticas e imagens-sonoras: o cinema supera as imagens-movimento e inaugura a imagem-tempo.
Para Deleuze, essa interpolação injeta uma minúscula atemporalidade na progressão linear da narrativa, produzindo uma descontinuidade espacial. É por essa brecha que o fantasma da amiga morta fica à espreita.
Cesare Pavese
“Os vencidos”, de 1952, foi uma ideia ousada: adolescentes em Roma, Paris e Londres cometem crimes, sem explicação ou antecedentes. Os produtores se queixaram, mas a determinação de Antonioni não esmoreceu.
Um ano mais tarde, em “A Dama Sem Camélias”, faria sua primeira incursão na metalinguagem, filme dentro do filme.
Baseado em um livro de Cesare Pavese, “As amigas”, de 1955, lida com um cruzamento temporal: duas das protagonistas, uma retornando a um passado infeliz, e outra insegura no afeto futuro, amarram a trama.
Um entorno diverso as circunda, proporcionando uma mise-en-scène múltipla, onde a posição dos personagens no grupo corta e une, separa e consolida, conflitos e expectativas.
Alta intensidade dramática, que não impediu comentário de Italo Calvino, amigo de Pavese, em carta a Antonioni: o eixo do romance, os dilemas da modista Clelia, aparecem no filme integrados em um comportamento juvenil que empobrece o personagem. O conselho seria acatado, em especial para “A Aventura” e os papéis femininos.
“O Grito”, de 1957, foi em desde o início um projeto bidimensional: em relação às origens neorrealistas, pelo foco no protagonista proletário, e ao futuro, pela ênfase na internalização do drama pessoal do personagem nos dispositivos de linguagem, que seria a marca do diretor nos filmes subsequentes.
Antonioni teve a ideia do filme ao contemplar um muro: metáfora do achatamento psicológico do personagem, mas também, como salienta o filósofo Alain Bonfand, um fato visual, um quadro nu, superfície abstrata, árida, desolada. Assistindo “O Grito” não encontramos o muro, mas a temos a sensação permanente de estarmos diante do muro. Os impasses e as paisagens se anulam sucessivamente até o desenlace vertical.
Monica Vitti
O próximo, “A Aventura”, de 1960, foi vaiado desde o primeiro minuto quando exibido no Festival de Cannes. Antonioni e Monica Vitti saíram aos prantos antes do final.
No dia seguinte um expressivo grupo de personalidades, Roberto Rossellini e Georges Sadoul incluídos, assinaram manifesto de desagravo. O filme acabou ganhando um prêmio especial do júri.
Nesta que é sua produção mais celebrada e a mais experimental, Antonioni estende o tempo interior dos protagonistas, sugerindo uma opacidade do significado dos eventos, que ocorrem em espaços claros e reproduzidos em cinemascope.
Os objetos parecem esvaziar sua consistência interna, pela forma com que se apresentam aos olhares dos personagens e do espectador. O desconforto se dá pelo cansaço mental desse tempo estendido, expresso também nos movimentos de corpo, dos personagens.
O “desaparecimento do desaparecimento”, como sugeriu o crítico Pascal Bonitzer, sem dúvida o traço formal mais contundente do filme, ilustra a passagem do tempo da maneira mais cruel, o esquecimento. O fim, como os espaços na Sicília e adjacências, é aberto.
A despeito do nível de abstração que alcançou com “A Aventura” – que manteria em “A Noite”, de 1961, “O Eclipse”, de 1962 e “Deserto Rosso – o dilema de uma vida”, de 1963 – o cinema de Antonioni também era espetáculo, a começar pelo casting: Monica Vitti, que foi dubladora em ‘O Grito”; Alain Delon, seu par em “O Eclipse”; Richard Harris, em “Deserto Rosso”; e o magnífico casal de “A Noite”, Jeanne Moreau e Marcelo Mastroianni.
As escolhas traduzem uma estratégia de produção, mas também fazem parte da composição das imagens, a exemplo da pintura. Antonioni incorporou grandes artistas em seus filmes, como índice da narrativa –Mario Sironi, em “O Eclipse” – e como paradigmas de opções cromáticas - Pollock e Rothko, matrizes de “Deserto Rosso”. Realçar artificialmente o verde da vegetação e o cinza das árvores mortas, como no filme de 1964, sua primeira obra em cores, é o gesto mais eloquente do cineasta como pintor.
Na famosa entrevista que concedeu a Jean-Luc Godard em 1964, Antonioni revelou, a propósito de “Deserto Rosso”, que “tingir o mato em volta do barraco na beira do cais serviu para reforçar o sentimento de desolação, de morte...havia uma verdade na paisagem para mostrar, quando as árvores estão mortas, elas têm essa cor”.
Godard retrucou: “o drama não é mais psicológico, é plástico”.
Antonioni arrematou: “é a mesma coisa”.
Blow-up
Julio Cortazar, o formidável escritor, conta como ficou surpreso ao receber o telefonema de Antonioni para falar sobre “Blow-up”. “Pensei que era trote”, disse.
Tingir a relva do parque onde jazia o corpo granulado foi novamente o recurso para realçar aspectos plásticos e psicológicos – não apenas o parque, como revelou o estupendo fotógrafo Carlo di Palma, mas também de interiores e exteriores na Londres dos anos 60.
“Blow-up”, o maior sucesso de bilheteria do diretor italiano, é um thriller ao avesso: um fotógrafo narcisista e prepotente desvenda um corpo estirado no chão, e a descoberta desequilibra sua subjetividade.
Ao contrário dos filmes anteriores, desta vez o mal-estar emana do personagem-fotógrafo, aquele que vê o mundo através da objetiva, e instala-se no fragmento microscópico do grão da imagem.
Sua obsessão em ampliar o negativo leva a imagem fotográfica a assemelhar-se a um quadro abstrato (o comentário é de sua ex-mulher, agora amante do vizinho-pintor).
A despeito da objetividade, um tédio interior o toma de assalto. De perseguidor de objetos, passa a recusá-los: disputa a tapa o pedaço de guitarra de Jeff Beck, mas desvencilha-se dela logo em seguida, com displicência.
"Blow-up", com cortes rápidos e imprevistos, não abdica das suspensões da narrativa tão caras a Antonioni. Ao final, o fotógrafo parece estar assolado por uma espécie de náusea da objetividade, ao testemunhar um jogo invisível de tênis.
O filme termina com uma tomada aérea do protagonista, que desaparece no momento que o letreiro “the end” faz um zoom para o primeiro plano. Antonioni considerou esse plano sua assinatura pessoal.
Esta foi a primeira de uma série de produções filmadas fora do Itália pelo diretor (nos anos 50, “Os Vencidos” teve episódios rodados na França e Inglaterra). O próximo, "Zabriskie Point", de 1970, é certamente um enredo simples, disse Antonioni, mas “a questão não é ler entre linhas, mas sim de ler entre imagens”.
Com um estilo entre o documentário e a abstração, “Zabriskie Point” é quase uma paródia daqueles anos tumultuados na Califórnia.
A assembléia estudantil do início é fragmentada pela decupagem caótica de situações paralelas: planos abertos e cores fulgurantes enchem a imagem. A claridade ofusca.
A câmera mergulha no Vale da Morte, árida e quente depressão localizada ao norte do estado, o ponto mais baixo dos Estados Unidos. Sexo, drogas e rock-and-roll (a trilha é do Pink Floyd) ilustram o virtuosismo cromático.
Ao fim, umas das cenas mais impactantes que o cinema produziu: a explosão de uma mansão, filmada de 17 ângulos em câmera lenta, a pulverização radical do consumismo americano. Antonioni revelou que esta foi a sequência que teve mais prazer de dirigir em toda a vida.
China e África
O olhar documental de Antonioni voltou à tona no prodigioso “China”, o longo documentário que filmou no país seminal, àquela altura mal saindo da autoexclusão do surto revolucionário dito cultural, em 1972.
Ancorado na tolerância do Premiê Zhou Enlai, terminou sofrendo com as reviravoltas obscuras da política chinesa e foi, tal como “Gente do Pó”, banido no Império do Meio e sabotado pelos maoístas italianos.
Em carta que escreveu ao governo de Pequim, Antonioni desabafou: lutei contra o fascismo durante a guerra e fui condenado à morte - estamos, portanto, do mesmo lado. Somente em 2004 o filme foi exibido na China.
Cheio de imagens-afeto, “Zhong-guo” captou o tempo idílico de uma sociedade milenar egressa de sucessivos ciclos de turbulências. O tempo interior da paisagem humana que habita o documentário parece protegido do tempo histórico que ocupa o espaço social.
Filmado às pressas, em 22 dias, cinquenta planos por dia, é um milagre: a tenacidade, traço que sustentou Antonioni para completar “Gente do Pó”, prevaleceu.
Em 1975, o notável “Profissão: repórter”, com um casting estelar, Jack Nicholson e Maria Schneider. Um thriller com reverberação metafísica – a troca de identidades do principal personagem – e política, pela alusão às guerras de independência africanas e o comércio de armas.
Filmar é produzir imagens-meio, que veiculem a intercessão desses dois mundos, inóspitos e ensolarados.
O repórter, como o fotógrafo, persegue seu objeto: a pesquisa é para um documentário. A metalinguagem se expressa no abstrato vazio do deserto, por um lado, e no desconforto de visitar a própria casa com a identidade trocada, por outro.
O famoso plano final de sete minutos é sem dúvida a mais bem sucedida transposição entre interior e exterior no cinema. Sons e imagens, dentro e fora, no meio disso tudo um surdo estampido de um tiro, arma como silenciador.
Além das nuvens
Michelangelo Antonioni foi uma mente antenada na fronteira da ciência e tecnologia. Dizia que crise moral do nosso tempo tem sua origem no descompasso entre a liberdade da especulação científica e a vigência dos códigos restritivos e castradores do comportamento. Antonioni dialogava com pesquisadores e visitava laboratórios. Uma curiosidade militante.
“Mistério de Oberwald”, de 1980, é uma especulação sobre o estatuto da imagem, a partir de um retorno à Itália e à sua atriz-fetiche, Monica Vitti. Gravado em suporte eletrônico, permitiu experimentos de coloração inéditos, manipulação de pixels da imagem videográfica para descrever personagens e situações.
Antonioni estava certo, com duas décadas de antecedência. Hoje o digital tomou conta do cinema, da captação à distribuição e ao consumo. As consequências para um autor como Antonioni, entretanto, são múltiplas, de difícil controle.
Em 1982 roda “Identificação de uma mulher”, sobre um diretor de cinema premido entre a solução do roteiro e a mulher que o largou.
Cenas de sexo sem pudor ilustram a procura: ao final, uma neblina transfiguradora parece encerrar o filme e começar outro. O enigma do roteiro e da mulher convergem e parecem se fundir.
A afasia, por conta do derrame que sofreu em 1985, reduziu sua fala a cerca de dez palavras, segundo Wim Wenders, além de restringir os movimentos. Restou a mão esquerda, usada para desenhos rápidos.
A generosidade do diretor alemão tornou possível a produção de “Além das nuvens”, de 1995, seu último longa-metragem.
Quatro histórias de relações amorosas mais ou menos frustradas, que convergem para uma busca frustrada da realidade absoluta: nas palavras do belo texto de Adriano Aprà, neste filme Antonioni exercita o registro e a reflexão sobre essa aproximação, destinada ao fracasso.
Portas, vidros, janelas são diafragmas entre o olhar e a realidade olhada. Conduz tenuamente a história o alter ego John Malkovich, hesitando entre a observação e a introjeção. Nas palavras de Adriano: “não se pode ir além do filme o absoluto é constantemente deslocado para frente em uma outra imagem em uma outra história um outro amor um outro filme”.
O perigoso fio das coisas
«Os meus pensamentos são quase sempre sobre filmes», confessa Antonioni, lembrando que observar faz parte do seu trabalho de realizador: «Quando não tenho que fazer, começo a olhar. Há uma técnica também para olhar, ou melhor, há muitas. Eu tenho a minha».
“O perigoso fio das coisas” era um dos muitos argumentos não filmados de Antonioni. Filmado na costa da Toscana, com música-homenagem de Caetano Veloso, narra a encruzilhada de um triângulo amoroso, e integra o longa de episódios “Eros”, de 2004 (“Tentativa de suicídio”, de 1953, e “As três faces de uma mulher”, de 1965, também eram curtas inseridos em longas).
A despedida foi o experimento “O Olhar de Michelangelo”, também de 2004. Um diálogo silencioso, uma troca de olhares entre Antonioni e o Moisés, de Michelangelo, na Basílica de São Pedro Acorrentado, no Monte Ópio, em Roma. Poesia de mármore e poesia de imagens.
Criado em 2017-05-24 19:16:27
Romário Schettino -
Falta ainda a Secretaria de Fazenda liberar recursos retidos para pagar projetos aprovados ainda em 2015, e que começaram a ser liberados só em 2016. Há uma demanda reprimida ao longo dos anos.
O deputado distrital Cláudio Abrantes (Rede-DF) anunciou hoje (15/5) que está decidido: o projeto de lei enviado pelo poder Executivo que retira recursos de fundos de órgãos administrativos não será votado esta semana. E mais, o Fundo de Apoio à Cultura (FAC) está fora dos cortes. O anúncio foi feito na presença de cerca de 100 ativistas do movimento cultural que acompanharam a reunião do Colégio de Líderes.
Artistas e produtores culturais afirmam que os 0,3% da receita líquida do DF, previstos na Lei Orgânica para o FAC, algo em torno de R$ 50 milhões por ano, são insuficientes para pagar todos os projetos inscritos e aprovados.
A Fazenda alega que o FAC tem um nível de execução muito baixo e que isso justificaria o remanejamento para outras áreas. Mas não informa que o motivo é o contingenciamento sistemático que ela faz desses recursos.
O músico Rênio Quintas, membro do Fórum de Cultura, lembra que a decisão tomada pelo governo "alivia", mas é preciso garantir a liberação dos recursos para projetos que "estão com mérito aprovado e são de alta qualidade".
Dos 800 projetos aprovados em 2015, apenas 315 assinaram contratos, mas não se sabe quantos foram pagos e executados. Ainda faltam liberar cerca R$ 12 milhões para projetos que estão à espera dos recursos retidos na secretaria de Fazenda. Os projetos inscritos em 2016 ainda serão sendo analisados por pareceristas a ser contratados. Nesse ritmo, os de 2017, com certeza, ficarão para 2018.
O dramaturgo, ator e diretor de teatro, Alexandre Ribondi, diz que "é bom lembrar ao secretário de Fazenda, João Antônio Fleury, que ele tem a obrigação de liberar as verbas porque isso faz parte da relação do artista com a Secretaria de Cultura e que ele não pode intervir nesse relacionamento. Reter a verba beira a ilegalidade e cheira a falta de vergonha na cara".
Criado em 2017-05-15 23:47:33
A propósito da retrospectiva completa e exibição de obras raras do cineasta Michelangelo Antonioni, até o dia 29/5, no CCBB Brasília, brasiliarios.com publica aqui texto de João Lanari Bo sobre o cinema do diretor italiano.
Em uma carta escrita no final da vida, Roland Barthes desliza com a precisão e a fluidez de sempre sobre a obra artística de Antonioni. Para ele, o diretor italiano exibe em seus filmes as três virtudes constitutivas do artista, a saber a vigilância, a sabedoria e a fragilidade.
A vigilância é a virtude de captar a história, não apenas a grande História, mas a pequena história que subjaz no círculo íntimo das existências individuais, aquelas confinadas nas temporalidades particulares. Cada personagem com seu tempo interior, passado vivido e futuro por vir, e o presente irredutível.
Sabedoria é a presteza no discernimento, a capacidade de jamais confundir sentido e verdade.
Trata-se de uma operação delicada: é mais fácil carregar o sentido e produzir um suposto realismo, que satisfaz uma demanda preconcebida da audiência.
Antonioni, ao contrário, deixa sempre aberta a rota do sentido, suas narrativas oscilam sutilmente entre o patético e o insignificante. A incerteza do sentido.
A arte de Antonioni, resume o pensador francês, é a arte do interstício.
E a fragilidade? É a resultante inevitável, a dúvida existencial que assalta o artista “à medida que ele avança na sua vida e na sua obra”.
Exprimir-se é trilhar a linha tênue entre o testemunho do seu tempo, das mudanças do mundo, e o “simples reflexo egotista de sua nostalgia ou do seu desejo”.
O texto de Roland Barthes é tão hábil, tão sintético, que funciona como uma espécie de alegoria para atrair nossa imersão na obra. Seduzidos por essa dialética sutilíssima, somos arrastados para uma filmografia que é, a um só tempo, estimulante e elusiva, ambígua e expressiva.
Confrontado com a hesitação dos personagens, com a dispersão das causalidades que movem a narrativa clássica e produzem a consequente abstração das emoções, o espectador frustra-se, angustia-se, a exemplo do que se passa na tela.
Pode-se dizer, invocando uma dessas acepções banais e verdadeiras, que os filmes de Antonioni são incompreensíveis, assim como a vida é incompreensível.
Como organizar a vida, no plano das mediações individuais que nos deparamos diariamente, com um razoável grau de certeza?
A essa indagação corresponde, para o diretor italiano, como organizar o tempo e espaço dos personagens e seus desdobramentos, com o igualmente razoável grau de certeza? Em ambos, vida e filme, um mistério.
Se o cinema, afinal de contas, é um dispositivo de mediação através das imagens – consumimos audiovisual para dispor de uma instância de identificações e correspondências, que auxiliem, voluntariamente ou não, nossa inserção no mundo – o cinema de Antonioni é a ilustração desse mecanismo, é o ato mesmo de mediar.
Um ato que por definição se exerce de forma errática, incerta, em permanente estado de suspensão. Os personagens, que encarnam essa errância, também têm dificuldade de resolver suas vidas.
Uns morrem, outros simplesmente desaparecem, e alguns fazem sexo compulsivamente.
De novo: confrontados, os espectadores sentem-se abandonados, condenados a uma recepção que acontece, por infelicidade ou não, independente do filme.
Um distanciamento patológico, um sentimento vago e liminarmente ansioso.
Michelangelo Antonioni faleceu em 2007, um dia depois de Ingmar Bergman. Passou anos sem falar, devido a um derrame, mas sempre lúcido e ativo.
No seu último suspiro contemplou o Moisés restaurado do outro Michelangelo, o escultor. Puro cruzamento de olhares, passado e futuro condensados no presente.
Criado em 2017-05-14 22:03:20
Diante da repercussão negativa da decisão do governador Rodrigo Rollemberg (PSB) de enviar à Câmara Legislativa projeto de lei retirando recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) para outras finalidades, o secretário de Cultura, Guilherme Reis postou em sua página no Facebook uma carta de esclarecimento.
Na manifestação, do secretário diz que o GDF apresentará uma emenda supressiva retirando o FAC do PLC 95/16, da lista de fundos que terão seus recursos remanejados para outras secretarias.
Guilherme explica que o FAC teria sido “incluído indevidamente no projeto de lei”. Essa explicação provocou uma série de respostas, muitas delas mantendo as críticas ao governo, ao secretário e cobrando mais atenção e responsabilidade com a cultura no DF.
O deputado distrital Cláudio Abrantes (Rede-DF) convida a comunidade da cultura para se mobilizar e comparecer à Câmara Legislativa na próxima segunda-feira (15/5), às 15h, para lutar contra o PLC 95, de autoria do Executivo, que “destrói com o FAC”.
Abrantes diz que só acredita na promessa do GDF de retirar o FAC da lista de fundos que terão seus recursos removidos, depois que a emenda supressiva chegar à CLDF.
Eis a íntegra do esclarecimento de Guilherme Reis:
“O governador Rodrigo Rollemberg encaminhou ofício para a presidência da Câmara Legislativa do Distrito Federal informando que será apresentada uma emenda supressiva que retira o FAC do PLC 95/16, uma vez que o fundo foi incluído indevidamente no projeto de lei.
Graças à mobilização da comunidade e à ação de deputados preocupados com a questão cultural, em sintonia com a Secretaria de Cultura e com a participação ativa do próprio governador, está sendo possível corrigir este equívoco.
Nunca foi intenção do governo promover qualquer alteração na legislação do FAC. Este é o mais importante instrumento de política pública na área da cultura no Distrito Federal e não corre risco de qualquer natureza.
No momento em que o Brasil inteiro vive dificuldades gigantescas, especialmente na área da cultura, temos conseguido manter execução recorde do fundo, ano após ano, promovendo ainda sua desburocratização e maior democratização. Desta forma, sempre buscamos dar maior efetividade à aplicação de recursos na área da cultura. Cultura é investimento. Cultura é cidadania.
Este assunto será rapidamente superado para que possamos avançar na aprovação da Lei Orgânica da Cultura (LOC), que garante e amplia direitos culturais”.
Assinado: Guilherme Reis, secretário de Cultura do Distrito Federal.
Repercussões
O Fórum de Cultura do DF, por meio de nota oficial, reagiu na quinta-feira (11/5) condenou a atitude do governador Rodrigo Rollemberg e afirmou que o “FAC vai virar pó no DF”.
Essa nota serviu para mobilizar os artistas, produtores e militantes da cultura para resistir ao desmonte do FAC e todos estão convocados para ir segunda-feira, 15/5, à CLDF para impedir a votação do PL 95 tal como foi enviado aos deputados distritais.
A propósito dessa polêmica lei, a produtora Elisa de Alencar, em post no Facebook critica Agnelo Queiroz e Rodrigo Rollemberg e lamenta: “Será que teremos que dar vivas a Roriz? Putz!”.
O dramaturgo, ator e diretor de teatro, Alexandre Ribondi, por sua vez, também no Facebook, critica “esses políticos nacionais [que] desconhecem o valor imprescindível da cultura”.
Para Ribondi, o que “o governador Rollemberg está fazendo, ao querer desmantelar o Fundo de Apoio à Cultura, não é uma política administrativa nem remanejamento de verbas. É extermínio. Indolor para ele, porque o teatro, a literatura, o cinema e a música quase certamente não lhe fazem falta”.
Criado em 2017-05-14 04:58:49
Lançamento hoje, 11/5, 20, no restaurante Ki-filé, na 405 Norte, Bloco. Compareça!
O Guia Musical de Brasília é um projeto comandado por Joaquim Barroncas. Reportagem e edição de Antônio Carlos Queiroz. Projeto gráfico da Criar Design (André Filho).
Criado em 2017-05-11 20:02:28
A Câmara Legislativa, na noite de quarta-feira (11/5) tentou aprovar proposta encaminhada pela Secretaria de Fazenda do GDF que autoriza o desvio de recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) para outras finalidades.
Esse projeto de lei acabaria com o acúmulo anual de recursos do FAC. Ou seja, os valores que sobrarem no FAC deste ano não serão mais utilizados no ano seguinte.
A Secretaria de Fazenda informou que foram apresentados índices de execução muito baixos e que isso justifica a medida, já que outras áreas do governo estão precisando de mais verbas.
Faltou informar que a própria secretaria de Fazenda ainda não liberou recursos de projetos aprovados no FAC em 2015., no valor de R$ 6 milhões. Pagamentos são retidos e artistas e produtores estão executado seus projetos com dinheiro do próprio bolso, ou tomando empréstimos bancários.
Por meio de uma movimentação liderada pelo deputado distrital Claudio Abrantes a aprovação do projeto foi adiada.
O Movimento Cultural está se mobilizando para acompanhar a reunião de líderes da CLDF, que será realizada na manhã da próxima segunda-feira (15/5).
Criado em 2017-05-11 19:33:29
Angélica Torres -
Na quinta 25, na sexta 26 e sábado 27 de maio, o Espaço Cultural Samambaia recebe gratuitamente o público que for assistir Teto e Paz, espetáculo sobre a heroica vivência de cinco jovens ex-moradores das ruas de Brasília, que hoje vivem em abrigos públicos do DF.
Dirigido e produzido por La Casa Incierta, uma companhia de teatro metade espanhola, metade brasileira, a peça chega na hora certa, já que teatro faz o espectador refletir sobre o que vê.
Quando Temer escancara seu desprezo pelos mais pobres, e periquitos & tucanos se apoderam da Casa que joão-de-barro ergueu, dói ainda mais fundo saber o que sofrem os abandonados sob o total descaso do governo e da sociedade.
Mas Carlos Laredo, o diretor espanhol da peça e escritor das histórias contadas pelos cinco jovens atores, nos renova o olhar.
“Por trás da vivência sem direitos básicos e amparo de pai e mãe, e do contato com a morte desde muito cedo, há uma grande potência nesses meninos gerada pela relação forte e trágica com a vida. Isso nos permitiu recuperar deles a narrativa do herói, aquele que é capaz de proteger o outro e de ir ao inferno e voltar para contar o que viveu”.
A atriz profissional Clarice Cardell conta que a peça mistura os heroísmos mitológico e pessoal desses jovens com uma grande conferência do que acontece no Brasil.
“É um espetáculo necessário, que promove a emoção e o confronto entre a poesia e essa dura realidade. Nós, os artistas, temos de tentar conscientizar as pessoas sobre ela e com a nossa arma, que é a beleza”.
O rapper Gog, além de autor da trilha sonora, vai atuar nesse imperdível espetáculo, que no fim de semana seguinte avoa para a sala Funarte e em agosto ruma para o Festival de Teatro Cena Contemporânea.
_________________
SERVIÇO:
TETO E PAZ – 25, 26 e 27 de maio, às 20h, com entrada franca, no Espaço Imaginário Cultural (QS 103, Cj 5, Lote 5/, Samambaia Sul).
No Teatro Plínio Marcos/Funarte: 2 e 3 de junho, às 21h, e no dia 4/6, às 20h; ingressos R$10 e R$20. Apoio: FAC/DF. Facebook: Meninos da Guerra.
Criado em 2017-05-10 12:42:56
Até o dia 30 de julho, pela internet ou pelos correios (veja os endereços abaixo). Serão selecionados oito filmes de ficção e oito documentários. O VI BIFF ocorrerá de 10 a 19 de novembro.
O mais importante festival internacional de cinema da região central do Brasil, o Brasília International Film Festival - BIFF - está com inscrições abertas para a sua sexta edição, que será realizada entre os dias 10 e 19 de novembro deste ano, no Cine Brasília e em outros dois cinemas do Distrito Federal.
Com direção geral de Nilson Rodrigues, o festival realizará, ao longo de dez dias, mostra competitiva de filmes de longa-metragem de ficção, mostra competitiva de documentários, mostras paralelas, encontros e debates e distribuirá R$ 70 mil em prêmios.
As inscrições podem ser feitas até o dia 30 de julho de 2017 por meio dos sites www.biffestival.com e www.festhome.com pelos produtores e/ou representantes legais do filme.
Além da ficha de inscrição preenchida, são obrigatórios alguns anexos, como link do filme com legenda em espanhol, inglês ou português, sinopse, fotos e biografia com filmografia do diretor.
Os interessados que não puderem fazer inscrição online, podem enviar material contendo cópia do filme em DVD (com legendas) diretamente à coordenação do festival: VI Brasília Internacional Film Festival - VI BIFF - A/C de Mirta Escosteguy - Cine Cultura Liberty Mall, SCN Quadra 02 – Shopping Liberty Mall - Brasília – DF - CEP: 70712-904.
Criado em 2017-05-09 21:24:38
Seleção de bolsistas vai até o dia 12 de maio. O interessado deve dizer o que gostaria de fazer no projeto e enviar currículo para o e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Informações pelo telefone: 98315-3093.
O professor Daniel Faria, da UnB, e Carlos Henrique Siqueira estão à frente do projeto financiado pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC). A bolsa é de R$ 550,00.
Projeto de pesquisa tem o objetivo de valorizar a diversidade como a identidade cultural candango-brasiliense, por meio da promoção da memória coletiva da cidade e do mapeamento das diversas expressões imateriais que construíram e constroem a Capital dos Brasis.
A partir do levantamento e resgate de acervos relacionados a personagens fundamentais para a gênese cultural de Brasília (no plano Memória) e da produção de novos registros sobre agentes e movimentos contemporâneos (plano Invenção), a memória e o espírito inventivo serão ressaltados como patrimônios indispensáveis à compreensão da nossa identidade: a diversidade. Os resultados do projeto serão organizados em um site e apresentados em rodas de diálogos.
No detalhamento do projeto, Daniel lista cinco objetivos:
1. Pesquisa. Mapeamentos, levantamentos, resgates de acervos e produção de novos registros sobre personagens históricos e agentes contemporâneos que construíram e constroem a cultura candango-brasiliense. Consiste em minucioso trabalho de pesquisa a ser procedido por equipe profissional, em atenção às diretrizes do projeto e com base nas orientações do Conselho Curador. Este produto oferecerá as matérias-primas essenciais do projeto.
2. Site. Ambiente virtual que reunirá e disponibilizará os resultados da pesquisa, com o acervo levantado e produzido por meio do projeto. A intenção é que o site se torne uma fonte de pesquisas e estudos sobre a cultura de Brasília.
Além de servir como plataforma para disponibilização dos levantamentos, resgates, entrevistas e registros audiovisuais realizados, o site apresentará as pílulas audiovisuais.
3. Seis pílulas audiovisuais. A partir dos resultados obtidos na pesquisa, serão produzidas seis pílulas audiovisuais (com cerca de cinco minutos cada) com o objetivo de compor e explicitar a linha argumentativa que traduz o objetivo do projeto, revelando a essência comum entre as diversas expressões imateriais que compõem a cultura candango-brasiliense.
Servirão, assim, como instrumentos para o reconhecimento e valorização da diversidade como patrimônio constituidor da identidade cultural da Capital dos Brasis. A intenção é “viralizar” estes vídeos por meio das redes sociais, propiciando maior alcance e difusão do projeto.
4. Três rodas de diálogos. Atividades voltadas para o compartilhamento presencial dos resultados da pesquisa junto ao público envolvido e à população em geral. O formato das atividades consistirá em apresentação do projeto, exibição das pílulas audiovisuais e roda de conversa para aprofundamento das reflexões.
Visando facilitar a participação da população, o objetivo é realizar as rodas de diálogos em praças públicas, a saber: Praça do Centro Histórico, em Planaltina; Praça do Cidadão, em Ceilândia; e Praça da Quadra 07, no Varjão.
A divulgação, por meio de carro de som, se estenderá às comunidades circunvizinhas: Sobradinho, Samambaia, Taguatinga, Paranoá, Itapoã e núcleos rurais do Lago Norte.
Criado em 2017-05-06 16:35:28
Romário Schettino -
Quem vê na tela a cinebiografia de Cosme Alves Netto, de autoria do igualmente amazonense Aurélio Michiles, enxerga também a memória de quem cuidou da memória do cinema brasileiro nos mínimos detalhes.
A importância do biografado como arquivista e sua vida de cinéfilo, politizado, são atestadas pelos mais destacados cineastas que com ele conviveram e conheceram sua trajetória de militante na luta contra a ditadura brasileira na área que mais conhecia, e pela qual era apaixonado, o cinema.
Cosme era corajoso e generoso, dizem figuras da crítica, da produção cinematográfica e da pesquisa acadêmica nacional, como José Carlos Avellar, Eduardo Coutinho, Carlos Diegues, Maria do Rosário Caetano, Andrea Tonacci, Wladimir Carvalho.
O cinema é, talvez, a área mais importante da resistência ao autoritarismo, porque resgata a identidade do povo brasileiro e expõe em imagens, textos e sons o que vem a ser isso que chamamos Brasil.
Cosme foi curador da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro por mais de duas décadas. Foi preso duas vezes e torturado durante a ditadura militar. Muito sofrimento, mas nada disso retirou do foco esse amazonense, de origem burguesa, apaixonado pelo cinema e por suas historias.
O filme mostra um retrato quase completo do arquivista cinematográfico e cinéfilo Cosme Alves Netto, fundador de cineclubes e ousado programador de cinemas de arte. Um recorte que Aurélio Michiles vem trabalhando desde que iniciou a sua trilogia sobre o cinema brasileiro.
O primeiro, em 1991, com “Que Viva Glauber!”, sobre o enigmático Glauber Rocha. O segundo, “O Cineasta da Selva”, que conta a história de Silvino Santos (1886 - 1970), um cineasta que trouxe às telas as primeiras imagens da Amazônia no início do século XX.
Durante a exibição deste elaborado documentário de 1 hora e 37 minutos, em DVD, a gente fica sabendo de histórias corajosas de Cosme, como o dia em que ele levou para Leipzig, na Alemanha, um filme censurado pelos militares, aqui e no exterior.
O cineasta Andrea Tonacci, autor de “Blá, blá, blá”, curta-metragem que ganhou o Festival de Cinema de Brasília de 1968, conta que Cosme não só exibiu o filme proibido na Cinemateca do MAM como o levou, em sua bagagem, para a Europa com o nome de “Anônimo nº 1”, do Brasil. Foi assim que Tonacci teve sua estreia internacional.
Eu recomendo.
Criado em 2017-04-30 22:35:32
Antônio Carlos Queiroz (*) -
Esperei mais de um ano para ver o filme do diretor inglês Terence Davies, “Além das Palavras” (A Quiet Passion), sobre Emily Dickinson, a poeta da Nova Inglaterra, e até fiz propaganda dele – mas que decepção!
Formalmente, o filme é muito bem construído – maneirista, com impecável reconstituição de época e trilha sonora esmerada.
Os atores são ótimos e a atriz principal, Cynthia Nixon, é candidata certeira ao Oscar. Mas o roteiro é escuro, dark. Carrega nas tintas da depressão, da autopiedade, dos pensamentos de beira do abismo, da alma e entranhas atribuladas por dúvidas espirituais sem fim.
Davies nos apresenta uma mulher sofrida demais, reclusa ao extremo, tudo conforme a mitologia que se criou desde quando ela era ainda viva.
Mas me pareceu tudo um pouco piorado – Emily parece uma matrona coroca, dada a rompantes de raiva, a agressões aos empregados, e além disso é moralista.
Seu irmão, Austin (Benjamin Wainwright) ali não tem nada do homem charmoso, exuberante, colecionador de obras de arte, que a mantinha informada do que acontecia no mundo da alta cultura.
Ele está sempre acuado pelo pai, Edward (Keith Carradine), ou por Emily, que o trata a ponta pés. A outra irmã, Vinnie, é a mais equilibrada dos três, na bela atuação de Jennifer Ehle.
Necas no filme sobre a amizade inspiradora (e safada, dizem a más línguas!) de Emily com a cunhada Susan Gilbert (Johdi May), mulher culta e lida, que foi uma de suas críticas mais afiadas, a sangue quente.
No seu lugar temos uma amiga inventada pelo cineasta, Vryling Buffam (Catherine Bailey), que exprime, essa sim, o wit, o charme e a picardia dickinsonianos. Por que a esquizofrenia?
Mais: pitiribas de sua relação tiona com os sobrinhos Frances e Louisa Norcross, a quem mandou um bilhete premonitório de sua morte (“Called back” – “Chamada de volta”).
Nem traço de suas molecagens (presentes nos poemas e cartas) – uma vez ela mandou pelos correios a uma prima o rabo que um gato da irmã perdeu num acidente.
Nem um au há na fita sobre Carlo, o cachorrão newfoundland que a acompanhava pelas brenhas de Amherst – o “meu confederado”.
Picas de sua intimidade com o Lexicon (a edição de 1844 do dicionário Webster), com Shakespeare, com os “parentes das estantes” (os livros).
Nem um frame de sua extensa correspondência com mais de 90 pessoas, a quem encaminhava seus poemas, às vezes acompanhados de flores e bolos que ela mesma assava.
Que drôle de “reclusão”, a do mito, foi aquela? Cynthia Nixon disse que, se viva fosse, Emily seria hoje uma tuiteira!
No filme, também nonada da troca de cartas que ela manteve com seu mentor, Thomas Wentworth Higginson durante 25 anos, e que foi o seu primeiro editor post-mortem, junto com Mabel Loomis Todd, a amante do irmão Austin.
É certo que Emily nunca levou em conta as dicas técnicas (convencionais) de Higginson, mas também é certo que esse importante crítico da revista The Atlantic, discípulo de Ralph Waldo Emerson, feminista militante, comandante do primeiro regimento de soldados negros do Exército da União na guerra civil e correspondente de Charles Darwin, era uma de suas principais fontes de inspiração, como informa Brenda Wineapple em “White Heat”.
Nadica da troca construtiva que Emily manteve com os empregados da casa, negros e irlandeses, de quem aprendeu expressões em inglês que os críticos mal humorados e ignorantes de linguística consideram “broken English”, mas que é apenas antigramatiqueiro.
Aos irlandeses parece que ela deve os vestígios da cultura católica que frequentam os seus poemas. E foram seis irlandeses, por expressa determinação sua, que carregaram o seu caixão, desde a sua casa até o cemitério.
A cena do ataúde na carruagem nunca existiu – é só uma licença poética de Terence Davies para encaixar um dos poemas mais populares de Emily, “Because I could not stop for Death”.
Tirando os nove, o pior é que o filme não projeta a dimensão gloriosa, exuberante, cerebral, visceral e também ambígua, humorística e irônica (Carlos Daghlian!) da obra de Emily Dickinson, considerada por muitos a maior poeta dos Estados Unidos, talvez do mundo – traduzida no Brasil, pioneiramente, por Manuel Bandeira, desde 1942.
A gente só vê, quase, o seu lado breu, agônico – magistralmente interpretado por Cynthia Nixon, aliás.
O princípio romântico a que ela é fiel, o da beleza equiparada à verdade, é subvertido. A beleza em Além das Palavras está a serviço só de uma faceta do diamante, a mais sombria.
O filme de Terence Davies é ótimo para quem toma remédio tarja preta!
Cadê a Emily Dickinson pós-transcendentalista, epicurista, spinozista via George Eliot (o ápice do que ela entende por “glória”), a “budista acidental” (RC Allen), que aos sábados prefere um passarinho como corista aos hinos da igreja?
Cadê a Emily jardineira, que vive entre tordos, rosas, trevos e abelhas e até ganha uns trocados com o tabaco que cultiva? Cadê a Emily de visão científica, aquela que diz que Darwin “descartou o Redentor”?
Que é da Emily vulcânico-erótica das “Noites Selvagens”, das Cartas ao Mestre? Onde está a “Madame Sade de Amherst”, de que fala Camille Paglia? Onde a Emily cuja imaginação rivaliza com a de Shakespeare (Harold Bloom)?
É óbvio que cinebiografia não tem de ser documentário. Qualquer cineasta acaba romantizando para suprir a falta de informações, ou porque as suas lentes são mesmo românticas.
É também óbvia a necessidade de escolher um recorte da vida da personagem para caber em duas horas – senão jamais veríamos o Guerra e Paz.
Mas tudo isso posto na balança, e me arriscando a ser taxado de sectário, sou obrigado a dizer: a Emo (!) Dickinson de Terence Davies não é a minha Emily. Absolutely!
---------------------
(*) Antônio Carlos Queiroz é jornalista e costuma traduzir Emily Dickinson nas horas vagas para aprender inglês.
Criado em 2017-04-29 03:59:58
O Conselho de Cultura do Distrito Federal (CCDF) faz um chamamento público para que sejam indicados representantes da sociedade civil para a composição do Conselho Consultivo de Economia Criativa do Distrito Federal – Concec-DF.
A Portaria nº 23, de 02 de março de 2016, que instituiu o Programa Território Criativo, indica que os membros da sociedade civil que compõem o CCDF têm a prerrogativa de indicar 10 representantes da comunidade para comporem o Concec-DF.
Com o objetivo de estabelecer atuação intersetorial e participação social no planejamento e acompanhamento da agenda de economia criativa do Distrito Federal, o Conselho terá como principais atribuições:
a) identificar e qualificar temas estratégicos para a formulação da agenda anual para o desenvolvimento de políticas voltadas à economia criativa do Distrito Federal;
b) promover articulação interinstitucional de entes estratégicos ao desenvolvimento da agenda;
c) propor a elaboração de estudos, consultorias e pesquisas, dentre outros instrumentos úteis à consecução de suas atribuições;
d) disponibilizar cenários de orientação para a formulação e avaliação da agenda; e
e) propiciar um ambiente de geração de conhecimento e debate especializado sobre temas afetos à economia criativa.
Os interessados devem encaminhar suas indicações por meio do e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo., até o dia 15 de maio.
Os candidatos devem enviar currículo resumido, contatos e outros materiais que possam contribuir para a indicação do CCDF, como portfólio de atuação pessoal.
As indicações podem ser institucionais ou individuais e, caso sejam institucionais, é necessário, além dos documentos indicados anteriormente, anexar carta de indicação e anuência da entidade.
Criado em 2017-04-27 19:27:16
João Lanari Bo -
William Carlos Williams era um sujeito que levava uma vida pacata em Paterson, no estado de Nova Jersey, perto de Nova York. Era pediatra e atendia muita gente de graça. Era também um formidável poeta, uma espécie de paraninfo do modernismo literário americano.
Leitor de James Joyce, TS Elliot e Ezra Pound, Williams despojou o verso de parafernálias e trouxe a linguagem para o entorno imediato.
Acabou produzindo um extraordinário exercício musical, como definiu um crítico, que mistura o mais delicado lirismo de percepção e sentimento com a mais dura e pura realidade próxima.
Paterson é talvez o seu poema mais ambicioso, um mapeamento sentimental e desdramatizado da cidade, da cachoeira aos entreatos dos habitantes.
Paterson é também o filme que Jim Jarmusch realizou (em exibição no Cine Cultura do Liberty Mall), uma crônica com minúcia lírica do cotidiano absolutamente banal de um motorista de ônibus, e sua esposa dotada de transbordante temperamento artístico.
Jarmusch é o diretor ideal para filmar um plot ao sabor de William Carlos Williams. O motorista é poeta, circunspecto e gentil, atencioso e distraído.
Tem o incrível dom de transformar esse entorno imediato em matéria poética (os versos são de Ron Padgett, outro lírico que trafega na veia de Williams).
A esposa, em uma “redeeming feature” inesperada, é sua maior admiradora (talvez a única).
O desenrolar da história, enfim, é apenas um pretexto para nosso motorista elaborar seu material e inscrever as palavras.
Alguns poucos personagens complementam a galeria, até mesmo o cachorro, parecem dialogar nesse mundo onde as palavras alçam vôo e pousam com graça e elegância, sem espalhafato.
Nada acontece e tudo acontece. Um encontro com uma adolescente revela uma fraternidade poética, e outro com um japonês desvela uma comunhão literária.
Paterson funciona com antídoto para a vertigem digital de imagens que assola a cidadania. Uma caixinha de fósforo também serve para fazer poesia, enfim.
Criado em 2017-04-25 19:42:16
Retrospectiva completa e exibição de obras raras do cineasta italiano Michelangelo Antonioni, de 3 a 29 de maio. Programação inclui obras-primas como “A Noite”, “O Eclipse”, “Blow-Up – Depois Daquele Beijo”, “Zabriskie Point” e “Passageiro, profissão: Repórter”. Agende.
Criador de filmes ‘visionários’, segundo o sueco Ingmar Bergman, Michelangelo Antonioni (1912 – 2007) marcou a história do cinema com um estilo único, que incluía poucos planos, diálogos sucintos, longas e belas sequências, espaços para a contemplação, para o silêncio, para o respiro dos espectadores.
A obra desafiadora deste mestre do cinema estará agora ao alcance do espetador. A mostra Aventura Antonioni vai exibir uma retrospectiva completa do realizador que conquistou todos os principais prêmios do cinema mundial.
Realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil, a mostra poderá ser vista de 3 a 29 de maio, no Cinema do CCBB.
A curadoria é de Paulo Ricardo Gonçalves de Almeida e produção da Voa Comunicação e Cultura.
Serão ao todo quatro semanas de exibição, com títulos em formato 35mm e arquivo digital, em cópias diretamente cedidas pela Cinecittá Luce.
A retrospectiva completa do diretor, roteirista e produtor Michelangelo Antonioni contempla desde o início da carreira, com seus pouco vistos curtas-metragens documentários, até as colaborações finais com cineastas como Wim Wenders (“Além das Nuvens”), Steven Soderbergh e Wong Kar-Wai (“Eros”), passando pela fase mais conhecida, de obras-primas como a “trilogia da incomunicabilidade” (“A Aventura”, “A Noite” e “O Eclipse”) e chegando a títulos que marcaram a história do cinema como “Deserto Rosso – O Dilema de uma Vida”, “Blow-Up – Depois Daquele Beijo”, "Zabriskie Point” e “Passageiro, profissão: Repórter”.
Além destes, Aventura Antonioni contempla filmes dos quais o diretor participou de algum modo, como Um Piloto Retorna (assina o roteiro), Abismo de Um Sonho (que foi inspirado em seu curta L'amorosa Menzogna), Trágica Perseguição e Tempestade (assistente de direção).
As exibições serão acompanhadas da aula magna Antonioni Overground, no dia 19 de maio, a partir das 19h, ministrada pelo crítico italiano Adriano Aprà, um dos maiores historiadores italianos e nome fundamental da crítica europeia desde os anos 1970.
A aula terá entrada franca, mediante a retirada de senhas na bilheteria, que começam a ser distribuídas uma hora antes do início da sessão.
Também como atividade inclusiva e entrada franqueada ao público, a mostra Aventura Antonioni realizará sessão especial do filme “Amores na Cidade”, com audiodescrição e closed caption, na quarta, dia 17/5, às 15h. Interessados deverão retirar senhas na bilheteria do Cinema do CCBB, com uma hora de antecedência.
E no dia 22, às 19h, um debate reunirá os professores Mike Peixoto, pesquisador de estética e teoria cinematográfica, e João Lanari Bo, escritor e autor do livro Cinema Japonês, com mediação do curador Paulo Ricardo Gonçalves de Almeida. O debate terá tradução em libras e entrada gratuita.
Aventura Antonioni inclui ainda um catálogo feito a partir de um intenso trabalho de pesquisa sobre a obra do cineasta, com fotos, fichas técnicas, filmografia comentada e textos sobre o universo de Michelangelo Antonioni.
A obra contém artigos críticos e configura-se como verdadeiro legado da mostra, fonte de pesquisa bibliográfica no Brasil, com ensaios e entrevistas.
O catálogo será editado pelo crítico italiano Adriano Aprà. O lançamento ocorrerá em 19 de maio, no mesmo dia da aula Antonioni Overground.
Um cinema que ressoa
Detentor dos maiores prêmios dos principais festivais de cinema do mundo, responsável por dar início ao que a crítica chamou de “segunda fase do neorrealismo italiano”, Michelangelo Antonioni ajudou a definir o filme como uma arte moderna.
Seu cinema, difícil de catalogar, influenciou uma geração de realizadores e abriu espaço para a abordagem das complexidades da vida de personagens da era contemporânea.
Roland Barthes, o grande crítico, sociólogo, escritor e filósofo francês defendeu, em 1980, durante cerimônia em que Antonioni foi premiado com o Archiginnasio d’oro, de Bolonha, três virtudes em Antonioni: observação, sabedoria e fragilidade.
Por observação, segundo Barthes, entende-se o dom do diretor em examinar e olhar o mundo detidamente, ao invés de tentar muda-lo. Antonioni trabalhava as sutilezas do que é dito e visto, como se o sentido de seus filmes continuasse mesmo depois da saída do cinema.
A sabedoria de Michelangelo Antonioni, para Barthes, era que o diretor estava convencido de que não existia uma só verdade e sim que esta oscila no decorrer da experiência humana. Então, ao mesmo tempo em que as imagens de seus filmes não ocultam nada, tampouco são óbvias. Sempre há mais a ser dito e refletido.
Por fim, Barthes defende a fragilidade como virtude em Antonioni, já que o diretor correu sempre o risco de fazer tombar certezas convencionais. E, para o filósofo, a atividade do artista desperta receio justamente por perturbar a comodidade, a segurança e a opinião unânime.
Michelangelo Antonioni admitia sua necessidade de expressar a realidade para além dos termos estritamente realistas. Ele não explorou a livre fantasia, como seu contemporâneo Federico Fellini (1920-1993), nem se ajustou a um realismo duro e popular, como o Roberto Rossellini (1906-1977) de Roma, cidade aberta (1945) – embora seu primeiro trabalho, o documentário Gente do Pó (1943-1947) tenha sido precursor do neorrealismo italiano.
O primeiro filme de ficção de Antonioni, Crimes da Alma (1950) inaugurava uma segunda fase do celebrado movimento italiano, dando mais atenção à psicologia dos personagens.
Antonioni foi um dos observadores mais incisivos das ambiguidades da vida moderna. Seus filmes defendem liberdade dos clichês morais e abordam as ambivalências e confusões enfrentadas pelas personagens mais do que a mera sobrevivência.
Para abordar esta temática sutil, ele desenvolveu um estilo visual e auditivo único.
Desde o primeiro momento, o cinema de Antonioni continha planos audaciosos e exercícios de montagem, já presentes em Crimes de Alma – o filme contém ¼ da média habitual de planos de um filme de Hollywood na época.
Muitos são os filmes de Antonioni que estão na galeria dos mais importantes da história do cinema. A começar pela “trilogia da incomunicabilidade”, formada pelos filmes “A Aventura” (1959), “A Noite” (1960) e “O Eclipse” (1961). Depois, o angustiado “Deserto Vermelho” (1964), também com Monica Vitti; o intrigante “Blow Up – Depois Daquele Beijo” (1966), com uma livre adaptação do conto Las Babas Del Diablo, de Julio Cortázar; o apocalíptico “Zabriskie Point” (1969); o extraordinário Passageiro: Profissão Repórter (1974), com Jack Nicholson numa de suas maiores performances; “O Mistério de Oberwald” (1980), sua experiência em vídeo; e “Uma Mulher” (1982), que marcou seu retorno ao universo feminino que ele abordou como poucos.
Em 1985, Antonioni sofre um AVC que o deixa praticamente sem fala. Mas o diretor não para de produzir e assina outras sete obras antes de falecer aos 94 anos em 2007. Numa parceria com Wim Wenders fez “Além das Nuvens” (1995), adaptação de um texto próprio, Bowling Sul Tevere, protagonizado por John Malkovich.
Já doente, em cadeira de rodas, faz questão de prestigiar a exibição do filme “Eros”, em 2005, seu último trabalho, partilhado com Wong Kar Wai e Steven Soderbergh, no qual assina o episódio “O Fio Perigoso das Coisas’.
Michelangelo Antonioni
Michelangelo Antonioni nasceu em 29 de setembro de 1912, de uma família de classe-média, na cidade de Ferrara.
Estudou economia na Universidade de Bolonha, onde co-fundou um grupo teatral.
Enquanto se dedicava à pintura e trabalhava em diferentes posições da indústria cinematográfica, Antonioni escrevia críticas para a revista “Cinema”, editada por Vittorio Mussolini, filho do Duce, que reuniu em seus quadros a geração que iniciaria o neorrealismo após a Segunda Guerra Mundial: Giuseppe De Santis, Carlo Lizzani, Luchino Visconti, Roberto Rossellini e Federico Fellini.
Em 1947, Antonioni dirigiu seu primeiro filme, o curta-metragem documentário “Gente do Pó”, retrato dos pescadores do vale do Pó onde ele cresceu.
Insatisfeito com os rumos neorrealistas do cinema italiano, ele dirigiu uma série de curtas documentários oblíquos e excêntricos, que revelavam seu desejo de explorar os mistérios da psique interior das personagens.
A consagração internacional de Michelangelo Antonioni ocorre no Festival de Cannes de 1960, quando, em meio a vaias do público e aplausos entusiasmados de colegas artistas e cineastas, apresentou “A Aventura”, com o qual ganhou o Grande Prêmio do Júri.
Com “A Noite” e “O Eclipse”, todos realizados com a então companheira Monica Vitti, “A Aventura” compõe a chamada “trilogia da incomunicabilidade”, considerada um dos momentos mais altos do cinema em todos os tempos.
Junto com Robert Altman, Michelangelo Antonioni é o único diretor a vencer os três maiores prêmios do cinema europeu: a Palma de Ouro em Cannes por “Blow-Up – Depois daquele Beijo”, o Leão de Ouro em Veneza por “Deserto Rosso – O Dilema de Uma Vida”, e o Urso de Ouro em Berlim por “A Noite”.
Em 1995, o diretor recebeu um Oscar pelo conjunto de sua obra, “como sinal de reconhecimento a um dos mestres do estilismo visual”.
Criado em 2017-04-23 19:25:24
João Lanari Bo -
“Minha crise interna consiste em que não sou capaz de me identificar com o eu do meu passaporte, o eu do exílio”. Stefan Zweig, o formidável escritor - tema do filme em cartaz no Cine Cultura do Liberty Mall que leva o premonitório título de “Adeus, Europa” - era o autor mais traduzido do mundo quando cometeu, com a mulher Lotte, um duplo suicídio, em Petrópolis, no carnaval de 1942.
Duplo suicídio é um dispositivo corrente na literatura japonesa, e por extensão no cinema.
Mas Zweig era um judeu austríaco, vidente de uma Europa sem fronteiras e guerras.
Como mostrar uma decisão como essa? A câmera estática de Maria Schrader, a diretora do filme, capta os instantes imediatamente posteriores à morte do casal, de um ângulo onde se vê parte de sala, hall interno e varanda ao fundo.
Entram pessoas próximas do casal em Petrópolis, línguas e sotaques variados, negros e brancos. A imagem é fria e distante, mas a tensão subjaz.
São meia dúzia de fragmentos dos últimos anos de Zweig, a maior parte no Brasil, mas também Buenos Aires e Nova York.
Na América apenas uma sequência extraordinária no apartamento da ex-mulher, igualmente foragida. Muito diálogo, reencontros e ansiedade (o ano era 1939).
Na Argentina, um Congresso de escritores que se transforma em ato público contra o emergente nazismo (o ano era 1936).
O fio seco que conduz a narrativa desvia a contenção emocional para o rosto dos protagonistas, os excepcionais Josef Hader, Aenne Schwarz (companheira) e Barbara Sukowa (a ex).
O assombro toma conta de Zweig, quase imperceptível, mesmo para os espectadores contemporâneos que conhecem o fim trágico. Assombro interior, e perplexidade com o que se passava ao redor.
O Brasil foi um alívio nesses anos de tormenta. Em um de seus melhores textos, Zweig dizia de Fouché, o revolucionário de 1789 que virou chefe de polícia de Napoleão e sobreviveu à restauração da monarquia em seu país, a França: “o Ministério, o Senado e a representação popular são maleáveis como cera em sua mão de mestre”.
Stefan Zweig não era maleável e acabou não segurando a onda, na placidez petropolitana.
Tinha 60 anos quando se matou. Thomas Mann, outra estrela literária na oposição a Hitler, achou o ato covarde, um triunfo para os dominadores da Alemanha.
Mas se arrependeu dez anos mais tarde, compreendendo que Zweig "não queria e não podia continuar vivendo no mundo cheio de brados de ódio, barreiras hostis e o medo brutalizante que hoje nos cerca".
Mann escreveu essas linhas em 1955. Hoje os brados parecem se reagrupar na velha Europa, de novo.
Criado em 2017-04-17 11:40:46
Andrés "Pituquete" Hernández se apresenta nesta quarta-feira (12/4), às 20h, o Concerto Guaíba, no Instituto Cervantes (707/907 Sul). Entrada franca.
O violonista chileno Hernández, radicado em Sevilha, se apresenta pela primeira vez em Brasília acompanhado da cantora espanhola Encarna Anillo e a bailarina carioca Eliane Carvalho, além dos artistas Tatê, Raphael Cortés e Patrízia Veloso.
No programa estão previstas canções próprias de seu último disco "Abra" e algumas inéditas de seu próximo trabalho como concertista, previsto para ser lançado ainda esse ano.
Batizado como Pituquete por seu primeiro professor, o violonista chileno Carlos Ladermann, a carreira de Andrés Hernández como solista transcendeu os limites de seu país e chegou a Sevilha, capital da Andaluzia, onde nasceu o Flamenco.
No início da década de 2000, Hernández começou a tocar violão como aluno de Ladermann, em Santiago, Chile, alternando o estudo de violão flamenco e de composição na Escola Moderna de Música.
Durante a década, realizou viagens à Espanha para continuar sua formação. Chegou a estudar em Barcelona nos famosos cursos de violão de Mamolo Sanlúcar, que, por sua vez, foi professor de Carlos Ledermann no anos 1980.
Serviço:
Concerto Guaíba - Andrés "Pituquete" Hernández
Data: 12 de abril
Horário: 20h
Local: Instituto Cervantes - SEPS 707/907 Lote D
Telefone: 61 3242-0603
Criado em 2017-04-12 01:07:23