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No próximo dia 20 de novembro, domingo, às 15h, o público de Brasília viverá um momento especial e inédito: a inauguração de dois grandes outdoors com mensagem de caráter crítico, sobre o Teatro Nacional de Brasília que está fechado há nove anos.
Nos outdoors estarão instalados mecanismos especiais para a contagem progressiva da quantidade de dias em que o Teatro Nacional está fechado. No dia 20 de novembro essa contagem atingirá a marca de 3.245 dias.
Durante o evento, ao ar livre, será feita a estreia mundial da obra coral-sinfônica de Jorge Antunes intitulada Trenodia para um Teatro Fechado para coro misto, orquestra, declamadores, buzinas de automóvel, tiros de foguete e sons eletrônicos, escrita especialmente para o evento.
O coro de 50 vozes tem a preparação do maestro Alfredo Ericeira e o grupo de automóveis tocará buzinas sob a regência do maestro Jorge Antunes. A orquestra, formada especialmente para o evento por músicos voluntários, terá a regência do maestro Jorge Lisbôa Antunes,
Para a composição da obra, Antunes fez chamamento público convidando poetas, jornalistas e intelectuais a lhe enviarem pequenos textos, versos, quadras e haikais alusivos à grave questão do fechamento prolongado do Teatro Nacional de Brasília.
Assim, na parte coral da obra são usados textos inéditos de Nicolas Behr, Cristovam Buarque, João Carlos Taveira, Gerson Valle, Vicente Sá, Anderson Braga Horta, Nara Fontes, Yonaré Barros, Carlos Augusto Cacá, Rudolfo Lago, Romário Schettino, Francisco Kak, Maria Félix Fontele, Amargedom, Wélcio de Toledo, José Sóter, Marcos Fabrício Lopes, Noélia Ribeiro, Vanderlei Costa e Xico Chaves.
Poetas e atores de Brasília atuam na obra, declamando os minitextos cantados pelo coro.
O evento será realizado ao ar livre, em área do bairro Lago Norte de Brasília, com entrada franca: na SHIN QI 5, conjunto 3, casa 23; FUNDOS (em frente à Escola Tia Bibia).
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SERVIÇO:
Concerto com apresentação da obra Trenodia para um Teatro Fechado, para coro misto, orquestra, declamadores, buzinas de automóvel, tiros de foguete e sons eletrônicos, de Jorge Antunes.
Dia: 20 de novembro, 15h00
Local: Área verde do Lago Norte - SHIN QI 5, conjunto 3, lote 23
Entrada franca
Criado em 2022-11-15 14:32:25
Prof. Enio Pontes (*) -
O aprofundamento da crise institucional no Brasil trouxe consigo, pelo menos, um reflexo imediato: o agravamento do cenário econômico. Com ele termos como ajuste fiscal, déficit público, déficit primário e dívida pública passaram a irrigar os noticiários.
Um “rendez-vous” que trouxe de volta às primeiras páginas dos jornais os assuntos econômicos, como era comum nos anos 1980 quando houve crises de repercussão semelhantes à atual.
A “quebra do petróleo” em nível mundial e, aqui no Brasil, as diversas tentativas de estabilizar a economia por meio de pacotes econômicos, como os planos Collor, Bresser e Cruzado são alguns exemplos.
Desta vez o conceito do momento é o da dívida pública. Em praticamente todos os debates, entrevistas e comentários acerca da situação do Brasil, a dívida pública aparece como protagonista.
Mas é preciso entender o que, de fato, vem a ser a dívida pública. Quem paga, quem cobra e, acima de tudo, quem se beneficia com ela. Partamos então do conceito extraído do portal (www.auditoriacidada.org.br):
“A dívida pública abrange empréstimos contraídos pelo Estado junto a instituições financeiras públicas ou privadas, no mercado financeiro interno ou externo, bem como junto a empresas, organismos nacionais e internacionais, pessoas ou outros governos”.
O papel institucional da dívida pública é, em tese, ampliar a capacidade do Estado em investir no bem estar social, em programas voltados para a educação, saúde, habitação e políticas públicas de inclusão social.
Pelo menos é o que preconiza a legislação que regulamenta a matéria. Todavia, uma crítica importante que se faz ao modelo de financiamento do Estado por meio da dívida pública é de que a dívida, ao contrário do que é proposto pelo texto legal, tem sofrido enormes distorções é está servindo basicamente para ampliar os lucros do sistema financeiro.
Mas por que isso acontece? Porque os bancos brasileiros e estrangeiros detêm 62% do chamado “estoque da dívida”, ou seja, essas instituições financeiras são as principais credoras do país, cujo déficit primário é buscado incansavelmente pelo governo para pagar principalmente os
juros estratosféricos devidos a essas instituições.
Fica clara a distorção, à medida que recursos que deveriam financiar as atividades fins do Estado estão sendo utilizados para aumentar o poder do sistema financeiro nacional.
Outro tema importantíssimo que está intimamente relacionado à dívida pública é a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241/55, enviada pelo governo Temer ao Congresso Nacional.
A emenda aprovada propõe o congelamento dos investimentos sociais por 20 anos, mas também pretende estabilizar a dívida pública.
De acordo com a economista Laura Carvalho, em artigo publicado na Folha de São Paulo, o argumento do governo de que a PEC 241/55 servirá para estabilizar a dívida pública não se sustenta.
Ela explica que a crise fiscal brasileira é uma crise de arrecadação. As despesas primárias, que estão sujeitas ao teto, cresceram menos no governo Dilma do que nos dois governos Lula e no segundo mandato de FHC.
Ela alerta que o problema é que as receitas também cresceram muito menos – 2,2% no primeiro mandato de Dilma e 6,5% no segundo mandato de FHC, já descontada a inflação.
No ano passado, ainda segundo a economista, as despesas caíram mais de 2% em termos reais, mas a arrecadação caiu 6%.
Por fim, é preciso que a sociedade tenha a maior quantidade possível de informações para entendermos os cenários que nos avizinham.
As medidas propostas pela PEC 241/55 terão repercussões efetivas nas nossas vidas. Do ponto de vista das políticas públicas, o Conselho
Nacional de Saúde, em recente estudo, publicou que poderá haver perdas no setor da ordem de R$ 700 bilhões, caso haja paralisação por 20 anos nos investimentos.
Na educação, especialistas apontam o enfraquecimento das universidades públicas, com a redução de verbas para ensino, pesquisa e extensão.
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(*) O professor Enio Pontes é Secretário-Geral da ADUFC-Sindicato
Coordenador Estadual da Auditoria Cidadã da Dívida Pública.
Criado em 2016-12-22 00:05:40
Como agrupamentos de pessoas viram movimentos organizados? Rejeitando a ênfase em indivíduos e multiplicidades, Multidões e partido, de Jodi Dean, reitera a necessidade de repensar o sujeito coletivo da política e demonstra a importância de ver o partido enquanto organização capaz de revigorar a prática política.
Partindo de exemplos como o Occupy Wall Street, Jodi Dean destaca uma contradição interna desses movimentos: o individualismo de correntes ideológicas democráticas, anarquistas e horizontalistas acaba por minar o poder coletivo que de início se almejava.
Citando outros acontecimentos da mesma época, a autora argumenta que discussões anteriores deixaram de considerar as dimensões afetivas da forma partido, bem como a maneira pela qual esta viabiliza a formação de vínculos entre as pessoas: “A celebração da individualidade autônoma nos impede de colocar em primeiro plano o que temos em comum e, assim, nos organizar politicamente”, argumenta.
Ensaio sintético com recorte e análise bastante originais, reabilita tradição e prática comunistas clássicas sem apelo a tradicionalismo ou nostalgia, mobilizando linguagem, abordagem e arcabouço teórico ancorados na atualidade política e na filosofia e teoria social contemporâneas: “Recorro a Robert Michels e Jacques Lacan para pensar os afetos que o partido gera e os processos inconscientes que ele mobiliza […]. A função do partido é manter aberta uma lacuna em nosso ambiente, a fim de possibilitar um desejo coletivo por coletividade”, diz.
Jodi Dean é professora de teoria política, feminista e de mídia em Nova York, onde também está engajada em trabalho político de base. Criada no Mississippi e no Alabama, ela se formou na Universidade Princeton e obteve seus títulos de mestrado e PhD na Universidade Columbia. Seus livros abordam temas como solidariedade, condições de possibilidade para a democracia, capitalismo comunicativo e necessidade de construir uma política que tenha o comunismo como horizonte. Pela Boitempo publicou Camarada: um ensaio sobre pertencimento político (2021).
Trecho
“A leitura democrática da multidão tem o benefício de revelar uma divisão: turba ou povo. A multidão força a possibilidade da intrusão do povo na política. Se afinal o povo é ou não sujeito de um acontecimento de multidão, isso é algo em disputa. A multidão instaura um campo no interior do qual será travada uma luta para definir seu sujeito. Uma multidão pode ter sido simplesmente uma turba, nem sequer um acontecimento. Pode ter sido uma reunião previsível e legítima – mais uma vez, não um acontecimento, e sim uma afirmação da configuração vigente. E pode realmente ter sido um fenômeno no qual o povo se levantou em busca de justiça. O que define qual dessas alternativas determinado acontecimento de multidão será, ou melhor, terá sido, é o desdobramento do próprio processo político que ele ativa”.
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Ficha técnica
Título: Multidões e partido
Título original: Crowds and Party
Autor: Jodi Dean
Tradução: Artur Renzo
Disponível nas livrarias a partir de 21 de outubro de 2022
Criado em 2022-10-08 17:25:19
Créditos: ACQ e os Irmãos Grimm
Criado em 2020-08-24 19:34:59
Alexandre Ribondi –
A revista The Lancet, publicação inglesa científica sobre medicina, que teve sua primeira edição em 1823, não deixa de surpreender. Publicou, em 7 de maio de 2020, um editorial conciso, com concisão e com um conhecimento de causa bastante eficiente, sobre a passagem da pandemia pelo maior país das Américas Central e do Sul, o Brasil. E tirou uma conclusão que provoca estado de alerta no mundo: o combate a Bolsonaro e ao bolsonarismo é uma questão de saúde pública.
Com o título de Covid-19 in Brazil: “So what?” (Covid-19 no Brasil: “E daí?”), o artigo informa, já no primeiro parágrafo, que o Brazil detém o maior número de casos de infecções e de mortes no continente americano, depois dos EUA. Lista todos os problemas enfrentados nas grandes cidades, como Rio e São Paulo, fala da ameaça ao interior profundo, onde há “provisões inadequadas de leitos de UTI e de ventiladores”. E conclui com uma frase lapidar: “Mesmo assim, é provável que a maior ameaça à reação brasileira ao Covid-19 seja o presidente, Jair Bolsonaro”.
Para a revista, o presidente brasileiro “não se limita a semear confusão ou a abertamente ignorar e desencorajar as medidas sensatas de distanciamento físico e de bloqueio total à circulação de pessoas exigidos por governadores e prefeitos”. Como a política tem influência direta na medicina (e vice-versa), The Lancet se sente à vontade para relatar a saída do governo do ministro da Saúde, definido no artigo como “respeitado e admirado”, e do ministro da Justiça, “uma das figuras mais poderosas da direita, designado por Bolsonaro para combater a corrupção”.
A revista analisa a situação brasileira com a saída dos ministros como quem analisa uma doença grave: “Tal desordem no coração da administração é um transtorno mortal no meio de uma emergência na saúde pública e indica também que a liderança no Brasil perdeu sua bússola moral, se é que jamais teve uma”.
The Lancet se vale do Coronavírus e seu flagelo para traçar o quadro da sociedade brasileira ou, sem dar-lhe o nome, do capitalismo mundial. Fala da profunda injustiça social existente no Brasil e na extensa maioria das nações. Cita as favelas, onde em média há três pessoas por cômodo. A população indígena está também ameaçada, “desde antes da epidemia porque o governo tem ignorado e até mesmo encorajado a mineração e o desmatamento ilegais da floresta Amazônica”. Para os cientistas e ativistas citados pela revista, “o desafio é antes de tudo político, o que requer um comprometimento contínuo por parte da sociedade brasileira como um todo para garantir o direito à saúde de todos os cidadãos brasileiros”.
The Lancet sugere que o País se una para dar uma resposta clara ao absurdamente monstruoso “e daí?” de Bolsonaro. Segundo o artigo, “o presidente deve promover uma mudança radical no seu curso ou ser o próximo a sair”.
Criado em 2020-05-08 15:41:43
Marcos Bagno -
Uma acusação recorrente que se faz aos linguistas, especialmente aos sociolinguistas (que estudam as relações entre linguagem e sociedade), é que eles defendem o “vale-tudo” linguístico: para nós não existiria “certo” nem “errado”, apenas “variantes”, ou seja, formas alternativas de dizer a mesma coisa (por exemplo, “assistir o filme”/“assistir ao filme”).
Nós, pesquisadores, costumamos nos defender dessas acusações com argumentos muito bem elaborados, apoiados nas teorias que orientam nossas investigações e conclusões. No caso da sociolinguística, os conceitos mais importantes com os quais lidamos são os de “variação” e “mudança”. O lema da nossa bandeira é: “Toda língua varia no espaço e muda com o tempo”.
O espaço em que a língua varia é o espaço geográfico propriamente dito (pessoas de regiões diferentes falam de modo diferente), mas também o espaço social (pessoas de classes sociais diferentes falam de modo diferente). A mudança se processa no correr do tempo: o latim laxare mudou primeiro em leixar e depois em deixar. E, claro, a mudança não parou aí, porque deixar enfrenta hoje a concorrência de dexá, uma forma já plenamente vitoriosa na fala de todas as pessoas, sobretudo em situação informal, embora a ortografia provavelmente não venha a acompanhar a mudança na pronúncia, pois já deixou de fazer isso há muito tempo.
O que costumamos oferecer em defesa das nossas propostas de “reforma” da norma-padrão tradicional é o seguinte: quando uma forma inovadora (um "erro" na avaliação de senso comum) já alcançou a fala/escrita mais cuidada dos falantes urbanos mais letrados é porque essa inovação já se enraizou plenamente na língua de todas as pessoas, independentemente da classe social. Isso porque as inovações surgem, em geral, na fala mais espontânea das camadas médias-baixas da população. Aos poucos elas vão, como digo brincando, "subindo na vida", isto é, vão sendo incorporadas à atividade linguística das camadas superiores até que chegam ao topo da pirâmide, onde deixam de ser vistas como "erros".
Esse é um dos aspectos mais estudados na sociolinguística: a avaliação social da mudança linguística. Desse modo, muitas coisas que a tradição normativa condena como "erro" já estão plenamente incorporadas na atividade linguística de todos os falantes, incluindo os urbanos mais letrados. Nossa proposição, portanto, é do convívio dessas formas novas com as antigas: quem quiser continuar usando "assistir a X" que fique à vontade, mas não condene ninguém por usar "assistir X".
Por outro lado (tudo isso é muito complexo, evidentemente), existem determinados usos linguísticos provenientes das camadas mais baixas da hierarquia social que jamais ultrapassam a barreira das classes, que nunca "sobem na vida". São principalmente realizações fonéticas, com destaque para "grobo", "pranta" etc. e "trabaiá", "muié" etc., ao lado de aspectos gramaticais, com destaque para a simplificação da morfologia verbal (nós fala, vocês fala, eles fala etc.).
Na sociolinguística falamos de "traços graduais" (formas que são empregadas por todos os falantes, variando apenas na frequência dos usos) e "traços descontínuos" (aqueles usos que não avançam na hierarquia social). É claro que, com o passar do tempo, essas avaliações vão mudando, e um bom exemplo é o "pra mim fazer" que comparece cada vez mais na fala de pessoas altamente letradas (cada vez mais encontro essa construção no uso de médicos, engenheiros, arquitetos, advogados e até de professores de português): assim, essa construção tem toda a chance de, daqui a 50 ou 100 anos, ser considerada correta ou mesmo a única correta.
O que eu e outras pessoas temos dito nas últimas décadas é que já passou da hora de aceitar sem mais reservas essas inovações linguísticas que constituem os “traços graduais” que descrevi acima. Por que censurar uma forma como “deixa eu entrar”, se ela é empregada por todas as pessoas no Brasil, do Caburaí ao Chuí? (Em tempo: se você acha que o Oiapoque é o ponto extremo norte do Brasil, revise sua geografia!)
Ora, pois muito bem. Uma leitora muito atenta, Ivete Santos, me escreveu há pouco para fazer uma pergunta daquelas que põem a gente contra a parede. Ela questiona se esse projeto de incorporar no padrão aquilo que já é plenamente aceito pelas camadas urbanas letradas não seria uma nova forma de elitismo, uma vez que desconsidera os usos das outras camadas sociais, infinitamente mais numerosas?
Para meu alívio, a resposta já foi dada por ninguém menos do que Carlos Alberto Faraco, um dos linguistas mais lúcidos que temos entre nós. Em texto de 2011, contido no livro Políticas da norma e conflitos linguísticos (Editora Parábola), ele escreve sem rodeios: “Nosso raciocínio de linguistas é, como se pode ver, muito sóbrio, muito ponderado, muito bem empiricamente informado e, digamos com todas as letras, conservador”.
Para muitos sociolinguistas, ser chamado de “conservador” é mais que um tapa na cara, é um soco no estômago. Mas Faraco tem toda a razão, porque, no fundo, ao querermos defender uma “norma culta” que inclua os usos já enraizados na atividade linguística das camadas urbanas letradas, o que estamos fazendo é aceitar “a hierarquização social das normas como ela está dada”, conforme ele escreve.
Ou seja: dizer “deixa eu entrar” não tem problema, é “norma culta” porque os falantes “cultos” empregam essa construção. Mas dizer “as pessoa só qué trabaiá em paz” não deve ser aceito, porque “sofre rejeição”. Sim, cara-pálida, mas rejeição de quem? Muita gente diria: sofre rejeição “da sociedade”. Mas desde quando a sociedade é um todo homogêneo, um bloco compacto? Essas formas sofrem rejeição de uma parcela da sociedade, isso sim, precisamente a parcela, ínfima, que ocupa as posições mais altas da pirâmide socieconômica, que tem acesso à boa escolarização e aos direitos da cidadania. Segundo Jessé Souza, essa parcela não chegaria a 20 por cento da população total. Faz aí as contas.
Já escrevi muito sobre essa necessidade de “reformar” o padrão de acordo com os usos das camadas urbanas letradas. Hoje estou revendo essa postura e radicalizando ideologicamente meu pensamento a esse respeito. Já sabemos que as “reformas” que não implicaram nenhum tipo de ruptura com a ordem social secularmente estabelecida acabaram nos jogando nesse abismo trágico, nesse pesadelo monstruoso que é o Brasil neste exato momento. A conciliação, o entregar os anéis para salvar os dedos, o se satisfazer com as migalhas do banquete, não permitiu nem vai permitir nunca acabar com o horror social que é ter um jovem negro assassinado a cada 27 minutos, uma mulher assassinada a cada hora e meia, que é ocupar uma liderança mundial no assassinato de LGBTs e de militantes ambientalistas, que é ter um total de 60.000 pessoas assassinadas por ano, mais que o número de civis mortos na guerra da Síria. E esse terrorismo de Estado só tende a se acentuar se a máfia que assaltou o poder permanecer nele.
Temos visto nos últimos tempos a luta e as conquistas arduamente obtidas pelas mulheres, pelas pessoas negras, pelas pessoas que vivem nas periferias pobres e violentas das cidades, pelas pessoas que se opõem à heteronormatividade sexual. Temos presenciado o crescimento de movimentos sociais poderosos como os dos trabalhadores sem terra e sem teto. Toda essa gente representa a imensíssima maioria da população brasileira. E sua visibilidade crescente, sua conquista de espaço e de voz não pode se expressar a não ser nos modos de falar que são as delas e os deles, que constituem seus corpos sociais naquilo que eles são, modos de falar que são o elemento mais importante na construção incessante de suas identidades. Se recusar a “adequar” sua linguagem ao que uma parcela da sociedade exige e espera é mais uma frente de batalha na guerra pela liberdade de existir, pela ocupação dos lugares sociais que são delas e deles de direito e que sempre lhes têm sido negados.
A norma culta que se lasque, que se dane, que se esboroe!A norma culta que vá ralar o cu nas ostras! Saber falar o “bom português” nunca permitiu a ascensão social de ninguém, ao contrário do que prega a propaganda enganosa da pequena, pequeníssima burguesia. A mulher negra pode ter absoluto domínio do “padrão culto”, mas já encontra muitas portas fechadas por ser mulher e negra. Então que jogue esse padrão, esse patrão no lixo e parta para a luta com as palavras que são dela!
A partir de hoje, quando me chamarem de defensor do vale-tudo vou dizer que sim, defendo o vale-tudo na língua. Se a elite reacionária, escravocrata e genocida se vale de tudo o que tem para não ceder um milímetro de sua riqueza obscena, e isso inclui evidentemente sua forma de usar a língua, ao lado dos golpes de Estado, das arbitrariedades judiciais e do uso explícito das armas de fogo contra o povo e seus verdadeiros representantes, não tem por que exigir dos oprimidos nenhum tipo de adequação, muito menos linguística.
Toda e qualquer maneira de falar vale ouro na luta contra o fascismo!
Criado em 2018-05-05 11:18:53
Sandra Crespo -
Rio de Janeiro - O querido amigo Roberto Seabra pediu para que escolhêssemos o melhor verso do Chico Buarque. Mas, meu caro amigo, ouça um bom conselho, que lhe dou de graça: não adianta sonhar mais um sonho impossível.
Eu chorei até ficar com dó de mim, e até pensei que a tristeza fosse minha. Mas depois de ouvir samba e fazer amor até mais tarde, o mar m’arrebatou.
Afinal, eu sou funcionário, ela é dançarina - e todo mundo tem pereba, só a bailarina é que não tem!
Então, um passarinho me contou, e o pescador me confirmou, que vem aí bom tempo. Mas, agora falando sério: vi cidades, vi dinheiro, bandoleiros, vi hospícios... moças feito passarinho avoando de edifícios.
Mas, Deus lhe pague por este pão pra comer e este chão pra dormir!
Eu te chamava em silêncio - na tua presença, palavras são brutas...e eu queria ficar no teu corpo feito tatuagem... (Mas ela desatinou...)
O tempo passou na janela - o pessoal se desaponta, vai pro mar, levanta vela! Pois a coisa aqui tá preta e sei o quanto é preciso navegar...
Mas não se afobe, não, que nada é pra já. Pra mim, basta um dia. E quando o Rio for uma cidade submersa, os escafandristas virão explorar sua casa, seu quarto, suas coisas, sua alma, desvãos.
Pois, apesar de você, cada paralelepípedo da velha cidade esta noite vai se arrepiar. É verdade que o samba saiu procurando você, mas você anda dizendo desaforos pro meu lado - e eu sou apenas um mulato que toca boleros.
Tinha só pra mim que agora, sim, eu vivia enfim, o grande amor...Mentira! Deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa! Saiba que eu te perdoo por te trair.
E, no tapete atrás da porta, sonhei contigo e caí da cama. Daí, pensei: amanhã há de ser outro dia. Andei pela praia até o Leblon pra ver a banda passar, mas qual o quê! Só vi crioulos empilhados no porão de caravelas no alto mar...
Criado em 2018-08-21 21:46:49
Zuleica Porto -
A série Merlí está sendo exibida pela Netflix e é uma produção da TV da Catalunha(*).
Atena, deusa da sabedoria, na figura de uma coruja branca, observa a noite cair sobre Barcelona. O dia nasce, e mais uma aventura começa no Instituto Àngel Guimerà. É o palco onde o professor de Filosofia Merlí Bergeron bagunça o tédio de meninos e meninas do segundo ano do bacharelado, dos demais professores e até dos pais dos “peripatéticos”.
O batismo da turma acontece no primeiro dia de aula: Merlí leva todo mundo para fora da sala, seguindo o modelo do velho Liceu aristotélico.
Caminhar e pensar sempre combinaram maravilhosamente, então por que a escola segue enclausurando a juventude? Será porque a instituição não tem o propósito de formar cidadãos e cidadãs livres, mas sim de criar seres bovinos, conformados com o destino de produzir e consumir? Por que tem que ser tedioso o ambiente escolar e os conteúdos enfiados na cabeça dos estudantes sem que se saiba para que servirão na vida da criatura, além de conduzirem à posse de um certificado ou do aspiradíssimo diploma?
Quem sabe para que a manada siga, entre trabalho e consumo, repetindo pensamentos pré-moldados, frases feitas, lugares-comuns. Poderíamos fazer uma longa lista desses pensamentos organizados, imutáveis, que perpetuam preconceitos. Mas não cabe aqui, e um bom exercício seria que cada eventual leitor (a) elaborasse a sua, observando o que dizem parentes, vizinhos, professores, amizades. Deixo aqui um aperitivo: “meninos são turbulentos e inquietos por natureza, meninas são calmas e ajudam as mães”.
Nas aulas de Merlí, a garotada aprende que pensar pode doer, mas conduz à liberdade possível. A cada episódio, um pensador ou pensadora é o mote para debater as questões que atormentam a juventude, na passagem da vida adolescente para a idade adulta. São tantas, das complexas variações da sexualidade ao dilema de sair ou não da casa dos pais, trabalhar ou estudar?
Ivan não conseguia sair de casa, Merlí se oferece para ser seu professor particular. E é a partir do mito platônico da caverna que, passo a passo, vai levando Ivan de volta ao Instituto. Bruno, o filho que ele mal conhecia e com quem passa a morar, angustia-se por gostar de meninos. E desenrola-se a cena que considero a mais poética e delicada da série que está virando mania: não faz discursos grandiloquentes, diz apenas que “o amor tem muitas formas”, dá um exemplar de “O banquete” ao menino, e os dois começam a ler, cada um seu exemplar, lado a lado. Mais adiante, um episódio dedicado a Freud discute mais filigranas do desejo humano.
Mentir ou dizer a verdade? Questionam-se os “peripatéticos”. E o professor abre a discussão sobre o imperativo categórico kantiano. Joan gosta de Monica, ela também gosta dele, mas o excessivo controle com que os pais dele cercam o casal sufoca e estraga o namoro. Nada melhor que Engels e a crítica à família burguesa, que embora tenha mudado do negócio que era no século XIX para o modelo baseado no amor, continua opressiva, por mais “modernos” que sejam os casais.
Pol, de família operária, é o melhor aluno de filosofia, mas precisa trabalhar para ajudar em casa e pensa em não seguir os estudos na universidade. Qual o filósofo do episódio? Marx, obviamente. Uma professora trans aparece para substituir uma professora de licença e entra Judith Butler e a teoria sobre gênero. Questionamentos sobre a felicidade introduzem o pensamento taoísta de Lao-Tsé.
O personagem interpretado por Francesc Orella não é um herói. Longe disso. Merlí, abandonou a mulher quando Bruno era pequeno, manipula seus colegas, rouba uma prova de Catalão para facilitar a vida do filho, mente para a mãe, enfim, apronta várias.
Tampouco é o que se poderia chamar de galã. Talvez aí esteja o seu grande encanto: tem fraquezas, contradições, falhas, às vezes quebra a cara. E, como na conhecida canção de Vanzolini, “sacode a poeira e dá a volta por cima”. Não só conquista a simpatia da turma, mas consegue fazer com que meninos e meninas, mais do que decorar conceitos, aprendam a pensar com suas próprias cabeças.
Nada mais refrescante do que mergulhar nos matizes do comportamento humano para fugir da dura dicotomia reinante neste novo medievo em que vivemos. Nada mais oportuno que perguntas, dúvidas e questionamentos, quando todo mundo se acha o dono da resposta certa.
Não se pode esperar de uma série de televisão que aprofunde pensamentos complexos, nem é este o propósito. Nem que de repente saia todo mundo por aí lendo Kant, Nietszche ou Freud, ou que os cursos de Filosofia passem a ser os mais procurados por quem está ingressando na Universidade.
Mas quem sabe as aulas televisivas de Merlí consigam despertar algumas mentes inquietas para o exercício do pensar. Que é prazeroso, sim. E excitante.
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(*) Merlí é uma série de televisão produzida pela TV3 - Catalunha - sobre um professor de filosofia que, usando alguns métodos pouco ortodoxos, incentiva seus alunos a pensar livremente. Realizada em 2015, em direção de Héctor Lozano. Roteiro de Eduard Cortés, e o ator Francesc Orella no papel de Merlí. Gravado na língua catalã e exibida pela Netflix.
Criado em 2018-01-22 21:50:58
Maria Lúcia Verdi –
“A coisa mais fascinante sobre a poesia é que ela se recusa a fornecer um projeto para o ideal e constantemente nos perturba, assim, eu nunca consegui atingir o `objetivo`.”
“O meu balcão está no umbigo dela.” (Hu Xudong)
Conheci Hu Xudong (30/10/1974–22/8/2021) quando ele me visitou na embaixada do Brasil em Pequim, em 2001, querendo conversar sobre literatura brasileira, para ele então desconhecida, e sobre o Brasil, um território e uma realidade que desafiavam sua imaginação. Seu interesse era a literatura mundial, disciplina que veio posteriormente a ministrar na Universidade de Pequim (UP), onde se tornou Mestre em Literatura Comparada e Doutor em Literatura Chinesa Contemporânea. Era poeta e nos entendemos logo.
Graças a ele conheci jovens poetas jovens, confraternizei com eles em intermináveis jantares regados a baijiu - a aguardente chinesa feita de sorgo ou de arroz - e a contagiantes risadas, mesmo quando a mistura de línguas fazia de toda conversa uma louca colagem. Participei de vários festivais de poesia, em distintas regiões da China graças a ter sido introduzida a esse meio pelo Hu, jovem poeta que poderia ser meu filho.
Era tal sua curiosidade pelo Brasil que logo pensei na possibilidade de propormos à UnB que ele viesse como Leitor de chinês e cultura chinesa passar uma temporada no Brasil. Ele já sabia espanhol e inglês o que tornaria tudo mais fácil. Deu certo, e Hu passou quase dois anos vivendo na Colina, conhecendo Brasília e o Brasil. O trabalho de Hu na UnB estimulou o governo chinês a abrir o Instituto Confúcio naquela universidade.
Aprendeu português conversando com os colegas e as pessoas em geral, com quem interagia com facilidade e graça. Nesse período, eu na China, ele no Brasil, fui o pombo correio da correspondência importante entre Hu e sua namorada, com quem veio a se casar ao retornar para a China e com quem teve uma filha.
Nesse período (2001 a 2006) lutei, enquanto chefe do Setor Cultural de nossa embaixada, para que fosse aberto um curso de português do Brasil na Universidade de Pequim, o que veio a ocorrer após vários anos de visitas, almoços e jantares com o pessoal da UP, que resistia à ideia.
Tradicionalmente por lá se ensina língua nas universidades de línguas estrangeiras; iniciar um curso desse tipo na UP – o que já havia sido alvo de várias tentativas infrutíferas pelo Instituto Camões – era uma proposta por demais fora da tradição, e isto na China é complicado.
Acabamos vencendo e o presidente Lula inaugurou, em 2004, um Núcleo de Cultura Brasileira, formato e título que encontrei para burlar o “curso de língua”. Pouco depois de voltar para a China, após seu período no Brasil, Hu dirigiu o Núcleo e fez um trabalho notável junto com os professores que para lá foram enviados como Leitores.
Hu veio a ser, além de professor de Literatura mundial da prestigiosa UP e poeta, tradutor e crítico literário e de cinema, bem como foi apresentador de programa cultural televisivo. Perguntado sobre o cinema chinês dizia que os diretores Jia Zhangke e Jiang Wen, considerando que Zhang Yimou e Chen Kaige, mais internacionalmente conhecidos, deixaram de produzir grandes filmes devido às pressões políticas, bem como às complexas peculiaridades do mercado doméstico.
Em 2007, Hu publicou Uma paixão escondida no Brasil, livro que reúne crônicas e ensaios sobre o Brasil publicados no jornal com o qual colaborava em Pequim. Essa “paixão” do título pode (e deve) ser lida seja como uma paixão encoberta pela timidez própria do estrangeiro, como pelo fato de ter iniciado sua relação com a futura esposa quando aqui chegou, e ter tido de administrá-la com a ajuda dos meios eletrônicos.
Entre outros, Hu traduziu para o chinês poemas de Seamus Heaney, Ted Hughes, Czeslaw Milosz, Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Mário Quintana, Ana Cristina César, Paulo Leminski. Sua antologia de poesia brasileira O jardim da literatura brasileira é indispensável para os alunos de português e cultura brasileira.
Modernistas – Fascinado pelos modernistas brasileiros e pelos seus herdeiros, sobretudo pela poesia concreta e poesia visual brasileira, deixou-se envolver por essa linguagem outra, que o surpreendeu radicalmente. Na entrevista que concedeu a Henry Siewierski, professor da UnB e também seu amigo, para o número especial dedicado à China da revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, ele assim se refere ao livro que veio a publicar a partir de sua experiência brasileira, seu quinto livro de poesias, A força do calendário: “O título deste livro é {...} porque nos últimos meses da minha permanência no Brasil, costumava olhar frequentemente o calendário {...} Parece que existia uma força saindo do fundo do calendário, essa força estremecia o meu coração, perguntando: Onde está você?”
Além de sua estada no Brasil (2003-2005), foi professor pesquisador na Universidade de Iowa (2008) e Professor Visitante na Universidade Nacional Central de Taiwan (2010). Na antologia bilíngue New Cathay – Contemporary Chinese Poetry, editada por Ming Di, publicada pela Tupelo Presse, de Massachusetts, em 2013, lê-se na apresentação de Hu Xudong: “Ele é altamente considerado entre seus pares por seu senso de humor, sua ironia, observação perspicaz, imagética original e uso inovativo da linguagem. Ele é um dos mais interessantes poetas da China de hoje.”
Para os leitores interessados não apenas em poesia, mas na China e na recepção que a literatura universal tem tido naquele país, peço licença para transcrever trecho da entrevista de Hu, para a citada antologia New Cathay:
– Baudelaire Mallarmé, Valéry e os poetas surrealistas das tradições francesas influenciaram a poesia chinesa nas décadas de 1930 e 1940 e também na década de 1980, o que trouxe uma consciência básica da poesia moderna.
– Yeats, Pound, Eliot, Wallace Stevens e Auden, na tradição inglesa, influenciaram cada um dos poetas chineses de maneiras diferentes e em épocas diferentes, em termos da produção intelectual e criatividade em geral.
– Os poetas russos Akhmatova, Tsvetaeva e Mandelstam fortaleceram as expressões líricas na poesia chinesa. Trakl, Rilke e Celan, na tradição alemã, enriqueceram a ´profundidade` da poesia chinesa. Lorca e Neruda e outras vozes espanholas afetaram a apresentação emocional da poesia chinesa.
– Allen Ginsberg trouxe um impulso rebelde na década de 1980. Silvia Plath e outros poetas “confessionais” injetaram um forte impulso na poesia feminina chinesa, na década de 1980.
– Heaney, Milosz, Paz e Walcott ajudaram os poetas chineses a reajustar a relação entre realidade e imaginação, história e ética da escrita, modernismo e escrita contemporânea.
– Desde 2000, a poesia ocidental raramente teve um impacto global na escrita contemporânea chinesa. Sua penetração no discurso da poesia chinesa é principalmente local e até pessoal, às vezes de forma extremamente privada. Por exemplo, alguns poetas do Leste Europeu, como Zbigniew Herbert, Zagajewski e Tomaz Salamun, têm despertado grande atenção.
– Alguns poetas americanos que inicialmente não deixaram grandes impressões, ou tiveram apenas uma ligeira popularidade, estão agora se tornando grandes inspirações: Hart Crane, Frank O'Hara, Bishop e Ashbery. O mesmo acontece com os poetas não ingleses “esquecidos”: Cavafy, Machado, Vallejo e Yehuda Amichai. Eles atraíram mais interesse à medida que mais traduções foram aparecendo. Fernando Pessoa também tornou-se uma fonte pessoal de inspiração.
Último encontro – Encontrei Hu pela última vez na reunião do BRICS de 2017, quando a China propôs e realizou a primeira e única reunião do grupo que incluiu a literatura como tema, proporcionando amplos encontros, leituras e debates entre escritores e pensadores dos países membros. Iniciativa oportuna, fundamental mesmo, que deveria ser continuada. Fui um dos três membros da delegação brasileira nesse encontro, que contou com a contribuição brilhante dos professores Francisco Foot Hardman e João Cézar de Castro Rocha. Honrada com o convite, abusei da generosidade de Hu fazendo-o traduzir para o mandarim uma apresentação de quase trinta minutos sobre a poesia brasileira, dos primórdios aos dias de hoje. Além de ler os poemas dos meus notáveis conterrâneos, bem como os meus, ofereci livros de poetas brasileiros e vídeos da cineasta Maria Maia para a biblioteca da Universidade de Zuhai, que nos recebeu e hospedou impecavelmente, contando com o fato de estar ao lado da encantadora Macau.
A poesia de Hu Xudong foi traduzida para o inglês, espanhol e japonês. Recebeu os prêmios Rougang (2003) e o Liu LiÀn (1998), tendo sido publicada em antologias americanas, japonesas , e espanholas, além das chinesas. Foi nomeado um dos Dez Principais Novos Poetas da China.

Finalizo esta homenagem com minha tradução, a partir do inglês, de dois de seus poemas escritos no Brasil. No primeiro, publicado na referida edição especial da Poesia Sempre, nos últimos versos, Hu brinca com a proximidade, em chinês, do nome de sua terra natal BA SHU (em Sichuan) e o nome do Brasil, BA SHI. Em ambos, a estranheza e a proximidade dos signos brasileiros que o fascinavam, seja na rua ou na cultura letrada.
No título desta matéria nomeei Hu como “poeta do Tao”. Poeta do Tao no sentido de poeta do caminho, do caminhar, não em um sentido místico ou religioso. Poeta da surpresa frente às pedras do caminho, do encantamento frente às múltiplas faces do caminho e sua permanente mutação.
Colina
I
Todas as noites os carros trazem até aqui a tranquilidade
Perfumes desconhecidos enviam gente desconhecida
a rodas ocasionais para tomar um,
deixando solitário o cachorro,
que morde um pedaço de lua.
Até ele é desconhecido – Gustavo
ou Fernanda, abanando o rabo para mim.
Após o cachorro há o vento, após o vento a indiferença
filtrando-se no coração, devolvendo-me
a morna lua.
II
Alguém toca guitarra até desnudá-la,
outros caminham com as suas vozes,
parecendo caminhar para o outro lado do céu
Entre as vozes, uma risada me apaixona
mas a nuvem escura de dentro da risada
nunca ri.
Daqui, para a casa vizinha do vizinho –
há infinidades de vizinhos. O tempo hoje deverá ser bom –
o meu balcão está no umbigo dela.
O guarda diz boa-noite para alguém.
III
Oh, minha amada vindo da selva
poderá descansar após entrar no ouvido da noite.
Não há qualquer pássaro à noite, mas há uma cigarra
rastejando no segundo ponteiro do relógio
Cantando
Que horas serão por lá? Aqui na Colina, os poucos
prédios solitários não podem preencher meu pijama
Eu não sou o meu próprio magro corpo
Nem é o Brasil o oeste de Ba Shu
Mamma Ana Paula Também Escreve Poesia
Um cigarro de palha de milho na boca, ela me atira um livrão de poesias:
"Leia os poemas da sua mãe"
Isso é verdade, a mãe do meu aluno José
Dois Brasis no peito, uma América do Sul em seus bolsos,
Um estômago cheio de cerveja, surgindo como o Atlântico,
Essa mãe Ana Paula escreve poesia
No primeiro dia que a conheci, ela me levantou
no ar como uma águia
pegando um franguinho
Não sabia que ela escrevia poesia
Ela cuspiu em mim suas palavras molhadas, e esfregou
meu rosto com seus dedos de palmeira
Quando ela lambeu minhas orelhas em pânico
com língua de marijuana, eu não sabia que ela escrevia poesia
Todos, incluindo seu filho José e sua nora Gisele disseram
Ela é uma velha Flor Boba, mas ninguém me disse
que ela escrevia poesia
"Coloque meu professor no chão, minha Flor Boba!”, disse José.
Ela me soltou, mas continuou vomitando
Caralho, Caralho e agarrando Caralho
no ar, com os lábios
Olhei para ela
Para suas costas
Forte como urso peludo que mata
um touro, mesmo quando ela está bêbada, e eu entendi:
Ela Escreve Poesia
Mas hoje, quando acompanhei José até sua casa, e a vislumbrei deitada na piscina,
os quatro membros estendidos, fumando, não pensei Ela Escreve Poesia
Topei num rabo de cavalo
Um cara musculoso como Bob Marley, na sala de estar
Gisele me disse que esse era
o cara da sogra dela de ontem à noite
Eu não podia pensar, mesmo que você me colocasse
na frente do Exército Nacional da China e atirasse no meu pequeno
torso, que aquela Mamãe Ana Paula
escrevesse poesia. Mas Mamma Ana Paula
Mamma Ana escreve poesia Paula
escreve poesia
que arrota e peida
Eu folheei-o página por página
o livro de poesias da mamãe Ana Paula. Sim, mamãe Ana Paula escreve poesia realmente
Ela não escreve poesia gorda, poesia alcoólica,
poesia doidona, poesia sacana, ou poesia muscular sobre caras musculosos
Em um poema chamado "Três Segundos de Silêncio em Poesia"
ela escreveu:
"Silêncio em um poema
me dê um minuto e nele
posso tecer nove jardas de céu"
Criado em 2021-08-26 18:27:47
Angélica Torres -
Vamos combinar: o modus operandi de cooptar países servis aos interesses norte-americanos não é nenhuma novidade, na figura do ex-comediante Volodymyr Zelensky, o atual presidente da Ucrânia. Mas também não é nenhuma piada de salão que a série O servo do povo, por ele protagonizada em 2015, com enorme sucesso na TV ucraniana, foi o fato que o levou à presidência apenas quatro anos após, sem ter tido vivência no mundo político.
Na tal série, um professor do ensino médio se tornou o mandatário do país, depois de um seu discurso anticorrupção em sala de aula “viralizar” nas redes sociais. Mera coincidência? Ou pensou na série americana Black Mirror, vista na Ucrânia em 2013, em cujo roteiro a história de Zelensky se espelha?
Bingo!
Zelensky criou seu partido "Servos do Povo” e, com discurso eleitoral de renovação da política da velha oligarquia ucraniana, fez campanha, pelo whatsapp, defendendo a entrada da Ucrânia na União Europeia e na OTAN, a questão central do atual imbróglio com a Rússia.
A reviravolta política que marcou o país em 2013, estimulada pela raiva – essa fonte colossal de energia em plena atividade no mundo todo, via internet – impulsionou Zelensky e empoderou a extrema-direita do país, que vive hoje a situação caótica que se testemunha.
Pois, e o ex-comediante não está sendo transformado em herói nacional pela mídia ocidental corporativa capitalista – óbvio que também pela brasileira –, em franca sujeição ao império dos E.U.? Seria por uma dificuldade em fazer sinapses, ou por estranho desconhecimento de causa mesmo, que Europa e Brasil ainda não aprenderam a lição?
Revoluções coloridas e redes sociais
Recordemos que a estratégia das chamadas revoluções coloridas (criadas por Gene Sharp para abrandar a fachada do violento, sangrento imperialismo de seu país), somada às táticas dos marqueteiros de campanhas políticas como Steve Bannon e dos físicos de dados da internet, lançou um modelito que caiu muito bem em Volodymyr Zelensky. Mas não só nele.
Também se encaixaram perfeitamente no padrão os trolls, os bufões, com seus medíocres, escandalosos, perigosos reality shows diários: Trump, Bolsonaro, Orbán, Boris Johnson, Salvini e Beppe Grillo – este último, outro famoso comediante que, muito antes, no início dos anos 2000, foi usado como a experiência original, da qual surgiu inclusive o primeiro partido algoritmo da História, o Movimento 5 Estrelas, da Itália.
O que mais todos esses personagens têm em comum é nada menos que o apoio da extrema direita, a se alastrar como ovos de serpentes mundo afora. E, também, a enorme ajuda dos usuários da internet, esse território ainda livre, inexplorado e selvagem, no qual a hegemonia do politicamente correto não teve tempo de se plantar, onde mentiras e conspiracionismo viraram chaves de interpretação da realidade.
Quem afirma isso não sou eu, mas o pesquisador do fenômeno das redes sociais, que transformou o mundo, o franco-italiano Giuliano da Empoli. Este cientista político afirma – e Steve Bannon endossa –, que a Itália fascista foi o berço, o epicentro, da revolta contra o establishment que hoje agita o hemisfério norte como um todo. Da Empoli se queixou que estudiosos e observadores subestimaram esse fato, registrado em seu importante livro Os Engenheiros do Caos, lançado há exatos dois anos.
O novo round
O agudo conflito estabelecido entre Ucrânia-EUA-OTAN e Rússia mostra-se agora como o novo polo irradiador de declarações polêmicas e agressivas, de palpites desinformados (ou intencionais) trocados entre usuários das redes sociais, como torcidas de times adversários de futebol, irradiando uma histeria coletiva e estabelecendo o caos, que aos autores e condutores das revoluções coloridas interessa enormemente tensionar em cadeia mundial. “O antissistema torna-se o sistema e por trás da máscara, os espertalhões estabelecem seu regime de ferro”, explica.
Não foi assim que ocorreu em todos os países que caíram como bagrinhos na rede de intrigas da direita extremada, que veicula qualquer conteúdo político a seu favor e a favor de seus soberanos? A História recente está desenhada à nossa frente, é só irem repetindo fácil-fácil o modelo, porque o poder de persuasão da internet é tão intenso e bem estruturado que hipnotiza e não se flagram as armadilhas. Até Putin e seu staff caíram na astúcia do governo Joe Biden, com a manipulação de informações correndo solta na mídia ocidental e endossada pelo vozerio colérico nas redes sociais, ajudando a levar o conflito a se estender mais que o esperado.
Não se trata de endeusar ou demonizar o mandatário russo, ou o outro. Mas, sim, de um pouco de esforço em conhecer melhor a história de seus reinos e a da Ucrânia, antro do nazifascismo de raiz, incrustado em ponto geoestratégico do planeta; trata-se de prestar atenção ao noticiário (de uma só versão!) e de compará-lo ao cenário que na mídia independente analistas/especialistas no ramo nos decifram, distanciada e friamente.
Tratam-se ainda de tentar, pelamor!, algumas sinapses, com a moda dos golpes ocorridos na última década, em tantos países que hoje lamentam sua tonta e má sorte – esperemos pra ver o que irá acontecer com os europeus, quando a conta do gás e da energia lhes bater à porta pelo governo americano, que apoiam fanaticamente –, tal qual nós aqui, ainda alheios a esse novo estilo de praticar política e, por isso mesmo, com a infeliz possibilidade de repetição da nossa tragédia, nas próximas eleições.
Alguém disse e tomo a liberdade de repetir: pobres de todos nós, marionetes virtuais da extrema direita à mercê dos interesses econômicos das grandes potências!
Criado em 2022-03-02 20:28:27
Romário Schettino –
Uma carta aberta aos arquitetos e urbanistas brasileiros, assinada por quatro entidades profissionais em Brasília, foi divulgada ontem (12/8) conclamando a categoria nacional a não participar do concurso lançado pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal para a construção do Museu Nacional da Bíblia.
O Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), o Sindicato dos Arquitetos do Distrito Federal (Arquitetos-DF), a Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP-DF) e a Federação Nacional dos Estudantes de Arquitetura e Urbanismo – Departamento DF (Fenea) alertam para “os riscos envolvidos na participação do Concurso Público Comunitário de Caráter Cultural, na Região Administrativa do Plano Piloto”, para viabilizar o museu.
O concurso está aberto desde 19 de julho de 2021, mas o assunto vem sendo discutido desde outubro de 2019, quando o Governo do Distrito Federal deu início às tratativas para consolidar o projeto de construção.
Desde então, muitas polêmicas foram levantadas. Uma ação foi ajuizada pela Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) alegando que essa obra fere o Artigo 19 da Constituição que diz: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público”. A ação foi acolhida na primeira instância e rejeitada no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Mas o problema e as críticas não pararam por aí. O movimento cultural da cidade questiona a prioridade desse investimento em detrimento de outras urgências, como a falta de trabalho provocada pela pandemia e outras reformas de espaços como a do Teatro Nacional Cláudio Santoro, fechado há mais de 10 anos.
Recentemente, o secretário de Cultura, Bartolomeu Rodrigues, disse em uma live da Casa dos Quatro, que pessoalmente é contra o Museu, mas que a decisão de construí-lo se deu em função de uma lei sancionada pelo governador Cristovam Buarque em 1995. Essa lei sofreu alteração depois no governo Roriz, quando foi destinado um terreno para a implantação do museu no Eixo Monumental e definindo que a gestão será feita por uma entidade privada chamada Sociedade Bíblica Brasileira, de orientação cristã neopentecostal.
As declarações do secretário repercutiram na imprensa local e na Câmara Legislativa. O deputado distrital Fábio Felix (PSOL) realizou audiência pública virtual ontem, dia 12 de agosto, para debater o assunto e concluiu que é preciso repensar todo o processo. “Vou colocar o jurídico de meu gabinete para estudar a possibilidade de anular a lei por flagrante inconstitucionalidade e propor ação na Justiça para questionar o edital pelo grande número de erros e inconsistências na sua elaboração”, disse Félix.
Nessa audiência, o professor de arquitetura da UnB, Frederico Flósculo, disse que “o Museu da Bíblia é antirrepublicano, inconstitucional e ofende a Lei Orgânica do DF. O Estado laico brasileiro não pode estar a serviço de nenhuma religião e todos os governadores do Distrito Federal, sem exceção, até agora, descumpriram as leis e estiveram a serviço da especulação imobiliária”.
O que se sabe até o momento é que o museu custará aos cofres públicos R$ 26 milhões, sendo que R$ 14 milhões virão de emendas parlamentares do Congresso Nacional e o restante provavelmente do GDF para ser entregue para a gestão de uma entidade privada.
Arquitetos e urbanistas – Voltando à carta dos arquitetos. Esses profissionais contam que já haviam rechaçado a primeira tentativa, em 2019, de o GDF contratar, sem licitação, uma empresa para desenvolver projetos executivos e complementares com base em croqui de Oscar Niemeyer.
“Essa possibilidade foi fortemente repudiada pelos membros do Colegiado de Entidades Distritais de Arquitetura e Urbanismo do Distrito Federal (CEAU-DF) e do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios – Coordenação DF (Icomos-DF) através de notas públicas”, diz a carta.
Em abril de 2020, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do DF (SEDUH/DF) propôs ao IAB/DF a organização de concurso “em duas etapas”, em que a “primeira etapa” contemplasse os projetos de arquitetura do Memorial da Bíblia e Museu de Arte Sacra e a “segunda etapa” abarcasse os projetos de urbanismo para o Masterplan de integração do Eixo Monumental, restrita à porção do Eixo Monumental situada entre o Memorial JK e a EPIA9 (próximo à antiga rodoferroviária).
“Essa proposta foi rechaçada pelo IAB/DF10, em razão de: 1) incompatibilidade da organização do concurso (tal como proposto pelo GDF) com as recomendações da União Internacional de Arquitetos (UIA) e do regulamento do IAB, 2) inversão lógica de se propor a arquitetura antes do projeto de urbanismo, que no limite deveria definir o próprio parcelamento urbano - os lotes, 3) amplitude do Masterplan que considerasse, no mínimo, o trecho do Eixo Monumental entre a Torre de TV e a Rodoferroviária”, relata o documento divulgado ontem (12/8).
A partir desse momento, as relações do GDF com as entidades dos arquitetos, por falta de acordo, deixaram de existir. O governo, então, decidiu fazer o edital por conta própria e encarregou a Secretaria de Cultura de realizar o concurso público.
“Em 19 de julho deste ano foi lançado concurso com uma série de contradições e inconsistências entre trechos das bases do Edital, portarias e anexos, além de falhas no uso de terminologias das fases de projetos de Arquitetura e complementares. Apesar da quantidade de tentativas anteriores, percebe-se ainda a falta de cuidado e de respeito à legislação vigente com as quais as bases foram juntadas, resultando um mosaico impreciso”, diz a nota.
No texto da carta aberta, os arquitetos informam que no dia 26/7/21, dentro do prazo previsto no edital do concurso, o IAB/DF enviou para a comissão coordenadora uma ampla lista com os apontamentos das inconsistências e ilegalidades observadas como argumentos para impugnação ao concurso. Não se obteve resposta aos e-mails enviados em tempo razoável, e nem houve divulgação pública das questões com suas respectivas respostas na página oficial do concurso, numa inquestionável afronta ao Art. 41 da Lei 8.666, que limita a três dias úteis o prazo para julgamento e resposta dos pedidos. Essa situação foi denunciada à Ouvidoria do Ministério Público do DF, à Comissão Especial de Licitação da Secretaria de Cultura e à Ouvidoria do Ministério Público de Contas do DF.
“A falta de transparência e respeito à legislação na organização deste certame o tem colocado sob constante insegurança jurídica, contrariando a melhor prática na organização de concursos pela administração pública, e no limite, causando prejuízos ao erário público, aos profissionais envolvidos e à sociedade de maneira mais ampla”, diz o documento.
A carta ainda lista outras considerações, como:
1 - considerando que as intenções do concurso expressas no Edital e no Anexo I ferem os incisos I e III do art. 19 da Constituição, que tratam da laicidade do Estado brasileiro24 e outras dezenas de considerações técnicas, legais e políticas,
2 - Considerando que a remuneração proposta para o desenvolvimento dos projetos é inferior ao estabelecido pela Tabela de Honorários de Serviços de Arquitetura e Urbanismo (CAU/BR)30;
3 - Considerando a falta de segurança acerca da preservação dos direitos autorais morais e da possibilidade de modificação do projeto vencedor por parte do GDF em desrespeito ao autor;
4 - Considerando a não apresentação de recursos consignados no orçamento geral do Estado para remuneração de todas as fases do projeto;
5 - Considerando que a organização de Concursos Públicos de Projeto tem sido uma das principais bandeiras do Instituto de Arquitetos do Brasil desde sua fundação, em 1921;
6 - Considerando que o Instituto de Arquitetos do Brasil é a seção brasileira da União Internacional de Arquitetos (UIA), e por isso, capaz de informar aos arquitetos brasileiros se determinado concurso respeita as diretrizes da “Recomendação para Concursos Internacionais de Arquitetura e Urbanismo” adotada por aquela entidade;
7 - Considerando que o Instituto de Arquitetos do Brasil é capaz de informar aos arquitetos se determinado concurso respeita as diretrizes do “Regulamento Nacional de Concursos de Arquitetura e Urbanismo”, versão nacionalizada dos regulamentos internacionais, cuja revisão mais recente foi aprovada pelo Conselho Superior do Instituto de Arquitetos do Brasil em 201432;
8 - Considerando que mesmo não obrigatório, o respeito às recomendações da UIA e ao regulamento do IAB tem sido fundamental para o sucesso de centenas de processos licitatórios feitos por entes privados e públicos no Brasil ao longo de décadas;
9 - Considerando que o concurso para o “Museu Nacional da Bíblia” desrespeita a Constituição Federal, a Lei nº 8.666/1993, a Recomendação para Concursos Internacionais de Arquitetura e Urbanismo (UIA), o Regulamento Nacional de Concursos de Arquitetura e Urbanismo (IAB) e faz mau uso da Tabela de Honorários de Serviços de Arquitetura e banismo (CAU/BR);
10 - Considerando que não fazem parte das bases do concurso as orientações e diretrizes da paisagem urbana e dos atributos culturais do sítio que compõem o Conjunto Urbano de Brasília - CUB, sítio patrimônio mundial, e a ausência de Plano de preservação que contenha os elementos de autenticidade e integridade cultural que garantam tanto a preservação do patrimônio cultural assim como da paisagem de Brasília, elementos que precisam ser incorporados no programa de qualquer concurso público da Capital Federal;
Diante de todas essas questões colocadas em público, os assinantes da Carta Aberta sugerem “a não participação neste certame por arquitetos e urbanistas brasileiros, devido às inseguranças jurídicas causadas pelo acúmulo de vícios de conteúdo e de forma no edital e anexos do concurso para o Museu Nacional da Bíblia”.
Assinam a carta:
Maria Elisa Baptista (Instituto de Arquitetos do Brasil - Direção Nacional (IAB/DN).
Heloísa Melo Moura (Instituto de Arquitetos do Brasil/IAB-DF)
João Augusto Pereira Júnior (Instituto de Arquitetos do Brasil/IAB-DF - Comissão de Concursos de Projeto)
Mariana Roberti Bomtempo (Sindicato dos Arquitetos do Distrito Federal)
Lúcia Helena Moura (Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas - ABAP-DF)
Evelyn Marques (Federação Nacional dos Estudantes de Arquitetura e Urbanismo - Regional Centro - Fenea).
Criado em 2021-08-13 21:07:04
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
10ª edição do Guia Musical de Brasília - Pelo 22º ano consecutivo, a cantora Indiana Nomma, meio hondurenha, meio brasiliense, homenageou a argentina Mercedes Sosa com o show Mercedes Sosa – A Voz dos Sem Voz no dia 9 de julho, no Teatro Rival Refit no Rio de Janeiro, com as bênçãos do neto de Mercedes, o produtor Agustín Matus. Em breve o show chegará em Brasília.
A data coincide com os 87 anos de nascimento de La Negra. Na véspera, o álbum correspondente, com 10 canções, gravado em parceria com o violonista André Pinto Siqueira, estará disponível em todas as plataformas digitais.
Lançado pelo selo Mills Records, o álbum inclui canções imortalizadas por Mercedes Sosa como Alfonsina y el Mar, de Ariel Ramírez e Félix Luna, Gracias a la Vida e Volver a los Diecisiete, de Violeta Parra, e Si se calla el cantor, de Horacio Guarany. “Prepare-se para chorar muito”, nos disse Indiana Nomma. “São 40 minutos de choro, e mais 30 minutos com as pessoas tentando se recuperar até o final do show”.
Combinamos a conversa com Indiana no Sebinho, na 406 Norte, perto de onde a cantora morou anos com o filho, Tagore Martins de Morais. Desconfiada, ela perguntou à proprietária da livraria, Cida Caldas, sua amiga, se por acaso nós não éramos bolsominions. Depois de a Cida atestar o nosso compromisso com o comunismo desde criancinha, Indiana relaxou e acabou dando boas gargalhadas ao nos contar a história.
Este registro tem uma razão de ser: Indiana herdou dos pais, obrigados ao exílio pela ditadura militar, tanto a sensibilidade social como o gosto musical. Sua mãe, a educadora Célia Lima, participou do programa de alfabetização do governo sandinista da Nicarágua, nos anos 80. Seu pai, Clodomir Santos de Morais, foi um dos organizadores, ao lado de Francisco Julião, das Ligas Camponesas do Nordeste, tendo sido o seu último dirigente. Preso pela ditadura, foi vizinho de cela do educador Paulo Freire. Clarinetista e saxofonista, foi ele quem apresentou Indiana ao mundo da música clássica e do jazz.
Nômade – Nascida em 1976 em Honduras, quando o pai já era um importante funcionário da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Indiana cresceu em trânsito por vários países – México, Portugal, Nicarágua e Alemanha Oriental. Nesse país, a partir dos oito anos, estudou canto e teatro. Com a democratização do Brasil, veio parar em Brasília no final dos anos 80, onde morou 23 anos. Com a voz de tenorina, participou de vários corais, tendo acompanhado, em 1994, o Coro Sinfônico Comunitário da UnB, sob a regência do maestro David Junker, no Carnegie Hall em Nova York.
Em seguida, integrou o coro feminino do Instituto de Música de Brasília numa excursão à Costa Rica. “Depois disso eu fui cantar na noite, porque precisava pagar as contas, e a música erudita não dava dinheiro. Eu era muito jovem e tinha acabado de engravidar”.
Essa fase, quando “cantava discoteca dos anos 70”, durou seis anos, segundo se recorda. “Depois eu fui fazer banda de baile, fui backing vocal de sertanejo, cantei tanto coisas que eu odiava e coisas que eu amava, até que resolvi seguir a carreira solo”.
Nesse novo período, o seu principal palco foi o Gate’s Pub, na 403 Sul. Mais tarde, o Feitiço Mineiro, da 306 Norte, tornou-se a sua segunda casa, depois que os artistas locais passaram a ser mais valorizados pelo novo produtor musical do estabelecimento, Gerson Alvim, ex-Canecão do Rio.
Finalmente, em 2010, Indiana Nomma mudou-se para o Rio de Janeiro, onde consolidou-se como cantora de jazz, passando a ganhar os palcos da Argentina, Alemanha, Itália.
Ela conta que o seu primeiro grande parceiro no Rio foi Osmar Milito, pianista que havia acompanhado gente como Elis Regina, Sarah Vaughan, Leny Andrade e Sérgio Mendes. Com ele gravou, em 2015, o CD Unexpected, finalista do Prêmio da Música Brasileira na categoria “Álbum em Língua Estrangeira”.
Outras parcerias incluíram o guitarrista argentino Victor Biglione, a cantora Leni Andrade, o violonista André Pinto Siqueira, o guitarrista Nelson Faria, o guitarrista americano Mark Lambert, e a cantora Alma Thomas.
Além dos álbuns com Osmar Milito e André Pinto Siqueira, Indiana Nomma gravou outros três CDs: Lessons in Love (2017, Bossa Nova) produzido por Raymundo Bittencourt, parceiro de Roberto Menescal; Indiana & Tico (2021, Jazz), com o guitarrista Tico de Moraes, de Brasília; e Sings Adele in Bossa Nova (2022, Bossa Lounge).
Influências – Já perto do final da entrevista, o Guia Musical quer saber quais são as principais influências da cantora, tanto da música latino-americana como do jazz. Com quem ela aprendeu, por exemplo, os típicos saltos melódicos do bebop?
No primeiro departamento, Indiana elenca, além de Mercedes Sosa, os artistas que ela cresceu ouvindo na América Central – Silvio Rodríguez, Pablo Milanés, Violeta Parra, Atahualpa Yupanki, Horacio Guarany, entre outros.
Quanto ao jazz, surpreendentemente, ela diz que as maiores influências não foram as cantoras Sarah Vaughan ou Billie Holiday, mas, sim, alguns instrumentistas, como Chet Baker, Miles Davis e John Coltrane. “Para evitar o risco de repetir e imitar as cantoras, eu estudava mais os instrumentistas, os tenores, que têm uma onda mais melódica e muitos recursos do improviso. É claro que a Billie Holiday, a Sarah Vaughan, e também a Bessie Smith, uma precursora, estão entre as minhas cantoras preferidas. Atualmente eu escuto muito a Roberta Gambarini, uma italiana radicada em Nova York, espetacular em técnica, improviso e escolha de repertório”.
E entre as brasileiras? “Leny Andrade, no jazz não tem outra!”, diz ela sem pestanejar. “Mas na preferência do coração está a Rosa Passos. E tem a Áurea Martins e a Elizeth Cardoso. Das novas gerações, Fernanda Fernandes. Também gosto da Fernanda Santanna e da Liz Rosa, outras duas intérpretes espetaculares”.
Por fim, uma curiosidade: onde ela cavou o sobrenome artístico “Nomma”? A cantora explica que o seu nome de batismo, Indiana, sempre provocou confusões: ela teria vindo de Honduras ou da Índia? Um amigo, por sinal indiano, costumava chamá-la de Mama, por seu jeito maternal. Mas Mama daria duplo sentido em português… Para resolver o problema, Indiana recorreu à numerologia e acabou adotando Nomma, que remete à palavra ‘nômade’, “que é exatamente o que eu sou”.
Indiana pede para encerrar o papo porque já está atrasada para uma sessão de consultoria online. Além de cantar, ela também é produtora e oferece workshops sobre os meandros da profissão e do mercado dos músicos.

Criado em 2022-07-24 00:19:57
Luiz Martins da Silva –
Àquela tarde, o homem chegou que chegou, tava carregado. Nada do proseador de sempre. Então, o freguês, o Dono e a Dona ficaram se entendendo por sinais.
A cachaça veio ao balcão. Bebeu de um gole a primeira, fez uma careta e não de paladar, foi de sofrimento.
Não encarou ninguém, estirou foi o beiço, flechado no chão, os olhos também.
Dono e Dona da bodega se entreolharam, quando ela deu as caras, com uma nova rodada de porções de linguiça no palito.
Num repuxo de rugas, o fiel cliente gesticulou por mais uma.
E seguiram-se mais uma e mais outra e, assim, por diante.
Em geral, entre uma e outra, era pausa, era papo, anedota, trovinha... Ou, se a pá era virada, os resmungos sobre fracassos, loterias, bingo, jogo do bicho... Ainda iria bamburrar, nem que tivesse de ir a um garimpo. Chegara a ganhar 140 reais numa quadra, besteira.
Mudo, chegou; mudou ficou. Sequer olhou para o tira-gosto.
No bloquinho dos fiados ficara a pendura de dez branquinhas.
Voltou na tarde seguinte. Mas, ainda pior. Tava “cagado e cuspido” o peão com suor tresnoitado.
Muito atinada, a Dona cochichou ao Dono, quando ele foi ter com ela um momento no reservado da cozinha:
– O freguês tá com sujeira de quem dormiu na rua. A barba atrasada, de espetar mosquito; a inhaca, uma mistura de birita com azedume.
– Pra mim ele também não disse nem um oi. Não se deu ao trabalho de pedir, mas eu já fui logo com o copinho oficial. E ele só repuxando o queixo para cima, mandando uma atrás da outra e batendo com o vidro na madeira.
Silêncio. Era silêncio de se ouvir mosca voando, quebrado apenas pelo faceiro estampido da rolha e o gargolejo da serventia líquida.
Conversa não queria? Pois, conversa não teria. A experiência do casal rezava: nessas horas não se pergunta. Balcão pode ser lugar de bafo, mas, se não quiserem, não se puxa desabafo. Ainda mais daquele coração de pedra, orgulho de vergalhão.
Que vexame amargurava o contador de lorotas? Antes, piadas para todos os gostos. Era piada de português, de papagaio, doido, corno e, que ironia, até de bêbado.
Alguma coisa acabara com o riso do freguês bonachão e, pelo visto, com a altivez também.
Já ia, de novo, lá pela décima, quando uma aparição tomou de espanto o recinto. Por um momento, dava pra escutar ponteiro de relógio de pulso.
Uma mulher vultosa, pisando em plumas. Ele não atinou a sorrateira presença.
De mansinho, ela o abraçou pelas costas. Pego de surpresa, ele a repeliu com um safanão. Então, ela mostrou a que vinha. Carregou na ignorância e o imobilizou com um abraço de onça. Ele tentou refugar, mas não teve saída.
Agarrado pelo amor de sua vida, o ébrio se rendeu. Ela o arrastou como um saco de batatas. Ele não mais resistiu. E foi soluçando como uma criança desconsolada. A caminho de casa, entregaram-se às pazes.
Dono e Dona foram à calçada e ficaram olhando-os até eles se perderem de vista no braseiro da tarde.
Por alguma vergonha, ele não mais apareceu.
– E sabe como é que é, né? – Lamuriou-se o Dono ao contar o caso a um outro assíduo frequentador.
– Dívida de porre é muito complicada de se ir cobrar.
Criado em 2020-11-24 20:18:15
José Carlos Peliano (*) –
Então, o lado bom da pandemia, se é que se pode achar assim, pelo menos para mim, foi usar mais o tempo em casa, além de rever e ajustar todos os rituais cotidianos, fora o trabalho, para a leitura e pesquisa de coisas e temas que me interessavam. Algo como o ensinamento da Juventude Estudantil Católica (JEC) lá pelos anos sessenta, assim posto: “Ver, julgar e agir”. Pois, então, foi vendo, ajustando a compreensão e agindo que pude me dar conta que o tempo é o que carrego em mim. O outro, o de fora, do dia, noite e madrugada, é onde se age com as pessoas, as coisas, os bichos e a natureza. Antes que o céu desabe sobre nós! Salve Davi Kopenawa, xamã yanomami!
Tudo começou ao parar para perceber que o tempo conhecido por nós que é o medido em segundos, minutos, horas, dias, meses e anos, não é o tempo, mas sua medida, como os índios, por exemplo, o contavam em luas. Que por sinal, além de ser mais poético, saudável, não nos esmaga tanto com a percepção de que cada dia é um fardo a mais a levar em frente quando a vida se desenrola difícil e caótica como nos últimos cenários sociais, econômicos e políticos, nacionais e internacionais.
Até aqui não é novidade alguma o que foi dito sobre o tempo. Até mesmo o físico italiano Carlo Rovelli chegar a afirmar que a “realidade não é o que parece”, nem o tempo. Essa linearidade que é contada nos calendários só existe nos calendários, pois o resto é mais espaçoso e atemporal, assim como imaginar o espaço e o tempo parado no ar, tipo “câmera lenta” ou mesmo sensação congelada. O que chega bem perto dessa imagem é a meditação cujo segredo passa perto de deixar a consciência perceber tudo ao redor, mansamente, devagar e sempre, congelando o tempo ao redor, reduzindo o espaço de fora e ampliando o de dentro e chegar, quem sabe, perto do imponderável.
Aí me dei conta com meus botões que, mesmo sem meditar, se pode perceber que o tempo é muito maior do que este que vivemos dia a dia. Como é isso? Que história é essa? Me olhei no espelho fixamente nos olhos e perguntei: que papo é esse? Decifre ou te devoro. Então, ao me ver no espelho vi que meu espaço daqui, em frente ao espelho, era o mesmo espaço de lá, do outro lado do espelho. O espelho era a passagem de um espaço a outro, de um tempo a outro. Tipo o sonho, dormindo ou não, tipo voltando à memória e pegando um gancho de um dia, um momento, uma paisagem, um encontro, uma vida. Sim, o simbolismo do espelho me mostrou que o espaço-tempo onde vivo pode ser maior se adiciono outro tempo-espaço, seja do espelho, do sonho e da memória. Eles têm vibrações próximas, “vibes” parecidas.
A memória me traz bem de perto, no entanto, a sensação do tamanho aumentado do tempo cotidiano. Não é que passamos boa parte do dia imaginando ou recordando coisas, mesmo revivendo várias vezes a mesma situação, até que sentimos o café entornando na xícara porque não percebemos que a garrafa estava ainda em nossas mãos? A distração evidencia que não estamos onde estamos naquele momento, mas onde estava a imaginação percorrendo o caminho da memória. Outra situação, outra sensação, outro lugar, outro tempo.
Ah! Mas este outro tempo estava incluído no tempo do aqui e do agora. Tempo dentro do tempo. Logo, como é que fica? Fica de uma forma de ver diferente. De fato, é tempo dentro do tempo, ou melhor, para se imaginar e divagar e reviver é preciso estar vivo, na trilha do tempo corrente. Ocorre que é possível ver que a memória do que se vive está guardada na consciência com cada um de nós, então o tempo vivido tem um “back up” completo no nosso computador mental. Em termos simples, são dois tempos, uma vida semelhante a que se vive a cada dia arquivada na memória. Mas também dois espaços. Então, duas dimensões, uma concreta, outra fluida, uma dita real, a outra virtual, mas semelhantes.
E a memória carrega uma vantagem adicional. Ela pode além de ser revista, revivida, repetida, também pode ser reformulada do jeito que nos parece melhor. Ou aprimorar a experiência, ou adequá-la ao que achamos mais apropriado, ou reescrevê-la e regravá-la para que nos faça sentir bem melhor. Tipo o que fazemos no computador como agora eu redigindo este texto, pois posso relê-lo, corrigi-lo, melhorá-lo, apagar frases ou palavras fora de contexto, e assim por diante. A memória é o tempo e o espaço que temos para “ver, julgar e agir”.
Pois, então, a memória que me dá o tempo duplo pode até me ajudar a ampliar o tempo arquivado, seja por que desejo for. O que me dá um tempo muito superior de vida do que o contado diariamente. Logo, o tempo é ampliado, elástico, ilimitado, ainda assim indefinível. Na mesma trilha vem o espaço, o de fora e o da memória. Pois não sei onde os dois começam e terminam, uma vez que como pode-se com a memória recomeça-los e termina-los quantas vezes quiser, os dois não têm lugar, hora e vivência definidos.
E onde entra o gafanhoto? Dias atrás vi um gafanhoto boiando, preso n’água de uma grande bacia. Fui até lá e vi que estava ainda vivo. Peguei-o com delicadeza e o coloquei na folha de uma jiboia. Passaram-se dois ou três dias e o gafanhoto no mesmo lugar. Cheguei até lá e remexi levemente a folha para ver se ele estava bem e de repente ele deu um salto meio que voo e desapareceu. Me dei conta naquele momento que o “de repente” pode ser também de repente uma ilusão. Ou seja, a sensação da ilusão foi a de vê-lo na folha e de repente nada mais. Mas, ele estava guardado na memória, pude voltar e reviver o salvamento. Ainda mais porque gravei sua sobrevida na folha da jiboia por uma fotografia.
Tudo isso para por junto e ver que tempo, memória e ilusão caminham de mãos dadas. Três faces de uma mesma vivência. Três vivências de uma mesma face. Manoel de Barros, o poeta pantaneiro, acho, já havia percebido isso quando se expressou em versos “repetir, repetir, até ficar diferente; repetir é o dom do estilo”. Ou eu mesmo, no poema Fundamento: “no fundo do poço, o passo sem fundo, se afundo não posso, se posso aprofundo, aposso do poço e me fundo”.
Ao fim e ao cabo vejo que o gafanhoto sou eu, somos cada um de nós, uma frágil presença no meio do mistério, onde o tempo, a memória e a ilusão se vestem de vida para nos deixar viver e aprender. Antes que o céu desabe!
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(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor, economista.
Criado em 2021-09-14 20:41:16
Ana Cristina Campos (*) -
TRANSIÇÃO- do latim transitĭo, é a ação e o efeito de passar de um estado para outro diferente. O conceito implica uma mudança numa forma de ser ou de estar. De um modo geral, entende-se como sendo um processo com uma certa extensão no tempo.
TRANSE- Estado de intensa abstração, de exaltação ou de absorção, através do qual alguém sente que transcendeu a realidade sensível, e está conectado com algo fora do nosso mundo. Mas pode significar também momento crítico.
Pensando no significado dessas palavras, transição e transe, que pra mim tem tudo a ver com o momento Brasil que estamos vivendo, momento de enxergar o rescaldo de uma guerra tsunâmica, onde tantas urgências emergem, concomitantemente ao desejo de mudar, ultrapassar, revolucionar os modos de vida em terras tropicais, gostaria de propor uma ideia relativa a mais uma urgência, para reflexão e debate.
Que tal pensar em ter no Brasil não uma mas duas Capitais? Brasília como sede dos Três Poderes e uma cidade Amazônica como sede da Capital Ecológica brasileira, que concentrará todos os Projetos de Pesquisa, Experiências inovadoras em todas as áreas onde o potencial amazônico e de outros biomas nacionais puderem alcançar, irradiando conhecimento, tecnologia e produtos para todo o Brasil e para o mundo.
Muitos países, por motivos diversos, possuem mais de uma capital, é o caso dos Países Baixos, República Tcheca, Montenegro, Bolívia, Chile, Honduras, África do Sul, Benin, Costa do Marfim, Malásia, Sri Lanka, para citar alguns.
Reconhecendo a Amazônia como região de vital importância para o Planeta, é justo e aconselhável que sob a tutela soberana brasileira, na parte que se encontra em nosso território, se edifique uma infraestrutura de preservação e desenvolvimento regional a altura de sua responsabilidade planetária.
Que tal num transe imaginar esta possibilidade futura, apesar e por causa de todo o retrocesso gigantesco que vivemos? Acreditar na Transição para novas formas de viver, mais revolucionárias e menos conformadas às forças conservadoras que insistem em interromper nossos voos de inteligência , autonomia e invenção? Afinal, nós somos o Novo Mundo ou não somos? Já imaginaram o lançamento da Pedra Fundamental da nova capital na COP30 na Amazônia?
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(*) Ana Cristina Campos, produtora cultural pós-graduada em História.
Criado em 2022-11-26 20:05:16
O mandato do vereador Reimont (PT-RJ) entrou, ontem (11/11), com uma ação popular pedindo liminar de urgência contra o município do Rio de Janeiro. O objetivo é tentar impedir que a prefeitura reabra as escolas municipais sem as devidas seguranças sanitárias exigidas pelas autoridades cientificas.
“Apesar de Crivella agir como se tudo estivesse “normal”, a pandemia não acabou. Nos últimos meses, o prefeito vem agindo sem responsabilidade e sem transparência com as profissionais e os profissionais de educação, alunos e familiares. Informações desencontradas e decisões autoritárias expõem a todas e todos, sem levar em consideração a saúde das pessoas, estrutura das escolas, os protocolos de segurança e as recomendações de especialistas”, alega em sua petição o vereador Reimont.
Aguarda-se a resposta do juiz ao qual foi distribuída a ação em primeira instância.
Criado em 2020-11-12 14:31:37
Chega em português, pela primeira vez, o livro do historiador e líder teórico do pan-africanismo Walter Rodney - Como a Europa Subdesenvolveu a África. Este lançamento se dá no ano em que se completam 50 anos da primeira edição da obra e 80 anos do autor (assassinado em 1980 devido a sua militância política).
O livro detalha o impacto da escravidão e do colonialismo na história da África e é considerado uma obra-prima da economia política. O autor argumenta que o inabalável “subdesenvolvimento” africano não é um fenômeno natural, e sim um produto da exploração imperial do continente, prática que continua até hoje.
Walter Rodney detalha o impacto da escravidão e do colonialismo na história da África. Escrita em 1972 é um dos argumentos é o de que a África desenvolveu a Europa na mesma proporção em que a Europa deliberadamente subdesenvolveu o continente africano.
Rodney detalha as formas de exploração econômica de diversos povos e regiões, primeiro como fornecedores de mão de obra escravizada e, depois, como mão de obra assalariada extremamente subvalorizada. Além disso, aborda como se deu a intervenção direta do modo de produção capitalista nas práticas econômicas típicas de cada povo e região, na divisão sexual do trabalho tradicional dos povos africanos e na educação formal durante o colonialismo.
“Se as contribuições intelectuais e militantes de Rodney 0histórico específico – ele foi assassinado porque acreditava na possibilidade de uma transformação política radical, inclusive na Guiana, sua terra natal –, as ideias dele são ainda mais valiosas hoje, momento em que o capitalismo impôs tão vigorosamente sua permanência e em que as forças opositoras existentes e organizadas têm sido praticamente eliminadas. As pessoas que, entre nós, recusam-se a admitir que o capitalismo global representa o melhor futuro para o planeta e que a África e o anteriormente denominado Terceiro Mundo estão destinados a permanecer para sempre assentados na pobreza do “subdesenvolvimento” estão diante desta questão crucial: como encorajar críticas radicais ao capitalismo – tão essenciais às lutas contra o racismo – e, ao mesmo tempo, avançar no reconhecimento de que não podemos vislumbrar o seu desmantelamento enquanto as estruturas racistas se mantiverem intactas? Nesse sentido, cabe a nós seguir, desenvolver e aprofundar o legado de Walter Rodney”, escreve Angela Davis na apresentação da obra.
Trecho
“Às vezes, afirma-se erroneamente que os europeus escravizaram os africanos por motivos racistas. Proprietários de terras e minas europeus escravizaram pessoas africanas por motivos econômicos, de modo que o trabalho delas pudesse ser explorado. Na verdade, teria sido impossível desbravar o Novo Mundo e usá-lo como constante produtor de riqueza não fosse a mão de obra africana. Não havia alternativa: a população das Américas (indígena) havia sido praticamente eliminada, e a população da Europa era muito pequena na época para povoamentos no exterior. Então, tendo se tornado completamente dependentes do trabalho africano dentro e fora da Europa, os europeus consideraram necessário racionalizar essa exploração também em termos racistas. A opressão decorre logicamente da exploração, a fim de garanti-la. A opressão dos povos africanos a partir de bases integralmente raciais acompanhou e fortaleceu a opressão por razões econômicas, dela se tornando indistinguível”.
Sobre o autor
Walter Rodney (1942-1980) nasceu na Guiana, formou-se em história na Jamaica e realizou seus estudos de pós-graduação na Inglaterra. Foi professor na Tanzânia (onde apoiou o governo socialista de Julius Nyerere), além de ter colaborado com docentes de universidades nos Estados Unidos. Como ativista, fundou na Guiana a Aliança dos Trabalhadores, de oposição ao governo. Foi assassinado em sua terra natal em 1980, por causa de sua militância política.
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Ficha técnica
Título: Como a Europa subdesenvolveu a África
Título original: How Europe Underdeveloped Africa
Autor: Walter Rodney
Tradução: Heci Regina CandianiApresentação: Angela Davis
Orelha: Matheus Gato
Capa: Antonio Kehl
Páginas: 352
Preço: R$ 99
Editora: Boitempo
Criado em 2022-11-15 14:00:50
Enio Pontes (*) -
Do ponto de vista conceitual, a dívida pública brasileira é assim designada pela Secretaria do Tesouro Nacional: "É a dívida contraída pelo Tesouro Nacional para financiar o déficit orçamentário do governo federal, nele incluído o refinanciamento da própria dívida, bem como para realizar operações com finalidades específicas definidas em lei".
Trocando em miúdos a linguagem técnica, a contração da dívida pública tem a prerrogativa primeira de complementar os recursos da União, Estados e Municípios, visando financiar as ações destinadas ao bem estar social, quais sejam, investimentos na saúde, educação, segurança pública etc.
Todavia, ao longo do tempo, essa prerrogativa de financiar as atividades fins do Estado perdeu o sentido, sendo hoje, a dívida pública, um verdadeiro sistema que alimenta o mercado financeiro em detrimento da sociedade.
Mas a quem o governo deve? Para entidades do setor público e privado. Os maiores credores da dívida pública são os bancos brasileiros, dentre eles os
públicos e os privados, mas sobretudo os privados.
Há ainda os investidores individuais que aplicam recursos nos mais diversos fundos de investimentos existentes, os fundos de pensão, além de instituições internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Essa breve explicação serve para jogar um pouco de luz num tema que, ao mesmo tempo é tão falado, criticado, noticiado, mas que, muitas das vezes, é do conhecimento apenas dos economistas.
Partindo do próprio conceito da dívida pública oferecido pelo Tesouro Nacional, os recursos contraídos pela União, Estados e Municípios, que deveriam, em tese, complementar o financiamento social, ao contrário, acabaram por desenvolver um ciclo vicioso de pagamentos de juros elevadíssimos que apenas beneficia os credores da dívida pública.
Outro aspecto muito grave é a contrapartida dessa dívida. Quando financiamos um automóvel e contraímos um empréstimo, é porque precisamos usufruir do bem para o nosso deslocamento. A dívida, portanto, teve uma finalidade. No caso da dívida pública brasileira não há contrapartida.
O gigantesco passivo que aproxima-se de R$ 1 trilhão não produz efetivamente nada de impacto social, longe disso, a sociedade brasileira arca tão única e exclusivamente com o ônus do pagamento exorbitante de juros para permitir que a roda gigante da dívida pública continue girando e enriquecendo os bancos.
Por tudo que comentei, a meu juízo, é inadiável um debate franco, direto e acima de tudo questionador sobre os caminhos que levaram o País a cair nessa armadilha chamada dívida pública.
Um dos caminhos possíveis seria uma auditoria, instrumento que está consagrado na Constituição Federal de 1988 e que nunca foi posto em prática.
Um dos exemplos exitosos de aplicação eficaz do mecanismo da auditoria da dívida é o que ocorreu no Equador. O país conseguiu reduzir em aproximadamente 70% o estoque da dívida, permitindo o investimento em setores sociais.
Ademais, uma auditoria da dívida poderá ajudar a compreender como o Brasil chegou a essa condição de refém do sistema financeiro e possivelmente descobrir muitas irregularidades, algumas já apontadas por pesquisadores e especialistas em setor público a exemplo da contabilização dos juros como amortização.
Enfim, é preciso rever a atual política monetária que irriga o sistema da dívida pública com juros absurdos. Também é urgente criticar os parâmetros da política fiscal que penaliza a população que paga seus impostos para o governo fazer déficit primário com o único objetivo de pagar o serviço da dívida em detrimento das contrapartidas sociais.
Será que essa dívida é de fato nossa?
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(*) O professor Enio Pontes é Secretário-Geral da ADUFC-Sindicato.
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Criado em 2016-12-20 16:32:56
Dioclécio Luz (*) -
O Lago Paranoá, em Brasília, tem uma meia dúzia de pontes. Uma delas, com 450 metros de extensão, ligando o Plano Piloto (a cidade que tem forma de pássaro) ao bairro denominado Lago Sul, foi desenhada por Oscar Niemeyer. O arquiteto deu-lhe o nome de “Ponte Monumental”. O nome mudou, porém, quando os ditadores foram para a sua inauguração, em 1976. Ernesto Geisel, o general-ditador em exercício, resolveu homenagear o colega general antecessor, mudando seu nome para general-ditador “Costa e Silva”. A “Ponte Costa Silva” mantém esse nome até hoje.
Ora, Costa e Silva foi o sujeito que, no dia 13 de dezembro de 1968, lançou o Ato Institucional nº 5 (AI-5), mostrando que a ditadura estava ali para liquidar com todas as leis existentes, oficializar o sequestro, tortura e morte, de quem fosse contra o regime. Portanto, há em Brasília uma ponte homenageando um criminoso fardado.
Em outubro de 2021 a Câmara Distrital aprovou projeto de lei do deputado distrital Leandro Grass (PV), determinando a substituição do nome da ponte: ao invés de um general criminoso, entraria Honestino Guimarães, alguém que lutou pela democracia. Estudante da UnB, Honestino foi preso, torturado e morto pelos militares. Seu corpo jamais foi devolvido pelos assassinos. Em dezembro de 2022 o governador Ibaneis Rocha, um bolsonarista de primeira linha, vetou o projeto. Ibaneis, entre outras barbaridades, colocou militares no governo e criou as Escolas militarizadas.
No plenário da Câmara Leandro Grass anunciou a verdade:
“Se a gente for na Alemanha não vamos encontrar nenhuma ponte, nenhum monumento em homenagem a Hitler. Se for a qualquer país democrático, você não vai encontrar nenhuma homenagem a assassinos, torturadores e violadores do direito. Por que, então Brasília deveria permanecer nessa situação?”
Medo.
Mas não é só em Brasília. O Brasil tem medo dos militares. Medo, inclusive, de um novo golpe. A história mostra que o “glorioso Exército brasileiro”, como se autointitula a Força, já promoveu pelo menos quatro golpes de Estado.
O primeiro foi a derrubada da monarquia, em 1889, batizada de “proclamação da República”. O segundo foi em 1937 - os militares criaram um documento falso (o “Plano Cohen”) onde se anunciava uma pretensa ameaça de ataque comunista. Só uma intervenção militar salvaria o Brasil. Com essa mentira os militares deram o golpe, entregaram o governo para Getúlio Vargas, e nomearam a ditadura de “Estado novo”.
Em 1961, quando o presidente Jânio Quadros renunciou, tentaram um novo golpe. Conforme a Constituição, seu vice deveria assumir. Óbvio. Era a lei. Mas os militares não queriam a lei. Partiram para cima do Congresso. Ameaçaram o golpe. A solução foi fazer um plebiscito para saber da população se queria um parlamentarismo (onde o presidente não manda, como queriam os fardados) ou presidencialismo. Deu presidencialismo. E os quarteis não gostaram. Tanto que três anos depois, com o apoio de empresários, igreja, e principalmente dos Estados Unidos, deram outro golpe. Em 1964, com o mesmo argumento (salvar o país de um ataque comunista), derrubaram o presidente eleito João Goulart e instituíram uma ditadura que batizaram de “Movimento popular” ou “Contrarrevolução”.
Veio 2013. Era o governo Dilma Rousseff e o povo estava nas ruas, com ampla e simpática cobertura da mesma imprensa que fez o golpe de 1964, pedindo a saída da presidente e... intervenção militar. Como assim? O povo pede um golpe de Estado? Ao que parece estava ocorrendo uma nova invasão comunista no Brasil.
Com a ajuda da velha imprensa, a sociedade foi informada que o PT de Dilma, era um partido de corruptos e estava fazendo do Brasil uma Venezuela, isto é, comunista. Os manifestantes nas ruas, pelo visto, tinham uma boa relação com os militares, afinal pediam um golpe e usavam os mesmos argumentos do golpe de 1964: corrupção e comunismo. Ou eram os militares infiltrados? Bem, graças a uma estratégia de disseminação de mentiras nas redes sociais (que contou com o apoio do governo norte-americano e de especialistas no assunto) até hoje os seguidores do presidente Bolsonaro acreditam que a Venezuela é um país perigoso para o Brasil.
As manifestações de 2013 estavam contaminadas pelos interesses dos militares em ocupar o poder. Em todo o país havia faixas pedindo a “intervenção militar”. Foram as Forças Armadas que mandaram fazer essas faixas? Ou foi uma contribuição dos agentes da CIA, experientes assassinatos de democracias no mundo? Talvez elas tenham sido feitas pelos eleitores de Bolsonaro – defensores da violência, dos armamentos, e claro, do militarismo. Nenhum agente da ABIN, nenhum jornalista da velha imprensa, ousou apurar o fato. Não se sabe quem comandou essa estratégia, mas deu certo: em 2016 Dilma caiu por conta de um golpe parlamentar - sem tanques nas ruas, mas com as digitais da FFAA.
Esse tipo de golpe já havia sido testado e aprovado no Uruguai, Equador e Bolívia. O “Departamento de extermínio de democracias” existente nos Estados Unidos viu que era mais fácil derrubar governos usando o parlamento amigo que promovendo golpes com tanques nas ruas, como fazia antigamente. Além do mais, esse tipo de golpe vem legitimado por um “processo legal”.
O fato é que os militares, ou seus aliados, derrubaram uma presidente eleita sem disparar um só tiro. Quem tem imprensa amiga e parlamentares amigos vai longe. Mas a história não acaba aí. Ela começa aí.
Em 2018 vieram as eleições para presidente. O candidato que liderava as pesquisas era Luís Inácio Lula da Silva. Como impedir que ele participe das eleições? É hora da Lava Jato fazer a sua parte. Lula ser humilhado publicamente e diariamente pela velha imprensa não era o bastante. As pesquisas ainda o colocavam no alto. Então, a saída era botar Lula na cadeia. Havia o criminoso, faltava o crime. E Sérgio Moro, o herói do momento, um juiz de primeira instância de Curitiba, em aliança com o Ministério Público Federal, conseguiu a proeza jurídica de mandar Lula para a prisão sem ter prova do crime. Até aí os militares estavam quietos.
A defesa do ex-presidente reagiu. Levou o caso ao Supremo Tribunal Federal, alegando inconstitucionalidade da prisão uma vez que não estava esgotado o trânsito em julgado . Diz a cláusula pétrea da Carta Magna:
Art 5º, LVII – Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.
A Constituição, nesse artigo, consagra o princípio da “presunção de inocência”, ou “princípio da não culpabilidade”. Logo, o esperado era que o STF decidisse que a prisão era ilegal e determinasse a soltura do ex-presidente.
É quando os militares entram em cena novamente.
Às vésperas da votação do habeas corpus de Lula no STF, no dia 3 de abril de 2018, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, resolve se manifestar. Em nota construída com o Alto Comando, como disse depois, através de twitter fez a ameaça:
“Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”.
O que ele disse, em outras palavras, foi: “se a corte acatar o pedido de habeas corpus para Lula (permitindo que ele se candidate a presidente), os tanques irão para as ruas”. A mensagem foi lida no Jornal Nacional da TV Globo, porque esse tem sido papel da emissora na história. Deu certo: o STF decidiu contra o habeas corpus. Lula foi mantido preso, Bolsonaro foi eleito, e hoje o governo está nas mãos dos militares – são 6 mil ocupando postos civis – liderados por um cara que foi praticamente expulso do Exército, foi um deputado medíocre, não consegue falar uma frase inteligente, e todos os dias prova ao país que, além de ser um pessoa perversa, não tem conhecimento sobre nada, nada, nada.
O resultado desse governo militar com um estulto no comando:
“O governo de Jair Bolsonaro é o pior da nossa história. E não porque ele fracassou. A tentativa confessada pelo presidente de extrema direita de desconstruir o estado brasileiro foi bem-sucedida. Basta olhar para o Ibama, a Funai, a Fundação Palmares, a Biblioteca Nacional, o Ministério da Saúde, o Itamaraty, a extinta política de desarmamento, o Ministério da Cultura que já não temos, o Ministério da Educação aparelhado por religiosos fanáticos e provavelmente corruptos, a Polícia Rodoviária Federal que ajuda a matar pessoas pretas nas favelas do Rio de Janeiro”. (Intercept em 23/07/22)
As urnas e as armas
Hoje as Forças Armadas (FFAA) querem intervir nas eleições, investigando a correção das urnas eletrônicas. É evidente que as urnas não constituem problema para as eleições. É evidente que não é papel dos militares averiguar isso. O papel das Forças Armadas está determinado nos artigos 142 e 143 da Constituição de 1988. E lá não tem isso. Atacam as urnas porque as pesquisas anunciam que Lula pode ganhar as eleições e teriam que sair do governo junto com Bolsonaro, dando fim a intervenção militar.
Os militares não admitem ficar de fora do comando do país. Não porque conhecem de ciência política ou administração pública, economia ou, sei lá, meio ambiente, mas porque têm as armas, ora. O poder bélico que possuem lhes diz que não devem se submeter a quem não tem. As FFAA não admitem ser comandadas por civis; o país não pode ser comandado por civis.
O gesto de “fiscalização das urnas”, uma exposição patética de um poder que não aceita ficar fora da política, sinaliza que as Forças Armadas querem uma revisão do conceito de República: não seriam três poderes no Brasil, e sim quatro. As Forças Armadas se consideram e agem como se fossem o quarto poder. Daí fazem política dentro e fora dos quarteis. Isso fere o Estatuto deles, mas às favas as normas. Em maio de 2021 o general Eduardo Pazuello (aquele que virou ministro da Saúde e foi acusado pela CPI do Senado de cometer meia dúzia de crimes) subiu num palanque com o presidente. Foi aberto um procedimento administrativo interno (“Apuração de transgressão”) no Exército que concluiu pela sua inocência. Para evitar questionamentos da sociedade civil – que paga os salários, roupa, transporte e moradia dos fardados – decidiram colocar o processo em sigilo por um século! Jogaram a sujeira para debaixo do tapete.
Os militares não sabem lidar com a administração pública fora dos quarteis. A formação deles não lhes dá competência para isso. Cuidar de energia ou saúde pública é bem diferente de prover a munição de um tanque. Mas existe um problema maior, bem maior: a ideologia que domina as FFAA e determina o seu conceito de patriotismo e civismo. Os militares entendem como patriotismo o projeto capitalista e neoliberal. E o que não se enquadra é considerado “comunista” ou algo parecido. Sim, a noção de comunismo que possuem é velha, atrasada, fora da realidade, uma fantasia, mas usada para ilustrar um inimigo que precisa ser combatido aqui dentro do país. O governo Bolsonaro, sob o comando dos militares, revela uma radical defesa do mercado. Por exemplo, o militar (ou civil) que comanda a Petrobras, atua para fazer com que a empresa dê lucro para os seus acionistas, fazendo a felicidade de um pequeno grupo de bilionários, ao determinar como política da empresa a paridade com os preços internacionais. Isso às custas do povo brasileiro que paga caro pelos combustíveis. Isso começou com Michel Temer e vai até hoje. Antes dele, Lula e Dilma atuavam para que a empresa desse lucro – e ela dava – mas mantendo os combustíveis a preços mais ajustados à realidade nacional. Os generais patriotas desse governo defendem a privatização da Petrobras e de todas as estatais brasileiras. As Forças Armadas também estão nesse governo que atua para negar os direitos dos trabalhadores e demonizar todas as correntes ideológicas de esquerda (o presidente já falou em “metralhar” quem for contra a sua ideologia).
Isso parece coisa copiada dos Estados Unidos. E é. Nossos militares foram amestrados pelos norte-americanos via Escola das Américas e Escola Superior de Guerra para a adoção total desse projeto. Isso é antigo, antecede a primeira guerra, passa pelo Macarthismo-USA e chega ao século XXI: os militares continuam dizendo que o grande inimigo da nação é o comunismo e que ele está contaminando as mentes e promovendo a corrupção no país.
Um delírio oportunista ou algo assim.
Promover golpes e invadir nações é central na história dos Estados Unidos. Toda essa aura democrática, construída no Brasil pela velha imprensa, sósia do projeto de poder norte-americano, objetiva ocultar o costume norte-americano de derrubar democracias para impor governos tiranos e manipuláveis. As Forças Armadas brasileiras aprenderam com os norte-americanos que o grande inimigo do país é o tal do “inimigo interno”, e que esse inimigo – comunista – é a “esquerda”, “partido de esquerda”, “pensador de esquerda”, “professor de história”, ou somente “professor”, e os tais “movimentos sociais”, caso dos Sem-terra, por exemplo. Nos quarteis, provavelmente, se ensina essa antiga lição. Em março de 2021, o atual ministro da Defesa, general Walter Souza Braga Netto, autorizou a Ordem do dia em que se trata o golpe de 1964 como um movimento popular; as Forças Armadas teriam saído às ruas com "a responsabilidade de pacificar o país" para "garantir as liberdades democráticas".
A história não é história
Quem se depara com manifestações do tipo fica pensando que: ou os militares vivem em outro planeta, ou estão delirando, ou a história contada sobre o golpe 1964 nos mais diversos livros, documentos, depoimentos, fotografias, é tudo falsa.
Como negar o que houve? O congresso foi fechado, a censura foi imposta e as leis foram jogadas no lixo pelos ditadores; milhares de pessoas foram sequestradas, torturadas, mortas; houve ocultação de cadáveres; a corrupção correu frouxa; milhares de indígenas foram mortos; houve um retrocesso social e cultural...
Tudo isso está registrado, anotado, provado. E mesmo assim generais da reserva ou da ativa, a cada aniversário do golpe, vem a público para elogiar os colegas que estupraram a ordem institucionalizada. Todo mundo sabe que foi ditadura, o planeta inteiro sabe disso, mas os generais insistem na versão deles. Por que a história não é levada a sério?
Na verdade, não é a história que não é levada a sério. É a verdade que não é levada a sério. Como a verdade incomoda as Forças Armadas, então ela tenta impor “a verdade” dos generais. Talvez tenha sido firmado um pacto entre os ditadores de 1964 e a geração seguinte de oficiais. Algo como o ocorrido na Espanha pós-Franco. Relata o escritor Javier Cercas em seu livro Anatomía de un instante que, antes de findar a ditadura do general Francisco Franco, ele se reuniu com os comandantes militares e solicitou que o ideais franquistas tivessem continuidade depois da sua morte. E quais eram os ideais franquistas? Os mesmos dos ditadores do Brasil: alinhamento com os Estados Unidos, demonização da esquerda, implantação de economia de mercado, colocar o Estado a serviço das elites econômicas, instituição de um poder central e tirano como o dele... O ditador Franco morreu em 1975 (sem ser incomodado pelas nações ditas democráticas, claro) e, conforme Javier Cercas, até hoje o Exército espanhol segue suas determinações. O pacto está valendo - a cada dez anos tem golpe na Espanha.
Tudo indica que oficiais das Forças Armadas brasileiras firmaram esse pacto com os ditadores para manutenção dos ideais do golpe de 1964. Daí a insistência em festejá-lo a cada 31 de março, contrariando a história, a verdade e o bom senso. A favor deles conta a Lei de Anistia (nº 6.683/79) assinada pelo general João Figueiredo. A lei foi uma condição imposta pelos militares para devolverem o Brasil aos brasileiros – a garantia de que os assassinos de farda, torturadores, matadores, corruptos, não seriam perseguidos pelos seus crimes. Assim, devolviam aos brasileiros um Brasil completamente arrasado com a certeza, em lei, de que ninguém seria punido. Para garantir a impunidade dos criminosos de farda até hoje as Forças Armadas escondem os documentos que tratam de suas ações na época. Nenhum governo subsequente à ditadura conseguiu esses dados. Conforme Lucas Figueiredo, em seu livro “Lugar nenhum: Militares e civis na ocultação dos documentos da ditadura”, nem mesmo com uma determinação da Justiça – provocada pela Comissão Nacional da Verdade – os militares entregaram os documentos referentes ao período.
Parece existir um projeto estratégico de ocultação de dados para proteger os criminosos e de reconstrução da história. As Forças Armadas vão continuar dizendo que o golpe de 1964 foi um “movimento com apoio popular” e ocultando as informações que tratam de seus atos sujos no período, na tentativa de assim fazer prevalecer a sua versão da história. Algo do tipo: a gente esconde as sujeiras cometidas e conta uma outra história. As Forças Armadas acham que se têm a força podem escrever a história que quiserem. O problema é que todo mundo já sabe das sujeiras cometidas, dos crimes, dos abusos cometidos. De modo que essa versão mentirosa que contam só funciona nos quarteis, onde quem ouve é obrigado a aceitar. Os militares não aprenderam que a verdade não é uma questão de hierarquia, ela não é um comando de quem está acima para quem está em baixo. Também não aprenderam que a história, para ser história, precisa ter verdade dentro dela. Então, não adianta insistir: a terra não é plana e o que houve em 1964 não foi um movimento popular.
Ao que parece ninguém alertou os comandantes militares que ao defender o golpe de 1964 e o regime, estão fazendo apologia ao crime. Afinal, um regime ditatorial significa o fim de todas as leis, a barbárie está de volta e tudo é permitido: roubar, sequestrar, torturar, matar, desaparecer com os corpos. A ditadura é o crime dos crimes, porque ele alberga todos os crimes cometidos em nome do Estado. Tem fim o Judiciário, o Legislativo e o Executivo. Cai a democracia.
É preciso se debruçar sobre a ideologia pregada nos quarteis. Já se viu que ela tem um componente capitalista, neoliberal. Mas é importante registrar que ela está impregnada de uma moral e um moralismo. O conceito de pátria e nação dos militares está associado a valores morais, comportamentos, costumes, tradições, religião. O golpe de 1964 deixou isso bem claro. Pessoas foram presas, artistas foram censurados, não só por se manifestarem contra o golpe, mas porque fumavam maconha, usavam cabelos comprimidos, defendiam o uso da pílula anticoncepcional... O artista mais censurado na ditadura não foi Geraldo Vandré, autor de Para não dizer que não falei de flores, ou Chico Buarque, com dezenas de músicas criticando o regime.
Em nome da “moral e dos bons costumes” Odair José se tornou o artista mais censurado no período. E já que se falou em “moral e bons costumes”, é importante lembrar que no dia 22 de abril de 2020 esse governo militar moralista mostrou como se faz uma “pornô-reunião”. Pela primeira vez na história uma reunião ministerial está proibida para menores de idade tamanha quantidade de palavrões e baixarias ouvidas. Mas parecia o encontro de frequentadores de um cabaré. E os generais estavam lá. Os moralistas estavam todos lá. Freud explica.
Que haja uma moral, ela sempre há. Mas não venham as Forças Armadas dizerem à sociedade civil quais valores deve adotar. Quem tem que decidir que tradições adotar, como se relacionar com os deuses (cristãos ou pagãos), como deve ser a família, o tamanho dos cabelos ou da saia das mulheres, e, principalmente, que política deve ser adotada pelo país (se capitalista, socialista ou comunista) é a sociedade civil, não os militares. A noção de patriotismo e civismo das Forças Armadas requer uma revisão com urgência – o que se ensina nos quarteis, pelo visto, é atrasado no tempo e no espaço. Patriotismo não se resume a cantar o hino nacional e bater continência para o tenente. É preciso deixar bem claro que movimento negro, movimento LGBTQIA+, a luta das mulheres por seus direitos, não é “coisa da esquerda”, e mesmo se fosse, isso não é da conta das Forças Armadas. A luta dos indígenas por seus direitos, idem.
Antigas lições
As manifestações dos militares com relação à política sugerem que nos quarteis ainda se ensinam antigas lições. Uma delas, pelo visto é: nós mandamos neste país. Eles se consideram o quarto poder e, às vezes, o “poder moderador” - essa novidade mofada foi resgatada do cretáceo por algum arqueólogo de farda e jornalistas amigos cuidaram de legitimar, para justificar as intervenções militares de hoje.
Quando se fala em lições da caserna, é preciso levar em conta os métodos usados. Existe uma pedagogia que sustenta o sistema militar, hierarquizado, tirano, ditatorial. Os de cima mandam e os de baixo obedecem – essa é regra, e quem não aceita é punido. É fácil concluir: não existe democracia nos quarteis. Ela, a democracia, não sobrevive a um minuto de conversa entre um oficial e um soldado. Aliás, não existe conversa: o oficial dá ordens, missões, delegações, comandos, determinações, e ponto final.
O filósofo Michel Foucault explica: a pedagogia é vertical e se baseia na vigilância e na punição. É a pedagogia do medo. O regimento militar contém centenas de dispositivos que firmam esse sistema. Ele está presente na formação de todas as forças policiais (incluindo Bombeiros e Polícia Militar). Pode ser que funcione nos quarteis, mas quando ultrapassa os portões e chega à sociedade civil sobrevém o desastre. Quando os militares resolvem ocupar postos e atribuições destinadas a civis, não bastasse o despreparo técnico e profissional, a forma de lidar com os civis é naturalmente conflituosa.
O melhor (e pior) exemplo de desastre que essa pedagogia do medo provoca na sociedade civil está nas escolas que os militares comandam. Colégios Militares (do Exército) e escolas públicas militarizadas (entregues à PM e Bombeiros) se convertem em mini quartéis, onde crianças e adolescentes são submetidos a um regime disciplinar humilhante, opressivo, cruel; são tratados como soldadinhos de brinquedo. Sobre os jovens se impõe um regimento disciplinar similar aos dos soldados adultos, não por acaso o fardamento é uma fantasia de soldado. Os estudantes fazem ordem unida, batem continência para o sargento; as meninas têm que manter os cabelos presos, não podem pintá-los; elas não podem usar brincos, batom, maquiagem. Quem tem cabelo afro deve escondê-los. Nessas “escolas” os jovens são os brinquedinhos dos militares. Nos colégios do Exército, os mais comportados (os mais passivos, obedientes, submissos) ganham títulos de aluno-capitão, ou aluno-tenente, ou coisa parecida – uma brincadeirinha, claro. Nas escolas públicas (da periferia, em sua maioria) entregues à Polícia Militar e aos Bombeiros o tratamento é o mesmo: são brinquedinhos dos militares. Note-se que essa pedagogia cruel, punitiva, opressora, é aplicada a jovens adolescentes, exatamente quando o ser humano está definindo a sua identidade.
É importante registrar que até hoje nenhuma faculdade de educação do país aprovou esse método. Pelo contrário, todas reprovam. A professora Catarina Santos, da Universidade de Brasília, resume: isso é a anti-escola. Afinal, alguém acha que fazer ordem unida ou bater continência para o sargento de plantão, cortar o cabelo de criança como se fosse soldado, contribui para a educação? Só o militar. Eles chamam isso de “disciplina” e “civismo”. Está errado: a disciplina é para o quartel, mas está sendo aplicada a jovens que não são soldados.
Além do mais, o que os militares ensinam sobre civismo é ultrapassado, não serve à sociedade civil. A escola existe para ensinar o aluno a pensar, ter autonomia, questionar a realidade, saber dos seus direitos e deveres – é o contrário do que ensinam os militares nessas escolas. O fato é que eles desconhecem o que é educação. A ideologia do quartel (capitalista, neoliberal) desconhece os grandes mestres da educação no Brasil - Paulo Freire, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, entre outros. Pior, além de desconhecer essa gente, por causa a ideologia do quartel, considera todos eles “comunistas” (embora até hoje os militares não saibam o que é isso).
O fato é que a humilhação presente nas escolas, a invasão da privacidade do estudante, o fato das crianças serem tratadas como brinquedinhos dos militares, agride, no mínimo duas normas legais: a Constituição Federal (o art. 5º) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8069/90). Agora, se essas “escolas” infringem a lei e se não são consideradas escolas por quem entende de escola, como elas ainda existem? Por que o Exército (e a PM e os Bombeiros) não é denunciado por praticar um crime contra as crianças e adolescentes? Por que não tiram dos militares essa função que não lhes cabe? Resposta: medo. E ele produziu a submissão que gera mais benefícios para os militares.
É o caso do Colégio Militar de Brasília. Ele ocupa uma grande porção da zona central da capital do país: uma área de 240.000 metros quadrados, ou 24 campos de futebol! Ali não falta nada: tem quadra de esportes, ginásio coberto, teatro, campo de futebol, e muito dinheiro (público) para pagar seus professores. Os 14 Colégios Militares do Exército do país fazem parte do privilegiado sistema que as FFAA possuem para garantir o ensino médio, fundamental e superior, para os filhos dos militares. Aliás, tudo que se refere às Forças Armadas significa um planeta a parte do país, um paraíso. A velha imprensa critica muito os políticos, mas não revela o mundo dos militares e os seus privilégios. A sociedade civil não é informada que os oficiais têm direito à moradia grátis, um sistema de saúde completo com dezenas de hospitais espalhados por todo país, bons salários no fim do mês, sistema de previdência bem melhor que o dos civis, e para a educação não faltam recursos, como se viu.
Democracia x autoritarismo
A formação dos militares, e consequente visão que têm do mundo, anuncia conflitos com a sociedade civil. Formados dentro de uma pedagogia que tem por base a hierarquia e o medo, determinada por uma escala de poder, ou patentes, exigem que aqui fora seja igual. Tem que ser assim porque assim é o certo. O de cima manda, os de baixo obedecem. Um general só conversa de igual para igual com outro general. É um sistema autoritário, tirano, onde a patente determina o pensamento e a ação. Esse poder é absoluto, daí a intimidade dos militares brasileiros com o autoritarismo e as ditaduras. Se vivem dentro desse sistema autoritário e entendem que aí fora, na sociedade civil, na política, existe um inimigo contrário à ideologia (capitalista) que defendem, então precisam intervir, impondo a tirania que conhecem. Isso é o contrário da democracia! Fica a dúvida: os militares aceitariam essa anomalia, essa coisa bizarra que os civis tanto defendem, a democracia?
Ocorre, porém, que a sociedade civil, salvo os fascistas e seus similares, faz campanha aberta em defesa da democracia. Nas escolas se ensina que a democracia, apesar das suas muitas contradições, ainda é o melhor dos sistemas. Capitalistas e comunistas defendem seus princípios numa democracia. Mas um desses princípios apavora os militares: todos são iguais perante a lei. “Como assim? Quer dizer que os direitos do general são os mesmos de um gari? Quer dizer que o brigadeiro não pode mandar o sujeito desocupar o banco de praça quando ele for se sentar com a ordenança?” A democracia é um estorvo para quem aprendeu que no mundo uns mandam e outros obedecem. E as Forças Armadas entendem que elas mandam. Tanto que conseguiram impor à Constituição de 1988 algo que não é nada democrático: quem tem 18 anos é obrigado a se apresentar às Forças Armadas para fazer o serviço militar. Não é uma escolha do indivíduo, mas uma imposição. Uma vitória das FFAA no embate entre democracia x tirania. O alistamento obrigatório foi uma das imposições dos militares ao devolver o país aos civis depois de 20 anos de ditadura. É uma contradição da Carta Magna democrática: aqui os civis se submetem aos militares.
Quando tudo isso vai ter fim? Quando os militares irão deixar de dar ordens aos civis, querendo ensinar sobre política ou patriotismo? Quando deixarão de se meter em temas que não lhes dizem respeito?
Tem que olhar na fonte: eles insistem em fazer intervenções na política porque assim aprenderam nos quarteis. O mundo ideal dos militares é todo mundo fazendo ordem unida e batendo continência para eles. Essa história somente vai mudar quando houver uma revisão do sistema militar brasileiro, deixando claro que os militares devem obediência à sociedade civil (que, por sua vez, deve obediência às leis), e não o contrário. As escolas precisam ser escolas e os quarteis precisam descartar as velhas lições. Patriota não é aquele que canta o hino nacional ou bate continência para o tenente; patriota é quem defende direitos humanos e princípios democráticos; patriota é quem entende o Brasil como um patrimônio de todos e não de uma empresa; patriota é quem defende a democracia e é contragolpes militares; patriota é quem aceita e discute as ideias diferentes. Os militares precisam aprender isso. E com urgência.
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(*) Dioclécio Luz é jornalista e escritor, autor do livro Escola do medo: vigilância, repressão e humilhação nas escolas militarizadas, com lançamento previsto para outubro deste ano.
Criado em 2022-08-10 03:10:57
Poema de Luis Turiba, 100 mil mortes, apresentado em forma de jogral, com 10 vozes de poetas do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e Brasília.
A poesia exalta, celebra, engrandece, mas também denuncia. É o que pensam os 10 poetas que se organizaram para gravar e divulgar o poema 100 Mil Mortes , de Luis Turiba, a ser lançado no próximo domingo (2/8).
Segundo estimativas de grupos médicos e técnicos em pesquisas estatísticas, os óbitos de brasileiros por Covid-19 devem chegar a este número até a segunda semana de agosto, também conhecido como “mês do desgosto”.
“Cem mil pessoas representam um Maracanã superlotado. Não podemos ficar calados, sentados com “a boca cheia de dentes esperando a morte chegar”, como cantou Raul Seixas. Enquanto a tragédia parece não ter fim, vamos denunciá-la”, diz o poeta Turiba, ex-editor da revista brasiliense Bric-a-Brac, com livros recentes publicados pela 7 Letras do RJ.
Durante o mês de julho, o poema foi bem trabalhado e dividido em estrofes. Todos gravaram sua parte pelo celular em seus refúgios, pois estão em isolamento social.
A edição de imagens é de Luca Andrade, master coach executiva, que adora fazer arte em suas horas de lazer e optou por um clipe espelhando a indignação e tristeza do luto.
O poeta e arquiteto mineiro João Diniz, de Belo Horizonte, cuidou dos desenhos numa estética de riscos e rabiscos; contribuindo também na escolha da música de fundo, um arranjo inovador das Bachianas de Villa-Lobos.
Participaram o projeto, além dos já citados: os poetas cariocas Tanussi Cardoso e Paulo Sabino; os mineiros Jairo Fará (São João Del Rey) e Titina Andrade; e as brasilienses Noélia Ribeiro, Maria Maia e Bic Prado, esta última toca um tambor que marca o ritmo fúnebre do poema.
As 100 Mil Mortes, poema para 10 vozes
Luis Turiba
PRIMEIRA
100 mil silêncios sepulcrais
100 mil funerais secretos
100 mil coveiros improvisados
100 mil pulmões ressecados
100 mil generais na saúde
100 mil respiradores alados
o que posso, moço: o que pude?
SEGUNDA
100 mil rastros de saudade
100 mil marias em bruto-luto
100 mil josés de mortalhas
100 mil gritos de senzala
100 mil dores sem gritos
100 mil amores rasgados
100 mil famílias destroçadas
100 mil estatísticas vivas
TERCEIRA
100 mil cruzes de lágrimas
derramadas espalhadas
no rio-mar Amazonas,
no seco sertão do Agreste,
nas terras d’Ianomamis
na areia de Copacabana,
no Vale do Anhangabaú
Esplanada dos Ministérios
dos Pampas campos do Sul
- quem será que leva a sério?
QUARTA
100 mil apertos em mãos frias
100 mil receitas d’ideologias
100 mil atestados de óbito
100 mil covas rasas mórbidas
100 mil caixões de terceira
na quase podre madeira
100 mil colegas de trabalho
agora todos sem salários
QUINTA
100 mil médicos esgotados
enfermeiras angustiadas
técnicos em parafuso
auxiliares confusos
no estresse mais absurdo
heróis heroínas guerreiras
SEXTA
100 mil negações da ciência
100 mil vivas à medicina
100 mil órfãos sem leitos
sem sequer saber do Aceite
100 mil rezas de desespero
100 mil Pai Nossos inteiros
100 mil Ave Marias de prantos
100 mil irmãos tios e primos
- o covid pegou o Hidelbrando
SÉTIMA
100 mil amigos lembrados
sem tempo pra ser velados
tampouco uma saideira
nem gurufim nem geladeira
OITAVA
100 mil velas seguem acesas
100 mil máscaras não usadas
100 mil macas esgarçadas
100 mil abraços vazios
100 mil beijos sufocados
100 mil “ora... que assim seja”
100 mil verdades nuas cruas
daquelas de fechar os olhos
e se entregar à força do choro
NONA
100 mil 100 mil 100 mil
caminhamos cegos sem ar
os sinos não param de dobrar
a imprensa conta & faz contas
o governo esconde, faz de conta
alguma dúvida? alguém dá vida?
é de direita? é de esquerda?
quem irá pagar essa perda?
antes da chegar ao despautério
das 100 mil e uma despedidas
DÉCIMA
pobre país sem epitáfio
no incauto poder do abuso
onde jaz desprezo eterno ao luto
Rio de Janeiro, 20.07.2020
Expectativa para as 100 mil mortes: 13 de agosto
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A equipe:
Poema 100 Mil Mortes, de Luis Turiba
Produção: Luis Turiba e João Diniz
Edição: Luca Andrade
Ambiente Musical: As “Bachianas” de Villas Lobos: guitarra de Rick Bolina sobre gravação original de Eduardo Assad
Tambor: Bic Prado
Desenhos: João Diniz
Contatos: Luis Turiba (21) 98288-1825 - WhatsApp
“Dizedores” do poema por ordem:
Luca Andrade, RJ
Tanussi Cardoso, RJ
Noélia Ribeiro, Brasília
João Diniz, Belo Horizonte
Paulo Sabino, RJ
Jairo Fará, São João Del Rey
Maria Maia, Brasília
Titina Andrade, Belo Horizonte
Luis Turiba, RJ
Criado em 2020-08-01 16:12:23