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Maria Lúcia Verdi –
Acabo de ouvir a live da amiga e professora Lourdes Teodoro sobre Identidades africanas nas artes. Ontem, dia 25 de maio, Dia da África, desde 1963, dia daquele continente esplendoroso, daquele inconsciente do mundo, do qual desconhecemos a impressionante diversidade étnica e cultural, cada país, cada cultura um mundo.
Visitei apenas um país, a Costa do Marfim, Abdijan, porém num contexto em que toda a diversidade africana estava exposta, durante a semana do Mercado das Artes e dos Espetáculos Africanos, que era realizado todo ano, se não me engano em maio; o ano deve ter sido 1997 ou 98. Fui representar o Brasil, na condição de Diretora de Pesquisas e Projetos da Fundação Cultural Palmares, então sob a diretoria de Dulce Pereira (de quem eu também era Vice-Diretora, a branca, para simbolizar o necessário diálogo), anos em que tive a honra de participar das primeiras lutas pela delimitação das terras quilombolas.
Durante uma semana, artistas autóctones, dançarinos, cantores, atores de todo o continente se apresentavam para os empresários do Norte do mundo que os levariam para os países dos colonizadores, para que algo de uma realidade desconhecida viesse a ser vista por plateias brancas e curiosas.
De todos os artistas, talvez tenha sido um celebrado griot o que mais me fascinou. Um homem já passado dos sessenta contava a história, acompanhado de dois percussionistas, e interpretava os papéis de todos os personagens, da menina de seis anos à mulher de cinquenta, ao velho de noventa, ao jovem de 20, era fascinante escutá-lo, em francês, narrar aquela lenda e vê-lo trazer vida a todos os personagens.
As cores da natureza e as cores das roupas e das casas, a ondulação das mulheres caminhando, os sorrisos de todos, aqueles dentes branquíssimos iluminando a pele negra, o tamanho dos lagartos coloridos que me assustavam, a simpatia dos vendedores do mercado com quem tomei muitos chás e discuti preços, a comida saborosa, o vento nas árvores e a praia lembrando-me o Brasil - tudo era um festival de alegrias em si, acrescido do maravilhamento com os artistas africanos que se apresentavam de manhã à noite.
No espetáculo de encerramento, a surpresa maior: Miriam Makeba!. Sentada entre os convidados, num palanque, fugi do controle do simpático rapaz que nos ciceroneava e me infiltrei no centro do estádio, entre um mar negro enlouquecido, dançando com eles. O guia desistiu de me advertir com um “É perigoso, senhora.” Eu vinha do Brasil e de perigos temos alguma experiência, o perigo daquele estádio parecia ser apenas o de eu perder a cabeça numa epifania gloriosa.
No dia de hoje, volto a olhar as máscaras e as esculturas que trouxe de lá e a reler um poema escrito a partir do relato de franceses que conheci na ocasião. O poema relata uma história real, triste e bela, homens e mulheres que se ofereciam aos estrangeiros com a delicada e dolorosamente irônica chamada: C´est l´amour qui bat! (É o amor que bate). E tantos abriam as portas, necessitados que somos, todos, dessa ideia.
Saúdo o continente africano, compartilho o poema e espero, como tantos, que as vacinas que estão sobrando para alguns países cheguem logo por lá, pois por lá deve estar pior do que aqui, apenas não se sabe exatamente, como nunca se soube exatamente a história dos países africanos, as questões colocadas pela diáspora, assim como não se quer saber exatamente a situação dos afrodescendentes pelo mundo afora.
Desejo
Na África ocidental, contaram-me uns amigos
a uma certa hora da tarde
depois do almoço
durante o calor
homens e mulheres do povo, pobres,
tantas vezes sujos
batem às portas das casas onde repousam
homens e mulheres estrangeiros
que durante o durante o dia se aproximam
daquele povo belo, exótico
Se aproximam do que seria a vida daquela gente,
estudam-na, trabalham, talvez, por ela,
fotografam-na
Àquela hora da tarde
com o silêncio africano que desconheço e imagino inquietante, prenhe
homens e mulheres daquele povo batem às portas estrangeiras
suavemente, com os pés nus, e dizem
C´est l´amour qui bat
Criado em 2021-05-26 12:24:58
Angélica Torres –
Aí, você passa três, quatro noites – se quiser ir saboreando aos poucos e se mantendo assim, nos dias seguintes, enquanto espera pra ver o episódio seguinte – naquele clima de hipnose, de estrelas brilhando em seus olhos, vidrados na beleza, no carisma, no humor, na espontaneidade, na harmonia, nas surpresas, na genialidade deles, Paul, John, George, Ringo, criando os arranjos, mudando palavras ou trechos das letras, arredondando as canções, naquela intimidade de estúdio e na frente das vinte ou sei lá quantas câmeras que os produtores, meio século e dois anos depois, põem diante de nós, os espectadores.
Se fui cutucando de pouco em pouco os amigos especiais e os mais chegados pra não demorarem muito a ver (os músicos, poetas e os filhos, sobrinho, sobretudo), ao chegar em estado de graça ao fim, com o concerto no terraço do prédio da Apple, aviso o mesmo a quem estiver lendo aqui este anda logo! perde tempo não e assiste, gente! Sabe por quê? Porque o filme tira você do clima odiento, de horror, de guerra, de ruínas, de fim de mundo que se vive aqui há anos, para o de alegria, de enlevo, de encantamento, de amor e principalmente de esperança, a mesma esperança que os quatro trouxeram nos anos 1960 ao mundo e mais ainda ao Brasil, então não muito menos em frangalhos que o de hoje – e ainda que assim mesmo, em tons saudosistas.
Depois de tudo o que jornalistas especializados em música publicaram, o que mais se pode dizer a não ser que Get Back é gira! é fixe! – parodiando a tradução lusa da legendagem desse documentário dirigido por Peter Jackson, que o streaming da Disney oferece ao público como presente de festas de fim de ano? Todo mundo que ama os Beatles precisa ver Get Back. Músicos, compositores, então, é um dever.
Decerto que todos já sabem ser o filme um baita show, de técnica em som e imagens e mais ainda em termos de montagem, realizado por aquela equipe de feras, que passa ao espectador todo o clima do que rolou ao longo do mês de janeiro de 1969, na preparação do último disco e do concerto ao vivo do antológico quarteto de Liverpool. E se bate preguiça, tipo, ah, já chega, já se viu, ouviu, já se sabe muito sobre eles...?
Bem, os das gerações que vieram depois de nós, os veteranos que vivemos The Beatles em tempo ao-pé-da-letra real, pode ser que saibam mesmo tudo, porque já receberam mastigada toda a história da banda, "teoricamente" minutada, repisada, historiada em várias versões, muitas das quais eu pessoalmente discorde, aliás. Até porque há no filme surpresas, por exemplo, quanto à relação entre os quatro, incluindo suas mulheres, com destaque para Yoko, claro, que muitos sabidos desconhecem – e não serei eu a estragá-las aqui, entregando o jogo.
Afinal, quem ainda desconhece que a fake new nunca foi um “fenômeno” da era virtual? Quem não cogita ser ela, na verdade, da idade da humanidade, pelo menos desde a era gutemberguiana? E o bacana é exatamente não se sentir direcionamento para interpretações assim ou assadas. Está tudo ali às claras, você que deduza e tire suas conclusões. Se quiser. E se não quiser encucar, apenas curta o showzaço exposto nos três episódios de duas horas e alguns quebrados, cada.
Ficar ali na tela, devorando com os seus sentidos os quatro rapazes – John, com suas tiradas espirituosas, suas palhaçadas provocativas e referências (recorrentes aos Stones, a Eric Clapton, à Greta Garbo e outros mais); Paul, o líder, caramba, pelo menos no contexto do trabalho criativo dos quatro (e não o John, como quando garotos nós pensávamos?!; Lennon fazia sim esse papel, mas voltado para o público, ou era assim que se lia e se percebia, assim que a mídia o pintou, pela rebeldia, pelo atrevimento em declarações e performances); Ringo, zen, silencioso, observador, a coluna da estabilidade do grupo, adorável; George e suas dissonâncias, seu orientalismo, seus saques de jazz enriquecedores (e suas surpreendentes mágoas!) – mais o inesquecível, talentoso, alto astral, charmoso Billy Preston, amigo e parceiro deles da temporada no bom inferno da Reepperbahn, em Hamburgo, Alemanha; mais o ótimo Alan Parsons, ali como engenheiro de áudio; mais o belo, elegante, George Martin; ah, e tantos outros nomes tão familiares ao beatlemaníaco fã-clube de todas as idades; então, isso, de só ficar-se ali chapado naqueles rostos de garotos bonitos, nas cores extraordinariamente compostas nos cenários, na forma como construíam suas consagradas canções, no final apoteótico, é tudo o que se tem de melhor a fazer, assistindo Get Back.

E basta. Pra quê mais? Pois se programe e desfrute sem muitas delongas dessa deliciosa, generosa volta dos quatro em hora mais do que oportuna, para nós e para todo o planeta.
Fico aqui só imaginando o quanto Paul e Ringo, quando assistiram ao documentário finalizado, devem ter sentido fundas e doloridas saudades dos dois companheiros ausentes, mesmo com a fleuma típica que levam indissociavelmente colada em suas personagens populares.
P.S.!! - Só lembrando, ainda, que hoje se completam 41 anos do assassinato de John Lennon. E, também, justificando que este é um texto irreverente, feito para amigos lerem, sem nenhuma pretensão de saber muito sobre as ditas verdades cristalizadas sobre eles, sem ter lido uma resenha sequer do muito que foi dito a respeito – por direito adquirido pelos tempos de estrada e pela vivência da história deles, como já dito, em real tempo real. Pois.
Criado em 2021-12-08 20:09:04
Romário Schettino -
Faíscas verbais – a genialidade na ponta da língua. O livro do jornalista Márcio Bueno é uma coletânea de frases demolidoras, sarcásticas, irônicas, produzidas por celebridades no calor de uma discussão, de um debate, numa entrevista ou até numa conversa informal. Não vale preparar, só entram os improvisos, no “estalo, na bucha”. Para quem gosta de bom humor inteligente, é um bom presente para o Dia dos Pais.
A seguir, uma pequena mostra, das mais de 500 frases de personalidades:
Em 1982, foram realizadas eleições diretas para governadores em todo o país. No Rio de Janeiro, concorreram cinco candidatos, entre eles Leonel Brizola, pelo PDT, e Miro Teixeira, pelo PMDB, partido do então governador, Chagas Freitas. Embora fosse o candidato do governador do Rio, Miro não escancarava esse fato em público, uma vez que Chagas Freitas tinha se tornado sinônimo de corrupção no Estado, da mesma forma que Paulo Maluf em São Paulo. Em um debate ao vivo, a certa altura o mediador pergunta a Brizola quais eram seus planos para a agricultura no Rio de Janeiro. Brizola começa dizendo que conhecia muito bem o assunto por ser natural do Rio Grande do Sul, um estado agrícola. E interrompe a fala para dizer:
– Aliás, creio que todos os candidatos aqui são de fora do Rio de Janeiro…
No mesmo instante, Miro Teixeira intervém:
– Todos, não, eu sou do Rio de Janeiro…
Nisso, Brizola arremata, como se tivesse jogado uma casca de banana exatamente para Miro escorregar:
– E daí, o Chagas Freitas também é.
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O ex-governador do Rio, Anthony Garotinho (nascido em 1960), disse numa entrevista ao humorista Jô Soares que havia sido torturado na época da ditadura militar, instaurada no Brasil em 1964. Conversando com o então deputado Arthur Virgílio Neto, do Amazonas, um repórter pergunta o que ele tinha achado da declaração de Garotinho. Resposta:
– Tortura no Garotinho? Só se foi na creche. Devem ter atrasado a mamadeira dele.
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Durante entrevista, uma repórter pergunta a Fidel Castro se era verdade que até as universitárias de Cuba estavam se prostituindo.
– De maneira alguma – responde Fidel –. O que acontece é que em Cuba até as prostitutas têm nível universitário.
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Na primeira vez em que disputa a prefeitura de São Paulo, em 1953, o principal adversário de Jânio Quadros é o professor Cardoso (em 1985, ele voltaria a concorrer a prefeito de São Paulo com outro professor Cardoso, o que mais tarde chegaria a presidente da República). O professor da década de 50 – Francisco Antônio Cardoso – costumava dizer, durante a campanha eleitoral, que “Jânio é um homem feio, magro, demagogo, mal vestido, mal barbeado, ou seja, é um personagem que nada tem a ver com a dignidade do cargo a que aspira”. Jânio, por sua vez, passou a dizer nos comícios exatamente o contrário a respeito de seu oponente: “trata-se de um homem bem apessoado, rosto bonito, dentes brancos, veste-se impecavelmente, elegante, simpático, etc.”. E concluía:
– Se estivéssemos participando de um concurso de beleza, eu garanto a vocês que retiraria a minha candidatura.
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Uma sessão da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, em maio de 2008, quase acaba em pugilato. O ministro da Justiça, Tarso Genro, defendia a demarcação de terras indígenas. O então obscuro deputado Jair Bolsonaro, militar da reserva e defensor da ditadura militar, intervém:
– O ministro veio aqui para mentir e omitir. Ele entende bem o que é terrorismo, ele que participou de grupos terroristas.
O ministro reage, elevando a temperatura:
– Quem fez ação terrorista aqui, deputado? O senhor está mentindo.
Nesse momento, o índio sateré maué Jecinaldo Barbosa, coordenador das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, joga um copo d’água nas costas do deputado e a confusão se espalha. Depois de tudo serenado, quando perguntam ao índio por que tinha jogado um copo d’água no deputado, ele explica:
– Joguei água porque não tinha flecha.
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Na época da fundação do PSDB, um repórter perguntou a opinião de Delfim Netto sobre a escolha do tucano como ave símbolo do novo partido.
O ex-ministro responde na bucha:
– O problema é que o tucano tem o bico muito comprido e pesado. Para haver um certo equilíbrio, vai ter que levar muito chumbo no rabo.
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Rangel Pestana foi um dos fundadores do tradicional jornal O Estado de S. Paulo, o Estadão. Um dia, ele recebeu a informação de que um dos redatores não iria trabalhar por ter quebrado o pé. E perguntou, na lata:
– Mas pelo menos hoje ele não poderia escrever com a mão?
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(*) Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. Clique aqui no site da Amazon para adquirir o livro Faíscas verbais – a genialidade na ponta da língua.
Criado em 2021-08-05 00:14:00
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Guia Musical de Brasília n° 10 - Quando entrevistamos o premiado violonista Álvaro Henrique, professor da Escola de Música de Brasília, ele estava preparando as malas para viajar aos Estados Unidos. Ali, no início de julho, ele lançaria a primeira gravação mundial das composições para violão solo de César Guerra-Peixe, daria uma palestra sobre esse compositor brasileiro, e ainda competiria com grandes instrumentistas de todo o mundo durante o maior evento de violão das Américas, a Convenção da Guitar Foundation of America (GFA), sediada na Universidade de Indianápolis.
Não é a primeira vez que Álvaro Henrique brilha no Exterior. Há dois anos foi premiado na Quebec Music Competition, no Canadá, trabalhou como solista de orquestra com a Vaasa Sinfonietta, na Finlândia, e já se apresentou em outros 13 países. Bacharel em violão pela Universidade de São Paulo (USP), é diplomado em Educação Artística pela Universidade de Música de Nuremberg, Alemanha, e é mestre em música pela Universidade de Brasília.
Ele é presidente-fundador da Associação Brasiliense de Violão (BRAVIO), a primeira entidade da América do Sul parceira da Guitar Foundation of America (GFA).
Curiosamente, foi a sua extrema timidez que o levou ao violão. Seus pais, um maranhense e uma pernambucana que veio menina para Brasília, ainda na época da construção, não sabiam o que fazer com o moleque com dificuldades para se comunicar, numa época, anos 80, em que buscar o apoio de um psicólogo ainda era tabu. Seu pai então teve a ideia de levá-lo para a escola de violão.
As primeiras experiências com o instrumento foram frustrantes, diz Álvaro, porque se resumiam a ficar embaixo do bloco “batendo acordes e cantando a Legião Urbana”. Até que um amigo o levou à casa de um primo para ouvir Som de Carrilhões, de João Pernambuco, e Romance de Amor, atribuído ao espanhol Antonio Rubira. Álvaro descobriu o violão clássico e aceitou a proposta de seu pai, que o matriculou na escola Espaço Sonoro, no Guará 2, onde morava a família. O seu primeiro professor, Zilmar Gustavo Costa, é hoje seu colega na Escola de Música.
Rock ou Lua – Álvaro Henrique diz que na época havia três tipos de adolescente em relação à música: “Os que ouviam o que a Globo mandava ouvir, os que ouviam rock, e os que moravam na Lua”. Ele mesmo ouvia rock, e tinha a ideia de tocar violão durante um tempo e depois migrar para a guitarra. “Só que o violão clássico foi me encantando cada vez mais”. Por quê? “Eu acho que a música clássica tem, acima de tudo, a linguagem da emoção. E eu fui descobrindo que eu tenho uma gama maior de emoções para explorar no universo da música clássica. Isso me fez nesse universo até hoje”.
O próximo passo foi a mudança para São Paulo, para cursar bacharelado de música na USP. Ali enfrentou o ambiente hostil de uma cultura que usa o bullying como ferramenta pedagógica, como retratado no filme Whiplash: Em Busca da Perfeição, de Damien Chazelle. Enfrentou o desafio com paciência, em sala de aula e fora, frequentando festivais, master classes e concertos.
Num dos seminários conheceu Alvise Migotto, músico canadense de origem italiana, uma de suas grandes influências, junto com Edelton Gloeden, violonista paulista.
Álvaro Henrique conta que a partir daí aprendeu muitas lições com músicos que nem foram seus professores. Foi o caso do maestro David Junker, que comandava o Coro Sinfônico da UnB. “Vivenciar como ele organiza e conduz o ensaio, como determina o horário para cada coisa… Isso é melhor do que uma aula…” Bohumil Med foi outra figura marcante. “Eu o vejo mais como um mentor, paternal, amigável, mas que também fala o que a gente não quer ouvir, mas precisa (risos)”. E mais: “Leo Brouwer (violonista cubano), mudou a minha visão de música”; e Paul Galbraith (escocês) “me mostrou o quanto que é bom ser genuíno, mesmo que você tenha um bando de gente chata fiscalizando porque que você não está fazendo as coisinhas do jeito que todo mundo faz”.
Entre 2006 e 2008, Álvaro trabalhou com o grande violonista e regente Fábio Zanon, que o apresentou a Franz Halász, um guitarrista alemão casado com uma brasileira de quem tomou emprestado o sobrenome húngaro. Foi Halász quem o convenceu a estudar na Universidade de Música de Nuremberg. “Eu aprendi violão com muita gente, mas estava faltando unir esse conhecimento com o panorama mais amplo da música. Foi o Halász que me ajudou a fazer a síntese”.

As aulas gravadas – De volta ao Brasil, Álvaro Henrique passou num concurso para lecionar na Escola de Música de Brasília. Sua efetivação como professor demorou nove anos, no entanto, e só depois de uma decisão judicial. Com ampla preocupação social, resolveu gravar e disponibilizar para o público, gratuitamente, as aulas dos seis anos do curso técnico, tarefa que está quase no fim. As pessoas interessadas podem acessar essas aulas no site alvaro.henrique.com/cursosabertos
Queremos saber agora os compositores que mais fizeram a cabeça do entrevistado. “Olha, se eu tivesse que ir para uma ilha deserta levando o violão e um conjunto de partituras, certamente seriam as do Villa-Lobos, do Mauro Giuliani e do Bach”.
Para o editor ignorante do Guia Musical, Álvaro informa que Mauro Giuliani foi um contemporâneo de Beethoven, que, aliás, conheceu o compositor e teria tocado violoncelo na estreia de sua Sétima Sinfonia, na Universidade de Viena, no dia 8 de dezembro de 1813. Muito provavelmente, Giuliani aprendeu a tocar violão com a sua mãe, como ocorria com os músicos homens de sua geração, quando a maioria dos violonistas era formada de mulheres. Os homens costumavam aprender a tocar um instrumento na escola, mas aprendiam violão com a mãe. Só depois da geração de Giuliani é que o mercado se abriu também para os homens solistas e concertistas.
Naquela época, ensina Álvaro Henrique, os músicos queriam ser Beethoven ou Rossini (o compositor de óperas italiano Gioachino Rossini). Giuliani quis ser Rossini, tanto é que o último conjunto de suas seis obras, compostas entre 1822 e 1828, tem o nome de Rossinianas, trazendo para o universo do violão o espírito do canto lírico.
E quando foi que Álvaro Henrique se interessou por César Guerra-Peixe? Quando participou de um concurso em Belo Horizonte, em 2003 ou 2004, que previa como música obrigatória a Sonata do compositor carioca. Ele não teve sucesso no concurso, mas viu que aquela música era rica, importante e bonita, espicaçando a sua curiosidade pelas outras composições.
Guerra-Peixe foi um discípulo de Hans-Joachim Koellreutter, um músico representante do expressionismo alemão que se exilou no Brasil em 1937 fugindo do nazismo. Tornou-se amigo de Mário de Andrade e Heitor Villa-Lobos. Em 1939 ele fundou o movimento Música Viva, e foi professor de composição de Guerra-Peixe, Cláudio Santoro, Eunice Katunda e Edino Krieger.
Um aspecto da riqueza e da complexidade de Guerra-Peixe, segundo Álvaro Henrique, é que ele saltou do serialismo para a música armorial no início dos anos 70, quando Ariano Suassuna fundou o Movimento Armorial estando no posto de diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Suassuna tinha claro o que o movimento faria no teatro e nas artes plásticas, mas foi Guerra-Peixe quem deu os primeiros rumos à música segundo essa estética nacionalista com base em elementos nordestinos.
Pensando a obra de Guerra-Peixe como um tesouro ainda escondido dos brasileiros, Álvaro Henrique resolveu resgatar e gravar em CD, em primeira mão, as suas composições para violão solo, com seu lançamento previsto para a Convenção da Guitar Foundation of America (GFA). Disponíveis nas plataformas digitais, estão ali a Sonata para Violão, os 5 Prelúdios, o Caderno de Mariza, as Breves, as Lúdicas e os Peixinhos da Guiné.
Criado em 2022-07-14 00:01:19
Luiz Martins da Silva –
Há um ano, quatro dias para fazer 101 anos, ela passou a fazer parte do panteão dos antepassados, os mais próximos, a quem devemos memória e reverência. Minha mãe veio ao mundo para ser mãe. Casou-se aos 14 anos, padrão de uma época em que o matrimônio nas áreas rurais e patriarcais era mais um assunto das famílias do que da autonomia pessoal.
Ela e meu pai tiveram dez filhos (sem contar um aborto espontâneo), num contexto em que se tinha o tanto de filhos que Deus quisesse e a parteira praticamente fazia parte da família. Os partos eram naturais e os resguardos eram bem guardados, antes e depois dos nascimentos.
Filhos eram uma riqueza natural e cultural: braços para a lavoura e garantia de reposição em casos de perdas. Os índices de mortalidade eram altos e as vacinas eram fabricadas pelo próprio organismo, exposto sem o que fazer aos ataques dos vírus, menos disseminados, pois a população brasileira era muito menor e bem rarefeita.
Uma família de sertanejos, com certeza, e ainda o seríamos até os tetranetos do casal não fossem dois fenômenos atrelados, a seca e a migração. A saúde sempre foi um forte, não fosse um terceiro fator, posteriormente descoberto: tumores decorrentes do uso de agrotóxicos, à época tidos realmente como "defensivos", tanto na colheita quanto na conservação, em tambores. Foi a hipótese para um câncer de intestino que levou meu pai 30 anos antes dela. Ela venceu outros. E este locutor que vos fala, também.
Dono da vida e da morte, sempre Deus. Família católica, mas, como todos os do sertão, afeitos a crenças, simpatias e superstições. Em casa, até hoje, quem acha as coisas é São Longuinho. Há santos para todo tipo de pedido de socorro e no cotidiano quem está sempre na oitiva é o nosso Anjo da Guarda. Parte da religiosidade era o respeito aos pais, representantes de Deus na Terra.
Hoje, com as cosmogonias e cosmologias mais ampliadas, inclusive pela socialização secundária – instituições, diálogos culturais, interreligiosos e até a televisão –, somos mais abertos a um sem número de outras devoções, mas também de paganismos, como as tarifas e prestações que nos apresentam os impostos e as tentações do consumo. Neste contexto aprendi, por ecumenismo, que devemos render muita gratidão e boa memória aos nossos mortos. A esta altura, em que acabo de fazer 70 anos, temos o nosso cemitério sagrado, neste pedação de terra chamado coração. Aos meus pais, meu muito obrigado.
No momento em que redijo estas linhas, vem de oferta um link para uma matéria que informa: Via Láctea pode ter 300 milhões de planetas habitáveis. Não duvido. Por perto ou em algum deles, papai e mamãe nos acenam, com o carinho para com aqueles que, para eles, foram dados por Deus. E nós, no contrafluxo, também agradecemos. A Deus e aos seus representantes neste planetinha, ainda habitável, na periferia da galáxia.

Éramos doze
Hoje, primeiro dia
De um estranho sentimento.
Órfãos de pai e mãe,
Uma virada no tempo.
Saga, bravura, esperança:
Retirantes brasileiros.
Desbravadores do mundo,
Destinos de sertanejos.
Um cordel ao nosso modo,
Juntos, porém desgarrados.
Nem sempre o dia seguinte
Era de cumprir o traçado.
Sebastião, Dona Maria
E uma dezena de filhos.
Ele, há muito, era saudade.
Ela, ontem, aos 100 de idade.
Não nos deixaram sozinhos.
Muito, pelo contrário.
Netos, bisnetos, vizinhos
E tudo o que é mais sagrado.
(LMS)
Criado em 2020-11-06 17:16:57
José Carlos Peliano (*) –
Rio de versos (**)
(a Thiago de Mello)
“Lanço uma rima em pródigo arremesso
em direção à luz do sol, que apago,
para ver outra luz de um sol espesso
que vem do Andirá nos versos de Thiago
Muito tive da vida o que mereço
pouco o que me valeu e ainda trago
como o verso sem o meu endereço
que habita os rios que nascem de Thiago
Antes que a vida, ao fim, me mostre o avesso
espero dela ainda um grande afago
ao ver um verso meu desde o começo
surgir das águas pelas mãos de Thiago”
(**) Do livro Dois Oceanos (Bárbara Bela editora, Brasília, 1999), Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, 1998.
Oh! Andirá
Oh! Rio Andirá, ande lá
traga vida e leve a que há
nas correntes de lá e cá
Oh! Rio Andirá quem dirá
que água em ti é só o que dá
o som do amor dó, ré, mi, fá
Oh! Andirá, oh! Andirá
recolha teu poema já
nos versos de Thiago e vá
_____________
(*) José Carlos Peliano é poeta, escritor, economista.
Nota do Editor: O poeta Thiago de Melo nasceu no dia 30 de março de 1926, na cidade de Barreirinha, no Amazonas. Leia mais sobre ele no site Wikipedia clicando aqui
Criado em 2021-03-12 01:11:00
O escritor e pesquisador Dioclécio Luz (*) lança dia 21/11, segunda-feira, a partir das 18h, no Beira Cultural de Brasília (Quadra 107 Norte), o livro A Escola do Medo – Vigilância, Repressão nas Escolas Militarizadas. Uma contundente crítica ao modelo adotado e praticado pela Polícia Militar ou pelo Corpo de Bombeiros no país.
O trabalho de autoria de Dioclécio resulta de quatro anos de pesquisas do autor – jornalista, pernambucano, que mora em Brasília há mais de três décadas. A obra é um ensaio jornalístico que critica o fenômeno das escolas públicas militarizadas, quando a gestão delas foi entregue às corporações.
Escolas militarizadas estão presentes em praticamente todas as Unidades da Federação. O destaque é para o estado de Goiás, que tem cerca de 60 escolas e planeja chegar a 90. Na Bahia, o governador Rui Costa já conseguiu implantar uma centena delas. No Paraná, o governador Ratinho Júnior, bolsonarista convicto, começou a implantação e planeja chegar a 200 escolas militarizadas. No Distrito Federal, o governador Ibaneis Rocha, reeleito para mais quatro anos de mandato, também bolsonarista, entregou quase uma dúzia de escolas para a Polícia Militar.
Essas escolas estão instaladas na periferia e seus alunos, não por acaso, são todos e todas negros e negras. O objetivo, dizem os governantes, é garantir a segurança dos jovens na escola. Muitos pais e mães são iludidas e aceitam esse modelo de escola na esperança de que nela – “pelo menos” – os filhos podem estudar em segurança. Desconhecem que, conforme a Constituição, garantir a Segurança na comunidade é obrigação do Estado e não apenas dentro da escola. Não levam em conta a intenção velada do Estado de controlar a população pobre e negra.
O livro tem esse título, A escola do medo, porque este é o sentimento presente nesse modelo de pedagogia. Crianças e adolescentes são vigiados full time pela polícia. O olho da repressão funciona dentro e fora da escola. Há um regime disciplinar, com pouca diferença de uma Unidade da Federação para outra, que estabelece cerca de 90 punições sobre essa juventude. O corpo não lhe pertence. Os militares vigiam todos os atos e pensamentos dos meninos e meninas: é proibido soltar os cabelos (tem que ser coque), pintá-los ou deixar que cresçam; não podem usar piercing; a cor da unha e do batom são escolhidas pelo sargento de plantão; não pode abraçar e beijar o namorado; não pode usar colar e brincos maiores. Se tem evento de bajulação de autoridade, o estudante não pode faltar. Na rua, se estiver com a farda da escola, não pode se sentar no chão.
O livro de Dioclécio Luz mostra que essas escolas funcionam como miniquartéis, ou quartéis de brinquedo. As crianças são tratadas como soldadinhos, como se tudo fosse uma brincadeirinha onde todos os dias fazem ordem unida, prestam continência ao sargento de plantão, não podem questionar as ordens dessa autoridade e cantam o Hino Nacional como se estivessem num quartel.
O problema é que essa criançada e os adolescentes não são adultos e, portanto, jamais deveriam ser submetidos a um regimento disciplinar que foi feito para os adultos; na verdade, soldados se submetem a essa formação porque vão atuar no combate ao crime. Exigir das crianças a submissão a esse regime disciplinar é cruel, humilhante, uma afronta ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Essas escolas também afrontam o Art. 5º da Constituição ao invadir a seara da privacidade e intimidade do outro, e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Na verdade, não há nenhuma lei federal dando sustentação a essas gambiarras educacionais, essas antiescolas - como denomina a professora Catarina Santos da Universidade de Brasília.
O autor também destaca que os Colégios Militares, sob o comando das Forças Armadas, não diferem muito das escolas entregues às polícias militares. Também nessas escolas funciona um quartelzinho de brinquedo, onde as crianças são tratadas como soldadinhos, e as mais comportadas recebem patente de oficial de brincadeirinha. Também aí o regime disciplinar é duro, cruel, humilhante, afinal é similar aquele aplicado aos soldados que se preparam para o combate contra exércitos inimigos. A diferença é que para os Colégios militares o dinheiro é sempre muito; logo o corpo docente é mais bem remunerado e a infraestrutura é de primeira linha. O Colégio Militar de Brasília, por exemplo, localizado na área central da cidade, ocupa uma área de 240 mil metros quadrados, ou 24 campos de futebol.
A Escola do Medo revela que os militares estão nessas escolas ensinando algo que se aproxima da disciplina Moral e Cívica adotada pelo regime militar de 1964. O conceito de civismo, por exemplo, se resume a amar a pátria, cantar o hino nacional, obedecer às autoridades constituídas. Esses militares, por conta da formação que receberam – vertical, onde o superior fala e os demais obedecem – não conseguem entender que a democracia se faz pela horizontalidade, onde todos e todas têm direito a contestar a autoridade, seja lá qual for. Então, enquanto o professor ensina sobre democracia, o militar, muitas vezes na mesma sala, ensina sobre o autoritarismo, tirania.
O livro, além de ser um árduo trabalho de pesquisa, tem dois diferenciais. Primeiro, embora tenha sido feito com o rigor da academia, não é um estudo acadêmico. Segundo, por ser um ensaio jornalístico, tem formato e linguagem que permitem sua leitura por leigos, estudiosos, acadêmicos e não acadêmicos.
O livro é uma publicação da Tanto Mar Editores, deve ser lançado em formato impresso e ebook ainda este ao.
Sobre o autor
(*) Dioclécio Luz é pernambucano. Mora em Brasília há 30 anos. Tem formação em engenharia elétrica (UFPE) e mestrado em Comunicação (UnB). Já atuou como repórter, fotógrafo, dramaturgo, agricultor, radialista, roteirista de vídeo, professor de matemática, escritor e jornalista.
Por quase 20 anos trabalhou na Câmara dos Deputados na assessoria técnica de parlamentares. É autor de uma dezena de livros, abordando os mais diversos temas: reportagens (Roteiro mágico de Brasília), rádios comunitárias (Os radiojornalismos nas rádios comunitárias), meio ambiente (A máfia dos agrotóxicos e a agricultura ecológica), contos (O diabo modernista), crônicas (Vida e obra do acaso), memória (Memória da semente), entre outros. Há mais de 30 anos produz um programa de rádio (Canta Nordeste) e mantém um podcast sobre literatura (Livraria da praça) na Rádio Eixo.
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Serviço:
Lançamento dia 21/11, segunda-feira, a partir das 18h, no Beira Cultural de Brasília (Quadra 107 Norte)
A Escola do Medo – Vigilância, Repressão nas Escolas Militarizadas pode ser adquirido diretamente com o autor ou no site da editora, na versão impressa ou ebook: www.tantomareditores.com
Criado em 2022-11-13 22:00:59
Para contribuir com o debate e aprimoramento do chamado projeto Zona Verde do Governo do Distrito Federal, que prevê cobrança pelo estacionamento público rotativo, a Rede Urbanidade elaborou um documento apresentando sugestões colhidas na sociedade civil.
A Rede Urbanidade é uma entidade formada por membros do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e da sociedade civil. O documento, assinado pela Associação Andar a Pé, Bike Anjo–DF, Brasília para Pessoas, Courb, Instituto MDT, MOB e Rodas da Paz, propõe (veja a íntegra aqui) que os recursos arrecadados sejam destinados para o financiamento e a manutenção do transporte coletivo e da mobilidade ativa (deslocamento a pé ou de bicicleta). Essa ideia, segundo seus autores, “segue uma tendência mundial de restrição ao uso dos meios individuais motorizados de deslocamento”.
O texto sugere ainda que, na fase preliminar à implantação do projeto, medidas para a melhoria da mobilidade sejam adotadas. Entre as propostas estão a criação de corredores exclusivos para ônibus nas vias do Plano Piloto; interligação de todas as ciclovias, ciclofaixas e faixas compartilhadas; e implantação de paraciclos e bicicletários em terminais de ônibus, estações do Metrô e outros pontos estratégicos. Também propõe que eventuais novos bolsões de estacionamento sejam criados fora do Plano Piloto, próximos a estações do Metrô e do BRT.
O coordenador da Rede Urbanidade, o promotor de Justiça Dênio Augusto de Oliveira Moura, esclarece que o papel do Ministério Público, por ora, é assegurar a participação efetiva da sociedade no debate que deve preceder à implementação da medida, com o objetivo de aperfeiçoar o projeto apresentado pelo Governo. Ele salienta, no entanto, que o Plano Diretor de Transporte Urbano do Distrito Federal – PDTU-DF, instituído pela Lei Distrital nº 4.566/2011, prevê a regulação da oferta de vagas de estacionamento como forma de reduzir a circulação de veículos de transporte individual ou privado, para a viabilidade de padrões sustentáveis de mobilidade.
O secretário de Transporte e Mobilidade (Semob), Valter Casimiro Silveira, recebeu ontem (14/8) o oficio encaminhado pelo coordenador da Rede Urbanidade, promotor Dênio Augusto de Oliveira Moura.
O promotor lembra ao secretário que “a participação social pressupõe um amplo acesso à informação, que deverá ser disponibilizada de forma integral e com uma antecedência que permita o efetivo exercício desse direito”. Dênio Moutra, para isso, “requisita que os esclarecimentos sobre o acolhimento ou não das contribuições apresentadas, sejam encaminhados à Promotoria de Justiça, de forma fundamentada, a fim de propiciar o necessário controle”.
Leia aqui o artigo Mobilidade urbana em tempos de pandemia, assinado pelo arquiteto e urbanista Benny Schwasberg .
Criado em 2020-08-15 21:29:24
De 18/11 a 7/1/2023, no Espaço Cultural Renato Russo 508 Sul, Galeria Rubem Valentim, 40 Antenas e Algumas Parabólicas. As obras são resultado de um trabalho iniciado no começo de 2020 que incluiu lives e uma mostra na passagem subterrânea entre as Quadras 109 e 209 Sul, do Plano Piloto de Brasília.
Quais os rastros deixados pelo confinamento imposto pela pandemia do Covid-19 na obra de artistas visuais que vivem ou já viveram em Brasília? Como esses artistas fizeram para manter a sanidade e o desejo de subversão? Estas e outras respostas estão no conjunto de obras que integram a exposição 40 Antenas e Algumas Parabólicas.
A exposição é uma iniciativa dos artistas Suyan de Mattos e Hilan Bensusan e conta com o acompanhamento crítico da curadora e mestre em arte contemporânea Marília Panitz e conta também com expografia e design gráfico do também artista Cirilo Quartim.
A mostra é resultado de um intenso processo iniciado em 13 de março de 2020, quando foi lançado o decreto de nº 64.862 com medidas temporais e emergenciais de prevenção de contágio pelo Covid-19. Na semana seguinte, Hilan Bensusan convidou Suyan de Mattos para organizar uma exposição com as obras de artistas visuais que fossem desenvolvidas durante o isolamento e o distanciamento provocados pela pandemia. Para pegar o mote da quarentena e como licença poética, foram convidados 40 artistas visuais.
“O tema é de cada artista e como cada um captou a quarentena e a pandemia frente à sua produção poética”, explica Suyan. E acrescenta: “Acreditamos que os trabalhos apresentados, no contexto pós-pandemia, terão seus encantos por si mesmos e uma leitura diferente daquela que estão fazendo, durante esta interrupção do tempo. O tempo foi/é/será o do processo artístico/poético”.
14 de julho, o projeto inaugurou a ocupação do mundo das Hades no 233º aniversário da queda da Bastilha (como referência à queda de um governo autoritário), na passarela subterrânea da quadra 109 Sul, entrada do Beirute, com 40 lambes de 40 artistas.
Agora, a exposição ganha o espaço da Galeria Rubem Valentim, conceitualmente dividida por demarcações poéticas chamadas pela curadora Marília Panitz de Territórios, Tempo e Ações. Ela explica: “Foi com surpresa que percebemos que dos encontros na rede se estabeleciam algumas formas exemplares de tratar o isolamento (assim como na vida). Divididos basicamente em quatro formas de ocupação do “espaço” íntimo que é requisitado pelo “estar em casa”; em três temporalidades; e no encadeamento de ações coincidentes. Parecia haver nesse descobrimento poético coletivo de enfrentamento à pandemia certos padrões identificáveis”.
Sendo assim, fazem parte dos TERRITÓRIOS obras que trabalham a Casa (o íntimo), Quintal e Entorno (o redor), Excursão (o longe solitário) e Dentro (o longe íntimo). Em TEMPO estão trabalhos que miram o Ontem (os guardados), Sucessão de Presentes (o ordinário) e O quem vem depois (o exercício premonitório). Por fim em AÇÕES estão olhares para o Experimental, o Efêmero, o Perene e a Memória de Achados como Retomada.
O projeto inclui ainda quatro palestras em formato de visitas guiadas e lives já gravadas com artistas Antenas e convidados Parabólicas, que serão disponibilizadas num monitor de vídeo. As lives apresentam conversas com nomes como Ralph Gehre, Helena Lopes, Divino Sobral, Karina Dias, Gê Orthof, Cris Cabus, Eduardo Mariz, Clarisse Tarran, Arthur Scovino, Camila Soato, João Angelini, Selma Parreiras e Wagner Barja e serão veiculadas com legendas em closed caption. Na exposição, todas as obras terão etiquetas em braile e as visitas guiadas contarão com intérprete de libras e audiodescrição.
CONCEPÇÃO
HILAN BENSUSAN - Possui graduação em Filosofia pela Universidade de Brasília (1989), Mestrado pela Universidade de São Paulo (1994) e doutorado pela University of Sussex (1999). Atualmente é professor adjunto do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília. É editor da revista Das Questões e mantém o grupo de pesquisa e discussão Anarchai que atualmente reúne a grande maioria de seus orientandos de mestrado e doutorado. Mantém o blog No Borders Metaphysics, anarchai.blogspot.com.
SUYAN DE MATTOS – Pós-doutora em Artes pela Universidade de Buenos Aires (UBA, Argentina) e doutorada em História da Arte pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM, México). Realizou diversas curadorias de exposições e exposições individuais. Participou de coletivas no Brasil e no exterior e de residências artísticas no Brasil, na Espanha, no Chile e em Portugal. É coordenadora e curadora da residência artística Hospitalidade/Casa Aberta, em Olhos d’Água, Goiás. Vive e trabalha em Brasília.
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ARTISTAS E OBRAS
1 - AHA ELSE – “Língua beijando em distanciamento” – obra visível em QR Code
2 - AMANDA NAOMI YUKI – “Contenção” - Bricolagem com crânio e chifre de vaca, espuma expansiva, cabelo, terra, cola e serragem - 57 x 67 x 37 cm - 2020/22
3 - ANANDA GIULIANI – “Avesso” - Parafina, gesso, metais, jornais e fotos/still - Medidas variáveis - 2020
4 - BÁRBARA PAZ – “Enredos” - Pastel seco - 42 x 59 cm - 2021
5 - CAPRA MAIA – “Urnas Cabelos” - 12 x 30 x 25 cm (conjunto) - 2020
6 - CÉSAR BECKER – “Seu Arsênio” - Resina e enxada - 100 x 20 x 15 cm - 2020
7 - CINTIA FALKENBACH – “A book of magazine prints” - Colagem e desenho - 18 x 25 cm - 2020
8 - CIRILO QUARTIM – “Pandelíptico” - Acrílica sobre tela - 70 x 70 cm - 2020
9 - CLEBER CARDOSO XAVIER – “Linhas” - Fotografia sobre papel - Hahnemuhle Photo Rag Baryta - 315g - 40 x 60 cm - 2020 (Foto, abaixo)

10 - DANNA LUA IRIGARAY – “O céu é o lugar da queda” – Vídeo - 3’37” - 2020
11 - GABRIELA MUTTI – “Presentes do Goiás” - Guache sobre canson montval - 38 x 35,5 cm - 2020
12 - GISEL CARRICONDE AZEVEDO – “Decor CV-19 Cor – É mais fácil imaginar o fim do capitalismo que imaginar o fim do mundo” – Série “A arte de não fazer” – Instalação de tapete, mesa e vasos – 2020
“Decor CV-19 P X B – Ficção, Realidade e Pós-verdade” – Série “A arte de não fazer” - 2020
13 - HIERONIMUS DO VALE – Série de 9 gravuras - Corte Laser em Papel – 30 x 21 cm – 2020
"Na pandemia vejo seus olhos Hieronimus!?!”“Na pandemia vejo seus olhos Ícaro!?!”
“Na pandemia vejo seus olhos Marina!?!”
“Na pandemia vejo seus olhos Anastácio!?!”
“Na pandemia vejo seus olhos Joseano!?!”
“Na pandemia vejo seus olhos Pablo!?!”
“Na pandemia vejo seus olhos Paulo!?!”
“Na pandemia vejo seus olhos André!?!”
“Na pandemia vejo seus olhos Matheus!?!”
14 - HILAN BENSUSAN – “Devoração” - Aquarela sobre papel - 29,7 x 21 cm – 2020
“Estudo para uma saga de células, coronavírus e neurônios” - Aquarela sobre papel - 29,7 x 21 cm – 2020
“Ancestrais” - Aquarela sobre papel - 29,7 x 21 cm – 2020
“E fez o artifício” – Vídeo - 10’04” - 2020
15 - IGU KRIEGER – “Acerto de contas” - Têmpera, pigmentos naturais, guache e tecido oxford sobre madeira - 85 x 110 cm - 2020
16 - ISADORA DALLE - “O mais barro, sem esperança de escultura” (Composição, Drummondiana) - Performance (3 apresentações) – Vídeo - 14’40”
17 - JOSÉ ROBERTO BASSUL – “Existe vida lá fora” - Fotografia sobre papel Hahnemuhle - 60 x 90 cm - 2020
18 - JÚLIO CÉSAR LOPES – “Cones” - Papel laminado - Medidas variáveis de 70 x 20 até 100 x 28 cm (de 4 até 10 cones) - 2020
19 - LARA OVÍDIO – “O Neoliberalismo avança, o sol esquenta e as crianças crescem” - Páginas grifadas do livro “Fazia calor, usávamos máscaras”, caixas de som, almofadas (parede pintada de laranja) - Medidas variáveis - 2020/22
20 - LAURA DORNELES DO AMARAL – “Sofrimento de quase-mãe” - Sangue, caderno e técnica mista - 21 x 14,8 cm - 2020
21 - LÉO TAVARES – “O “eu” da pessoa” - Montagem digital, impressão - 10 x 15 cm (cada quadro) - 2020
22 - LEOPOLDO WOLF – Título - Acrílica sobre papel - 42 x 56 cm - 2020
23 - LINO VALENTE – “Caixa luz” - paraíso artificial nº 01 - Fotografia/pintura digital sobre lâminas de acetato - 31 x 29,5 cm - 2020/21
24 - LIS MARINA OLIVEIRA – “Arquitetura para solos variáveis” – Foto performance - 4 vídeos alternados na sonorização - duração variável (de 1’ à 2’h) - sons de chuva, pássaros, vento e cigarras - Dimensão: 120 x 100 cm (cada) - Díptico acompanhado de vídeo
25 - LUCIANA FERREIRA – “Livro da noite” - Intervenção sobre livro de Gertrude Stein - 29 x 21 cm - 2020
26 - LUCIANA PAIVA – “Desmedido (série desmesuras)” – Material - 8,5 x 10,5 cm - 2020/22
27 - LUDMILLA ALVES – “Poema um pouco mais à oeste (da série Inversões, giros, golpes e outros movimentos)” - Carvão, bastão a óleo, terra, torrões de argila - 150 x 92 cm – 2018/2021
28 - LUISA GÜNTHER – “Sobre o futuro que sonhastes antes” - Nanquim, acrílica, purpurina - sobre tela - 90 x 60 cm - 2020
29 - MARCELO CALANGO – “Seres fantásticos do Cerrado” – híbrido - Lápis, caneta permanente, nanquim e urucum sobre canson, 40 x 55 cm - 2020
30 - MÁRCIO BORSOI – “A cidade se perde nas ausências…” - Fotografia impressa em papel Fine Art - 40 x 60 cm - 2020
31 - MARIANA DESTRO – “The Touch of You 1”, 2020 – vídeo em alta definição (cor, som) – 1:38min
“The Touch of You 2”, 2020 – vídeo em alta definição (cor, som) – 1:38min
“Na boca de quem não presta pomba-gira é vagabunda” – Instalação vinil adesivo – 5 x 3 cm
32 - NIVALDA ASSUNÇÃO – “Vontade de potência” - Fotografia sobre papel (tríptico) - 30 x 40 cm - 2020
33 - RAFAEL DA ESCÓSSIA – “Barbie juristinha” - Boneco e impressão - 33 x 14 x 7 cm - 2020/22
34 - RAÍSA CURTY – “Série República Burguesa Pandêmica” – Aquarelas sobre papel em caixa de acrílico – 2020
35 - RAISSA STUDART – “10 de abril, na antiga caverna (série Cartas Náuticas)” - Bordado sobre tecido e café - 30 x 31 cm - 2020/22
36 - SILVIE EIDAM – “Kofou” - Óleo sobre tela - 60 x 100 cm - 2021
37 - SUYAN DE MATTOS – “Vulvônicas” - 9 porta-níqueis bordados - 37 x 37 cm (conjunto -> apresentação em forma de móbile) – 2020
“Devoração” – bordado com linhas de algodão e fibra vegetal sobre algodão, 2020
“Ancestrais” - bordado com linhas de algodão e fibra vegetal sobre algodão, 2020
38 - THALITA CAETANO – “Arqueologia” - Bordado sobre algodão - 66 x 22,5 cm - 2020
39 - VALÉRIA PENA-COSTA – “O filho pródigo” - Materiais diversos sobre MDFBT - 66 x 55 x 15 cm - 2020
40 - ZULEIKA DE SOUZA – Título - Fotografia impressa em tecido translúcido - 150 x 220 – 2020
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FICHA TÉCNICA:
Concepção do projeto: Hilan Bensusan e Suyan de Mattos
Coordenação: Suyan de Mattos
Acompanhamento crítico: Marília Panitz
Coordenação gráfica e expografia: Cirilo Quartim
Conselho curatorial: Cirilo Quartim, Hilan Bensusan, Marília Panitz e Suyan de Mattos
Produção: Icentivem Produções
Fotógrafo: Lucena
Músico: euFraktus X
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SERVIÇO:
EXPOSIÇÃO 40 ANTENAS E ALGUMAS PARABÓLICAS
Local: Galeria Rubem Valentim, no Espaço Cultural Renato Russo
Abertura: 17 de novembro de 2022, às 19h
Período: 18/11/2022 a 07/01/2023
Horários: de terça a sábado, das 10h às 20h; domingo, das 10h às 19h
ENTRADA FRANCA
Veja mais aqui:
https://www.flickr.com/photos/98687634@N06/albums/72177720302960847
Criado em 2022-11-05 01:51:47
Carta da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET) à sociedade brasileira reitera que existem alternativas ao plano de privatização já em curso e que pode alienar cerca de um terço do patrimônio da estatal.
O Conselho de Administração aprecia, esta semana, o Plano Estratégico para o período 2017-2021. O documento dos engenheiros alerta que a "venda de ativos rentáveis compromete o fluxo de caixa futuro, entrega o mercado nacional aos competidores privados ou intermediários, fragiliza o desenvolvimento tecnológico soberano, transfere a propriedade de riquezas naturais finitas e estratégicas".
A carta é assinada pelo presidente da AEPET, Felipe Coutinho, e tem o seguinte teor:
"A Direção da Petrobras divulgou que o Conselho de Administração apreciará o novo Plano Estratégico (PE 2017-2021) a partir de 19 de setembro.
A Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET) reitera que existem alternativas ao plano de privatização que está sendo realizado e que pode alienar cerca de um terço do patrimônio da estatal.
A venda de ativos rentáveis compromete o fluxo de caixa futuro, entrega o mercado nacional aos competidores privados ou intermediários, fragiliza o desenvolvimento tecnológico soberano, transfere a propriedade de riquezas naturais finitas e estratégicas. A venda do petróleo do pré-sal, da infraestrutura de gasodutos, das unidades petroquímicas, dos terminais de GNL com as termelétricas associadas, da Liquigás Distribuidora de GLP e do controle da BR Distribuidora compromete o futuro da companhia.
Em cartas à direção da Petrobras e seus conselheiros, tornadas públicas aos petroleiros e à sociedade, a nossa Associação também alerta para o risco da Petrobras cometer os mesmos erros estratégicos das multinacionais.
As maiores multinacionais de capital privado do setor do petróleo não repõem suas reservas na taxa que são esgotadas, têm produção declinante, apresentam resultados financeiros fracos, e perderam boa parte de sua capacidade tecnológica, ao terceirizar suas atividades às empresas prestadoras de serviço. Em uma palavra, definham. Entre as principais causas, a adoção de modelo de negócios baseado em premissas falsas, com objetivo de maximizar o valor para o acionista no curto prazo, com precária visão estratégica ao não compreender o ambiente de negócios, seguindo bovina e consensualmente planos similares baseados em informações de “consultorias independentes”, ao negar restrições socioeconômicas, além de ignorar limites naturais. Caso a Petrobras adote modelo parecido terá o mesmo destino, em breve.
A Petrobras foi vítima de um cartel de empreiteiros que através de políticos traficantes de interesses, executivos de aluguel, além dos banqueiros que lavam mais branco, formaram um grupo de bandidos que fraudou a companhia. Os recursos precisam ser recuperados e os responsáveis julgados e punidos.
A corrupção precisa ser combatida com o fortalecimento institucional da companhia e não pode ser utilizada como pretexto para a entrega do patrimônio público a outros interesses privados, desta vez o das multinacionais do petróleo, fundos de investimento, bancos credores e suas agências de avaliação de risco.
O novo plano precisa ainda fortalecer a atuação integrada da Petrobras, desde a exploração do petróleo, à produção dos petroquímicos, dos biocombustíveis e das energias renováveis. Ampliando seu mercado através da infraestrutura logística e de distribuição. Além de fortalecer o seu Centro de Pesquisas (Cenpes), a inovação e o desenvolvimento tecnológico.
É necessário agregar valor ao petróleo cru, especialmente no atual cenário de elevação dos custos médios e mundiais da sua exploração e produção, com grande instabilidade dos preços, somadas à recessão econômica mundial, à instabilidade do sistema financeiro e às disputas monetárias entre potencias internacionais.
É preciso fortalecer a Petrobras Biocombustível reavaliando o seu modelo de negócios para que tenha acesso as matérias primas com custos mais baixos e próximos aos custos de produção. Desenvolver produtores e a cadeia de valor para atuação integrada, sem depender da aquisição das matérias primas de seus competidores ou potenciais competidores. Precisa ampliar sua área de atuação para a produção de energia elétrica de origem renovável, eólica e solar. Atuar também nas Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), opções rentáveis para geração distribuída de energia.
A renda petroleira deve ser usada para levantar a infraestrutura para a produção das energias renováveis que são essenciais para o futuro.
A descoberta do pré-sal, a maior dos últimos 40 anos, e o domínio tecnológico desta região geológica de fronteira nos dá a oportunidade de construir um país justo e solidário. É preciso ter estratégia de longo prazo, produzir na medida do nosso desenvolvimento e em suporte a ele.
Nenhum país se desenvolveu exportando petróleo por multinacionais. Nenhum país, continental e populoso como o Brasil, se desenvolveu exportando petróleo cru ou matérias primas sem valor agregado, mesmo que através de companhias nacionais, estatais ou públicas.
Existe correlação entre o desenvolvimento humano e o consumo per capta de energia primária. Precisamos usar nossas riquezas nacionais para atender a tantas necessidades dos 205 milhões de brasileiros. Um povo trabalhador e honesto, mas mantido na ignorância por uma elite medíocre que insiste em nos lançar em novos ciclos do tipo colonial.
Superamos a produção de um milhão de barris por dia no pré-sal, em tempo recorde. O pré-sal é uma realidade e representa quase metade da produção nacional. A História demonstra a capacidade técnica e financeira da Petrobras e do Brasil". Competimos em mercado aberto, a Shell devolveu o campo de Libra à ANP declarando que não havia petróleo comercialmente viável. A Petrobras assumiu o campo, alcançou a camada do pré-sal e descobriu uma nova reserva gigantesca que agora segue em desenvolvimento sob o regime de partilha. Imaginem o que diriam os entreguistas de sempre, se o insucesso fosse da Petrobras.
A AEPET tem compromisso com o futuro do Brasil e por isso defende a Petrobras. É preciso que a nossa companhia seja forte, esteja a serviço da maioria e continue a demonstrar a capacidade de trabalho dos brasileiros."
Criado em 2016-10-10 18:51:44
Roberto Amaral (*) -
As advertências sobre os preparativos golpistas crescem na medida em que, de mãos dadas, se aprofundam a falência do governo (o desemprego e a fome disparam, e a OCDE prevê para este ano em 0,6% o crescimento do PIB brasileiro) e a rejeição popular ao capitão candidato, sugerida pelos índices de crescimento da candidatura Lula, anunciando a possibilidade de o ex-presidente eleger-se já no primeiro turno, o que não ocorre entre nós desde 2002.
A debacle atiça a alternativa in pectore dos engalanados, do sistema financeiro internacionalizado, dos especuladores e rentistas em geral, receosos da frustração da expectativa dos grandes ganhos anunciados com o programa neoliberal de privatização de empresas fundamentais para o nosso desenvolvimento, vendidas na bacia das almas, processo que já se abate sobre a Eletrobras e ameaça a Petrobras.
A ainda chamada grande imprensa, que fracassou até aqui na tentativa de construção artificial de uma terceira via na disputa pela presidência, já dá sinais de seu incômodo, revelado na campanha que move, por meio sobretudo de seus editoriais, contra a candidatura do ex-presidente. É sua forma envergonhada de fazer o jogo do capitão. Primam nessa linha Globo e Estadão; carentes de autonomia, títeres do sistema, simplesmente revelam a indisposição de seus financiadores, o grande capital nacional e internacional, um e outro sem compromisso seja com o nosso desenvolvimento, seja com o processo democrático, posto que sempre estiveram firmes na defesa do capital estrangeiro contra o interesse nacional - assim no combate à Petrobras e ao monopólio estatal, como no apoio às alternativas de força e autoritarismo. Seu compromisso com a legalidade democrática é bijuteria vendida como gema rara. Combateram o trabalhismo nacionalista do Vargas da fase democrática e foram decisivos na preparação do golpe que levou o ex-presidente ao suicídio; tentaram impedir a posse de Juscelino e combateram o quinquênio desenvolvimentista; tentaram impedir a construção de Brasília, a que devemos a incorporação do centro-oeste à vida e à economia nacionais; apoiaram a tentativa de golpe contra a posse de Jango em 1961 e cerraram fileiras no combate o mais feroz ao seu governo, participando das articulações que levaram ao golpe de 1º de abril de 1964, e sustentaram a ditadura e seus crimes até o momento em que o regime militar decidiu sair de cena. Na preparação do golpe, o Estadão funcionou como um arrecadador de fundos financiadores da conspiração (remeto o leitor às memórias do General Cordeiro de Farias); durante a ditadura, a Rede Globo assumiu o indecoroso papel de porta-voz dos militares, escondendo da opinião os crimes contra os direitos humanos e a um só tempo denunciando os adversários do regime. E todos manipulando a informação, a serviço da ditadura. A chamada operação Lava Jato, um dos momentos mais ominosos do sistema judiciário brasileiro, com seu rol de crimes essenciais ao golpe de 2016 e à eleição de Bolsonaro, não teria alcançado o sucesso conhecido se não contasse, do primeiro ao último momento, com o apoio consciente e irresponsável dos meios de comunicação de massa.
Não se conte, portanto, com essa imprensa a fundo perdido, nada obstante seu mal-estar diante da truculência do presidente. No essencial, o neoliberalismo, o privatismo, estão em paz. Seus donos, os donos aparentes e os donos reais, o sistema financeiro, têm, é certo, restrições ao tosco capitão, mas em face de Lula a distância e o desacordo são de essência: trata-se de uma questão de classe.
As fileiras, comandantes e tropa, majoritariamente, estão dispostas a sustentar o projeto bolsonarista, muito pelo que o capitão e suas hordas representam como apelo reacionário; mas o que as move, mais do que tudo, é a irracional resistência a Lula, visto como promessa de emergência política das massas. A caserna (com uma casta dirigente hoje embriagada de privilégios) é visceralmente hostil a qualquer mudança social.
O governo do capitão e do falido "Posto Ipiranga" prima pela incompetência, como se vê, mas, reconheça-se, não traiu seus compromissos com o capital estrangeiro e o grande empresariado. Essa gente nada tem a reclamar do golpe de 2016 e das eleições de 2018, e por isso mesmo não pode se sentir tranquila quando divisa a possibilidade do novo governo de Lula, que promete voltar a perseguir a distribuição de renda (é de seu discurso colocar o pobre no orçamento da União e os ricos no Imposto de Renda - como, de resto, manda a Constituição). De Lula deve-se esperar a taxação das grandes fortunas e a retomada da política externa ativa e altiva que consagrou seus dois mandatos. Mas tais expectativas, que nos enchem de estímulo e trazem boas expectativas quanto ao futuro, não podem agradar os EUA de Biden, como não agradaram ao de Barak Obama. É, pois, uma tolice pensar que os EUA resistiriam a mais um golpe de Estado no Brasil, eles que tantos outros fomentaram, aqui e mundo afora; pelo contrário, a continuidade da conhecida política externa bolsonarista soa como acalanto para Wall Street, quando o Departamento de Estado deve suas atenções para o contencioso europeu e a insegurança de seu mando na América Latina, sua área primária de preeminência - onde despontam nichos de resistência que tendem a se fortalecer com a eleição e Lula que, certamente, retomará os projetos de autonomia regional intentados em seu governo. E não é preciso dizer que Lula voltará a prestigiar os BRICS, onde o Brasil tem como sócios, além da Índia e da África do Sul, nada menos que a Rússia e a China.
O golpe, pois, não é uma certeza, mas uma probabilidade com a qual devemos contar.
O golpe ao qual me refiro não remonta às nossas quarteladas, de há muito superadas, com os vencidos conceitos clássicos da ciência política clássica.
O golpe à vista, este de que falam as especulações, não lembra mais a “tomada de assalto do palácio de inverno”, nada tem a ver com putsch, o golpe de mão, a ação de surpresa; pode mesmo dispensar a movimentação de tropas. Com as fileiras aquarteladas, o Congresso pode implementar reformas antissociais e contrárias ao interesse nacional; Executivo, Legislativo e Judiciário podem desconstituir o Estado, romper o pacto político que ensejou a Constituição de 1988, destruir a ordem econômica e impedir o desenvolvimento, como agora. Podem abolir os direitos trabalhistas e previdenciários, destruir o meio ambiente, assassinar os povos originários, estimular a cizânia nacional, promover o armamentismo, congelar o desenvolvimento científico-tecnológico, condenar a cultura à inanição. Podem alimentar o que há de mais atrasado em nossa sociedade, como o racismo e a misoginia, destruir a escola pública e o sistema único de saúde - o que, aliás, está no “Projeto de nação”, sistematização de um programa de governo de extrema-direita que os militares apresentam como meta deste país até 2035.
O que vemos como ameaça no curto prazo é o aprofundamento de um sistema que se instalou em 2018, via processo eleitoral, ou seja, sem ruptura política, e que se vem mantendo até aqui, dilatando-se a cada passo e que, em face de determinadas circunstâncias, pode sobreviver a 2022, isto é, pode sobrevir à derrota de Bolsonaro e estender-se no possível governo Lula. Essa contingência já foi batizada de “golpe de Estado continuado”, e podemos chamá-la “golpe híbrido”. Tendo em seus alicerces as forças armadas (e nelas compreendidas as corporações policiais, civis e militares e suas adjacências, como as milícias) e o poder econômico, nacional e internacional (a Faria Lima e Wall Street), esse sistema trabalha com a informação e a desinformação, mediante o que omite e o que cria; onde deveria estar a liberdade de informação como o outro lado do direito democrático de ser corretamente informado, instala-se a informação manipulada; a unilateralidade toma o lugar da pluralidade ideológica. Mesclam-se táticas de guerra política, que vão de Sun Tzu a Goebbels, com táticas de guerra convencional (como a grotesca parada dos tanques fumacentos da Marinha em Brasília, em 2021); movimentações de massa com táticas neofascistas como agressões morais e físicas, as ameaças políticas, o vandalismo, as agitações de rua e a utilização de modernas técnicas de controle das redes sociais.
São os tempos em que vivemos. Formalmente, não se pode dizer que houve um “golpe de Estado” em 2018, mas é verdade que se trata de um regime de exceção que se implantou sem o apelo clássico à força: operou-se segundo as regras vigentes, sem quebra, portanto, da ordem constitucional. Mas não deixa de ser uma fratura do pacto político.
Esse regime, resultante dessa nova forma de golpe, pode sobreviver às eleições. Para essa eventualidade, todavia, não parecem alertas a forças políticas do campo democrático, pelo menos nos primeiros ensaios de campanha eleitoral que se apresenta despolitizada, ou seja, confinando a política aos objetivos eleitorais, relegando a plano secundário, mais do que a oportunidade, a necessidade de discutir com o eleitorado, inclusive, as questões acima levantadas, para poder, estabelecendo uma nova maioria, rever o sistema político resultante do golpe de Estado detonado em 2016, operado pelo Congresso com o apoio das forças armadas e a demanda do sistema econômico-financeiro.
É preciso dizê-lo: ainda que logremos a vitória eleitoral indispensável, será muito difícil o quadriênio. Para governar, fiel ao programa de campanha, Lula dependerá tanto de maciço apoio popular quanto de alianças e composições que talvez sua experiência e sua arte política consigam concertar. O ponto de partida será sempre a vitória no primeiro turno.
____________________
(*) Roberto Átila Amaral Vieira é jornalista, professor e político brasileiro. Foi ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva.
(**) Com a colaboração de Pedro Amaral
Criado em 2022-06-14 02:18:16
Cruzes no gramado da Esplanada dos Ministérios representam os mais de 55 mil mortos pelo coronavírus no Brasil diante do desprezo do governo.
Criado em 2020-06-29 01:03:13
Alexandre Ribondi –
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, anda preocupado. Publicou, hoje (22/4), na sua conta do twitter, texto em que avisa que o coronavírus está sendo usado como arma para a implementação do comunismo em todo o mundo - o que ele chama de comunavírus.
Não devemos apenas rir de um ministro que cai voluntariamente no ridículo de ter medo do comunismo, e de dizer que a pandemia é uma "escada para descer até o inferno, cujas portas pareciam bloqueadas dede o colapso da União Soviética".
Não devemos rir do ministro com discurso evangélico-radical-de-periferia porque ele tem razão. E não porque o comunismo esteja usando um vírus para invadir o mundo, mas sim porque a pandemia está mostrando a fraqueza, a ineficiência e a morbidez do capitalismo.
O Estado Mínimo mostrou que não funciona. Para combater a Covid-19, o Estado tem que estar presente em todos os setores da sociedade, se não quiser apadrinhar a morte dos seus cidadãos. A saúde, a segurança pública, a educação não podem se solucionar sozinhas. Agora mais que nunca, não se pode achar que um indivíduo será vitorioso sozinho.
O ministro denuncia o perigo da "solidariedade comunista". Consegue, assim, revelar a gravidade do estado de saúde do capitalismo, que, por desconhecer o valor humano da solidariedade, está à morte vítima do individualismo, da indiferença, do egoísmo e do cinismo.
Sim, senhor ministro, as portas do inferno podem até mesmo estar sendo abertas. Mas não para que o comunismo saia. É para que o capitalismo entre.
Criado em 2020-04-22 20:27:51
Marcos Bagno -
Me perdoem por escrever sobre mim mesmo, é a primeira vez e espero que a última também. A desculpa é que não estou só no meio desses nós... Conheci há pouco, em Santiago de Compostela, um rapaz galego que fez um estágio numa universidade portuguesa. Quando fomos apresentados, ele disse: “Marcos Bagno? Pois lá em Lisboa falam mal de você”.
Eu já desconfiava, já tinha ouvido um certo zum-zum, mas agora tive a comprovação das minhas suspeitas por uma testemunha ocular e auricular. Alguns (repito: alguns) colegas linguistas portugueses se sentem muito incomodados com as coisas que escrevo em meus livros e digo em minhas apresentações públicas (em outros países, porque lá nunca falei... por que será?).
Por alguma razão misteriosa (talvez a barreira da língua?), parece que eles pensam que tenho algum tipo de indisposição ou má-vontade com relação a Portugal ou, mais especificamente, ao português europeu.
No que diz respeito a Portugal, digo logo de saída: é um país que eu adoro, um dos mais bonitos que conheço, especialmente a cidade do Porto, embora Lisboa seja irresistivelmente charmosa. E comer bacalhau todos os dias sem ter de pagar os preços histéricos que os restaurantes brasileiros cobram é um prazer sem igual. E ainda por cima com azeite português, o melhor do mundo!
Quanto à língua, tenho a impressão de que a defesa que eu e outros fazemos do português brasileiro, os argumentos que apresentamos para demonstrar que já falamos duas línguas distintas, embora muito aparentadas, fere os brios de algumas pessoas por lá.
Não sei, pode ser que exista por ali um medo (inconsciente?) de que, sem o Brasil, a ideia do “português”, assim, de forma genérica, como “língua internacional” vá pelo ralo ou que a etérea “lusofonia” fique em águas de bacalhau (eu gosto mesmo desse peixe!).
Afinal, se excluirmos os mais de duzentos milhões de falantes brasileiros, o que sobra de “lusofonia” é um punhadinho de gente que, feitas as contas, é menor do que a população da área metropolitana de São Paulo (só para constar: a Grande São Paulo tem 22 milhões de habitantes, enquanto Portugal tem pouco mais de dez milhões). E sabemos muito bem que a retumbante maioria dos povos dos outros países “lusófonos” não têm o português como língua materna, como língua da primeira e primordial socialização.
Em recente entrevista, o ministro da cultura de Cabo Verde, Abrahão Vicente, se exprimiu assim: “o nosso quotidiano é todo ele pensado, amado, sentido em crioulo, por mais que as instituições se esforcem. Uma das primeiras medidas do novo governo foi o ensino do português como língua segunda, no sentido exactamente de nós interiorizarmos o porquê de o ensino e a fluência do português estarem a perder terreno. Porque o crioulo domina o dia-a-dia, domina a música, domina as próprias instituições. O parlamento cabo-verdiano funciona praticamente em crioulo. Há uma força identitária”.
Ele bem que podia ter usado “cabo-verdiano” para se referir à língua de seu povo, já que o rótulo “crioulo” é uma herança do chamado “racismo científico” do século 19. Mas o importante é reconhecer que o português não é a língua mais importante na vida da população do arquipélago. E o mesmo se dá, certamente, nos demais países que têm o português como língua oficial, sim, porém não como língua presente de fato no cotidiano mais íntimo das pessoas, na constituição da identidade individual e comunitária dessas pessoas, em nações essencialmente multilíngues, em que as interações se dão entre indivíduos capazes de falar muitas línguas diferentes, menos a língua do antigo colonizador.
A ideia por acaso é de uma “lusofonia” composta só pelas elites letradas que falam português? Se for assim, não, obrigado, tenho nojo. Ainda mais porque nessa “lusofonia” entra uma ditadura hipercorrupta como a da Guiné Equatorial, onde nunca se falou português.
O que eu gostaria de deixar muito claro para todas as pessoas, daquém e dalém-mar, é que a nossa briga – minha e de vários outros linguistas brasileiros – não é com Portugal nem com os portugueses. Nossa militância tem como alvo a ideologia linguística obsoleta, irracional e cada vez mais fascistoide que domina a mentalidade de boa parte da escassa camada letrada do Brasil.
Lutamos contra as discriminações que usam a linguagem como instrumento para fortalecer aquele que é o pilar máximo da nossa formação social: o ódio de classe. E esse ódio de classe não é herança portuguesa, isso é conversa mole pra boi dormir: o ódio de classe é legitimamente nosso, fruto da nossa história marcada pela escravização, tanto quanto o pau-brasil e a mandioca.
Quando se discrimina uma pessoa pelo modo como ela fala, é a própria pessoa que é discriminada, violentada em sua identidade mais íntima, desrespeitada como ser humano e como cidadã(o).
Num país com 75% da população classificada como analfabeta funcional, exigir que todo mundo “fale certo”, isto é, segundo uma tradição normativa que é surda e cega para a realidade dos usos linguísticos do Brasil, é mais uma das muitas facetas de um projeto de “nação” que exclui a imensa maioria de seu povo, um projeto que perpetua a teoria e a prática escravagistas da nossa reduzida elite dominante.
Manter a população no analfabetismo pleno e funcional é um projeto, sim, e que se torna obscenamente mais explícito agora, em que uma quadrilha de criminosos e genocidas assaltou o poder e se esforça, entre outras desgraças, por redefinir o conceito – adivinhem do quê – do trabalho escravo. Não queiram falar de língua sem falar de sociedade: quem já tentou fazer isso se deu mal e bateu com a testa na parede de um beco escuro sem saída em noite de chuva.
Quando dizemos incansavelmente que é preciso reconhecer as características próprias do português brasileiro, aceitá-las como formas de falar dignas de valorização e de estudo sério, permitir que elas habitem o sacrossanto feudo da escrita, não estamos em momento algum nos contrapondo aos portugueses, nem nos ocorre o modo como falam ou deixam de falar.
Digo e repito: nossa briga é interna, é contra os que se valem de um conhecimento esotérico, de difícil acesso, para levantar muros simbólicos que deixem bem claro de que lado fica quem manda e de que lado quem deve obedecer.
Nem por isso deixo de apontar que, em muitos aspectos, reina na política linguística de Portugal um discurso, digamos assim, ambíguo. Fala-se de “português língua internacional”, fala-se de “lusofonia”, de “comunidade de países de língua portuguesa”, mas para ser professor(a) do Instituto Camões a criatura tem que ter cidadania portuguesa (tá lá no site), Portugal não reconhece o certificado brasileiro de proficiência linguística, e intérpretes brasileiros não são admitidos nas instituições da União Europeia.
Oxente, mas não é “uma mesma língua”? Ah, tá... deve ser por isso que os (poucos) filmes portugueses que passam no Brasil são devidamente legendados.
Mas o importante a enfatizar é, de novo e sempre, que a nossa briga é aqui dentro. Aqui, neste pesadelo em que o Brasil se transformou, uma briga que vai muito além da língua e nos convoca contra todas as formas de discriminação, exclusão, intolerância e violência que proliferam nesse pântano miasmático de dimensões continentais.
Quanto a Portugal, sinceramente, é com inveja que muitos de nós hoje olhamos para lá, onde as forças progressistas conseguiram vencer suas diferenças, chegaram ao poder democraticamente e estão levando o país por um caminho de paz social, autoestima e prosperidade. Talvez daqui a mais quinhentos anos a gente chegue lá também...
Criado em 2017-10-25 23:40:07
Sandra Crespo –
Eu coloquei “Lula da Silva” no meu nome do Facebook, mas meus amigos sabem que não sou deputada do PT, hehe. Já fui filiada ao Partido dos Trabalhadores, mas saí há uns anos. Me faltava espírito de militante, eu tinha uma preguiça danada de reuniões demoradas... idade chegando, pique se esvaindo, e ainda um bode com os rumos políticos que o PT se viu obrigado a tomar em nome da governabilidade...
Assim, decidi assumir somente causas pontuais que eu considerava importantes.
Embora minha escolha não tenha grande importância, não sou famosa nem nada, declaro que não pretendo votar no candidato do PT este ano - se houver eleições, ai ai... Votarei na esquerda, claro - mas ainda não sei em quem.
Em 2016, fiz o que pude para ajudar na campanha do Marcelo Freixo, do Psol, à prefeitura do Rio de Janeiro. Até me empolguei, por ver nele uma promessa da nova política com a qual tanto sonho - inclusão, diálogo, transparência, conscientização, olho no olho etc.
Durante esse tempo eu tentei manter certa distância do show de horrores contra Lula, até para preservar minha saúde, que ficou bastante abalada nos últimos anos. Adoeci na época em que o juiz de 1ª instância lá do interior vazou grampos ilegais, para a Globo, de conversas da presidenta da República. Sob as barbas do STF e do CNJ, a estratégia foi plenamente vitoriosa, como se viu. Com um réu, o gângster Cunha, presidindo a derrubada da presidenta constitucional! Uma estratégia que, hoje, sai de controle do STF e eviscera seus desdobramentos macabros.
Confesso que o filme de terror me apavorou demais, e eu passei a ter muito medo dessas pessoas que babam ao gritar PT ladrão e outros impropérios pelas ruas do Brasil.
Mas agora não dá mais, a tampa explodiu. Desde a morte de Marielle Franco estou profundamente triste e indignada. E na última sexta-feira, 6 de abril, o tal juiz, destilando ódio, decreta a prisão de Lula, sob a complacência covarde de autoridades judiciárias.
Abundam provas de corrupção de todos aqueles que protagonizaram o golpe contra Dilma, e todos esses mandam e desmandam no Brasil hoje. Contra Lula há um triplex que não é dele. E Lula é preso, para não disputar as eleições!
Logo Lula, cujo governo, com todos os seus defeitos e limitações, foi disparado o melhor que o Brasil já teve nos últimos 50 anos pelo menos. Não sou eu que digo isso; é o Mundo Civilizado que tira o chapéu para Lula da Silva, pelas políticas de inclusão sem precedentes em seus dois governos (2003-2010).
Porém, o juiz caipira até hoje não entendeu quem é Lula. É novinho, ainda aprende, como dizia meu pai. Nem ele nem os demais detratores do ex-presidente esperavam tamanho revés.
Pois como todo mundo sabe - o feito já é cantado em prosa e verso -, Luiz Inácio deu um olé nessa gente. Durante 34 horas seguidas, em rede nacional, na maior dignidade, Lula dirigiu o ritual de sua própria prisão, nos braços do povo. Lacrou!!!
Naquele momento exato eu senti que não estava sozinha. E comecei a me pintar para a guerra. Sem armas, apenas com uma ideia.
Pois, meu povo, o Brasil está entregue aos ratos e às baratas!
De maneira que a causa #LulaLivre tornou-se a minha grande causa, até que o Estado democrático de direito seja restabelecido no Brasil.
#LulaLivre
#MarielleVive
#Democracia
Criado em 2018-04-12 02:49:40
Zuleica Porto -
O nome da capital do Cabo Verde sempre me proporcionou devaneios. Neles, a Praia seria uma cidadezinha bucólica, com praias pequeninas e barquinhos coloridos, como na fotografia de um disco da Cesária Évora.
A Praia que encontramos não era bem a cidadezinha bucólica dos meus sonhos, mas quase. No Plateau, o centro buliçoso da capital, o tradicional mercado de frutas, legumes e comida feita na hora convive com lojinhas de artesanato, bares, restaurantes com cadeiras na calçada e rapazes que fazem câmbio de “euros e reais” pelos escudos do Cabo Verde.
Estes são inconfundíveis, com suas pochetes recheadas de cédulas. Para o eventual visitante, um alerta: no comércio, só aceitam cartões dos bancos nacionais. Nada de visa ou semelhantes para pagar as contas. É bom ter à mão uma boa quantia em moeda nacional.
A Sucupira é uma espécie de “feira de Caruaru” caboverdiana, onde senhores vindos do continente vendem lindos panos, blusas e vestidos.
A máquina de costura é uma constante; os costureiros fazem os vestidos na hora ou os ajustes necessários nos que já estão prontos. Compramos de dois irmãos muçulmanos, um deles o costureiro. Enquanto vendiam, cuidavam de suas crianças que brincavam por ali. Também à venda uma grande quantidade de roupas, sapatos, cosméticos e outras bugigangas vindas dos Estados Unidos, trazidos pela diáspora em suas idas e vindas.
Prainha bucólica encontramos na antiga capital Ribeira Grande (hoje Cidade Velha), a primeira urbe planificada dos trópicos, construída em 1460 pelos portugueses. Era o ponto de chegada e partida dos africanos escravizados e levados para as Américas. Ainda está de pé o pelourinho, muda e eloqüente testemunha dos horrores de um passado que se eterniza nas servidões contemporâneas. Da igreja onde o Padre Antonio Vieira disse seus sermões quando de passagem nas tantas viagens entre Brasil e Portugal, só restam ruínas da torre (foto abaixo). Mas a Rua de Banana, a primeira da cidade, é bonita e bem acolhedora, arborizada e cheia de...bananeiras, claro. Os moradores das casinhas restauradas oferecem hospedagem, alimentando meus planos para uma próxima viagem.

A população ali é na maioria negra, bem negra, como quase não encontramos no Brasil. E é um alento para o meu culpado coração brasileiro ver a população, com seus cabelos crespos penteados nos mais diversos estilos, hospedada nos hotéis, clientes dos restaurantes, banhistas da pequenina praia. Gostam de tomar banho todos juntos, num cantinho de mar, rindo e brincando.
Em Santiago, a ilha onde ficam a Praia e a Cidade Velha, fica também o Tarrafal, que apesar de ter uma praia simpática, é lugar de triste memória – ali foi construída a prisão salazarista para os dissidentes locais ou portugueses. Hoje o local abriga o Museu da Resistência.
Depois de quatro dias na Cidade Velha seguimos para a ilha do Fogo, rumo ao grande vulcão que lhe deu o nome. Posso dizer que São Filipe, a pequena capital da ilha, é a cidade mais catita que já visitei. Casinhas coloniais muito coloridas, uma pracinha arborizada onde assistimos a uma partida de Ori, o jogo tradicional do Cabo Verde. Tentamos aprender a jogar, mas não conseguimos entender nada, jogam rápido demais. Dessa pracinha tem-se uma vista linda para o mar e a praia de areia preta. As ruas de ladeiras que lembram Salvador são muito limpas, o que se mostrou uma constante em todos os lugares que visitamos – ausência de lixo nas ruas e praias.
No dia seguinte, depois do café com o famoso queijo de cabra, pegamos um coletivo superlotado para Chã das Caldeiras, onde se ergue o Fogo. Em cada uma das muitas paradas o motorista Adriano saudava cada passageiro que embarcava ou motorista com quem cruzava com uma alegria de dar gosto e fazer esquecer o aperto em que viajávamos umas dezoito pessoas e muitas mercadorias que ele milagrosamente conseguia acomodar. Ele disse, quando entramos no Parque Nacional do Fogo, onde fica a Chã das Caldeiras: “chegamos em outro planeta”.
Estranhamento e encanto nas duas noites que passamos naquele lugar. Os habitantes são muito altos, louros, de olhos claros, a pele branca ou morena como a nossa. Todo mundo ali é primo ou irmão, as casas não têm trancas e ninguém pega uma fruta do terreno do outro sem pedir permissão. Frutas? Pois é. Maçãs, romãs, figos, marmelos, tudo plantado na terra negra, na lava que se estende por toda parte. E muita uva, que se torna passa na própria parreira, ou da qual fabricam vinho em sistema de cooperativa. O biotipo e o cultivo da uva devem-se a um certo Duque de Montrond, que ali se instalou em finais do século XIX, teve cerca de vinte filhos e ensinou os habitantes a fabricar vinho. Morreu em 1900.
Dormimos na Casa Marisa, onde o chão é quente, pois fica sobre trinta metros da lava despejada pela erupção de 2014. Não há iluminação pública, nas casas a eletricidade é fornecida por geradores, e a água é uma preciosidade que vem da chuva ou de lugares próximos.
Nas noites sem lua impressiona o imponente vulcão iluminado por estrelas que nunca vi tão próximas nem tão brilhantes. E, acreditem ou não, faz um friozinho à noite. Durante o inverno, dizem os habitantes, a temperatura pode ser abaixo de zero.
Apesar das erupções, da escassez de água, do acesso difícil, não querem deixar aquele chão negro, suas lavouras, seu modo de vida. Preferem suas tradicionais casinhas construídas de lava negra, redondas como as ocas dos indígenas brasileiros, às casas que o governo oferece mais perto de São Felipe. A paisagem, em tons que vão do cinza ao negro, proporciona fotos inusitadas, em que vibram as cores de roupas e objetos.
De Fogo, seguimos para São Vicente e Santo Antão. Elas merecem mais espaço, então ficam para o próximo texto - parte 2.
Criado em 2017-09-27 19:10:14
Maria Lúcia Verdi –
A dor de uma mulher forte que aprisionou a dor numa caixa, com o passado lá dentro (*).
Fechado, removido. E não. Esse passado explicitado no bordado, “a anatomia da dor em observação”. Panos de limpar o chão, transformados, por delicadeza elevam nosso olhar. A elaboração da dor. Arte, a respiração com asas, e ela a fazer das dores coisas atesouradas, metamorfoseadas.
Tesouros são sempre misteriosos e a dor pode ser assim, da lagarta à borboleta.
Entro num museu que tem o nome de um assassinado, Honestino Guimarães. Lá, na sala dessa Frida Kahlo sem excessos, mais discreta, mais técnica, Suyan explicita de outro modo a dor, teórica que também é.
E lá vejo a história do amor por um país, o México, do amor por um homem e depois a história toda que é a dela, e que é nossa. Esse passado sempre presente que é o da dor nacional.
Nas molduras, panos com transparência, sutilezas de rendas, flores, ao lado de aparelhos para surdez. Moldes da limitação dela, sem escuta frente ao desvairado mundo sempre a falar.

Da série Anatomia da Dor em Observação
(Fotos: Cleber Cardoso Xavier)
Ver tudo aquilo me remete a nós, aqui, como surdos, como paraplégicos frente à dor do país, frente a dor cotidiana
sem esperança que possamos vir a andar
ainda que com bengala
que possamos ouvir
ainda que com implantes
Um país não pode se ver como imóvel
Um país nunca pode aceitar ser surdo
Nenhum país

Da série Anatomia da Dor
(Fotos: Cleber Cardoso Xavier)

Da série Anatomia do Silêncio
(Fotos: Cleber Cardoso Xavier)
____________
(*) Serviço:
Título da Exposição: A Mulher Forte Arrancou a Dor e a Aprisionou Numa Caixa (Sob a Alegação que Ela Representa o Passado)
Autora: Suyan de Mattos
Curadoria: Ralph Ghere
Montagem: Manoel O. Nascimento
Fotografias: Cleber Cardoso Xavier
Produção: Malu da Cunha
Locais: Museu Nacional da República/MUnN (Brasília) e Museu de Arte de Goiânia/MAG – Exposição pode ser vista no Instagram da artista Suyandemattos. Presencialmente, só após a liberação pelas autoridades sanitárias.
Patrocínio: Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Goiânia/GO.
Criado em 2021-05-15 21:27:05
Angélica Torres –
“O amor, ah, o amor!”, rabiscou o poeta na dedicatória e eu ecoo: ah, o amor, que se pratica no agora sempre repetido, como dura lição a fazer com a doçura e os demais sabores que o dia a dia impõe ao tempero da convivência e que se devora, lendo Nicolas Behr em Alcina, seu último livro de poemas.
Difícil aqui, no caso, é ser durona, obedecer ao figurino do exercício resenhístico e rodear a obra sem tanto entusiasmo e elogios explícitos. Ana Miranda que o diga na orelha-prefácio. Talvez, porque estejamos muito carentes de leveza e delicadeza: altas horas sob os lençóis / (trás os montes) brancas colinas/ os pés se tocam –, e porque precisemos sempre de bom humor e boas surpresas,
alto!
quem vem lá?
alcina
a real
ou a imaginária?
a real
volta!
sobretudo pela dureza que tem sido viver o clima de ódio em cartaz, na guerra posta ao nosso Brasil em ruínas.
o meu amor
por ti acabou
a indiferença domina
o descuido impera
grassa a má vontade
cada um procura
um novo amor
que tal o meu?
Talvez, ainda, porque a inteligência descomplicada, alto astral, do autor, que faz desses poemas reunidos curtas crônicas do cotidiano com pequenas grandes sutilezas, seja o principal ingrediente que falte hoje no prato do dia do presidiário virtual da rede, em meio a tanta mediocridade e baixeza circundantes.
CHEGANDO EM CASA
a pia
limpa
utopia
*
CACOS NO CAOS
te abraço tão apertado
que os pedaços meus
dentro de ti
se juntam
*
alcina
disso um dia me disse
‘ainda bem que
temos um ao outro’
pronto
outro poema
Talvez também por tudo isso junto e mais: talento e sensibilidade muito próprios, carimbados no documento confesso da Profissão: Poeta, Nicolas se imprime soberano em seus mais de trinta títulos publicados, desde a década de 1970 até agora, e na quase totalidade desses livros se mostra peregrinando, vadiando, viajando pelas ruas de Brasília e pelos arredores dos horizontes da Capital-cidade, como o seu trovador mais assíduo, mais apaixonado e leal.
Porém em Alcina, a paisagem se desloca para dentro do quarto, do banheiro, da cozinha, da horta, da casa de corpos e almas, de coração e segredos (quase revelados), de idiossincrasias e sombras, de luminescências e brincadeiras, típicos de relação de casal.
escrever poemas
para escrever um nome
jk ou niemeyer? burle marx
ou lucio costa? athos?
alcina
*
O ESPANTO
diante da beleza
das formas do teu corpo
as curvas criadas
por niemeyer
são ângulos retos
Alcina, a musa, a rainha dos contos do lar bondosa e malvada, a esposa e parceira nos ganhos dos cifrões diários e nos cifrados jogos de amor nas noites e nas madrugadas, condensados na soma, multiplicação, divisão, do exercício de seus mais de trinta anos de vida em comum.
RILKE JÁ DIZIA
Alcina é tema difícil
escreva sobre o amor.
*
alcina
não sabe amar
eu não sei
o que é o amor
o amor só atrapalha
*
alcina, vem cá,
eu não mordo
nem se eu pedir?
*
O QUE QUER ALCINA
não quer poema
quer atenção
abraço
carinho
amor
beijo
sexo
nessa ordem
*
no princípio o precipício
fenda/ rachadura/abismo
beijos trincados
outras fissuras
o verbo : alucinar
e ela, a deusa,
se fez carne
e a sua carne
me habita
Leitores e mesmo poetas criticam poemas que aparentemente soam simples, singelos (e não menos aqueles xingados de difíceis e herméticos), mas quer maior sofisticação do que saber fazer um bom poema de amor sem conjugar e rebuscar os fracassos do romantismo, a dor, cafona, sempre à espreita, com adjetivos apelativos? E quantos metapoemas, líricos, divertidos, preenchem as 75 páginas do seu livro; aqui, alguns:
agora que você dorme
te admiro
com tempo e calma
leio um longo poema
pra ti
mudo e invisível
um poema
que se escreve
com o olhar
*
não gostou
dos poemas
não se viu neles
e se eu os escrevesse
com o seu batom
no espelho do banheiro?
*
sofisticar o poema
enfeitar o poema
o amor não quer
o amor quer beijo
na boca, cama larga,
vagabundear
amor não quer
poema floreado
quer flores
*
é tudo culpa
do amor idílico,
adélia
o amor idílico
não faz ideia
do teor etílico
das letras em itálico
Assim, o poeta abre suas portas e convida o público a esta exposição de versos, que parece feita de quadros, de cenas que podiam ser de filmes, de letras que podem virar canções, e por essa mostra perpassa a coloração verde-madura de plantas nativas e flores de viveiro, que os dois cultuam na construção de suas especiarias e fortunas.
alcina-pede-pele
pele-pede-poema
poema-pede-papel
papel-pede
pé-de-árvore
tronco-que-sou
te-dispo-cascas
*
VANTAGEM
aprendi com Alcina
que casar
é deixar de sofrer sozinho
para sofrer junto
Sorte de Alcina? Sorte dele? Mas sorte nossa também. Nikolaus von Behr, o Niki, como o chamam os amigos, entre os muitos bons poetas candangos ou os já nascidos em Brasília é o mais célebre, o mais conhecido, o que equivale a ser o querido da cidade por seu público leitor de poesia, este que também ama a mal falada Capital. Porque Behr sempre a abençoa e com a carne e a ossatura dos seus versos refaz, a seu modo, o traído projeto dela, modernista, enormemente humanista, original.
SETOR ALCINA SUL
plano antigo
te namorar
coluna
da minha alvorada
teu quadril, superquadra
sol noturno
lua sempre cheia
pilotis
do meu bloco-corpo
meu eixo.
Alcina é poesia feita pra alegrar quem anda cabisbaixo e desesperançado com os malfadados tempos vividos. Fica a dica.
Criado em 2021-10-26 22:45:17
Romário Schettino -
Para dinamizar as estações do BRT do Rio de Janeiro, especialmente as da Zona Oeste, o vereador Luiz Otoni Reimont (na foto, abaixo), do PT, está defendendo que algumas delas se tornem Estações Culturais, com catraca liberada, para apresentações gratuitas de teatro, música, grafite, oficinas e performances dos próprios grupos culturais da região.

“A cultura da Zona Oeste é riquíssima. Com essas atividades tenho certeza de que não haveria depredação e o povo teria acesso à sua produção artística, tão necessária ao desenvolvimento humano de qualquer cidadão”, defende Reimont.
O primeiro BRT (Bus Rapid Transit, na versão em inglês), também conhecido como Transporte Rápido por Ônibus, foi implantado em 1974, pelo então prefeito de Curitiba, Jaime Lerner. Essa iniciativa teve repercussão mundial e o sistema é hoje considerado uma das grandes invenções urbanísticas dos últimos 50 anos.
Mas foi nos governos Lula e Dilma, por meio do financiamento do BNDES, que o Rio de Janeiro recebeu grande quantidade de recursos para a construção das linhas que servem à cidade. O BRT do Rio veio, inicialmente, para atender os grandes eventos que estavam chegando – Olimpíadas, Jogos Militares, Jornada Mundial da Juventude, Jogos Paraolímpicos, Copa do Mundo etc.
A propósito das Olimpíadas de Tóquio, é bom lembrar que o BRT do Rio é um dos legados das Olimpíadas no Brasil. Legado que foi mal aproveitado pelos governos que se sucederam.
Tanto é verdade que “assim que as pistas foram inauguradas ficaram degradadas. Nós, vereadores da bancada do Partido dos Trabalhadores, sempre fiscalizamos e denunciamos a falta de manutenção que deveria ser prioridade dos órgãos públicos responsáveis”, disse Reimont.
Máfia – O problema crônico é que a mobilidade na cidade do Rio de Janeiro foi e continua sendo um fator preocupante. O vereador Reimont, afirma que “o sistema de transporte urbano vem sendo sucateado há muitos anos e é pautado pelos empresários do setor. São inúmeros os escândalos e não se pode ignorar a existência de uma máfia no sistema de transporte do Rio. Várias CPIs já foram realizadas na Câmara dos Vereadores, cujos resultados foram parar na Justiça, mas os governos aliados dos empresários [Rio Ônibus e Fetranspor – Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio] são protegidos tanto no Legislativo quanto no Executivo carioca”.
Outra questão importante nesse ambiente são as tarifas. Os ônibus que circulam nos corredores do BRT deveriam, segundo Reimont, ter passagens mais baratas para os trabalhadores. “Eles não param em sinal de trânsito, não aceleram, gastam muito menos combustível e pneus”, argumenta.
“Recentemente, discutimos tudo isso com o prefeito Eduardo Paes. Ele prometeu fazer uma intervenção no BRT, ficou de dar atenção às nossas opiniões, mas ainda estamos esperando as providências para melhorar a mobilidade do povo trabalhador. Outra questão gravíssima, sobretudo nestes tempos de pandemia, é a superlotação dos ônibus do BRT”, conclui Reimont, na esperança de que Paes seja mais rápido nas decisões e, sobretudo, nas ações.
Criado em 2021-08-03 23:42:24
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) -
De acordo com o Datafolha, Lula cresceu desde março oito pontos na pesquisa espontânea, de 30% para 38%; viu sua rejeição cair de 37% para 33%; e parece ir consolidando perspectiva de ganhar as eleições no primeiro turno, agora com 54% dos votos válidos.
De março para cá, o Cara (”the Guy”, em inglês) fez uma jogada de mestre ao emplacar o Geraldo Chuchu Alckmin como vice, ao som da Internacional e tudo no XV Congresso do PSB; prometeu revogar a reforma trabalhista “do tempo da escravidão”; disse clara e francamente o que pensa do aborto e da guerra na Ucrânia, e por aí foi.
Certos analistas políticos, que se consideram mais brilhantes que os raios do Sol “nas bancas de revista” (Ai que preguiça!), continuam no entanto escrevendo que o Lula errou feio nessas declarações “infelizes”, “desastradas”, “inadequadas” ou “desnecessárias”.
Eu tenho opinião oposta. Acho que o Cara andou lendo o Worstward Ho do Samuel Beckett, com o famoso trecho tão citado para ilustrar atitudes de firmeza, teimosia, resistência, superação, resiliência e perseverança:
Ever tried. Ever failed.
No matter. Try again.
Fail again. Fail better.
Algo assim como:
Sempre tentou. Sempre errou.
Não importa. Tente de novo.
Erre de novo. Erre melhor.
O Lula está errando cada vez melhor, vocês também não acham, não?
Criado em 2022-05-27 16:47:52