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Página 18 de 95

Protesto em frente ao Itamaraty

Neste sábado, 5/4, a partir das 10h, em frente ao Itamaraty, em Brasília, ato em protesto pela morte do congolês Moïse Kabamgabe. Uma performance denunciará o derramamento do sangue negro na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Ativistas do movimento negro e artistas vão encenar o assassinato do jovem congolês Moïse, brutalmente assassinado na última semana, no quiosque Tropicália, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Desenvolvida pela artista e produtora Adriana Varela e dirigida pelo diretor teatral José Regino, a performance terá 20 minutos de duração, onde sangue artificial será despejado no solo, ao som de músicas africanas e declamações de poesias antirracismo.

Com forte apelo visual, contendo faixas, cartazes, tambores e música, a encenação representa também os milhares de assassinatos do povo preto no Brasil, especialmente durante o governo de Jair Bolsonaro, fortemente ligados às milícias do Rio de Janeiro e incentivador da liberação do porte de armas e, por conseguinte, dos altos índices de violência que assolam o país.

Ato também na Barra da Tijuca

Por ele (Durval), por elas (Jailma; Kauany); por Moïse e por tantas vítimas de crimes de ódio, ato público neste sábado, 5/4, às 10h, no Posto 8 da Barra da Tijuca (foto, abaixo), no Rio, (em SP, no mesmo horário, no vão do MASP, e em Brasília em frente ao Itamaraty). "Temos que opor os valores da vida à cultura do horror, do desprezo pelo outro, do preconceito. Por um tempo de mais justiça e delicadeza", disse o vereador Chico Alencar (PSOL-RJ).

Agora foi Durval Teófilo Filho, de 38 anos, em São Gonçalo (RJ). Ele voltava apressado do trabalho para ainda encontrar sua filhinha acordada. Um vizinho, sargento da Marinha, assustou-se - "achei que era um assaltante" - e fez três disparos, o primeiro de dentro do seu carro, contra Durval. "Legítima defesa", argumenta. O militar tinha porte de arma e esse crime põe em xeque o preparo que a corporação dá a quem o tem.

"Ele morreu porque era preto. É fácil atirar em um preto mexendo na mochila (Durval pegava a chave do portão do condomínio). É preto, logo é suspeito. Se fosse um branco, nunca aconteceria isso" - diz, desconsolada, a viúva Luziane, que não sabe como contar a tragédia para a filha, apegadíssima ao bom pai, trabalhador querido por todos que o conheciam.

Agora foi também em Glória do Goitá, a 62 km de Recife (PE). Jailma Muniz, de 19 anos, e Kauany Marques, de 18, ambas Silva, foram violentadas e mortas, chocando toda a pequena cidade. Eram meninas graciosas, cheias alegria de viver e... de famílias humildes, vulneráveis. Pagaram por isso. O suposto assassino - a polícia considera que o autor dos crimes hediondos é a mesma pessoa - está foragido.

É bem possível que nesse fim de semana outras atrocidades derivadas de racismo, misoginia ou homofobia aconteçam nesse país, que está naturalizando a barbárie, expandindo o armamentismo e a "cultura miliciana" da raiva e da truculência.

Costumeiramente, quem mata não manifesta sequer arrependimento... E os familiares das vítimas ainda são ameaçados, como é bem o caso de Moïse Kabagembe.

Frente Nacional Antirracista vai ao Ministério Público

A FNA protocolou ação no Ministério Público do Trabalho para ampliar a investigação sobre a situação da relação de trabalho em todos os quiosques na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro

A representação conta com a assinatura de 60 entidades do Movimento Negro e foi motivada pelo brutal assassinato do jovem congolês Moïse Kabagambe, no último dia 24

A Frente Nacional Antirracista (FNA), na pessoa da advogada e também coordenadora da Frente, Tamires Sampaio, entrou com uma representação hoje, dia 5 de fevereiro, no Ministério Público do Trabalho (MPT) com a assinatura de 60 entidades do movimento negro para a ampliação da investigação das condições de trabalho em todos os quiosques da orla da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, em especial a de imigrantes e da população negra.

Ele, que morava no Brasil porque sua família fugiu da guerra em seu país, foi amarrado, espancado, torturado e morto.

O objetivo é cobrar explicações e providências e evitar que novos casos como este aconteçam.

Além do Rio de Janeiro, a FNA está presente em atos em outras cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Brasília, Natal, entre outras.

Criado em 2022-02-04 23:13:18

Mulheres do mundo inteiro contra a violência do Machismo

Criado em 2019-12-12 00:29:13

Bandeira LGBT hasteada no Beirute

Alexandre Ribondi –

A bandeira multicolor do movimento pelos direitos das pessoas LGBT, hasteada no Bar e Restaurante Beirute, em Brasília, nessa quarta-feira, 10 de julho de 2019, tem uma longa história para contar. Há 40 anos, um jovem casal, foi convidado a se retirar do então mais frequentado bar da capital da República após terem se beijado na boca diante das outras pessoas. Alguns dias depois, um grupo de casais homossexuais entraram no Beirute e, todos juntos, repetiram a ousadia. Estava criado, assim, o Grupo Homossexual Beijo Livre, o primeiro coletivo de luta LGBT da cidade e um dos primeiros do Brasil.

Quatro décadas depois, porém, o cenário e as personagens passaram por mudanças significativas. Ao lado da bandeira hasteada, estava Michel Platini, um dos líderes do Brasília Orgulho (que promove a Parada do Orgulho Gay em Brasília, que existe ha 22 anos). Ao seu lado, estava Francisco Frota Marinho, dono do Beirute, e Alexandre Ribondi, um dos fundadores do Beijo Livre e um dos beijados de 40 anos atrás. Juntos, comemoraram as vitórias alcançadas e se comprometeram a arregaçar as mangas para continuarem lutando.

Michel Platini, que foi candidato a deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT) nas eleições de 2018, fez questão de ressaltar o caminho percorrido desde o levante do bar Stonewall, em Nova Iorque, quando, há 50 anos, gays e lésbicas decidiram enfrentar a repressão policial, e desde o “beijaço” ocorrido há 40 anos, que serviu para mostrar que os homossexuais estavam decididos a se mostrarem ao mundo de cabeça erguida.

Na sua curta existência, o Beijo Livre passou por dias intensos. Publicou um jornal alternativo, o Manga Preta, produziu e montou peças teatrais rápidas e incendiárias que eram apresentadas na Boate Aquarius, situada no Setor de Diversões Sul, único ponto de encontro dos homossexuais nos anos 1970 - e que sempre esteve na mira da polícia. Além disso, alguns dos seus membros participaram da criação do primeiro teatro independente de Brasília, o Teatro da A.B.O., espaço generoso cedido pela Associação Brasileira de Odontologia. O Beijo Livre também foi responsável, em 1980, pela entrega de uma carta com reivindicações de direitos homossexuais, ao Papa João Paulo II, quando ele visitou Brasília.

Tudo isso ajudou, definitivamente, a mudar o cenário no País. Essa semana, o Brasília Orgulho está tendo um calendário repleto de atividades. Na segunda-feira, 8 de julho, um coquetel, realizado no Hotel Mercure, marcou o começo do festival LGBT, que inclui debates, exibição de filmes, esporte, estas e que terminará com a parada de orgulho que, esse ano tem como teme Stone Wall 50. Beijo Livre 40. Resistência e Conquistas.

Criado em 2019-07-11 15:31:53

Uma, duas, quantas línguas afinal?

Marcos Bagno -

Dizer se um modo de falar é uma “língua” ou não, se é uma “variedade” ou um “dialeto” de uma “língua”, taí uma coisa que escapa completamente das mãos dos linguistas, filólogos, gramáticos etc.

É uma decisão eminentemente política e, portanto, ideológica. Os especialistas podem esbravejar, levantar as mãos para os céus, se atirar do décimo terceiro andar: não adianta nada.

É isso que explica as diversas situações curiosas que existem no mundo. De um lado, temos modos de falar idênticos que, por razões político-ideológicas, recebem nomes diferentes. É o caso clássico da língua que, para os linguistas, sempre se chamou “servo-croata”, mas que, depois do esfacelamento da antiga Iugoslávia, hoje recebe nada menos do que quatro nomes diferentes: “sérvio”, “croata”, “bósnio” e “montenegrino”.

A mesma coisa acontece com a língua mais falada no Paquistão, o “urdu”, e aquela que, na Índia, recebe o nome de “híndi”.

Por desavenças religiosas profundas entre os dois países, desavenças que já provocaram guerras terríveis, o “urdu” e o “híndi” são oficialmente tidos como “línguas” diferentes, muito embora os linguistas prefiram se referir a um “hindustâni”, mas quem são os linguistas para preferir o que quer que seja?

Do outro lado, temos modos de falar muito diferentes uns dos outros e que, de novo, por razões políticas, culturais, religiosas etc. recebem um nome só.

É o caso do “árabe”. Em cada país “árabe”, a língua realmente falada pela população é muito diferente da do país vizinho. Um marroquino que viaja à Arábia Saudita vai ter a mesma dificuldade de um brasileiro que viaja à Itália: tem coisa parecida, sim, mas as diferenças são muito maiores.

Por causa da reverência prestada à língua em que foi escrito o Corão, e que se chama comumente de “árabe clássico”, as outras variedades são chamadas de “dialetos” e não recebem atenção institucional.

O que se ensina nas escolas é somente o “árabe clássico” e sua versão mais moderna, um padrão que serve de instrumento de unificação cultural entre os diferentes países “árabes”.

Por isso é que dizer se a língua majoritária da população do nosso país é “brasileiro” ou “português” já fez correr muita tinta, mas essa discussão é, no fundo, um tanto vã.

Só uma decisão vinda de cima poderá resolver a pendenga. Enquanto isso, nós, pesquisadores, temos mais é que prosseguir em nossas investigações e conhecer cada vez melhor essa língua que, hoje em dia, nos meios científicos, recebe o nome de “português brasileiro” — o que, cá entre nós, já é uma vitória e tanto para os que defendem as especificidades da nossa língua.

O fato é que, do ponto de vista da linguística, se quisermos nos ater unicamente ao que existe no chamado “sistema” da língua, já existem muitos e bons argumentos para dizer que o português brasileiro é uma língua diferente do português europeu.

No plano fonético-fonológico, isto é, dos sons da língua, existem no português europeu duas vogais átonas (um “a” fechado e um “e” quase gutural) que são totalmente desconhecidas entre nós.

Para alguns fonologistas, isso por si só já bastaria para dizer que são duas línguas diferentes. Além disso, ocorrem no português europeu vários fenômenos fonéticos que também são desconhecidos por aqui.

Só para citar um deles: quando uma palavra termina em [s] e a seguinte começa em [s], esses dois [s] se fundem e viram uma consoante “chiada”, como a que aparece justamente na palavra “chiada”. Quando tomamos um avião da TAP, ouvimos as aeromoças (perdão, as “hospedeiras do ar”) dizer: “Apertem uxintux”, isto é, “apertem os cintos”.

Onde nós dizemos “seis, sete”, os portugueses dizem “saixete”. Outros diversos fenômenos dessa natureza tornam o português europeu mais difícil para nós do que o português brasileiro para os portugueses.

Em diversos aspectos fonéticos, a nossa língua é mais conservadora, preserva pronúncias que foram trazidas para cá nos primeiros séculos da invasão.

Existe uma diferença radical no grau de inteligibilidade dos falantes de cada “língua”: eles nos entendem bem, porque nossa pronúncia é mais clara, preserva praticamente cada sílaba, enquanto nós precisamos ficar muito atentos para entender o que eles dizem, com a queda sistemática das vogais átonas que fazem palavras de 4 sílabas para nós terem só 2 por lá: “interesse” versus “intres”.

Mas o que realmente distingue uma língua de outra é a gramática, ou seja, as regras que fazem a língua funcionar, as regras que permitem a combinação dos elementos na morfossintaxe.

E aí cada vez mais os linguistas brasileiros e estrangeiros vão descobrindo coisas que só existem deste lado de cá do Atlântico. Quer ver?

No português brasileiro, o verbo sozinho na 3a pessoa do singular serve como índice suficiente de indeterminação do sujeito.

Nós perguntamos tranquilamente: “Pode fumar aqui?” ou “Onde guarda esses livros?” ou “Como faz pro suflê não murchar?”. Isso porque nós estamos eliminando a voz média verbal (e você nem sabia que participava dessa extinção, não é?).

A voz média se constrói com o pronome “se”, de modo que, numa construção “clássica”, teríamos “pode-se fumar aqui?” / “onde se guardam os livros?” / “como se faz pro suflê não murchar?”.

Só que nós não falamos assim. Até para evitar a dor de cabeça da concordância maluca do tipo “onde se guardam os livros” (que não faz nenhum sentido para a nossa intuição linguística), nós simplesmente apagamos o “se” e criamos uma forma nova de indeterminação.

No português europeu, no entanto, uma pergunta do tipo “pode fumar aqui?” seria interpretada como “você pode fumar aqui?”, porque os portugueses quase sempre omitem o pronome “você”: o verbo para eles basta.

Por isso é que encontramos em Portugal anúncios que nos soam completamente estranhos: “Temos o que não encontra”, conforme vi numa loja na lindíssima cidade do Porto. Isso quer dizer: “Temos o que você não encontra [em outros lugares]”.

No português brasileiro, a presença do pronome-sujeito caminha rapidamente para se tornar obrigatória, como em inglês e francês.

Existe, portanto, uma mesma ordenação de palavras: “pode fumar aqui?”, mas uma interpretação muito diferente da parte dos falantes.

E é essa interpretação diferente, no plano da semântica e da pragmática, que nos permite (ou permitiria) dizer que são duas línguas diferentes.

Mas a coisa vai ainda mais longe. Para conservar a ordem das palavras como sujeito-verbo-complemento (SVC), que é a ordem básica do português brasileiro, nós estamos causando uma verdadeira revolução gramatical.

Um enunciado como: “Meu bebê está nascendo os dentes, será por isso que está irritadinho?”, é inconcebível em Portugal.

O verbo “nascer” é intransitivo por excelência: você não pode “nascer uma coisa”, uma coisa é que nasce. Mas toda e qualquer mãe (ou pai) brasileira diz com tranquilidade: “Meu bebê está nascendo os dentes”.

Ou seja, “os dentes” é complemento direto do verbo “nascer”. E toca os linguistas estrangeiros a ficar espantadíssimos! E o mesmo com o verbo “morrer”. Outro dia ouvi, caminhando pela Universidade de Brasília, uma jovem dizer: “A Priscila morreu o carro logo no primeiro dia que foi estrear a carteira de motorista”.

Esse mesmo fenômeno está presente em enunciados do tipo: “Meu computador acabou a bateria”, “esse quarto não bate sol”, “meu telefone quebrou a tela”, “essa rua passa ônibus pro centro” e milhões e milhões de outras. Todas consideradas “agramaticais” no português europeu.

É que nós, falantes do português brasileiro, somos praticantes inveterados da topicalização. Topicalizar um elemento da frase é trazer esse elemento para o início, a fim de dar destaque a ele.

Em lugar de dizer “estão nascendo os dentes do meu bebê”, eu trago o bebê para a frente (afinal, ele é a coisa mais importante do mundo!), apago a preposição e digo: “Meu bebê está nascendo os dentes”. Em vez de dizer “acabou a bateria do meu computador”, eu faço a mesma coisa: “meu computador acabou a bateria”.

A eliminação da voz média, as construções com tópico, as construções ergativas, a atribuição de acusatividade a verbos inacusativos, a atribuição de caso sujeito a locuções adverbiais, a reordenação das construções que indicam afetividade... tudo isso é coisa nossa, só nossa, não existe no português europeu.

É preciso então saber muita história da língua, muita teoria sintática, muita fonologia e muitas coisas mais antes de dar palpites infundados e dizer que os linguistas que, como eu, preferem reconhecer que se trata de duas línguas diferentes, estamos delirando ou vendo pelo em ovo.

Dizer que é tudo uma língua só é uma postura ideológica. Dizer que são duas línguas diferentes também é uma postura ideológica.

Mas essa, pelo menos, busca se apoiar em argumentos construídos com sólida base teórica e muita investigação.

E não nega seu caráter ideológico, como fazem há séculos os defensores de “uma língua só”, mergulhados em sua mentalidade colonizada e/ou colonizadora. Tá bom procê?

Criado em 2017-03-28 14:12:59

Chega de saudade

Sandra Crespo -

Fui ver o show Bossa Nova In Concert ontem (17/2), e vou falar primeiro do que eu não gostei - porque, em se tratando de bossa nova, o que é ruim é que é notícia. (E eu acho que ainda sou jornalista).

O auditório sofrível do Centro de Convenções de Brasília, que me faz arder de saudade da sala Villa-Lobos, passaria batido, não fosse a moça loura altíssima da minha frente.

Que, além de comprida como um totem entre euzinha (1,56m) e o palco, ainda cismou que era cineasta de smartphone.

A moça apontou estrategicamente seu smart em direção ao palco desde os primeiros acordes, e se balançava, cabeleireira loura pra lá e pra cá... tentei pensar na garota de Ipanema, mas que nada...

Mudamos de lugar, porém, os problemas continuaram: Paula Morelenbaum desafinou no primeiro verso de Águas de Março.

O que aconteceu com a voz de Paula Morelenbaum? Acho que acabou, infelizmente! E o figurino descambou junto.

Parece que ela escolheu o vestido mais feio do seu guarda-roupa para se apresentar em Brasília.

Não é por nada não, mas a Paula Morelenbaum parecia estar cumprindo uma missão burocrática, fazia umas caras e bocas, dava uns gritinhos tão estranhos... (Tom deve ter se revirado no túmulo, cala-te boca.)

Felizmente o nível subiu bastante depois, quando veio ao palco Roberto Menescal. Na sequência, as cantoras de verdade Wanda Sá e Roberta Sá, além de Leila Pinheiro, seguraram bem as pontas.
Mas o ponto alto - quem diria! - não foi nem quando Menescal acompanhou a Wanda Sá em Vagamente, nem quando Roberta cantou Garota de Ipanema.

O ápice ficou por conta de Ivan Lins! Que, ainda muy guapo, era o único realmente emocionado com o show.

E deu um recado, com voz embargada: a música brasileira de qualidade não mais tem espaço "nos meios de comunicação abertos", palavras dele.

Ivan Lins acrescentou que, "sem falar na política", as pessoas que ali estavam eram "viúvas" da música boa que se fez no Brasil.

Eu senti a amargura dele. E a galera também, que aplaudiu aflita. Mas também me lembrei do que disse Chico Buarque a respeito disso.

No filme "Chico, Artista Brasileiro", de Miguel Faria Jr., ele disse mais ou menos que não achava que a música boa tinha acabado. Porque o Brasil dos anos 50 era elitista, e assim a elite impunha sua cultura para o povo.

Agora, disse Chico rindo com gosto, A gente pode achar brega e tal, mas o povo faz a sua música, seja funk, sertanejo, pagode...E essa é a música "boa" agora.

E eu vou pensando nessas coisas, remoendo, porque é isto o que realmente importa: o que fica do Brasil para cada um de nós.

Mas... Se é tarde, me perdoa...

Criado em 2017-02-18 15:44:44

Tagarelice virtual

Zuleica Porto -

"Hoje são muitas as vias que carregam as nossas palavras: facebook, twitter, instagram, sei lá quantas existem, e agora reina, soberano, o WhatsApp".

Quem vive da escrita sabe o quanto as palavras podem ser perigosas, escorregadias e imprecisas. Tanto assim que dois de nossos maiores poetas, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Mello Neto, expressaram em magistrais poemas o trabalho que dá lidar com a palavra.

O mineiro de Itabira, logo nos primeiros versos do poema “O lutador”, admite que “lutar com palavras / é a luta mais vã. Entanto lutamos / mal rompe a manhã”.

Sem carne nem sangue, prossegue o poeta, elas deslizam, “deixam-se enlaçar / tontas à carícia / e súbito fogem”. E nesse “corpo a corpo” com o “fluido inimigo” segue o artesão em sua peleja e o “inútil duelo / jamais se resolve”.

O pernambucano compara o ofício de escrever com o de “Catar feijão”, pois assim como “jogam-se os grãos / na água do alguidar”, as palavras são jogadas na folha de papel. Escritor e catador de feijão devem então “jogar fora o que boiar”, em ambos os casos “aquilo que sobra”.

O risco, alerta o poeta, é deixar passar “um grão qualquer / pedra ou indigesto”, capaz de “quebrar dente” e obstruir a leitura, que deve ser “fluviante, flutual”.

É preciso, enfim, muita luta e trabalho para que não sobre grão duro, de quebrar o dente, ou, já que além de concretas palavras são também escorregadias, escape algum indesejado duplo sentido.

Tanto cuidado, tanto trabalho desses mestres da palavra escrita bem valeriam de alerta para o nosso cotidiano. Pois nunca escrevemos tanto, o tempo todo.

Mas o suporte quase nunca é o papel, que mantém a palavra presa sob o nosso domínio para a necessária releitura, correção, reflexão e nova redação. Nem sequer digita-se mais no antigo teclado físico, para muita gente o computador pessoal já virou peça de museu, os textos que poderiam ser armazenados nos arquivos para posterior avaliação já são digitados diretamente, na telinha dos telefones ditos “inteligentes”.

Ao impulso do primeiro pensamento, na vaga da primeira emoção, soltamos o verbo. E o verbo, uma vez libertado, ganha o mundo, com suas ambiguidades e suas durezas. Hoje são muitas as vias que carregam as nossas palavras: facebook, twitter, instagram, sei lá quantas existem, e agora reina, soberano, o WhatsApp.

Se a tela é fluida, o acesso é instantâneo, a transmissão imediata, o dedo diretamente na tela, digital impressa nesse vidro impressionante do aparelhinho que está a ponto de dominar nossas vidas.

Nesses tempos que vivemos, uma ligação telefônica vale quase tanto quanto uma visita pessoal, com café e bolinhos tarde afora, ou vinhos e queijos noite adentro.

Quando o telefone é fixo, e nosso ouvido não fica em brasa com essas misteriosas ondas radiativas, podemos nos dar ao luxo de longas conversas, que atravessam cidades e oceanos e trazem o timbre, o calor, o riso, a emoção da voz humana.

A conversa pessoal, esta que estamos abandonando numa velocidade assustadora, traz em si “a presença física simultânea daquele que fala e daquele que escuta, o que implica uma ligação concreta, uma imediaticidade, uma troca corporal de olhares e gestos”, observa o estudioso da oralidade Paul Zumthor.

Se numa conversa ao telefone não temos olhares e gestos, ainda temos a “voz como voz”, como considera este pensador, na qual estão presentes “as pulsões psíquicas, energias fisiológicas, modulações da existência pessoal”.

Sabemos pelo timbre, pela entonação, pelo ritmo da fala, se a pessoa que nos fala está triste, alegre, calma ou ansiosa.

Carinhas tristes, alegres, raivosas, mandando beijos, são pobres ícones, facilmente mentirosos. Sem um pingo de tristeza, posso mandar para o mundo uma carinha em lágrimas.

Ou, em lágrimas, mandar uma carinha sorridente. Quem vai saber o que verdadeiramente sinto?

Não há como negar a utilidade dos meios virtuais para a comunicação imediata de fatos como data e hora de uma viagem, ou de fotos de pessoas queridas e distantes.

Ou para a divulgação de informações, textos literários, jornalísticos, enfim, o que consideramos importante para o interesse geral.

Mas penso que há que ter cuidado quando espalhamos emoções, opiniões, ou o que seja mais íntimo e pessoal num grupo que, nem preciso dizer, é heterogêneo.

Como saber se a palavra que escolho, aparentemente inocente, vai bater feito pedra dura na sensibilidade de outrem? Se estou diante da pessoa, posso avaliar o resultado do que disse, suavizar o eventual peso da palavra com um sorriso, um toque, um olhar.

Se estamos conversando por telefone, avalio o efeito do que disse no momento mesmo da fala, posso me corrigir, me desculpar, se for o caso.

Digitada e lançada ao espaço virtual, a palavra está solta e indomada, para o que der e vier.

Da mesma forma, se lanço minhas mais puras emoções, mais genuíno desabafo, para uma multidão de “amigos”, dos quais apenas uma minoria conheço pessoalmente, corro o risco de receber de volta a pedra da palavra dura ou a indiferença do silêncio.

Não por maldade, mas pela pressa que domina a maioria das leituras e a quantidade quase infinita de informações que são jogadas no universo virtual. No entanto, perigosamente, jogamos a concretude das palavras escritas no imediato presente.

Se os poetas sofrem, suam, trabalham duro em busca da palavra certa, e mesmo assim confessam seu fracasso em dizer exatamente o que queriam, como podemos nós, pobres amadores do ofício, querer sucesso nessa louca algaravia?

Confesso que, a cada dia que passa, sinto mais saudades da voz humana. E
para a insuperável presença física, para as longas conversas, nada como uma cadeira de balanço e todo o tempo do mundo.

E confesso também que este texto passou quatro dias sendo escrito, lido, reescrito, relido, até que me arriscasse a torná-lo público.

Oxalá não tenha escapado pedra dura entre os grãos das palavras.

Criado em 2016-12-14 17:51:53

Trilogia de sangue: Solanas, Glauber, Nunes Pinto e a decolonização

Maria Lúcia Verdi –

Mosquito, Leão de sete cabeças e La hora de los hornos. João Nunes Pinto, Glauber Rocha e Fernando Solanas. O mais antigo desses filmes é o de Pino Solanas (1968), que já havia visto Deus e o Diabo na Terra do Sol e admirava Glauber; o filme africano de Glauber (1970) é seu primeiro rodado no exílio; Mosquito é deste fatídico 2020, e é uma coprodução portuguesa-moçambicana.

Ver Mosquito, filme ganhador do 44º Festival Internacional de Cinema de São Paulo me levou a rever os outros dois, várias décadas depois. Mosquito ficou zumbindo na minha cabeça e fui reenfrentar o Leão. Após os dois, com a morte do grande cineasta argentino, Pino Solanas, resolvi rever seu antológico documentário sobre a luta contra o imperialismo e a situação da Argentina, no contexto dos países latino americanos, africanos e asiáticos na década de sessenta. Este filme de Solanas só pode ser exibido na Argentina em 1973. Nos cinco anos em que esteve proibido era projetado clandestinamente.

Essa trilogia de sangue escancara a triste verdade: a situação das ex-colônias não mudou de fato, embora as novas embalagens da sociedade do consumo e do espetáculo possam, por vezes, com a ajuda da mídia, obscurecer esta realidade. O genial didatismo marxista de Solanas e Octavio Getino (codiretor), ambos pertencentes ao grupo Cine Liberación;  a alegoria transparente de Glauber; e a evocativa história do avô do diretor português (Nunes Pinto), nos fazem refletir para além das supostas verdades.

Neste momento, em que tentamos acreditar que a derrota de Trump signifique alguma esperança, é oportuno sentarmo-nos frente a filmes como esses. Franz Fanon, citado no La Hora de los Hornos diz: “Todo espectador é um covarde”. A sensação é que hoje, no cenário internacional, existem quase só espectadores, os atores sendo pouquíssimos e pertencendo à mesma troupe. Os dois filmes do século vinte se propõem como armas para a sonhada revolução, o filme deste século propõe releituras de conceitos.

Os três filmes, esteticamente muito diversos, trazem questões imensas e irrespondidas, a serem repensadas quando vistas neste século XXI, tão distante das utopias. Pino Solanas, no que ele chama de FILME-ATO, realiza uma poderosa colagem de textos e imagens para contar e provar, em capítulos (o documentário, é branco e preto, tem quatro horas), a necessidade da revolta popular, da revolução do sistema capitalista, a fim de transformar o mundo em ambiente mais justo e livre.

La hora de los hornos – O filme (foto, abaixo) é uma viagem em citações: imagens de arquivos, inserção de trechos de filmes de outros diretores (Leon Hirszman, Fernando Birri e outros), filmagens diretas de cenas de argentinos de todas as classes e caras, a emblemática propaganda norte-americana e sua ideologia, cenas que povoam o imaginário ocidental artístico e político, são intercaladas por textos de alguns dos maiores pensadores e heróis da descolonização, como Franz Fanon, Aimé Césaire, Jean Paul Sartre, Patrice  Lumumba (natural do Congo), San  Martin, Simon Ortiz, Perón, Che Guevara, Fidel Castro e outros.

Sete Cabeças – Glauber situa seu enredo no Congo, em Brazaville, e o desenvolve com personagens-tipo: Marlene, a besta-de-ouro da violência, que fascina e engana; o pregador místico iludido e contraditório (encarnado por Jean Pierre Leaud, ícone dos filmes de Godard e Truffaut) - (na foto, abaixo);  o Governador alemão; o agente americano (“os povos desenvolvidos é que tem planificação econômica e técnica do mundo”); o português (o saudoso Hugo Carvana) colaborando com os demais e recitando trecho de Os Lusíadas; Dr. Xobu, o “burguês” do local, inocente útil, transformado em Rei graças à manipulação dos imperialistas, vestido como os brancos dos século XVIII, defendendo o “bom senso”, temendo a luta armada; os profetas da justiça que lutam pela libertação - o  guerrilheiro latino-americano Pablo, capturado pelo padre-pregador, sempre com uma corda no pescoço tentando resistir, e Zumbi, liderança nativa (“sozinho não poderei fazer a união africana”). O cineasta brasileiro traz a visão do homem do terceiro mundo (o mesmo que analisa Solanas) sobre a sua condição, a partir de um olhar antropológico, respeitoso, sobre a população local; assim como em Mosquito, há cenas belíssimas de danças e rituais autóctones, inseridos nas atemporais paisagens africanas.

Mosquito – João Nunes Pinto traz história vivida por seu avô, em 1917: Zacarias, um jovem sonhador e patriota de dezessete anos, alista-se no exército português para lutar na primeira guerra e é enviado para Moçambique (seu sonho era ir para a França). Sua companhia o deixa para trás e, inicialmente, com a ajuda de dois africanos, inicia a pé um périplo de mil quilômetros, que fará sozinho, enfrentando todos os desafios físicos e mentais.

O embate e a difícil interação desse jovem europeu com uma natureza assustadora, bem como com as pessoas nativas, se faz a partir de sua postura de branco ocidental e colonizador, o Senhor. Embora iludido frente ao que é a guerra, e sem preparo para enfrentar a alteridade africana, o jovem soldado, salvo por uma tribo composta apenas de mulheres - os homens estão na luta ajudando os portugueses a proteger a colônia de eventual invasão alemã – interage com as nativas e, posteriormente, com um alemão a quem faz prisioneiro. A cena com as mulheres, bem como alguns travelings, remetem imediatamente ao Leão de Sete Cabeças; mesmo sem a imaginação semi delirante do filme de Glauber, Mosquito cita o Leão, como um pós-Glauber do presente século.

O impactante final mostra um rapaz português transformado pela experiência africana: reencontra sua companhia, é calorosamente recebido por companheiros que comemoram o fim da guerra e presencia (espectador) o massacre do seu prisioneiro alemão pelos soldados, sob os olhos do Sargento; afetado pelo que vê, afasta-se e o reencontra em meio à densa noite. O superior puxa conversa enquanto aparecem, por trás dele, os olhos de um animal. O Sargento, em pânico, ordena a Zacarias que atire, o que ele não faz. O jovem soldado português passa à ação e deixa que a natureza faça o que ele considera justo, após o massacre do prisioneiro alemão: que o leão se alimente do colonizador, seu compatriota.

As questões centrais dos três filmes são as mesmas: exploração imperialista, dependência econômica e cultural, o questionamento do que é a paz, do que é a guerra (ou a luta) justificadas. O filme argentino, realizado durante a ditadura de Ongania, coloca o panorama histórico em que se situa o país e se aprofunda na análise da oligarquia, das condições em que vive o povo, da intelectualidade distanciada do social, que não percebe o que significa o peronismo para o país. É doloroso pensar, após rever La Hora de los Hornos, que o pior ainda estava por vir naquele país amigo. O roteiro do filme brasileiro recria a situação universal das ex-colônias numa história ao mesmo tempo alegórica e paradigmática, uma realidade africana que espelha a brasileira, a latino-americana, a asiática de então. O filme português, num momento em que os documentários e os filmes feitos a partir de histórias reais estão tão valorizados, quase se constitui como um “romance de formação”, ficamos com vontade de saber o que terá acontecido ao avô de João Nunes Pinto depois do seu retorno a Portugal.

Por que ver\rever estes filmes? A resposta, embora a frase esteja citada no filme mais antigo, infelizmente ainda é válida: “Nestes tempos da América Latina, não há lugar para a passividade nem para a inocência.” Os tempos mudaram, a urgência é a mesma. Também porque trazem, no caso de La hora de los Hornos, uma radiografia dos anos sessenta e da formação e desafios argentinos frente às manipulações estrangeiras, sejam elas espanholas, inglesas ou norte-americanas; com filmagens e depoimentos importantes, tocantes, provocadores, em cada uma das sequências (autônomas) o documentário mostra a violência cotidiana exercida contra nossos povos, violência da qual nos damos conta cada vez menos. Solanas exibe, assim como Glauber, que o homem do terceiro mundo é um sub-homem para os países desenvolvidos, apesar de toda uma retórica ao contrário, que se desenvolveu posteriormente. Em um momento do filme se fala que “a monstruosidade se veste de beleza”, como a bela (e monstruosa) loira Marlene, do Leão glauberiano. A força das imagens, aliada à força das frases que as costuram, o ritmo, as músicas, reforçam a dor que sentimos ao ver, 52 anos depois, o quanto fracassou essa militância que afirmava: “A vitória dos povos do Terceiro Mundo será a vitória de toda a humanidade.” 

Quando venceu o Festival de Pesaro, em 1968, Los hornos arrebatou a plateia, silenciada pela emoção frente ao longo close do rosto morto do Che.

Rever o Leão de sete cabeças é um mergulho na atualidade, no vanguardismo provocador do grande baiano, capaz de sínteses políticas narrativas e estéticas nunca igualadas em nosso cinema. A liberdade do estilo da direção de Glauber está homenageada e comentada por amigos e colaboradores no ótimo Claro, de Glauber, de César Meneghetti, que acaba de ganhar o Prêmio da Crítica de Melhor Filme Brasileiro, no citado 44º Festival de São Paulo. Retornar a Glauber, como fez César, como podemos fazer ao rever sua obra, é importante, assim como retornar a Pino Solanas.

Já o Mosquito nos traz diferentes perspectivas, polêmicas, sobre a relação colonizador-colonizado. Duas me parecem fundamentais, em confronto com o Leão: o fato de que não sejam traduzidas as falas das cenas (muitas e longas) dos africanos interagindo entre eles e com Zacarias, entendemos sem entender, ouvimos o som da alteridade e imaginamos o que dizem. Absoluto respeito frente ao outro e também absoluta consciência da dificuldade da comunicação verdadeira entre os homens. Tampouco é traduzida a fala do prisioneiro alemão. Belíssima a cena em que Zacarias e seu prisioneiro encontram um enorme rio doce à frente e, frente a esta inesperada alegria, abraçam-se. A não tradução das línguas é  coerente com a complexidade que o nosso século XXI apresenta – nele tudo é traduzido pelo Google, tudo é facilitado; mas, se sabe, nada é verdadeiramente equivalente, nada é compreendido em sua essência de modo idêntico, pois o que o constitui um ser, um ente, uma cultura é a diferença. Um dos conceitos chave da luta pós-colonial dizia ser fundamental saber utilizar bem a língua do colonizador para vencê-lo, hoje uma das bandeiras é a resistência das línguas e dos dialetos.

Perspectiva essencial trazida pelo filme português é a existencial - “um filme de guerra sem guerra sobre um soldado sem exército”, como foi bem definido no Festival de Roterdã.  Zacarias vive uma aventura formadora, radical, perde a inocência e termina por entregar seu querido Sargento ao leão; o argumento deste – que se  justifica para o soldado, informando-o  de que o exército alemão havia feito horrores na Europa - não convence o jovem soldado, que se atém ao indivíduo alemão, ao sujeito que havia abraçado frente a um rio doce, não aceitando seu massacre.  Discutível? Atrevo-me a questionar se Glauber e Solanas estariam de acordo com a entrega ao leão.

A natureza, cada vez mais a causa pela qual lutar mais urgente do planeta, é a grande protagonista de Mosquito (cena inicial do filme, abaixo), ao lado do excepcional ator João Nunes Monteiro. A luta pela sobrevivência enfrentada por Zacarias, sofrendo malária (o mosquito do título) recorda a luta atual contra o vírus. A natureza é mais forte, é essencial defender sua biodiversidade para que o desequilíbrio não nos extermine.

Retornando ao comentário inicial sobre a eleição de Biden, esperemos que não provoque mais guerras, que o sofrimento que conheceu com as perdas vividas, aliado à formação multicultural de Kamala Harris sejam fortes o suficiente para enfrentar o Pentágono e a destruição ambiental do planeta.
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Veja aqui os links no YouTube para os filmes de Glauber Rocha e de Fernando Solanas. O filme Mosquito foi exibido no 44º Festival Internacional de Cinema de São Paulo, foi premiado, mas ainda não entrou no circuito.

Criado em 2020-11-12 21:22:37

Bebês e crianças já podem assistir teatro virtual

Angélica Torres –

O planeta segue para uma variante de distanciamento que, além da adesão ao trabalho em casa, demanda dos artistas a criação de novos e atraentes formatos para poderem se comunicar com seus públicos. Desafio posto, as soluções mostram a competência criativa de uma classe que precisa, sobretudo, se sentir retroalimentada pelo calor humano de suas plateias – caso dos elencos teatrais, dos músicos, dos bailarinos, dos circenses e até dos cinematográficos. A brasiliense Fernanda Cabral é um típico exemplo do panorama dessa realidade.

Compositora, cantora, instrumentista, musicoterapeuta, dançarina, atriz e agora também dramaturga e professora de Teatro para Bebês, Fernanda Cabral lança a peça de sua autoria O Farol, dirigida ao público de bebês de meses a crianças de até 4 anos, em um molde que reconfigura o teatro na linguagem do audiovisual. Originalmente, o espetáculo resultou de sua formação de Mestre pela Universidade de Brasília, em 2017. Foi apresentado com sucesso a plateias infantis de festivais teatrais realizados no Brasil, na Argentina, Espanha e França, até 2019 e, agora, parte para fazer carreira na plataforma virtual.

Nas duas versões, a presencial e a audiovisual, O Farol é dirigido por Clarice Cardell. Antiga parceira de Fernanda, atriz e produtora da Cia. La Casa Incierta e pioneira, no Brasil, nesta vertente do teatro voltado à primeira infância, Clarice Cardell chama de “aventura” a nova proposta, que basicamente alterna a projeção da atuação da peça ao vivo, com cenas previamente gravadas, como cinema.

O Farol estará nos festivais teatrais do país neste novo formato, começando amanhã, sábado (20/2), bem como o já clássico Pupila d’Água – a primeira montagem da Casa Incierta, de 2002, quando a Companhia ainda estava instalada em Madri – e Fernanda Cabral também atua nesta peça antológica, desde os seus primórdios. Reinventar assim o teatro foi o modo possível de driblar a paralisia que a pandemia trouxe, “ainda que com novo lugar para atores e espectadores”, ela ressalta.

Substrato poético - A poesia impera nesses trabalhos teatrais, como um fundamento de formação estética para os bebês. No palco, a plasticidade e a delicadeza de movimentos e cores, textos e canções, figurinos e objetos de cena, surpreendem e mobilizam a atenção dos pequenos. O plantio de uma semente de Arte é flagrante no imaginário e nas primeiras memórias da criança. Os pais e demais espectadores também se beneficiam da proposta, revolucionária para as novas gerações – as que chegam e as que já estão vivendo sua infância neste momento caótico, doentio, perverso, medíocre, no Brasil, e de futuro nebuloso, no mundo todo.

No caso de O Farol, além da concepção dramatúrgica, da composição e da interpretação da trilha sonora, da atuação com requintes de dança, Fernanda Cabral introduz simbolicamente o conceito do arquétipo feminino, no texto e na misancene. Por meio das aventuras de sua personagem, uma menina (ainda feto), a autora sugere valores como busca de identidade, empenho, coragem, autonomia, liberdade, até o (re)encontro com a sua contraparte e origem, em terra firme: a Mãe, que também representa a Natureza.

A “menina-asa”, que se constitui também em “menina-peixe”, uma sereia, cruza os ares, singra os mares, ciganamente, até chegar e avistar a figura materna cantando a mesma canção que ela, sob uma árvore: metáfora dos ecos do útero ressoando nas remotas lembranças e instintos da primeira infância e vida toda, que, como compositora e instrumentista, a artista se vale para trabalhar a sonoplastia do espetáculo.

Fernanda Cabral tem a energia feminina como o fio condutor de suas criações, a ponto de, em O Farol, ressignificar maternal e beneficamente o mito sinistro da Sereia de Homero, na Odisseia de Ulisses (que, aliás, representa os desafios postos pela Natureza, para a raça humana saber vencer com astúcia e habilidade). A ligação de Fernanda com o mar e seu universo é recorrente em seus CDs, em espetáculos musicais, nas suas diferentes criações para bebês e crianças.

Elemento visceral em suas personas, a água batizou até mesmo o seu recanto de trabalho, o Studio Sereia, em Brasília. Aí ela desenvolve projetos que visam dar voz à intuição, ou à energia feminina, no processo criativo; seja com seus alunos e alunas, em cursos de concepção de espetáculos para bebês ministrados em universidades como UnB, UFMG e UFG; seja no projeto Música nas Incubadoras, que ela leva a maternidades como percussionista e cantora para bebês prematuros e suas mães em situação de extrema vulnerabilidade; ou, ainda, compondo e gravando canções ou trilhas para teatro e cinema.

Parcerias – E todo esse cabedal se presta ao espetáculo, que, não por acaso, tem por título O Farol, símbolo de luz jorrada sobre oceanos para orientar os navegantes. Concebido em linguagem fragmentada, híbrido de conto e poemas, Fernanda Cabral, contou com duas expressivas parcerias para a confecção do texto da peça e da dramatização da mensagem cifrada – que bebês entendem e captam, mais até do que os adultos: o compositor Chico César, seu antigo amigo e mentor artístico, e o poeta Lau Siqueira.

Ainda na proposta das cenas filmadas para o formato virtual, é notável o tratamento dispensado à linguagem de sinais: vê-se logo no início uma espécie de balé com as mãos da atriz desenhando signos e significados do espetáculo, a fim de integrar crianças com deficiência auditiva à plateia. Também é digno de nota o esmero da cenografia e dos objetos de cena assinados pela artista plástica Viviane Cardell.

Tudo isso acena que o Studio Sereia e a Cia. La Casa Incierta prestam um serviço inestimável às famílias com filhos no primeiro estágio da vida. Aproveitar o tempo de “quando a criança é criança”* é preciso, pois tudo é passageiro. E a oportunidade generosamente oferecida é esta, agora.
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(*) Als das kind kind war, verso do poema “Canção da Infância”, de Peter Handke, citado no filme Asas do Desejo, de Wim Wenders.

(**) Para ver cenas do espetáculo O Farol clique aqui

O FAROL no Festival de Teatro Primeiro Olhar - Reserve seu ingresso virtual no e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. informando dia e horário preferidos. Ao se confirmar a reserva, você receberá um link Zoom para acesso à sala, o que pode ocorrer um pouco antes do horário da transmissão. Fique atento; ele chegará.

Observação: Cada festival ainda irá disponibilizar um link para a transmissão. Fique atento.

Criado em 2021-02-19 03:48:42

Freixo deixa o PSOL para ampliar a luta contra Bolsonaro

Romário Schettino -

Em uma nota pública, o deputado federal Marcelo Freixo explicou hoje (11/6) por que deixou o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), onde ficou filiado durante 16 anos (desde 2005), e foi para o Partido Socialista Brasileiro (PSB).

É uma nota política, equilibrada, preocupada em não romper alianças e empenhada em construir novas pontes. Freixo é um político experiente e viu que no PSOL suas chances de sair candidato a governador do Rio de Janeiro numa ampla aliança de centro-esquerda teria dificuldades internas, sobretudo no setor mais sectário do partido.

Freixo, como já era previsto, foi o segundo a deixar o PSOL nos últimos dias. Antes dele, saiu o ex-deputado federal do PSOL do Rio, Jean Wyllys, que se filiou ao PT.

Em seu comunicado de despedida do PSOL, Freixo disse que “é urgente a ampliação do diálogo e a construção de uma ampla aliança com todas as forças políticas dispostas a somar esforços na luta contra o bolsonarismo.”

A ida de Freixo para o PSB faz parte de uma estratégia de viabilizar sua candidatura ao governo do Rio com apoio de Lula-PT, PCdoB, PSOL, PDT, PSD, setores do DEM e do PSDB, além de outras siglas menores.

“É hora de colocarmos as nossas divergências em segundo plano para resgatarmos o nosso país do caos e protegermos a vida dos brasileiros. As eleições de 2022 serão um plebiscito nacional sobre se a Constituição de 1988 ainda valerá no Brasil, por isso nós democratas não temos o direito de errar: do outro lado está a barbárie da fome, da morte e da devastação”, escreveu Freixo.

A seguir, íntegra da nota:

“Ingressei no PSOL em 2005, antes de me eleger deputado estadual pela primeira vez. De lá para cá, compartilhamos uma bela história e colocamos o partido no centro da luta pela democracia brasileira. Juntos, fizemos as CPIs das Milícias, do Tráfico de Armas e Munições e dos Autos de Resistência; enfrentamos com coragem os governos Sergio Cabral e Pezão; colocamos a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa a serviço dos esquecidos pelo poder público; disputamos a prefeitura do Rio de Janeiro numa linda campanha que encantou nossa cidade e fomos ao front contra o governo Bolsonaro. Mais do que companheiros de luta, as pessoas com quem construí o PSOL são amigos com quem divido projetos de vida.

Hoje, encerro esse ciclo com a certeza de que apesar de não estarmos juntos daqui para frente no mesmo partido seguiremos na mesma trincheira de defesa da vida, da democracia e dos direitos do povo brasileiro. Essa decisão foi longamente amadurecida e tomada após muito diálogo com dirigentes nacionais e estaduais do partido, a quem agradeço pelas reflexões fraternas que compartilhamos nesse processo.

Os graves retrocessos institucionais e humanos provocados por Bolsonaro em apenas dois anos de governo impõem novos desafios à democracia e à atuação do campo progressista. É urgente a ampliação do diálogo e a construção de uma ampla aliança com todas as forças políticas dispostas a somar esforços na luta contra o bolsonarismo. É hora de colocarmos as nossas divergências em segundo plano para resgatarmos o nosso país do caos e protegermos a vida dos brasileiros. As eleições de 2022 serão um plebiscito nacional sobre se a Constituição de 1988 ainda valerá no Brasil, por isso nós democratas não temos o direito de errar: do outro lado está a barbárie da fome, da morte e da devastação.

Seguirei nessa caminhada, me dedicando à construção de pontes, reafirmando o valor do diálogo e o papel da política como meio de resolvermos de forma pacífica os problemas do nosso país. O nosso dever histórico é derrotar Bolsonaro nas urnas e o bolsonarismo enquanto projeto de sociedade. E sei que o PSOL e eu estaremos do mesmo lado para cumprir com essa tarefa.”

Criado em 2021-06-11 21:51:10

Música para beijar

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Guia Musical de Brasília nº 9 - Ao entrar no quintal do subprocurador-geral da República, pianista e compositor Antônio Carlos Bigonha, no Setor de Mansões Dom Bosco, a gente se depara com um grande painel de azulejos de Athos Bulcão, composto especialmente para a casa. As peças foram parar em 2004 na capa do primeiro CD de Bigonha, o Azulejando, título do chorinho que ele dedicou ao amigo Bulcão, o criador da pele de Brasília, complemento dos eixos do Lúcio Costa e das curvas do Niemeyer.

De chofre, o editor do Guia Musical faz uma provocação política à guisa de cumprimento: “Eu o entrevistei para a revista do Sindjus no início do século, numa época em que o Ministério Público ainda defendia o princípio da presunção de inocência”! Bem humorado, Bigonha dá uma resposta séria, antes da conversa tratar de música: “Eu estou preso ao Ministério Público guardião das garantias fundamentais. Ele se desviou um pouco do caminho, mas vai voltar a cumprir o seu melhor papel, de advogado da sociedade, e não de delegado nacional”.

Voltando ao motivo da entrevista, o pianista-compositor faz um resumo de sua vida e carreira. Tomou as primeiras lições de piano com a mãe, dona Helena, em Ubá, Minas Gerais. Estudou também com a professora Ana Lúcia d’Ávila, sobrinha do cantor Nelson Ned, seu conterrâneo. Quando tinha de onze para doze anos, o pai, funcionário do Banco do Brasil, foi transferido com a família para Brasília. E aqui ele cursou piano clássico na escola Lorenzo Fernández. No final da década de 70, frequentou a Escola de Música de Brasília, como aluno do maestro Emílio de César. Terminando o segundo grau, ingressou na UnB, onde concluiu o curso de piano clássico.

Desde criancinha – Composições Antônio Carlos Bigonha faz desde os sete anos, incentivado pelo avô materno, um violinista descendente de italianos. Os professores de piano não gostavam nada de seus exercícios, achando que eles tiravam “a disciplina do estudo”. A ideia de se lançar como compositor se concretizou no dia 21 de abril de 2001, no show Saudades de Brasília, apresentado na Sala Martins Pena do Teatro Nacional.

“Eu chamei o Eladio Oduber, um pianista, que eu conheci no Gate’s Pub e no Bom Demais, líder de uma banda ótima, a Cocina del Diablo. O Eladio produziu o show, tocou piano, e eu toquei também. O repertório foi todo autoral, com o Ademir Júnior no saxofone, o Rômulo Duarte no contrabaixo, o Erivelton Silva na bateria, e o Cleiton Souza também no saxofone”.

No ano seguinte, Bigonha conheceu Toninho Horta na casa do amigo Marquinho, marido da poeta Amneres Santigo. Mostrou-lhe algumas músicas e, para sua surpresa, Toninho lhe perguntou se não gostaria de gravar com ele. “Aí eu quis, né! Lógico”! Desse encontro resultou o CD Azulejando, produzido por Flávio Henrique, do estúdio Via Sonora de Belo Horizonte, com as participações de Toninho Horta (violão e guitarra), Juarez Moreira (guitarra),  Esdra Ferreira, o Neném (bateria), Maurício Freire (flauta) e Chico Amaral, da banda Skank (flauta). As duas canções com letra, O Lamento do Pierrô e Maio Azul, foram interpretadas por Marina Machado. O disco ganhou o IV Prêmio BDMG Instrumental, e Bigonha saiu em turnê por Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro.

O encontro com Dori – Na sequência, o produtor Flávio Henrique de Belo Horizonte apresentou a Bigonha a cantora e compositora Simone Guimarães, que lhe propôs parceria. Daí resultaram duas canções, Flor de Pão e Confissão, gravadas para o CD Flor de Pão de Simon no estúdio Biscoito Fino de Francis Hime, no Rio. Ali Bigonha conheceu Dori Caymmi, que arranjou a valsa Confissão, depois gravada também por Nana Caymmi.

A partir dessa experiência, e da amizade imediatamente iniciada com Dori, Danilo e Nana, Bigonha deu um passo gigantesco na carreira. Com Dori gravou o segundo disco, Urubupeba, em 2010, com todos os arranjos de Dori. O próprio Bigonha tocou o piano; a guitarra, Paulo André Tavares e Dori Caymmi; o baixo, Oswaldo Amorim e Jorge Hélder; a bateria, Leander Motta e Jurim Moreira; e a percussão, Michael Shapiro. O álbum gerou shows no Clube do Choro, no Rio e Belo Horizonte.

Oito anos depois, ele quis gravar um disco só com piano (ele próprio), baixo (Jorge Hélder) e bateria (Jurim Moreira), o Anathema. Detalhe: com a segunda faixa do álbum, Que ironia, inaugurou uma nova parceria, dessa vez com o compositor Clodo Ferreira, renovada no disco seguinte, o último, Saudades de Amanhã, lançado em dezembro do ano passado.

Os arranjos do piano e da orquestra desse disco foram feitos por Dori Caymmi, que, aliás, foi quem o engatilhou. Isolado pela pandemia em Petrópolis, um dia Dori ligou para Bigonha perguntando se ele não tinha “música pra gente arranjar”. Ele tinha algumas, e compôs outras para completar o álbum com uma pegada confessadamente jobimiana. “Não é à toda que eu me chamo Antônio Carlos”, diz ele, atribuindo seu nome de batismo à Bossa Nova.

A faixa Perto do Tom é a que compôs com Clodo Ferreira. O Prólogo e o Epílogo ele compôs com Dori. No violão comparece Dori; no contrabaixo, Jorge Hélder; na bateria, Jurim Moreira. O luxo das cordas, por indicação de Dori, coube a uma orquestra de São Petersburgo, regida pelo maestro brasileiro Kleber Augusto.

Infelizmente, não temos espaço para estender estes comentários. No entanto, o Guia Musical não poderia deixar de registrar três informações relevantes:

1) O nosso entrevistado os três filhos para a música, deixando que cada um escolhesse o seu instrumento: Roberto, o caçula, ficou com a bateria; Antônio, com o baixo elétrico; Márcio, com a guitarra e o violão. Márcia, a esposa, analista do Tribunal Regional Federal, não é musicista, mas é a sua produtora e a primeira crítica.

2) Bigonha concluiu em dezembro de 2015 o mestrado na UnB, investigando a ressignificação da obra original pelo arranjador. Nessa perspectiva, a sua hipótese é um arranjo é uma forma de interpretação, tanto mais original quanto o arranjador “conseguir distanciar-se da forma primeva elaborada pelo compositor, sem, no entanto, descaracterizá-la”. Como seria de esperar, ele escolheu Dori Caymmi como o caso de seu estudo.

3) Nosso músico está sendo ouvido em todo o mundo. A canção Perto do Tom estourou no Spotify com mais de 150 mil audições. No Japão, um crítico aparentemente conhecedor da MPB registrou numa resenha que as melodias do álbum Anathema “são muito bonitas… são músicas boas para beijar”.

Criado em 2021-12-14 23:29:05

Os lobisomens

Luiz Martins da Silva –

Esta é uma história de um tempo em que havia espantos. E em que a gente pequena se arrepiava ao ouvi-los.

Boca a boca, até se sabia de um casal que se transmutava. Morava numa rua acima da nossa. A prova? Ele e ela eram muito amarelos, a certeza de gastarem muita energia em noitadas lobisoméricas.

De praxe, não andar pela mesma calçada da casa deles. Isto se aprendia na hora da contação, as rodas de conversa antes de sermos chamados para dentro, se lavar, comer alguma coisa e ir dormir. Dormir? Difícil. E mesmo sono pegado, desassossego, a gente sonhava com eles, virando bichos.

Havia um homem que dizia para quem quisesse ouvir, que era só chamarem e ele serviria de testemunha. Um tal Felisberto. Uma vez, vendo-o passar ao longe, corri e o alcancei. Quis saber da própria voz dele como era. Mesmo eu sendo ainda uma criança, não se fez de rogado. Não somente confirmou, como detalhou:

– Eu voltava para casa, umas onze e meia da noite. A terrível criatura tinha uma cabeleira, de cobrir todo o corpo, mistura de juba e crina. Os olhos, vermelhos, arregalados e brilhantes, feito tochas na escuridão.

– Então, o senhor foi atacado pela fera do outro mundo?

– Sim, mas eu que não sou besta, já havia me instruído. Nada de tiro, nem arma branca, nem força bruta. Madeira, sim, qualquer graveto em cruz tem mais força.

– Então, é só cruzar paus em cruz?

– Não é simples, assim. Eles não suportam a cruz, mas, de qualquer maneira, desviam as vistas e vêm derreando em direção da gente, esturrando e, num descuido, atacam e devoram o cristão. A pessoa não pode tropeçar, cair, dar as costas para eles. Se for do tipo que se mija de medo e sai correndo, não escapa, ninguém tem carreira para ganhar deles.

– Então, é difícil alguém sair vivo?

– Se estiver bem prevenido, se safa. Saber as rezas poderosas para a ocasião. Um cre’m-deus-padre; a oração do anjo da guarda; três pelo-sinal; e três sinal-da-cruz.

– E manter os pedaços de madeira em cruz?

– Sim e estar pronto para fincar um deles no bicho. O que mata é madeira. Já falei, bala e faca, bobagem.

Ele me deu a receita, mas, fiquei matutando. Mesmo sabendo das simpatias, eu não pretendia enfrentar lobisomem algum. E de qualquer maneira, era pouco provável que eu viesse a estar, às onze e meia da noite, no lugar onde as feras mal assombradas apareciam. Era um lugar pavoroso, um despenhado que dava para uma pedreira onde estouravam dinamite para extrair pedras a serem cortadas para calçamento de ruas. De dia, trabalho duro, de pessoas muito pobres, para ganhar o sustento. De noite, lugar, diziam, de vibrações muito pesadas. De qualquer maneira, os meninos iam adquirindo sabedoria acerca dos lobisomens, das estripulias destes e de como se podia neutralizar a valentia feiticeira deles.

O pior, e isto eu tinha certeza, era a gente, ainda praticamente uma criança, ficar sabendo das orientações malignas para uma pessoa se transformar naquelas entidades de horror. A receita eu vou contar, mas, somente para vocês ficarem sabendo como é que pessoas do mal tomam parte com ele. O que elas ganhavam em troca, não me lembro e bem e até me dá calafrio em pensar que alguém pode trocar uma vida benta numa sina maldita. Parece que em eles se virando para o lado do pé quadrado obtêm facilidades no mundo do crime, mesmo cientes de que podem ir direto para o inferno.

Feita a advertência, conto como cresci apavorado com essa história, de todas a que mais me atemorizou ante a possibilidade de que, por conta de algum deslize moral, resvalasse para os caminhos que sugam as pessoas para os abismos do diabo e de suas criaturas medonhas, escravas dele nesta parte do mundo e na outra também.

Finalmente, depois que o medo já não me perturba o sono e que me garanto na confiança de que a prática do bem é a melhor proteção do cristão, posso, tranquilamente, rememorar esta, que é uma das besteiras mais insanas que passavam para a gente, talvez como forma de educar por meio do medo.

Para se iniciar na arte de ser lobisomem, é preciso proceder da seguinte maneira: numa passagem de quinta para sexta-feira santas, ou seja, perto da meia-noite, ir a um espojeiro de cavalo e esfregar as costas no chão, da maneira como eles fazem tentando aliviar a coceira dos carrapatos. Espojeiro, saibam, é aquele piseiro em roda que o animal deixa no terreno batido. O indivíduo tem de se espojar, à meia-noite, na convicção de que passará a ter o poder de, quando a tentação vier, virar essa mistura de lobo e homem ou de loba e mulher. Ganham, assim, superpoderes para a prática de maldades, entre elas, a de devorar os que andam por lugares amaldiçoados. Em desvantagem, no dia seguinte estão sem energia, o sintoma da amarelidão, as olheiras fundas, o esmorecimento, a vista baça.

Ainda bem que ainda há orações e boas disposições para os caminhos do bem. Em todo caso, recomendo, se, de qualquer maneira, tiverem que passar de noite por lugares sinistros, lembrem-se de ter consigo dois pedaços de pau. De preferência, bem apontados, para a mira certeira no coração dos bichos. O fato é que pessoas do mal continuam existindo, metamorfoseando-se e podendo atacar.

Lobisomens e lobismulheres estão fora de moda e já não povoam as sombras das noites mal-assombradas das crianças, hoje, muito mais presas à violência dos games e a outros tipos de besteiras que assolam, por exemplo, as redes sociais. Mas, nunca é demais prevenir: o mal não compensa, mesmo que acene com tentadoras recompensas.

Criado em 2020-09-04 12:50:57

As duas faces da pandemia brasileira

José Carlos Peliano (*) –

A epidemia de doença infecciosa provocada pelo corona-vírus, a chamada Covid-19, com início no território brasileiro bem no começo do ano passado se propagou num ritmo tão intenso que acabou em pandemia. O Brasil é considerado hoje o pior país no estágio avançado da doença tanto em número de infectados quanto de mortos. Na sequência trágica inúmeras UTIs de hospitais estão abarrotadas sem chances de atender a mais aumento no número de doentes e internados.

Esse quadro já é bem conhecido de todos nós que acompanhamos alarmados a evolução da pandemia dia a dia pelos noticiários. O que talvez não seja tão claro para muitos de nós, no entanto, é o que está também por trás dessa situação calamitosa que o país hoje apresenta. Foi sendo percebida por poucos ao longo da curva ascendente dos doentes, dos brados constantes e indignados dos pesquisadores e cientistas responsáveis e da sofrida sobrecarga de trabalho dos profissionais de saúde nos hospitais e seus auxiliares de atendimento e serviços gerais.

Enquanto a atitude leviana e totalmente desinformada por parte da administração central no Planalto de negação da malignidade da doença prejudicou sobremaneira a preparação de enfrentamento da pandemia logo no surgimento dos primeiros infectados, ela desencadeou por igual uma relativa desatenção dos agentes econômicos especialmente da indústria e dos serviços.

Então, de um lado a deliberada negligência do setor público central e de outro a pouca preocupação de parte dos responsáveis de nossa economia na antecipação de medidas e ações de adaptação dos parques produtivos respectivos, acabaram se encontrando meses após numa encruzilhada de saída imprevisível e desastrosa. A convivência e exposição contagiosa por todos com a Covid-19 junto a um quadro de queda na produção, desemprego, perda de renda e falta de um horizonte de recuperação imediata do estado de coisas.

O pior estaria ainda por vir logo no início do ano seguinte, 2021, com a volta do descontrole e pressão de preços ao provocar inflação generalizada, especialmente nos itens da cesta básica, por conta dos aumentos consecutivos e em pouco tempo da gasolina, gás de cozinha e medicamentos.

Sem a devida atenção, coordenação e acompanhamento pelo governo central desse caótico estado geral pandêmico e econômico, coube aos estados e municípios, cada um a seu jeito, com suas alternativas e possiblidades enfrentar as dificuldades decorrentes. Sem muito sucesso, no entanto, ao se notar a situação desumana a que chegou Manaus pelo número de infeccionados, mortos e sem atendimento necessário por conta da superlotação da rede hospitalar.

Outras unidades estaduais e municipais igualmente passaram períodos de transtornos insuportáveis e mais recentemente o colapso do sistema de saúde em Altamira no Pará. Maricá/RJ foi uma das poucas sob administração contrária à do governo federal que conseguiu sucesso, apresentando reduzido número de infectados e mortos e que já encomendou vacina Sputnik V para toda a população.

Ao tempo em que a economia vinha cada vez pior com quedas mensais de produção, registradas e comprovadas pelas estimativas oficiais, e a pandemia também se alastrando cada vez mais conforme se via nas elevações das contagens diárias de infectados e mortos, o setor financeiro por seu turno vinha muito bem obrigado ao serem observados os resultados de seus lucros. Vários bancos chegaram a atingir níveis consideráveis pelos aumentos alcançados, gerando resultados positivos crescentes. Pelo menos dois fatores contribuíram para isso, a inadimplência de devedores de empréstimos e financiamentos, o que proporcionou o confisco contratual pelos bancos de seus bens e o alto patamar constante das taxas de juros cobradas pelas operações financeiras tanto pessoais quanto empresariais.

O império bancário toma conta da vida do brasileiro e empunha a bandeira privada. O setor público, além de produzir cortes nos gastos sociais e deslegitimar e limitar direitos, como aposentadorias, exceto dos militares, reduz cada vez mais sua participação no financiamento dos investimentos públicos, na criação de moeda, na distribuição de meios de pagamentos e no controle do meio circulante. Esfacela a Petrobras, o BNDES, a Eletrobrás, entre outras empresas e organizações públicas e esvazia as agências regionais de desenvolvimento.

Até o Banco Central, o banco dos bancos, está agora nas mãos da iniciativa privada a cargo do sistema bancário e financeiro. Eles são os que decidem o nível geral da taxa de juros (a chamada Selic) que regula a taxa de referência a ser usada pelos negócios na economia, além das demais medidas para controle da inflação e da taxa de câmbio.

O brasileiro comum está diante de uma situação sem precedentes, num mato sem cachorro, pela falta de apoio do governo central que lhe dê segurança econômica, financeira, sanitária e de desenvolvimento, além de outras garantias de vida e trabalho, agora quase tudo sob controle dos senhores magnatas dos bancos e financeiras.

Esse quadro assustador em maior ou menor grau é o que se passa hoje mundo afora. Segundo o economista Luiz Gonzaga Belluzzo na Carta Capital desta semana “o sistema financeiro é a instância dominante nas relações econômicas do capitalismo de todos os tempos e em todos seus tempos”. Sua articulação às demais instâncias da sociedade é dominante. Prossegue ele “o rádio, a televisão e os jornais empenham-se em convencer os cidadãos da necessidade de se sacrificar, aceitar cortes nos gastos sociais, abdicar dos direitos ou encarar a destruição da economia. Morra nos hospitais sem médicos e sem remédios. Em nome da ciência econômica, do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém”.

Eles dão as cartas na economia até agora desgovernada e têm tudo para aprofundar ainda mais a crise pela qual passa o país uma vez que seus interesses se voltam para benefício de seus acionistas e não para a população em geral. Já se fala em estagflação que é a parada da economia com alta de preços, um quadro assustador ainda mais em período de pandemia sem data de término no horizonte.

Sob o atual governo federal são praticamente inexistentes as chances de alteração desse estado de coisas para voltar a uma condução pública e democrática da economia e do apoio à sociedade especialmente dos grupos mais vulneráveis e discriminados. O dito responsável pelo ministério da Economia joga do lado do mercado financeiro por ter vindo de lá e dele ser parceiro. O residente no Planalto fez o que fez na condução do país e da pandemia. As instituições judiciárias e legislativas federais agem de um jeito e desfazem de outro. Rezar não traz entidades e divindades seja de onde for para ajudar a debelar o mal. Só nos resta indignar, como dizia a querida e saudosa doutora Nise da Silveira, e se preparar para quando chegar a hora de atuar, agir e mudar.
_______________
(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor e economista.

Criado em 2021-03-18 14:13:25

O país que perdeu o futuro

Luiz Philippe Torelly (*) -

Todos recordamos de livros que foram marcantes em nossas vidas. Ainda adolescente li Brasil País do Futuro, do famoso escritor Stefan Zweig, austríaco, que se exilou no país fugindo da selvageria nazista.  É um livro otimista e fervoroso, onde ele exalta as qualidades do país e de suas gentes e aponta um futuro promissor. Tragicamente, Stefan e sua esposa se suicidam, motivados pelo receio de uma possível vitória nazista que então se desenhava.

Do livro à realidade, vamos para o dia 1º de abril de 1964. Eu tinha nove anos e estava cortando os cabelos na Barbearia do Nicola, na comercial da SQS 208, onde morávamos. De repente, meu pai entra sobressaltado e nos pega pela mão. Vamos embora mesmo com o corte inacabado.

Havia começado o Golpe Militar de 1964. Próximo a nossa quadra, na SQS 408, havia uma Central Telefônica do DTUI – Departamento de Telefones Urbanos e Interurbanos. A Central logo foi ocupada por blindados e ninhos de metralhadora, por seu caráter estratégico.

Papai em seu rádio transglobe, ficava ouvindo as notícias e as listas de cassações. Minha mãe mais politizada, estava apreensiva e revoltada com os absurdos dos militares e o exílio de Jango, Brizola e Arraes entre outros tantos.

O início da década de 60 foi um tempo de otimismo. Brasília, Bossa Nova, Bicampeão mundial de futebol, Eder Jofre, Maria Ester Bueno, Miss Universo Maria Yeda Vargas, reformas agrária e urbana, 13º salário. Os jornais estampavam fotos das colunas de tanques e dos soldados e teciam loas, como novamente fizeram no impeachment criminoso de Dilma Rousseff. O mesmo povo que saiu às ruas pedindo Deus, Pátria e Família, foi o que recentemente pediu a volta dos militares e do AI-5.

Em 1968, os ventos da mudança e da liberdade sopraram mundo afora. Aqui a ditadura estava instalada, mas ainda não havia exibido todas as suas garras. Vou ao banheiro da escola, onde aliás se ensinavam lições grotescas de Moral e Cívica, em um livro de autoria do líder integralista Plínio Salgado, uma caricatura de Mussolini tupiniquim. Havia um pequeno cartaz colado na parede com os seguintes dizeres: Rockfeller vem aí. Pau nele!

A revolta que tomava as ruas de Paris, a ponto de pôr em risco o governo De Gaulle, chegava ao Planalto Central. Passeatas na W3, movimentos secundaristas e universitários presentes. Ao chegar recebo um cartaz: “Seguiremos o exemplo do povo Vietcong!”. Polícia, jatos de água, prisões, quebra-quebra na Thomas Jefferson.

Pouco tempo depois veio o malfadado AI-5. A Ditadura recrudesceu, tortura, morte, desaparecimentos, cassações, exílios, censura, fechamento do Congresso Nacional, cassação de Ministros do STF. Uma longa noite de trevas pousou sobre o país.

Sete anos se passaram até que a morte do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho sob tortura nas dependências do DOPS paulista, levasse a sociedade a exibir sua repulsa e exigir democracia.

Esse novo momento já me pegou na Universidade de Brasília, onde o mundo se abriu para mim. Uma realidade inovadora que me fascinou. Uma atmosfera de liberdade, livre pensar, novas ideias em plena ditadura. O movimento estudantil se recuperava e se reorganizava.

Em 1977, as greves estudantis retornaram mostrando a indignação não só dos estudantes, mas de toda a sociedade. Nosso arqui-inimigo, Capitão de Mar e Guerra José Carlos Azevedo determinou a invasão da universidade e a prisão de dezenas de colegas. O regime odioso fazia questão de mantê-lo, para exibir seu poderio. Deve estar ardendo no sétimo círculo do Inferno de Dante Alighieri.

A anistia de 1979 traz um alento de pacificação de para o país. “Muda-se alguma coisa para nada mudar”, a famosa frase de Tomasso di Lampeduza. Depois de 15 anos, algumas nesgas de céu azul aparecem. Ainda iremos esperar mais 6 anos para o fim do regime militar. Dos 9 aos 30 anos, imerso em uma ditadura. O País do Futuro continua um dos mais desiguais do mundo.

Permanece o binômio de 500 anos: escravidão e latifúndio. As esperanças permanecem. Não sei se é bom ou ruim, mas sempre vivi mais no futuro do que no presente.

Uma impressão errada de que havia uma maioria contra a ditadura se desvanece. Os dois mandatos de Lula, algumas mudanças importantes na educação, direitos trabalhistas, reforma agrária, renda mínima e a política de cotas raciais são avanços importantes.

Tudo é muito difícil. Uma imprensa hostil e pró mercado é hegemônica. Embora haja uma crescente inserção social, claramente expressa em muitos indicadores, não há uma percepção evidente desses avanços sociais e políticos na sociedade.

O segundo governo de Dilma Rousseff fica exposto e fragilizado diante de uma política econômica dúbia e de um congresso clientelista. As famosas jornadas de 2013 ainda são uma incógnita. Não ouvi nenhuma explicação plausível, calcada em fatos e análises consistentes. Essa conversa mole de 20 centavos de aumento da passagem de ônibus é um acinte à inteligência. Como um movimento com aquela magnitude não deixa nenhuma liderança ou movimento permanente. As ações da lava jato e de seus aliados, deixa um mau cheiro de CIA no episódio.

O impeachment e as suas consequências foram um desastre absoluto para o Brasil. Primeiro um atentado brutal à democracia. Mais uma vez a imprensa se posiciona com forte caráter golpista. Corte de direitos trabalhistas históricos, reduções do salário e da renda, transferência de renda maciça para os segmentos já historicamente supremacistas. Incentivo crescente a guerra política e cultural. Sectarismo e ódio ideológico nunca visto antes, invadindo famílias e círculos de amizade e relacionamento.

Os ovos da serpente eclodidos, trazem o retorno de um militarismo que ainda sobrevive e se alimenta dos despojos da guerra fria. O fantasma do inimigo interno é revivido. O negacionismo alimenta o genocídio de centenas de milhares de vidas na pandemia da COVID.

A mentira e as dissimulações estão por toda parte. Uma sociedade paralisada e atônita pouco reage. O sonho de Stefan Zweig se desvaneceu. A fome está de volta. Vemos por toda parte pessoas procurando do que se alimentar no lixo, tal qual o poema O bicho, de Manuel Bandeira.

Somos um país onde o passado convive com o presente e o futuro, às vezes no mesmo bairro. Estamos naufragando como nação e povo. Ainda dá tempo.
___________________
(*) Luiz Philippe Torelly é arquiteto e urbanista.

Criado em 2022-04-01 23:44:48

Palmeira no Aterro do Flamengo, obra de Burle Marx

Um grandioso e raro espetáculo da natureza está em cena no Rio de Janeiro. Trata-se da floração de palmeiras Corypha umbraculifera, ou palma talipot, no Parque do Aterro do Flamengo.

Trazida do Sri Lanka por Roberto Burle Marx, autor do projeto paisagístico do parque, ela floresce uma única vez na vida, cerca de cinquenta anos depois de plantada. Em seguida, inicia um longo processo de morte.

Os cachos da palma talipot contêm aproximadamente um milhão de microflores e ficam no topo da palmeira, formando uma copa de tonalidade castanha de até oito metros de diâmetro e quatro metros de altura.

Nos dois anos que separam essa explosão de flores de sua morte, a palmeira produz uma tonelada de sementes, a forma que a natureza encontrou para garantir a sobrevivência de uma espécie que leva tanto tempo para se reproduzir.

Essa notícia foi distribuída na internet pelo somelier Adiu Bastos.

O internauta Eduardo Sinkevisque lembra que a construção do paisagismo do Aterro do Flamengo é retratada no filme “Flores Raras”, “sobre a passagem da poeta Elizabeth Bishop pelo Brasil e seu (dela) relacionamento com Lota de Macedo Soares, que trabalhou na implantação do Parque do Aterro”.

Criado em 2019-10-16 22:38:17

MAR inaugura exposição sobre o protagonismo do corpo

Revirar apresenta um recorte inédito com 14 vídeos do acervo museológico do Museu de Arte do Rio (MAR) – em cartaz até 6/11 (Praça Mauá 5 – Centro do Rio).

A partir do foco no corpo, a exposição Revirar apresenta a produção audiovisual de 15 artistas jovens, como Diambe, Juliana Notari e Pablo Lobato, e de artistas históricos, como a italiana Anna Maria Maiolino. A mostra aborda assuntos de dimensão política como a revisão histórica e social, os apagamentos, as geopolíticas da existência, as disputas e as paisagens, temas que dialogam com a identidade do MAR e com o território da Pequena África em que o museu está inserido.

Revirar vai ocupar o Foyer do quinto andar da Escola do Olhar, espaço que abrigou recentemente outras exposições como Pixinguinha: O maestro batuta e Beirute: O caminho dos olhares. A mostra tem curadoria de Marcelo Campos, Amanda Bonan, Amanda Rezende e Jean Carlos de Souza.

Mais informações em www.museudeartedorio.org.br
________________
Serviço:
Exposição Revirar
Local: Foyer - 5º andar
Praça Mauá, 5 - Centro
Entrada Gratuita

Criado em 2022-10-08 16:41:03

Camarilhas sino-soviéticas

Memélia Moreira (*) -

Joe Biden foi eleito por eliminação. Portanto, não teve tempo de se pensar sentado no Salão Oval e acreditar que estava dirigindo um Império Colonial. Mas teve uma vida inteira para estudar o xadrez político internacional. Portanto, podia se aquietar.

Ele é só cinco anos mais velho do que eu. Cresceu ainda com os últimos tambores da Guerra Fria soando e, provavelmente, ouviu os dirigentes chineses chamando os dirigentes da então URSS de "camarilha revisionista". Eu, pelo menos ouvia.  Atentamente.

Mas os tempos mudam e essa mudança começou há alguns anos. Tempo suficiente para qualquer prefeito do remoto Zimbabwe se adaptar. Até eu, que só quero a presidência do Clube do Chapéu, me adaptei.

Mas, não, Biden ainda acredita que comunista come criancinha - ele e grande parte do povo de seu país - e que russos e chineses são inimigos mortais. São, mas aquela fórmula, "o inimigo do meu inimigo é meu amigo" funciona quando menos se espera.

Pior para ele. E para nós que estamos assistindo esses preparativos de uma guerra que, se acontecer, vai matar mais que o Covid e suas variantes.

A China consegue cheirar à distância, o nauseabundo odor do colonialismo, mesmo o mais moderno de todos. E os derrotou no final dos anos 40.

Por isso mesmo, os atuais dirigentes dessa potência chamada China, estão em alerta no jogo neocolonial que se trava na Ucrânia, cuja oposição vem sendo armada pelos EUA desde os tempos de Obama, num tráfico internacional de armas com base na Polônia.

Eu se fosse Biden recolhia o trem de pouso e convidava seus países-satélites, França, Itália e Inglaterra, aninhados sob um guarda-chuva colonial chamado OTAN, para esquiar na abundante neve que cobre parte do Hemisfério Norte. Vai pra Davos refrescar as ideias.

China e Rússia estão conversando, se entendendo, superando as grandes divergências, prontos para uma atuação em bloco. E nenhum dos dois países acredita na sanha democrática dos cowboys. Sabem que a Ucrânia é apenas um pretexto para os EUA estenderem seu domínio colonial.

Então, presidente Biden, segue aqui minha sugestão. Pare de jogar baseball ou golfe e contrate um professor que lhe dê as noções básicas de xadrez.

Putin é um enxadrista e, o jogo de xadrez é jogado na China, Índia, Irã e Rússia, desde o século III A.C.

Seu boné de jogador não serve para nada nesse momento delicado. Você e seus aliados mal se entendem num jogo de damas.

Vai com calma e sai devagarinho para o mundo não perceber essa nova derrota no tabuleiro político.
_________________
(*) Memélia Moreira é jornalista. Publicou este texto em sua página no Facebook.

Criado em 2022-01-28 12:54:56

NOVO FUNDEB. APOIE ESSA IDEIA. EDUCAÇÃO É PRIORIDADE!

Preparamos um vídeo explicativo para você conhecer um pouco mais sobre o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Ele acaba em 2020 e estamos somando esforços junto ao Parlamento, à sociedade, às Instituições Educacionais, às Organizações Não-Governamentais para que ele se torne permanente, com mais recursos e com critérios de distribuição mais justos.

Nós acreditamos que investir em educação é investir em desenvolvimento, em inclusão social, em democracia participativa e também em um Brasil melhor. Precisamos do seu apoio! Assista ao vídeo, compartilhe com familiares e amigos e nas redes sociais!

#NovoFundeb #ApoieEssaIdeia #EducacaoÉPrioridade

Criado em 2019-12-09 20:47:57

“Cadê o Adão?”

Alexandre Ribondi –

Brasília - A audiência pública convocada pela secretaria de Cultura do Distrito Federal com os fazedores de cultura, a propósito do desvio de R$ 25 milhões do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), não aconteceu. Marcada inicialmente para as 14 horas dessa segunda-feira, 20/5, no Museu da República, a audiência foi adiada para quarta-feira (22/5), no mesmo horário e no mesmo local. No entanto, os artistas presentes tiveram que desabafar e a palavra de ordem repetida aos gritos foi mesmo “Cadê o Adão?” - em referência ao secretário de Cultura Adão Cândido, que tem o irresponsável ato de não comparecer a nenhum evento onde possa correr o risco de se ver cara a cara com a classe artística da cidade.

O que está em jogo são os R$ 25 milhões do FAC que foram surrupiados dos artistas para, alegadamente, custear as reformas da Sala Martins Pena do Teatro Nacional Cláudio Santoro, que está fechado e entregue às moscas há cinco anos.

Como muito bem explicou o curador Alaôr Rosa, “não se pode fazer reforma e reparo às custas da morte da cultura”. Falar de morte da cultura não é nenhum exagero. O desvio da verba, originalmente destinada a custear a produção de artes cênicas, põe na inatividade 12 mil artistas e técnicos e 30 mil outros trabalhadores, de maneira indireta.

Também se falou de crime na porta do Museu da República. Faixas com dizeres como “Cultura Sem FAC é Cidade Sem Voz” e “Cadê a Audiência?” foram erguidas debaixo do sol forte. Segundo Alaôr Rosa, “estamos aqui para chamar o governador Ibaneis Rocha e o secretário Adão Cândido ao juízo, porque estão cometendo um crime. Querem criar a economia criativa e tiram dinheiro das mãos dos artistas”.

Deputados brasilienses, distritais e federais, apoiam o movimento dos artistas. Até o momento, são computados cerca de oito parlamentares, mas serão necessário 13 para que a verba volte ao FAC e para os artistas que poderão, aí sim, criar espetáculos a preços populares, que beneficiam a cidade. Por isso é que o musico Caio Chaim declarou ao brasiliários.com que “esse decreto do governo é uma declaração de guerra explícita à cultura e que, apesar de explícita, se faz de maneira silenciosa, afeita à política fascista semelhante à do governo federal contra a educação, o conhecimento e a formação de senso crítico”.

Os parlamentares envolvidos também já sabem que a luta será dura. Mesmo diante da proposta, feita pelos deputados, de entregar, em 2020, o total de R$ 40 milhões, conseguidos por emendas parlamentares, para a reforma da Sala Martins Penna, o governador e seu secretário de Cultura mantêm-se irredutíveis.

Não se trata, portanto, de uma alegada “política de interesse público”. Trata-se, na verdade, de uma vingança pessoal de Ibaneis Rocha por ter sido preterido pela classe artística nas eleições do ano passado. E também de um prazer de Adão Cândido que vê com desprezo a classe artística brasiliense, cuja produção ele considera insignificante.

Criado em 2019-05-20 20:40:36

A origem do pobrema

Marcos Bagno -

Quando estudamos a história da língua portuguesa, encontramos muitíssimos exemplos de um fenômeno que os linguistas chamam de rotacismo, a troca de um L por um R na passagem do latim ao português:

            LATIM            PORTUGUÊS

            blandu-            brando
            clavu-              cravo
            flaccu-             fraco
            glute-              grude
            placere            prazer
            plaga               praga
            plicare              pregar
           
A mesma coisa aconteceu com palavras de outras origens, como o adjetivo branco, que nos veio do germânico blanck, ou armazém, que herdamos do árabe al-mahazan.

Essas mudanças se devem, sem dúvida, aos hábitos articulatórios dos habitantes originais da Galécia, a província romana onde surgiu a língua galega, derivada do latim, língua galega que, séculos depois, foi levada cada vez mais para o sul da faixa ocidental da Península Ibérica até receber o nome de “português”, e isso só lá pelo início do século 15... 

Essa tendência ao rotacismo, porém, não é exclusiva dos nossos mais remotos ancestrais galaicos.

A passagem de L para R também se verifica em diversas outras línguas mundo afora.

Por exemplo, a palavra último em napolitano é úrdemo. No dialeto romanesco (falado na região de Roma), alto se diz arto. Em romeno, o latim caelum- (“céu”) se tornou cer.

Nossos compatriotas menos sujeitos ao policiamento da norma-padrão veiculada pela escola tendem a prosseguir essa antiquíssima tendência rotacizante, porque eles obedecem com muito mais tranquilidade e naturalidade às forças de mudança que sempre estiveram e estão em ação na vida da língua.
Por isso eles dizem ingrês, praca, broco, grobo, crima etc. Aliás, é bom lembrar, Camões só escrevia ingrês, pruma, pubricar e frauta.

As formas com L, mais próximas do original latino, só foram oficializadas algum tempo depois que o grande poeta produziu seus monumentos literários.

As pessoas letradas costumam, por puro e simples preconceito (ou seja, por falta de informação histórica, já que a ignorância é a principal fonte do preconceito), zombar de quem diz ingrês, praca e grobo, gostam de rir dessas palavras, mas não riem quando elas mesmas dizem cravo, fraco, grude, prazer.

Um falante nativo de latim certamente acharia “feio” e “errado” falar desse jeito! Por que rir de praca e não rir de praça (do latim platea), se o fenômeno é o mesmo, o rotacismo? Pois é, né?

Aí você me pergunta: quem diz praca, ingrês e broco também diz “probrema”, não é? Não, não diz. A gente pode sair de gravador em punho sertão adentro tentando capturar essa pronúncia, mas ela não vai ocorrer.

Por quê?

Veja só essas palavras do espanhol: orquesta, propio. E essas, que são usadas correntemente em Portugal: rasto, registo.

Onde foi parar o segundo R dessas palavras? Ele foi parar lá onde também ficou o outro R do latim rostru-, que nos deu rosto, ou do latim cribru-, que nos deu crivo...

É muito comum que, na presença de dois sons semelhantes numa mesma palavra, um deles seja eliminado.

Esse fenômeno se chama dissimilação. Também pode acontecer que um dos sons seja trocado por outro: o latim liliu- deu lírio em português, assim como o italiano colonello deu coronel. Não é fantástico estudar essas coisas? Eu pelo menos acho.

Os falantes mais letrados também costumam se deixar levar pela dissimilação, que é uma tendência articulatória muito natural: quantos de nós não hesitamos na hora de falar coisas como prostrar, frustrar, encastrar e outras?
Então, onde nós esperaríamos “probrema”, o que escutamos mesmo é pobrema. O primeiro R foi eliminado, por dissimilação.

Tudo isso é para dizer o seguinte: não tem problema nenhum o presidente Lula dizer pobrema, a boa ciência linguística explica o fenômeno.

O verdadeiro problema é estarmos vivendo o desmonte histérico das nossas instituições democráticas, a destruição vingativa e rancorosa dos direitos da maioria, por obra e desgraça do que existe de mais abjeto, porco, imundo, corrupto, venal, sórdido e criminoso na sociedade brasileira.
 
Eu, por mim, entre o “pobrema” vivo e saltitante e a mesóclise funesta e funerária, agarro o “pobrema” e saio lutando ao lado dele, porque é assim que fala a imensa maioria do nosso povo, e o nosso povo não pode ser ainda mais subjugado e discriminado do que já é só porque não fala como os parasitas do poder acham que ele deveria falar!

Criado em 2017-03-20 03:53:43

Brasília, eu te amei

Sandra Crespo -

Achei legal ler a coluna "Tipo Assim..." do Sérgio Maggio, no site Metrópoles. Ele cita os dez espaços culturais inesquecíveis na história de Brasília.

O Cine Atlântida é um deles. O Maggio diz que é privilegiado quem lá assistiu à Dona Flor e seus dois Maridos, do Bruno Barreto. Pois não é que foi no Atlântida que eu vi? Cheia de emoção, claro, sobretudo porque não tinha idade.

Lá pelo final dos anos 70... Eu estava com um amigo de BH, o Wellington (que nunca mais vi) - e carteirinha falsificada, claro!

Foi no Atlântida também que, tremendamente grávida, em 1993, vi "O Fugitivo", blockbuster com Harrison Ford. Filme de ação, barulhento, e o Adriano-neném parecia nadar de peito na minha barriga pra lá e pra cá.

Teve uma hora que eu entrei em pânico, pensei que ia parir no cinema! Mas consegui ficar até o fim do filme - e o Adriano sossegou na barriga por mais um mês.

Essa, eu acho, foi a última vez em que fui ao Atlântida, sala gigante do Conic que virou igreja evangélica. (Pano rápido, porque nem sempre precisamos falar sobre Kevin).

Vou citar algumas outras lembranças do Maggio que também me tocam. O Cine Academia, que era realmente um lugar onde a gente encontrava as pessoas. Hoje não tem mais nenhum espaço assim em Brasília.

E ainda o Gate's Pub, onde meus amigos e eu dançamos muito rock, jogamos dardos e ouvimos jazz. Fui lá tantas vezes e encontrei pessoas de tantos lugares! Era bem legal.

Eu, modestamente, acrescentaria à lista o cinema da Cultura Inglesa - responsável, nos anos 70 e 80, por "aplicar" na gente filmes super-cabeças de Pasolini ("Pocilga", affff), Alain Resnais, Goddard, Fassbinder, Truffaut, Luchino Visconti...

Foi na sala da Cultura Inglesa que eu vi "Z", de Costa Gavras, numa das primeiras sessões após sua liberação pela censura. Cinema lotado, o pessoal sentado nas escadas.

Eu e dois amigos chegamos cedo e nos sentamos em poltronas. O problema é que a minha amiga, ao meu lado, dormiu de roncar o filme quase todo - era assim, ela apagava sempre que fumava um beck. Morrendo de vergonha, eu dava nela umas cotoveladas de vez em quando. Foi meio tenso.

Ainda me lembrei dos concertos Cabeças, que enchiam o Parque da Cidade no início dos Oitenta. Era bem animado.

Hoje, a cidade é outra. Está muito maior, tem várias tribos diferentes.

Agora, as pessoas me parecem meio dispersas Na Nuvem. Juntam-se pela internet, e não mais em torno de uma programação de rádio, ou lançamento de disco, que dava show na certa.

Não tem mais aquele cinema que juntava todo mundo depois do filme, para um café ou uma farra.

Tá diferente, não sei dizer se tá pior ou melhor.

Só sei que tenho saudades daqueles lugares e daquele tempo. Não porque eu era jovem ali, pois nem sempre era bom ser jovem naquela época.

O bom era ter contato com o que de melhor se fez ou fazia no mundo pensante, da Academia às manifestações artísticas.
E esse contato com O Mundo era uma experiência coletiva - os ganhos individuais vinham, digamos, como uma cortesia do acaso, uma palhinha.

Era bom também viver em meio a uma certa esculhambação, num escracho gostoso, improvisações mil que hoje seriam impensáveis. Agora tudo se reveste de uma tamanha assepsia!

O fato é que, nos dias de hoje, está tudo muito certinho e muito erradão pro meu gosto, nesta cidade.

Criado em 2017-02-22 19:47:59

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