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Página 12 de 95

O teatro depois da pandemia: com o que sonhar?

Alexandre Ribondi –

O teatro feito no Distrito Federal, que existe quase há tanto tempo quanto a cidade, tem vivido com visível dificuldade. Sem jamais ter conquistado um grande público e sem jamais ter conseguido força suficiente para criar uma política cultural capaz de garantir as finanças de artistas e técnicos, esse teatro brasiliense tem, ao mesmo tempo, gerado empregos, ideias e inovações que transformam a arte cênica. Desde os anos 1960, passando pela ditadura militar, os palcos do Distrito Federal têm história - mesmo que, muitas vezes, não sabe o que fazer com ela.

Com salas fechadas, com espaços ameaçados, com pequenos teatros alternativos vivendo às próprias custas, com todas as limitações que disso advém, o teatro feito nas regiões administrativas do DF tropeçou, agora, numa pandemia. O coronavírus saiu do Oriente, passou pela Europa e, na bagagem da classe privilegiada, chegou ao Brasil. Para aportar em Brasília foi um pulo: afinal, a cidade tem portas abertas para políticos, que vão e vêm, e para as várias representações diplomáticas.

E chegou o momento então de atores, técnicos e produtores se perguntarem o que vai ser do teatro quando a pandemia passar. Ninguém se apressa em dizer que ele vai deixar de existir mesmo que, aparentemente, a frase esteja na ponta da língua. Mas quanto tempo será necessário para que o público sinta confiança para se instalar numa sala fechada durante uma hora, ao lado de outras pessoas que respiram?

“Enquanto houver artista haverá teatro”, foi o que disse, em resumo, o produtor Rui Miranda, que administra o Espaço Cultural Casa dos 4. Mas a atriz, diretora e dramaturga Ana Flávia Garcia vai direto ao ponto, num estilo que, além de muito pessoal, ela tem levado para suas interpretações e textos: “Prefiro acreditar que o teatro morreu (…) Morte não como fim. Morte como transformação, mutação de estado de passagem”.

A morte é transformação e o vírus que tem assolado o planeta é o arauto dessa morte renovadora, em todas as manifestações humanas. O homem e natureza têm que aprender uma nova vida, com novos valores e horizontes, para não voltar a sucumbir. A atriz e agitadora cultura Kuka Escosteguy acredita que “a efemeridade do teatro, que por instantes desvela os sentidos mais profundos dos humanos, é mais do que nunca necessária para nos dar uma percepção de futuro, de vida que virá”.

O futuro a que se refere passará por um prova exigente e quase mortal. Se o artista quiser fazer teatro, ele conseguirá atrair o público? Por isso é que Rui Miranda afirma que “teatro implica público, troca de energia presencial, aplauso, atenção, respiração, inquietação. Vamos ter que reinventar. Torná-lo uma experiência ainda mais exclusiva e pessoal, irresistível e impossível de vivenciar através de uma tela”.

“Quando poderemos ser plateia de algo novo”, se pergunta do diretor e dramaturgo James Fensterseifer. Para ele, “antes da pandemia, fazíamos apresentações para cinco, 10, 15 pessoas e, mesmo assim, não pensávamos no fim”. Ele fala inclusive da força que sempre teve: “A necessidade de se expressar dessa forma artesanal e vibrante está introjetada na herança  cultural de todos”.

Então, o teatro está preparado para suportar os maus dias que virão. O diretor, ator e dramaturgo Rafael Salmona também acredita que “teatro sempre foi sinônimo de resistência (…) Temos que resistir! É um momento muito delicado e só nos resta a reciclagem do teatro”.

Os trabalhadores de artes técnicos são devotos da esperança. A atriz Clarice Cardel (na foto, abaixo)l pede que “não se preocupem: o teatro mostrará sua importância e saberemos nos adaptar, porque é isso que tem sido feito há milênios e por todos os lugares onde houve gente”. Otimismo bem calculado e precavido é o que não falta. Vejam o que diz o Moizés Vasconcellos, lighting design: “Nós artistas sempre vamos estar prontos para enfrentar todas as barreiras. O teatro tem a incrível capacidade de se reinventar e criar diversos olhares sobre a vida”.

Mais uma mostra do otimismo com cuidado é o que diz Guilherme Reis, diretor, criador e realizador do Festival Cena Contemporânea, dono do Espaço Cena e ex-secretário de Cultura do DF: “O teatro voltará depois de passar um período mais ou menos longo de adaptação a uma nova realidade. Já temos um público bastante reduzido. Acredito que, mesmo com todos os cuidados que serão adotados, uma parte do público deixará de ir ao teatro durante um tempo. Mas voltaremos a recuperar a confiança”.

Ana Flávia Garcia fala do teatro como “um saber colocado à prova e que a sua morte é existencial. Acredito mais na ideia de morte e renascimento do que na de sobrevivência”.

Delson Antunes (na foto, abaixo), ator, diretor, dramaturgo e pesquisador de teatro, formado em Artes Cênicas pela UnB e residindo no Rio de Janeiro, vai pelo mesmo caminho: “O teatro terá que hibernar ainda por um tempo. Acho que a força energética trocada entre palco e plateia é insubstituível. E em breve irá reconquistar a sua importância na cultura”. E completa o raciocínio citando Antunes Filho que diz que “o teatro será a arte do século 21, pois é uma das únicas alternativas de encontro sem a obrigação de anteparos tecnológicos”.

Portanto, enquanto o confinamento se mantém e enquanto o vírus voa pelos ares do mundo, os artistas podem começar a engendrar o renascimento.

Como será feito? Em que condições renascerá? O que espera o público? O que os artistas terão a oferecer. São perguntas ainda sem resposta. Mesmo assim, uma coisa pouco praticada pela classe artística e pelos técnicos do DF deve ser finalmente reconhecida em sua importância: a união. Nenhum novo caminho, nenhuma nova rota e nenhum novo conhecimento surgirá enquanto mantivermos o isolamento que sempre cultivamos no teatro brasiliense. Será preciso que se juntem, todos - porque a história tem ensinado que é assim que se fazem as grandes mudanças.

Criado em 2020-05-02 21:04:50

Tuiuti: na contramão da história oficial

Marcos Bagno -

Tuiuti é uma palavra guarani que significa “lodaçal branco”. É o nome de uma região pantanosa do sul do Paraguai onde ocorreu a mais sangrenta batalha campal jamais travada em solo americano. No dia 24 de maio de 1866, o exército paraguaio foi derrotado pelas forças da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai), financiadas pelo grande capital britânico (bancos Baring Brothers e Rotschild, entre outros), que não tolerou a ideia de um país autônomo, independente do circuito econômico dominado a ferro e fogo pela Inglaterra imperialista, que impôs o livre-mercado a suas neocolônias sul-americanas.

A guerra foi um genocídio: 60% da população paraguaia foi dizimada (mais de 300.000 vítimas) e a imensa maioria dos homens foram mortos, causando um desequilíbrio demográfico que perdura até hoje. O país perdeu várias porções de seu território (parte do atual Mato Grosso do Sul, por exemplo, era terra paraguaia antes da guerra), teve sua economia devastada e seu povo reduzido à fome e à miséria. Já no Brasil, os genocidas se tornaram heróis nacionais e receberam títulos nobiliárquicos: Luís Alves de Lima e Silva se tornou o Duque de Caxias (apelidado de “O Pacificador” pelo tanto de sangue que fez derramar), o Almirante Barroso se tornou o Barão do Amazonas, e o General Osório virou Marquês do Herval.

Para formar suas tropas, o império brasileiro recorreu aos chamados “voluntários da pátria”, que de voluntários não tinham nada. Centenas de indígenas e caboclos da Amazônia foram sequestrados de suas terras para irem, debaixo de chicote e acorrentados, defender interesses que não eram seus e combater gente de sua mesma etnia, falante de uma língua irmã (o guarani paraguaio, o abanheenga, muito semelhante ao tupi amazônico, o nheengatu). Negros escravizados também foram combater sob a falsa promessa de que, no regresso, seriam libertados. É a mesma, velha e monstruosa história dos povos submetidos à violência colonial e de seus patrões que se vendem fácil aos interesses das grandes potências internacionais.

Hoje, no Brasil, a gente quase sempre se refere ao Paraguai com deboche e desprezo, como uma fonte de produtos falsificados, o reino das falcatruas, na ignorância de que, antes da guerra, ali ocorreram muitos avanços sociais (como uma importante reforma agrária) que os “aliados” a soldo inglês cuidaram de demolir. Quem anda Brasil afora e Brasil adentro encontra ruas e outros logradouros que comemoram a “vitória” sobre os “tiranos” paraguaios: Voluntários da Pátria, Cerro Corá, Lomas Valentinas, Riachuelo, Avaí, Tuiuti, Humaitá, Passo da Pátria etc. Sem falar nas homenagens aos “heróis” que encheram o solo paraguaio de sangue brasileiro, argentino, uruguaio e principalmente paraguaio.

É bem provável que o nome do Morro do Tuiuti, no Rio de Janeiro, berço da escola de samba Paraíso do Tuiuti, tenha sua origem numa dessas homenagens à destruição de um povo e de um país, pois a comunidade que ali se formou surgiu justamente no período do segundo império brasileiro.

Seja como for, os criadores do enredo da escola este ano, ao levar para a avenida uma crítica nada sutil aos golpistas mafiosos que estão destruindo o Brasil e espoliando o povo brasileiro, deixaram a nu a farsa da história oficial, denunciando os crimes que há séculos vêm sendo cometidos contra todas as pessoas esmagadas pelos interesses de meia dúzia de donos do poder, fantoches de poderes ainda maiores e mais sanguinários. Não importa o resultado da apuração dos votos: a G.R.E.S. Paraíso do Tuiuti já conquistou a maior e melhor vitória, que é a solidariedade de todos quantos sabem que a história oficial é uma coleção de mentiras e de hipocrisias contadas e recontadas para aplacar a consciência criminosa das classes dominantes. Já ganhou!

Criado em 2018-02-14 22:18:26

Marmitex

Sandra Crespo -

Rio de Janeiro - Depois de aquecer no micro-ondas, coloquei num potinho de sorvete a comida que sobrou. Era um resto do cozidão do restaurante Lopes, que eu haveria de passar pra frente neste início de tarde. Não ia ter mais saída aqui em casa.

Saí pela Nossa Senhora de Copacabana com o pacotinho e um pensamento: só porque estou procurando, duvido que eu encontre agora um morador de rua a fim dessa boia, que por sinal está muito boa!

Avancei um quarteirão, para chegar à Almirante Gonçalves, uma rua sem saída que começa na praia e termina na Nossa Sra - onde abundam camelôs, aposentados e sem-teto. A rua do Bip-Bip.

Naquele horário, duas da tarde, o local costuma ser dominado pelo time dos aposentados. Duas mesas redondas de concreto com desenho de xadrez estavam repletas de pastilhas brancas e pretas do jogo de damas. Sentados em volta, alguns senhores faziam suas jogadas.

Eu parei e observei. Lá atrás, entre os carros estacionados, vinha da praia um homem muito maltrapilho, barba farta e suja, sem camisa e andando ligeiro com ajuda de muletas - a perna direita era amputada. Talvez ele se interesse, pensei.

Esperei ele se aproximar e, meio sem graça, abordei-o: O senhor já almoçou? “Já”, fulminou o homem, sem nem me olhar.

E antes que eu caísse na risada da perplexidade, um dos participantes do jogo de damas me acudiu. Era um homem negro, na faixa dos 70 anos, vestido com a simplicidade e o conforto dos que não têm pressa.

“Não liga, ele é doido. O que a senhora tem aí? Comida?”

Sim, está até quentinha, mas eu fico meio sem graça de oferecer, mesmo sabendo que muitos têm fome.

Pode deixar aqui comigo, fica tranquila que vai ter freguês - ele garantiu, amistosamente. - Tem um que saiu agorinha pra pegar um crack, daqui a pouco volta esfomeado.

Imediatamente eu lhe entreguei a matula. Obrigada, meu senhor. Muito obrigada. Boa tarde!

O ser humano é complexo. Modo de usar não funciona.

Criado em 2018-08-21 20:01:32

A resistência da utopia - em memória de Luiz Carlos Maciel

Zuleica Porto -

“Na verdade, não era eu que estava querendo dar uma de guru, a garotada é que estava precisando de um guru, isto é, de uma nova maneira de viver a vida e de ver as coisas.” (todas as citações do autor estão em "O negócio é o seguinte", Maciel, Editora do Pasquim, 1981)

Assim Luiz Carlos Maciel (1938-2017), filósofo, escritor, jornalista e roteirista explica o sucesso de sua coluna “Underground” no Pasquim do final dos anos sessenta. Em 1970 editou e publicou seus textos sobre a contracultura na Flor do Mal, periódico de curta vida mas que em cinco edições chegou a ter impressos quarenta mil exemplares. Impressionado com a “avalanche de cartas, principalmente de jovens, muito sinceras, derramadas e desarmadas. (...) falavam tudo, de suas neuroses, angústias, aspirações. Tudo projetado em cima dessa possibilidade que vislumbravam de se viver de uma maneira diferente”.

Nunca escrevi cartas ao Maciel, mas era uma leitora assídua de Underground, e as edições da preciosa Flor do Mal estiveram guardadas comigo até outro dia, quando um vazamento de água no armário onde estavam as deixou mofadas e imprestáveis. Nascida em 1952, fui e ainda sou partidária de levar a vida “de uma maneira diferente”. Que vida diferente seria essa?

Era a aspiração de mudar o mundo, inventar uma maneira nova de viver, para além dos modelos velhos de família, de morar, de pensar. E o Maciel, com sua prosa boa, ia ensinando tudo que sabia do movimento que fazia furor lá fora. Os estudantes que fizeram em Paris o Maio de 68 escreviam nos muros: “é proibido proibir”, “a imaginação no poder”. Nos EUA, os negros lutavam pelos direitos civis, as mulheres erguiam a bandeira do feminismo, rapazes recusavam a participação como soldados na guerra no Vietnam.

Citando Maciel: “Era uma situação concreta do país e do mundo, uma situação concreta do desenvolvimento da humanidade, que estava exigindo que alguma coisa acontecesse. Alguma coisa que desmentisse toda a estrutura da vida civilizada do nosso tempo. Que dissesse que tudo aí é mentira. Alguma espécie de volta a uma visão mais direta das coisas e a uma maneira mais primitiva de viver. Uma espécie de volta à natureza”. Os adeptos dessa nova “alguma coisa” eram considerados hippies, desbundados, porras-loucas ou bichos-grilos.

Chegada em 1971, foi nessa tribo que armei a minha rede cearense. Então nós, os desbundados de Brasília, éramos assim: recém-chegados na cidade nova, dividíamos repúblicas, que eram muitas.

Vínhamos dos diversos estados do Brasil para estudar na UnB, onde nos conhecemos. E daí se formava uma república, que para funcionar, precisava da afinidade de gostos e modo de viver entre os moradores. Ninguém tinha telefone, mas vivíamos nos visitando, caminhando pela cidade árida porque as árvores ainda não haviam crescido.

Explorando as cachoeiras próximas, o Pipiripau, o Poço Azul, fazendo acampamentos precários, em que as “barracas” eram às vezes feitas com uma toalha de plástico e uns paus que achávamos por ali. Discos, livros, os poucos pertences de cada um eram de todo mundo.

Nas repúblicas não havia TV, mas o toca-discos não podia faltar. E as estantes improvisadas com tijolos e ripas de madeira abrigavam, entre muita literatura, os pensadores da contracultura: Reich, Marcuse, Leary e dois psicanalistas brasileiros que fizeram a cabeça de muita gente: Roberto Freire (não confundir com o político homônimo safado) e José Ângelo Gaiarsa.

Mesmo sem dinheiro, dávamos um jeito de ir ao cinema, que em tempos de censura ofereciam cópias mutiladas de obras como Laranja Mecânica, em que bolinhas pretas saltitavam atrás de seios e genitais, transformando um filme tenso e trágico em comédia, arrancando gargalhadas. Mas Zabriskie Point, de Antonioni, passou incólume pelos insondáveis critérios dos censores, que não se incomodaram com a explosão psicodélica do Pink Floyd.

Éramos todos de esquerda, admirávamos e torcíamos muito pelos militantes das organizações e partidos clandestinos, que arriscavam (e muitas vezes perdiam) a vida na luta contra a ditadura. Mesmo sem saber, nossa resistência se dava na maneira de viver.

E incomodávamos muito os ditadores, o que descobriríamos perplexos quando uma escalada de prisões (que melhor seriam definidas como sequestros) desmantelou a maioria das repúblicas. Mas esta é outra história, que trouxe o lado sombrio para aquela vida de comunidade, vestidinhos floridos, almofadas e samambaias nas salas desprovidas de móveis.

Sobre este lado assombroso, da insana repressão, vale muito a pena conhecer o olhar do escritor manauara Milton Hatoum, que este ano, o mesmo da morte do Maciel, lançou A noite da espera, primeira parte da trilogia sobre os anos duros que nos deram os generais. Aliás, alguns personagens desse “roman à clef “eram habitantes das repúblicas que a ditadura invadiu de arma em punho.

Herdeiros tardios de Thoreau, a gente sonhava com um novo Walden para onde levar “amigos, livros e discos, e nada mais”, como dizia a canção de Sá e Guarabira. Utopias, como sabemos, existem desde os gregos antigos, com Platão e sua República. Mas com o nome de “não-lugar”, a primeira foi a de Thomas Morus, publicada em latim em 1516.

Na ilha de Utopia, não se podia prejudicar ninguém em nome da religião; a intolerância e o fanatismos eram punidos com o exílio; havia harmonia entre os diversos credos; todos viviam em paz e o parlamento zelava pelo bem do povo; a propriedade individual e o dinheiro eram incompatíveis com a felicidade. Continuam sendo, me parece óbvio.

No entanto, os que mandam no mundo continuam apostando no poder do dinheiro, na opressão por meio da religião, da escola, do modelo tradicional de família, na repressão como forma de manter o poder de poucos sobre muitos. Hoje, no Brasil, como nunca, resguardados por uma “democracia” de aparência que tudo permite quanto à supressão de direitos e liberdades.

Mas a utopia resiste, como não? As questões que levantavam os adeptos da contracultura continuam valendo, era o que dizia Maciel em 1981: “A contracultura foi uma coisa que as cabeças desvairadas e loucas dos jovens criaram (...) em face de necessidades concretas, reais, que estavam atravessando.

É também certo que, na medida em que as condições vigentes da nossa vida em comum continuaram sendo neurotizantes, repressivas, uma outra coisa parecida acabe por surgir. Naturalmente não vai ser igual, não vai ser hippie. Vai ser uma outra coisa, ainda sem nome, que deverá surgir simplesmente porque é assim o processo natural da realidade. Ao criar as doenças, cria também certos antídotos.”

A outra coisa sem nome se anuncia, acredito, neste século ainda jovem. As minorias se organizam, em busca de direitos e espaço para viver e respirar.

Por enquanto, fracionadas em diversos movimentos: sem-terra, sem-teto, negros, negras feministas, feministas simplesmente, LGBT, indígenas, quilombolas, defensores da agricultura familiar, cadeirantes, pedestres e ciclistas, só para citar alguns. São inúmeros coletivos, associações, grupos, que divulgam ideias e acontecimentos usando as múltiplas possibilidades oferecidas pela internet. Por enquanto, resistindo para conseguir existir. Mas sonho que, no dia em que todos se unirem em um grande e solidário movimento, a utopia deixará de ser utopia. Sonho demais?

Criado em 2017-12-18 17:29:54

Arte, psicanálise e fé

Maria Lúcia Verdi –

Freud se refere à Psicanálise como arte do tirar e não do por, tirar de lá, do lugar do isso (ça), num jogo entre dois. Tirar tudo o que a linguagem oferece até chegar ao fundo, ou ao raso, de uma compreensão. No caso do artista, como Michelangelo retirando da pedra o excesso e revelando a imagem secreta que nela havia. 

Bion propõe que nesse jogo o psicanalista controle memória e desejo, busque intuitivamente o essencial do que lhe informa o analisando, fazendo de cada encontro uma novidade e uma curiosa, especialíssima, aventura em busca do que ele nomeia como “O”, um caminho para a percepção das infinitas possibilidades do sujeito que quer conhecer seu desejo.

Bion disse que não bastava uma interpretação ser correta, ela precisaria ser bela. Em sua obra, sem preconceito, ele emprega o termo alma, além do de mente e espírito. Alma, Infinito e o Belo ideal estão no mesmo campo semântico.

Penso na angústia frente ao Infinito, como todos nós a conhecemos: algo que nos faz encarar o tamanho sem fim do “que não anda, do que não funciona”, como no Real de Lacan. Ainda com Lacan, recordo-o dizer em O triunfo da Religião, ter "ela sido pensada para curar os homens, quer dizer, para que não se deem conta do que não funciona."

Para Meg Williams, escritora e artista inglesa estudiosa de Bion, o Infans, o sujeito em análise, não precisa de ilusão – para ficarmos com Freud, da ilusão da religião – mas do Infinito. O sentimento transformador do que nos supera, o sentimento de que nos fala Bion, com seu O, o O da Origem, do Um, do vazio. No Futuro de uma Ilusão, Freud anota que o ser humano tem um “elo indissolúvel” com o Cosmos.

A vivência de Bion na Índia durante a primeira infância, a escuta das histórias da mitologia hindu, provavelmente narradas pela Ayah em uma das línguas do país ou mesmo em sânscrito, certamente alimentaram o imaginário do pequeno Wilfred. Todo aquele universo infinito de sons, cheiros, sabores terá sido terra fértil para a construção de um pensamento original e mesmo corajoso em relação ao que se pensava e escrevia em psicanálise. Lembro do título de um livro de Pasolini: L´odore del´India (O cheiro da Índia) e imagino Bion imerso entre aquelas multidões, aqueles grupos, toda aquela concretude;  a intuição do Infinito, do  Mistério e do Desconhecido surgindo-lhe a partir daquele lugar, da Índia atemporal.

Guimarães Rosa, para ficarmos com Bion e Platão, cria Riobaldo - aquele que fala longamente a um interlocutor mudo num puro, acho que posso nomeá-lo assim, num puro “ato-de-fé” (vide Bion e Lacan) – cria Riobaldo e em Grande Sertão elabora, entre outros, o tema da fé e do infinito. Em um momento Riobaldo coloca a seguinte afirmativa-pergunta: “A gente vive não é caminhando de costas?”. Diz também, em outra passagem: “É e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é”. 

Bion sugere que assim seja entre o analista e o paciente: um sonho a dois num labirinto, no desconhecido. O fundamental, creio, é acreditar verdadeiramente em um processo: analítico, amoroso, artístico, seja qual for e seguir-lhe o fluxo.

Voltando a Guimarães e sua metáfora, o sertão é a natureza, do mundo e do homem. O Sertão, como uma epifania, um insight, simplesmente acontece, se presentifica na mente do “Principiante” (como diz o Zen), como em um êxtase. Volto a citar Riobaldo-Rosa: “Sertão, – se diz, – o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, por si, quando a gente não espera, o sertão vem.” Como todos lembram, Picasso dizia “Eu não procuro, acho”. Freud, sempre no Futuro de uma Ilusão, nos lembra que a natureza “se ergue contra nós, majestosa, cruel e inexorável”, sendo a religião “um alívio para a psique” pois a vida sem a religião seria “intolerável”.

Vejamos como ecoam todos esses temas e questões no (tradução minha da versão francesa do original japonês) “Poema da Fé no Zazen”, do Mestre Sozan 1789-1868, da linha Rinzai:

Ninguém atinge o ápice
da mais alta montanha.
Ninguém compreende este lugar misterioso.
Nem Buda, nem Deus,
nenhum santo, nenhum sábio pode exprimi-lo
pela virtude da eloquência,
nem mesmo pelo silêncio.
É refletindo profundamente e levando longe
nossos estudos,
que chegaremos a esse lugar.
Mesmo que nós o observássemos todos os dias,
é como se nós não tivéssemos olhos,
mesmo se escutarmos toda a noite,
é como se não tivéssemos ouvidos.
Melodia de uma harpa sem cordas,
ou de uma flauta sem furos,
esta música comove os corações mais frios,
sua harmonia toca o mais irônico dos espíritos.
O sujeito e o objeto, ambos desaparecem,
a atividade dos fenômenos e a profundidade da sabedoria
adormecem.
Não há mais ansiedade, projetos, cálculos,
não se pensa mais.
O vento cai, as ondas desaparecem,
o oceano se acalma.
Com o entardecer, a flor se fecha, as pessoas partem,
então a paz da montanha se torna profunda.

Diferentemente da visada religiosa, próximo da visada filosófica, o Zen propõe a ética da busca do equilíbrio, do exercício da neutralidade em relação aos estímulos que nos vem do que chamamos de realidade.

Diz  Bion que o analista deve proceder no consultório como um cientista, um artista e um teólogo. Propõe uma delicadíssima alquimia, a análise como experiência estética, obra de arte construída a dois: cada tanto florescer no êxtase do encontro com os pedaços de infinito que a compreensão cada tanto oferece, em meio ao vir-a-ser da  jornada.

Êxtases de compreensão como o que Drummond descreve quando fala do momento em que, sem poder compor o poema, tendo-o pensado por uma hora, desiste de buscá-lo, compreendendo que deve apenas descrever essa impossibilidade, terminando por dizer que “a poesia deste momento inunda minha vida inteira”.

Em busca da verdade, da compreensão, Freud afirma que o analista deve poder cegar-se artificialmente para ver melhor. Bion, para dizer o mesmo, usa a metáfora barroca do “facho de escuridão” auxiliando a ver. Cito: “`O` é um lugar escuro que deve ser iluminado pela cegueira”. Pura poesia. A mente daquele que medita em Zazen, sentado, buscando centrar-se na respiração para controlar o fluxo de ideias e memórias, buscando esvaziar-se, - essa mente busca ver a partir da escuridão, sintonizar-se com a respiração da natureza.

Para Bion, o analista deve buscar tocar o pulso do seu companheiro de jornada, o Pathos que aquele que o buscou traz em sua demanda. Ethos e Logos devem estar subordinados ao Pathos. O saber em demasia, pode afastar a sabedoria, afirmação que o Zen confirma. Creio que para aceitar, ou para suportar, o sem sentido da existência, é preciso negociar com o absurdo e com o silencio dos elementos. Não há respostas, como nos Koans zen, perguntas ou histórias paradoxais. Negociação com o absurdo que requer a rara arte da paciência, paciência que Bion aconselha - paciência, aparentemente a menos heroica das qualidades, tão excluída do mundo do século XXI (e agora, durante a pandemia, a mais necessária). Aceitar o silêncio abissal do mundo, assim como aceitar o silêncio do analista e do analisando.

No caso do artista, mesmo assim, ainda que imerso na compreensão desse absurdo, dessa Coisa que nos atrapa, buscar compor a obra. Necessitamos da Arte, das censuras que ela pode ajudar a instaurar; a Arte, essa ponte com nenhum e com infinitos apoios, deusa apressada e sem nenhuma pressa. A Arte, este fruto da selvagem, inconsciente revêrie que nos faz suportar a angústia do infinito, sobreviver à consciência de estar no “at-one-ment” (Bion), aqui, agora, inteiramente imersos no turbilhão do viver.

Emily Dickson definiu a Fé como “uma ponte sem pilastras”. No quadro Pastoral, de Tarsila do Amaral, uma criança e um velho estão sentados em um banco branco sem apoio, um banco sem pilastras. Tendo em conta as roupas, poderiam ser uma criança do dia de seu batizado, ao lado do Avô.

Mas também poderiam ser a mesma pessoa sentada no banco da vida, da infância à velhice. O apoio desse banco sem apoio estará escondido no título Pastoral? Será esta pintura uma Carta pictórica que nos deixa Tarsila, nas vestes de pastora espiritual? Mas ainda há outro elemento inquietante que se soma, um macaquinho de madeira, um brinquedo, que poderia estar evocando a teoria da evolução do homem.

O melhor da Arte e o fundamental da Ciência brotaram da capacidade do homem de duvidar.

Criado em 2021-06-15 01:27:50

Com sonhos e suor se fazem os bambas do esporte

Angélica Torres -  

Quem não sabe que a paixão pelo futebol quando cola nos amantes de esportes, sejam eles homens ou mulheres, vira um caso sério para a vida toda? Está aí a Francisca de Lima dando o testemunho da magia dessa química em Atletas de Elite – os segredos e a força mental do atleta brasileiro (Insígnia Editorial, SP, 2021).

Lançado em Portugal, durante a conferência Global Football Management, no Estádio da Luz de Benfica-Lisboa, em outubro passado, o livro foi também lançado em dezembro, no Rio, nos clubes do Flamengo, Fluminense e Botafogo e na sede da OAB, além de no Minas Tênis Clube e Minas Boca, em Belo Horizonte. Atletas de Elite traz entrevistas com 22 craques brasileiros – e não só do gramado, também do futsal, do vôlei e do hipismo – e, com a maioria deles, a autora mostra ter outro forte ponto em comum: o sonho e a obstinação de superar pobreza, enormes dificuldades, desafios e de se tornar referência na carreira.

Francisca Dida de Lima vive na Alemanha há 32 anos, mas, isso, depois de ter amargado duros pedaços de pão e chão amassados pelo diabo, no Brasil e quando chegou em Hamburgo. Lá, anos depois, espartana que é por natureza, formou-se mestre em Psicologia Clínica e Organizacional e especializou-se, em Zurique, Barcelona e Lisboa, em Coaching Mental, para atuar na área de Esportes de Alta Performance. Tanto estas modalidades quanto as atividades são ainda restritas ao “clube do Bolinha”, fato que, no conjunto da obra, acaba por torná-la mais uma interessante personagem entre os seus “atletas de elite”.

O amor e o destino ligados ao futebol

Na apresentação do livro, ela conta de quão honrada se sentiu com o convite de uma agência suíça de futebol, para ajudar atletas de elite a manterem o equilíbrio mental, durante e após o fim de suas carreiras, e de trabalhar com jogadores da primeira Liga da Alemanha. Narra a difícil infância que viveu em Irecê, interior da Bahia, depois que o pai sumiu, deixando a mãe e os seis filhos ao Deus-dará. Aos seis anos, já a ajudava a criar os irmãos menores, que terminaram distribuídos em casas de família, em Brasília, onde supunham estivesse o pai, nunca encontrado.

Francisca viveu na mesma casa em que a mãe trabalhou de empregada doméstica, mesmo depois de sua decisão de ir sozinha para o Rio, na esperança de encontrar o marido. Ainda uma criancinha e sentindo fundo esta nova perda, ela, no entanto, foi bem tratada e bem educada na casa dos patrões de sua mãe biológica e, contrariando a mãe de criação, cresceu amando e jogando futebol com colegas de estudos. Tanto que ganhou deles o apelido de Dida, pelo jeito parecido de jogar, diziam, com o do grande artilheiro do Flamengo, ídolo de Zico e campeão mundial em 1958 na Suécia, que morreu em 2002, justo no dia do aniversário dela. “No Brasil, sou conhecida por muitos como Dida e é com muita honra que carrego esse apelido”, enfatiza.

O tempo passou e, aos 15 anos, ela quis ir se juntar à mãe biológica, vivendo num município do Rio, um lugar de grande pobreza. Magoada, a mãe de criação rompeu para sempre com ela. Francisca Dida passou a dormir sobre uma caixa de papelão no chão, no cubículo onde moravam, e a ser operária de fábrica de dia e estudar de noite. Essa luta seguiu até a chance que surgiu de ir trabalhar de babá de duas crianças, com uma família carioca que morava na Alemanha. Sonhando com uma vida digna e em tirar a mãe da miséria, além de ajudar os irmãos a poderem estudar, lá se foi ela para Hamburgo. E não voltou, quando a família carioca retornou ao Brasil.

Histórias de vida e de superação

Dida foi trabalhar na casa de uma família alemã, quando aprendeu o idioma e retomou os estudos, chegando a se formar como psicóloga na Universidade de Hamburgo e a trabalhar com dois atletas de elite. “Foi quando voltei a sonhar com as peladinhas que tanto joguei na infância: o futebol voltava à minha vida”, conta no livro.  Foi da trama do resumo de sua história com a dos 22 entrevistados, que surgiu durante a pandemia o projeto de seu livro de estreia.

Ao conhecer o empresário de futebol e professor em gestão esportiva Felipe Ximenes, criador da comunidade Grupos FX, que reúne desportistas de 16 países e de todas as modalidades em torno de cursos on-line, ela se integrou aos debates e se aproximou desses astros, que têm seus passes comprados por times estrangeiros e que lá vivem, ou já viveram. Bolou o livro e fez as entrevistas por telefone, e-mail e com alguns, cara a cara, extraindo de suas histórias pessoais, desde a infância, os sofrimentos vividos, suas humilhações, as lesões, os fracassos e as vitórias, a força física e a mental que empregam na árdua batalha para obterem o êxito máximo na carreira. (Foto acima: Ximenes na frente de Francisca, ladeada por técnicos e jogadores, durante a convenção dos Grupos FX, no Rio, em dezembro).

Estão ali depoimentos ricos em termos profissionais e humanos e com passagens divertidas, como os do zagueiro da seleção brasileira de 2014, Dante Bonfim (que joga hoje pelo OGC Nice) e do gigante do futsal (ou futebol de salão), Lavoisier Freire, tetracampeão da Copa América. Há confissões surpreendentes, psicanalíticas, doloridas e fortes, como a do jóquei Eurico Rosa, vencedor em mais de 1.500 competições internacionais e radicado no Canadá.

Há histórias saborosas de El Mago (William Arjona) e de Dentinho (Marcelo Freitas, na foto abaixo, à dir. de Dida, no Fluminense), ambos, campeões do voleibol, e as de Leo Higuita, outro mega campeão do futsal, radicado na Rússia. Estão também no livro os sábios depoimentos de Marco Bruno (ex-futebol e ex-futsal) e de Barata (José Alexandre Fiuza, ex-futsal), que hoje atuam em gestão esportiva. Além dos relatos dos demais depoentes, cada qual com suas revelações e lições de determinação e tenacidade.

O grito de socorro dos atletas

Mas Francisca de Lima não se conformou em conversar somente com atletas. Colheu também informações complementares de cinco especialistas em formação de desportistas de alta performance, que atuam com abordagens modernas em: gestão, ortopedia, fisioterapia, nutrição e meditação, além de psicologia, a área dela própria. No prefácio de Atletas de Elite, o ex-presidente da OAB/AL e integrante das Turmas FX, Omar Coêlho de Mello, projeta que a experiência da autora, com sua expertise, pode levar à quebra de arquétipos que precisam ser superados no campo esportivo.

Em seu relato como psicóloga, ela chama a atenção para o grito de socorro dos atletas, iniciantes e os de alto rendimento também, que têm que lidar com as frustrações, as angústias, o medo, a depressão, sem demonstrarem fraquezas, com a pressão que sofrem dos clubes. Antes, os mesmos clubes eram como a família dos atletas; lá ficavam por vários anos e se tornavam heróis. Hoje, o corpo é comparado a uma máquina que tem de funcionar sem falhas. E essas exigências geram inclusive desvios de comportamento, ela assinala. Em resumo, Francisca Dida de Lima se empenha pela política da gestão humanizada no meio esportivo.

Atletas de Elite saiu também em e-book, facilitando o acesso aos clubes estrangeiros dos entrevistados e a outros grandes que já manifestaram interesse em seu conteúdo, como o Manchester City e o Manchester United, ela conta, e se compromete a ouvir as meninas da próxima vez. “Gostaria de ter entrevistado algumas das grandes atletas brasileiras que estão aqui pela Europa e pelo mundo, mas este é um assunto para o próximo livro”, acena.

Francisca de Lima foi uma das dez profissionais de saúde nomeadas em 2021 ao prêmio Melhor do Brasil no Mundo, entregue por Luiza Brunet, no salão de festas da residência do príncipe William, o Palácio de Kensington, em Londres, em 30 de outubro passado. Promovida pela revista inglesa High Profile, editada pelo empresário Rafael dos Santos, a premiação reconhece a atuação de brasileiros que se destacam no exterior. “Não fui, não me interesso por essas coisas”, esnoba a Dida, que foi indicada pela mesma revista a outro prêmio, o Melhores do Brasil na Europa, a ser entregue desta vez em junho, em Paris.


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Atletas de elite – os segredos e a força mental do atleta brasileiro – De Francisca de Lima. Insígnia Editorial, 340 págs. Entrevistas: Dante Bonfim C. Santos, Silvio Costa, Atílio Dias, Thiago Gentil, Gustavo Parededa, Dentinho, Gera (Oswaldo F. Junior), Ataliba (Carlos Eduardo Soares), Fillipe Soutto, Eurico Rosa, Marco Bruno, Regis Amarante, Carlão (Carlos A. de Oliveira), Leo Higuita, Sueliton P. de Aguiar, Wallace Martins, Yuri Naves, Diego Fávelo, Barata, Vinícius Elias Teixeira, William Arjona e Lavoisier Martins. Textos complementares: Felipe Ximenes (Gestão Esportiva), Juliana B. Carvalhaes (Meditação), Helder Nani (Quiropraxia), Fernando Pardo (Nutrição), Michael Simoni (Ortopedia) e Francisca de Lima (Psicologia e Coaching Mental).

O livro está à venda pelo site da Insígnia Editorial: https://www.insigniaeditorial.com.br/

Criado em 2022-01-30 16:42:23

A falta que faz um Darcy Ribeiro

Romário Schettino –

Acabo de ver um documentário sobre a vida de um brasileiro chamado Darcy Ribeiro. Não posso deixar de mencionar seu nome sem sentir certa amargura diante de tanta iniquidade, sordidez, vilania, canalhice, infâmia, que tomaram conta da política nacional nos últimos dois anos e meio.

Darcy era a fina flor do humanismo, um nacionalista que entendeu a alma do povo brasileiro, suas origens e seu destino. Não só na teoria, mas, sobretudo, na prática.

Darcy Ribeiro era antropólogo, escritor, político, e passou sua vida a serviço das causas populares e dos indígenas. No Senado, seu último cargo público, antes de morrer de câncer no pulmão aos 74 anos, pensava o Brasil à frente de seu tempo. Dessa forma defendeu a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional por entender que era necessário dar oportunidades iguais aos mais pobres. Com este mesmo espírito, trabalhou com Brizola na instituição dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs) quando foi vice-governador do Rio de Janeiro, hoje irresponsavelmente abandonados. Darcy dizia que a crise na educação no Brasil não é uma crise, "é um projeto político" das elites.

O mineiro de Montes Claros defendeu os índios com a fundação do Museu do Índio e na criação do Parque Nacional do Xingu. Como professor participou, junto com Anísio Teixeira, da criação da Universidade de Brasília. Darcy viveu pensando e buscando soluções para o Brasil. Morreu frustrado, mas consciente de que essa tarefa não pertencia somente a ele.

Trabalhista de raiz, foi ministro da Educação e chefe da Casa Civil do governo João Goulart. Resistiu o quanto pôde para entregar as chaves do Palácio do Planalto aos golpistas de 64. Com o golpe militar exilou-se no Uruguai, no Peru e no Chile onde prestou relevantes assessorias na área da educação. Antes da anistia estava na França, onde descobriu que tinha câncer e perdeu um dos pulmões.

Com a abertura política, voltou ao Brasil para fundar o PDT com seu antigo parceiro Leonel Brizola. O documentário de Maria Maia é rico em detalhes sobre essa trajetória.

Com tantos nomes importantes na história brasileira, como Darcy Ribeiro, é inacreditável que estejamos hoje nas mãos de pessoas desqualificadas como Jair Bolsonaro e sua turma de negacionistas, terraplanistas, militares entreguistas e corruptos de toda espécie.

As baixarias que somos obrigados a ouvir todos os dias na imprensa e nas redes sociais são de dar vergonha. Somos insultados insistentemente.

As elites brasileiras, responsáveis pelo desastre em que nos meteram ao apoiar e eleger o protoditador Bolsonaro deveriam ler pelo menos o último livro de Darcy: O Povo Brasileiro – a formação e o sentido do Brasil. Quem sabe aprendem alguma coisa e deem sentido ao fato de terem nascido em território tão rico em diversidade e cultura.

Darcy, um Brasileiro, da cineasta Maria Maia, é uma produção da TV Senado, e será exibido amanhã (8/8), no canal do Cine TVT no Youtube, às 14h. Matéria da Mostra Maria Maia pode ser lida aqui.

Criado em 2021-08-08 01:11:08

A caminho de Budapeste

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) -

Nem é preciso insistir, todo mundo viu pela televisão a cara de bunda do Bozo ao final do discurso do Xandão na cerimônia do TSE.

Mal disfarçando a irritação, o elemento catou a Micheque, chamou o Carluxo e os três saíram de fininho pro Alvorada. Calados, cara de cu um, cara de peste a outra, cara de sei-lá-o-quê o terceiro.

O capiroto e mal lavado entrou no palácio furibundo. "Eu esgano o Kojak, aquele filho da puta, caralho, porra!"

- Não tinha como você não ir, pai!, disse o Carluxo. Seria como que uma declaração de guerra por demais conspícua, como já está espalhando a imprensa depois de consultar os costumeiros deuses supraconstitucionais. Temos agora de avaliar a conveniência de manter a parada do 7 de Setembro em Copacabana.

- Ah, essa fodeu! Os morcegões estão assanhados e são até capazes de tentar inviabilizar a nossa chapa. Desgraçados!

- Ô, pai, o mais chato de tudo é que os comunistas estão dizendo que você ficou constrangido de ficar frente a frente com o descondenado. Eu, pelo menos, ganhei uns pontinhos ao apertar a mão do Alckmin.

Nisso ouvem a Micheque na outra sala entoando frases incompreensíveis:

 - Hogy vag? Hogy van? Honnan jött? Hogy hívják? Hovy hivnák? Mi? Mikor? Hol van a mosdó?

- Ô, Michelle, tenha a santa paciência! Isso é hora de falar em línguas? Era só o que faltava!

 -- Ô, Cavalão, isso é húngaro, idiota! Tô estudando húngaro tem um mês. Acho que tá na hora de ligar pro Orbán e já ir reservando uma vaga na escola pra Laura!

Criado em 2022-08-17 15:44:40

O comício para um só eleitor. Ou, o tempo dos políticos carismáticos

Luiz Martins da Silva –

O caso me foi contado por Ney Braga, um dos mais influentes políticos do Paraná. Foi prefeito de Curitiba, deputado federal, senador, governador, ministro da Agricultura, da Educação e presidente da Itaipu Binacional.

A oportunidade de conhecer o referido folclore político se deu pelas circunstâncias de eu ter sido “repórter setorista” de Educação por dois veículos de imprensa, o Jornal de Brasília e, depois, O Globo.

Por força da função, eu vivia batalhando entrevistas com ele, pois, além de ministro ele era, sobretudo, um político do “alto clero” e, como tal, muito bem informado, numa época em que ter fontes era tudo. O regime era fechado e as informações se dividiam, como sempre, em oficiais, extraoficiais e de bastidores, ou seja, on the record (para publicar); off the record (para não publicar); e com base no sigilo da fonte (para publicar, mas sem revelar a origem pessoal ou dar indícios reveladores da procedência).

Ney Braga era uma personalidade rica em experiência e talentos, um deles, conquistar a simpatia das pessoas. Era um ser humano de afável trato e quando o conheci ele já tinha a primazia dos relatos, vasta biografia em postos e realizações, mas também uma trilha paralela de histórias e História. Contava-as, não por narcisismo, mas por didatismo ou, simplesmente, pelos aspectos irônico ou hilário de uma boa parte. Orgulhava-se, sobretudo, de “ter feito” uma infinidade de coisas, desde ‘levar a luz’ a comunidades carentes, urbanas e rurais, a conseguir aprovação de relevantes projetos nacionais.

Revelou-me ter escapado por um triz de ser “cassado” pelo regime de 64. O regime imposto não tolerava lideranças políticas proeminentes, mas ele era general, embora da reserva. Lembro-me de que um aspecto desagradável ao militarismo era, possivelmente, uma proximidade dele com Jânio Quadros em tempos remotos. Acabou sendo convidado para integrar os altos escalões administrativos. De esquerda é que nunca fora.

Ney Braga situava-se entre os liberais e democratas (Partido Democrata Cristão). Não se importava em ser considerado uma “raposa”. Encarava isto muito mais por ser portador de carisma; ser um orador eletrizante em comícios memoráveis; e ser criativo em conjunturas desfavoráveis, como num momento em que não dispondo de condições de enfrentar à altura um poderoso adversário político, valeu-se de um simples e barato recurso: mandou imprimir um “santinho” para uma de suas campanhas, com a caricatura de Jânio, afirmando: “O homem é Ney!”. Só isto lhe rendeu uma popularidade extra.

Militar de carreira e formação superior (Escola Militar do Rio de Janeiro e professor do CPOR em Curitiba), Ney Braga quase foi para a Itália como expedicionário. Levaram em conta a sua situação de viúvo recente com quatro filhos.

Não tardaria a se dedicar de corpo e alma à sua mais forte vocação, a política, em toda a sua acepção, especialmente a política interiorana, no sentido provinciano e no sentido do ‘homem que faz’. No entanto, para além de obras, sua maior satisfação era estar nos palanques desde lá ir até à rouquidão no intuito de conquistar os corações.

Chegar ao Ministério da Educação e Cultura não estava nos planos, mas o MEC sempre moeda de troca nos mais variados governos, democráticos ou não, tal o gordo orçamento e capilaridade distributiva por todo o território nacional. O MEC sempre foi visto pelos políticos como uma das melhores retribuições no contexto das alianças e composições partidárias.

Mesmo sem ter um perfil de educador ou de um intelectual, Ney Braga foi um bom gestor e se fez cercar de “artistas”, especialmente do meio cinematográfico. Servindo a um governo ditatorial, mas com promessas de “redemocratização” (general Ernesto Geisel), o MEC dirigido por Ney Braga foi um oásis de boa convivência com o meio estudantil, com a área da Cultura e até mesmo com o austero Conselho Federal da Educação.

Aos palanques não voltaria mais e certamente não saberia lidar com o novo meio de eletrizar as massas, a televisão. Talvez, por isso mesmo fosse tão nostálgico e pontuasse as conversas com as lembranças de quando se fez uma lenda em popularidade no seu Estado. Quando de uma entrevista a este narrador, então um jovem repórter, conversamos durante uma viagem de avião. Alegando falta de espaço na agenda cotidiana, o ministro me convidou para viajar com ele ao interior de São Paulo. Os ministros viajavam em “jatinhos”, com alimentação, conforto e a companhia do piloto, copiloto, um ou dois assessores e algum convidado.

Uma das manhas de repórter é deixar a fonte falar do que quer, por vezes, desabafos e até esclarecer que papel desempenhou em momentos cruciais da História, esta senhora que nem sempre poupa a reputação de seus protagonistas, especialmente em relação a posicionamentos polêmicos. No caso dele, optou por apoiar o movimento que derrubou João Goulart. Como setorista de educação e atuando já há mais de uma década do Golpe, minha tarefa ali era extrair informações atualizadas em relação aos campos da educação, cultura e política em geral.

Em ocasiões como a que descrevo, ouvi com prazer relatos de um homem já madurão e saudoso dos tempos em que era reconhecido como “um personagem do povo”, quantas vezes carregado pela multidão. Seus comícios eram frequentados por pessoas e grupos que se deslocavam até de outros Estados para ouvi-lo e aplaudi-lo. Como bom político carismático, sabia da importância de cativar as pessoas, mesmo quando de uma simples abordagem pessoal.

Ocupou-se, então, de me contar como se deu a saia justa que o levou a ter de fazer um comício para um único eleitor, mas que, para votar nele, pediu um discurso exclusivo. Algo equiparável a um fã de um grande astro da música popular demandar de seu ídolo uma apresentação privilegiada. Rememoro, como se fosse na voz do velho político, o que se deu:

– Terminado um comício [acho que foi em Paranavaí], abriram passagem entre a multidão, que já se dispersava, para que eu pudesse me retirar. Fui com alguns companheiros até um bar, para bebermos água mineral. O bar estava vazio, aliás, não de todo, havia um homem, visivelmente bêbado, que imediatamente me reconheceu e me acolheu com grande espalhafato. E ressaltou apreciar por demais a minha capacidade de orador. Afirmou que me ouvir falar num palanque era uma atração imperdível. Assegurou ter votado em mim em várias eleições, mas que para fazer isto novamente eu teria de fazer um discurso para ele:

– O doutor vai discursar para mim. Aí, eu voto de novo no doutor. Mas, o doutor vai ter de fazer um discurso para mim.

– Mas, de minha parte – disse o ministro –, eu também apresentei outra condição: ‘Está bem, eu faço um discurso para você, mas se você for capaz de dizer qual é o meu nome por completo’. Ao que ele respondeu, na bucha: Ney Aminthas de Barros Braga.

– Extenuado, suado, com sede e no extremo das cordas vocais, encontrei um fio de voz e fiz para aquele cidadão um comício individual, mas lhe dediquei a mesma pompa, o mesmo entusiasmo, o mesmo respeito e os mesmos compromissos de campanha. Ele me aplaudiu, de pé, ou melhor, quase. Cambaleava de embriaguez e de um certo delírio, repetindo sem parar: “O doutor discursou para mim!”.

Criado em 2020-11-15 22:44:46

O outro lado das telas de cinema

José Carlos Peliano (*) –

Cinema Central, Juiz de Fora, Casablanca, filme de Michael Curtiz de 1942, com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, eu no meio da plateia lá por meados dos anos sessenta. A poltrona não me cabia, o coração mal me sustentava, a emoção me vestia da cabeça aos pés. Dois astros gigantes, de primeira grandeza, ele o tipo masculino prodigioso da época, ela uma deusa de beleza incomparável, de voz tentadora e presença dominante.

Ingrid, a sueca das terras distantes, ficou comigo muitos e muitos anos na memória por entre os labirintos de minhas recordações ainda mais porque revi Casablanca outras tantas vezes sem deixar de me envolver de novo com o enredo, a trama e sua companhia inesquecível. A ponto de anos mais tarde ter-lhe presenteado com um poema na coletânea Poetas Mineiros em Brasília, organizado por Ronaldo Cagiano, Brasília, Varanda editores, 2002, pp. 120/121.

Ingrid Bergman

Telas não houve que te revelassem
como a gôndola do infinito em
teu sorriso de brisa.

Tua luz fazia a noite
dia e
trazia de volta a vida em
todas as manhãs.

Era a teus pés a
curvatura do espaço de Einstein,
definitivamente.

Meus olhos te viram sempre e
não chegaram a ti, apena
meus sonhos inacabados e
irrecuperáveis.

Eu fui Humphrey Bogart e
Cary Grant e todos os outros que
estiveram ao teu lado, mas
não haverá quem cante nunca a
música que brilhava em teus olhos.

Cinema Palace, Juiz de Fora, Elvira Madigan, filme de Bo Widerberg de 1967, com Thommy Berggren e Pia Degermark (na foto, abaixo). De novo eu em uma das poltronas da sala de cinema uma vez mais embevecido pela figura da atriz tal qual alguns suspiros aqui e ali da plateia. Outra sueca escolhida a dedo pelo diretor do filme pela beleza, candura, marcante presença e atuação envolvente ainda que do mesmo tipo de discrição pessoal de Ingrid.

Igualmente Pia está comigo por muitos anos dividindo minhas recordações com a sua outra colega da arte de atuação. Não poderia deixar de ofertar-lhe um soneto inédito ainda guardado em meus arquivos.

Pia Degermark

milimetricamente embelezada
o sol esparramado nos cabelos
os cabelos de luz esparramada
sem mechas, sequer ondas ou novelos

esplendorosamente revelada
trigos e margaridas em seus pelos
pelos de alva pele abençoada
onde a enfeitam por bem acolhê-los

eis que a tela é pequena em revelar
dois olhos dando cor à cor do dia
quando leva a beleza ao seu lugar

boca de seiva pura em fantasia
que minha boca nunca irá beijar
inacabado sonho, um beijo Pia!

Minhas lembranças suecas não poderiam deixar de fora uma eterna e insuperável presença brasileira. Com a qualidade adicional de ser cada vez mais bela quanto mais os anos passam e lhe beneficiam com charme, elegância, postura, arte e sabedoria. Fernanda Montenegro (na foto, abaixo), a atriz considerada Diva do cinema nacional. A ela deixei também um pequeno poema, mas que é grande em reverência, intenção e gesto, que fiz em torno do bordado de seu nome.

Fernanda Montenegro

A vida anda e desanda
ainda assim seduz
traz magia a Fernanda
faz Montenegro em luz

Às três que vêm comigo vida afora faço agora um brinde de poesia e emoção por me deixarem sempre bem acompanhado quando o inusitado me leva a busca-las nos meus registros imemoriais para me deixar arrebatado de beleza, sentimento, conforto e saudade. À vida e à invenção do cinema!
__________________________
(*) José Carlos Peliano é poeta, escritor, economista.

Criado em 2021-07-18 04:13:20

Qual república queremos?

Roberto Amaral -

Passados cinco séculos de processo civilizatório – da exportação do Pau-Brasil capitalismo  rentista, que, na pobreza do país, faz a festa  do sistema financeiro internacionalizado –,  passados 200 anos da descolonização (nada obstante a dependência econômico-política que chega aos nossos dias), e após 133 anos, completados este mês, de experiência republicana, sem republicanismo e quase sempre sem povo, somos, na imperecível gravura de Darcy Ribeiro, “um país por ser”: a permanente expectativa de um futuro que teima em não chegar, traída a nação pela sua classe dominante, a mesma de sempre, aquela que nasce com os latifundiários da casa-grande colonial e os armadores de navios negreiros para instalar-se hoje na FIESP e na Faria Lima: uma burguesia sem pioneiros, herdeira da lavoura de exportação sustentada pelo braço escravo de africanos e semiescravo de emigrantes sobre-explorados;  uma “elite” alienada e alienígena, presa, econômica e ideologicamente, aos projetos de dominação das metrópoles; uma elite que pode dizer: “o país vai mal, mas meus negócios vão bem”.

Entender o presente é o desafio que se coloca para a esquerda brasileira.

Como explicar nosso fracasso em construir uma sociedade fraterna em uma das mais ricas e belas províncias do mundo? Como explicar nossa história presente, pautada pela emergência de uma extrema-direita com raízes populares, em condições de fraturar o processo democrático-institucional, sustentado até aqui aos trancos e barrancos, ao preço de tanta dor? Como explicar a resistência política e social à abolição (quase 400 anos de exploração do braço africano)? O nosso país ostenta o miserável título de último bastião escravocrata das Américas, para ao fim do regime condenar suas vítimas ao desamparo e à fome.

Como explicar, ainda hoje, a vitória do latifúndio sobre a reforma agrária – um projeto capitalista levado a cabo pelas nações desenvolvidas há algo como dois séculos? Nada mais indicativo do atraso e do reacionarismo de nossa classe dominante. Senão, vejamos: em 1823, em nossa primeira Constituinte, José Bonifácio (o patriarca da Independência, que desejava formar o Reino Unido Portugal-Brasil e Algarves) apresentou um projeto de reforma agrária e abolição gradativa da escravidão; em 1964, a defesa da reforma agrária pelo presidente João Goulart foi uma das razões aventadas pelos militares para sua deposição; na segunda década do terceiro milênio os camponeses do MST (que lutam por terra para nela produzir) são criminalizados pelo aparelho repressor, e os indígenas são assassinados ou expulsos de suas terras por grileiros.

Como explicar quase 70 anos de apego nacional a um monarquismo nascido arcaico, e a resistência ao republicanismo, a persistência do poder da terra, das oligarquias, do mandonismo, da segregação de classe, do racismo estrutural e da concentração de renda, da pobreza nos níveis de miserabilidade que dão o quadro das grandes cidades brasileiras, a começar por São Paulo e Rio de Janeiro? Pobreza que se naturaliza, como se naturalizam a opressão de classe, o desemprego, a fome (em país que é o terceiro exportador mundial de alimentos).

Como explicar a preeminência do agrarismo exportador? Na colônia e no império, dependíamos da exportação de madeira, de açúcar, de algodão, ouro e prata e café b   grão; chegamos mesmo a exportar indígenas apresados pelos bandeirantes, pioneiros no assassinato em massa do gentio. Em pleno capitalismo pós-industrial-monopolista somos exportadores de grãos, carne e minérios in natura, que reimportamos, por exemplo da China, na forma de trilhos.

Como explicar uma República (esta que sobrevive a ditaduras e golpes de estado militares) descartada dos princípios básicos do republicanismo, privatizada pelo grande capital?

Desamparada do apelo popular, que a desconheceu, porque nasceu de um golpe militar, a República,  nesses seus primeiros e dramáticos 133 anos de existência, viveria a curatela da caserna, independentemente do caráter e origem do governo. O agônico momento de hoje – o apagar das luzes do governo de extrema-direita, corrupto e assassino – não é uma especificidade em leque de experiências autoritárias que conhece ainda golpes de estado e ditaduras militares. A desmilitarização da República, sem a qual ela não sobreviverá e não alcançaremos a democracia, não é tarefa de um governo, mesmo consagrado pelas urnas; precisa ser projeto do clamor social.

Como explicar que, a esta altura do caminhar da humanidade, o projeto da classe dominante brasileira  seja uma “paz” que exclui a justiça social? Como explicar que o mantra do “equilíbrio fiscal” seja reclamado como prioridade sobre o desenvolvimento, que gera emprego e renda e é o único antídoto conhecido no capitalismo contra o desemprego e a fome?  Como explicar a ausência de um  projeto nacional para além dos interesses da classe dominante?

Segundo o professor Lincoln de Abreu Penna (Qual república queremos? Ed. Autografia. Rio de Janeiro. 2022) vamos encontrar as razões desse desarranjo – político, econômico e social – em nossa formação social, dominada pelo escravismo, pelo patrimonialismo, pelo autoritarismo, e em nossa incapacidade histórica de remover o legado escravocrata que em muitos aspectos condiciona o racismo estrutural e a prática da conciliação de classes, de que resultou o que somos: uma grande periferia na periferia do capitalismo.

O passado explica o presente e os mortos reinam entre os vivos. O que poderia ser uma grande potência econômica (apta portanto ao desenvolvimento social) é um projeto de dependência fundado na subordinação política e estratégica nacional (subordinação, portanto, das atuais forças armadas do estado brasileiro) à lógica econômica-militar dos EUA, como já fomos da Inglaterra, como já fomos de Portugal.

Se estamos diante do legado de um passado que se faz tão atual, é preciso estudá-lo. Conhecer as raízes de nossa formação para compreender o presente, estudar o passado para impedir sua sobrevivência no presente, e assim abrir caminho para a construção de um novo pacto social de que poderá resultar uma sociedade fundada na democracia e no socialismo – cuja defesa, por sinal, foi esquecida pela esquerda brasileira organizada. Daí o fim dos projetos revolucionários, a vitória de um reformismo cada vez mais bem comportado, os receios diante das possibilidades de ruptura, o desaparecimento dos partidos revolucionários, subsumidos pela institucionalização acrítica e por um eleitoralismo que impôs as táticas e as práticas do conservadorismo. Fenômeno que, lembra Lincoln, remonta à Guerra Fria e à opção prioritária comunista pela luta anti-imperialista, de que resultou o abandono da denúncia do capitalismo e da sociedade fundada na exploração de classe, e, ao fim e ao cabo, o abandono da defesa do socialismo. A consequência de tanto desvio ideológico seria a invenção, entre nós, de uma burguesia nacionalista à qual os comunistas ofereceriam aliança, de resto rejeitada. 

A renúncia à batalha ideológica chega aos nossos dias, com as consequências consabidas. A revolução transitou para o reformismo, a esquerda transitou para a socialdemocracia, que transitou para o centro, que transitou para a direita, que transitou para a extrema-direita, que namora o fascismo. A crise brasileira reproduz a crise da esquerda ocidental, pontuada pela decadência dos partidos de esquerda tradicionais (como exemplificam os desastres do Partido Comunista Italiano e do Partido Comunista Francês), a crise geral da socialdemocracia europeia, a vitória da extrema-direita na Itália e, em aliança com a direita, na Suécia, após o surto trumpista nos EUA.

A crise estrutural dos partidos comunistas e de esquerda de um modo geral foi uma das muitas consequências, no Brasil e no mundo homogeneizado pelo ditado tático-ideológico do PCUS, da paralisia do pensamento e da teoria revolucionária, estancando a ação.

Se não há reflexão, não há possibilidade de interpretação do processo histórico; sem reflexão não há teoria, e sem teoria não há nada: não há tática, nem estratégia, nem ação.

O conhecimento da formação social brasileira, escreve Lincoln Penna, é, de substancial importância para desvelarmos as razões de todos os males que têm coexistido com nossa fragilíssima república, “uma solução das elites dominantes depois de abolida a escravidão”, operada pelo seu braço armado, a oficialidade do exército sediada na Corte:  “Sua inautenticidade [da República] se explica pelos rumos traçados por quem sempre deteve o poder de mando, desde os tempos das feitorias do início da empresa mercantil que nos acomodou no império colonial português”.

Conseguimos construir um país, estruturar um estado que hoje aspira à modernidade, ainda que ao preço de uma histórica marcada pela violência: do genocídio das populações originais, da escravidão dos negros, à miséria de um capitalismo concentrador de renda e produtor de pobreza. Mas fracassamos na construção de uma sociedade fraterna. Segue longe de nós a Roma sonhada por Darcy Ribeiro.

Roberto Amaral

***

As (esquecidas) lições do passado – Gilberto Carvalho foi uma das poucas vozes que, em tempo, advertiram a tranquilidade petista quanto à necessidade de refletir sobre os idos de 2013, para além das aparências. Não foi ouvido. Volta a falar agora, e volta a advertir: “O governo Lula foi um governo poroso, que se abriu para a sociedade, mas a participação social foi limitada porque atendeu a uma elite, à sociedade organizada, com consciência e experiência de organização. Nós não conseguimos dialogar com a grande massa.” Para ele, os protestos de 2013 e “a ausência de gente para defender o nosso projeto diante do impeachment” demonstram “que a inclusão foi econômica, bem feita, meritória, mas não houve a inclusão cidadã”. Conclui que sem diálogo com as massas o risco será repetir 2013 e 2016. Confiemos que será ouvido desta vez (cf. https://apublica.org).

Pablo Milanés – Depois de Gal Costa, perdemos Pablo Milanés, cantor da paz e da solidariedade latino-americana. Meu abraço aos queridos amigos cubanos.

Criado em 2022-11-26 12:25:32

Vereadores pedirão CPI e impeachment de Crivella

Assim que foram divulgadas na imprensa as denúncias de que o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), havia contratado uma equipe de “guardiões” para impedir que a população fizesse críticas ao sistema municipal de saúde, vereadores deram início à coleta de assinatura para abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e um processo de impeachment por responsabilidade administrativa.

Para o vereador do PT, Reimont Luis, “é estarrecedora a denúncia do jornal RJTV, da Globo. É muito grave que funcionários da prefeitura se organizem em grupos de WhatsApp, incluindo o próprio prefeito, e façam plantão em frente aos hospitais para impedir que a população fale sobre os problemas da saúde e que a imprensa trabalhe”.

Reimont não tem dúvida de que essas denúncias justificam não só uma CPI, mas a abertura de um processo de impeachment por improbidade administrativa. “Vivemos em uma democracia, onde as pessoas podem reclamar e cobrar seus direitos. E a imprensa noticiar. Os assessores da prefeitura deveriam trabalhar a favor do povo e não contra ele”, concluiu o vereador.

A bancada do PSol na Câmara de Vereadores também quer formalizar o pedido de impeachment do prefeito Crivella. O requerimento será assinado pela direção do partido e pela deputada estadual Renata Souza, pré-candidata à prefeitura. A vereadora Teresa Bergher (Cidadania) deve apresentar pedido para Câmara de Vereadores instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a atuação dos funcionários da prefeitura.

O PSol considera que Crivella cometeu crime de responsabilidade por conduta incompatível com o cargo. O crime está previsto no artigo quatro do decreto-lei 201 de 1967, que regulamenta o impeachment de prefeitos.

“Marcelo Crivella estaria organizando e participando ativamente de uma mobilização para impedir a população de denunciar o sucateamento da saúde. O fato é gravíssimo em todos os seus ângulos: envolve o uso de dinheiro público para fins escusos, impede o livre exercício de imprensa, e silencia as queixas legítimas da população em um momento de grave crise sanitária”, disse ao jornal O Globo o vereador Tarcísio Motta (PSol).

Os contratados de Crivella cercam os jornalistas e os entrevistados para impedir que as matérias sejam realizadas. Esses “guardiões” do Crivella sempre dão um jeito de desviar o foco do assunto, mas nem sempre conseguem.

A TV Globo mostrou que na porta do Hospital Rocha Faria, em Campo Grande, em 20/8, dona Vânia se queixava da falta de vaga para transferir a mãe, que tem câncer, para um atendimento especializado. Aos gritos, dois homens atrapalharam a entrevista, que precisou ser interrompida. Uma rotina de casos semelhantes para impedir críticas e reportagens sobre o caos na saúde do Rio, agravado pela pandemia do novo coronavírus, chamaram a atenção do “RJ TV” da Rede Globo.

Os repórteres descobriram que o grupo tem nome, Guardiões do Crivella, obedece a uma rígida escala de serviço e, o mais grave, ganha salário pago com dinheiro público — em torno de R$ 4 mil — só para criar confusão na entrada de unidades de saúde e inviabilizar denúncias ao serviço público municipal.

Criado em 2020-09-01 16:19:01

MAR recebe exposição do baiano Agnaldo Manoel dos Santos

Com curadoria de Juliana Bevilacqua, estreia neste sábado (12/11) exposição com mais de 70 esculturas em madeira do artista negro baiano Agnaldo Manoel dos Santos.

Agnaldo Manuel nasceu na Ilha de Itaparica, na Bahia, em 10 de dezembro de 1926, local onde viveu até 1946. Pouco se sabe de sua vida antes de se mudar para a cidade de Salvador naquele ano.

É, no entanto, em 1947, que ele, ao procurar um emprego na região do Porto da Barra, conheceu o artista Mário Cravo Júnior e se tornou vigia do seu ateliê e em seguida seu assistente. Foi apenas por volta de 1953 que Agnaldo se tornou artista, mais especificamente, um escultor de madeira.

Desde 2013, a curadora Juliana Bevilacqua vem estudando sua obra também com o intuito de mostrar sua trajetória de experimentações que vão além das referências à sua ancestralidade.

“Até hoje, a sua produção vem sendo vinculada a uma conexão profunda com a África, sobretudo através do inconsciente e do atavismo. Agnaldo seria, dessa forma, um produto das ressonâncias africanas na diáspora, não importando o quão marcante foi a sua circulação no meio artístico e os contatos com outros artistas para a sua formação, nem os estudos e as múltiplas referências com as quais lidou ao longo da sua trajetória para realizar as suas obras. Ele se formou como artista no ateliê mais importante da Bahia na década de 1950, fez escolhas conscientes, subvertendo o lugar que o colocavam”, conta a curadora.

Na mostra Agnaldo Manuel dos Santos – A conquista da modernidade, estarão reunidas obras de museus e coleções privadas que resgatam seus múltiplos interesses nas formas, temas e referências, explorados em esculturas nos seguintes eixos: Esculpindo uma Trajetória, O Universo das Carrancas, Sobre Gente e Afeto, A África de Agnaldo e Entre Santos e Ex-votos.

“É bastante simbólico que, no ano do aniversário de sessenta anos da morte de Agnaldo, esta exposição esteja sendo apresentada no Museu de Arte do Rio (MAR). A primeira mostra individual do artista, curiosamente, não aconteceu na Bahia, e sim no Rio de Janeiro, em 1956, na emblemática Petite Galerie, com a qual assinou um contrato de exclusividade em 1960”, diz Juliana.

O recorte escolhido para a mostra reflete o esforço e o empenho em subverter o lugar ao qual se pretendeu delimitar um artista que levava muito a sério seu ofício. “Agnaldo, é, sem dúvida, também uma conquista da modernidade, que se beneficiou de um artista único em muitos sentidos. Ainda que jamais saberemos quais outros voos o escultor alçaria se não tivesse partido tão cedo, em 1962, ele é, sem dúvida, um caso singular da arte moderna no Brasil”, reflete a curadora.

Mais informações em www.museudeartedorio.org.br
______________
Serviço:
Exposição: Agnaldo Manuel dos Santos - A conquista da modernidade
Inauguração: 12 de novembro, às 11h
Até dia 26 de fevereiro de 2023
Local: 2º andar do Pavilhão de Exposições do MAR - Praça Mauá, 5 – Centro
Entrada Gratuita

 

Criado em 2022-11-11 22:40:50

Fenaj e sindicato repudiam nota irresponsável de Hugo Studart

A propósito de post do jornalista Hugo Studart, publicado em sua página no Facebook, em que faz afirmações caluniosas às entidades sindicais, a Federação Nacional dos Jornalistas e o Sindicato dos Jornalistas de Goiás emitiram s seguinte nota de esclarecimento e repúdio:

“O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de Goiás e a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), a respeito de post publicado hoje, 21 de setembro de 2016, no perfil do senhor Hugo Studart, no Facebook, vêm de público prestar esclarecimentos à categoria e à sociedade.

Sem qualquer fundamento, esse senhor, que se identifica como jornalista, divulga numa rede social informações caluniosas e injuriosas ao Sindicato, à Federação e a seus dirigentes, em fato relacionado ao 37º Congresso Nacional dos Jornalistas, realizado em Goiânia de 25 a 28 de agosto. Se agisse como jornalista, respeitaria o princípio básico da profissão, que é o da apuração dos fatos em vez de fazer uma denúncia infundada. Se agisse como cidadão de bem, não imputaria crimes a entidades e pessoas, adotando, ele sim, postura criminosa.

NÃO, NÃO É VERDADE o que afirma o referido senhor, que houve R$ 300 mil em patrocínio ao evento. Banco do Brasil, em contrato assinado, comprometeu-se em disponibilizar R$ 30 mil, que ainda não foram repassados à FENAJ. Petrobrás, também em contrato assinado, comprometeu-se em disponibilizar R$ 50 mil em patrocínio, que também ainda não foram repassados; enquanto o governo de Goiás colaborou com cerca de R$ 70 mil para pagamento das despesas de hospedagem e alimentação, pagos diretamente ao hotel onde foi realizado o 37º Congresso Nacional dos Jornalistas.

FENAJ e Sindicato dos Jornalistas de Goiás também receberam apoio da Unimed Goiânia, da Federação do Comércio do Estado de Goiás e da Federação da Indústria do Estado de Goiás, em doações de passagens aéreas. Tudo isso possibilitou a realização do evento, que é um congresso sindical deliberativo e que tem como público principal os delegados eleitos nos sindicatos de jornalistas de todo o país.

NÃO, NÃO É VERDADE o que afirma o referido senhor, que as peças de divulgação e os materiais do Congresso não trouxeram as logomarcas dos patrocinadores e que estas teriam sido acrescentadas somente na “prestação de contas”.

Cartazes (da segunda edição, impressa após as assinaturas dos contratos), banners, faixas, bolsas, camisetas, blocos de anotações e até mesmo os certificados de participação trazem as marcas dos patrocinadores e apoiadores, conforme estabelecido nos contratos.

Todos (as) participantes do 37º Congresso Nacional são testemunhas inclusive de que os patrocinadores e apoiadores foram citados nos três dias do evento e têm em mãos provas inquestionáveis de que tiveram a contrapartida de verem suas marcas estampadas nos materiais do evento, porque todos (as) receberam bolsa, camiseta, bloco de anotações e certificado de participação.

NÃO, NÃO É VERDADE o que afirma o referido senhor, que algum participante do Congresso tenha sido agredido por manifestar opinião divergente da quase totalidade dos jornalistas brasileiros que participaram do evento.

NÃO, NÃO É VERDADE o que afirma referido senhor, que a FENAJ e o Sindicato sejam comandados por espertalhões, no sentido de que quem quer enganar e tirar vantagem.  Mas o pior ainda está por vir. O referido senhor não querer levantar suspeitas, mas insinua que os dirigentes sindicais podem desviar os recursos arrecadados para a realização do evento.

Nossos dirigentes têm história no movimento sindical dos jornalistas brasileiros e são reconhecidos pela categoria. Nunca é demais lembrar que a FENAJ não tem um único diretor liberado para as atividades sindicais e que o trabalho sindical não é remunerado.  O mesmo ocorre no Sindicato dos Jornalistas de Goiás e na grande maioria dos Sindicatos de Jornalistas do país.

Feitos os esclarecimentos, a FENAJ e o Sindicato dos Jornalistas de Goiás repudiam a atitude do senhor Hugo Studart e informam que, a contragosto, vão adotar as devidas providências legais na busca de reparação.

Goiânia, 21 de setembro de 2016.
Luiz Antonio Spada
Presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de Goiás
Maria José Braga
Presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas”.

Criado em 2016-09-23 00:59:22

Os desafios pós-pesadelo

Roberto Amaral (*) -

É majoritária entre os analistas da cena republicana a convicção de que caminhamos para a mais importante das eleições presidenciais desde o fim da última ditadura. Serão, porém, eleições graves, e disputadas em clima de exacerbado antagonismo, ensejador da violência política, terreno pelo qual a extrema-direita brasileira (como suas congêneres mundo afora) tem demonstrado predileção. Mais que indicar o próximo inquilino do palácio do planalto, estaremos, em outubro próximo, definindo que país pretendemos construir.

O próprio embate, reduzido a duas candidaturas antípodas, a opostas visões de mundo, de país e de sociedade, dá ao pleito o seu caráter plebiscitário, sem meio termo, pois estaremos decidindo entre a promessa de futuro e a persistência de um passado que enodoa a história.

Poderemos estar ditando o fim de um ciclo escatológico.

O futuro presidente, e a hipótese com a qual trabalho é a da eleição do ex-presidente Lula, defrontar-se-á com uma sociedade cindida e polarizada como jamais esteve opondo os interesses irreconciliáveis da casa-grande contra as grandes massas dos deserdados do capitalismo. Aos exorbitantes lucros do sistema financeiro corresponde o desemprego e a queda de renda dos trabalhadores. Nada menos de 33 milhões de brasileiros passam fome, quando seu país é um dos três maiores produtores de alimentos do mundo, quando a humanidade produz alimentos como nunca. Nossa burguesia, alienada e alienígena, governa uma das maiores concentrações de renda do planeta. Somos o paraíso de 1% de brasileiros brancos, milionários e bilionários, os herdeiros da casa-grande colonial, do império escravagista e da república do latifúndio e do agrarismo.

Alimento a expectativa de que o candidato Lula e os cardeais do PT já estejam convencidos de que dias mais graves desafiarão a resistência do processo democrático brasileiro, contra o qual investe, despudoradamente, o ainda presidente e seu séquito de áulicos, civis e militares, uns ainda fardados e outros já de pijama, aos quais se junta o atual presidente da Câmara dos Deputados, que, como bem assinalou o deputado Glauber Braga, não tem vergonha de conspirar contra o patrimônio público. Porque se trata da versão atualizada de Eduardo Cunha. O ex-presidente da Câmara, comandante do impeachment contra Dilma Rousseff, e o atual, são irmãos siameses em despudor e truculência a serviço do que há de mais abjeto na política brasileira.

Eduardo Cunha, corrupto de carteirinha, abriu as porteiras para a ascensão do bolsonarismo. Lira, fruto tardio do latifúndio e da pistolagem que por tantos anos presidiram a política alagoana, não conhece limites – morais ou legais – quando se trata de prorrogar o bolsonarismo e investir contra o interesse nacional, como quando opera contra a Eletrobras e a Petrobras. É esse serviçal do atraso, já candidato à reeleição, que presidirá a Câmara dos Deputados no curso da campanha eleitoral e até a posse do novo presidente.

Por consequência, a realização de eleições limpas e seguras e a posse sem traumas do eleito elevam-se à categoria de prioridade para as forças democráticas brasileiras. A eleição de Lula, nesse cenário, será a reafirmação do processo democrático. Não se trata, mais, de um projeto pessoal, ou de um partido, ou de um conjunto de partidos, pois representará a opção de nosso povo pela via democrática e popular, quando em grande parte do mundo dito desenvolvido, como os EUA de Trump e a França de Le Pen, avançam as hordas da direita. A América do Sul de Gabriel Boric, Gustavo Petro e Lula pode ser o outro lado, alvissareiro, da mesma moeda.

Além de comandar sua campanha, como qualquer candidato, Lula haverá de cuidar da questão democrática (e nessa faina deveria ser acompanhado por todos os partidos), quando a preservação do processo eleitoral volta a ser ameaçada, com o foi em 1955. Naquele então, não podendo barrar a candidatura de Juscelino Kubitscheck, os golpistas intentaram impedir sua posse, mobilizando a imprensa conservadora, o próprio presidente da República (o interino deputado Carlos Luz, presidente da Câmara Federal) e setores mais reacionários das forças militares, à frente das quais se perfilavam o marechal Juarez Távora e o brigadeiro Eduardo Gomes. A insurgência deu no contragolpe de 11 de novembro.

No momento, as mesmas forças do atraso, com o mesmo objetivo golpista, comandadas acintosamente pelo atual presidente da República, tentam desestabilizar o processo eleitoral, ao desqualificar o sistema de votação e apuração. Para isso contam com apoio ostensivo do ministro da defesa – que não se dá conta do papel anticonstitucional que desempenha quando procura coagir o TSE, a “força desarmada” na auto-conceituação do tímido ministro Edson Fachin. Contam, ainda, com a presidência da Câmara dos Deputados e a fragilidade do insípido presidente do Senado Federal. E com apoio popular de difícil mensuração.

Não é pouco, convenhamos.

Após as iniciativas dos militares, cobrando o falso direito de supervisionar o processo eleitoral, agora é a Polícia Federal que anuncia a decisão de proceder a uma apuração paralela do pleito. O intuito de ambos é, na eventualidade de episódica divergência de números, instaurar a crise política, construtora do caos que antecede a violência institucional. A encenação nem original é: foi intentada nos EUA por Donald Trump, e fracassou, porque lhe faltou o apoio das estruturas governamentais, de que é exemplo a recusa do vice Mike Pence de tumultuar a sessão do Congresso que deveria referendar o resultado das urnas, a culminância do precário e arcaico sistema eleitoral norte-americano. Mas não lhe faltaram meios de mobilização popular, o que culminou com a invasão do Capitólio.

De tanto anunciado e de tanto ensaiado, como no 7 de setembro de 2020, o golpe dos sonhos de Jair Bolsonaro não mais conta com o fator surpresa, e já alimenta a resistência de setores ponderáveis da sociedade, temerosos do voo cego que os esperaria.  Mesmo a grande imprensa, principalmente por intermédio de seus principais articulistas, já denuncia o golpismo, em que pese sua solidariedade à política econômica do presidente, mormente em seu programa de privatizações e no esforço por destruir a Petrobras, o pleito mor do grande capital.

Não se deduza, porém, das aparências, que o projeto golpista foi removido. Há muitos interesses em jogo, na caserna e fora dela, e o que não escasseia é a falta de escrúpulos. Essa gente não tergiversará em açular suas multidões de seguidores e jogá-las irresponsavelmente contra as instituições democráticas, se a alternativa for a queda do poder e a perda das tetas da viúva onde se banqueteiam com toda sorte de benesses, vilegiaturas, sinecuras e privilégios incompatíveis com a índole republicana, como a compra, pelo exército, com recursos públicos, de Botox, Viagra e próteses penianas, para o gozo de suas fileiras.

O cenário, pois, é de uma campanha eleitoral na fronteira da violência política, o trunfo com que conta o bolsonarismo. O antídoto é uma vitória esmagadora da oposição, a única forma de assegurar uma transição tão tranquila quanto possível, abrindo caminho para um quatriênio de normalidade política.

Eleito, Lula terá ainda uma grande jornada à frente. 

Os termos de sua eleição determinarão as condições da posse e o caráter de seu governo. Um dos fatores condicionantes do golpe de Estado de 2016 foi a estreita margem de votos que separaram a presidente Dilma Rousseff de seu oponente, e a pequena bancada do PT que chegou à Câmara em janeiro de 2015: 70 deputados num coletivo de 513. O futuro presidente terá de governar com um Congresso majoritariamente conservador comandando algo como 80% do orçamento federal. Um Congresso envilecido, controlado pelo Centrão e a cada eleição mais e mais desapartado do caráter de representação popular que o justifica. As futuras bancadas chegarão cevadas pelo erário e pela intervenção do governo federal na distribuição de recursos aos seus apaniguados, uma choldra que manipulará R$ 16,5 bilhões (o total do orçamento secreto operado pelo atual presidente da Câmara), e outros tantos bilhões derivados dos fundos partidários e eleitorais que alimentam os muitos partidos que dão sustentação ao bolsonarismo.

Nesse Congresso que se instalará em 2023, certamente uma versão ainda mais deplorável do Congresso de nossos dias, o provável governo de Lula, considerando a coalizão partidária que o apoia no pleito, não contará com uma base de apoio sólida, como não contou Dilma. E, como a ex-presidente, terá como certa a má vontade da Faria Lima, do grande capital nacional e internacional, do agronegócio, do capital especulativo, dos rentistas de todos os naipes, e da grande imprensa, representante desses interesses, e que já o hostiliza, como o hostilizou nos idos da infâmia que a História registrará como “Operação Lava Jato”. Infâmia que não teria logrado seus objetivos se não tivesse tido, como teve, como coadjuvantes destacados, os grandes meios de comunicação, que, até agora, não tiveram a dignidade de proceder à autocrítica que cobram de Lula e do PT. Lula haverá, ainda, de conviver com o bonapartismo do STF e o com o assanhamento dos militares, embriagados como nunca de cargos e benesses, afastados como nunca de seus compromissos constitucionais e ainda convencidos de que o Olimpo lhes deu o poder de curatela sobre o povo e o país. Além disso tudo, cenário que não foi visto nos idos de seus dois mandatos, Lula conviverá com uma sociedade polarizada, profundamente clivada, e na qual emerge uma extrema-direita de dimensão e extremismo desconhecidos até aqui. 

Será preciso, ademais, administrar uma república em crise política e moral, uma federação em frangalhos, um poder público desmoralizado, instituições desacreditadas, reclamando um governo de restauração nacional, e, nesse sentido, o desejado novo governo de Lula será um governo de transição, ao final do qual (e só então) poderemos voltar a aspirar por um novo regime, ainda de centro-esquerda, mas que aponte para a ruptura com a casa-grande. Independentemente do que pensem e pretendam Lula-Alckmin, independentemente do que pretenda o PT e do que nos diga seu programa de campanha, o provável governo Lula será determinado por essas questões objetivas. Possivelmente, como Gustavo Petro, recém-eleito presidente da Colômbia, Lula será obrigado ao chamamento da conciliação nacional, essa entendida como uma composição com todas as forças democráticas do país, para poder realizar, não o governo desejado, mas aquele ditado pelas circunstâncias, filhas do processo social que chega aos nossos dias aos trancos e barrancos.

***

 Tríplice vitória na Colômbia, um presidente de esquerda, uma vice mulher e negra.
_______________________
(*) Roberto Átila Amaral Vieira é jornalista, professor e político brasileiro. Foi ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva.
(**) Com a colaboração de Pedro Amaral

 

Criado em 2022-06-26 02:43:38

A luta pelas águas do Brasil não terminou

Marcos Helano Montenegro em entrevista a Antonio Martins.

"O que muda, com a lei de privatização. Por que a batalha desloca-se do Congresso para as cidades e periferias. As chances de criar movimentos como os da Bolívia – ou das 265 cidades que rejeitaram, em todo o mundo, a lógica da água-mercadori.

Por Outras Palavras

Criado em 2020-06-30 21:28:40

O vírus e a alma

Alexandre Ribondi –

Cada século, ao longo da história, tem personalidade própria e histórias que contribuem para que seja traçado o seu perfil. Historiadores gostam de dar o palpite de que o Século XX começou com o naufrágio do navio Titanic, em 1912, o que causou a morte de cerca de 1.500 pessoas e teria inaugurado a temporada da desilusão: o inafundável havia afundado e a tecnologia precisava ser aprimorada. Mas seis nos mais tarde, uma pandemia, batizada com o enganoso nome de Gripe Espanhola, aproveitou-se da I Guerra Mundial e espalhou-se pelo mundo, deixando 50 milhões de mortos.

No primeiro ano do Século XXI, o inimaginável: as Torres Gêmeas (na foto, abaixo), um dos símbolos do poder econômico da nação mais rica do mundo, plantadas em Nova Iorque, foram atacadas, com sucesso, por um grupo de terroristas. Resultado: 2.500 mortos, aproximadamente. Agora, estamos presos no meio da pandemia da Covid-19, sem previsão de fim e que tem colocado o mundo em compasso de espera - com a possível exceção dos arquipélagos Juan Fernández, no meio do Pacífico Sul, com seus 700 habitantes, e que é o lugar onde eu gostaria de estar vivendo agora.

Mas por que o mundo se lembra do naufrágio, contado por livros e filmes de sucesso, e raramente se refere à Gripe Espanhola? Será isso também que acontecerá ao Século XXI: todos se recordarão, para sempre, do horror do ataque às Torres Gêmeas e citarão, com brevidade, o flagelo pestilento provocado pelo coronavírus?

O Titanic, com capacidade para 2.500 passageiros e 900 tripulantes, pesava 40 mil toneladas e dispunha de todo o conforto do mundo moderno: elevadores elétricos, sauna, spa, quadras de esporte, restaurantes luxuosos - e era considerado o maior transatlântico do seu tempo.

O World Trade Center, de uso puramente comercial, tinha, com as suas duas torres, 220 andares e 198 elevadores – e era o mais alto edifício do Ocidente. Tanto o navio quanto o prédio foram construídos para comemorar a força incontestável do acúmulo de capital, a inegável imponência dos riquíssimos e a engenhosidade de um mundo competitivo.

Já no momento do naufrágio, a tripulação do Titanic mostrou a força dos privilégios: os passageiros de primeira classe tinham empregados do navio que os ajudavam a se vestir e levar suas malas para os botes salva-vidas. Os passageiros de segunda classe recebiam coletes e o aviso de os usarem. Já os da terceira classe, recebiam, aos berros, a ordem de irem todos para o convés - sem colete, sem barcos.

Mas o Titanic ensinou a construir embarcações mais seguras e fortes, capazes de atravessar os mares e os céus com segurança, a salvo de intempéries. Um bom produto sempre garante uma melhor venda. O World Trade Center também serviu para que fossem corrigidas falhas no controle aéreo em todo o mundo e, muito provavelmente, se você embarcar hoje num teco-teco para os arquipélagos Juan Fernández, terá que mostrar que não está armado nem que oferece risco à integridade da aeronave. Além disso, as Torres Gêmeas são lembradas sempre que se tornam necessários argumentos que justifiquem ataques estadunidenses ao Oriente e seus terroristas de camisão e keffieyeh.

As pandemias, de 1918 e de 2019, têm outro cenário. Não há, por exemplo, lucro com o seu tratamento. Pelo contrário, pode dar prejuízo. O ministro brasileiro da Saúde, Nelson Teich, deu uma declaração para acalmar a economia, e não os pacientes da pandemia: “Se você se prepara demais, se estrutura demais, e amanhã sai um tratamento, você fez um investimento enorme desnecessário”. O presidente Bolsonaro, no seu afã de reabrir o comércio e as escolas, quer dar satisfação às regras do mercado e não à saúde brasileira.

O mundo aprendeu muito pouco com a Gripe Espanhola. Em 1918, o mundo desviava muito dinheiro, recursos públicos vitais que eram desviados para a compra de armamento, em nome da segurança nacional. Esse quadro ainda se mantém, como também sabemos que a saúde pública em 2020 é quase tão precária quando há um século e que somente uma classe média privilegiada e os ricos têm acesso a médicos.

Em 1919 a Gripe Espanhola, depois de sair da Europa e da Ásia e chegar ao Brasil, matou nas favelas e nas áreas urbanas mais pobres, onde a população, sem acesso à higiene, carecia de informação, de educação e de comida - tudo isso contribuía para que o vírus se encontrasse em terreno fértil.

O mundo continua relativamente o mesmo 100 anos depois. Morreremos não só pelo flagelo do vírus, mas também porque grande parte da população brasileira e mundial é desprezada pelo Estado, não é vista como merecedora de cuidados e de salvação. Se buscarmos ganhos apenas financeiros com cada hospital, cada vacina, cada enterro, e se não permitirmos que o vírus entre em nossas almas, com valores que vão além da economia e do lucro, corremos o risco de sairmos da pandemia com a mesma humanidade cruel e assassina. Serve até mesmo para lembrar que, na língua japonesa, os caracteres que designam “ser humano” têm o som premonitório de uma praga: “nin-guém”.

 

Criado em 2020-04-27 16:39:16

Linguagem e violência social

Marcos Bagno -

Faz algum tempo já que venho me dedicando ao estudo do preconceito linguístico na sociedade brasileira. A principal conclusão que tirei dessa investigação é que, simplesmente, o preconceito linguístico não existe. O que existe, de fato, é um profundo e entranhado preconceito social.

O Brasil é dominado por uma desigualdade social profunda: num total de 206 países, ocupa o 10º lugar entre os mais injustos em termos de distribuição de renda e acesso aos bens e aos direitos sociais. Cinco homens detêm uma riqueza equivalente ao produto do trabalho de 100 milhões de pessoas. No ano passado, mais de 60 mil pessoas foram assassinadas no Brasil: esse número é incomparavelmente maior do que o total de pessoas mortas nos atentados terroristas realizados desde 2001. Vivemos uma guerra civil, mas ninguém parece se importar com isso.

Diante desse quadro monstruoso, a discriminação por meio da linguagem é somente mais um dos critérios utilizados para a manutenção da desigualdade, da injustiça e da violência. Houve um pequeno avanço na última década em termos de distribuição de renda, mas esse avanço ocorreu dentro de uma política mais ampla que não alterou em nada a estrutura social e econômica do país: os ricos se tornaram ainda mais ricos, as grandes fortunas não sofreram nenhum tipo de taxação.

Essa mesma política desprezou uma urgente regulação dos meios de comunicação, que permanecem concentrados nas mãos de meia dúzia de famílias, todas elas visceralmente comprometidas com uma ideologia reacionária, genocida e escravocrata. O resultado dessa política de conciliação e reformismo é o cenário devastador que impera hoje no Brasil: um (des)governo formado pelo que existe de mais abjeto e criminoso no espectro político, comandado por um verdadeiro chefe mafioso.

Temos um Congresso nacional dominado por corruptos e corruptores e por verdadeiros psicopatas. O judiciário, em grande parte, contribui para esse quadro ao praticar arbitrariedades de todo tipo, ao se mostrar descaradamente parcial e partidarizado, ao cometer verdadeiros crimes contra a democracia, a ponto de provocar o espanto e a condenação de instâncias internacionais.

Numa sociedade como a brasileira, portanto, não causa nenhuma surpresa a existência de um preconceito linguístico largo e fundo. Mas o preconceito linguístico tem uma particularidade. A discriminação social com base no modo de falar da pessoa é algo que passa com muita "naturalidade", e a acusação de "falar tudo errado", "atropelar a gramática" ou "não saber português" pode ser proferida por gente de todos os espectros ideológicos, desde o conservador mais empedernido até o revolucionário mais radical.

Muitas pessoas que se mostram atuantes na defesa dos direitos das mulheres, dos negros, dos homossexuais, dos índios, dos pobres etc. abraçam alegremente a ideia de que existe gente que fala certo e gente que fala errado, que a verdade sobre a língua é o que aparece nas gramáticas normativas e nos dicionários, que é preciso consertar a língua das pessoas que falam errado e por aí vai.

Por que será que é assim?

É que a linguagem, de todos os instrumentos de controle e coerção social, talvez seja o mais complexo e sutil. E tudo isso é ainda mais perverso porque a língua é parte constitutiva da identidade individual e social de cada ser humano — em boa medida, nós somos a língua que falamos.

Somos muito mais do que meros "usuários" da língua: a noção de "usuário" faz pensar em algo que está fora de nós, uma espécie de ferramenta que a gente pode retirar de uma caixa, usar e depois devolver à caixa. Nossa relação com a linguagem é muito mais profunda e complexa do que um simples "uso" — até porque essa relação se faz com a própria linguagem!

Aliás, a própria palavra “relação”, aqui, não dá conta dessa complexidade. Infelizmente, num longo processo histórico, o que passou a ser chamado de língua é uma "coisa" que é vista como exterior a nós, algo que estaria acima e fora de qualquer indivíduo, externo à própria sociedade: uma espécie de entidade mística sobrenatural, que existe numa dimensão etérea secreta, imperceptível aos nossos sentidos, e à qual só uns poucos iniciados têm acesso. Por isso, a "língua é difícil" — e não poderia ser diferente, já que é uma "ciência oculta", um saber hermético, quase esotérico.

Ora, “a língua” como uma “essência” não existe: o que existe são seres humanos que falam línguas. A língua não é uma abstração: muito pelo contrário, ela é tão concreta quanto os mesmos seres humanos de carne e osso que se servem dela e dos quais ela é parte integrante. Se tivermos isso sempre em mente, poderemos deslocar nossas reflexões de um plano abstrato — “a língua” — para um plano concreto — os falantes da língua.

Isso significa o quê, na prática? Significa olhar para a língua dentro da realidade histórica, cultural, social em que ela se encontra, isto é, em que se encontram os seres humanos que falam e escrevem. Significa considerar a língua como uma atividade social, como um trabalho empreendido conjuntamente pelos falantes toda vez que se põem a interagir verbalmente, seja por meio da fala, seja por meio da escrita.

Em contraposição a essa concepção dinâmica de língua, a concepção tradicional, operando com uma abstração-redução — a famigerada “norma culta” —, tenta nos apresentar essa norma (em sinonímia com “a língua”) como se fosse um corpo estável, homogêneo, um produto acabado, pronto para consumo, uma caixa de ferramentas já testadas e aprovadas, que devem ser usadas para se obter determinado resultado e devolvidas para a caixa no mesmo estado em que foram encontradas.

E nisso reside uma das mais notáveis contradições da concepção tradicional de “norma culta”: querer empregar essa norma (que não passa de uma abstração, impossível de ser exaustivamente descrita) como se fosse um conjunto de regras de aplicação prática, concreta. Ora, hoje já sabemos que a língua (entendida como uma atividade social) não é apenas uma ferramenta que devemos usar para obter resultados: ela é a ferramenta de trabalho e ao mesmo tempo o resultado do trabalho, ela é o processo e o produto. E não é uma ferramenta pronta: é uma ferramenta que nós criamos exatamente enquanto vamos usando.  

Em todas as sociedades existe sempre um grupo de pessoas, uma classe social ou uma comunidade local específica, que acredita que o seu modo particular de falar a língua é o mais correto, o mais bonito, o mais elegante e, por isso, deve ser o modelo que as outras classes e comunidades precisam imitar. Em geral, são os moradores das regiões economicamente mais ricas, os habitantes de alto poder aquisitivo dos grandes centros urbanos, os cidadãos com acesso aos melhores meios de escolarização — enfim, aquilo que nas ciências sociais se chama de classes dominantes.

Essa situação varia muito de acordo com o grau de democratização das relações sociais de um país. Seja como for, esse elemento cultural está presente em qualquer grupo humano e em muitos lugares constitui um instrumento de conflitos e tensões sociais.

No Brasil, a situação linguística revela um drama parecido, mas com uma diferença importante. Os brasileiros urbanos letrados não só discriminam o modo de falar de seus compatriotas analfabetos, semianalfabetos, pobres e excluídos, como também discriminam o seu próprio modo de falar, as suas próprias variedades linguísticas.

Podemos dizer, portanto, que o preconceito linguístico no Brasil se exerce em duas direções: de dentro da elite para fora dela, contra os que não pertencem às camadas sociais privilegiadas; e de dentro da elite para ao redor de si mesma, contra seus próprios membros. Isso porque, como eu já disse, existe na mentalidade dos brasileiros em geral, e dos falantes urbanos escolarizados em particular, a convicção muito arraigada de que no Brasil ninguém fala bem o português.

Quando até mesmo as elites letradas demonstram tremenda baixa-estima linguística, quando exibem um grau elevado de insegurança linguística e de rejeição de seu próprio modo de falar, é porque o obscurantismo cultural que as atinge é realmente grave, quase uma doença.

São muitos os paradoxos dessa situação. As pessoas mais letradas confessam que não têm pleno conhecimento da “língua certa”, mas não veem nenhum problema em apontar os “erros” cometidos por outras pessoas, principalmente pessoas de classes sociais inferiores às delas, pessoas que não tiveram acesso à educação formal e vivem na precariedade de uma sociedade violenta e desigual como a brasileira. Isso porque, como eu já disse, o preconceito linguístico é apenas um disfarce para o exercício do preconceito social. Na visão de quem exerce a discriminação pela linguagem, todo mundo “erra”, mas existem erros mais errados do que outros.

Se uma forma não autorizada pela tradição gramatical aparece na fala ou na escrita de uma pessoa que goza de prestígio social, esse desrespeito à gramática normativa é visto como “licença poética” e quase sempre vem analisado com aquele chavão que diz “pode até estar errado, mas todo mundo já fala assim”. Quando o suposto erro vem de pessoas que estão na base da pirâmide social, pessoas sem escolaridade, pobres, de regiões geográficas consideradas atrasadas etc., não existe desculpa: é erro mesmo e pronto.

Um exemplo gritante dessa ideologia foi a recepção que teve por parte da mídia conservadora o discurso pronunciado pelo chefe mafioso que hoje preside o (des)governo brasileiro. Quando esse bandido confesso tomou posse, fez um discurso que foi logo elogiado pelos porta-vozes dos meios de comunicação que estimularam o golpe de Estado que depôs a presidenta Dilma Rousseff. Um jornalista, o mesmo que recentemente foi demitido por ter vindo a público uma afirmação do seu racismo, disse que agora estava feliz porque tínhamos um presidente que sabia falar português certo.

Tudo isso por causa de uma ridícula mesóclise. No entanto, no mesmo discurso apareciam exemplos de concordância verbal e nominal que seriam classificados de erros por qualquer gramático tradicional. Mas, como eu já disse, nada disso tem a ver com a língua em si: a língua é só um pretexto para a explicitação de uma ideologia linguística reacionária.

Criado em 2018-01-31 17:56:01

Da Lapa ao Estácio com Marielle

Sandra Crespo -

Da Lapa ao Estácio. A gente refez hoje, ao som de tambores e gritos de guerra, o último trajeto de Marielle Franco. Nem sei quantos quilômetros andamos, mas foi muito. Aguentamos porque éramos uma multidão, muita gente com o mesmo sentimento. Durou umas três horas. Passamos por ruas antigas, ali onde nasceu o samba.

Ruas da tia Ciata e de Ismael Silva.

Ainda existem muitos cortiços por lá, com sacadas de onde as pessoas olhavam, algumas aplaudiam. Teve um casal de idosos que tocou sinos para nós. E a galera na rua se curvou, emocionada.

Chegamos enfim a uma rua que até pouco tempo atrás era anônima, mas que agora se chama Marielle Franco. Não por decisão das autoridades, mas do povo mesmo.



Foi difícil fazer esse trajeto, era muita tristeza e emoção, pés doendo também; mas a vida é assim mesmo. A gente tem de ir fundo na melancolia para ganhar forças e seguir na luta.

Marielle morreu onde o samba nasceu; é irônico.

Engana-se quem pensa que o Brasil é feliz. O Brasil é uma tragédia só.

#MarielleVive #LulaLivre

Criado em 2018-04-15 04:24:50

Cabo Verde - quatro ilhas em duas semanas – parte 2

Zuleica Porto -

“São Vicente é um brasilin”, cantarolavam em Mindelo quando sabiam que havia dois brasileiros em nosso grupo. A canção que celebra a semelhança entre as folias cabo-verdiana e brasileira é um dos tantos sinais da forte presença da “Diva dos pés descalços” (Cesária Évora) na capital da ilha onde nasceu e morreu.

O aeroporto tem seu nome e sua estátua na entrada. A primeira noite que passamos na cidade foi embalada pelas mornas e coladeiras que ela divulgou para o mundo, cantadas nos bares que circundam o Porto Grande.

Quase todo o Mindelo parece se amontoar ali, de frente para o Monte Cara, assim chamado porque lembra um rosto, de perfil, olhando o céu. O Mercado do Peixe, na beira do mar, fervilha de gente: os que trabalham no trato do pescado, os que vendem, os que compram, num entra-e-sai dos pequenos barcos que chegam e partem o tempo todo do trapiche ali do lado.

Há uma curiosa miniatura da Torre de Belém lisboeta, onde funciona o Museu do Mar. Há marinheiros de tudo que é latitude – vimos eslavos, indianos e um chinês bêbado carregado por outros chineses só um pouco menos bêbados.

Há uma pracinha linda com um coreto, é a Praça Amílcar Cabral, mais conhecida como Praça Nova. Assassinado em 1973, o líder na luta pela libertação da Guiné-Bissau e Cabo Verde também dá nome a uma Avenida na Praia. E imagino que a outros locais pelo arquipélago afora.

A juventude ainda faz o “footing” na praça, vestindo as melhores roupas e calçando tênis de cores vibrantes. Entramos numa lojinha de artesanato onde uma miscelânea de objetos era vendida por moças que, ao mesmo tempo, faziam os mirabolantes penteados, entremeados de fitas e outros enfeites.
Fomos ao Museu de Arte Tradicional, fechado por causa da chuva forte que caíra na noite anterior. Pelo visto, o caos que ela causou em nosso hotel, com vazamentos e queda de energia, se espalhou pela cidade.

Mas batemos na porta, segundo recomendação da vizinha, e uma moça abriu só para nós o casarão, que abriga várias exposições de artistas locais, incluindo esculturas encantadoras feitas com pedras vulcânicas. Mea culpa, não anotei o nome do autor...

Logo depois do porto tem uma praia, a Laguinha, muito limpa e de ótimas águas para banho. E de novo, tarde afora, muita gente tomando banho num cantinho do mar ou brincando nos gigantescos tobogãs infláveis colocados na água.

E ali pertinho a Estação dos ferry-boats que ligam São Vicente a Santo Antão, a última ilha do nosso roteiro.

Chegando ao Porto Novo, a balbúrdia dos motoristas de “alugueres”, aos gritos em busca de passageiros, até assusta o visitante. A maioria dos turistas, raros nessa época do ano, segue para a Ribeira Grande ou Ponta do Sol, cidades à beira-mar.

Delas nada posso dizer, pois nessa ilha escolhemos subir até o Lombo da Figueira, situada entre o centro e o norte, na parte mais verde da ilha, e também do arquipélago.

Enquanto Santiago, Fogo e São Vicente lutam com a escassez de água, Santo Antão goza de uma relativa abundância, tanto que durante muito tempo fornecia água para o Mindelo. No lado sul, descendo para o Porto Novo, a paisagem é desértica, e tal diversidade é um rico cenário para filmagens, comentou alguém do nosso grupo.

A população, distribuída em casinhas perdidas entre as escarpas, cultiva banana, mamão e muita cana-de-açúcar, com a qual fabricam o famoso grogue, o aguardente do Cabo Verde. Ali desconhecem a rapadura, como descobriram os nossos que se aventuraram nas pirambeiras rumo à Ribeira Grande. Os italianos que nos hospedaram cultivam uvas em cooperativa com os nativos do lugar.

Embora entendam pouco o português (não sei dizer por que, umas meninas me saudaram em francês), as pessoas ali também cultivam a morabeza – a gentileza da gente caboverdiana, cantada nas letras de mornas, coladeiras, batuques e funanás.

Genoveva, a cozinheira da hospedaria, é uma prova do que digo. Mal se dava conta da excelência de sua comida, e agradecia, tímida, os elogios.

Chovia muito quando deixamos o Lombo da Figueira. A saudação de despedida foi um balé enlouquecido de nuvens, água e muito vento. Descendo, a chuva deu lugar ao calor; e o verde, à aridez.

Teria ainda muito a dizer, embora os dias tenham sido poucos para conhecer de verdade o Cabo Verde. São dez ilhas, uma delas, Santa Luzia, desabitada.

Quero ainda conhecer a Brava, Maio e São Nicolau. E rever as ladeiras de São Filipe, o povo de Chã das Caldeiras, as casinhas da Rua de Banana, na Cidade Velha.

Quero de novo me confundir com os nomes de ilhas e cidades, são tantos Santos, tantas Ribeiras, tantos Portos. Mas pouco me interessa conhecer Sal e Boa Vista, pois nelas já se instalou o turismo dos resorts e a desigualdade que o caracteriza. Quem nos contou foi o Augusto, que nos hospedou em São Filipe e para mim se tornou o símbolo da decantada morabeza.

Criado em 2017-10-02 20:26:08

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