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Luiz Martins da Silva –
Tristeza era pouco para designar o sentimento de Geralda ao saber que os patrões iriam, de novo, para o exterior e que ela, mais uma vez, ficaria por aqui, logo ela, que desejava tanto conhecer essas tais terras estrangeiras, tão interessantes e tão ricas, a julgar pelos presentes que traziam após quatro ou cinco anos que ficavam por lá e, outra vez, perguntavam se ela aceitaria, novamente, vir trabalhar com eles. Dessa vez, porém, ela foi consultada:
– Geralda, vamos ter de ficar mais uma temporada fora. Mas, estivemos pensando, você já está há tanto tempo conosco, quem sabe, desta vez, você queira ir com a gente?
– Ora, se quero, Dona Glória! Primeiro, eu não gosto de me apartar de vocês. Depois, eu não quero morrer sem conhecer uma dessas terras estrangeiras. E só indo com vocês, pois quando é que eu, sozinha, como empregada doméstica, sem saber a língua deles vou poder realizar o meu desejo de fazer uma viagem dessas?
– Pois, então, vamos providenciar tudo, seus documentos... E tem de ser logo, pois o Márcio será nomeado muito em breve, nós não lhe contamos nada, pois não era conveniente tocar no assunto antes que estivesse tudo certo. Agora, não há mais problema, ele já foi anunciado, vai ser embaixador em Praga.
– Praga? Dona Glória, pelo amor de Deus, mas isso é lugar de gente? Praga? E isto é onde?
– Não tem nada de praga, como se entende aqui. Praga é o nome da capital da República checa. É um país muito bonito, aposto como você vai gostar. Praga é considerada uma das cidades mais bonitas do mundo. E você vai gostar especialmente das igrejas, você que é tão católica, lá existem igrejas muito antigas e muito famosas.
– República checa? Piorou. É de lá que vem essa estória de banho tcheco, das pessoas que em vez de tomar banho completo ficam só no tcheco, tcheco?
– Não, Geralda! Na Europa, nos meses de frio, as pessoas, realmente, não se esbaldam em banhos longos, não. Mas, eles tomam banho, sim, mesmo nas estações geladas. E as casas têm aquecimento.
– Ainda bem. Achei que era um desses países onde eles não se lavam direito, temperam com uns perfumes e, com o tempo, vão ficando azedos de não dar nem pra alguém chegar perto, por causa do bodum.
– Ih! Acho que você não gostou muito da novidade, quem sabe, então, você fica, a gente dá baixa na carteira e, quando voltarmos, a gente chama você de volta.
– Capaz, Dona Glória! Quero ir sim. Eu estando com vocês, mantendo meu emprego, tomando o meu banho todo dia...
– Então, está combinado. Vamos começar a ver o que vamos levar nas bagagens pessoais, porque o restante você sabe, o governo providencia tudo, as passagens, a mudança...
E assim se sucedeu. Em pouco mais de um mês, o embaixador Márcio Paranhos chegava a Praga com a família e, desta vez, sem deixar para trás a Geralda, que eles já consideravam como sendo da família.
Depois de um dia inteiro de longa viagem, e com escalas pelo meio, a família estava, finalmente, na nova casa. Novo posto diplomático; novo país; nova capital; vida nova, especialmente para Geralda, para quem se abria todo um novo mundo, cheio de novidades, sobretudo depois de alguns anos, quando ela já se havia acostumado e se desembaraçado de uma série de dificuldades e descoberto novos horizontes, entre eles, um caloroso noivado com um checo, tempos depois. Houve, porém, muitas dificuldades com a língua estrangeira, mas que foram sendo superadas, claro, na medida do possível e do razoável.
O primeiro estranhamento ocorreu já na primeira noite. Após a longa e extenuante jornada, Geralda argumentou, como sempre costumava dizer, “Agora, quero tomar meu banho e descansar, também sou filha de Deus!”. E não foi diferente naquela ocasião, quando ela exclamou:
– Chega de malas! Quero descansar as pernas e ver minha novela.
Geralda foi à sala, ligou a televisão e procurou, em vão, a sua novela. Foi a sua primeira, mas não a única decepção, com a terra estrangeira. Em relação a esse imediato estranhamento, assim expressou o seu pesar:
– Mas, cadê minha novela? E que língua do cão é essa que esses diabos estão falando?
Criado em 2020-10-13 02:01:25
José Carlos Peliano (*) –
Não resisti. Tomado por uma satisfação imensa ao ter estado com dois dos maiores escritores latino-americanos por uns dias, não resisti de destilar minha leitura do livro Borges na luz de Borges, de Thiago de Mello, Editora Pontes, Campinas, 1992. Apenas 96 páginas, que equivalem a muitas informações, confissões e histórias, em conversas poéticas e filosóficas. Um adorável passeio pelos caminhos das entrevistas feitas pelo grande poeta brasileiro com o seu companheiro de letras argentino de semelhante estatura literária Jorge Luís Borges.
Na realidade uma releitura porque já o havia lido em 1993, um ano após sua publicação. O livro foi-me dado pelo próprio autor, amigo de dimensão amazônica, um inestimável presente com carinhosa e marcante dedicatória: “Para o José Carlos, poeta que me faz bem, pessoa boa, com o respeito e a ternura do Thiago, 1993”.
É desses livros que a releitura nunca é demais porque nos faz refletir de novo, ter outras interpretações, se encantar mais uma vez e sentir que a literatura latino-americana é prodigiosa e rica de autores, contos, romances e biografias. E conhecimentos pessoais que muitas vezes nos escapam não fossem entrevistas e testemunhos como esses.
O poeta e escritor argentino Jorge Luis Borges, então, com 80 anos, já cego, e Thiago com 55, no primeiro encontro e três anos após no segundo, conseguiram duas gravações em registros memoráveis, repletos de momentos de impressões e afirmações iluminadas. O que era pouco comum em se tratando de Borges, principalmente porque ele nunca teria sido muito disposto a entrevistas.
Transparece pela leitura que a boa receptividade de Borges a Thiago deveu-se, pelo menos para mim, ao fato de o brasileiro ter sido apresentado a ele por um jornalista também argentino conhecido de Borges, à desenvoltura do poeta brasileiro em conduzir as perguntas como se fizesse versos e por fim ao seu próprio conhecimento anterior da vasta obra de Borges para a realização da entrevista - até 1985, um ano antes de sua morte em 14 de junho de 1986, o argentino havia escrito 13 livros de poemas, 4 de verso e prosa, 10 de ficção, 15 ensaios literários e filosóficos e 16 obras em parceria com outros escritores.
A grandeza literária de Borges, assim considerada por boa parte de críticos e demais literatos e referendada pela quantidade de prêmios, homenagens e condecorações que recebeu em vida, fica maior ao saber de sua postura simples, discreta e modesta. Chega ao ponto de confidenciar a Thiago, “não gosto do que escrevo” (p. 23), enquanto dá mais valor a quem o traduz ao afirmar “todas as traduções sempre melhoram meus textos. Eu sou inventado pelos meus tradutores” (p.62).
O que poderia estar por trás dessa aparente contradição e transparente humildade demonstrada por Borges, Thiago consegue dele obter e transcrever à página 73 quando o argentino considera que “a arte é uma parte essencial, sobretudo a arte alheia, pois o que a gente mesmo escreve não passa de um reflexo, mais ou menos modificado, do que a gente leu”. Arremata, “o que convém é saber tratar certas metáforas eternas. Inventar mesmo, me parece muito difícil” (p. 74).
Aprofunda Borges um pouco mais e considera “que a humanidade sempre está contando as mesmas histórias, descobrindo as mesmas afinidades, com ligeiras diferenças – essas diferenças é que são preciosas” (destaques meus) ... “toda poesia corresponde a uma experiência compartida, o poeta depende do leitor”. Decorre daí que “toda palavra pressupõe uma experiência compartida” (p.74).
Para Borges a poesia “é o fato estético. Não é um poema, tampouco é tal ou qual verso. É o fato poético que se produz quando o poeta escreve, quando o leitor o lê, e sempre se produz de um modo ligeiramente diferente. A poesia é um fato misterioso, inexplicável, jamais incompreensível” (p.75).
A sabedoria de Borges tão bem captada pelos dois momentos da entrevista de Thiago, para mim, se explica pelo seu reconhecimento de que ninguém é maior ou menor que ninguém, somos todos iguais em natureza, mas diferentes em sua expressão em cada um de nós. Para que cada expressão da natureza em nós se expresse, portanto, a vida tece relações humanas, sociais, políticas e econômicas, que nos identificam habilidades, estabelecem especificidades e nos garantem subsistência enquanto pessoas, seres sociais, sujeitos de convivência e cooperadores no trabalho.
Dessa forma, a grande sacada de Borges, ao mesmo tempo sua postura humilde, receptiva e generosa diante do mundo onde viveu, foi a de se ver a si como apenas um ser humano com qualidades e defeitos, cuja expressão se dava como estudioso, escritor e poeta. O fato de não achar que escrevia bem vem da percepção que as novidades não vinham dele, porque se conhecia bem, mas do outro que tinha outra forma de expressar sua individualidade.
Mais ainda, que qualquer forma de trabalho, e adiciono ciência e tecnologia, resulta da interação social entre diversos seres humanos, trabalhadores de todos os tipos e de suas aplicações práticas de seus conhecimentos. Nada se inventa por si, somente chega-se à invenção por meio do saber acumulado por outros predecessores, mesmo que o resultado seja radicalmente oposto aos anteriores. Como Einstein com sua Lei Geral da Relatividade. Ele só pode chegar à revolução da física passando e repassando desde Newton as formulações teóricas da matéria e da energia até seu clique (eureca) final. Esta concepção compartida do conhecimento de Borges me parece ter sido sua verdadeira grandeza como intelectual e ser humano. Bravo!
Essa espécie de tessitura social entendida por Borges esbarrava com sua visão do mundo em que viveu. Segundo ele dois males existiam na época, “um, o nacionalismo. O outro as diferenças sociais”. Citou Bernard Shaw, “o capitalismo condena os homens a dois males. Os pobres são condenados à miséria. Os ricos, ao tédio e ao ócio”. Conclui, “é um mundo muito estreito este em que vivemos”, (p.84).
Considerava ser da classe média e como tal vivia no labirinto social entre ricos e pobres, aliás labirinto era uma de suas obsessões pessoais expressas em sua literatura, assim como o espelho, símbolo de enigma, e o tigre, símbolo de ferocidade e elegância. Talvez essas três figuras tenham em conjunto a exposição de sua própria vida no mundo estreito do capitalismo, onde no labirinto procurava desvendar seu enigma e, ao mesmo tempo, encontrar seu tigre na poesia ou no espelho. A cegueira trouxe-o para longe do espelho e da visão do tigre, deixando-lhe o labirinto de ser e viver.
O passado na luz do presente, Borges demonstrou ter aprendido a viver no seu labirinto. Povoou-se de recordações e imaginação. Até que Thiago traduz: “os autores que mais o ajudaram ao entendimento da vida são criaturas de sua fantasia ... tudo nasceu da pluma de sua imaginação. Borges não existe. Desconfio que ele não passa de uma invenção dele próprio”.


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(*) José Carlos Peliano é poeta, escritor e economista.
Criado em 2021-07-03 22:24:24
Roberto Amaral (*) -
A afirmação do presidente Lula de que não existem dois Brasis deve ser lida menos como análise da realidade do que como generoso e republicano projeto de reconstrução nacional ao qual dedicará seu governo, por cujo sucesso todos torcemos, porque desafiará sua conhecida capacidade conciliatória, e porá em xeque muitos dos apoios que contribuíram para a escalada eleitoral.
O fato objetivo é que estamos em face de uma sociedade dilacerada povoando diversos Brasis. A clivagem é política, tanto quanto econômica e ideológica, e a polarização que adjetiva o pleito presidencial é seu retrato presente, talvez o mais agudo, embora não encerre todo o drama. Essa clivagem, porém, não é fenômeno de nossos dias: ela apenas exacerba, pondo-os a nu, os vícios de nossa formação histórica e os crimes de nossa organização político-social, cujos sinais de esgarçamento, de velha data, nos recusamos a reconhecer. Para além dos aspectos mais clamorosos, presentes no Brasil de hoje, sua superação será obra de longo prazo na esteira da construção, coletiva, de um projeto nacional de sociedade democrática caminhando para a superação das desigualdades econômicas e sociais.
A questão imediata e crucial a considerar é a consolidação da extrema-direita, fenômeno que a todos parecia fora de cogitação. Derrotada eleitoralmente, ela sobrevive como projeto político. Agora todos parecem preocupados com os rumos da polarização, até a direita, que, associada à clássica inconsequência dos liberais, principalmente desde 2014 com a candidatura Aécio Neves, formou uma aliança com a extrema-direita tupiniquim na expectativa de destruir o projeto petista de centro-esquerda, assim repetindo o erro crasso e fatal da socialdemocracia italiana, quando apoiou Mussolini na suposição de que o fascismo impediria a emergência dos trabalhadores e dos comunistas. Quem não aprende com a História está fadado a repetir seus erros
O que sucedeu é história sabida, como conhecidas entre nós são as consequências da pregação reacionária que desaguou na ditadura militar instaurada em 1º de abril de 1964, tanto quanto o desdobramento do antipetismo palmilhando o caminho do bolsonarismo, que pela primeira vez na história republicana possibilitou a conquista do poder pela extrema-direita calcada em processo eleitoral legítimo. A liquidificação da socialdemocracia paulista e do chamado centro, e o fiasco da “terceira via”, são consequências de um mesmo fenômeno.
O curso de um processo político-social que apontava para uma experiência protofascista já ensaiada foi interrompido com a dramática vitória de Lula, que no entanto pôs de manifesto a incômoda clivagem nacional, mais ampla e mais profunda que o conflito de classes. O que será a história no curto e médio prazo dependerá do que puder ser feito nos próximos anos. A conciliação, indefinida, é reclamada como conditio sine qua non para a reconstrução nacional (econômica, política e ética), mas pouco avançará se governo, partidos e a sociedade organizada não se empenharem no enfrentamento à extrema-direita.
Nesta polarização há algo mais profundo do que sua aparência sugere, e seu significado não se esgota nos números do segundo turno. O processo eleitoral, embora muito relevante, não é o fenômeno todo, e o mais ingente é identificar a trama social que o produziu. Temos, sim, um país dividido, mas há algo mais a considerar. Os dados do segundo turno (na contundência do seu quase-empate) revelam o que não poderíamos ignorar, tantos são os sinais recentes de desarranjo: somos um país agudamente dividido, que vê desabar os mitos da história oficial, aquela escrita pelos pensadores da classe dominante: o Brasil dito cordial, generoso, acolhedor, é também o país da violência social e individual; o Brasil da “democracia racial” se descobre também racista, machista, xenófobo e assim se revelou na votação do incumbente, pervadindo todo o país, superando diferenciações regionais e de classe.
A unidade nacional (social, política e principalmente ideológica) é solapada diante de “dois brasis”: um que anseia pela democracia, e outro que opta pela ditadura; um que clama pelo futuro, e outro que se cinge ao passado; um Brasil da aposta na civilização e outro do apego à barbárie.
Somos, pois, vários Brasis, sem constituir de fato uma nação, porque somos uma formação populacional querendo ser um povo, mas divididos entre uma maioria esmagadora de pobres e muito pobres, de um lado, e de outro poucos ricos que tudo podem, porque controlam a economia e a política. É essa minoria mínima, habitante de um Brasil à parte, próprio dela, que formula as leis, que constitui o poder judiciário e aciona as forças armadas do Estado para a “manutenção da ordem”, isto é, a sustentação da sociedade fundada na exploração de classe. Este Brasil falou forte no dia 30 de outubro; felizmente foi contido, mas não está morto e estará vivíssimo na contestação ao governo Lula, contestação tanto mais implacável quanto mais o governo represente os anseios das grandes massas que o elegeram.
A polarização centro-esquerda + direita versus extrema-direita, nos termos em que se deu, redesenha o quadro político, mas não encerra, embora a magnifique, a divisão do país.
O pleito revelou a polarização eleitoral e esta deu os contornos dos diversos brasis e suas perigosas clivagens: o Brasil do Norte-Nordeste, majoritariamente pobre mas politicamente progressista, corrigindo a vontade reacionária do Sul industrializado e desenvolvido; um Brasil de camponeses sem terra e um Brasil do agronegócio exportador de commodities; o Brasil que se dilacera nas periferias, nas favelas, e no desemprego e na insegurança alimentar, e o Brasil endinheirado da Faria Lima. Um Brasil que desmata e um Brasil que planta alimentos, um Brasil que trabalha e produz e um Brasil que acumula lucros na especulação financeira. O Brasil das populações indígenas e o Brasil dos grileiros e dos garimpeiros clandestinos.
Afastou-se a ameaça imediata, representada pela possibilidade de reeleição do meliante; abriram-se as condições para a transição para um futuro governo de centro-esquerda, e o processo democrático tende a consolidar-se, se soubermos enfrentar os desafios postos. A “conciliação nacional”, cujos limites devem ser discutidos com a sociedade, não pode, uma vez mais, compreender a impunidade de criminosos. Não há “página a ser virada”, e toda iniciativa nesse sentido será recebida como uma desfeita às grandes massas que asseguraram a eleição de Lula, massas mobilizadas que serão, para além dos entendimentos de cúpula, fundamentais para a sustentação política do governo.
A história mostra, à saciedade, as consequências nefastas da conciliação como regra pétrea. O lamentável quadro da partidarização das forças armadas do Estado brasileiro, a partir da qual foi possível o projeto Bolsonaro, é resultado da conivência da República com o crime político. A própria sobrevivência do capitão como militar e político é exemplo contundente. A impunidade dos militares golpistas – que depuseram Vargas, que tentaram impedir a posse de Juscelino Kubitschek e de João Goulart e afinal nos impuseram 21 anos de uma ditadura, com um rol incontável de torturados e assassinados – é a matéria-prima a alimentar o bolsonarismo, que pede a “intervenção militar” contra a democracia.
Cabe insistir: a periculosidade da extrema-direita nativa não pode ser negligenciada. Conectada internacionalmente (com os neofascistas europeus e estadunidenses, em ascensão), ela conserva seu poder de mobilização, e sua insanidade continua sendo ouvida pela caserna; mantém bases populares e conta com o apoio majoritário e quase fanático das seitas neopentecostais; mantém-se influente no aparelho repressor em geral (polícia rodoviária, polícia federal, polícias civis e militares, milícias etc.), junto a atores do agronegócio, empresários do setor de serviços e setores da classe-média que se consideram “empreendedores”. E permanece unificada em torno de uma liderança carismática e insensata. Governa, entre outros, os maiores Estados da Federação e fez a maioria do Congresso Nacional. É adversário que não pode ser negligenciado e travará contra o governo Lula uma oposição tanto radical quanto irresponsável, porquanto não conhece limites políticos ou éticos.
De outra parte, a direita que se aliou a Lula no segundo turno já cobra seu preço, tentando impor-lhe o programa de uma “terceira via” derrotada no processo eleitoral, assim ameaçando o governo com os riscos da frustração de seu eleitorado. A Faria Lima, que já se assegurou da continuidade do presidente do Banco Central, quer mais: exige ser consultada sobre os gestores da política econômica. Na contramão dessas pressões, o governo terá que ter lado, e sua opção histórica é pelos pobres e pela soberania nacional, o que vai requerer de Lula a paciente e cuidadosa construção de uma nova frente em condições de enfrentar o quadro emergencial e ao mesmo tempo apontar para os eixos centrais da nova política, o que pode implicar alterações na arca de apoios.
A sustentação do governo dependerá em muito das articulações, campo no qual Lula tem revelado sua conhecida proficiência. Mas o presidente precisará fazer mais do que nos mandatos anteriores, muito em função do caráter de sua atual base de apoio político, desafiadoramente heterogênea. Carecerá de amplo e permanente apoio popular, dependente de sua gestão, dependente de seu diálogo com as massas e do que lhe puderem oferecer os partidos do campo progressista, desafiados a retomar o trabalho de base e a militância política, incompatível com a burocracia pública, em momento de grave recesso do movimento sindical e de crise das estruturas partidárias.
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Insolência – A mensagem do ainda ministro da Defesa, redigida no péssimo vernáculo castrense, seria só um flato, se não fosse insolência pura. Quem atribuiu aos milicos o papel de fiscais da democracia brasileira? Fosse outro o TSE, a provocação teria sido devolvida.
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(*) Com a colaboração de Pedro Amaral
Criado em 2022-11-11 23:16:55
Em meio ao debate que se estabeleceu no Distrito Federal em torno do projeto de cobrança pelo estacionamento público rotativo, o urbanista Claudio Silva, filiado à Associação Andar a Pé, escreveu as seguintes perguntas e respostas.
Esta é mais uma contribuição, dentre as inúmeras que estão circulando na internet, que pode ajudar a refletir sobre o papel da cidadania, do poder público e do meio ambiente.
Onde posso estacionar meu carro na cidade?
Existem dois tipos de estacionamento: em espaço privado e em espaço público. O primeiro é ofertado pelos proprietários de parcelas do solo e edifícios e você pode estacionar nele desde que seja convidado ou aceite as regras de acesso. O segundo é aquele ofertado pelo poder público e você pode estacionar nele desde que encontre vaga e, eventualmente, aceite as regras de acesso.
Quais seriam as regras de acesso?
Os estacionamentos em espaços privados são condicionados tanto por regulamentações do poder público quanto por regras estabelecidas pelos proprietários. Elas podem variar desde a fixação de número mínimo e máximo de vagas por edifício, em função de sua classificação de uso até o pagamento pela prestação dos serviços de guarda e vigilância.
Os estacionamentos em espaços públicos são condicionados pelas regras estabelecidas no Código de Transito Brasileiro, Lei nº 9503/1997, e nos regulamentos municipais, como a lei do sistema viário, por exemplo. Os tipos mais comuns acontecem na via pública, desde que em espaços organizados e sinalizados para tal. Entenda-se via pública como o espaço existente entre as linhas de fachadas entre um lado e outro do que se chama também de rua. Ela compreende, na maioria das vezes, espaços que não se pode estacionar, como as calçadas e as pistas de rolamento.
Eu, como cidadão, tenho direito de estacionar meu carro nos espaços privados e públicos?
No caso dos espaços privados o seu direito é condicionado pela regulamentação por parte do poder público e pelas regras de mercado. Portanto, é limitado. No caso dos espaços públicos o seu direito é condicionado ao interesse da coletividade. Portanto, também é limitado. Não existe objetivação do que poderia vir a ser mal entendido como “direito ao estacionamento”.
Eu posso estacionar meu carro em espaços privados e públicos desobedecendo a regras de acesso?
Não. Em ambos os casos você incorreria em situação de polícia. Nos espaços privados você estaria invadindo propriedade alheia e nos espaços públicos você estaria provocando disfunção na operação do trânsito e invasão de propriedade coletiva.
E se eu não encontrar vaga para meu carro em espaços públicos?
Você pode procurar vaga em estacionamentos privados mais próximos ao seu destino ou voltar para sua origem, onde provavelmente haverá uma vaga em espaço privado, e experimentar o transporte público coletivo ou o transporte ativo, como as bicicletas, ou a pé, por exemplo.
O poder público não é obrigado a ofertar vagas para meu carro em espaço público?
Não. Em relação a obrigações na mobilidade urbana, o poder público tem deveres de caráter essencial, conforme a Constituição da República Federativa do Brasil, no que diz respeito à dotação de transporte público coletivo e condições de acessibilidade para pessoas com deficiência e restrição de mobilidade.
Imagine que cada proprietário de carro na cidade tivesse garantida uma vaga em espaço público? Não haveria espaço para todos.
Meu dia é muito corrido e as funcionalidades de uso do meu carro são as melhores que eu poderia encontrar. Como iria abrir mão delas?
Com muitas pessoas usando seus carros na cidade, o que ainda é uma realidade, as funcionalidades do uso do carro estão caindo por terra. Cada vez mais se perde tempo nas viagens, cada vez mais se perde a oportunidade de desfrutar de espaços públicos e da convivência com o próximo e cada vez mais se fica suscetível ao uso de recursos não renováveis.
A não ser que não se importe com o tempo perdido no trânsito, com a cidade, com as outras pessoas e com o meio ambiente. Busque planejar suas viagens de maneira a compartilhar o uso do carro com outras pessoas e a inserir uso dos outros meios de transporte em determinados trechos.
Na minha cidade o transporte público coletivo não funciona, o que devo fazer então?
Procure entender o porquê do mau funcionamento e exerça sua cidadania fazendo a cobrança por melhorias no lugar certo, da maneira certa e com as pessoas certas. Torne pública a sua causa e participe apresentando soluções.
Eu moro longe do meu destino mais frequente e a funcionalidade do transporte ativo não me atenderia, o que devo fazer então?
Para longas distâncias o transporte público coletivo é a solução mais adequada para a maioria das pessoas. Procure informar-se da disponibilidade do serviço, frequência e possibilidade de realizar seus deslocamentos utilizando a combinação do transporte ativo com o transporte público coletivo.
Experimente, quando possível, inserir o fator “localização” como critério para escolher o imóvel onde vai morar. Essa localização tanto pode favorecer a proximidade com o seu destino mais frequente quando pode favorecer a proximidade com ponto de acesso ao transporte público coletivo.
Eu moro perto do meu destino mais frequente e a funcionalidade do transporte ativo não me atrai, o que devo fazer então?
Você provavelmente está habituado a usar o carro, como a maioria das pessoas que o fazem. Tente levar em consideração os benefícios, que não são poucos, que o uso frequente do transporte ativo trás para a sua saúde, para seu bolso e para a qualidade do espaço público da cidade que você usa. E seja determinado porque toda mudança requer certa dose de esforço pessoal.
Diante de todas as outras opções de transporte, o uso do meu carro é muito cômodo, pois sempre encontro vaga de graça em espaços públicos, sejam eles regulares ou não. Por que mudaria meu hábito?
O deslocamento em carros apresenta desvantagens para a saúde do indivíduo se comparado ao transporte ativo. É importante refletir sobre os ganhos em redução do colesterol, diminuição de risco de enfarte, benefícios às articulações e postura corporal etc. considerando a incorporação gradativa de exercícios com o hábito de andar a pé e de bicicleta. Some-se a isso a possibilidade de economia com estacionamento, combustível e manutenção do carro.
Na linha da história das sociedades, até meados do século passado, quem queria e podia usar carros saiu ganhando, recebeu incentivos de todas as ordens. Por essa razão ainda existe inércia de alguns poderes públicos constituídos para diminuir a dotação de vagas em espaços regulares e para coibir o uso de espaços irregulares como vagas. Mais recentemente diversas sociedades têm corrido na direção contrária, subordinando o uso dos carros e a dotação de estacionamentos ao uso dos demais meios de transporte e ao desfrute do espaço público como lugar de encontro.
Você mudaria seu hábito porque faz parte dessa história e porque, muito em breve, estará subordinado a um poder público alinhado ao que há de mais moderno em termos de mobilidade urbana.
Não me conformo com a possibilidade de o poder público local buscar reduzir a quantidade de estacionamentos em espaços públicos, subordinando o uso dos carros a outras possibilidades de uso da cidade, o que devo pensar?
Lembre-se de que nem toda a população possui a propriedade de um carro para usá-lo como opção de transporte cotidiano. Por isso o poder público não pode privilegiar os espaços públicos para somente a parcela da população que utiliza o carro como modo de transporte. É necessário que o poder público racionalize a utilização dos espaços públicos de maneira a organizar o trânsito, regulamentando melhor os espaços considerando seus diferentes usos (cargas e pessoas), buscando um equilíbrio entre os diferentes meios de transporte e aplicando os recursos para benefício de toda a população.
Pense em que cidade você quer para você e não se esqueça de considerar o interesse coletivo. Considere que ao usar uma vaga de estacionamento durante um dia inteiro está desperdiçando os recursos financeiros que investe no seu carro. Considere que ao usar uma vaga de estacionamento está ocupando o espaço que poderia ser usado por dez pessoas em bicicletas.
Considere que se seu carro é bonito para você, não significa que contribui para a qualidade da paisagem urbana. O que está em questão é a incompatibilidade cada vez mais reconhecida entre o carro, que é um bem privado, e a cidade que é um bem público. Para todos os fins, seu interesse particular não deve se sobrepor ao interesse dos outros.
Criado em 2020-08-02 21:15:44
Neste episódio do podcast República Popular das Letras (RPL) o jornalista Antônio Carlos Queiroz (ACQ) conversa com Jô Oliveira, um dos maiores ilustradores do Brasil.
Natural da Ilha de Itamaracá, Pernambuco, Jô estudou na Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro e na Academia Húngara de Artes Aplicadas (Magyar Iparmüvészeti Föiskola), hoje conhecida como Universidade Moholy-Nagy de Arte e Design).
Publicou seus primeiros livros e quadrinhos na Itália, nos anos 70. Desde então, tem editado e divulgado seus trabalhos, que incluem selos postais, na França, Alemanha, Espanha, Portugal, Itália, Grécia, Sérvia, Bulgária, Dinamarca, Argentina e Brasil.
Jô é um apaixonado pela cultura popular brasileira, tendo as suas referências no cordel nordestino, na xilogravura das capas dos folhetos, nos bonecos do Vitalino, no mamulengo e em outras manifestações folclóricas.
Que tal curtir e se inscrever na página da República Popular das Letras (RPL), dedicada à promoção da Cultura e ao combate do obscurantismo e do negacionismo!
Veja o podcast aqui: República Popular das Letras (RPL)
Produção: Studio 8itobits
Criado em 2022-11-08 14:37:49
A Nova Fiari (Federação Internacional de Arte Revolucionária e Independente), fundada em 2021 por artistas do Brasil, Argentina, México, Bélgica, Espanha, Suíça, Itália e França, retoma os princípios de base da Fiari que, fundada em 1938, no México, por Trotsky, Bréton e Rivera, teve uma vida efêmera na luta contra a barbárie.
A Nova Fiari, segundo seus fundadores, “busca uma aliança global de artistas independentes preocupados com a vida, a liberdade de expressão e a criação artística, a proteção das culturas indígenas ancestrais, a proteção da biosfera terrestre e a luta contra todos os tipos de controle e barreiras à arte e à cultura em geral, bem como contra todas as formas de autoritarismo e dirigismo”.
Por isso, a Nova Fiari se manifesta sobre a grave situação da guerra na Ucrânia da seguinte forma:
“A Fiari não pode ficar indiferente à grave situação que se desenrola na Ucrânia. Rejeitamos o ataque que a Rússia promove contra aquele país, desrespeitando sua soberania.
Reconhecemos que a militarização da Europa Oriental revelou os objetivos das autoridades americanas e seus satélites da Otan.
Somente a desmilitarização e a desnazificação em todo o mundo garantirão segurança duradoura para todas as nações. Por essa razão condenamos a agressão militar sofrida pela Ucrânia.
Nossa posição, como artistas revolucionários e independentes, é defender a paz mundial, com respeito à autodeterminação dos povos, para que toda a humanidade possa avançar rumo ao progresso social e à justiça social, no caminho do socialismo.
Algumas instituições culturais nos Estados Unidos e na Europa estão começando a retaliar e boicotar artistas russos que vivem e fazem arte no exterior, como se eles fossem de alguma forma responsáveis pela agressão russa contra a Ucrânia. Represálias injustas foram sofridas pelo maestro Valery Gergiev e pelos pianistas Denis Matsuev e Boris Berezovsky. Condenamos essa prática covarde e injusta e oferecemos solidariedade aos nossos colegas artistas russos que sofrem boicotes absurdos.
Não à ocupação russa da Ucrânia!”
12 de maio de 2022
Frédéric ACQUAVIVA (France)
Jorge ANTUNES (Brésil)
Josep Manuel BERENGUER (Espagne)
Gonzalo BIFFARELLA (Argentina)
Fábio BRASILEIRO (Brésil)
Carlos CANHOTO (Portugal)
Julio CATALANO (Argentine)
Pauxy GENTIL-NUNES (Brésil)
Manuel Rocha ITURBIDE (Mexique)
Dieter KAUFMANN (Autriche)
Ilia R. KHUNTSARIA (Géorgie)
Emilio MENDOZA GUARDIA (Venezuela)
Marcelo TORCATO (Brésil)
Gerson VALLE (Brésil)
Gabriel VALVERDE (Argentine)
Criado em 2022-05-15 17:51:45
Alexandre Ribondi –
Nessa temporada de vírus, que marcará para sempre o século XXI e que oferece a oportunidade de mudarmos nossa maneira de ver o mundo, a classe artística, acompanhada pelos técnicos, está passando por uma quarentena penosa. Sem trabalho, sem perspectivas de curto prazo, todos enfrentam a ameaça da inanição e da falta de dinheiro para pagar as contas.
E surgiram os editais de emergência. Algumas instituições públicas (no Distrito Federal, a Secretaria de Cultura e a Câmara Legislativa, via deputado Fábio Félix) e instituições bancárias (Banco do Brasil, Itaú) abriram as portas para receberem projetos que passarão por um conselho que, finalmente, dirá os nomes dos vencedores. E é aí que mora a perversidade travestida de ação de caráter social.
Há artistas e companhias que dispõem de equipe para preparar projetos. Há artistas e companhias que não - exatamente como em todos os outros segmentos da sociedade, há os privilegiados, mesmo na penúria. Dessa forma, as instituições e os órgãos públicos socorrerão os artistas e técnicos que forem mais bonitos, que escreverem melhor, que tiverem melhor suporte para preparar belos e impressionantes projetos. Os outros, como sempre foi, serão preteridos.
Na rede social que frequento, postei hoje, 8/4, uma pequena reflexão sobre o assunto: “Alguns órgãos públicos, e instituições privadas, lançaram editais de arte, para socorrer os artistas em tempo de peste. Louvável, aparentemente - eu mesmo estou concorrendo porque, além de precisar sobreviver, tenho, com meus sócios, um teatro para manter e pelo que zelar. Mas, desde que entrei na fila dos editais, um pensamento me perturba noite adentro e dia afora: a perversidade de acreditar que só os melhores merecem socorro. Os mais bonitos, os que escrevem melhor, os que têm equipe com coordenador de projeto, os que apresentam currículo mais polpudo - serão esses os escolhidos, como sempre. Os outros, por serem menos bonitos e menos equipados, passarão fome. Como poderão dormir os membros dos conselhos dessas instituições sabendo que estão abandonando pessoas no meio de uma paisagem sem saída? Humano, solidário e bom será não fazer seleção e destinar verba para todos, assim como não escolher quem vive e quem morre e fazer a cama para todos os que têm febre, falta de ar e tosse. Nunca nos preparamos para essa urgência do amor ao próximo, mas eis aí o momento de mudarmos o mundo”.
Apesar de alguma pessoas discordarem, e até mesmo torcerem o nariz, partindo imediatamente em defesa dos órgãos públicos que estão mostrando disposição para ajudar, é bom lembrar que, em conversa com o jornalista Romário Schettino, o secretário de Cultura do DF, Bartolomeu Rodrigues, mostrou concordar plenamente com o que escrevi. Eis o que ele diz. “Concordo totalmente. Lamento, profundamente, não existir ao meu dispor instrumento legal que me permita fazer isso”. É fácil compreender que a máquina administrativa é lenta e pesada, sempre - principalmente quando se trata de ações com efeito social imediato. Mas o próprio Secretário imagina soluções: “Algo (instrumento legal) que devia estar previsto quando da aprovação do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e/ou outros instrumentos de fomento à cultura”.
Dessa forma, é de se supor que negociações são possíveis, que a classe artística e técnica do DF pode se reunir - e se unir - para propor e exigir mudanças que nos preparem para as futuras necessidades.
Para Bartolomeu Rodrigues, “a discussão é boa e faz todo mundo pensar em mudanças, nada é para sempre”. De fato, nada é para sempre, incluindo aí nós, os artistas, que podemos, no entanto, deixar um legado eficiente para os que virão depois de nós.
Prever as necessidades e as possíveis catástrofes é algo que se aprende. Na prática e na dor da pele. Por isso, o Secretário foi bastante sensato ao dizer, para Romário Schettino, que “é aquela história: não temos terremoto, não temos furacão, não temos sequer tsunami. Nos países onde isso existe, as leis são redigidas de modo a prever essas catástrofes. Agora, nós descobrimos que temos a peste”.
Para acrescentar, não se pode esquecer ou negligenciar todos os artistas que, cada um à sua maneira, luta pela arte e pela sobrevivência. Levado pela experiência adquirida frente à Secretaria de Cultura e Economia Criativa, Bartolomeu explica que percebe “um mal-estar quando se trata de socorro aos artistas. Não me sinto totalmente à vontade ao anunciar linha de crédito. Vejo que no final teremos alguém endividado como qualquer outro, com risco de ter o nome no Serasa. No DF, a economia criativa representa mais de 3% do PIB, o que não é pouco e justifica uma atenção não diria diferenciada, pois sou contra toda e qualquer conotação que caracterize privilégio, mas ao menos merecedora de atenção”.
Para o Secretário, a primeira vítima do coronavírus foi “aquele cantor, ou cantora, que senta no banquinho de um bar para defender numa noite qualquer o seu sustento. Ele não tem condições de se endividar. Ouvi queixas de artistas circenses acampados na periferia do DF largados à própria sorte, recebendo marmitas. Eles sobrevivem de bilheterias, do chamado ´apurado´ do dia. Sem funcionar, irão viver de quê? Logo o circo, uma das atividades culturais milenares”.
E termina de maneira que não permite sorrisos ou alivio: “Solicitei dos órgãos assistencialistas do governo alguma providência, mas não pude deixar de sentir um gosto amargo de impotência”.
A secretaria de Cultura parece estar disposta a buscar soluções para a crise e sair da impotência. E os artistas e técnicos do DF que não se limitem a concorrer aos editais na esperança (que todos temos) de ser laureado, sem compromisso com os demais que foram esquecidos. Temos que sair do universo que criamos em torno de nós mesmos abraçados ao FAC e irmos à luta.
Criado em 2020-04-08 20:28:44
Marcos Bagno -
Não, você não leu errado: é “colonização pronominal” mesmo. Vou tratar aqui da velhíssima questão da colocação pronominal, mas numa visão diferente da habitual: além de linguística, também e principalmente ideológica. Faz quase duzentos anos que se discute essa questão no Brasil. Alguém já disse que nenhum outro tema gramatical fez derramar tanta tinta. Mas por que tem sido assim?
A resposta é muito simples: somos uma sociedade que até hoje não se livrou de seu passado colonial. Nem podia ser diferente, já que a nossa “independência” foi proclamada por ninguém menos do que o representante da Coroa portuguesa no Brasil, alguém que mais cedo ou mais tarde ia herdar de qualquer modo a coroa e todo o gigantesco império que vinha junto no pacote. Tudo o que D. Pedro fez foi acelerar o processo.
Ao contrário das outras colônias ibéricas no continente americano, o Brasil foi o único Estado recém-criado no período que se tornou uma monarquia, e uma monarquia absolutista, enquanto todos os outros se tornaram repúblicas, dominadas pelas oligarquias locais, é verdade, mas ainda assim uma novidade política para a época. Isso diz muito sobre o que tem sido a vida por aqui.
A falta de ruptura efetiva com o passado colonial se evidencia até hoje em todos os mínimos aspectos das nossas relações sociais, a começar pelos comportamentos escravagistas das nossas classes médias e altas, responsáveis por manter o Brasil no alto da lista dos países com as maiores desigualdades de renda do mundo, junto com uma exclusão social cuidadosamente mantida para assegurar o máximo de privilégios a uma minoria branca que se enfurece à mais remota menção de uma redistribuição mínima dos bens sociais.
Pois a mentalidade colonizada também opera na nossa cultura linguística. E o melhor exemplo disso é a famigerada colocação pronominal. As descrições do emprego dos pronomes oblíquos que a gente encontra nas gramáticas de inglês, italiano, francês, espanhol e português europeu correspondem aos usos reais da ampla maioria das populações que falam essas línguas.
Só no Brasil, e não por acaso, é que aquilo que vem nas gramáticas não corresponde em absolutissimamente nada do que realmente se fala por aqui. Somos o único povo que precisa “aprender” a colocar seus pronomes no lugar “certo”.
Nossos gramáticos mais conhecidos são nada mais nada menos do que mentirosos. Mentirosos, sim, embusteiros, farsantes, fraudulentos, hipócritas, impostores, loroteiros, ludibriadores. Basta abrir, por exemplo, a gramática de Rocha Lima. O que aparece lá? Isto: “A posição normal dos pronomes átonos é depois do verbo (ênclise)”.
Normal para quem, cara-pálida? Mentira! Mentira também o que aparece na gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra: “Sendo o pronome átono objeto direto ou indireto do verbo, a posição lógica, normal, é a ênclise”. Se isso é lógica, eu sou o rei da França, e olha que a França nem rei tem!
Essas afirmações dos gramáticos são o que estou chamando aqui de “colonização pronominal”. Elas tentam enfiar o português brasileiro na fôrma estreita de uma “língua portuguesa” abstrata, genérica, uniforme, um modelo idealizado, artificial, baseado numa seleção restrita de usos feitos pelas classes sociais mais letradas de uma região específica de Portugal, em cujo centro está, não por acaso, a capital, Lisboa.
Na língua falada por essa fração da população de Portugal, a ênclise é, realmente, a colocação “normal” dos pronomes oblíquos. Mas nem sempre foi assim.
Durante muitos séculos, antes e depois que os portugueses começaram a invadir outras terras e a escravizar outros povos, foi a próclise (o pronome antes do verbo) que dominou a língua falada e escrita. A partir do final do século 16, porém, o português europeu começou a sofrer diversas mudanças em sua estrutura, e essas mudanças acarretaram a transformação da ênclise (o pronome depois do verbo) na colocação preferencial, “normal” da língua dos portugueses. Essas mudanças não afetaram o português brasileiro. A nossa língua também mudou muito de 1500 para cá, mas as mudanças aqui seguiram rumos diferentes das de lá.
É aí que entra a colonização pronominal. Nossa cultura linguística tem sido profundamente marcada por uma rejeição categórica de tudo o que é caracteristicamente nosso em termos de uso da língua. Mudanças já plenamente enraizadas no português brasileiro, inclusive o uso das camadas sociais privilegiadas, mudanças que podem ser tranquilamente explicadas por boas teorias linguísticas, continuam a ser consideradas como puros e simples “erros”, pelo fato de que não é assim que os portugueses de Lisboa e Coimbra falam.
Os linguistas brasileiros já provaram, comprovaram e recomprovaram que só existe uma regra de colocação pronominal na nossa língua: a próclise ao verbo principal. Isso nos leva a iniciar frase com pronome oblíquo, exatamente como fazem os falantes de espanhol e italiano: “Me→esqueci de apagar a luz”. Nos leva também, em locuções verbais, a deixar o pronome sempre antes do verbo principal: “Quero te→abraçar”, “ele tinha se→comprometido a vir”, “eu ia lhe→telefonar” etc. Uma única regra, uma só, uminha. Que não precisa ser ensinada porque todo mundo fala assim no Brasil.
Mas a mentalidade colonizada dos nossos mais respeitados gramáticos impede que eles se rendam à verdade nua e crua dos usos autênticos do português brasileiro. E toca a fazer prescrições que contrariam frontalmente a intuição linguística de qualquer criancinha brasileira de quatro anos de idade.
O resultado da colonização gramatical, junto com um dos piores sistemas educacionais do universo conhecido e desconhecido, é a doentia insegurança linguística que tantas pessoas experimentam na hora de escrever (e de falar em situações mais formais).
Como nosso uso espontâneo, lógico e natural é a próclise, então ela deve ser um “erro”, já que todos os usos espontâneos, lógicos e naturais do português brasileiro são “desvios” de uma “norma culta” mítica e inalcançável, que só os portugueses dominam.
E aí topamos com coisas que contrariam tanto o uso normal quanto as prescrições tradicionais. Coisas como “tenho encontrado-a”, com ênclise ao particípio passado, algo que não existe em nenhum lugar do mundo onde se fala português. Ou “encontrarei-me”, idem ibidem. Ou ênclise depois de palavras negativas “não conheço-a”, “nunca explicou-me”, que são exemplos perfeitos de hipercorreção, a tentativa de “acertar” demais que acaba redundando em erro puro e simples.
A colonização pronominal é um reflexo, nos usos da língua, das enfermidades crônicas da sociedade brasileira. Uma sociedade brasileira que, neste exato momento, é comandada por uma penca de senhores brancos que representam o que existe de mais torpe, abjeto, criminoso, corrupto, reacionário, genocida e retrógrado na vida nacional. E, chefiando a máfia, um energúmeno e pusilânime fantoche que, para deleite da classe média burra, se esmera no uso da mesóclise, uma colocação pronominal que cheira a formol, como também cheira o morto-vivo que se vale dela.
Criado em 2017-09-12 18:55:17
Sandra Crespo -
Ana Clara, Juan Pablo, Cecília, Luiz Davi, Renan, Yasmin, Ruan Miguel:
que nomes bonitos vocês têm.
Tão sonoros quanto as brincadeiras que vocês faziam,
agora suspensas na fumaça tóxica.
Nada restou depois disso, além do grito dos seus lindos nomes.
Num mundo onde não cabe mais a doçura dos seus sete nomes,
nem a alegria dos seus quatro anos.
Criado em 2017-10-07 02:51:29
Zuleica Porto -
“Na capital federal, o arrivismo é sôfrego e incontido, cada um por si e os sucessivos governos republicanos a favor dos privilegiados. Distribuem-se à farta nomeações, indenizações, concessões, garantias, subvenções, favores e proteções. Ao se iluminar a generosidade do governo nacional, aclara-se a sofreguidão do luxo, do desperdício, da ostentação e do triunfo republicano. Não há amanhãs, há o já e já. É tempo de cavação”.
Retirei a citação acima do livro Machado – romance, de Silviano Santiago, publicado pela Companhia das Letras em 2016.
Os governos republicanos a que se refere o autor eram os primeiros da república, e a capital federal, o Rio de Janeiro. O bruxo africano do título é ele mesmo, nosso maior escritor, em seus últimos anos de vida.
Era então o Rio do “bota abaixo” do prefeito Pereira Passos, que demolia os casarões coloniais do Centro para rasgar no espaço vazio a moderna Avenida Central, hoje Rio Branco.
Os antigos moradores, desalojados mediante uma notificação da prefeitura, constroem suas casinhas, com o lixo das demolições, nas encostas dos morros, da Providência ou da Favela.
Os telhados, de zinco ou de folhas de lata de querosene, ainda são os mesmos por volta de 1937, quando Orestes Barbosa e Silvio Caldas compõem “Chão de estrelas”: “a porta do barraco era sem trinco / e a lua furando nosso zinco / salpicava de estrelas nosso chão”, dizem os versos revisitados com ironia machadiana pelos Mutantes em 1970.
Hoje, serão de plástico, de papelão, do que a imaginação encontra nos lixos cotidianos.
É entre ruínas e novas construções que transita o velho Machado, já viúvo de Carolina e protagonista do romance. Santiago se coloca como autor e personagem, companheiro de caminhada do famoso escritor.
As cartas que embasam a narrativa são as escritas e recebidas no período 1905-1908 (Correspondência de Machado de Assis,Tomo V, ABL).
Nascido 28 anos depois da morte do morador do chalé do Cosme Velho, 18 (que também já foi demolido), Silviano, enquanto faz ficção, tece considerações críticas à obra machadiana, desde os poemas “medíocres” de Falenas (avaliação de Santiago) até o último romance, o irretocável Memorial de Aires.
Mas não segue a ordem cronológica das publicações, convida o leitor a acompanhá-lo nas digressões, nas caminhadas pelas ruas da cidade de São Sebastião dos primeiros anos do século XX, lado a lado com o velho escritor.
Sofrendo de ataques de epilepsia que se tornam frequentes com a morte de Carolina, gago, com feridas na boca que lhe causam mau hálito, é pelo olhar, segundo Santiago de “olhos derreados, mansos e meigos de mulato carioca, nascido no morro”, que transparece o seu “afeto à humanidade, sentimento indiscriminado e superior que tapa a boca do mais atrevido e insolente dos opositores, obrigando-o, quando em presença do escritor, ao cultivo de compreensão, tolerância e respeito”.
Quem sabe esse afeto seja o motor que o leve a registrar, com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia” de Brás Cubas, as mazelas da sociedade em que vive. Em que vivemos, pois nossas contradições, nossa violência, nossa crueldade atravessaram o século XX e chegam, intactas, aos dias deste novo século.
Detenho-me em um episódio referente à Abolição, contado no Memorial de Aires.
O Conselheiro Aires, personagem e voz narrativa do romance, comenta em seu diário a “grande novidade”: o Barão de Santa-Pia, pai da viúva Fidélia, vem à Corte consultar o irmão desembargador sobre a alforria coletiva e imediata dos escravos da fazenda Santa Pia.
Quando é questionado sobre a estranha decisão, já que era contra a abolição, diz o dono dos escravos: “Quero deixar provado que julgo o ato do governo uma espoliação, por intervir no exercício de um direito que só pertence ao proprietário, e do qual uso com perda minha, porque assim o quero e posso”.
Perda apenas aparente, pois Santa-Pia acrescenta: “Estou certo de que poucos deixarão a fazenda; a maior parte dos homens livres ficará comigo, ganhando o salário que eu lhes marcar, e alguns até sem nada – pelo gosto de morrer onde nasceram”.
O nome Santa-Pia esconde o verdadeiro autor da esperta “alforria voluntária”, o Barão de São Clemente, proprietário original da mansão onde viveu depois o Dr. Miguel Couto, clínico famoso que cuidou de Carolina e depois de Machado.
A atual demolição dos direitos trabalhistas e todos os desmandos cometidos contra a gente que trabalha me trouxe à lembrança o dito popular: “Tudo como antes, no quartel de Abrantes”.
E não é que a mansão de São Clemente ficava na rua Marquês de Abrantes?
Tenho que parar por aqui, mas há muito ainda a dizer desse romance multifacetado, que nos faz ver Machado como através das lentes de um caleidoscópio: Flaubert, também epiléptico, a amizade paternal com Mário de Alencar, filho biológico de José e sofredor dos mesmos ataques dos dois grandes escritores, as escadas suntuosas do Palácio da Liberdade em Belo Horizonte, o individualismo e a fatuidade dos novos-ricos e seus banquetes.
A propósito destes últimos, não poderia deixar de citar o artigo de Olavo Bilac (assinado como Fantasio, revista Kosmos, 1906) que termina espantosamente atual:
“São banquetes fartos, magníficos, em que se gasta dinheiro a rodo; e isso não se admira, porque neles é sempre o povo quem paga o pato...ou o peru”.
Criado em 2017-07-23 23:34:55
Maria Lúcia Verdi –
Graças à sugestão de Marcus Mello, amigo que fiz recentemente no grupo Leituras para depois do fim do mundo, criado por Denilson Lopes, assisti ontem à noite ao filme Esse amor que nos consome, dirigido por Allan Ribeiro (*). Queria ver algo distinto, não sabia bem o quê, mas confiei no critério do Marcus, da equipe da Cinemateca Capitólio, da Secretaria Municipal de Cultura, de Porto Alegre. Nesses tempos em que tudo está concentrado sobre um único, urgente e inevitável tema, busco alento, como tantos, no desfrute da leitura e do cinema.
Ter entrado, pela primeira vez, em um grupo de leitura foi surpreendente. Conversar sobre grandes romances – esta semana terminaremos o notável, extra-ordinário O homem sem qualidades, de Robert Musil – num momento em que as emoções de todos estão à flor da pele, tem sido prazeroso e quase terapêutico. Recomendo a experiência, bem como o romance, um retrato do decadente império austro-húngaro, a partir de personagens que, em 1913, preparam uma grande Ação Paralela (patriótica), que nunca acontecerá. É um romance de ideias, por longos momentos absolutamente ensaístico.
Esse amor que nos consome é um documentário sobre o mais antigo grupo afro-brasileiro de dança contemporânea, sediado na Lapa, dirigida por Rubens Barbot e pelo argentino Gatto Larsen, companheiro de Rubens há quarenta anos. Como tantos dos filmes híbridos de hoje, é também um exercício estético, além de registrar o que ocorre com os protagonistas, que são personas que representam a si próprios. No filme e, imagino, na realidade, Barbot e Larsen estão tentando continuar a viver e trabalhar na velha casa decadente (e emprestada) onde a companhia desenvolve seus trabalhos. É uma luta - luta também feita no astral, ajudados que são Barbot e Larsen por seus orixás e apoiados no fato de a mãe de santo de Larsen ter visto, nos búzios, que a casa continuaria a poder ser utilizada por eles – contra as leis da sociedade, no caso a de um banal proprietário que deseja o melhor preço por seu imóvel. Resistir confiando em Iansã e Exu, que aparece no filme em alguns momentos. Talvez estejam resistindo desse modo muitos dos que vemos por aí atirados em todas as ruas de todas as cidades, todos os estados, todas as regiões deste país.
O amor que os consome não é o romântico que à primeira vista imaginamos, trata-se do amor à dança. Fundados nesse amor, eles sonham uma variedade de espetáculos, desde Otelo a um outro, do qual nada se fala e que tem o título do filme - o filme se faz, o que é o melhor modo de falar.
Querer resistir naquela Casa é querer fazer sobreviver um desejo, um projeto, compartilhado por uma comunidade de artistas espontâneos, pertencentes à camada excluída da sociedade. Há uma cena em que Barbot conversa com um amigo morador de rua a quem promete duas entradas para uma próxima apresentação - bêbado, miserável ele demanda a experiência de ver a dança. Salve essa arte praticada sem lucro, sem mecenas, esses artistas (e técnicos) que estão tentando resistir durante a pandemia, nem se imagina como.
A companhia reúne dançarinos pobres, a maioria negra (como Barbot), todos dotados dessa força vital e dessa graça única que dançarinos brasileiros têm, que excedem a simples técnica. Larsen diz, em off, belos textos que pontuam o filme em distintos momentos, textos que imagino escritos por ele, que fala um português impecável. Textos que acompanham imagens do centro do Rio e colocam reflexões poéticas sobre a cidade e o dia a dia de seus habitantes.
Gatto e Babot são um casal. Me emocionou ver assim, um casal, um duo de seres semelhantes e distintos que construíram uma vida juntos e formaram uma companhia. O que os move é o companheirismo – tão distante do amor romântico -, a criação, a sensibilidade para o belo. Para os que têm tanta dificuldade de aceitar o amor entre pessoas do mesmo sexo, o filme é mesmo didático. Em todo o filme não há uma cena de sexo ou de erotismo entre eles, apenas a sombra levíssima de um erotismo velado, discreto, intuído. Paira, no entanto, na cumplicidade entre os dois – como no take em que Babot expressa seu desejo de comer risoto de camarão e Gatto acede, dizendo que também precisam de flores na Casa.
As cenas de dança do filme são o ponto alto dessa história real e imaginária. Real porque é um documento de luta, o retrato de seres concretos que acreditam no caminhar, no seguir, no resistir pacificamente; imaginária porque talvez não haja orixá que resista à força do capital. A cena da dança entre Otelo e Desdêmona, em frente ao mar, é apenas deslumbrante; a cena da dança entre os rapazes da noite da pobre Lapa é dura e tocante; a cena de dança final, protagonizada por Babot que a “improvisa” ao ouvir uma música que o companheiro coloca, é de uma sensibilidade a toda prova: fala da relação dos dois, da sutil parceria.
Lendo a crítica sobre o filme publicada no AdoroCinema me surpreendeu a frase: “O grande problema do filme é justamente a indecisão sobre o que pretende ser.” Acho que um dos méritos do filme é não pretender ser algo definido, estipulado. É um registro delicado sobre a vivência de dois seres peculiares e seus alunos, além de ser uma declaração de amor à dança e ao amor em si.
Na cena final, após um ensaio dos alunos ao som de percussão, Bardot pede ajuda para colocar na janela o pano sobre o qual se moviam os dançarinos, a fim de tomar sol e ar. Querer exterminar o cheiro de mofo do que então vemos ser um enorme tapete, construído pela reunião de vários tapetes pequenos, é pura poesia. O filme termina com o tapete dependurado na velha casa, cobrindo a placa de Vende-se e, à esquerda, Exú fumando pensativo e protetor.
Pensei no Brasil, em toda essa gente que produz o que nos alimenta a alma e a inteligência. Pensei nos dirigentes atuais que tudo querem vender, entregar, sem consideração com nosso patrimônio material e imaterial. Pensei nesse horror que ameaça nos consumir e resolvi escrever esta matéria, parabenizando Allan por este filme que mostra a indecisão. O que não queremos são as decisões arbitrárias, autoritárias, irresponsáveis, negligentes.
Quão diversa seria a realidade se o mandatário e seus asseclas tivessem exercido, ao longo da vida a dúvida sobre as grandes questões da existência, tivessem se deixado tocar pelo sentimento, tivessem se acercado a algum tipo de amor verdadeiro pelo país, nada a ver com símbolos falsamente sobre utilizados.
___________
(*) Esse Amor que Nos Consome recebeu dois troféus Candango no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 2012: Direção de arte e edição.
Atenção: Este filme, de 80 minutos, pode ser visto aqui, on-line e gratuito, até o dia 30 de abril.
Criado em 2021-04-26 19:14:54
Angélica Torres –
Que deprimência sermos obrigados a ficar em volta do arruaceiro oficial e de sua horda bárbara, ouvindo as patéticas ameaças, a mídia inteira comentando cada arroto, cada bravata, cada barbaridade, cada maluquice, cada burrice que ele(s) fala(m) ou comete(m), minuto após minuto.
Não digo da miséria de espírito dos seus seguidores – uma parcela constituída de imbecis e a outra também – , mas da tragédia da população consciente, a banda boa do nosso povo, tendo que viver aos sobressaltos, aparvalhada, assaltada a mãos armadas, amedrontada, perdida no cenário, tanto quanto todos os que parecem entender do riscado um pouco mais que a média.
Ficar, portanto, em casa, em vez de estar com a resistência em dia de manifestação, como esta do 7 de setembro, também tem seu valor, para se ter uma visão geral, em tempo real, diante das TVs independentes e das oligopólicas, das notícias das redes e das particulares, estas que compartilham os amigos nos protestos de ruas das capitais.

Duro, mas duríssimo mesmo, nesse panorama, é flagrar a realidade da falta de argumentos sólidos nas análises dos fatos da hora, pela imprensa em geral. E parece até compreensível, por um lado.
Perante a demência do mercenário-mor, que conta com o apoio de estrategistas e suas táticas já testadas noutros países, não é facilzinho achar caminhos novos ou atalhos que abortem a ressurreição fascista. Mas devia ser.
Devíamos ter na nossa massa crítica pensadores ativos o tempo todo, ininterruptamente dedicados a essa tarefa, de encontrar os meios de saída nos impasses históricos, em vez de só andarem em círculos dissertando sobre o óbvio e se (nos) angustiando com especulações às vésperas de acintes como o anunciado 7 dos bárbaros da hora.

Ficamos inconformados com atitudes coniventes e covardes de governadores (como o do DF) e de parlamentares com poderes de decisão (precisa dar nomes?); dos togados e dos policiais (precisa explicar suas posições na trajetória desde 2015?); dos militares contrários à situação (existem, de fato?) e dos donos da mídia golpista com seus fiéis escudeiros (muitos destes agora tentando se postar como democratas!); dos ogros do agronegócio e da burguesia em geral (que também atravessam com suas mentes e línguas envenenadas alguns membros das nossas famílias, para o nosso absoluto espanto!).
Mas de que adiantam o inconformismo e a falta de comando, ou a letargia que nos leva para protestos nas ruas com longos espaços de tempo entre uma e outra manifestação? Sabe-se, por criadores do caos mundial atual, como Gene Sharp, que a principal tática, entre as mais de cem criadas somente por ele e os colaboradores de seu _think tank_, é que não se pode sair da rua.
Para se ganhar a guerra, é lição deles próprios permanecer direto, diária e noturnamente, nas ruas, com revezamentos intermitentes da militância organizados pelas lideranças, em vez de esperarmos a salvação desses que nos deveriam, por dever e obrigação – os poderosos das instituições ditas democráticas do País.
Ao mesmo tempo, é de se refletir que a banda boa e guerreira da população brasileira é tão avançada, tão civilizada para a banda podre do País e mesmo para os militantes furiosos do Mundo que se crê o Primeiro, que, estes, sem os degraus, sem os meios, não têm como alcançar e compreender o nível da proposta do nosso projeto existencial pacífico de convivência humana.
Nossos protestos são feitos com música, performances, poesia, fantasias, estandartes e cartazes com recados inteligentes e bem humorados, rituais e sketchs teatrais; nossa militância carnavalesca tem o samba no pé, a alegria debochada, a piada, a descontração e uma fé inadjetivável que a cultura negra e a indígena nos legaram. Gringos que nos assistem ficam de queixo caído. Os odiosos ficam se mordendo de inveja da alta e esfuziante energia que emanamos. É um mistério gozozo que não alcançam, porque lhes faltam essa graça natural, essa bênção, que o brasileiro traz no sangue.

Daí que temos muito o que trabalhar, ao nosso modo, a nossa saída desse curral em que nos aprisionaram de corpo e alma. Nossa imensa riqueza de solo, nossa diversa, múltipla, admirável cultura, nossos brilhantes intelectuais e artistas, nossos mestres e doutores, nossos analistas, enfim, as nossas esquerdas, podem sim retomar o leme da mão dos arruaceiros que têm destruído o Brasil e que sujaram o 7, com sua grosseria patológica. De sociopatas.
Temos que nos esforçar mais, com mais vontade, convicção e autoconfiança, e voltar a arrumar a Casa e pintar o 7 com o verde-amarelo que é NOSSO e com todas as demais cores a que temos direito. Sem mais tempo a perder.
Criado em 2021-09-07 20:15:24
Romário Schettino –
Brasília acordou nesta quarta-feira com a triste notícia da morte da cineasta Tânia Quaresma, ocorrida na noite de ontem (6/7), após sofrer uma parada cardíaca. A jornalista Maria do Rosário Caetano registrou em sua página no Facebook que a fotógrafa e diretora de cinema realizou muitos documentários, sendo o mais famoso deles Nordeste: Cordel, Repente, Canção, de 1975 (veja o filme aqui).
Sobre este documentário Maria do Rosário lembra que Werner Herzog “teria assistido ao filme e se encantara. E que por causa dele tivera a ideia de realizar, em 1987, o filme Cobra Verde”. O lançamento comercial deste documentário teve grande repercussão.
Tânia fez também Trindade: Curto Caminho Longo (1979), e Nísia, Paulo e Josué: Oficina de Memória (2008).
Mineira, nascida em Belo Horizonte, Tânia radicou-se em Brasília em 1983, onde criou o projeto cinematográfico administrado pela Fundação Bem Te Vi. A artista mineira faz parte da história cultural de Brasília e deixou um legado de longas-metragens e séries documentais para tevê. Tânia deixa um filho, Alexandre Quaresma, que também trabalha na produção cinematográfica.
Em depoimento realizado ao Projeto Memória & Invenção, Tânia disse: “Eu estava feliz: Brasília tinha me recebido de asas abertas. Achei então que já era hora de ter uma base fixa, um ponto permanente para pouso e decolagem. Percebi que meu sonho com Brasília era mais que um filme: ele me indicava um projeto de vida. Acreditei nele e vivo essa realidade, desde então”.
Tânia começou a trabalhar aos 16 anos como fotógrafa. Atuou na redação da Folha de S. Paulo, onde registrou o movimento estudantil contra a ditadura militar nos anos 1960. Como cinegrafista, esteve no Jornal Nacional, da TV Globo, e fez uma especialização numa tevê alemã.
A Secretaria de Cultura do DF lamentou a morte da cineasta. Recentemente, Tânia buscou a Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec) para discutir a possibilidade de doar o seu acervo televisivo. Sobre essa tratativa, o secretario Bartolomeu Rodrigues disse que foi procurado pela cineasta: “Ela estava muito entusiasmada com a ideia de disponibilizar tudo o que documentou para a sociedade brasiliense. Sua morte é uma perda sem tamanho, pela sua sensibilidade e pelo olhar humano para Brasília e sua população”.
Todos os programas realizados por Tânia que foram ao ar abordavam a história da construção de Brasília, sob o ponto de vista dos operários.
Muitos artistas e produtores culturais de Brasília lamentaram a morte da cineasta. A seguir alguns depoimentos colhidos na rede social:
Cuca, atriz: “Que tristeza, Tânia tinha um trabalho lindo, batalhadora incansável. Trabalhamos juntas no final dos 80”.
Alexandre Ribondi, ator e diretor de teatro: “Uma sonhadora que quis futucar a onça Brasília com a vara curta. Conseguiu por algum tempo e foi divertido e criativo ter estado com ela no projeto Bem Te Vi. Tomara que ela arrume uma boa turma por lá e mande ver.”
Rita Andrade, ativista cultural: “Tânia foi uma mulher excepcional, uma artista aguerrida, uma inspiração que siga na luz e paz.”
Dioclécio Luz, jornalista: “Depois de muito tempo vou ver novamente o documentário da Tânia Quaresma – Nordeste: Cordel, Repente Canção. Esse filme valoriza a região e diz de outro modo o que já dizia Guimarães Rosa: ´o sertão é dentro da gente´. Ela sacou isso e mostrou pra gente ao seu modo: telúrico e cósmico.”
Rênio Quintas, músico: “Entrou para a galeria das imortais! Grande mulher, grande ser humano! Voa Tânia querida!”
Zuleica Porto, diretora de cinema: “Que tristeza... fazia muito tempo que não a via. Vá em paz, Tânia guerreira.”
A seguir, depoimento comovido do cineasta André Luis Oiveira sobre a amiga Tânia Quaresma:
“Hoje é um dos dias mais tristes para o cinema brasileiro, para o cinema de Brasília, para os que a conheceram e para mim pessoalmente. Ontem à noite perdemos Tânia Quaresma! Pessoa luminosa, cineasta excepcional, amiga muito querida! Foi ela quem me fez fixar residência em Brasília em 1991. Foi ela quem filmou a história de Brasília em capítulos: Feira do Sonho, foi ela quem dedicou anos de vida a filmar os pobres e excluídos fazendo oficinas e sempre ajudando os seus retratados Meninos de Rua, Catadores de Sonhos e outros.
Foi ela quem revelou Alceu Valença e Zé Ramalho no maravilhoso e inesquecível longa doc Nordeste, Repente, Canção. Enfim, Tânia Quaresma foi uma mulher guerreira e cineasta de luz própria tanto na vida, quanto na arte e vice versa. Mas, além da bondade radical e da capacidade excessiva de doação a quem estivesse em situação de risco e necessidade, tinha algo nela que extrapolava a própria arte/vida: o desejo de iluminação! Sim, i-lu-mi-na-ção! Trinta anos de prática de Zazen lhe conferia esse direito de almejar e Ser o que quisesse, e isso ela queria. Sua partida foi, de fato, uma libertação adquirida e construída em vida como um direito à Luz que sempre desejou. Siga em paz, querida Tânia, viva, em nossos corações.”
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Morre em Brasília Cláudio Todorov, ex-reitor da UnB
Morreu, na madrugada desta quarta-feira (7/7), devido a complicações de uma doença pulmonar crônica, o ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB) João Cláudio Todorov.
Natural de Santo Anastácio (SP), o ex-reitor nasceu em 8 de junho de 1941. Em 1962, concluiu o bacharelado em psicologia na Universidade de São Paulo (USP) e, no ano seguinte, a licenciatura. Tornou-se doutor em psicologia pela Arizona State University (ASU – Arizona, EUA), em 1969.
Entre 1974 e 2000, foi professor da Universidade de Brasília. De 1975 a 1976, dirigiu e administrou o Instituto de Psicologia da UnB. Lecionou, em 1977, na Universidade Nacional Autônoma do México no curso de pós-graduação em psicologia.
O mandato de Todorov à frente da UnB marcou a abertura da instituição no período noturno – o que possibilitou acesso de novos estratos da sociedade ao nível superior na universidade pública.
Também durante a gestão dele, em 1995, foi lançado o Programa de Avaliação Seriada (PAS), desenvolvido em conjunto com representantes de escolas locais, governo local e representantes de professores.
Entre outros feitos, Todorov também foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Psicologia e precursor do ensino personalizado de psicologia na UnB, ao lado de outros professores. Atuou em periódicos científicos e tornou-se referência em análise do comportamento.
Criado em 2021-07-07 18:25:04
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) -
Acabo de saber que as autoridades do Mundo Livre estão escalando as sanções contra os russos com o objetivo de forçar a retirada das tropas do Putin do território da Ucrânia. Alvos da vez incluem os iates dos magnatas de Moscou, que estão sendo apreendidos ou afundados – os iates, não os magnatas. Também estão na mira os agentes do soft power da Federação Russa.
Na quarta-feira, 2 de março, a agência italiana de notícias ANSA informou que a Universidade de Milão-Bicocca cancelou um curso sobre o cidadão russo Fiodor Dostoievsky, muito atuante no possante ramo literário daquele país. Na sequência, o Teatro Govi, de Gênova, cancelou um festival de música e literatura programado para homenagear o escritor, e o prefeito de Florença, Dario Nardella, disse ter recebido vários pedidos para derrubar uma estátua desse tal Dostoievsky, inaugurada em dezembro do ano passado.
Num grande esforço de reportagem, conseguimos gravar clandestinamente, com exclusividade, trechos da conversa de dois agentes da Polizia di Stato, a polícia civil nacional da Itália, discutindo medidas retaliatórias contra os aliados do presidente Vladimir Putin:
Beppo – Peça à Agenzia delle Entrate (secretaria da Receita) um levantamento dos bens desse Fiodore pra gente ordenar o congelamento!
Carlino – Subito!
Beppo – Vamos filtrar a lista dos outros bersagli (alvos). Na letra T tem três suspeitos: Lev Tolstoy, Lev Trotsky e Piotr Tchaikovsky. Confere aí!
Carlino – O tal do Trotsky tá limpo, é ucraniano. Mas o Tolstoy, russo, parece barra pesada. Escreveu até um tratado sobre guerra e paz. Deve ser conselheiro militar do Putin. O Tchaikovsky, hum, esse é músico. Suspeitíssimo! Diz aqui que ele andou visitando 15 cidades da Ucrânia, e que uma das peças dele tem até tiros de canhão. Deve ser um instrutor de artilharia disfarçado!
Beppo – Hum! Letra P, letra P… Ah, Pushkin, Alexander Pushkin! Será que é parente do homem?
Carlino – Acho que não, parente mesmo, talvez primo, deve ser aquele tal de Rasputin. Esse Pushkin aí escreveu um relatório sobre a filha de um capitão. Também deve ser conselheiro militar.
Beppo – Ok! Na letra M tem um Maiakovsky, Vladimir…
Carlino – Esse é bielorusso…
Beppo – Ô, Carlino, tenha a paciência! Bello! Vá te foder! A gente morrendo de trabalhar e você aí curtindo a beleza do sujeito! Sua mulher já tá sabendo dos seus pulinhos, fofo?
Carlino – Não, seu stronzo, cazzone, cretino, imbecille, ignorante! O cara é da Bielorússia, um país aliado do Putin!
Beppo – Ah, desculpe, fratellino! Marque ele aí então como objetivo... Hum, tem aqui um tal de Nikolai Google… Que que diz a ficha dele?
Carlino – Nikolai Google… Google… Google… Ah, achei! É Gógol, idiota! Ih, cara, esse vai dar confusão. Os russos dizem que ele é russo, mas os ucranianos juram que é ucraniano. Vamos botar na reserva pra checar. Mas já vou anotar que ele é suspeito de traficar drogas. “O Nariz”… esse conto que ele escreveu não está me cheirando bem!
Beppo – Clica aí, uai! Na letra B tem um tal de Bulgakov, Mikhail…
Carlino – Ah, esse é ucraniano, nasceu em Kiev. Diz aqui que ele é amigo dum alemão chamado Woland… Dia desses esse elemento espalhou o maior terror em Moscou. Parece que é o próprio Diabo em figura de gente! Dio mio, só tem doido nesse mundo!
Beppo – È vero! Ô, Carlino, vê se a Receita mandou o relatório do Fiodore!
Carlino – Opa, chegou! Ih, o sujeito não tem nada, tá na pindaíba. Está devendo uma fortuna no cassino de Baden-Baden!
Criado em 2022-03-03 17:45:59
Luiz Martins da Silva –
Um parente costumava dizer: Não precisa caçar confusão, elas aparecem sem ser convidadas.
Tive a comprovação do adágio por várias vezes. Mas, uma delas foi punk. Por pouco, não deu em pancadaria. E de borduna. Pois, vamos ao caso. Foi numa época em que fazia reportagens.
Recebera uma pauta para ir longe cobrir uma confusão, ou melhor, um combo, várias num pacote.
E quando é que eu imaginava que também seria metido numa delas?
Aquele lugar era um paradeiro de confusões. Mas, vou ficar numa. Do nada, quando percebi, estava emaranhado.
Portanto, não fora àquela terra buscar confusão, ou melhor, fui, mas, para entender o que se passava ali e que andava resultando em matanças: índios, fazendeiros, madeireiros e garimpeiros. Escaramuças e emboscadas.
Mal pisei em solo indígena e um índio, como se diz, grudou no meu pé. Queria por que queria que eu o gravasse, no meu gravador, o que ele cantava.
Que tropeço! Eu, com pressa, e o índio atrás de mim, apontando para o gravador e cantando uma canção que, ao gosto dele, deveria ser algum importante etnohit. Fosse eu um etnógrafo, um produtor de vídeos, de documentários... Maravilha!
O índio cantava no idioma nativo, eu não entendia uma única palavra. A melodia era d’um tipo atonal, variando de um tom para um semitom e voltando ao mesmíssimo tom inicial. A interpretação era um lento ro-rei-ro... rei! E repetia. E repetia! Em resumo, uma triste latomia. Talvez, um lamento ritualístico.
Tentei contextualizar a minha situação, de jornalista em trabalho, pouco tempo, não me levasse a mal, mas pareceu-me não ter noção do que eu falava. Ou, não queria saber do que eu falava. Mesmo assim, esforcei-me, gesticulei, fiz o possível para deixar claro que eu não era o tipo de pessoa à procura de exotismos e muito menos de novos talentos para o show business. Queria, sim, encontrar o chefe dele e alguma fonte que me ajudasse a averiguar as denúncias em torno de grilagem de terras, garimpos, assassinatos, coisas nada leves. Mas, o danado do índio não me largou.
Diante de tanta insistência, e até para entretê-lo, o jeito foi ligar o gravador e seguir adiante. E ele, atrás, na cantiga. Houvesse testemunhas, eu me sentiria ridículo. Eu, quase correndo, e um índio atrás, cantando.
– Chefe! Chefe! Onde...? –
– Lá!
Enfim, ele me entendera, numa palavra tão pequena, mas tão importante.
Antes que eu me apresentasse, jornalista, informações, confusão, crimes... O índio cantor apressou-se e, na língua deles, apontava para mim e para o gravador.
– Paga!
– Pagar o que?
– Pagar a gravação.
– Mas, eu não pedi para gravar nada!
– Gravou, paga! Direito autoral.
Eu já ouvira falar de Eugène Ionescu, um romeno, aquele do Teatro do Absurdo. Mas aposto como aquela situação seria mais radical do que as de A cantora careca, onde é inútil tentar entender, pois o que se evita é exatamente a produção de qualquer sentido.
Você, leitor, pensará que adiantou alguma coisa eu falar com o chefe (ou seria cacique?), que eu não firmara nenhum contrato com aquele cantor; que eu não estava à cata de talentos musicais, que eu não...
– Gravou pagou. Advogado branco falou que é assim. Tem que pagar.
Até então, inútil puxar o assunto para as confusões que haviam resultado em mortes...
– Nada a declarar!
Indignado, bradei:
– Como nada a declarar? Você é o chefe, cacique, maioral...!
– Declaração, só na presença do advogado.
– Cadê o advogado?
– Foi pra cidade.
Fiz sinal que ia embora. Pra que! Cantor e cacique me atalharam, fecharam a minha passagem. O cantor reclamando, apontando para o gravador. O cacique, repetindo, feito disco de vinil arranhado:
– Tem de pagar! Gravou, tem de pagar!
Tal como na sinuca, às vezes a gente tem de bolar uma saída, algo tão insólito quanto encontrar a solução de um problema de geometria descritiva para sair de uma enrascada, encaçapar a bola sete e partir para o alívio.
– Não posso pagar, o dinheiro não é meu, é do jornal. Então, eu pago com o gravador, que já tem a música do cantor, pode ouvir a canção dele, pode gravar o que ele quiser; cobrar o quanto ele quiser; de quem ele quiser; e de quem o senhor cacique mandar pagar.
Na língua deles, o chefe-cacique-maioral deu a última palavra, para resolver a encrenca. Uma palavra que não soube qual. Algo monossilábico, mas suficiente.
– Negócio fechado!
O cantor ficou com o gravador e o chefe chamou um subordinado que sabia a minha língua para seguir comigo e eu obter as informações de que precisava.
Culpa do gravador – deduzi. Ou, pelo menos nunca mais viajei com um deles.
Hoje, conservo poucas superstições. Uma delas é não viajar com gravador. E, como reforço de que estou certo, coleciono histórias em que o gravador foi a causa de desentendimentos. Ou o gravador falhou, deixou o profissional na mão, ou foi o estopim de alguma confusão.
E não é sem motivos de as gravações de rolos políticos, policiais, memes etc serem feitas às escondidas. Se o gravador estiver à vista, confusão à vista. Já soube até de casos em que o interessado na gravação leva um gravador ostensivo, mas que não é ligado, e um outro, oculto, mas ligado.
Por via das dúvidas, não viajo mais com gravador. Papo encerrado.
Criado em 2020-10-08 15:13:37
José Carlos Peliano (*) –
O afeto que se encerra em meu peito juvenil, como expressa nosso hino, de fato, encerra também em meu peito já maduro, ou melhor, “enserra” o afeto, mas também o elogio especial por conhecida jornalista pela apreciação de seu consistente trabalho. Cristina Serra em seu recente livro Entrevista (Kotter Editorial, 2020) consegue reunir 12 escritores destacados da literatura mundial em entrevistas por ela realizadas em anos diferentes de tempos passados.
Em meio aos encontros com cada um para revelarem seus métodos e meios de realizações literárias, poéticas ou não, Cristina supera os clichês habituais de perguntas óbvias comumente repetidas por outros colegas de ofício. O caminho por ela trilhado levou-a à leitura preparatória anterior de obras dos entrevistados para conseguir captar pistas e nuances então garimpadas e pouco conhecidas e ao mesmo tempo poder encaminhar indagações pertinentes entre elas, o autor e sua obra.
As entrevistas não são, portanto, nada óbvias ou superficiais. Ao se aproximar do escritor, cativando-o pelo conhecimento e interesse prévio de sua vida e obra, e também com certeza por sua graça pessoal, ela se vê aquinhoada com um clima de intimidade, o qual transborda em conversas descontraídas e muitas vezes em revelações dos entrevistados desconhecidas do público leitor.
Seu livro, por isso mesmo, se torna não só extremamente agradável de ler, mas também adquire uma toada própria que segue tão bem expressa que fica difícil ter de interromper eventualmente a leitura por uma coisa ou outra. É como estar diante de cada um dos entrevistados escutando-os comentarem suas obras com a atenção voltada pela leitura do texto e das asas da imaginação.
Dos 12 entrevistados separo quatro deles, não por serem melhores que os outros, mas por achar que suas mensagens me tocaram mais de perto como escritor que procura transmitir bem as coisas que me tocam o meu redor de vida, percepção e sentimento. De todos eles, no entanto, fica o toque da revelação humana carregada de poderosa carga de simplicidade e saber.
O mestre Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, sai de sua modéstia, timidez e provincianismo e expõe pérolas de sabedoria e conhecimento poéticos obtidos pelo difícil ofício de encantar as palavras. Lá pelas tantas diz que “todo mundo faz poesia hoje. A poesia agora não tem mais nenhuma regra, nenhum princípio. Não tem métrica, não tem rima, não tem ritmo. É só juntar palavras”, p. 21. Segue afirmando que “a pessoa que escreve deve ter um sentimento mais puro de respeito às palavras e de respeito ao que elas representam”, p. 22. Confessa que toda sua poesia é “confessional, são meus problemas, meus dramas, os meus sequestros, os meus protestos, a minha dificuldade de adaptação à vida, todo esse sofrimento”, p. 27. Reconhece, ao fim, que “o melhor elogio para o escritor é a reação do leitor”, p. 29.
O grande Ferreira Gullar vem em seguida com seus cabelos prateados compondo e iluminando seu rosto marcante. Disse que sua escrita não tinha lugar nem hora, “escrevo em tudo quanto é canto. Tenho mania de guardar papéis no bolso e já escrevi muita poesia em talão de cheque, recibo, nota de compra”, p. 36. Segue, “se eu anoto, é porque já começou o processo de fazer, e aí eu não vou interromper”, p. 37.
Prossegue, “eu escrevo muito pouco. Basta dizer que a antologia de vários poetas é maior que minhas obras completas”, pois “produzir por produzir, não me interessa, inclusive porque eu acho que a maioria dos poetas escreve demais”, idem. Complementa e se pergunta por que escreve ao que responde que escrever “só tem um sentido: é mudar as coisas. Tem que mudar alguma coisa. Não pode ser que eu escreva um poema e tudo continue igual”, p. 43.
O artesão das palavras e dos versos João Cabral de Melo Neto traz na bagagem Morte e Vida Severina e mais homenagens e prêmios. Afirma que, quando pequeno, “tinha uma grande curiosidade intelectual, nunca fui um improvisador, nunca acreditei em inspiração nem em bossa”, p. 49. Uma das razões, acredito, talvez tenha sido sua vivência na roça como revela mais adiante quando os trabalhadores do engenho que não sabiam ler iam às feiras e traziam literatura de cordel, e aí “eu me sentava numa roda de carro de boi, eles ficavam em minha volta e eu, que era muito pequeno – devia ter uns oito, nove anos – lia para eles”, idem. Prossegue, “em matéria de criação eu acredito mais no trabalho do que na espontaneidade. Eu não creio que espontaneidade seja critério de nada”, p. 51. Arremata que, para ele, “cada poema é o resultado de muitos e muitos dias de trabalho, que podem ser contínuos e podem durar anos”, p. 52, e adiciona “escrever me dá muito trabalho, é penoso, dá muita angústia”, p. 57.
Por fim, chego ao final da escolha dos entrevistados. Vem aí a poderosa Rachel de Queiroz, a primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras, embora se expresse a si mesma sempre com modéstia. Destaca que, no caso de sua literatura, “a preocupação é a de fugir da ênfase, fugir do excesso, da adjetivação, do colorido, do pitoresco”, p.139/140. Quando tinha apenas 20 anos publicou seu primeiro romance O Quinze, onde “há cenas do campo de concentração de retirantes que eu tirei da memória. Eu me lembro do arame, me lembro das famílias acampadas sob os cajueiros, me lembro dos caboclos conhecidos de fazendas vizinhas. Nós tínhamos orgulho de caboclo algum ter saído retirante das fazendas de minha avó, meu pai, meus tios”, p. 140. Confessa “minha tentativa no O Quinze, que foi uma tentativa juvenil, deu depois uma obra-prima com o mesmo tema, que foi Vidas Secas, de Graciliano. Eu mi vi realizada quando Graciliano publicou Vidas Secas, p. 141. Comenta, ao final sobre a necessidade imperativa do talento para a escrita, que “toda obra de arte há de haver um talento específico. Você pode ter as técnicas mais sofisticadas, mais astuciosas, mais hábeis, mas se não há aquela matéria-prima que é o talento, nada feito. Por isso é que eu não me considero uma grande romancista”, p.144.
O livro Entrevista prossegue em cada página sem deixar de encher os olhos com informações, novidades, confissões e deleites. Cristina Serra soube reunir ótimas peças que vai da poesia, ao romance, à música, sim há Antônio Carlos Jobim em depoimento especial, além de Isabel Allende, Jorge Amado, Mário Quintana, Fernando Sabino, Darcy Ribeiro, Antonio Callado e João Ubaldo Ribeiro. Mais ainda, ela dá o tom de cada autor pela introdução bem apresentada de todos eles. De fato, é um livro para não deixar de ler, reler e tê-lo perto para renovação de lembranças de alguns dos consagrados escritores de nosso tempo. Bravo!

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(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor, economista.
Criado em 2021-05-30 23:32:13
Dioclécio Luz (*) -
Em 1961 o jornal The New Yorker encaminhou para Jerusalém, para cobrir o julgamento do nazista Adolf Eichmann, a professora, escritora, judia e filósofa alemã, Hannah Arendt. Hannah escreveu diversos textos relatando o que viu. E ela viu o que muitos jornalistas ali não viram: que o julgamento tinha uma farsa embutida, Eichmann já fora condenado, faltava apenas a sentença. Responsável por uma logística de transporte que levou milhares de judeus - de vários países da Europa - para os campos de concentração na Polônia, para todos os efeitos Adolf Eichmann era um cara perverso.
Em seus escritos Hannah fez notar que ele era um criminoso, sim, mas o que o levou a cometer esses crimes não foi uma maldade intrínseca, e sim o fato dele querer ser um bom servidor do sistema nazista. Em outras palavras, um servidor medíocre (como foi o caso de Eichmann) banalizou o mal e seus atos geraram o massacre de judeus e comunistas. Tudo isso está no seu livro Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal.
Lembrei do livro de Hannah a propósito da cobertura da nossa velha mídia ao governo de Jair Bolsonaro. Os repórteres e comentaristas dessas ricas e velhas emissoras agem como se o fato não lhes dissesse respeito, como se fizessem parte de outro planeta; eles se acham imunes, aos ataques fascistas desse presidente. Tratam da tragédia que acontece hoje como se fosse algo banal; como se os atos do governante fossem apenas notícias incomuns. Tipo, criança nasce com sete dedos na mão; cachorro atravessa na faixa de pedestre; mulher dá à luz no táxi. Talvez tenham recebido uma ordem do tipo: vamos falar do que esse presidente faz, mas sem pontuar que é nazista ou fascista, e muito menos dizer para que não votem nele.
Toda vez que se anuncia a premiação de obras de literatura ou de ficção na TV, eu penso: dessa vez aquele jornal da TV, aquele repórter ou comentarista de política, leva o prêmio maior de ficção. Tem coisas que essa gente fala que mais parece uma viagem espacial. O contorcionismo usado indica isso. De fundo, uma farsa: a tentativa frustrada de parecer imparcial, isto é uma fake manjada. Todo mundo sabe que a Globo, Bandeirantes, SBT, Record tem posição política e econômica e ela é expressa no seu jornalismo (com ou sem aspas).
Agora, porém, a situação é especial. A crise atual do Brasil tem constantes ataques à democracia. E não é o PT quem faz isso; não é a esquerda; é o candidato Jair Bolsonaro e sua turma. Então, por que esses jornalistas não dizem essa verdade? Porque se escondem sob o falso (fake) tecido da imparcialidade? Alguém escreveu antes de mim: “perder uma eleição é normal numa democracia. O problema é perder a democracia numa eleição”.
Esses repórteres e comentaristas têm a dimensão do que está ocorrendo no Brasil? Eles sabem que há uma disputa entre a barbárie e a democracia? Eles sabem que o atual presidente defende a tortura e é racista? A resposta é uma só: sim. Afinal, eles saber ler, não são cegos nem surdos. Sendo assim por que não se posicionam contra esse genocida? Ao que parece, os donos das empresas de comunicação não querem criar um atrito maior com o governo, determinando aos seus funcionários – os jornalistas – que limitem suas críticas a alguns temas. Por exemplo, eles podem criticar o presidente por estar sem máscara, isso é legal. Também podem criticá-lo pelo desmatamento na Amazônia – isso gera empatia com a população e agrada à matriz ideológica estadunidense e europeia. Mas não podem falar mal da economia. Como essas redes de comunicação fazem parte das elites nacionais, tornaram-se porta-vozes dos interesses delas. Daí apostam nas anunciadas entregas de Paulo Guedes. Ainda faltam dois meses para Jair Bolsonaro sair, mas dá tempo de concluir a privatização das estatais, a reformas trabalhista e fiscal; conceder mais benefícios para o agronegócio. A propósito, na entrevista com Bolsonaro ao Jornal Nacional (22/08/22), William Bonner, que até então tinha sido “duro” nas perguntas, ao abordar a economia mudou o tom: agora era uma conversa de amigo para amigo. Ele perguntou algo assim:
- O senhor prometeu em campanha um dólar baixo e a queda da inflação. Não conseguiu. Mas a gente sabe que teve a pandemia e agora a guerra na Ucrânia. Se eleito o que pretende fazer?
Bolsonaro sorriu. Estava entre amigos. Agora ele poderia fazer propaganda do governo.Até as eleições de 2018 essas velhas redes de comunicação atuaram para satanizar Lula e o Partido dos Trabalhadores. E, ao fazer isso, fizeram crescer a candidatura do oponente, Jair Bolsonaro. A TV Globo, em especial, foi porta-voz da operação Lava Jato, fazendo o pior que se espera da imprensa: abandonar a capacidade de investigar para defender um projeto político. O objetivo era destruir o PT e as esquerdas. Não conseguiu destruir nenhum dos dois, mas graças ao seu trabalho de mitificação de Sérgio Moro e sua turma, Lula foi preso e não pode disputar a presidência com Jair Bolsonaro. Quanto à Lava Jato e ao trabalho de Sérgio Moro, foi tudo para o ralo graças ao jornalismo do The Intercept.
Em 2018 estava já tudo claro: um cara com propostas fascistas pretendia se eleger. Na época, corria a piada de que Fernando Haddad, se eleito não iria cumprir suas muitas promessas de campanha e cobravam isso; quanto a Bolsonaro, era o contrário, havia o medo dele cumprir o que estava prometendo. Evidente: ele anunciava um Estado fascista, antidemocrático. Os comentaristas da Globonews não viram? Se viram, porque não disseram ao povo: não vote nesse fascista? Por que até hoje insistem em dizer que as eleições estão polarizadas? Foi o patrão que mandou falar isso?
Essa ideia de “polarização nas eleições” é um engodo, uma mentira, uma fake news, devidamente difundida por esses medíocres ilustrados da imprensa. As grandes redes descobriram um jeitinho de fazer fake news. Lembra quando na pandemia, todas as noites, o Jornal Nacional criticava o presidente por não estar usando máscara? O Brasil estava virado pelo avesso em todos os setores, mas a preocupação da Globo era com a máscara do presidente. E quando ele fazia algo fora da curva (o que sempre fez) o comentarista falava que ele fez algo “polêmico”. E o mal era banalizado.
Fico imaginando como essas grandes redes anunciariam a ascensão de Hitler na Alemanha. Em rede nacional o repórter diria algo do tipo:
- Hoje, 30 de janeiro de 1933, a Alemanha tem um novo chanceler, Adolf Hitler. Artista plástico e ex-combatente da primeira guerra, Hitler assume o cargo como representante do Partido Nazista, o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei. Antes de chegar ao cargo de chanceler, ele foi preso e condenado a cinco anos de prisão por tramar um ato terrorista contra o Estado. Ficou somente nove meses na cadeia. Lá escreveu um livro, Mein Kampf, uma espécie de autobiografia onde anuncia fazer campanhas de extermínio de comunistas e judeus. Hoje pela manhã Hitler não quis falar com os jornalistas, mas, anunciou aos seus seguidores que vai colocar em prática um grande plano de desenvolvimento da economia germânica, algo muito além do que cogitou o antigo Partido dos Trabalhadores, “promotor da corrupção”, disse ele. Depois conversei com o presidente da Federação das Indústrias. Em suas palavras, abre aspas: “agora sim, com Hitler finalmente temos um Estado forte que valoriza o mercado”. Fecha aspas. Perguntei se o mercado não via alguma falha nessa proposta. Ele sorriu e comentou: “Nenhuma falha. O único problema é o bigodinho dele, é ridículo”. Eu tive que rir da piada também.
A verdade é que essa velha imprensa engole o sujeito que anuncia um país fascista, mas não admite que se toque no interesse das elites deste país, inclusive as elites golpistas. No dia 30 de agosto a TV Bandeirantes fez editorial criticando o ministro Alexandre de Moraes por mandar investigar os empresários que, no grupo de WhatsApp, anunciavam que iriam fazer o sangue rolar nas ruas caso Lula se elegesse. Tramar um crime contra o Estado – golpe ou “apenas” matança de gente – é crime. Mas a velha imprensa releva. Coube a Eduardo Oinegue, funcionário da empresa, fazer a leitura emocionada desse editorial em defesa dos empresários. O texto reconhece que tramar um crime é crime, mas faltariam provas. Não considerou os dirigentes da Band que a Polícia Federal fez busca e apreensão na casa de seus amigos (ou clientes?) em busca de provas.
Confesso que tinha uma esperança de que os donos desses grandes veículos tivessem aprendido alguma coisa e fizessem editoriais dizendo para a população não votar nesse fascista. Errei feio. É da natureza dessas elites da comunicação acatarem qualquer governo, contanto que lhes garanta os privilégios, tire benefícios do trabalhador, reduza o Estado, e, claro, garanta uma economia que aumente mais ainda seus ganhos. Não podemos esquecer que boa parte dos golpes civis-militares havidos no Brasil foram tramados por essa gente ou seus ancestrais. Por que agora seria diferente?
O fato é que eles estão acostumados com a banalização do mal. Durante a ditadura de 1964 a censura vetava notícias sobre a tortura e desaparecimento de pessoas, isso incomodou muitos jornalistas, mas incomodou os patrões? É preciso lembrar que os grandes veículos de comunicação tinham parceria com os militares. O SBT de Silvio Santos e a Globo de Roberto Marinho, por exemplo, veiculavam programas que louvavam o governo. Em 1984 a Globo omitiu a campanhas das Diretas já. Na época uma reportagem fake da emissora mostrou milhares de pessoas nas ruas de São Paulo e disse que elas estavam ali para comemorar o aniversário da cidade – mentira, estavam na campanha pelas Diretas.
Os generais ditadores se davam muito bem com a Globo. O general Médici, um dos presidentes mais cruéis do regime, chegou a manifestar sua simpatia pela programação do jornalismo da emissora. Conforme o site Viomundo ele disse:
- Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao Jornal Nacional. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho.
O compadrio da Globo com as Forças Armadas vem de longa data, e ele sempre fica mais forte quando se anunciam golpes. A história de 1964 é conhecida – dezena de anos depois (!) a Globo até pediu desculpas por ter se juntado aos golpistas. Não adiantou nada. Em 2013 um novo golpe começou a se articular nas ruas e a Globo cuidou de mostrar (destacando as manifestações nos seus noticiários) de que lado estava: contra Dilma Rousseff. Que eu saiba, nenhum repórter da emissora foi apurar como surgiu e quem bancava as muitas faixas pedindo intervenção militar – isto é, o golpe. Em 2016, Dilma cai e Temer assume dando início a tal intervenção militar e pela primeira vez na história o ministro da defesa é um general. Para saber mais sobre a recente relação de governo com militares, sugere-se a leitura do livro de Natalia Viana, Dano colateral.
Em 2018 as elites do país tinham um problema: apesar da Lava Jato ter feito a sua parte, passando por cima do processo penal, o povo ainda queria Lula presidente. Mesmo preso ele ainda liderava as pesquisas. No dia 4 de abril o STF iria julgar um habeas corpus de Lula. O pedido de liberdade para Lula tinha como base o inciso LVII do Art. 5º da Constituição, ao estabelecer que: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. A defesa de Lula não contava com um inimigo: as Forças Armadas. Não levaram em conta que até hoje os oficiais são formados para defender o neoliberalismo, a empresa privada e o mercado; são treinados para combater o inimigo interno - as esquerdas! Então, ameaçaram: se o STF soltar Lula o Exército vai para ruas. Não com essas palavras, claro.
De qualquer forma, era preciso que os ministros do STF tomassem conhecimento dessa ameaça. Como fazer isso? Ora, recorrendo à velha aliada: a TV Globo. E na noite do dia 3 de abril de 2018, vésperas da votação do pedido de habeas corpus de Lula, William Bonner encerrou a edição do Jornal Nacional com uma notícia de “última hora”. Qual a notícia? A ameaça do Exército encaminhada via tweet. Bonner leu a mensagem do general Villas Boas, comandante do Exército, onde ele diz que repudia “a impunidade” (decisão de libertar Lula) e que o Exército “está atento às suas missões constitucionais”.
Deu certo. No dia seguinte o STF negou o habeas corpus e Lula continuou preso. Ufa, as elites nacionais, a TV Globo e as demais redes, respiraram aliviadas. Lula não seria presidente.
Cumplicidade. Sim, o país elegeria um fascista e os militares ocupariam o governo como anunciado; agora seria mais fácil comprar armas, os atos de racismo seriam referendados pelo novo governo, jornalistas seriam xingados diariamente, a Amazônia seria queimada, haveria mais casos de LGBTfobia e o machismo seria estimulado. Tudo bem, o importante era que o plano econômico de Bolsonaro e seus militares serviria aos propósitos dessa elite. Podem atacar a democracia e os direitos humanos; a economia sempre faz a felicidade do mercado.
É o que importa. Porque se essa imprensa e seus funcionários fossem contra o fascismo e estivessem de fato preocupados com a saúde da democracia já em 2018 pediriam à população para que não votasse em Bolsonaro. Não fez isso em 2018 e tampouco em 2022. Hoje como ontem, os comentaristas políticos dessas empresas falam que os dois lados produzem fake news; dizem que a campanha está polarizada; dizem que está uma baixaria; dizem que a campanha se tornou violenta. Tudo isso são fakes criadas por essas redes. Porque, se fossem honestos com a história, diriam: antes de Bolsonaro não existia nada disso; quem trouxe isso para a campanha foi Bolsonaro e sua turma; não foi a esquerda, nem o PT. Mas aí seria querer demais desses funcionários exemplares.
Essa gente, no fundo, são funcionários medíocres. São os medíocres ilustrados: o discurso arrogante dá a entender que entendem muito do processo político, mas ao final sucumbem ao lugar comum. Ao banalizarem o mal visível e palpável, assinam o nome no lado sujo da história.
Ao banalizarem o mal, tratando os atos fascistas do presente Bolsonaro como exagero ou abuso, ou mesmo “polêmicos”, falam meias-verdades, mentem para a população. Eles sabem, há muito tempo, que esse governo mantém uma relação íntima com o fascismo e o nazismo, mas reagem como se isso fosse algo corriqueiro, banal.
Ainda recentemente a jornalista Milly Lacombe, do UOL, fez uma live listando as dezenas de vezes em que o presidente mostrou sua face nazista. Na verdade, ela apenas resgatou informações para que ninguém esquecesse. Os comentaristas políticos da Globonews – apenas para citar uma emissora - não sabiam disso? Instalados naquela bolha situada entre Marte e Vênus, diante de um espelho de cristal, esboçam o desprezo de Narciso pela situação nacional. Eles sabem que, passada a tormenta, com ou sem Bolsonaro, a empresa em que trabalham vai estar numa boa com o novo governo. E se Bolsonaro cair como esperado, então, só então, dirão a verdade sobre ele. Covardia? Claro.
Nesse ponto é preciso apontar que fora da grande imprensa há muitos e muitas jornalistas, influenciers, estudiosos, movimentos, enfrentando essa figura nefasta. Essas pessoas estão dizendo: quem trouxe as fake news para a campanha, quem incitou e incita os militantes à violência, quem incentiva as agressões à democracia, é Jair Bolsonaro, não é o PT, não é Lula.
Nesse momento, mulheres corajosas do jornalismo, estão enfrentando esse o genocida como ele merece ser enfrentado – sem rodeios, sem enrolação. É preciso coragem para dizer o que elas dizem.
Entre tantas, cito quatro grandes mulheres jornalistas: Milly Lacombe, Natália Viana, Eliane Brun, Cristina Serra. Há ainda aquelas que atuam na Agência Pública e no The Intercept; as que estão nas redes de mulheres da comunicação do Nordeste (Catarse, entre outras); redes de mulheres negras; e mesmo na revista Piauí. Cada vez que um homem ou uma mulher se cala ou esconde a verdade sobre esse presidente, ou compara seus atos com os de Lula como se fossem do mesmo nível, está atacando as mulheres, os negros e as negras, os do movimento LGBTQIA+. A omissão é uma posição.
No dia 30 de outubro o brasileiro não vai decidir quem vai governar a nação. A escolha é entre dois sistemas de governo: a barbárie ou a democracia. Como bem resume a jornalista Milly Lacombe: quem defende Bolsonaro não defende um político, mas um fascista, e se iguala a ele. Eu complementaria: quem insiste em igualar os dois candidatos, ciente de que são distintos em caráter e propostas, está banalizando mal; está tomando uma posição pelo criminoso. Esses jornalistas não são nazistas ou fascistas, mas acabam servindo a isso. E Hannah Arendt já mostrou no que isso vai dar.
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(*) Dioclécio Luz é jornalista e escritor. Tem mais de dez livros publicados. Em novembro lançará em Brasília seu mais novo livro: A escola do medo - vigilância, repressão e humilhação nas escolas militarizadas.
Criado em 2022-10-25 23:10:51
Oito entidades do movimento social pela mobilidade urbana – Andar a Pé, Bike Anjo DF, Brasília para Pessoas, Coletivo MOB, Instituto COURB, Instituto MDT, Mobilize Brasil e Rodas da Paz – divulgaram, hoje (31/7), nota de apoio crítico ao projeto do governo Distrito Federal que estabelece a chamada Zona Verde, com cobrança de taxa de estacionamento rotativo. A nota (veja íntegra ao final desta matéria) impõe cinco condições para esse apoio.
A ideia não é nova. Ainda no governo Joaquim Roriz houve uma tentativa de criar a Zona Azul, mas o Ministério Público conseguiu, na Justiça, barrar a proposta no nascedouro. O MP alegou à época irregularidade no processo de licitação e sobrecarga de imposto aos cidadãos que recolhem o Imposto sobre Propriedade de Veículos (IPVA).
A nova proposta do GDF é cobrar uma taxa de R$ 2 a R$ 5, por hora, para usar as vagas públicas – comerciais e residenciais.
Hoje houve a primeira audiência pública convocada pela Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob) para discutir o assunto com a comunidade. A Câmara Legislativa ainda vai se posicionar a partir de uma nova audiência a ser realizada na CLDF. A deputada distrital Arlete Sampaio (PT), e os deputados Leandro Grass (REDE) e Fábio Felix (PSol) querem ouvir o movimento que defende a mobilidade urbana para depois, se for o caso, sugerirem aperfeiçoamento ao projeto do governo.
As pessoas contrárias à cobrança pelo estacionamento em áreas públicas comerciais e residenciais alegam que os “cidadãos já pagam impostos sem retorno do Estado”.
A seguir a íntegra da nota de apoio ao estacionamento rotativo pago:
“Expressamos apoio à proposta do GDF de instituir a cobrança de estacionamento em áreas públicas (Zona Verde), a exemplo do que ocorre na maioria das grandes cidades brasileiras e do exterior. É preciso desestimular o uso do carro, sobretudo devido aos efeitos nocivos à mobilidade urbana, à qualidade do ar, ao clima e à saúde pública. Uma cidade que prioriza pedestres, ciclistas e usuários do transporte coletivo tem melhor qualidade de vida para todos.
É importante evidenciar os incentivos públicos e privilégios hoje ofertados ao carro, como a privatização gratuita do espaço público na forma de estacionamento e ocupação das vias públicas e os milionários investimentos constantes em grandes viadutos e recuperação de pavimentos. Grandes áreas no centro de Brasília são ocupadas diariamente por carros estacionados, tanto nas vagas oficiais, quanto em canteiros, calçadas e outros locais proibidos.
A cidade perde uma enorme parte de sua área produtiva para estacionamentos públicos. Espaços que poderiam ser áreas verdes, comércios, calçadas, ciclovias e praças. Pontos de calor que fazem a sensação térmica aumentar ainda mais. Tudo isso para que um mesmo carro às vezes ocupe uma vaga durante todo o dia. A rotatividade das vagas é benéfica para o comércio e dinamiza a cidade. Os próprios motoristas são beneficiados: as vagas serão utilizadas por mais pessoas.
Nas áreas mais centrais, sabemos que já existe a cobrança informal, muitas vezes associada a extorsões e ao empilhamento de veículos, que pode ser perigoso em caso de uma emergência, como um incêndio. O mau uso do espaço provocado pela ocupação irrestrita das vias cria barreiras para pedestres e ciclistas.
É necessário que a Zona Verde seja conduzida concomitantemente com o estímulo à mobilidade ativa e ao transporte público, provendo alternativas seguras e confortáveis à população. Isso pode ocorrer se forem consideradas as seguintes condições:
Destinação obrigatória da totalidade dos recursos arrecadados em investimentos na estruturação do sistema de transporte público, como linhas de BRT e metrô, e na implantação e requalificação de calçadas e ciclovias.
Melhorias efetivas no transporte coletivo: maior frequência de viagens para evitar superlotação; pontualidade; informações ao usuário em tempo real; ampliação das faixas exclusivas e corredores de ônibus para garantir agilidade; melhorias na integração física e tarifária, com disseminação dos pontos de venda e recarga do bilhete único.
Inclusão no edital de licitação de reserva de vagas para ciclistas (paraciclos e bicicletários), possivelmente com tecnologia para travamento e liberação para que as bicicletas fiquem em segurança.
Transparência nas informações, detalhamento da proposta e possibilidade de participação social.
Solução de cobrança tecnológica em aplicativo que dispense cancelas, guaritas e minimize o impacto na paisagem urbana, e facilite o monitoramento dos dados em tempo real e o planejamento de políticas públicas de mobilidade.
Vale registrar que a proposta de estacionamento rotativo pago está em plena conformidade com os princípios expressos na legislação, a exemplo da Política Nacional de Mobilidade Urbana e do Plano Diretor de Transporte Urbano e Mobilidade (PDTU/DF): desenvolvimento sustentável das cidades; equidade no uso do espaço público de circulação, vias e logradouros; redução da participação relativa dos modos motorizados individuais; priorização do transporte coletivo.
Em que pese o acerto do GDF com a apresentação do projeto, destaca-se a necessidade de uma série de ajustes na proposta e, principalmente, para que seja devidamente assegurada a utilização dos recursos arrecadados, exclusivamente, na área da mobilidade urbana.”
Grupos Apoiadores:
Andar a Pé
Bike Anjo DF
Brasília para Pessoas
Coletivo MOB
Instituto COURB
Instituto MDT
Mobilize Brasil
Rodas da Paz
Criado em 2020-07-31 19:06:04
No dia 18/11 (sexta), das 22h às 4h, no Bar Outro Calaf (Setor Bancário Sul) será celebrado o Mês da Consciência Negra em Brasília. É ali que ocorrerá o Idow & Fela Motion, a segunda edição do tributo ao Fela Kuti, um evento que faz a conexão Brasil-África.
Como acontece todo ano, em novembro, é comemorado o mês da consciência negra. Uma Memória a Zumbi dos Palmares, grande símbolo da luta e resistência dos povos negros.
Essa será a segunda edição do tributo Fela in motion, com atração internacional do mestre multi-instrumentista nigeriano Ìdòwú Akínrúlí em homenagem à Fela Kuti.
Fela, criador do Afrobeat, revolucionou o mundo com suas músicas, nos envolvendo em ritmo, swing e letras de protesto em defesa do povo negro!
Vindo da Nigéria, do povo Yorubá, Akínrulí, circula pelo Brasil oferecendo formações, regendo e promovendo essa experiência inesquecível em um espetáculo vibrante de quem conhece bem esse repertório e já tocou com a família do mestre Anikulapo!
Para abrir os trabalhos o grupo Gã Stars, diretamente do Gana, com Francis Ang, pertencente ao povo Gã, celebrará ritmos como Highlife, Afrobeat entre outros de seu povo, em uma fusão de tradicional e contemporâneo.
Na pista, a pesquisadora dj Odara fará um tour dançante e atemporal pelo que há de mais rico na música black.

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Serviço:
ÌDÒWÚ e FELA IN MOTION
Segunda edição do TRIBUTO AO FELA KUTI, Banda GÃ STAR e DJ ODARA
Data: Sexta 18/11/2022
Hora: Das 22h às 4h
Local: Bar Outro Calaf - Setor Bancário Sul, Quadra 02, Bl Q - Brasília-DF
Apoio: Restaurante Simbaz, Estúdio Vetorial e Instituto Afrolatinas
Link Youtube: Tributo ao Fela Kuti
Ingressos: Sympla ÌDÒWÚ E FELA IN MOTION - https://www.sympla.com.br/evento/idowu-e-fela-in-motion-em-brasilia/1751619
Realização: Obadeyí produções e Iluakín produções
Criado em 2022-11-02 18:16:37