Total: 1890 results found.
Página 17 de 95
Luiz Martins da Silva –
Rose achou estranho aquele moço deixado sozinho em situação de desprezo. Todos se divertiam na pista. Para um vilarejo até que o bailinho estava animado. Não houve grana para trazer banda de fora, mas o conjuntinho local não decepcionava. Os músicos inventaram uns paletós de um estampado azulão com flores enormes de hibisco e chapéus de palha.
O repertório, o de sempre, o que sustenta, ranchos, antigas marchinhas, de “Abre alas” a “Me dá um dinheiro aí”. Àquele ano, porém, a bandinha adaptara o “Fuscão preto” num batidão oportuno. E a cada vez que repetiam, a galera urrava em coro, como que a gozar da miséria dos corações dilacerados.
Enquanto atendia a sucessivos pedidos de dança, Rose não tirava os olhos de um moço largado, tristonho, sozinho, penso, escorrido pela cadeira, cofiando uma barbicha com ar de quem se mantinha longe dali. De fato, não estava achando graça naquele “Grito de carnaval” mixo de interior. A moça, entre curiosa e encabulada, venceu a si própria no medo de levar um fora, talvez fosse algum tipo arredio, irritadiço e não lhe entendesse a simples gentileza de ser cordial com um visitante. Talvez, fosse um personagem casmurro, ensimesmado, saído do livro que lera para estudo dirigido no colégio. Ensaiou o que diria, e foi.
– O que faz um moço tão bonito, mas tão sozinho, com esse ar de escritor de romances?
– Obrigado pelo escritor, mas, na verdade não sei dançar. Vim a convite de um amigo, ele é daqui, conhece todas as moças, dança com todas, já até me apresentou algumas, mas eu fiquei por aqui, não sei dançar – respondeu o rapaz, em tom de nota oficial, aluindo-se na cadeira como quem se recobra de um torpor e estirando o braço para beber um gole de cerveja quente, gesto mecânico de timidez.
– Ninguém aqui sabe dançar e nem há o que dançar, se você notou, as pessoas ficam dando voltas pelo salão e é isto o carnaval daqui.
Pego de surpresa, o rapaz, de fato um personagem lento para radiografar as situações, passou coisa de um minuto sem ação e, finalmente, acordou para alguns protocolos sociais. Levantou-se, “muito prazer, sente-se, aceita cerveja?” A moça se sentou, um garçom passava, o rapaz pediu uma garrafa nova e mais um copo. Explicou-se, mais uma vez. Aceitara o convite de um colega de faculdade... No dia seguinte, um churrasco de aniversário numa fazenda.
A conversa não rendera, o rapaz tinha ar triste. A moça arriscou uma tentativa de não voltar sem graça para junto da turma, coisa mais sem graça, abordar um rapaz e ele não dar a mínima. Seria gay? Pensou.
– Oh, Rose, como eu disse, eu sou um pé de chumbo, mas, vamos, então, dar uma volta pela pista?
– Ora, se vamos! – Ela respondeu, no íntimo, com alívio, mas já avaliando o inócuo resultado para o lampejo que tivera. Namoro descartado, talvez amizade.
Literalmente, rodaram pela pista do modesto clube de festas da cidadezinha. Puseram-se a conversar, mas a conversa se tornava inútil toda vez que passavam em frente do conjunto, até parecia que o baterista carregava mais no seu entusiasmo. De qualquer modo, o gelo já fora quebrado e ele já se sentia amorosamente aceito, quando uma mão entrelaçou os seus dedos, o que lhe trouxe um extraordinário bem estar.
Rodaram e rodaram pela pista, até que a banda concluiu uma seleção de músicas e anunciou um breve intervalo. O clarão das luzes trouxe ao rapaz uma sensação intimidatória, de novo o embaraço de não saber o que fazer.
Todavia, deixou para a moça a iniciativa de desfazer o laço das mãos, coisa que ela não fez, ao contrário, assim se manteve até que chegassem à mesa, onde foram recebidos com regozijos e muita sede. Os garçons aceleravam o passo para anotar os pedidos de cerveja gelada e foi também o tempo para as moças se juntarem, a pausa era também para os homens irem ao toalete “tirar a água do joelho” e as moças irem “retocar a maquiagem”. Foi, igualmente, a oportunidade para Roberto, o colega de faculdade, fazer um elogio ao seu convidado:
– Legal, cara! Que bom que você já se deu bem. Rose está sem namorado e é uma das garotas mais disputadas por aqui.
– Nada disso –, corrigiu, e fez uma previsão: acho que vamos ficar amigos.
– Relaxa. Seja o que for, tranquilo. Aqui é tudo gente boa.
A banda recolocou a alegria no mesmo lugar e, de novo, a gritaria:
– Fuscão preto! Você é feito de aço...! Também aprendeu a matar!
– Não repare, Ricardo – disse Rose, desculpando-se –, o pessoal daqui é chegado a uma breguice.
– O Brasil todo – contemporizou Ricardo, já não se importando mais se ele e a moça chamavam a atenção dos curiosos. Aliás, numa rápida conferida, verificou que isto não acontecia. Mais à vontade, Rose avançou uma casa no jogo e sondou se ele estaria disposto a atendê-la num detalhe:
– Ricardo, posso pedir uma coisa?
– Claro! – assegurou, sem fazer ideia do que fosse.
– Enquanto você estiver por aqui, você tira a aliança?
Pego de surpresa, o rapaz, que já não sabia dançar, perdeu completamente o rebolado. Demorou, mas puxou lá do fundo tirocínio. Ia tirar a aliança, quando ela o interrompeu com um leve puxão:
– Agora, não
E, artificialmente, se penitenciou:
– Ai, por favor, me desculpa! Esquece! Como eu sou inconveniente!
Vendo-o atarantado, a moça buscou uma saída:
– Vamos dar uma volta?
– Vamos sim, está mesmo muito quente.
Andaram em silêncio por uma calçada e se afastaram. O som da banda foi minguando, era como se alguém fosse baixando o volume. Sentaram-se num banco de praça. A lua já havia mudado de hemisfério e o ar frescor da madrugada esfriou as cabeças. Desta feita, foi ele pedir a mão da moça. Ela acedeu e reclinou a cabeça sobre o ombro dele. Ele, tocado por um impulso, puxou-a para si e se calaram num longo e caloroso beijo.
No dia seguinte, toda a cidadezinha acordou tarde, tarde para os padrões locais, um respeitável polo agrícola e também bacia leiteira. As vacas, ora! Não têm noção de que num carnaval mais se bebe é cerveja.
No churrasco, mesmo mantendo uma solene discrição, para os dois era como se a população já comentasse o surgimento de um novo namoro. Até o sino da igreja, parecia dobrar em nome de um suposto novo noivado. E é claro que as pessoas notaram que Ricardo não tinha aliança no dedo, portanto, descomprometido. Ela, no entanto, não mais estava sob a licença de um baile de carnaval. Mas, mesmo em pleno meio-dia e às vistas de todos, não conseguia esconder o quanto estava contente, pois, de fato, gostara dele. Ele, também. Mas, era todo embaraço.
A tarde seguiu descontraída. À noite, ainda tiveram um encontro, mas para que o silêncio se apresentasse com muito peso. Quase pêsames. Era como se uma vida ainda por ser sonhada morresse ali, e sem esperança. Abraçaram-se quase ao ponto de uma fusão xifópaga. Mas, ela arredou os lábios. E ele, não insistiu. Lacrimejaram.
Chegada a tarde de quarta-feira de cinzas, veio a inevitável despedida. Publicamente, os dois aparentaram não sentir o que estavam sentindo e todos os amigos que se abraçavam num adeus pareciam acreditar que o ocorrido entre os dois tinha sido apenas uma dessas coisas que o vento leva, tipo amor de carnaval. À sua vez de se despedir, Rose o chamou de lado, tomou-lhe as mãos nas suas e ficou acariciando-as, como uma cigana a ler destinos. O sentimento de perda dificultou a voz, que saiu num sussurro:
– Tenho outro pedido a lhe fazer.
– Pois, faça!
– Diga à sua esposa que nunca o deixe; que você é uma pessoa maravilhosa; que tenha paciência você; que as crises passam.
Abraçaram-se, mais uma vez, carinhosamente.
**************************
O carro pegou a estrada.
O recado jamais foi dado.
Tempos depois, chegou para Ricardo uma carta. A esposa é que tinha ido ao escaninho. Fingiu não notar que era para o marido e abriu-a. Tinha apenas uma foto de um casal com dois filhos, bem vestidos e em pose para álbum de família. Atrás, escrita em caligrafia desenhada, uma frase como que tirada de algum oráculo:
“O tempo e o silêncio do tempo falam por meio dos afetos construídos”.
– Uma carta de remetente estranho. Só depois de aberta é que notei que é algo muito pessoal, para você.
Ricardo pegou o envelope, virou-o para verificar o “Remetente”. Um frio lhe percorreu a espinha. Pausa. Dava para ouvir o ponteiro dos segundos. Surgiu, enfim, uma hipótese plausível:
– Deve ser mais uma instituição de caridade pedindo ajuda.
E juntou o envelope com os demais com os boletos de contas a pagar.
A esposa, porém, o alfinetou com uma farpa quase sutil:
– Com certeza, eu vi. É de uma família bem pobrezinha...
Criado em 2020-09-16 01:21:25
José Carlos Peliano (*) –
Contardo Calligaris, falecido dia 30 de março, segundo seu filho Max, disse sua última frase: “Espero estar à altura”. É também o que informa em seu fino texto descritivo e especulativo Maria Lúcia Verdi, O sentido da vida para Calligaris, logo no dia seguinte, aqui mesmo no Brasiliários. Ainda que tenha seu nome colorido em verde, sua narrativa vem sempre ao ponto, nem crua nem malpassada, madura, entre observações e ideias floradas.
Minha simpatia por ele e suas ideias era comparada a que tinha também por Flávio Gikovate, inclusive os tipos eram para mim bem próximos, no mínimo pelas belas cabeleiras brancas, algodoadas. Paro por aqui porque minha intenção não é intercalar os dois nos meus comentários, foi apenas uma impressão pessoal minha aqui exposta sobre suas posturas orais e fisionômicas.
Então, Contardo abordava os assuntos sobre os quais comentava como fosse um cirurgião abrindo espaço num corpo humano para uma intervenção cirúrgica. Passo a passo, ou melhor, mão a mão, dedo a dedo, cuidava metaforicamente do órgão no qual dissecasse sua opinião exposta na mesa da cirurgia do argumento ou do debate. Era meticuloso, detalhista, clínico.
Confesso que li pouco de seus textos e o vi algumas vezes nas redes sociais e na TV, mas foi o bastante para admirar sua segurança, e conhecimento e simpatia. Como se diz, sentia a força de seus argumentos e ponderações. Era geralmente fácil acompanhar seu trabalho de popularização da psicanálise e arredores.
Não sabia que estava internado com câncer e, por conta dele, ter nos deixado órfãos caminhando por esse país destroçado por um desgoverno pandêmico. Logo de manhã no dia de sua morte foi a primeira notícia que vi estampada no celular. Os extremos se tocam: a primeira notícia e a última frase.
Nunca se sabe, ou quase nunca, o significado de uma última frase de alguém que cerra para sempre os olhos, a não ser que ela tenha sido acompanhada de um diálogo por mais entrecortado ou minimalista que seja. No caso de Contardo, imaginei somente a título de interpretação que ele talvez tivesse se referido ao que fez e o que deixou para trás de herança de sua vida. “Espero estar à altura” de sair de cena exatamente com o tamanho no espaço e no tempo de minha contribuição em vida. Eu fico com essa hipótese, pois me agrada mais, sem precisar prová-la a não ser pela licença poética que traz e conforta.
Pois então, me parece que cabe bem essa interpretação da última frase de Contardo em relação ao que foi e representou ele na vida durante seus anos de existência por aqui. E essa opinião não me veio apenas dessa sua última frase, mas de outras, pelo menos duas delas, que escutei e guardo comigo de momentos diferentes e distantes. Até argumento em contrário, acredito que as últimas frases ditas por aqueles que estão saindo da vida têm referência ao que viveram e viram por aqui. Por alguma razão ao abrirem a porta do suspiro derradeiro e saírem, alguns deles declaram seus manifestos.
Meu segundo sogro permanecia internado inconsciente depois de uma complicação cirúrgica. Estávamos somente sua filha, minha mulher, e eu com ele no quarto do hospital quando ele, de repente, senta-se na cama e sem abrir os olhos diz “eu tenho uma missão a cumprir”, deita-se novamente e ali fica ainda inconsciente até falecer poucas horas depois. A princípio essa frase nos surpreendeu, mas depois considerei ter ele se referido à missão de amigo alegre e apaziguador que sempre foi com família, amigos e parentes. De fato, era aquele tipo que todos gostariam de ter conhecido.
Antes de prosseguir, dois detalhes interessantes, tanto meu sogro quanto Contardo e eu nascemos no mesmo dia e mês, 2 de junho, enquanto Contardo e eu nascemos no mesmo ano. Geminianos, em geral comunicativos, versáteis e sociáveis além de muitas vezes curiosos e criativos. Nossa comunidade é representada por mercúrio, o mensageiro de todas as direções.
Meu pai igualmente no leito do hospital antes de abrir a porta para sair da vida estava somente comigo ao lado, também inconsciente. De repente meu pai grita “pepino” sem mais nem menos, enquanto ouço logo após uma freada brusca com som bem alto vindo da rua, como se meu pai quisesse ou fosse completar “que pepino é este para descascar” ou “olhe só o pepino”. Essa sua última palavra em vida que, no caso, denotava uma situação especial na qual ele havia pressentido a freada com anterioridade. Estava ele em outra condição de “vida”?
Por fim, lembro-me de um italiano que conheci num programa de intercâmbio técnico-científico, ele já formado, economista e pesquisador. Me contou que esteve uma vez numa praia do Rio de Janeiro aproveitando para nadar um pouco. Súbito uma onda o enrolou, em seguida entrou uma forte corrente que o levou mais para alto mar. Ele, apavorado, viu com clareza passar em sua mente o filme de toda sua vida. Foi salvo por um guarda-vidas que já o acompanhava. Teria sido o último “filme” de sua vida que não chegou a completar?
No frigir dos ovos, neste domingo de Páscoa, quando se celebra a transformação e a passagem para um novo mundo, nem que seja ao interior de cada ser vivente de renovação de vida, o que fica das últimas frases, palavras ou dos últimos filmes é que parecem ser brados de despedida dos dias corridos por cada um de nós. Se isso vale para a eventual entrada em outras ondas depois de abrir a porta de saída dessa vida, aí é outra história, outras considerações, outra esperança de muitos.
Lembro-me de Mário Magalhães da Silveira, ateu, marido de Nise da Silveira, amigos queridos, que sempre me dizia quando, ao lhes visitar, perguntava como estava indo, respondia: “atravessando”. O quê? Ele: a vida. Eu completava, para onde? Ele finalizava: “para lugar algum”. Dado isso, o que me resta dizer é que o último que se for dessa vida apague a luz, feche a porta e solte seu brado retumbante!
______________
(*) José Carlos Peliano é poeta, escritor, economista.
Criado em 2021-04-04 22:19:54
Roberto Amaral (*) -
Ponderáveis setores da esquerda brasileira, novos e antigos companheiros das lutas democráticas, cobram de Luiz Inácio Lula da Silva o anúncio de um projeto socialista para o Brasil de hoje – embora a revolução, sempre desejada, não esteja posta pelo processo histórico. Lamentavelmente. De Lula, um dos mais avançados quadros da centro-esquerda brasileira, como certificam seus oito anos de governo, o que havemos de esperar é a construção e liderança de uma nova maioria política, fiadora da continuidade democrática, fundamental para a luta dos trabalhadores no Estado burguês. Não é um fim, em si, mas processo sem o qual não retomaremos o projeto de uma sociedade sem classes.
(Ironia da História: são os “subversivos” que, hoje, defendem a democracia no país, contra as ameaças totalitárias dos partidos da ordem.)
Cobra-se do Partido dos Trabalhadores – o maior e o mais sólido partido da socialdemocracia brasileira – um projeto revolucionário que não está no horizonte de seu programa. Sob o comando de Lula, o PT lidera uma coalizão partidária de centro-esquerda, ampla, que mais e mais procura afastar-se das teses encampadas na saudosa campanha eleitoral de 1989, porque de lá para cá o mundo mudou, o país mudou e mudou o próprio PT, tanto quanto mudaram as perspectivas da esquerda brasileira, com a crise do “socialismo real” e as seguidas “diásporas”; e consequentemente as condições de luta pioraram. O PT mudou para vencer as eleições em 2002, e volta a mudar, desta feita para poder liderar uma frente ainda mais ampla, em condições de derrotar o projeto protofascista governante, que nos ameaça com anunciadas expectativas de continuidade.
O pior desatino comete o pretenso revolucionário que supõe poder alterar a realidade ignorando os limites de seu papel como sujeito histórico.
Marx e Sun Tzu - Como lembrava há mais de um século conhecido pensador alemão, o homem faz sua história, mas não a faz segundo os caprichos de sua vontade, de seus sonhos e de sua utopia; ele a faz segundo as circunstâncias com as quais se defronta (Cf. Marx, Karl. O 18 brumário de Luis Bonaparte). Dois mil anos antes, Sun Tzu recomendava aos generais em guerra conhecer previamente o inimigo e o terreno em que pretendiam lutar.
Mudando a conjuntura, as formas de luta também mudam.
Independentemente do PT e de seu líder, nos defrontamos com o recesso das lutas sociais, implicando o remanso da denúncia da luta de classes. A conjuntura internacional vê-se pontuada pela fragilização das organizações revolucionárias, socialistas e trabalhistas, pari passu com o crescimento de apoio popular a movimentos de direita e extrema-direita (vide França, Itália, EUA, Hungria, Polônia), como o que se revelou contundente nas eleições brasileiras de 2018. Entre nós a extrema-direita empalmou o poder cavalgando eleições livres, pela primeira vez. Não se trata de um fenômeno menosprezável, mas de um indicador do nível de consciência das massas.
Cresce o imperialismo como força política, econômica e militar, e esse crescimento pesa sobre o processo social. A agudização do militarismo é uma de suas evidências. É seu o monopólio da informação, de que resulta a unipolaridade ideológica, uma modalidade de ditadura nas sociedades de massas. Limitada em suas opções revolucionárias, a esquerda optou pelo ingresso na institucionalidade, que, lhe dando sobrevida, congelou sua capacidade de intervir na realidade, visando a modificá-la. Perdida a revolução, seu projeto passou a ser modificar por dentro as estruturas, tornando-se, assim, inevitavelmente, um fator da ordem. É uma nova socialdemocracia, substituta daquela que transitou para a direita, no mundo e no Brasil.
Combater qualquer alteração do statu quo, qualquer ameaça de mudança de rumo, mesmo dentro da legalidade, qualquer sugestão de reforma social, passou a ser o projeto retrógrado da casa-grande brasileira, que não convive com alterações, quaisquer, da ordem baseada na superexploração da classe trabalhadora. Daí o combate que travou contra os governos Lula e Dilma, daí seu apoio ao quadro político consequente, daí suas ameaças ao processo eleitoral de 2022, à posse e ao futuro governo Lula, quando o candidato promete colocar o pobre no Orçamento e os ricos no Imposto de Renda. Essa resistência não conhece limite e explica o esforço do Lula candidato de construir, ainda no processo eleitoral, uma coalizão que lhe assegure, além da eleição e da posse, condições de governar, negadas a Jango e a Dilma Rousseff.
Nesta quadra histórica, está reservado às classes populares, organizadas, garantir a continuidade democrática e uma governança que possibilite a retomada do desenvolvimento, a recuperação das conquistas sociais e a preeminência do interesse nacional.
Para avançar, sempre a depender do que seremos e faremos no pós-2022, precisaremos alterar a atual correlação de forças, ampliando, para além de nosso campo, o arco político-social que garantirá a governabilidade a partir de 2023. Somente amparados em uma grande mobilização popular estaremos em condições de promover alterações significativas na estrutura do Estado brasileiro atual, sem as quais será impossível a um governo de raízes sociais descartar os entraves ao desenvolvimento nacional e remover a viciada, para além de nociva, ingerência da caserna atrasada sobre as instituições republicanas.
Tantos anos passados da Constituinte, retorna a discussão essencial sobre o caráter do Estado de que necessitamos para promover o progresso social, tantas vezes contestado pela casa-grande e seu braço armado.
A urgência histórica é a questão democrática, que se materializará na derrota do projeto continuísta do bolsonarismo. É, ao mesmo tempo, a tarefa mais consequente ao nosso alcance, e aquela que mais amplia na sociedade, daí o caleidoscópio de alianças que o ex-presidente intenta costurar com paciência de cesteiro. Porque é necessário ganhar e é necessário ter forças para poder governar e, principalmente, governar sabendo que contará com a resistência da casa-grande.
Nada obstante essas considerações, que aos quadros mais experientes podem tangenciar o óbvio, é preciso ter sempre em conta que a ainda difícil (tanto quanto necessária) eleição de Lula e o retorno do PT ao governo – ainda longe da hegemonia do poder – significarão um grande avanço político (ao qual se associa a esquerda socialista), por representar o avanço possível nas condições concretas. Este avanço possível das esquerdas está abraçado ao sucesso que promete a candidatura Lula.
As limitações óbvias de uma candidatura que, para viabilizar-se, carece de amplas alianças, mesmo ultrapassando as fronteiras de seu arco ideológico, não podem, porém, ser arguidas como inibidoras da ação e do proselitismo das esquerdas, a quem incumbe, na campanha eleitoral, a defesa das teses de nosso campo. Em síntese, compete à esquerda fazer a campanha da esquerda, jamais delegá-la a uma frente ampla cujo núcleo é a socialdemocracia. Toda campanha eleitoral é uma oportunidade de proselitismo. No caso concreto, os socialistas terão de associar a pedagogia ideológica à ação, o encontro ideal de teoria e prática, retornando à organização popular. Organização em todo e qualquer nível, para a ação e o proselitismo e, para, amanhã, responder aos desafios que lhe serão forçosamente impostos pelo processo social.
A deposição de Dilma e o que a partir dessa violência se seguiu não podem ser entendidos como frutos do acaso, nem muito menos pensados como “chuvas de verão”. O programa fascistóide tem raízes em ponderáveis segmentos da sociedade brasileira, sua existência guarda coerência com nossa formação de sociedade (em busca da nação) e país escravocrata, racista e autoritário, governado por uma elite alienada e forânea, descomprometida com os destinos do país e de sua gente. É preciso compreender o caráter do processo histórico para nele poder intervir consequentemente.
_____________________
(*) Roberto Átila Amaral Vieira é jornalista, professor e político brasileiro. Foi ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva
(**) Com a colaboração de Pedro Amaral.
Criado em 2022-05-28 00:43:58
Sucesso desde a sua inauguração em janeiro, o Museu de Ilusões vai retribuir à cidade todo o carinho recebido desde a abertura. Em homenagem ao aniversário de 455 anos do Rio de Janeiro, celebrado no dia 1º de Março, durante todo esse mês os adultos residentes na cidade terão desconto de R$ 21 no valor do ingresso, em referência ao DDD carioca, pagarão R$ 45.
É preciso apresentar um comprovante de residência. Já o ingresso infantil permanece R$ 33. O Museu de Ilusões fica ao lado da estação do Bondinho Pão de Açúcar, na Praia Vermelha, na Urca, e funciona diariamente das 9h às 21h.
Para Ekaterina Bertrand, diretora do Museu, este é um presente especial para os cariocas, que assim como os turistas, se divertem com os cenários em 3D. “Em janeiro e fevereiro tivemos filas em praticamente todos os dias, com muitos cariocas, turistas de fora do Rio de Janeiro e estrangeiros. Percebemos que o aniversário da cidade é uma oportunidade única de retribuirmos o carinho que recebemos aqui. Queremos ver fotos de famílias inteiras nos nossos painéis.”, explica Ekaterina.
O Museu de Ilusões tem 300 metros quadrados e oferece uma experiência interativa, imersiva e divertida para todos. Os visitantes podem mergulhar na cultura do Brasil e da América Latina através dos 42 cenários de ilusões em 3D desenhados nas paredes. Os painéis são desenhados à mão por uma equipe de artistas contemporâneos que utilizam a técnica de realidade aumentada, criando dezenas de ilustrações incríveis.

Sobre o Museu de Ilusões
Depois de Los Angeles, São Francisco e Miami, o mundialmente famoso Museu de Ilusões inaugurou em janeiro a sua mais nova unidade no Rio de Janeiro, no bairro da Urca, ao lado do Bondinho Pão de Açúcar. “Os espaços oferecem uma experiência única a visitantes de todas as idades, permitindo que a imaginação desafie os sentidos. Arte interativa em 3D com as paisagens, transformando fantasia e sonhos em realidade. Seja para uma selfie, uma foto de família, de férias ou de um encontro, suas redes sociais terão os posts mais incríveis depois da uma visita ao famoso Museu de Ilusões”, dizem seus organizadores.
SERVIÇO:
Museu de Ilusões
Endereço: Avenida Pasteur, 520 – Urca – Rio de Janeiro/RJ
Funcionamento: Todos os dias, das 9h às 21h
Ingressos: De R$ 66 (inteira) por R$ 45 (até dia 31 de março) e R$ 33 (meia-entrada).
Aquisição pelo site: https://rioillusions.com/ingressos/
Telefone: (21) 4112-4554.
Criado em 2020-02-29 15:16:36
O Distrito Federal reúne a culinária de todos os estados, trazida pelos brasileiros que, desde a década de 1960, dão corpo à Capital. Esse é o tema da websérie Memórias na mesa, idealizada pela jornalista e chef Lúcia Leão (na primeira foto, abaixo), que comanda o Espaço Cultural Leão da Serra, localizado em uma chácara no bairro Taquari, região Norte de Brasília e marcado pela diversidade da culinária candanga, temperada com muitos eventos culturais.
A primeira temporada estreia no dia 27 de setembro, às 19h, no canal do YouTube Leão da Serra_Memórias na Mesa e reúne oito pratos típicos das cinco regiões brasileiras. À beira do fogão, Lúcia recebe artistas residentes em Brasília, das áreas de música e literatura, que trazem suas memórias, abordam a culinária dos estados de origem e apresentam suas obras.
Todos estão acompanhados pelo DJ e compositor André Ferreira, que perdeu a visão já adulto, em consequência do diabetes. Culinarista, ele facilita a comunicação com as pessoas com deficiência visual, revelando cheiros e sabores dos pratos. O projeto também contempla acessibilidade para a comunidade surda, por meio da legenda.
A cada lançamento dos episódios, Lúcia Leão estará ao vivo com o/as convidado/as para um bate papo sobre a experiência da gravação e interação com os internautas, nas redes sociais do projeto. A direção é de Vicente Sá, com produção da Trupe do Filme.
O projeto Gastronomia Candanga – Memórias na Mesa foi contemplado pelo Edital FAC Brasília Multicultural e tem apoio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal.
___________________
Agenda:
27/09 – Acarajé, Vatapá e Caruru, com o músico Renato Matos (na segunda foto, abaixo)
04/10 – Baião de dois com carne de sol acebolada, com a pesquisadora Ana Rita Suassuna
11/10 – Frango com pequi, com a contadora de histórias Ângela Barcelos Café
18/10 – Canjiquinha, com o músico Roberto Correa
25/10 – Arroz de Carreteiro, com a escritora Maria Lúcia Verdi
01/11 – Pato no Tucupi, com escritora Maria Maia
08/11 – Picadinho Carioca, com o músico Sérgio Duboc
15/11 - Moqueca Capixaba, com teatrólogo Alexandre Ribondi
Redes sociais:
YouTube: Leão da Serra_Memórias na Mesa (https://www.youtube.com/channel/UCcNAwjc-xHtqtIURETNziLw )
Instagram: @gastronomiacandangalucia
Facebook: @Gastronomia Candanga Lucia (https://bityli.com/VpaBtnD )
TikTok: @memoriasnamesa.df
E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.


Criado em 2022-09-23 00:47:14
Roberto Amaral (*) -
Excluída a hipótese do imprevisível - embora no Brasil o improvável sempre encontre formas de alterar o andamento dos fatos, a lógica dos números de hoje e, a partir dela, as especulações dos “especialistas” (na verdade escafandristas do óbvio), indicam que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve assumir a presidência da República no dia 1º de janeiro de 2023.
Mas, talvez, para o comum dos mortais, os militantes, seja desaconselhável considerar o pleito como “favas contadas”, quando quase um ano de justificadas apreensões ainda nos separa da posse previsível e desejada. Até lá, o candidato terá de enfrentar uma longa campanha eleitoral que já se sabe juncada de ataques pessoais, fake news e, assim, violenta e suja, pois nada a não ser o crime e a incivilidade podemos esperar de um processo que terá entre seus polos uma súcia que já nos mostrou do que é capaz.
O bolsonarismo vem desde sempre expondo as mais claras provas de inaptidão para o processo democrático, ausência de limites morais e cívicos; é aconselhável, pois, que petistas e democratas de um modo geral tenham sempre presente a tentativa de golpe no 7 de setembro do ano passado. Desmontado por uma correlação de forças naquele momento desfavorável, não deve ser dado, porém, como descartado pelas maquinações do capitão e seus generais do terceiro andar do planalto. A sabedoria popular ensina que “gato escaldado teme água fria”.
Na disputa eleitoral deste ano, mais do que em 2018 – pois a díade de hoje é reeleição ou cadeia –, o capitão lançará mão sem meias medidas tanto do poder econômico quanto do aparelhamento do Estado, de que agora dispõe para manipular o processo eleitoral; perdido este, como se prevê, não hesitará a extrema-direita, sob seu comando, em procurar mascarar o resultado desfavorável para assim empestear de ilegitimidade o pleito (como intentou Aécio Neves em 2014; como intentou Trump, ícone do capitão, em janeiro do ano passado) e provocar o caos, no qual nada tem por temer, senão tudo ganhar, pois dando-lhe retaguarda está o “braço forte” dos engalanados que fazem sua coorte e se refestelam em um vasto número de sinecuras, como essa que ocupa o general Fernando Azevedo, ex-ministro da defesa de Bolsonaro, nomeado diretor-geral do Tribunal Superior Eleitoral.
O que não deu certo nos EUA não está necessariamente condenado a não dar certo no Brasil. Cautela e caldo de galinha nunca fazem mal.
Em seu programa da última quarta-feira na TV GGN, o jornalista Luiz Nassif trouxe a discussão sobre o golpismo renitente, e denuncia o ministério da defesa, chefiado pelo general Braga Neto (candidato a candidato a vice do capitão) como o centro difusor das conspirações da extrema-direita (à qual está vinculado) quando procura desacreditar o sistema eletrônico de votação, com o claro objetivo de conturbar o jogo eleitoral, a boia de salvação do bolsonarismo em seu naufrágio político.
A propósito, o ministério da defesa, extrapolando suas atribuições, chegou mesmo a elaborar e divulgar um “relatório” no qual estariam indicadas “50 dúvidas sobre a segurança das eleições”. O que tem a ver esse ministério com o processo político, para dedicar-se a especulações sobre as urnas eletrônicas?
A Polícia Federal, em inquérito instaurado por determinação do STF, conclui pela grave acusação de o presidente Jair Messias Bolsonaro, o capitão indesejado, com o auxílio de cúmplices, haver cometido o crime de violação de dever funcional ao expor em declarações à imprensa e em redes sociais dados reservados sobre o sistema de segurança das urnas eletrônicas, “abrindo informações sigilosas para a ação de criminosos em todo o mundo”.
O tom subiu quando o ministro Luiz Roberto Barroso, falando na condição de presidente da mais alta corte eleitoral, na inauguração das atividades do poder judiciário deste ano (dia 1º deste fevereiro), denunciou o crime do presidente (os termos são seus) ao vazar dados que “auxiliam milícias digitais e hackers” a invadir os equipamentos brasileiros. O TSE identifica o crime e o criminoso, e tem comprovada sua culpabilidade; não pode, amanhã, a pretexto de quaisquer conveniências, deixar impune o meliante.
Eleito, a Lula caberá consolidar a posse, a grande preocupação que dominou Tancredo Neves a partir da consagração pelo colégio eleitoral, o pesadelo de Juscelino Kubitscheck em 1955, salvo na undécima hora pelo contragolpe do general Teixeira Lott.
Empossado, precisará governar, o que direita e extrema-direita brasileiras não permitiram a Vargas, Jango e Dilma Rousseff. Porque, no Brasil, o processo eleitoral não se encerra com o pronunciamento irrevogável da soberania popular. Quando se trata da emergência de uma coalizão que se inclina para um projeto de centro-esquerda (mais do que isso não nos é permitido), a nova ordem política, para governar (ademais de dispor-se a rever seu programa de campanha) precisa ter presente os condicionantes de “outros poderes” da República não previstos pela tríade de Montesquieu: o capital financeiro nacional e internacional, os grandes produtores, os interesses do grande império, que atuam por todos os meios, seja mediante o boicote e as pressões, seja através os meios de comunicação de massa (seu aparelho ideológico de luta), seja mediante o controle do Congresso, produto direto da traficância do poder econômico.
Daí a formação reacionária e corrupta de nossas casas legislativas -- com uma maioria sempre a serviço do atraso, da preeminência da casa-grande sobre as classes subalternizadas e do golpismo --, cujo perfil político e moral é traçado pelo que representam grupos de interesses como Centrão, base de poder de figuras do naipe de Eduardo Cunha e Arthur Lira, base do impeachment de Dilma, base de sustentação do bolsonarismo, e seu esteio na campanha eleitoral deste ano.
Lula não esconde que, candidato, sua preocupação é com a governabilidade, daí os acenos a Geraldo Alckmin e a paciência com que negocia com partidos como o PSB, além de velhos e novos caciques políticos, como Renan e Kassab. Para falar aos empresários não precisa mais de uma carta aos brasileiros, pois a fiança é dada pelo certificado de seus dois governos. Desta feita não se trata de trazer para o presente o país do futuro – a expectativa de 2002 -, mas de impedir que o passado continue nos governando. Seu projeto político é a conciliação nacional, a ser perseguida por um governo centrado no pragmatismo político, a um tempo tática e estratégia da governabilidade.
O leitmotiv do pacto é a conciliação de classes, o antigo programa do varguismo, frustrado. É um risco, principalmente quando assim negociado pelo alto, mas é o que temos para hoje. Estamos na fronteira da transição da extrema-direita ao centro subsumido pelo PT (daí a impraticabilidade da “terceira via” sonhada pela direita); é a promessa de, mais à frente, nos candidatarmos a uma socialdemocracia progressista, de onde possa, até, e ainda mais adiante, surgir um projeto socialista. Mas isso está em disputa: a história recente mostra que é muito difícil avançar em aliança com as forças do atraso.
Em sua honra, porém, digamos que o “novo petismo” conserva distância regulamentar da socialdemocracia atrasada, o que é a garantia de que a conciliação não se fará às custas das grandes massas, que, como nos governos Lula e Dilma, voltarão a estar presentes nas planilhas da tecnoburocracia. A biografia de Lula é o penhor desta expectativa, a base de seu programa de salvação nacional, no qual cabem todas as forças políticas (e com todas o ex-presidente procura o diálogo), menos a extrema-direita, cujo destino é o corner no espectro político brasileiro, para onde caminha o bolsonarismo, do qual a Faria Lima, pelo menos momentaneamente, já dá sinais de enfado, depois de havê-lo cevado.
Muito do que poderá ser o esperado novo governo de Lula está a depender, tanto quanto de sua notória competência como negociador, de uma batalha até aqui negligenciada pelas organizações populares e por ele próprio, a composição do futuro congresso. Hoje, por exemplo, os diversos segmentos de esquerda representam um pouco mais de cem votos na Câmara Federal, um colégio de 513 parlamentares. Foi este placar que instrumentalizou Eduardo Cunha em 2016.
Quanto mais tiver de negociar, tanto mais terá de ceder o governo.
O PT conhece, por haver pago, o alto preço cobrado pela governabilidade a um presidente em minoria no Congresso, e sabe muito bem quanto custa a sustentação de um governo quando as graças do apoio popular se tornam arredias. Em todas as crises vivenciadas, nada obstante sua invejável inserção popular, privilegiou as negociações pelo alto e selou compromissos, os quais, todavia, não resistiram ao primeiro movimento da casa-grande. É possível que, agora, aprendida a lição, venha a confiar mais nas organizações populares, promovendo as alianças que se firmam na base social, e que se podem concretizar, como já indicou João Pedro Stédile, mediante a criação de círculos ou movimentos populares autônomos, comités pró-Lula que se espalhariam, desde agora, por todo o país, com o objetivo de, vencidas as eleições, dar sustentação política ao governo. Ademais, poderá garantir que as concessões, sendo necessárias, sejam as menores possíveis.
***
Isis Dias de Oliveira – Completaram-se neste janeiro 50 anos do assassinato de Isis Dias de Oliveira, vítima da ditadura militar, aos 29 anos. Está na lista dos “desaparecidos”. Era presidente da República o general Emílio Garrastazu Médici e comandante do I exército o general Sylvio Frota. Todos enterrados com honras militares. O corpo de Isis foi negado à sua família.
_______________
(*) Roberto Átila Amaral Vieira é jornalista, professor e político brasileiro. Foi ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva.
Criado em 2022-02-05 15:43:04
Neste vídeo, Marilena Chaui explica de maneira lúcida o que é a democracia. Um vídeo necessário para os tempos atuais.
Criado em 2019-12-30 15:58:15
Alexandre Ribondi –
Brasília - Não são os eleitores de Bolsonaro. São os que não votaram nele, mas que obcecadamente têm passado os últimos oito meses à procura de todos os detalhes e todos os possíveis feitos para se convencerem - a si e aos outros - que Lula, Dilma e Bolsonaro causam o mesmo prejuízo ao Brasil.
Vejam, então, em que momento da administração petista, os dirigentes se manifestaram racistas, misóginos, preconceituosos com as pessoas LGBTQ e com os nordestinos.
Qual deles incentivou o trabalho infantil e promoveu o nepotismo. Qual deles quis a volta da censura, o controle da Ancine e o fim dos radares móveis nas rodovias. Quem, de Dilma e Lula, fez campanha pelo armamento, mandou médicos embora do país e entregou Alcântara aos Estados Unidos.
Vejam o mal que isso faz a uma nação. Acreditar que, no extenso espectro da vida política nacional, ninguém é digno de respeito e honra não é maturidade cidadã. É cinismo. É derrotismo. É o alimento fermentado do golpismo doentio.
Criado em 2019-08-12 20:44:50
Marcos Bagno (*)
Há poucos dias recebi meus exemplares da nova edição do livrinho Preconceito linguístico, a 56a. Enquanto abria o pacote, fiz uma conta rápida e me dei conta de que o livro foi publicado há 18 anos, em fevereiro de 1999.
Desde então, já publiquei muitos outros livros, inclusive uma gramática de mais de mil páginas, mas esse permanece como o mais lido, o mais comentado, o mais adotado em universidades Brasil afora.
Quase todo dia recebo alguma mensagem de pessoas que estão lendo a obra e querem dar seu depoimento sobre o impacto que a leitura lhes provocou.
O aniversário me levou a algumas reflexões.
Quando eu e meu querido amigo-xará-editor Marcos Marcionilo publicamos Preconceito linguístico, nem de longe eu poderia imaginar que a pequena obra teria tanta divulgação (ele provavelmente sim, como editor perspicaz que sempre foi!).
A primeira edição se esgotou muito depressa e, desde então, as tiragens vêm se sucedendo, quase uma por semestre. Em 2015, a obra se mudou para sua nova editora, a Parábola, e aproveitei a mudança para fazer uma atualização do texto e, principalmente, para incluir material novo, o que fez o livro ficar bem mais gordinho, quase com o triplo de páginas que tinha antes.
A capa das edições anteriores, com uma fotografia que mereceu muitos comentários de leitoras e leitores que se identificavam com as pessoas retratadas, não pôde ser mantida, mas ainda assim fizemos questão de escolher uma nova imagem que continuasse a exibir as profundas desigualdades sociais do Brasil, desigualdades que são a fonte dos preconceitos.
Publicado em 1999, o livro surgiu nos últimos anos do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, um governo histericamente neoliberal, marcado por uma ânsia de privatizar todo o patrimônio do povo brasileiro e entregá-lo de bandeja aos interesses mais escusos e obscuros.
A corrupção praticada nesse processo, não por acaso apelidado de “privataria”, permanece até hoje impune, blindada pela mídia oligárquica e reacionária, que só vê corrupção no quintal alheio, nunca no seu próprio.
Nem a revelação da existência de várias empresas no Panamá em nome do privateiro-mor e família abalou essa impunidade.
Dos dezoito anos do Preconceito linguístico, a maior parte coincidiu com a implantação de um projeto reformista, conduzido pelo ex-presidente Lula, que lançou o foco, pela primeira vez, sobre a maioria mais pobre da população, fazendo ao mesmo tempo grandes concessões à parcela mais rica, numa tentativa de conciliar interesses que, bem sabemos, são inconciliáveis porque nossa estrutura social, marcada pela extrema desigualdade e por uma profunda exclusão, precisa dessa desigualdade e dessa exclusão para existir como sempre tem existido.
De todo modo, ocorreram importantes avanços sociais no período.
No entanto, como já escrevi num poema, o flautista se deixou iludir por sua própria música: ela não durou tempo bastante para que os ratos fossem definitivamente expulsos, até porque os mesmos ratos ajudaram a compor a melodia.
O pacto feito com alguns dos setores mais corrompidos da nossa sociedade não foi suficiente: os senhores feudais de sempre se cansaram da brincadeira e construíram sua rede de intrigas e mentiras para recuperar as rédeas do poder.
Utilizando métodos próprios das organizações criminosas, os escravocratas de quatro costados deram o golpe, destituíram a presidenta eleita, vomitaram sobre a Constituição de 1988 e agora se empenham em destruir o mais depressa possível o frágil sistema de proteção social construído nos governos Lula e Dilma.
O assalto ao poder maior tem sido acompanhado, em escala microssocial, por uma explicitação nunca antes tão escancarada daquilo que constitui a espinha dorsal das relações sociais no Brasil: o ódio de classe.
Durante longuíssimo tempo, esse ódio de classe se escondeu por trás de mitos zelosamente construídos para disfarçá-lo: o mito da “democracia racial”, do “caráter generoso” dos brasileiros, do “convívio harmonioso” das classes sociais, da “tolerância natural” da nossa gente etc.
Agora, no entanto, com o fascismo plenamente instalado nos três poderes e assumido sem rodeios pela grande mídia, ninguém mais se importa em se ocultar por trás daqueles mitos.
Essa gente que saiu e sai às ruas em defesa de ideias próprias da direita mais retrógrada já não tem escrúpulos em exibir seu ódio de classe, em pedir com todas as letras a morte desta ou daquela pessoa, em dar apoio a criminosos notórios, em expor seu racismo visceral, em pedir a volta da ditadura, em clamar contra as conquistas dos movimentos feministas etc.
As classes dominantes odeiam ver filhas e filhos de pessoas pobres “invadindo” as universidades públicas, até há pouco tempo espaço reservado à prole dos “bem nascidos”.
Elas odeiam ter de dividir os aeroportos e aviões com suas empregadas domésticas, com seus porteiros, suas faxineiras, com essa gente pobre, preta e mestiça que deixa os aeroportos parecidos com “rodoviárias”.
Elas odeiam ter de cumprir os direitos trabalhistas das domésticas, que sempre foram tratadas como quase escravas (e, em certas regiões, como escravas de fato).
Elas odeiam (e mandam matar) os milhões de camponesas e camponeses sem terras que lutam por seus direitos ao trabalho digno e se organizam em movimentos sociais reivindicatórios.
Por tudo isso é que recebo meus exemplares da nova edição de Preconceito linguístico com um misto de alegria e tristeza.
Alegria por saber que a obra ainda tem o que dizer às pessoas que lutam por uma sociedade mais justa e menos violenta.
E tristeza pela mesma razão: como seria bom se todas as situações descritas no livro já pertencessem ao passado!
Desgraçadamente, elas pertencem ao nosso cotidiano mais concreto.
Não bastassem os preconceitos e as discriminações seculares que caracterizam a sociedade brasileira, agora ainda temos que enfrentar novas categorias de violência simbólica, novas perseguições a toda e qualquer forma de democratização das relações sociais.
O Brasil é um país triste. E cada dia mais perigoso e violento.
(*) Marcos Bagno é professor do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (UnB). Escritor, poeta e tradutor, já publicou mais de 30 livros, entre obras técnico-didáticas e literatura. Autor de Gramática Pedagógica do Português Brasileiro - Parábola Editorial, 2012 - www.parabolaeditorial.com.br
Criado em 2017-04-03 19:08:11
Sandra Crespo -
Parar de fumar, só depois de Cuba. Porque parece que todo o mundo vai a Cuba para fumar. Acho que todos os gringos que vi em Havana tinham um charuto no canto da boca. Eu, que nunca gostei de charuto, me senti meio que na obrigação de fumar um, e de sair de Cuba levando uma caixa de “puros”, um verdadeiro tesouro.
Nos imensos lobbies dos hotéis bacanas, todos muito agradáveis e bem decorados, a todo momento chegam os cantores de boleros, salsas e rumbas (e até bossa nova). A música se espalha, joga ritmo à fumaça do tabaco e aos humores do rum, e não poupa ninguém, nem mesmo quem deseja ficar são e sóbrio em Havana.
O saguão do hotel é fresquinho de ar condicionado, e imenso. Mas, mesmo assim, às vezes falta papel higiênico no banheiro.
Saio para fora, para a Praça Non, Gracias. Ali se concentram quatro hotéis cinco estrelas, na entrada da linda Habana Vieja, o imenso quadrilátero que está sendo restaurado primorosamente pelo historiador Eusebio Leal.
Aberta, a porta do hotel traz o bafo de Havana, o calor úmido. Mas isso é mole para quem conhece o Rio de Janeiro. O problema é quando a gente pisa na calçada. “Hablas español?”, “Non, gracias”, “Do you speak english?”, “Non, gracias!” “Parlez-vous français?”. “Non, gracias”. “Falam português? Brasil! El futbol, La samba?” “Non, gracias!!!”.
Não tem cigano em Roma, não tem “guia de turismo” no Senhor do Bomfim, não tem malandro em Pirapora que se iguale aos “jineteros” cubanos na arte de assediar e incomodar e enlouquecer e deixar de saco cheio qualquer ser humano.
Você tá fotografando um edifício lindo e chega o bacana para dizer, “Brasileira, amiga, você não pode perder o festival de charuto!” “Hoje tem festival de salsa, vamos lá, vamos agora!”. “Vamos fazer um tour por Havana na minha bicitáxi, você vai conhecer toda a realidade de Cuba!”.
Todo dia tem dez festivais de salsa e de charuto em Havana. Não dá para aproveitar todos eles em quatro dias.

Mas com o “non, gracias”, a gente acaba conseguindo sair da praça e ver as maravilhas da restauração do Eusébio. E fica torcendo para o trabalho incrível dele chegar nos prédios de Centro Havana, também eles lindos, mas deteriorados. Lá é onde as pessoas vivem.
As pessoas que, com seu trabalho e suor, sustentam a Revolução. As pessoas que se orgulham de ter suas crianças tão lindinhas, tão limpas e arrumadinhas, saindo da escola com o lenço vermelho em volta do pescoço.
Eu queria que o Brasil ajudasse Eusébio a dar um trato também nos edifícios residenciais. Mas sei que isso é difícil, porque os brasileiros não estão acostumados a ser generosos com outros povos.
Eu preferia que isso fosse só uma questão de ciúme. Porque, se estivesse toda arrumadinha, Havana ia ser um páreo duro para o Rio de Janeiro. De tão linda.
Criado em 2017-02-23 20:16:11
Zuleica Porto -
“Explorar a sincronia histórica entre a invenção do cinema e a reinvenção do Japão moderno, utilizando a produção cinematográfica como eixo e espelho”; assim João Lanari Bo define seu objetivo com o minucioso estudo “Cinema japonês – filmes – histórias – diretores”, Giostri Editora, 2016.
Professor de cinema da Universidade de Brasília e também cineasta, o autor alia o conhecimento sobre a arte de filmar ao que adquiriu sobre a cultura e história nipônicas e não somente por meio das vastas leituras de que dá conta em seu livro.
Residindo no Japão durante três anos (2006-2009), Lanari teve a oportunidade de mergulhar na caudalosa produção cinematográfica, e também na cultura da gente que habita o arquipélago do Sol Nascente.
Seu livro é ordenado cronologicamente, desde a chegada do cinema ao país, em 1896, até a caleidoscópica produção contemporânea.
Sempre com o olhar atento à historiografia do Japão, que de uma política de isolamento nacional e regime feudal, passa no final do século XIX a sofrer a influência dos modelos ocidentais, quando se inicia a era Meiji.
Daí em diante, diz o autor, desenvolve-se uma política militarista, conservadora e imperial que vai até 1945, quando dá-se a ocupação pelas tropas dos Estados Unidos.
O mundo inteiro sabe, é o ano em que a bomba atômica lançada sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki estarrece, assombra e marca de forma indelével a história da humanidade.
O trabalho de João Lanari segue sempre esta dupla mirada, cinema e história, sem deixar de lado comentários críticos, dados biográficos e deliciosas anedotas sobre filmes e diretores, atores e atrizes, fotógrafos, roteiristas, de toda a produção mais relevante na cinematografia japonesa.
Esta é classificada em três grandes “idades”, seguindo a periodização adotada por Oshima Nagisa (o autor opta pela ordem nipônica no que se refere aos nomes próprios, com o sobrenome na frente) em seu documentário sobre o centenário do cinema:
• O período de formação, durante as décadas de 20 e 30 do século XX;
• O grande cinema clássico da década de 50, simultâneo ao crescimento econômico do pós-guerra;
• O cinema independente e a chamada “nouvelle vague” japonesa, a partir dos anos 60 ao final do século.
Dentro desta periodização, o livro é organizado em seis Capítulos, assim intitulados: “Inventando o cinema e reinventando o Japão: século XIX e Hiroshima”; “Cinema na ocupação – 1945-52”; “Anos 50 e além – os Clássicos”; “Anos 60 e antes – Rebeldia e Nouvelle vague”; “Anos 70 e 80: ‘Pinku eiga’ e Política”; “Anos 90 e 2000: Bolha econômica e século 21”.
O autor inclui ainda a vasta bibliografia de que lançou mão em seu trabalho, bem como a relação dos diretores e os respectivos filmes citados, constituindo assim o livro um precioso material de consulta para quem quer conhecer e estudar a cinematografia em pauta, do seu nascimento a nossos dias.
Há ainda um esclarecedor glossário de termos japoneses, essencial para leitores e leitoras do Brasil sabermos, por exemplo, que o “pinku eiga” acima refere-se ao cinema “erótico soft-core, muito em voga nos anos 60 e 70”.
Ou para saber que “haraquiri” é a forma mais conhecida no Ocidente do “Seppuku”, ritual suicida reservado aos militares e samurais.
Curioso observar nestes termos duas constantes no imaginário cinematográfico japonês - sexo e morte.
Mas voltemos aos diretores e seus filmes. Do primeiro período estudado, dois nomes são familiares ao cinéfilo ocidental: Mizoguchi Kenji e seus “Contos da lua vaga” (1953) e “Os amantes crucificados” (1954), já produzidos no pós-guerra; e Ozu Yasujiro, que inicia sua produção no final dos anos 20 e no período “clássico” conquistaria o público externo com seus delicados e melancólicos retratos da vida moderna japonesa.
Buscando extrair do cotidiano o que nele há de sublime, trouxe inovações na maneira de filmar, das quais tornaram-se célebres a “colocação inusitada da câmera”, do ponto de vista de uma pessoa sentada no tatame, e os “planos-travesseiro”, “naturezas-mortas” que marcam a passagem do tempo cinematográfico e espiritual.
O terceiro vértice da “Santíssima trindade” do período clássico é o mais conhecido entre nós: Kurosawa Akira.
Assim como Mizogushi e Ozu, sua produção atravessa o período da segunda guerra mundial e a ocupação; é o único dos três a filmar até a década de 90, quando despede-se de nós com o comovente “Madadayo”, de 1993.
Nos turbulentos e revolucionários anos 60 (quem diria então que viveríamos os tempos autoritários e conservadores do século XXI?), em que todo o mundo parece querer reinventar uma nova forma de viver, surge Oshima abordando em seus filmes os dois temas pulsantes nesse desejo de mudança – sexo e política.
Qual o mais polêmico entre eles, “O império dos sentidos” (1976) ou “Merry Christmas, Mr. Lawrence” (1983)?
É ainda nessa década que surge o cinema de Imamura Shohei, mais conhecido no Brasil por “A balada de Narayama”, realizado já nos anos 80.
Lanari faz uma extensa análise crítica da obra, extensa e diversificada, deste cineasta, impossível de reproduzir ou sintetizar neste pouco espaço que me cabe.
Como o faz quanto aos diversos cineastas, estilos, gêneros e suportes que se seguem, dos anos 70 até nossos dias, mergulhando o leitor numa cultura que hoje influencia cada vez mais o pensamento e estilo de vida ocidental.
Pois, malgrado o desejo separatista que insiste em construir muros, reais e simbólicos, somos, cada vez mais, uma aldeia. Conturbada e conflituosa, mas aldeia.
No vasto universo de produções – filmes, vídeos, games, e o mais que se inventa a cada dia – uma ausência a lamentar: a de mulheres cineastas, pois apenas um nome feminino surge em todo o livro, o de Kawase Naomi, como a ressaltar a “tradição masculinizante” da sociedade japonesa.
Para quem ama o cinema das diversas latitudes, para quem quer conhecer a história do Japão e de seus cineastas, para quem tenta entender o mundo turbulento que nos cabe viver hoje, uma leitura enriquecedora e fascinante.
Criado em 2017-01-30 02:09:21
Maria Lúcia Verdi –
“Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te cedo e no dia bebemos-te à tarde
e bebemos bebemos”
(Fuga da Morte, Paul Celan, poeta romeno,
no centenário de seu nascimento/1920-1970)
Aquela coisa que te acompanha, além da sombra, a consciência da morte. Aquela coisa que dança entre velamento e desvelamento, o que é? É a pergunta sem fim. O medo sem vocalização, paralisado, a angústia sem nome, muda e transparente.
Aquela coisa vem quase sempre unida à outra, também velada e desvelada, a poesia, essa imersão súbita na luz, na glória do instante, na falta de palavras frente a um fato transcendente, uma luz inesperada.
Aquela coisa, a primeira, a além da sombra, companheira como ela, espanto, te invade inadvertida, aguda como longo salto em mar profundo, tu, nadador neófito.
Aquela coisa, a poesia, também espanto, te agarra pela mão, te salva da imersão absoluta, sem retorno, naquele mar-tempo, naquela consciência do nada e do absurdo, te salva por instantes, mas te salva, te faz respirar.
Aquela coisa, a pergunta sem fim que te acompanha desde sempre, se recoloca, se redefine, ecoa como grito intolerável, atualizada, sangrando, instantânea, frente a fatos que escancaram o horror cotidiano, além da lógica, além da explicação, fatos que te tiram o ar, te paralisam, fatos que impossibilitam, negam, tornam sem sentido, supérflua, banal, inútil, despropositada aquela outra coisa, a poesia.

Criado em 2020-11-22 23:19:11
Angélica Torres –
Após assistir a dois vídeos, ontem, o de Daniel Silveira enaltecendo os de pele branca “caucasiana”, o outro, hoje, sobre o descalabro das injustiças cometidas com os negros brasileiros, extraído da reportagem do último Fantástico (até a TV Globo se posicionando sobre o assunto...), me lembrei de um episódio nada agradável que vivi, mas digno de registro, o que fiz num depoimento nunca publicado.
A blogosfera e a mídia independente apenas começavam a tomar corpo na época; o jornalismo ainda se concentrava na imprensa tradicional. Assim, arquivei o texto no computador e na memória o fato, conhecido só entre a família. Nas poucas vezes que depois o reli, sentia impulso de achar um espaço onde publicá-lo. Pois eis que chega a hora, porque, se não se pode mudar a tenebrosa realidade atual, ao menos expressar o lado que se toma nas encruzilhadas medonhas da História, ainda se pode.
Minha filha sofreu dois assaltos de carro, no mesmo dia, no espaço de dois meses. Parece cabalístico, coisa do mundo dos ocultistas, mas, na verdade, a vala é bem mais embaixo. Entra-se num submundo interessante pra quem gosta de ler Rubem Fonseca; já, vivê-lo como personagem são outros quinhentos.
Na primeira vez, encontraram o carro em uma pequena cidade vizinha, no dia seguinte ao assalto. Fomos lá recuperá-lo com gosto de prêmio na boca – amargo, é vero: o real é que passamos de pessoas a números, engrossando as estatísticas do terror. Era encarar, que outro jeito.
Para que pudéssemos levar o carro era preciso que ela identificasse o agressor. Deram-lhe um álbum com fotos dos marginais procurados em toda a região. Todos na faixa entre 18 e 25 anos, mulatos mais que negros, e ele, o “Marquinhos”, chamado assim mesmo, com intimidade pelos policiais da delegacia, estava estampado naquela galeria, e ela o reconheceu.
A delegada, uma gata de 27 anos, loura de verdade, magrinha, feminina, mas machona, entende?, elegante num tailleur preto e calçando um clássico scarpin com saltos agulha de 10cm, mostrava um domínio de bestificar sobre os marmanjos subalternos dela. Mandou que fossem atrás do garoto e determinou que não sairíamos sem que minha filha o identificasse por trás da porta com visor, que a protegia de ser vista por ele.
Armaram uma arapuca, auxiliados pelo “amigo” que ajudou Marquinhos no assalto e, para absoluto constrangimento nosso e impressão de que virávamos personagens de um filme do Afonso Brazza, do tipo Gringo não perdoa, mata, chegam pouco depois com o assaltante debaixo de tapões. Nós duas, implorando para acordar daquele pesadelo, escutamos os gritos, vindos da outra sala por onde entraram com ele.
Pedi com coração de mãe que não batessem no garoto e enquanto esperávamos o final da operação da “caça”, assuntei a carteira – da grife Redley –, encontrada pelos policiais que acharam o carro, e descobri que Marquinhos fazia aniversário naquele exato dia. Filho de mãe solteira, 25 anos, fichado como ladrão, era visto na delegacia como um sujeito que gostava de se vestir bem, ter carro e grana pra sair com as namoradas.
Marquinhos, de nome próprio composto e dois sobrenomes que soavam como os de uma família de classe média, era um playboy do mundo do crime, sem registros, ainda, de violência às vítimas, “mas que precisa apanhar, sim, porque é safado, não tem que ter pena, não; eu mesma já dei uns tapas na cara dele e ele não aprende”. A fala é da delegada bonita, valentona, certamente saída de uma fantasia tecida na plateia de um filme de Rambo.
Senti pena e não desprezo ou raiva daquele menino, capturado pelas ambições de uma sociedade consumista, mas que, com isso, sinalizava o claro desejo de fazer parte da “casta de privilegiados”, com direito ao básico da dignidade – educação, trabalho, moradia decentes –, antes do plus: a permissão à vaidade.
Bom, Marquinhos acabou entrando para a história da grande galhofa da minha própria história. O episódio rendeu pano pra manga e fomos no dia seguinte à delegacia central, no Plano Piloto, onde ele ficaria preso até ir a julgamento, pensávamos. Não é o caso de discutir aqui se Paulo Coelho vale um alquimista que transforma palavras em rios de cédulas, mas, Viridiana, judaico-cristã-samaritana, lá vou eu para aquela delegacia com o exemplar de um livro dele, de leitura fácil e indução a sonhos adolescentes, e um cartão com dedicatória edificante, mas sem moralismos, para dar de aniversário ao ladrão do carro, que poderia lê-lo enquanto estivesse na cadeia.
Nas cinco salas em que entramos e por onde correu o processo passei por louca de romance. “Mas como é que a senhora pensa que a falta de escolarização, emprego, condição de vida e inexistência de terapeuta, missionário, curandeiro de alma, nas cadeias, é que faz aquele tipo de bicho ruim existir, dona”? E tome gozação pra cima de mim. “Malandro tem que tomar é porrada mesmo, e muita porrada, porque eles são a parte podre da sociedade, madame. Aqui não tem conserto, não”.
E se você argumenta com aqueles policiais: “Engraçado, eu sei de muito ladrão podre de rico, que é político, parente de político, empresário, que está aí levando vida muito boa, passando longe do xilindró, e será que os senhores pensam, então, que é essa a parte sadia da sociedade?”. Eles se entreolham mudos e te olham sem um pio, desconfiados, prestes a te levar, não para a cadeia junto com o ladrão do seu carro, mas para um hospício.
E se rola um segundo assalto com a mesma pessoa, no mesmo carro, no mesmo reduto e dia do mês, um mês depois do acontecido, embora por outro ladrão, então, você acha que está mesmo a ponto de baixar num hospício, porque começa a caraminholar que os policiais podem ter parte nessa história, pra poderem rir da sua cara e te provocar, tá vendo só, dona, a piedade que essa raça safada merece?
Ué, polícia pra quem? Quem precisa de polícia?
Moral da história: pau que nesse mundo nasce torto, porque nasce pobre e preto, tem que morrer torto mesmo e azulado de tanto apanhar e levar bala. Mau que nasce morto é mais seguro, então o extermínio é a fórmula ideal. E você, a romântica, a babaca, que sente pena de gente que é condenada a ser bicho, por abandono, por descompromisso, por calhordice da elite governante, há outro lugar nesse mundo cão pra você, que não o hospício? E isso tudo sem falar no trauma que fica na mente e no coração da vítima, que é sua própria filha.
Ah, Lula, conspira esse seu Projeto de Segurança Pública com competência, mas, sobretudo, com sensibilidade e visão humana.
Abril de 2002.
Bem, o que mais espanta hoje é constatar que muito se conseguiu mudar no país, de 2002 até 2013 ou 14; no entanto, a cabeça de muitos cidadãos – e não só os do bloco bolsominion! –, continua a mesma da era anterior.
Haverá alguma saída de decência para a sociedade brasileira algum dia? Alguém me diga.
Criado em 2021-02-23 02:05:39
Romário Schettino –
As muitas novidades que surgiram nesta semana que passou nos cenários nacional e regional ajudam a entender os rumos da política brasileira nos próximos 18 meses. Os atores envolvidos nesse xadrez sabem que não há tempo a perder.
Lula, antes de partir para o Nordeste, passou várias horas costurando alianças no Rio, São Paulo e Minas Gerais, estados em que o PT pode, e deve, abrir mão da cabeça de chapa tanto para governadores quanto para a vaga do Senado. Em 2022 será eleito apenas um senador por Estado.
No Rio, Lula conversou animadamente com lideranças comunitárias, com artistas (na foto, abaixo) e manteve encontro com a direção do PSOL. Lula almoçou também com o prefeito Eduardo Paes e o deputado Rodrigo Maia, ambos ex-DEM e agora no PSD de Kassab.

No estaleiro de Niterói, Lula conversou com funcionários, fez críticas à redução de vagas no setor da construção de navios e prometeu, caso seja eleito, recuperar os empregos perdidos na indústria naval brasileira.
Ainda no Rio, o principal lance ficou por conta da filiação do deputado federal Marcelo Freixo, ex-PSOL e agora no PSB. A ideia é construir uma frente a mais ampla possível em oposição a Bolsonaro no estado onde ele possui um feudo composto de milicianos, policiais e setores evangélicos. Outro político de peso que deve entrar no PSB é o governador do Maranhão, Flávio Dino, que sai do PCdoB para fortalecer a candidatura Lula.
Existem outros nomes da oposição para encabeçar a chapa fluminense para governador, como o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz. Tudo deve depender do desempenho nas pesquisas daqui por diante.
Vivaldo sai do PDT
As movimentações partidárias continuam a todo vapor. Depois da entrada do ex-deputado Jean Wyllys no PT, ontem foi a vez do ex-deputado Vivaldo Barbosa (na foto, abaixo). No ato de assinatura da ficha de filiação, em evento no Rio com a presença de Lula, Vivaldo disse que “o PDT já não é trabalhista tampouco brizolista. Hoje, o PT é o caminho para o trabalhismo. Quem defende as bandeiras do trabalhismo é o PT: votou 100% contra a reforma da previdência e contra a trabalhista. É O PT que defende uma política de desenvolvimento nacionalista, com defesa de nossas estatais."

O filho do ex-presidente João Goulart, João Vicente, e Leonel Brizola Neto, também preparam suas filiações ao PT para mais adiante, quando concluírem seus arranjos locais.
Motociata financiada
Outra agenda de destaque foi a do candidato à reeleição Jair Bolsonaro, que teve sua filiação vetada pelo presidente do Partido Patriota. O assunto está, portanto, judicializado. Além disso, Jair andou de motocicleta no dia dos namorados, fez aglomeração, não usou máscara e foi multado pelo governador João Doria. Esse passeio motociclístico custou mais de R$ 1 milhão aos cofres públicos.
Jair ainda tratou, de forma humilhante, o ministro da Saúde, como “o tal de Queiroga” que estaria editando um decreto para liberar o uso de máscaras a quem já foi vacinado. Em seguida, voltou atrás e desdisse o que disse.
Para fechar a semana, Bolsonaro foi vaiado ao entrar num avião da Azul para fazer campanha política. Foi rechaçado, e a empresa aérea foi duramente criticada nas redes sociais.
CPI da Pandemia
Na CPI da Covid, o relator Renan Calheiros ouviu dois cientistas de peso: Natalia Pasternak (na foto, abaixo) e Claudio Maierovitch. Ambos deram aulas aos senadores governistas contra o uso irresponsável e criminoso da cloroquina. Ao final, Renan anunciou que vai transformar testemunhas em réus, um deles é o ex-ministro Pazuello.

O revelado “gabinete paralelo da saúde” fez sucesso e o deputado Osmar Terra (MDB-RS) é o foco das investigações neste momento. Será convocado para explicar o seu papel ao largo do Ministério da Saúde.
A quebra de sigilos telefônico e telemático de Pazuello, Ernesto Araújo (ex-Relações Exteriores) e membros do gabinete paralelo arrepiou a turma. Foram ao STF tentar a suspensão da quebra do sigilo, mas perderam. Há suspeita de que muita grana [bilhões de reais] rolou nessas transações tenebrosas da cloroquina e do kit tratamento precoce.
Os crimes de Bolsonaro já estão enumerados e dificilmente ele ficará impune no relatório final da CPI.
Bolsonaro não escapará também do processo no STF, que investiga uso de recursos públicos no chamado “gabinete do ódio”, que atuou contra as instituições democráticas. O ministro Alexandre de Morais está no rastro do dinheiro que alimentou, e alimenta, essa conta que poderá chegar à primeira dama e arredores.
A denominada Cova América começa sob protestos e teste positivo em 15 jogadores da Venezuela e quatro bolivianos. O perigo comprovado está em campo.
No dia 19 o movimento social vai às ruas com mais um “Fora, Bolsonaro Genocida!”
A próxima semana promete ficar ainda mais eletrizante.
Criado em 2021-06-13 22:32:07
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Guia Musical de Brasília nº 9 – Em 1985, o trompetista Moisés Alves saiu de Campina Grande, na Paraíba, e vingou em São Paulo, quer dizer, em Brasília. Aqui Moisés aprendeu que a música une as pessoas, independentemente de raça, credo ou política. É o que ele conta nesta entrevista.
Guia Musical – Por que você veio para Brasília?
Moisés – Coisa de nordestino, o pai diz “Vamos ver se meus filhos vão vingar lá em São Paulo… São Paulo é todo lugar fora de Campina Grande, pode ser o Rio, Belo Horizonte, Goiás… Brasília vale também!
Família de músicos?
Meu pai tocava trombone de pisto na Banda Municipal Euterpina de Timbaúba, Pernambucano, onde minha mãe o conheceu. Os filhos, evangélicos da Assembleia de Deus, que tem uma escola tradicional de música… Eu sou exatamente filho disso.
Irmãos?
Sete. Um deles, mais velho que eu dez anos, trompetista, tocava em banda de baile em Campina, eu sempre acompanhava. Mas meu primeiro professor foi um sujeito chamado Bolinha, Ivaldo Amado. Era da Igreja e gostava de tomar uma cachacinha. O pastor tolerava porque ele dava aula, estava equilibrado. Só que em fevereiro ele sumia pra tocar carnaval. Descobri isso anos depois, numa master class em João Pessoa, conversando com o maestro Duda, do frevo do Recife. Perguntei se alguém conhecia o Bolinha, Duda se levantou e disse: “Foi meu primeiro trompete”! O Bolinha me inspirava confiança, tinha amor à música e uma banda chamada Clarins do Senhor. Ele botava muita fé em mim, mas eu era muito preguiçoso, até hoje.
Ah, você é da escola do Dorival Caymmi!
Quem dera! (Risos)

Como foi o começo em Brasília?
O meu irmão José Alves, saxofonista, que não seguiu carreira, me incentivou a continuar tocando. Quando chegamos, fomos morar em Sobradinho, onde a Assembleia de Deus, coincidentemente, tinha uma banda sinfônica maravilhosa. Foi o que abriu meus olhos para a música erudita. O primeiro trompete da banda é o Gedeon Lopes, também primeiro trompete da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional. Ele foi meu professor, e quem percebeu que eu precisava melhorar muito, pois eu não sabia quase nada de teoria. Outro de lá foi o Vadim Arsky, saxofonista, professor da UnB. Na época ele me botou para ensaiar, ainda sem tocar. A mesma coisa aconteceu na Brasília Popular Orquestra, a Brapo, com o maestro Manoel Carvalho de Oliveira. Comecei ensaiando, sem saber tocar ainda, dessa vez o jazz, a música popular. Junto com isso veio a Orquestra Cristã de Brasília, a OCBrass, com o maestro Joel Barbosa. No meio, eu fiz alguns cursos de verão na Escola de Música, com professores de fora, russos, americanos. Tudo isso foi uma explosão de amor. Brasília me deu todas essas oportunidades num período curto.
Que peças vocês tocavam na Sinfônica da Igreja?
Jesus, Alegria dos Homens, do Bach; Aleluia, do Haendel… A gente tocava também uns dobrados, mas ali eu aprendi o vocabulário do trompete clássico, já almejando entrar na Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional. Quando vi a orquestra do teatro a primeira vez, em 1985, de 16 para os 17 anos, fiquei impressionado. O maestro Emílio de César estava regendo a Quinta do Beethoven. Foi mágico! Eu chorei e pensei: “É isso que eu quero para a minha vida”. Quatro anos depois, eu passei no concurso.
Quem era o regente da Orquestra?
O Cláudio Santoro. Eu passei no concurso com ele, e ele gostava de mim.
Uau, o Santoro compôs 14 sinfonias!
Sim, e eu gravei as Sinfonias 8 e 9 dele com a Filarmônica de Goiás. Quando fui convidado, eles nem sabiam que eu tinha tocado com ele. Me pediram uma entrevista para falar disso.
Quer dizer que os comunistas fazem acordo com os evangélicos, o Santoro com o Moisés! (Para quem não sabe, Santoro foi membro do Partido Comunista Brasileiro)
Sempre! (Risos desbragados) Eu morei em Cuba! Daí já dá pra ver que tem acordo.
Ah, então foi o Santoro que te desencaminhou!
Exatamente! É porque o seguinte: a música, ela fura, penetra no meio das contradições da sociedade, da política, do racismo. Imagine uma moça milionária que foge com um cara pobre que toca trompete, como na canção Ligia Elena do Rubén Blades. (Moisés começa a cantar a salsa intelectual do compositor panamenho):
Ligia Elena la candida niña de la sociedad
Se ha fugado con un trompetista de la vecindad
El padre la busca afanosamente
Y lo esta comentando toda la gente
Y la madre pregunta angustiada
¿En donde estará?
A música tem o poder de juntar pessoas com pensamentos diferentes, isso é profundo. Por isso valorizar a cultura e a música é coisa de Deus! (Risos)
E a carreira na Sinfônica do Teatro?
O Santoro começou a cobrar de mim uma posição. Eu era o quarto trompete, o Gedeon era o primeiro. O Santoro de olho em mim… quando o Gedeon faltava… Os Choros 10 do Villa-Lobos tem um solo de trompete muito difícil. Eu estudava a peça em casa, pensando – “Vai que um dia o Gedeon adoece, ou o ônibus quebra…” A gente usava o ônibus 591 de Sobradinho. Um dia o Gedeon falou, e o Santoro não teve desculpa: “Moisés, você vai pro primeiro”! Eu fiquei muito nervoso, suei… Imagine, os Choros nº 10 do Villa-Lobos com o Cláudio Santoro na regência, o Madrigal de Brasília atrás de você cantando aquelas frases indígenas que o Villa-Lobos escreveu, coisa muito bonita!
Ele inventou, né!, todas aquelas onomatopeias – Jakatá, kamarajá,/ Tayapá, kamarajó, / Ti, Tu, Ti, Tó, Ti, Tu, Kayá! / Tékéré, kiméréyé… (Risos desbocados)
… E do nada sai o solo do trompete no meio, super difícil, bonito. Eu fiz! Quando terminei foi um carimbo. Toda a Orquestra começou a me respeitar. “Esse rapaz aí vai longe”! Não deu outra. Até hoje eu substituo o Gedeon, meu grande amigo, eterno professor e colega de estande. A gente agradece ao Santoro por ter sido um cara visionário.
E a sua estreia na música popular?
Bem, veio a bendita música popular, e de novo a Igreja participa. As irmãzinhas e os irmãs da Igreja começam a cantar no meio do culto, e tem um irmão do Nordeste cantando um baiãozinho por trás. Daí o meu instinto indica que ali cabe um solo de trompete, embora a linguagem não seja a mesma do Villa-Lobos. Eu comecei a arriscar uma nota aqui, outra ali, e passei a frequentar lugares não muito cristãos, o Clube do Choro e o Gate’s Pub na Asa Sul, por exemplo. Conheci então um venezuelano chamado Eladio Oduber, que me apresentou ao grupo cubano Irakete (fundado por Chucho Valdés) e o cantor panamenho Rubén Blades. Comecei a ouvir a música latina, a salsa, o danzón, o mambo. Sete anos depois fui morar em Cuba.
Por quê?
O governador Cristovam Buarque convidou a maestrina cubana Elena Herrera para reger a Orquestra Sinfônica, e eu me dei bem com ela. Um dia ela resolveu fazer um concerto em Cuba. Quando pisei no aeroporto de Havana, senti algo profundo, percebi que ia viver ali uma vida musical. Aconteceu! Toquei com a Sinfónica de Matanzas, com a Sinfónica de Havana, e também com grupos tradicionais de salsa. Isso foi de 1997 para 1998, quando os velhinhos do Buena Vista Social Club estavam começando a estourar mundo afora. Eu toquei com grupos parecidos, no mesmo estilo. Eu via isso nas ruas de Havana, nas ruas de Matanzas, onde tem um candomblé, e tudo isso eu sendo cristão, sem problema nenhum. Por isso eu digo que o poder da música vai além do preconceito religioso e das posições políticas.
E na volta?
Em fevereiro de 1998, voltando, encontrei o produtor do Só pra Contrariar, o Alexandre Pires, um pianista que me conheceu tocando no Gate’s. Ele perguntou se eu não gostaria de tocar no SPC. “Que é isso, rapaz, eu não estou com o nome sujo, não”! (Risos) SPC era o apelido da banda. Ele me deu um cartãozinho, eu pedi licença da Orquestra Sinfônica e entrei na banda, que estava no auge. Depois eu voltei à Orquestra, voltei a gostar da música erudita. Hoje eu vejo que todas essas oportunidades tinham potencial. Foi assim quando eu conheci o Silvério Pontes, parceiro do Zé da Velha, e fui aprender a tocar choro, e nunca mais parei.
E a sua experiência de professor?
O Carlinhos Galvão me convidou para um curso de verão na Escola de Música, e eu indiquei o grande trompetista Daniel d’Alcântara. Dois anos depois, em 97, o Daniel não pôde vir e me pediu para substituí-lo. Pronto, a partir daí comecei a dar cursos em Pelotas, Gramado, Assis (São Paulo), Curitiba, São Luís, João Pessoa. Até em Cuba eu dei master classes de música erudita. Repassei a eles o que eu tinha aprendido com o primeiro trompete da Orquestra Sinfônica de Boston, o Charles Schlueter, um mestre.
Como está sua vida hoje?
Continuo na Sinfônica, na Igreja e no Mundo Vivo Galeria, na 413 Norte. Gravando muitos vídeos, com o Vítor Santos, com a Banda Nacional de Gendarmería de Buenos Aires, e com algumas big bands dos Estados Unidos.
Ô, Moisés, dos grandões do trompete, de quem você gosta mais?
Ah, do Wynton Marsalis, grande músico, grande professor!
Criado em 2021-12-21 13:55:59
Luiz Martins da Silva –
Misto de encanto e decepção. Pode algo ser assim? Pois, foi.
Eu tinha de onze para doze anos quando o meu pai chegou mais cedo em casa e disse para a minha mãe se arrumar e eu, também. Íamos conhecer a televisão. Como assim? Sim, fôramos convidados e, convidados especiais. Seríamos somente nós, o casal e o menino ‘que está no colégio’, questão social, não entendi bem, não seria uma seção para muita gente. E, no conforme, lá, fomos, à casa do prefeito.
No caminho, minha mãe implicava, pelo menos pela décima vez: “Que arrumação é essa? Aí, tem coisa!”
– Tá bem, mulher – falou o meu pai, num tom que iria abrir o jogo. “Deve ser porque lá em casa somos sete eleitores e, no ano que vem, na data das eleições, oito”.
– Tá vendo! – implicou, de novo, a minha mãe.
– Que mal tem nisto? O homem só quer ser gentil com a gente, ele disse que é uma maneira de receber bem uma família de fora que veio morar aqui, disse que achava bom a gente conhecer logo o prefeito.
– Já vi todo tipo de presepada de político, sapato, dentadura, vale de compras... Mas, esta de cativar voto mostrando televisão...!
E por mais que o meu pai pedisse – “Não vamos chegar brigando à casa dos outros!” –, não adiantou. Minha mãe fez birra até chegar lá. Ora, que perda de tempo, veja se isso era maneira, ir de noite à casa de desconhecidos, casa de gente rica, cheias de rapapés e cerimônias.
De minha parte, estava curioso e já possuidor de um certo orgulho, na escola vários meninos e meninas se gabavam de ter televisão em casa, uma mentira, certamente. Pelo que o meu pai contava, a única casa da cidade que tinha televisão era a do prefeito.
Eu já conhecia as virações do meu pai e desde cedo eu o compreendi. “Ter filhos em idade de trabalhar e não ter emprego pra eles”. Vez por outra, eu até me envergonhava, aparecendo uma chance era ele a pedir: “Arranje uma colocação para um filho meu!”. E tome a falar de ‘conhecimentos’ dos rapazes: um tinha experiência de balconista das Casas Pernambucanas; um outro, era fotógrafo com experiência; um terceiro, sabia ler, escrever, contar... Àquela noite, porém, o meu interesse estava garantido, ia conhecer a televisão. Afinal, ela fora inventada [inaugurada no Brasil] em 1950 e era um atraso, dez anos depois, a gente ser que nem os matutos que acreditavam existir ‘um hominho dentro do rádio’ e, ‘agora’, um cinema dentro de uma caixa.
Pouco antes de chegarmos e tocarmos a campainha, minha mãe ainda se queixou: “Tivesse avisado antes, tinha lavado e passado uma roupa boa”. Ora, se aquilo era coisa que se fizesse, chegar na casa de gente rica parecendo uma mendiga. “Ele convidou, eu não ia fazer uma desfeita” – defendia-se meu pai.
O prefeito abriu a porta e fez um escarcéu, nos tratou como se fôssemos, de fato, pessoas muito distintas. “Sejam muito bem vindos! A casa é de vocês, vamos entrar, fiquem à vontade...”. E a mulher do prefeito: “Muito prazer, vão se sentando, já vou providenciar um lanche para nós”. Um pouco mais ao fundo da sala de visitas (nunca vira tantos móveis bonitos!), uma jovem senhora, com uniforme de mescla azulada, rendados brancos e mãos para trás aguardava os comandos: “Cidinha, pode coar o café, aliás, traga antes um suco de laranja para os nossos convidados”.
De minha parte, mal ouvi o que conversavam, o que preparavam, arregalei os olhos para o “aparelho de televisão”. Estava desligado. Não fosse a tela, parecia um móvel qualquer, uma espécie de cômoda, console, não sei bem como é que se chamava aquele tipo de objeto, mas já sabia se tratar de um “eletrodoméstico”. A verdade é que eu já lera uma reportagem, colorida, na revista O Cruzeiro, muito bem ilustrada sobre aquele ‘milagre da tecnologia’.
A mulher do prefeito convidou minha mãe para conhecer a casa e, por pouco, não se confirmou uma desconfiança dela: a madame estaria precisando de mais uma empregada. Não era, eles precisavam mesmo era de mais eleitores.
Eu fiquei sozinho na sala, afundado num sofá, tão grande que as minhas pernas tinham de ficar esticadas e os pés não alcançavam o assoalho, achei tudo muito bonito, mosaicos de desenhos e cores lindíssimos. Em cima de uma mesa de centro com tampo de vidros vários livros e revistas, mas não mexi em nada, não se devia fazer isto, a menos que oferecessem. E, enquanto eu aguardava os protocolos, a senhora com farda de mescla chegou com um copaço de suco de laranja, bem geladinho.
O prefeito, coisa estranha, chamou o meu pai para ir com ele ao quintal. Mas, logo em seguida, entendi porquê. Vieram me chamar também, era para ver a torre da televisão, ou melhor, a “antena”. O prefeito explicou a mão de obra que dera, quantos homens haviam trabalhado na obra, parece que até um engenheiro viera supervisionar, o detalhe é que o município não era coberto pelas micro-ondas, algo assim, então, para pegar o sinal que vinha da capital era preciso toda aquela edificação, a torre era ‘chumbada’ sobre uma sapata de cimento para suportar ventania e não balançar muito, pois isto também afetava a “recepção”. Aquilo parecia mesmo era uma torre de extração de petróleo, daquelas que eu sabia, do livro de Geografia.
Para mim, o que atrapalhava a recepção era que eu imaginava que íamos chegar e a TV já estar ligada, quem sabe, ‘passando’ algum um jogo de futebol. No cinema, no Canal 100, a gente já conhecia as maravilhas do cinejornal, mostrando em detalhes as jogadas e os dribles dos maiores craques, Garrincha e Pelé.
Finalmente, todos na sala, como convinha e eu tanto esperava. Servido o café com pão de queijo e biscoitinhos, a televisão foi ligada. O prefeito girou o botão, como se fosse cortar a fita de alguma obra a ser inaugurada. De início, um ‘toin..nn..nnn’ e... Apareceu a imagem. Mas, que decepção! As cenas pareciam que tinham sido filmadas sob uma nevasca e o som era irritante, só com muito esforço se entendiam as falas e as músicas eram muito lentas, muito tristes, um repertório de canções do tipo valsas... Eu parei de contar quantas vezes o prefeito se desculpava em relação ao chiado do aparelho:
– Que pena, ontem estava tão bem!
A TV não estava bem. E, os cantores, todos de terno, muito quietos; as cantoras, também, numas toadas muito paradas. Em nada lembravam as ‘loucuras’ do twist, a nova onda que ‘varria o mundo’, segundo as matérias de O Cruzeiro. O volume tinha de ser baixinho, porque se o aumentasse, o ruído também crescia e atrapalhava a conversa.
Para nosso consolo, o prefeito não pediu votos; a madame não era pernóstica, nem arrogante. Meu pai não pediu “colocação” para os filhos e minha mãe, toda alegre e falante, parecia outra pessoa, falava orgulhosa do que sabia fazer: bordado, croché, tricô, costura para homem e mulher, só não falou de culinária, pois nisto ela não era mesmo muito prendada, lá em casa a gente sabia. Permaneci um tanto deslocado e sem assunto. Se o prefeito tinha filhos, não apareceram. Até que a senhora da casa, muito educada, sugeriu que eu ficasse mais perto da televisão para usufruir melhor da programação. Fiquei, mas, confesso, um tanto decepcionado. Todavia, não o demonstrei. E perguntas a este respeito não faltaram:
– Tá gostando? – a todo momento queriam saber. Ao que eu confirmava, com muita ênfase: “Sim, estou apreciando bastante!”.
A volta para casa foi meio silenciosa. O meu pai ressaltava as qualidades do prefeito, a hospitalidade da primeira-dama do município etc e tal. Minha mãe, não se queixava, mas também não demonstrou qualquer entusiasmo. Só em um momento, ela arriscou um negativismo.
– Isso é assim, daqui a alguns meses, eles não vão reconhecer a gente no meio da rua.
Previsão errada. Eu morei naquela cidade até vir continuar os meus estudos na Capital. Meus pais sempre foram bem tratados e bem reconhecidos por eles. Havia o interesse eleitoreiro, claro que havia, mas não era só por isto, eram, de fato, “distintos”. A televisão evoluiu muito e, dez anos depois, ainda continuava sendo um móvel inamovível, muito embora “a cores”. Ainda fazia o ‘toin...’ na hora de ligar. A sintonia já não precisava de uma torre de petróleo, mas demandava um esforço chato de se procurar uma posição adequada para a antena, com a mesma inquietação com que minha mãe manuseava agulhas de tricô. O Brasil “sagrara-se” tricampeão do mundo. Pelé ainda era o rei. Mas, o país e várias outras nações da América Latina foram mergulhados em ditaduras e regimes políticos perversos, todos eles com muitos presos políticos. Pelo menos os cantores e as cantoras eram mais movimentados. O twist já era. Os Beatles, sim, eram demais! Para sempre o serão. Roberto Carlos mandava ‘tudo pro inferno’. Graças a Deus, nem todos foram.

Criado em 2020-09-09 19:36:44
José Carlos Peliano –
Aos Quilombos de Santa Rosa dos Pretos e
Santa Maria dos Pinheiros - Maranhão
os olhos e ouvidos da floresta
quando a noite cobre a terra em seu manto
ou desperta a luz a manhã em festa
guardam bichos e plantas por encanto
a guardiã da noite um show lhe presta
por estrelas e sons em acalanto,
a fada do sol ao dia lhe empresta
verdes que viram aves por seu canto
cuida, vive e repõe essa magia
o índio, o quilombola e a natureza
irmãos de sangue, paz e harmonia
a chuva limpa, o ar puro, a certeza
sem queimadas, nem cortes, sem sangria
vida pura em comum em realeza

Criado em 2021-03-28 15:02:40
Roberto Amaral (*) -
“Por ora, a defesa do arbítrio e da violência como ferramenta política tem ficado restrita a bolsonaristas-ostentação. Posam de fortões e fortinhos arrojados, quando na verdade sofrem de covardia social. O perigo de esses milicianos da palavra passarem à ação coletiva após as eleições é real. Convém, portanto, apressarmos nosso encontro marcado pela História ainda clandestina." (Dorrit Harazim, O Globo, 24/4/2022)
O país amarga um sentimento difuso, grave, de que algo peçonhento se gesta contra a República. Às claras e à socapa estariam agindo seus inimigos de sempre. Nas esquinas e nos gabinetes cruzam-se boatos, reflexões e “informações de cocheira”. O temor de um golpe de Estado domina as especulações políticas, animando a direita e intranquilizando os democratas. A dúvida, para políticos escabreados, é tão só quanto ao momento da eclosão, se antes ou depois da derrota eleitoral do lamentável capitão. Nesta hipótese, não estaríamos diante da primeira tentativa de impedir a posse de um presidente eleito, pois a história registra os episódios de novembro de 1955, quando os militares tentaram bloquear a posse de Juscelino Kubitscheck - contra cujo governo, aliás, promoveriam ainda as insurreições de Jacareacanga e Aragarças. Os mais avisados lembram que, para fechar a porta, não devemos aguardar que o desastre se apresente de corpo inteiro, pois a ameaça hoje veste novos trajes, como vimos com a deposição de Dilma Rousseff. Mais perigoso ainda é apostar na “formação democrática e legalista das forças armadas”, alardeada por Prestes nas vésperas de 1964 (e deu no que sabemos). De outra parte, vivemos, desde 2018, uma experiência que, com todas as correções históricas, nos aproxima dos assaltos do fascismo mussolinista. Como ninguém ignora, não têm sido poucos os chamamentos do capitão-presidente ao conflito institucional. Devemos ter sempre presente a frustrada tentativa de golpe do 7 de setembro do ano passado. O recente indulto ao deputado e meliante Daniel Silveira, sobre ser uma agressão ao STF, é mais uma mobilização - bem-sucedida - de sua base para o desejado confronto. A sociedade não pode esquecer seu discurso em frente ao quartel-general do exército em Brasília, nos idos de 2020, incitando tropa e simpatizantes à insurreição, nem o chapliniano desfile dos tanques na praça dos três poderes, nem suas chamadas “motociatas”, bem ao estilo do poderoso Duce fuzilado por partisans no vilarejo de Mezzegra, no norte da Itália, em 1945.
A permanente cantilena golpista é capítulo harmônico em obra bem articulada que visa tanto ao projeto eleitoral quanto ao fortalecimento organizativo-guerreiro do movimento de extrema-direita que Bolsonaro no momento lidera, e que deverá sobreviver depois de seu necessário defenestramento.
Não devem ser vistas como obras do acaso, aleatórias, seu permanente desprezo pelas regras democráticas, o chamamento à intervenção militar, a busca de conflito, ora com a imprensa, ora com o STF, ora com o TSE, a tentativa de desacreditar a urna eletrônica, e, assim, precatadamente, pôr em questão as eleições. Por meio da sequência de confrontos, o capitão dita a pauta política do país, que permanece inquieto, antevendo uma campanha eleitoral suja e macabra, à mercê da corrupção deslavada (uma forma de golpear a soberania popular), da ação das milícias e o comprometimento partidário das forças armadas. Este é evidenciado pelos seguidos pronunciamentos de comandantes militares, como a ridícula nota mediante a qual o ministro da defesa agride um ministro do STF que ousou revelar este segredo de polichinelo: as forças armadas estão sendo orientadas a atacar e a desacreditar o processo eleitoral.
O cenário pobre abre espaço para atores pobres, como o ocioso general vice-presidente da república e figuras ainda menores como o até há pouco anônimo general presidente do STM que, semana passada, como sói acontecer com os néscios, perdeu excelente oportunidade de ficar calado.
Bolsonaro tanto mobiliza os engalanados na sua pertinaz tentativa de desmoralizar o processo eleitoral, base de nossa democracia, quanto, associado ao atual presidente da Câmara dos Deputados, mobiliza R$ 16,5 bilhões, recursos do imoral e inconstitucional “orçamento secreto”, para que seus sequazes e apaniguados gastem em suas campanhas, eivando de vício a manifestação eleitoral. O capitão pode, até, com essa fraude (levando às últimas consequências o “abuso do poder econômico” nas eleições, desta feita às custas do erário), não lograr o objetivo de assegurar sua reeleição (e com ela a impunidade sua e de seus sequazes), mas estará assegurando uma bancada talvez majoritária para o Centrão, o que será uma ameaça permanente ao possível governo do ex-presidente Lula.
A crise de nossa história presente precisa ser vista e considerada para além de suas aparências de hoje, pois trata-se do segundo tempo da irresponsável conciliação que nossas elites pactuaram com a ditadura. A conciliação é o caráter permanente de nossa história, levada a cabo pelas classes dominantes contra os interesses do país e de seu povo, no esforço sempre logrado de bom êxito que visa a impedir a ascensão do progresso social.
Em lugar do necessário sepultamento da ditadura miliar, com suas consequências óbvias, a traficância da casa-grande ensejou a projeção da preeminência dos militares na ordem democrática nascida da implosão do colégio eleitoral inventado pela ditadura para eleger seu delfim - que terminou implodido, elegendo Tancredo Neves para dar posse a José Sarney. A ditadura, por força das negociações, não foi passada a limpo, seus crimes não foram apurados, muito menos punidos os oficiais das três forças acusados das mais torpes violações de direitos humanos, como prisões arbitrárias, sequestros, tortura, homicídios, estupros, ocultação e desaparecimento de cadáveres, atentados e organização de quadrilhas armadas. Quando deveriam estar sendo varridos do poder que haviam usurpado em 1964, e assim chamados a responder coletiva e individualmente por seus crimes, os militares, na verdade só aparentemente derrotados, terminaram por ditar as condições mediante as quais abandonavam o poder esgotado, para afinal decidir quem tomaria posse na ausência de Tancredo Neves: nada menos que José Sarney, o ex-presidente e líder do partido da ditadura, por decisão do exército, ditada pelo general escolhido por Tancredo para o ministério da guerra.
Assim o ex-presidente narra sua nomeação no livro Vinte anos de democracia (Brasília, 2005, p. 32): “Às 3 horas o general Leônidas Pires Gonçalves me telefonou dizendo: às 10 horas o senhor vai assumir a Presidência.” Antes, nos idos de agosto do ano do colégio eleitoral, os líderes oposicionistas se haviam conciliado com os governistas dissidentes do PDS (o partido da ditadura), a costela do PFL. Da harmonização de interesses resultou a “Aliança Democrática”, cujo manifesto propugnava a “conciliação, (...) o entendimento sem ressentimentos de todos os brasileiros e o congraçamento nacional.” O texto, que teve o jornalista Mauro Santayanna como seu principal redator, é assinado por Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Aureliano Chaves e Marco Maciel. Enterrava-se a expectativa de ruptura e construção de uma nova república. Era a “transição com conciliação”. As consequências vinham a caminho: ao invés da prometida “constituinte livre e soberana”, foi imposto ao país um congresso sem poder originário, contingenciado por limites de toda ordem (como, por exemplo, rever a lei da anistia da ditadura), costurando um texto supervisionado pelas forças decaídas, que sobreviviam no governo Sarney, ostensivamente curatelado pelos fardados. A anistia haveria de permanecer restrita e os militares teriam a garantia da impunidade, que ainda hoje ostentam com arrogância e delinquência moral. O general Pires Gonçalves, seria, com Fernando Henrique Cardoso, um dos redatores do art.142 da CF, contrabando espúrio mediante o qual a caserna cuida de constitucionalizar o sonho de anacrônico poder moderador. Explica-se Sarney (cit.): “Naquele momento elas [as forças armadas] ainda eram as fiadoras do processo democrático”. Vencia o projeto Golbery-Geisel da “abertura” consentida: lenta e gradual.
Nada a estranhar, pois, o papel antidemocrático e antinacional que as forças voltaram a exercer, a partir de 2016, mais de 30 anos passados do anúncio do fim da ditadura imposta pela violência do golpe de 1º de abril de 1964.
***
A direita caminha com bota de sete léguas - A disputa eleitoral na França, que durante muitos anos foi presidida pelos socialistas (o partido de François Miterrand este ano praticamente fechou para balanço, obtendo sua candidata no primeiro turno apenas 1,75% dos votos), consagra, a cada pleito, o avanço da extrema-direita, o que se mede pelo desempenho do clã Le Pen: em 2002 obteve 17,8% dos votos; em 2017 saltou para 33,9% e finalmente, nesta final de 2022, chegou a 41,5%.
À esquerda, exemplarmente dividida, restou comemorar a reeleição de Emmanuel Macron, o presidente de direita, em quem foi obrigada a votar. Se tivesse havido unidade, Jean-Luc Mélenchon, candidato da França Insubmissa, teria ido para o segundo turno. Senão, vejamos os números do primeiro turno: Mélenchon, 21,95%; Yannick Jadot (ecologistas), 4,63%); Fabien Roussel (comunistas), 2,28%); Anne Hidalgo (socialistas), 1,75%; Philippe Poitou (esquerda radical), 0,77% e Nathalie Artaud (Lutte Ouvrière) 0,56%. O que podemos chamar na França de hoje de “campo da esquerda” somou, portanto, no primeiro turno, 31,87% dos votos, contra 23,3% de Marienne Le Pen, que foi para o segundo turno contra Macron. A disputa ficou, como se sabe, entre direita e extrema-direita.
As expectativas agora se voltam para as eleições legislativas. A coalizão parlamentar majoritária fará o primeiro-ministro.
A lição fica para quem a quiser colher.
_____________________
(*) Roberto Átila Amaral Vieira é jornalista, professor e político brasileiro. Foi ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva
(**) Com a colaboração de Pedro Amaral.
Criado em 2022-05-15 19:02:55
O deputado distrital Chico Vigilante (PT) anunciou que vai apresentar projeto de lei instituindo a tarifa zero no transporte público do Distrito Federal. A proposta, segundo ele, está em fase final de elaboração e será apresentada nas próximas semanas.
Em discurso no plenário na última quarta-feira, Vigilante disse que essa ideia vem sendo adotada em dezenas de cidades no Brasil e no mundo. Vigilante lembra que o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Júnior (PSDB), "que não é nenhum socialista, também está elaborando projeto nesse sentido".
Vigilante disse que 49% da tarifa do transporte público no DF já são financiados pelos impostos pagos pela população e que os outros 51% são pagos basicamente pelos usuários do vale transporte – estudantes e trabalhadores. “Brasília tem o pior serviço de transporte coletivo do país. O sistema é deficitário e é de péssima qualidade”, disse o deputado. Além disso, “temos que ficar discutindo todo ano essa historia de reajuste”, completou.

A tarifa zero já é realidade em 12 cidades brasileiras. No restante do mundo, 86 cidades, de 24 países, já aboliram a cobrança pelo transporte público.
A cidade de Maricá, no litoral do Rio de Janeiro é uma das pioneiras na gratuidade do transporte público. Desde dezembro de 2013 os habitantes podem andar de ônibus gratuitamente na rede municipal.
A solução é simples. A prefeitura de Maricá aloca recursos no Orçamento para viabilizar essa gratuidade. A cidade tem 150 mil habitantes.
Outra cidade é Agudos, no interior de São Paulo. Os 40 mil habitantes, desde 2003, não pagam tarifa para utilizar o transporte coletivo. Os ônibus são operados pela prefeitura e os motoristas são funcionários concursados.
Para que o transporte coletivo pudesse ser gratuito, cada uma das cidades recorreu a uma solução diferente. O mais comum e viável é elevar o imposto territorial que atinja as pessoas de maior renda. Outras cidades cobram uma taxa de todos os habitantes. Nos EUA, por exemplo, é por volta de US$ 5 por ano para cada habitante. Trata-se, portanto, de uma decisão política que envolve uma decisão econômica, sobre o que vai se priorizar no orçamento e de onde sairá os recursos para viabilizar o serviço para a população.
Criado em 2020-02-06 16:57:04
Com lançamento marcado para o dia 20 de outubro, às 17h, na Livraria Sebinho (406 Norte, em Brasília), o livro O Mármore e a Murta – Antônio Vieira, de Luiz Philipppe Torelly (*), conta histórias dos jesuítas e dos bandeirantes no Século XVII. Agende.
Denominado por Fernando Pessoa como o Imperador da língua portuguesa e por Charles Boxer, historiador inglês, como “merecedor de um lugar de honra não apenas na história do Brasil e de Portugal, mas da civilização ocidental”, Antônio Vieira (ilustrações, abaixo) foi o mais destacado religioso, cronista, missionário, literato e profeta de seu tempo.
Nascido em Lisboa em 1607, viveu por 89 anos e escreveu mais de 700 cartas, 200 sermões e 2 livros, A História do Futuro e A Chave dos Profetas. Seus sermões são de tal qualidade e fama, que após quase 400 anos continuam sendo exemplo de poesia, e alta qualidade literária.
Atravessou o Atlântico sete vezes, em tempos em que as viagens marítimas eram de alto risco. Morou no Brasil por quase 50 anos, onde desenvolveu parte considerável de sua obra, referência obrigatória para entender a dinâmica da colonização e o mundo ibérico de então.
Um mergulho em seus escritos vai nos revelar muitos episódios de rara sensibilidade e coragem intelectual, expressos no uso hábil das palavras, de alegorias, metáforas e silogismos, imersos na complexa sintaxe e dualidade barrocas. Vieira ainda é um tomista, pertencente à tradição escolástica de São Tomás de Aquino e seus seguidores, dominantes na Península Ibérica e no seio das congregações católicas em oposição a Reforma Protestante. Em alguns locais, as primeiras luzes do Iluminismo começavam a acender, mas seus brilhos ainda não haviam chegado a Portugal e ao Brasil.
À medida da leitura de sua vasta produção literária e fortuna crítica, um outro Vieira emerge. Não apenas o pregador virtuoso, orador incomparável, defensor dos índios e dos pobres. Mas o homem de estado, para quem algumas vezes os fins justificavam os meios, diante dos intrincados conflitos da época, motivados pelos diferentes projetos coloniais das potências europeias.
Questões como a escravidão africana e indígena, o comércio ultramarino, a Inquisição, a Contrarreforma, o Milenarismo, a perseguição aos judeus, o Bandeirismo e as relações da Companhia de Jesus com os colonos e o governo português irão expor as reflexões, amplitude, atos e contradições de sua obra.


______________________
(*) Luiz Philippe Torelly é escritor, arquiteto e urbanista. AnnaBlume Editora.
Criado em 2022-09-23 15:06:41