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Zuleica Porto -
A frase acima está na crônica “Mineirinho”, escrita por Clarice Lispector quando o bandido foi morto com 13 tiros de metralhadora, em primeiro de maio de 1962.
O texto foi publicado na revista Senhor, um mês depois, com o título “Um grama de radium – Mineirinho”.
Quando soube da menina Beatriz, estuprada aos 16 anos por 33 homens, a crônica de Clarice me saltou dos arquivos da memória. Deusa nem sempre confiável, Mnemozyne me enganou: não foram 30 tiros, nem 33, como foram os algozes de Beatriz. Foram 13.
E Clarice confessa que “há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixou aflita, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me matam de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina. Porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro”.
13, 33. Em 12 de junho deste ano, dia no Brasil dedicado aos namorados e namoradas, ao amor, portanto, 50 pessoas foram assassinadas em uma boate em Orlando, EUA.
Por que? Porque quem matou não aceitava o amor entre pessoas do mesmo sexo. Em 1987, Luiz Antonio Martinez Corrêa, ator e diretor, irmão de Zé Celso, foi morto com 107 facadas.
Uma bala era o bastante para matar Mineirinho“e no entanto, nós o queríamos vivo”, diz Clarice. Um homem violador seria o suficiente para deixar Beatriz para sempre marcada pela dor, mais que no corpo, na alma.
Uma facada seria o suficiente para causar dor nos que amavam Luiz Antonio, que apenas amava outros homens. Um morto na boate seria o suficiente para manchar de sangue inocente toda uma cidade.
O que há no exagero do ódio e no excesso de tais números que, espetaculares, provocam indignação? Se eu sou o outro, como diz Clarice, se eu quero ser o outro, eu fui responsável pelos 13 tiros em Mineirinho, pelos 33 golpes no corpo da menina, pelos 50 assassinatos em Orlando, pelas 107 facadas em Luiz Antonio.
Nós, os “sonsos essenciais”, diz Clarice. Nós que precisamos ser sonsos para que nossa casa não estremeça.
Para que nossa vida não estremeça. “Para que minha casa funcione, exijo de mim (...) que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. (...) Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos”.
E atribuímos ao “outro” a violência para a qual contribuímos a cada dia. Outros, os policiais violentos, os estupradores bestiais, os assassinos homofóbicos...e imediatamente acusamos, julgamos e tiramos de nós toda a culpa. Julgamentos e acusações que voltarão na cifra assustadora da próxima brutalidade. Do outro.
“Já era tempo de sermos mais divinos”, comentou Clarice anos depois, referindo-se ao caso de Mineirinho.
“Se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ser um doente do crime”. Ler Clarice é desorganizar-se. E perder o sono dos justos, porque não há justiça entre nós.
Criado em 2016-07-19 02:05:47
Maria Lúcia Verdi –
Como parece ser generalizado, há algumas semanas venho pensando sobre o que tantos no isolamento referem: o mal-estar físico, a ansiedade, a angústia existencial, uma outra percepção do tempo, a crise criativa.
Coincidentemente, um amigo, com entusiasmo, comenta comigo (telefonicamente…), ter revisto 8 1\2 (1963), de Fellini. Revi-o, então, mais uma vez, bem como os principais filmes do Diretor e li o texto do Roteiro desse que era seu oitavo (8) e meio (1\2) filme – o episódio de Boccaccio 70 (1962) representado pelo 1\2. Roteiro que Fellini modificaria bastante durante as filmagens, sobretudo as (ótimas) falas dos personagens. Aos atores que sofrem pela falta de roteiro, ou roteiro modificado intempestivamente, Fellini responde: “E na vida, por acaso não é assim também? Será que eu sei pela manhã o que me acontecerá durante o dia?”.
O que me decidiu a tentar correr o risco de dizer algo sobre isso tudo que 8 1\2 representa, sobre o qual tanto já foi dito, foi a leitura do texto “O que é o contemporâneo?”, do filósofo italiano Giorgio Agambem, utilizado pelo amigo Pedro Alvim, professor do Instituto de Artes da UnB e pintor, em suas aulas. Nele, Agamben recorda Roland Barthes que sintetiza o pensamento de Nietzsche em “Considerações Intempestivas”, dizendo que o contemporâneo é o “intempestivo”. 8 1\2 ainda pode ser intempestivo para os jovens que o vejam - inesperado, surpreendente. Tendo experimentado LSD, sessões espíritas, além de análise freudiana e leitura de Jung, Fellini é um nosso contemporâneo, marcado pela consciência do fragmentário, pela tentativa de ver na escuridão de seu próprio tempo, como define Agambem o ser contemporâneo.
A crise do alter-ego do Diretor, o protagonista de 8 1\2, Guido Anselmi, interpretado por Mastroianni (na foto, abaixo), espelha-se na crise que está vivendo Fellini. “É a história daquele tipo que está nas Termas, um tempo parado da vida de um homem qualquer com os consequentes encontros, imaginações, mistura de recordações; em resumo, um pretexto para dar vazão a tudo aquilo que me tortura há anos.” Um homem qualquer? A vida da gente qualquer - tudo o que o protagonista Guido não era, assim como Fellini não foi – vinha sendo objeto de atenção e homenagem na obra do Diretor; porém, a partir da imersão no onírico e na leitura de Jung, e com a realização de 8 1\2, Fellini traz a dimensão plural e labiríntica que compõe a vida de um homem qualquer e dá um salto na história do cinema.

8 1\2 sucede a Dolce Vita consistindo, os dois, na virada estética de Fellini. O (especial) neorrealismo dos filmes anteriores, alguns emblemáticos como Os boas vidas (I Vitelloni), passa a dar lugar a um despojamento das máscaras, ao desvelamento (recriado pela fantasia) de uma história pessoal, memórias, sonhos, desejos. Fellini entende que ele é seu melhor personagem, múltiplo, fugidio personagem – “Conhece-te a ti mesmo”, dizia o oráculo há 23 séculos, na Grécia.
Com o filme de 63, Fellini produz um lirismo surrealista e\ou um realismo poético - aliado a uma busca desafiadora de falar do “real” (de mostrá-lo em seu fluxo inapreensível entre passado, presente e futuro), conceito que é questão central da filosofia e da psicanálise. “Não será um filme psicológico, não terá a cadência narrativa; ao contrário, assim espero.”
8 1\2 conta a história de um diretor de cinema em crise, internado numa clínica de tratamento (Termas). Crise absoluta – com o casamento, com o adultério, com a tradição católica, com o apego irrecusável à mentira, com a produção do filme imaginado. O mesmo está ocorrendo com Fellini ao tentar filmar 8 1\2, conforme revela a jornalista Camilla Cederna, que acompanhou as filmagens e escreveu o livro (Fellini 8 1\2, Ed. Civilização Brasileira, 1972) do qual retiro as citações do Diretor: “Mas sabes tu, afinal, quem fará este filme? […] e se, no final das contas, não se fizesse nada?” Confrontado com a complexidade de seu projeto, com a consciência (ou com a intuição) de que realizar “este filme” será desafio definidor em sua carreira, o Diretor, como Guido, se dilacera. Um dilaceramento que nunca é unicamente da ordem do trágico, sendo o humor elemento essencial na visão felliniana da vida. E este “quem?” de quem fará este filme, é o fio condutor seja do Diretor de 8 1\2, que do diretor do filme dentro do filme. Questão que ronda, mais que nunca, a todos nesse isolamento contemporâneo.
Diz Fellini: “Insisto em que o filme deve ser extremamente lindo, lúcido e transparente. Pensava em Botticelli.” Insiste com quem? Consigo e com os fiéis colaboradores, entre eles Piero Gherardi, responsável pela deslumbrante cenografia, que imagina a astronave do filme, construída a partir da Torre de Babel de Bruegel. A pintura – os renascentistas, os flamengos, os surrealistas -, sempre presente na fotografia dos filmes de Fellini, a partir de 8 1\2, me parece passar a ter papel preponderante em sua obra. A coreografia da câmera, entre uma imagem e outra, provoca continuado deslumbramento.
8 1\2, após todas as dificuldades, vem a ser eminentemente isto: um filme lúcido, além das demais qualidades com que sonhava Fellini. Não se trata, porém, da tradicional lucidez, mas, sim, da inquietante lucidez trazida pelo fio sutil e tremendo do inconsciente a se desdobrar ante nossos olhos atônitos.
A lucidez de Fellini em 8 1\2, guiada pelo imaginário, está em sintonia com o que diz o filósofo italiano no texto citado. Lembra Agamben que, ser contemporâneo, para Nietzsche, é ter uma dissociação, uma desconexão, uma distância temporal (intempestividade) em relação ao seu próprio tempo histórico, posicionar-se numa anacronia. Pergunta Agamben: “Mas o que vê quem vê o seu tempo, o sorriso demente do seu século?” E responde que o contemporâneo é aquele que vê a escuridão de seu tempo a interpelá-lo: “Contemporâneo é aquele que recebe em pleno rosto o facho de trevas que provêm do seu tempo.” Ser contemporâneo é não enganar-se com o que é aparentemente claro e verdadeiro.
Esse facho de trevas é o que Fellini consegue iluminar com seu 8 1\2, colocando luz nos distintos personagens reunidos nas Termas, na sociedade do seu tempo, que convive com as memórias e as fantasias do Diretor. Ao ver nas trevas, Fellini comprova sua contemporaneidade.
Fellini diz à Camila ter “a impressão de que não há necessidade de fechar nenhuma das histórias que contaremos.” Pois onde há fechamento, além do “viveram felizes para sempre” e da pseudo-literatura? E assim será, cada vez mais em sua filmografia: a abertura, o fragmentário como norma, a busca não de uma narrativa, mas do metro e da cadência da poesia. “A história não deve ter tempo real, desenrola-se numa espécie de dimensão flutuante.” As personagens são “projeções do personagem principal, ou até mesmo arquétipos fixos”. E continua a explicar à Camilla: “não me é permitido apresentar ao público, como direi, tiradas de introdução por conta de cada um, mas, ao contrário, todos devem ter faces que, mal surjam na tela, sejam como máscaras reconhecíveis instantaneamente.”
Transcrevo partes do texto final de Camilla, após ver a primeira projeção do filme: “[…] eis que, enquanto a orquestrinha do hotel toca a Cavalgada das Valquírias, tem início o passeio dos hóspedes das Termas, chapéus de renda, sombrinhas de seda, écharpes que ondeiam, freiras brancas ou escuras. É a sagração do branco e do negro […] Mas este não é um sonho. O sonho está lá, onde o protagonista fala com os seus mortos dentro e fora do sepulcro familiar; e, se a morte é o negativo da vida, o poder de evocação do filme mostra-se de tal forma impressionante que tudo, ao contrário, aparece esplendidamente real […] O mundo delirante do cinema está todo aqui, nessa insólita moldura, numa girândola movimentadíssima.”
Na página que antecede o Roteiro está escrito no alto: Filme cômico. As Termas-reconstruídas, como sempre no estúdio 5 da Cinecittà -, onde, de dia, transcorre o desfile patético dos hóspedes ricos e satisfeitos em busca da água salvadora que os fará viver por mais tempo, à noite elas “mudam de aspecto e o pavilhão central transforma-se numa espécie de grotesco night-club.” Cito o breve diálogo da cena de Guido conversando com um dos homens à mesa:
“PACE: A verdade é que hoje em dia a moda das mulheres bonitas acabou. Hoje exige-se também inteligência…
Guido, com uma de suas habituais intervenções pilhéricas, rebate.
GUIDO: Por favor não me fale de inteligência. Inteligência é coisa que se tornou difícil. Além disso, estamos rodeados de cretinos.”
Nas Termas, embora cercado de gente desconhecida e amiga, desde seu aleph particular, Guido luta com as imagens do filme que tem em mente, imagens que se mesclam com os acontecimentos factuais. Guido está a escutar seus fantasmas, a sonhar suas fantasias, assim como grande parte de nós, isolados, revendo nossas lembranças e fotografias, inseguros quanto ao futuro, escutando nossas distintas vozes continuamente.
Fellini disse ser “um grande mentiroso”, teria inventado toda sua biografia para poder fazer seus filmes. É verdade o que o mentiroso diz? Guido não consegue sair da rede de mentiras, desconhece a própria mulher, ao olhá-la de longe, quando ela vem encontrá-lo no set de filmagem (que é um “limbo cada vez mais inquietante”, como diz o Roteiro) lê-se: “Guido acompanha-a com o olhar, observando-a como se a visse pela primeira vez, como se observasse uma estranha”. Essa mulher, magnificamente encarnada por Anouk Aimée, escapa à compreensão do marido, como é da natureza do amor, uma permanente busca apenas iluminada, vez que outra, por um instante de epifânico encontro.
A amante (Sandra Milo), beleza de “almanaque antigo”, a la Rubens (como descreve Fellini) doce, receptiva como uma mãe – o contrário da esposa magra e racional – nem ela consegue ser plenamente o repouso do guerreiro. Guido, que se confessa um covarde à Cláudia, imerso em suas fantasias de domador de mulheres e dono de harém, continuadamente ligado às imagens do pai e da mãe, da infância idílica e persecutória - é Fellini que realiza sua autoanálise. Em A cidade das mulheres, Fellini irá fundo na sua questão com o feminino, o fascínio e o terror frente ao “continente negro”. (Freud).
No afastamento de quinze dias para recuperar-se do fígado, Guido submerge no inferno de seus pensamentos, que virá a resultar na “iluminação” produzida pelo compreender que talvez não seja necessário fazer o filme. Carini, outro alter ego do Diretor, no filme o crítico a quem Guido havia proposto colaboração, concordando com ele em que não vale a pena tentar terminar o filme diz: “…no fundo precisaríamos apenas de um pouco de limpeza, de desinfecção. Estamos sufocados pelas palavras, pelas imagens, pelos sons que não têm razão de existir, que vêm do vazio e vão para o vazio. A um artista verdadeiramente digno deste nome não se deveria pedir mais do que este ato de liberdade: educar-se ao silêncio. […] Recordas o elogio de Mallarmé à página branca? […] Se não se pode ter tudo o nada é a verdadeira perfeição. […] Destruir é melhor que fazer, quando não se criam as poucas coisas necessárias.” Desinfectemo-nos.
O gran finale de 8 1\2 é o desfile de todos os personagens comandados pelo mago-ilusionista, ao som do antológico Nino Rota, formando uma roda, todos de mãos dadas. Guido, serenado, aceitando o fracasso do filme e a si mesmo como uma “confusão” sem saída, murmura para si pensando em sua mulher e na amante: “Mas de onde vem este rasgo de felicidade que me dá força e vida? […] Peço-lhes perdão doces criaturas, não tinha compreendido, não sabia, como é certo amar-vos, aceitar-vos e como é simples…” E em seguida, com voz melancólica, diz: “A vida é uma festa. Vivamo-la.”
No Brasil, temos Hugo Rodas e José Celso Martinez com esse vigor felliniano, essa fé na poderosa festa ritualizada que poderá nos redimir, nos auxiliar a viver. Precisamos de muita pulsão de vida contra a avassaladora pulsão de morte da cena contemporânea. Precisamos de arte.
O intempestivo vem por todos os lados, de dentro e de fora. 2020 nos trouxe o vírus que ajoelhou o planeta. O lado iluminador da dolorosa pandemia pode ser fruído num isolamento que permita rever, reler, repensar, ressentir. Tudo é revisão, sem qualquer nostalgia, revisão como compreensão.
Criado em 2020-09-09 02:50:39
Angélica Torres –
O inesperado nos pega de surpresa quando e de quem menos se espera, mesmo que estejamos vivendo em alerta sob o duríssimo signo da Morte, a regência destruidora de Ziva, os avassaladores tempos de Tânatus. Como não ficarmos estupefatos e incrédulos diante da notícia da partida do cineasta e radialista Bernardo Bernardes, de 44 anos, que homenageou o poeta e professor da UnB Cassiano Nunes com o curta (veja o filme aqui) premiado no 37º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (2004). Um ser amante de poesia, gentil e estimado por todos os que o conheceram.
Bernardo deixou o meio cultural desolado, logo que a notícia correu neste domingo (7/2) tributos, despedidas, mensagens de afeto foram surgindo nas páginas de seus amigos nas redes. Um dos que mais lamenta a perda do amigo é Sergio Moriconi, professor de cinema e com quem Bernardes fez sequenciados cursos na 508 Sul (Espaço Cultural Renato Russo), começando quando ainda tinha 17 anos.
“Bernardo era sensível, amável, generoso. Era um anjo”, define com tristeza Moriconi. Quando fez o curta, concebido e estruturado naquelas aulas, Bernardo Bernardes tornou-se como que um filho de Cassiano Nunes; passou a levar o velho poeta para onde ele precisasse, conta seu professor. Embora tendo cursado Cinema e Vídeo na Columbia College, em Chicago (E.U.), conquistado a Bolsa Internacional da Vancouver Film School (Canadá), fundado a Visionária Produções Artísticas e dirigido a trilogia Prisões, se sentia inferiorizado por não ter tido a formação acadêmica que gostaria ou, ao menos, terminado um curso universitário, conta Moriconi.
De família mineira politicamente influente, tanto pelo lado paterno quanto materno, descendente de um ícone da construção de Brasília, Israel Pinheiro, segundo seus amigos revelam, Bernardo tinha suas complexidades, suas carências, sofria crises de depressão cada vez mais graves e amiúde e se queixava de sua situação com amigos próximos. Marlos Bryner, companheiro desde os cursos de cinema na 508 e de literatura na UnB, se encontrou com ele três dias antes da morte. Tomaram um açaí juntos e Marlos viu o amigo entregue, achando tudo muito difícil e sem vislumbrar saída para si próprio.
Marlos Bryner o aconselhou a procurar outro terapeuta, a mudar os remédios. Não percebeu que Bernardo já se achava no limite. “Fiquei em choque quando soube da notícia. Estou ainda”, se consterna. Encontrado pela namorada no fim de semana, já sem vida, em sua própria casa (teria morrido na sexta de madrugada), depois de passar 20 dias na casa do pai, procurando apoio para o mal estar que vinha sofrendo, Bernardo Bernardes foi enterrado na manhã de ontem, segunda-feira, no cemitério Campo da Esperança, em cerimônia discreta e comovente, com a presença de muitos amigos e de sua família.

Poesia como alento para crianças carentes
Importa ressaltar ainda, que, toda essa sensibilidade, todo esse coração enorme e delicado que Bernardes tinha, foram postos a serviço de um projeto de poesia, desenvolvido numa creche religiosa do Lago Sul, voltada ao atendimento de meninas carentes, filhas de serventes da região, habitada pela elite brasiliense.
Tudo começou quando, em 2010, poetas se apresentaram para as crianças daquela creche, como contrapartida ao prêmio de apoio recebido da Secretaria de Cultura do DF, para a publicação de seus livros, na coleção Oi Poema. Éramos cinco publicados nessa coleção. E a pedido da professora do Colégio Marista, Cristina Del’Isola, decidi levar o projeto adiante, apoiada por duas integrantes do Movimento Maria Claudia Pela Paz, a bibliotecária Rosângela Mello e a jornalista Katia Aguiar.
Criado para amparar Cristina Del’Isola, após a tragédia hedionda que se abateu sobre sua família, o Movimento tornou-se uma bandeira de ações beneficentes nas periferias de Brasília e de combate à violência às mulheres e feminicídios. Uma de suas primeiras ações foi “adotar” a creche Instituto N. Sa. da Piedade, do Lago Sul, onde promoveu reformas nas instalações, proveu a escola de computadores e materiais diversos e onde fizemos o Projeto N. Sa. da Poesia, de 2010 a 2014.
Levamos, semanalmente, mais de 50 poetas da cidade para falar poesia para alunas de 9 a 12 anos, de forma livre e lúdica. Era um orgulho e uma alegria para todos os participantes a sensação de ajudar com arte àquelas meninas, vítimas do sistema perverso que nos subjuga, crianças difíceis e sofridas com os crimes que rodeavam suas vidas, nas satélites onde vivem.
Já em 2011, expandimos o convite a artistas de outras áreas, cujos trabalhos tinham ligação direta com a poesia. E Bernardes não só aceitou participar dos encontros de 2011, como, após 2015, assumiu por conta própria o Projeto e se dispondo a ministrar sozinho, por seis meses, as “aulas” lúdicas.

Assistindo ao curta Viva Cassiano com as alunas
Ontem (8/2) pela manhã, a jornalista Katia Aguiar, em nome de Cristina Del’Isola e do Movimento, enviou esse recado a ele: “Ô Bernardo, que falta você está fazendo em nossos corações. Eterna gratidão do Movimento Maria Claudia pela Paz pelo conhecimento, carinho e alegria que levou para as meninas do Instituto. Fique com a nossa eterna saudade”.

Vladimir Carvalho: “Tinha, sim, alma de passarinho”
Depoimento de Vladimir Carvalho (*):
“Foi um domingo difícil de atravessar, como se não bastassem as agruras da pandemia. Mal acabara de lamentar, com amigos comuns, o falecimento de um amigo querido, o jornalista e crítico de cinema paraibano, Martinho Moreira Franco tive um baque terrível ao saber do falecimento de Bernardo, nosso ex-aluno, autor de um dos melhores curtas metragens realizados em Brasília sobre o poeta Cassiano Nunes. Hoje esse é o único documento filmado do celebrado escritor e professor, que deixou uma marca em Brasília.
Bernardo, que Cassiano considerava como um filho, despontou como um talento de grande inquietude e sensibilidade, o que, por si só, nos legaria muitas saudades e lembranças. Uma vez, faz anos, meio que sumira e ligou-me de surpresa de Nova York (ou era Londres?), direto do seu trabalho na cozinha de um restaurante! Dessa surpreendente viagem resultou uma espécie de diário filmado, do qual sempre me lembro, pois na volta mostrou-me parte dele já editado. Depois foi de um seminário, creio que budista, onde fazia uma espécie de retiro, e falando deste como de importante experiência mística na sua trajetória que voltou a me ligar.
Tinha, sim, uma alma leve de passarinho, que incluía suas pretensões no cinema. Talvez tenha sido, pelo menos em seus sonhos, um precursor do drone. Quem sabe esse motorista de Uber, que Marcelo Diaz cita com muita perspicácia em seu belo e comovente perfil do amigo, fosse mais um voo que estivesse empreendendo em torno do cinema, numa pesquisa sui generis em busca de personagens para futuras incursões audiovisuais. Improvisava, portanto, como um treinamento, nesses dias em que de certa forma paralisamos nossas atividades.
Devo a Bernardo o reencontro com um velho e admirável amigo, outro paraibano, Zenivaldo Padilha, há muitos anos em Brasília. Bernardo fez dele um perfil e incluiu-me entre os que deram depoimentos para um pequeno filme. O Padilha, entre outros dotes e guardados, como por exemplo ser fanático admirador de Sinatra, recebera desse uma resposta, mesmo protocolar, de uma longa carta que lhe escrevera. Verdadeira lenda, que muito motivava nosso cineasta.
Viajávamos juntos nessas suas aventuras, sem imaginar que ele partiria tão cedo. Resignei-me, entretanto, ao cabo desse dia, vendo pelas notas aqui postadas por muitos dos nossos, o quanto de fato ele era tão querido e estimado, pois foi um exemplo de doçura no trato, alegria de viver e dedicação às amizades. Era da série roseana, daqueles que não desaparecem, se encantam. Quem sabe nos vê agora do alto, no seu voo definitivo pilotando o seu drone”.
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(*) Depoimento postado no domingo, no Facebook, com autorização do autor para reprodução no site Brasiliários.
(As fotos do Projeto de Poesia são de Rosangela Mello).
Agradecimentos a Luciana Barreto, Carmem Morethzsohn e Sids de Oliveira.
Criado em 2021-02-09 13:36:16
Romário Schettino –
Por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado no último sábado, 5 de junho, o líder da bancada do PT na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, Lindbergh Farias, disse que é preciso “denunciar o projeto Paulo Guedes/Ricardo Salles, que busca atrelar o licenciamento ambiental aos interesses do mercado”.
“Devemos combater em nível nacional, nos estados e nos municípios essa noção de que a especulação imobiliária deve ter prioridade em relação ao meio ambiente e à vida das pessoas”, afirma Lindbergh.
Para o vereador petista, o projeto de desregulamentação ambiental que tenta vigorar nas três esferas de poder [federal, estadual e municipal] não é benéfico para os moradores das cidades nem para o meio ambiente: “Esse é um dos primeiros passos para o crescimento descontrolado das cidades e a destruição do meio ambiente”.
Ao comentar a crescente poluição sonora e emissão de gases tóxicos na cidade do Rio, Lindbergh disse que “é necessário fortalecer os mecanismos de fiscalização dos ônibus em circulação para que haja renovação da frota”.
Além disso, o vereador acha que está na hora de “repensar o modelo de mobilidade urbana do Rio de Janeiro. Em todo o mundo estão sendo construídas alternativas, como ônibus elétricos, ciclovias e incentivos para a população utilizar transporte público de massa, como trens e metrôs.”
A seguir, a íntegra da entrevista com o vereador Lindbergh:
O meio ambiente urbano está exigindo mais ação dos ecologistas e dos políticos em relação à mobilidade urbana e à ocupação do solo. No Rio de Janeiro as milícias estão invadindo áreas de preservação para construção de moradias precárias e ilegais. Dois prédios já desabaram com vítimas fatais. O que fazer para combater esse tipo de crime?
Lindbergh Farias – É preciso fortalecer os instrumentos de fiscalização nas áreas de preservação ambiental, especialmente na Zona Oeste do Rio de Janeiro, para que não sejam utilizadas para construções irregulares. Por meio da grilagem, vendem-se lotes e imóveis em condições não adequadas para construção em regiões dominadas pelo poder paralelo das milícias. É uma face triste do Rio de Janeiro, de um lado a violência, a ausência do estado e o poder paralelo da milícia, do outro a ocupação irregular do solo que, combinadas, levam a tragédias que vimos mais uma vez acontecer em Rio das Pedras. O abandono de uma política governamental de habitação popular é um problema grave na cidade do Rio.
A poluição sonora no Rio de Janeiro é um fato. Ônibus mal conservados, barulhentos, e poluidores do ar. O senhor vê alguma solução para melhorar a vida urbana do Rio?
L.F. – Da mesma forma, temos que fortalecer os mecanismos de fiscalização da frota de ônibus, para que haja renovação dos veículos. Além disso, é necessário repensar o modelo de mobilidade urbana da cidade do Rio de Janeiro. Cidades em todo o mundo vêm construindo alternativas, como ônibus elétricos, ciclovias e incentivos para a população utilizar transporte público de massa, como trens e metrôs. No Rio de Janeiro, temos metrôs que não funcionam em rede, mas em uma única linha reta, o que não atende a maioria da população. Esse debate é urgente no Rio.
O que o senhor diria aos cariocas por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado neste sábado, 5 de junho?
L.F. – Precisamos combater em nível nacional, estadual e municipal essa noção de que a especulação imobiliária deve ter prioridade em relação ao meio ambiente e à vida das pessoas. O projeto de desregulamentação ambiental que tenta vigorar nessas três esferas de poder não é benéfico para os moradores das cidades nem para o meio ambiente. Esse é o primeiro passo para o crescimento descontrolado das cidades e a destruição do meio ambiente. Precisamos enfrentar o projeto de Paulo Guedes [ministro da Economia] e Ricardo Salles [ministro do Meio Ambiente] que busca atrelar o licenciamento ambiental aos interesses do mercado. Essa ideia também foi implementada na cidade do Rio.
Criado em 2021-06-08 03:14:18
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
O ano é 2008 em Vitoria-Gasteiz, capital da província de Álava, no País Basco. Vai começar o show de Rosa Passos na 32ª edição do seu Festival de Jazz. Toda sorrisos, ela entra no palco, cumprimenta a banda, joga uma rosa vermelha para o público, estende os braços, faz o gesto das mãos postas, e canta Vatapá, de Dorival Caymmi, com seus fraseados típicos, a ginga salpicada de acentos e deslocamentos rítmicos, as sílabas prolongadas como na frase “um bocadinho maaaaaais”... A canção termina com um scating: ieeeeeeeeeeeeieeeeeeeeeieeeeieeeeiieeeeeeeeeeie…
Rosa está acompanhada de Fábio Torres (piano), Paulo Paulelli (baixo) e Celso de Almeida (bateria). Ela conversa com público, diz que é uma honra estar no evento, elogia a beleza da cidade, agradece o carinho da plateia, e segue o show com mais 15 canções – Marina Morena (Caymmi), Verbos do Amor (Abel Silva e João Donato), A Ilha (Djavan), Só Danço Samba (Jobim)…
Acontece que esse show está no YouTube e, para nossa sorte e deleite, aconteceu que uma licenciada da Universidade Federal da Paraíba, já se preparando para o mestrado, depois de concluir a graduação em Educação Musical e Canto Popular em 2014, resolveu assisti-lo por sugestão de um colega. Antes de chegar na Ladeira da Preguiça (Gilberto Gil), a 16ª canção do show, ela já havia escolhido o tema para a sua dissertação de mestrado em etnomusicologia: “A performance de Rosa Passos na canção popular brasileira”.
A minha hipótese é que a escolha dessa pesquisadora, Maria Gabriella Cavalcanti Villar, consolidou-se na 13ª canção, Morena Boca de Ouro (Ary Barroso), ou talvez na 15ª, Só tinha de ser com você (Jobim).
A dissertação de Gabriella Villar foi defendida em 2019 e publicada em livro, pela Editora Appris, de Curitiba, no final de junho de 2021, com o título Rosa Passos – Uma Artista da Criação.
Desde o início, houve uma simpatia mútua entre Rosa e Gabriela, o que facilitou a pesquisa, sem comprometer o seu rigor, garante a pesquisadora. Mais um dado interessante é que Gabriela foi orientada por outra mulher, a Doutora Adriana Fernandes, de maneira que o trabalho foi construído sob pontos de vistas femininos.
O livro tem quatro capítulos. O primeiro é um esboço biográfico da artista, com o estudo – pioneiro em muitos aspectos – de seus caminhos profissionais, de sua relação com a indústria cultural, e da etnografia de sua performance nos estúdios de gravação e nos palcos.
Nos três capítulos seguintes, a autora analisa a performance de Rosa Passos nas apresentações de Águas de Março de Tom Jobim (álbum Eu e Meu Coração, 2003), A Ilha de Djavan (32º Festival de Jazz de Vitoria-Gasteiz) e Dunas, de Rosa Passos e Fernando de Oliveira (álbum Som de Casa).
A obra se lê com enorme deleite, ainda mais se estiver acompanhado da audição dos discos e shows de Rosinha, à disposição nas plataformas digitais.

Iniciação – Rosa Passos, caçula de cinco irmãos, nasceu em Salvador no dia 13 de abril de 1952. Aos cinco anos teve aulas de piano e chegou a tirar dez no curso de teoria musical da Escola Santa Cecília. Entre os 6 e 11 anos, ouvia o pai tocar violão e os discos de jazz que ele botava na vitrola. Aos 11 anos teve o estalo, quando a sua irmã lhe mostrou o compacto Orfeu do Carnaval com João Gilberto. Desde então ela o elegeu como guru, a ponto de ser chamada até hoje de “João Gilberto de Saias”.
Segundo Gabriella Villar, desde essa época Rosa Passos optou por estudar música sozinha. Suas primeiras aulas foram tomadas dos discos de João Gilberto e de Johnny Mathis. Foi com eles que ela começou definir a sua própria forma de cantar, de respirar, de executar a sua dicção.
Depois vieram outras influências: Johnny Hartman, Nat King Cole, Ella Fitzgerald, Carmen McRae, Shirley Horn, Billie Holiday, Nina Simone, Sarah Vaughan, Etta James, Diane Schuur, Dinah Washington, Betty Carter, Nancy Wilson e Julie London. Com essa divas, ela aprendeu os truques da “respiração/expiração silenciosa, postura intimista, uso de variados timbres, articulação rítmica, mudanças melódicas/intervalares e os scat singings/bebops”, informa Villar.
Bill Evans, Oscar Peterson e Kenny Baron também tiveram peso nas definições do seu jeito de cantar e tocar. Rosa percebeu que o piano é um instrumento muito próximo da voz e se impressionou com a capacidade desses músicos de fazer improvisações melódicas adaptáveis à sua voz.
O panteão brasileiro de Rosa Passos é extenso. Inclui Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Maysa, Elis Regina e Clara Nunes. Entre os seus influenciadores na composição estão Ary Barroso, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Edu Lobo, João Bosco, Chico Buarque, Gilberto Gil e Djavan.
Música do coração – Rosa Passos, diz Gabriella Villar, valoriza o autodidatismo, enfatizando porém a dedicação, a disciplina, o perfeccionismo e a escuta atenta que ela imprime no estudo de todos os aspectos da música, como a levada do violão, os acordes, a melodia, o ritmo etc.
Outro grande valor seu é a intuição, “no momento do fazer, da prática, da criação”, envolvendo os arranjos, os scats, as composições. Esse seu lado intuitivo Rosa chama de “música do coração”. Pouca gente sabe, mas ela já compôs como melodista mais de duzentas canções, das quais gravou menos de 60 até agora.
O marco inicial de sua carreira foi a gravação em 1979 do disco Recriação, em parceria com Fernando de Oliveira, pela gravadora Chantecler. Com o mercado em baixa, o disco não fez muito sucesso, o que a levou a cantar na noite de Brasília, conforme contou a Gabriella Villar. A coisa deslanchou quando os filhos, Alexandre, Leonardo e Julianna, ficaram grandinhos.
Primeiro, ela cantou no Bar Amigos, na 105 Norte, com o guitarrista Helder da Silva Miranda, entre 1982 e 1984. Depois, no palco do Bar Degraus, onde conheceu o guitarrista e violonista Lula Galvão, o baixista Jorge Helder, o pianista Toni Yocatán e o baterista Erivelton Silva. No repertório, bossa nova, boleros e sambas. No final da noite, “canções mais lentas”, pro pessoal dançar. Em 1988 e 1989, ela e Lula Galvão fizeram shows no Mistura Fina.
Rosa conta que nessa época “era a cobaia de Lula de acordes”, e o próprio Lula disse a Gabriella Villar que a dupla praticava “uma mistura da música improvisada com a música brasileira”. O resultado foi a parceria que já dura quase 40 anos, Lula tendo se tornado o seu principal arranjador nas criações para voz e violão.
MPB com Jazz – Gabriella define Rosa Passos como uma “artista brasileira que une a música de seu país com a abordagem do cool jazz norte-americano”. Ao criar o seu próprio estilo de fazer música, ela alia “suas características nacionais, valorizando-as e exaltando-as em diálogo com o jazz estadunidense”.
O fato de seu estilo não ser tão comercial (uma característica que Gabriella problematiza no livro), Rosa Passos teria feito mais sucesso no Exterior do que no Brasil, o que a tornou a artista brasileira mais conhecida lá fora, depois de se apresentar em 39 países. Provavelmente, ela seja a maior embaixadora da MPB ao redor do mundo.
Sua carreira internacional começou com o convite da cantora japonesa Junko Kitagawa para cantar em Tóquio, em 1990. Desde então ela estourou também nos Estados e na Europa, com passagens pelos mais importantes templos da música, como Carnegie Hall, o Lincoln Center, o Blue Note e o Jaz Au Bar.
Seus discos são estudados no Berklee College of Music, que lhe concedeu o título de Doutora Honoris Causa em 2008. Ela recebeu também os títulos de cidadania de San Sebastián e Pamplona, na Espanha, e um certificado de Boston pela divulgação da música brasileira naquela cidade, habitada por uma grande colônia brasileira.
Em 2002 Rosa foi convidada por Yo-Yo Ma para participar do disco Obrigado, Brazil, com duas faixas, Chega de Saudade e Amor em Paz, ambas de Vinicius e Jobim. O álbum ganhou o Grammy de 2003. Yo-Yo Ma disse então que Rosa era “a nova pérola brasileira na Bossa Nova”, e “a voz mais bonita do mundo”.
Entre as suas parcerias internacionais destacam-se, além de Yo-Yo Ma, o baixista Ron Carter, o saxofonista e clarinetista Paquito D’Rivera, o cantor, compositor e guitarrista Henri Salvador, o pianista Kenny Baron, o trompetista Wynton Marsalis.
Uma delícia! – Meninos e meninas, eu li! O livro de Gabriella Villar tem dezenas de outras informações sobre esse patrimônio da música brasileira que é a Rosa Passos. Como é impossível dar conta delas neste espaço, termino a resenha com uma rápida pincelada sobre uma das três canções cujas performances ela analisou.
Posso assegurar que não é preciso dominar a teoria musical para fazer uma leitura prazerosa dos três capítulos dedicados a essas análises, ainda que se percam as informações mais técnicas, sobre as harmonias, por exemplo.
Segue abaixo uma pequena amostra da maneira como Gabriella apresenta o fraseado rítmico da versão de Rosa Passos e Paulo Paulelli de Águas de Março retirada do álbum Eu e Meu Coração (2003), que pode ser ouvido no YouTube para o seu acompanhamento:
(1) Tchiptubi cunjundjundjun
Ataque da voz
(2) tchinéééé
Sustenta nota
(3) tchiummmm
Sustenta nota
(4) tungondon
Staccato
(5) tchun guié tchu djon djon tchi né
Staccato
(6) É pau
Staccato; deslocamento do tempo forte
(7) É pedra
Stacatto; deslocamento do tempo forte
(8) É o fim do camin—ho
Breve prolongamento da nota cm o fonema “min”
(9) É um resto de toco pouco sozinho
Ataque percussivo nas sílabas destacadas
No total, são 77 os passos da análise desse fraseado, depois repetidos na análise das harmonias, com a indicação das cifras do violão.
Os passos 41, 42, 43 e 44 são apresentados assim:
(41) hummmmm
Sustenta nota
(42) tchi tchi tchi tchu tchu tchugon tchuqueenguen tchu dum din din din din tenhum
Seguidos ataques; staccato; sustenta nota
(43) Tchugundjum
Sequência de acentuações; dinâmica decrescente
(44) iéquidjoi tchôdjôdjô tchinhé
Mantém dinâmica; sequência de acentuações
Uma delícia! – diria Rosa Passos.
A última informação, que não está no livro: Paulo Paulelli (Filhote), o baixista que acompanha a Rosa é neto daquele Arnesto do samba do Brás, que deu o bolo no Adoniran Barbosa (Nós fumo e num encontremo ninguém…)!
Criado em 2021-12-10 01:21:58
Luiz Martins da Silva –
Este caso se passou num vilarejo da região de Três Marias e com três marias, de três idades e condições diferentes.
Mesmo sendo dia de Nossa Senhora da Abadia, a devota Maria da Conceição decidiu atender, pois o caderno acumulava inscrições para além dos expedientes.
Avisada, a novata Maria da Paz, de início, se desanimou, mas lembrou de seu voto: uma vez livre do exagero no sangramento mensal, também iria ajudar os necessitados.
Compareceu. E, ciente do advertido: “Não me faça muitas perguntas, leia o livrinho, o principal pelo menos, do Alan Kardec”. Vontade tinha. Alguns casos eram muito estranhos.
Daquele dia, um ficou martelando, mas, o cansaço das duas não abria ocasião para papo. Era de ter aparecido uma idosa, uma Maria das Dores, muito descontrolada. O único bem-querer que lhe restara, tinha morrido nos seus braços, de velhice, mas ela não aceitava.
A médium recomendou fosse viajar, ou fazer visitas, caridade, encontrasse distração... Quanto mais ela ficasse revivendo, maior a dificuldade de o bichinho se desgarrar, subir e ir ao paraíso dos animais.
Aquilo foi muito inquietante para a cambona Maria da Paz. Cambono é o nome que dão ao médium auxiliar. A cisma era: tanta gente precisando consolo por parente e aparecer encosto de cachorro. Mas, o fato, é que a ela, Maria da Paz, que nem se ligava em bicho deu de lacrimejar de saudade durante a consulta.
Para a dona do cachorro, a recomendação fora clara: “Ou a senhora se desliga, ou ele não vai subir, vai ficar sofrendo por ver que a senhora não se conforma. Ele cumpriu a missão, merece descansar”.
Umas duas semanas ou mais, e lá veio de novo a Dona Maria das Dores.
– Ela está de novo inscrita –, a cambona avisou.
– Temos de atender, contemporizou a mãe-de-santo –, nossa missão é confortar os que padecem.
– Mas, obsessão canina?
A médium veterana foi quase ríspida: “Pelo jeito, você não leu o livrinho”.
Acontece que Dona Maria das Dores não viera trazer dor. Ao contrário. Espargia satisfação. E, de fato, as duas sensitivas sentiram uma agradável sensação de paz.
– E então, Dona Maria, como está?
– Muito bem, sinto-me muito bem, pois o meu queridinho Nestor voltou. E como ele está muito bem, eu também me sinto muito bem, ah, como eu agora estou bem!
– Que bom, mas o que ainda podemos fazer pela senhora?
Todavia, a cambona estava confusa e quis, antes, se certificar:
– Mas, então, Dona Maria, ele não morreu de verdade, ele tinha era fugido!
– Morreu, sim. Morreu nos meus braços, mas aos meus braços ele voltou.
Mas, como ele voltou feliz, eu também estou muito feliz.
Maria da Conceição e Maria da Paz suspiraram e não mais interromperam a consulente. E, emocionadas, esperaram o que Dona Maria ainda tinha por dizer.
– Eu fiz como vocês mandaram. Consegui fazer. Eu abri os braços e deixei ele ir.
E, aí, o sofrimento me deixou e passei a me sentir muito bem. Então, ele foi. E depois que eu me conformei, ele voltou, mas eu não sofri mais, pois eu vi como ele está bem, lá no céu deles, no céu dos animais.
– Mas se ele está lá, como é que ele voltou? – Insistiu a cambona.
– Em sonhos, moça. Em sonhos é que ele voltou.
Criado em 2020-08-28 16:27:56
José Carlos Peliano (*) –
Em meio à pandemia do vírus que assola o mundo e em especial o Brasil, e olhe que o dito popular diz que Deus é brasileiro, imaginem não fosse, outra pandemia de proporções mais alarmantes e sem perspectiva de curso toma conta do dia a dia de nosso país tropical. A absoluta falta de segurança do povo em relação a sua vida, ao seu trabalho, ao seu sustento e ao seu futuro.
Repetindo o que muitos outros já disseram, estamos vivendo um dos piores momentos de nossa história, se não o mais ultrajante. Um capitão ocupante do Palácio do Planalto que diz não ser responsável pela saúde, educação, trabalho, enfim tudo o mais que move uma nação sã e soberana, deixa a todos sem eira nem beira, jogados à sorte do salve-se quem puder. E ele para que serve então? Se o dito mandatário não se perturba com a sorte de milhões, quem será?
Tem servido para dinamitar o país e em particular as ações de prevenção da pandemia do vírus. O governo federal não fez até agora qualquer manifestação nacional nos meios de comunicação sobre o comportamento do povo nesse período conturbado de infecção pelo corona vírus, que já soma mais de 250 mil mortos. E ainda fica o capitão ocupante provocando aglomerações onde quer que vá sem uso de máscara, transmitindo ele mesmo e incentivando outros a fazerem o mesmo, gente de sua laia, incitando a crença na cloroquina e a outras esquinas que não levam a canto algum.
O nosso sistema sanitário está no sufoco, os hospitais com taxas de ocupação beirando os 100%, médicos, enfermeiros e auxiliares no limite da exaustão física, psicológica e emocional, enquanto a quantidade de brasileiros infectados e mortos aumenta a cada dia, estando agora em seu pior momento. E o Ministério da Saúde nas mãos de um General, que diz ser especialista em logística, imaginem, ter deixado de comprar vacina desde o ano passado quando alertado para a situação. Agora não se encontram disponíveis as quantidades requeridas para suprir as necessidades. Enquanto isso o vírus deita e rola e deita e rola mais gente para os cemitérios.
O quadro é alarmante e assustador. Nossas instituições se comportam como se nada de mal estivesse acontecendo, talvez porque não seja mesmo com eles diretamente os problemas, mas sim com o povo, mais pobre, sem trabalho, sem recursos, dependendo de uma ajuda pecuniária que foi interrompida e que tarda a voltar a acontecer. Fica a pergunta: que diabos estamos nós vivendo nesse caos e sem ter para onde correr? É para isso que pagamos tributos para manter instituições que não se movem, se comovem, se juntam a nós?
Estamos num trem fantasma, lembram-se dele nos antigos parques da juventude dos anos passados? No escuro com repentes de sustos, gritos e rangidos de todos os tipos. Só que nele, transcorrido um tempo, voltava-se à luz do dia na saída do trajeto. Agora o trajeto não tem fim e não se sabe onde e como irá terminar, se irá terminar quando e onde. Nesse nosso trem fantasma quotidiano a janela de um lado mostra o caos sanitário, já a janela do outro lado mostra o caos de nossa arrasada economia. Tudo leva a crer que se a situação pode vir a ser pior que essa com certeza será. Não há sinais visíveis no horizonte de que o vento pode vir a mudar de lado, mesmo com muitas e muitas ventarolas instaladas.
Se nossas instituições estão funcionando, a pergunta é para quem? A dita democracia em que vivemos é do povo, segundo consta dos alfarrábios dos arautos e ideólogos dela, mas sobra questionar, que povo caras pálidas? Certamente o povo verde oliva, da Justiça, do Congresso Nacional, da trupe da administração pública, dos donos da mídia, dos banqueiros e financistas, dos grandes empresários, dos latifundiários, vão muito bem e sem nada a reclamar ou declarar. E os demais 200 milhões que os sustentam e os mantém de uma forma ou outra? Esses estão na beira da estrada, se avolumando mais e mais, desde a descoberta do Brasil em 1500 sem chances de voltar a ela em busca de melhores dias e condições de viver e trabalhar.
Enquanto isso, para se ter uma ideia mais precisa do descalabro institucional que mantém o povo de fora das decisões, consta que o atual presidente da Câmara em jantar no dia 26 de fevereiro, com a turma da Febraban, aquela que reúne todos os banqueiros do país, disse que não irá separar da tal PEC emergencial, proposta de emenda à Constituição que “pretende” aliviar a situação econômica, a parte que garante o auxílio para os mais pobres por mais alguns meses. Ou seja, tudo junto e misturado para que se atrele o auxílio às rédeas exigidas pelo sistema bancário. Se este for mal, o auxílio irá também e vice-versa. Mais uma vez o dinheiro contra o povo.
Como se fossem de iguais medidas e necessidades nesse momento essas duas peças do tabuleiro. O dito popular já diz que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. A junção das duas é simplesmente para subjugar a de menor importância para eles, que é a do povo mais pobre, à de maior importância para a turma dos bancos. Sem falar no resto da PEC que não só congela os salários de todos os servidores públicos por dez anos, a despeito da inflação, como também os deixam passíveis de cortes de até 25% caso “haja necessidade” de ajuste nas contas públicas. O povo carregando a riqueza dos outros nas costas.
Como disse Luiz Gonzaga Belluzzo no “Mito da independência”, texto da Carta Capital de 17 de fevereiro agora sobre a sociedade capitalista: “os credores e proprietários da riqueza líquida costumam exigir mais “austeridade” e os devedores e despossuídos pedem mais generosidade por parte das políticas”, ao invés de defenderem “a política democrática, entendida como o âmbito por excelência da escolha humana na busca da igualdade e da liberdade”.
Para qual povo a democracia? Por que o presidente da Câmara não se senta à mesa para tomar café com pão e manteiga com os trabalhadores? Ou para tomar nada com os desempregados e moradores de rua? Ou com o padre Júlio Lancellotti que cuida dos pobres e necessitados de São Paulo? Ou com os índios que estão sendo encurralados e infectados no interior do Amazonas sem a proteção e o cuidado necessários. Ou com a vida de milhões dos brasileiros que pedem passagem para a normalidade sanitária e democrática? Para simplesmente colocar a democracia em marcha, aquela que é do povo, pelo povo e para o povo.
E por que seria ele o presidente da Câmara a tomar essas providências? Não só porque a Câmara é considerada a “casa do povo”, não sendo à toa que seus ocupantes foram eleitos de novo pelo povo, mas também porque o capitão ocupante não está nem aí para coisa alguma a não ser seus interesses pessoais, familiares e de chegados.

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(*) José Carlos Peliano é poeta, escritor e economista.
Criado em 2021-02-28 19:16:49
Roberto Amaral (*) -
Com esta advertência, que há de ser considerada por quem não ignora as lições da História, a embaixadora Thereza Maria Quintella nos ajuda a refletir sobre a crise da ordem mundial com um olhar que nos leva para além do noticiário intoxicado, distribuído a mãos cheias pelas agências internacionais de notícias. A diplomata chefiou nossa representação em Moscou, onde viveu de 1995 a 2001 e, assim se fez observadora privilegiada da história russa contemporânea, acompanhando o período liquidacionista de Bóris Iéltsin e a ascensão de Vladimir Putin.
Ela conversa conosco via e-mail, da Malásia, onde se encontra de férias.
Analistas dos mais diversos matizes, na primeira fila os que apostam todas as moedas na inesgotabilidade do diálogo como instrumento de superação dos conflitos, interrogam se Putin não teria se precipitado ao optar pela invasão. As dificuldades atuais, de avanço e controle do terreno ocupado, seriam indicadoras do erro estratégico. Outros se perguntam se Putin não teria levado a Rússia a cair numa armadilha, da qual estaria com dificuldades de escapar. Uma arapuca similar àquela que os EUA armaram para que o Iraque de Saddam Hussein invadisse o Kuwait, com as consequências conhecidas.
Thereza Quintella esclarece que “até as vésperas do dia 24 de fevereiro deste ano, quando a Rússia deu início ao avanço de suas tropas por território ucraniano, declarações do Chanceler Sergey Lavrov davam a entender que ele, pelo menos, acreditava que era possível dar seguimento ao diálogo. A decisão de passar à ação militar foi de Putin. Na minha opinião, o presidente russo teria concluído que as negociações eram inúteis, e a guerra inevitável, porque os EUA e os europeus não pressionariam a Ucrânia a fazer concessões. Pelo contrário, seguiriam armando aquele país e a acenar-lhe com a possibilidade de ingresso na OTAN, num desafio evidente a ele [Putin], que sempre declarara que isso representaria uma ameaça inaceitável à segurança russa. Quando deu início ao que chamou eufemisticamente de ‘operação militar especial’, Putin declarou como seus objetivos a desnazificação e a desmilitarização da Ucrânia, o que foi entendido como mudança de governo e renúncia à OTAN. Em declarações feitas na última quarta-feira, dia 16/3, em reunião com lideranças regionais russas, para tratar de medidas de apoio econômico e social à população, para protegê-la dos efeitos das sanções econômicas e financeiras já adotadas pelos EUA, a UE e alguns outros países, Putin deu mais uma explicação para sua decisão: atacara militarmente porque tropas e milícias ucranianas, concentradas nas proximidades da região de Donbass, estariam prestes a avançar para tentar recuperar as repúblicas separatistas de Donetsk e Lugansk, que desde 2014 estavam sendo submetidas a pesados bombardeios ucranianos, e cuja independência a Rússia acabara de reconhecer”.
Adverte Quintella que o Ocidente erra de rumo ao apostar numa resistência interna desgastando Putin, na medida em que a guerra se prolonga mediante a ação conjugada de EUA/OTAN alimentando a Ucrânia com ajuda econômica e fornecimento de armas e munições. Aliás, é assim que começam os grandes e longos conflitos espalhados mundo afora pelos EUA, como, por exemplo, no Afeganistão. Nas palavras da embaixadora, “os laços culturais e familiares entre russos e ucranianos são muito fortes, e sabe-se que houve manifestações internas contra essa guerra, mas Putin continua com apoio elevado e a oposição não seria expressiva a ponto de ameaçá-lo.” Mesmo os efeitos do bloqueio econômico, financeiro e político imposto dificilmente estabelecerão fissuras no aparelho do Estado, até aqui unificado; muito menos se deve contar com uma insurgência. Para Quintella, é também equivocada a expectativa ocidental de que os “oligarcas", como são chamados os milionários russos, venham a provocar, ou contribuir para a derrubada de Putin.
Sobre a mobilização para enfrentar os efeitos da guerra, que guarda consequências imprevisíveis, Thereza Quintella lembra a histórica resiliência daquele povo, “que já passou por períodos de grandes dificuldades” (e é bom lembrar, para ficarmos em um só exemplo histórico, a invasão alemã na segunda guerra mundial), “e por isso acredito que suportará melhor que muitos outros povos os efeitos das sanções econômicas e financeiras que foram adotadas unilateralmente pelos EUA, a UE e alguns outros países, e que terão um efeito bumerangue”. Mesmo numa eventual queda de Putin, imprevisível com os dados de hoje, a embaixadora não considera a possibilidade da absorção da Rússia pelo dito Ocidente. Ela vê uma Rússia cada vez mais afastada do “Ocidente” e mais próxima da China, “e ambos os países contrários à hegemonia norte-americana”, o vetor dos conflitos do mundo de hoje.
A agressividade militar dos EUA, o cerco ao que sobrou dos territórios da antiga URSS e a beligerância das antigas repúblicas do Leste Europeu são conhecidos. As consequências do crescimento da direita em todo o continente europeu eram previsíveis. O neonazismo forceja por vir à tona em quase toda a Europa, e notoriamente na Itália, na França, na Hungria e na Alemanha. Na Ucrânia, milícias nazistas são incorporadas ao exército e há mesmo suspeitas, por serem confirmadas, da existência de laboratórios aptos à fabricação de armas biológicas.
Sabe-se que nesta rodada foi destinado àquele país o papel que cabe ao molusco na peleja do mar com o rochedo. Trava-se em seu território uma guerra por procuração, e seus soldados, ao defenderem sua pátria, estão também lutando e morrendo pelos EUA, numa guerra pela hegemonia mundial que opõe Washington e Beijing.
Como explicar o comportamento da Alemanha, possivelmente o vizinho europeu mais prejudicado pelo conflito, renunciando ao papel de liderança e independência exercido até há pouco?
Novamente com a palavra a embaixadora Thereza Quintella:
“A Alemanha sempre foi o membro da UE com relações mais estreitas com a Rússia, mas o novo chanceler, Olaf Scholz, não tem a estatura de Angela Merkel e se alinhou completamente com os EUA. A Alemanha valeu-se da ocasião para anunciar que vai duplicar seu orçamento de defesa. O tempo nos dirá o que significará para a Europa e o mundo o rearmamento alemão.”
Esse rearmamento, porém, não é fato isolado. Como vem anunciando a grande imprensa, e a diplomata registra, “é esperado um aumento significativo dos gastos militares nos EUA, e aumentos devem ocorrer também em outros países da OTAN, principalmente no Leste europeu, bem como fora daquela aliança militar, como na Índia, na China e no Japão” - este, um país de trágicas tradições guerreiras e imperialistas. Os americanos, aliás, conheceram a que ponto podem chegar os exércitos nipônicos.
No último 23 de março, a OTAN anunciou o envio de armas para as antigas repúblicas do Leste Europeu “de modo a aumentar as forças militares nos territórios aliados da região”, mencionando como primeiro passo “o lançamento de novos batalhões da OTAN na Bulgária, Hungria, Romênia e Eslováquia” (CNN Brasil, 23/3/2022).
Breve o mundo será um grande barril de pólvora prestes a explodir. A guerra é o preço que as potências cobram quando a História dita a inexorabilidade da sucessão dos ciclos hegemônicos. Assim hoje, como em 1914 e 1939. A “Guerra Fria” de nossos dias é o preâmbulo do que deverá ser o cotidiano de nosso futuro imediato.
Para muitos países, a invasão da Ucrânia ensejou simplesmente a grande oportunidade para um perigoso rearmamento mundial, e a UE renunciou, talvez definitivamente, à ilusão de uma vida econômica e estratégica autônoma em face dos EUA, por enquanto fortalecidos para o embate de médio prazo com a Eurásia liderada pela China, anúncio de uma nova ordem internacional, política, econômica e militar, impondo um novo desenho ao mundo ditado pela hegemonia anglo-saxã.
Olhando para os nossos dias e nossa tragédia, quais seriam os termos de uma paz duradoura na região? Conclui Thereza Quintella:
“A Ucrânia já sinalizou que aceita renunciar ao ingresso na OTAN, e estariam sendo discutidos os termos da sua neutralidade. Exige que essa seja garantida por países da OTAN, como EUA e alguns europeus, e isso creio que seria aceitável para a Rússia. Mais difícil de negociar é a questão territorial. A posição máxima inicial da Ucrânia, irrealista, é exigir que seja restabelecida sua integridade territorial anterior à anexação da Crimeia pelos russos, em 2014. Acho, à luz do que tem sido a campanha militar da Rússia, que suas pretensões territoriais máximas não abrangem a anexação de toda a Ucrânia, mas certamente o reconhecimento pela Ucrânia da perda da Crimeia, das repúblicas de Donetsk e Lugansk e também, muito possivelmente, das terras de ligação entre a Crimeia e aquelas repúblicas ao longo do Mar de Azov. A evolução das posições negociadoras das duas partes depende do desenrolar da guerra nas próximas semanas e, principalmente, de conseguirem os russos ocupar o importante porto de Mariupol, no Mar de Azov”.
Mas a paz mundial está definitivamente afastada?
Ela permanece como uma necessidade, sobrevivendo, como agora, em meio a conflitos de toda ordem. Vivemos momento precioso e raro na História: o parto de uma era. Há um novo mundo por nascer e um mundo velho tentando impedi-lo de vir à luz. Chegamos ao nosso Rubicão, e daqui em diante qualquer previsão será temerária. A esperança, frágil, está na possibilidade de a humanidade voltar a temer o fim da vida no planeta que não soube ocupar.
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A criminosa - Morre Madeleine Korbel Albright, ex-secretária de estado dos EUA e criminosa de guerra. Deixa como legado os bombardeios ao Iraque (1996) e à ex-Iugoslávia (1999), que ceifaram milhares de vidas, no segundo governo do democrata Bill Clinton. Posta em face da morte de meio milhão de crianças iraquianas em consequência das sanções impostas pelos EUA, justificou-se: “[...] é um preço que valeu a pena pagar” (vide aqui)
***
Acolhimento - No seu boletim do último dia 23, o “correspondente” da Rede Globo, falando da Polônia para dar notícias da guerra na Ucrânia, foi dominado de emoção ao descrever a dor e a tristeza dos gatinhos e dos cachorrinhos ucranianos vítimas da guerra, muitos visivelmente deprimidos por se haverem separado de seus donos. O repórter recupera o humor ao registrar a solidariedade dos europeus, pois de todos os países chegam pedidos de adoção. Não se sabe, porém, como os generosos europeus estão recebendo as vítimas humanas do conflito, inclusive os civis ucranianos que fogem de milícias sanguinárias, como o famigerado Batalhão Azov.
__________________________
(*) Roberto Átila Amaral Vieira é jornalista, professor e político brasileiro. Foi ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva.
(**) Com a colaboração de Pedro Amaral e Manoel Domingos Neto.
Criado em 2022-03-26 02:29:43
A Câmara Legislativa do Distrito Federal entregou, dia 13/6, ao cardiologista Geniberto Paiva Campos o título de Cidadão Honorário de Brasília. A cerimônia foi proposta pela também médica deputada distrital Arlete Sampaio (PT).
Nascido em 1941 no Rio Grande do Norte, o médico Geniberto mudou-se para Brasília em 1967, já com o diploma de medicina. No mesmo ano, em plena ditadura militar, fundou a Associação Nacional dos Médicos Residentes, que hoje reúne cerca de 13 mil profissionais em todo o País.
Geniberto Campos, de 1968 a 1980, foi professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB) e, entre 1980 e 1985, coordenou a Clínica Médica do Hospital Sarah Kubitschek. De 1985 a 1988, foi diretor da Divisão Nacional de Doenças Crônico-Degenerativas do Ministério da Saúde e superintendente da Campanha Nacional de Combate ao Câncer. No início dos anos 90, esteve à frente da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da Clínica do Coração do DF.
A deputada Arlete Sampaio destaca ainda o ativismo político e social do médico desde o período da juventude: "Jovem atuante na esquerda católica do Rio Grande do Norte, Geniberto foi preso sob a alegação de subversão. Apesar de ter sofrido os horrores da ditadura implantada no País, a preocupação com o próximo, com a liberdade e com a democracia nunca desapareceu de sua trajetória de vida".
Ao se dirigir aos convidados, Geniberto questionou: “Homenagens, numa hora dessas? pergunta o meu lado cidadão nordestino”. Para, em seguida, admitir que receber a homenagem “não deixa de ser uma forma de resistir à insensatez, à loucura que nos últimos tempos tomou conta da nossa (ainda?) pátria amada Brasil”.
O médico lembrou de sua tia avó, que dizia ser Brasília uma cidade “feita de propósito”, fruto da genialidade de homens que estavam juntos no lugar certo e na hora certa: Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Athos Bulcão, Burle Marx, Juscelino Kubitscheck, Israel Pinheiro.
Brasília, para Geniberto, “é um momento sublime, no qual o país vivia experiências marcantes, construindo, de forma natural e tranquila o Brasil, Estado-Nação, onde a tolerância aliava-se à inteligência cultural e política, à criatividade, ao fazer inteligente e moderno, com liberdade e democracia”.
O cardiologista enumera as conquistas políticas e sociais dos anos 60. “É preciso lembrar que era o tempo da Bossa Nova, do Cinema Novo, da conquista, pela primeira vez, da Taça Jules Rimet, do desenvolvimento e do progresso e, claro, da construção da nova capital do País”.
Mas foi em 1962, recorda Geniberto, que Brasília deu um grande salto na criatividade, já no governo João Goulart, quando se encontraram no Planalto Central Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira. “Vencendo desafios, esses homens implantaram uma universidade moderna na Nova Capital, a Universidade de Brasília, um marco no ensino acadêmico no Brasil”, destaca.
Em 1966, conta Geniberto, foi criado na UnB um ousado projeto de ensino médico: "a Faculdade de Ciências da Saúde, nascida da teimosia de Luiz Carlos Lobo”.
De médico residente no Hospital dos Servidores do Estado do Rio Janeiro a professor da Faculdade de Saúde da UnB, Geniberto sempre se dedicou à medicina e à militância política, as duas faces inseparáveis de Geniberto.
Além da UnB, Geniberto atuou no Hospital Sarah Kubitschek, das Pioneiras Sociais; no Ministério da Saúde, na Clínica do Coração e no Instituto Biocardios. O agora cidadão honorário de Brasília é um incansável estudioso das ciências médicas e disposto a enfrentar os desafios da medicina do Século XXI.
Geniberto é também colaborador deste site www.brasiliarios.com onde escreve artigos sobre a conjuntura política brasileira.
Criado em 2019-06-17 04:46:28
Luis Turiba -
A revista de poesia inventiva BRIC XXII, uma celebração ao centenário da Semana de 22, foi lançada em noite de encontros, conversas, denúncias e muita poesia no histórico restaurante Lamas, no Flamengo.
Praticamente todo o Lamas foi ocupado por poetas, escritores, leitores e eleitores.
Assim defini o acontecimento: “Encontro de velhos e novos amigos. A poesia também serve para isso. Viva aos futuros(e) leitores”.
Estava cercado por um grupo de 10 crianças (meninas e meninos) que estavam lá com seus pais.
Na semana passada a revista foi lançada no Sesc-Piracicaba, no interior de São Paulo. Antes, lançamentos em Brasília e Belo Horizonte, onde praticamente esgotamos a tiragem de 400 exemplos.
Rodamos mais 600. A ideia é fazer em outubro São Paulo e Porto Alegre.

Criado em 2022-09-22 23:56:00
Vivaldo Barbosa (*) –
Os lances da política em grande envergadura acontecem em momentos especiais e por atores igualmente especiais.
Devemos nos lembrar de Tancredo Neves.
Tancredo estava tentando construir um caminho, diziam de centro, junto com Magalhães Pinto, Chagas Freitas e outros.
Em dado momento, Tancredo desfaz os arranjos e volta ao PMDB, para ficar ao lado de Ulisses, Montoro e outros.
Veio preparar o caminho para ganhar o governo de Minas e abrir espaços para a Presidência da República. Ele sabia que era ele quem podia fazer isto, ninguém mais, pois tinha aceitação dos militares e o respaldo da sua vida.
Tenho observado uma das marcas da política brasileira da atualidade: a consciência que Lula demonstra ter do seu dever de liderar a nação em grandes dificuldades. E transparece sempre um dever maior: liderar a nação e ganhar as eleições.
Tudo aponta para Lula ganhar as eleições, dado o quadro que se delineia.
O prestígio que Lula adquire cada vez mais com a lembrança dos benefícios feitos ao povo por seu governo: fim à fome, retirar milhões da pobreza, um fato tão grandioso quanto foi a legislação trabalhista e a Previdência Social a partir da Revolução de 1930, a notar salário mínimo e aposentadorias.
Além disto, o desgaste do conservadorismo e a desmoralização crescente de Bolsonaro e seu direitismo exacerbado tornam as eleições bem difíceis para as elites em geral, com seu rosário terrível e perverso da pesada herança da escravidão e do colonialismo.
Então, por quê? É preciso?
A vida brasileira foi duramente castigada nos últimos tempos. As armações feitas em Curitiba, com todo o respaldo de toda a estrutura do Judiciário, produziram as aberrações já conhecidas. Em cima disso, toda a ação da mídia.
Vestiram a direita de verde amarelo e a colocaram na rua, deram o golpe na Dilma com a derrubada da primeira mulher Presidenta do Brasil, com todo o apoio da política conservadora e do fisiologismo. Processaram Lula, o Judiciário o impediu de participar das eleições, prenderam Luta por mais de 500 dias.
Tudo isto é duro, muito pesado para a vida de um povo.
Lula, como se vê, não precisa de muletas ou outros auxílios maiores, a não ser desenvolver a campanha com a competência necessária, mobilizar o povo da forma adequada e gerar os ardores que movem uma vitória. Lula, enfim, não precisa de Alckmin, a rigor.
Por que, então, uma conversa, alguma busca de entendimento?
De imediato, é preciso reconhecer que o simples fato de estarem conversando, Lula e Alckmin, já fazem um bem político extraordinário a ambos, independente do resultado a que chegarem.
Mas a questão é mais profunda.
Um apoio de Alckmin a Lula, e até mesmo Alckmin ser o vice de Lula, acarreta enorme repercussão na vida brasileira.
Um arranjo como este trará um ambiente de muito mais tranquilidade, calma, bom entendimento, mesmo em divergências, que o acirramento raivoso, deletério e até mesmo imbecil tem gerado. A nação ganhará, poderão acontecer avanços mais sólidos e duradouros.
Não que venha a ser necessário, Lula poderá arrastar tudo nas eleições. Lula adquiriu dimensão nacional e internacional admirável. Mas um político de envergadura superior faz diferença em hora como esta.
É claro que a presença de Alckmin trará algumas tinturas conservadoras, como é natural e civilizado.
Por outro lado, forças populares poderão tirar proveito e avançar com mais solidez, com atropelos menores, com embates menos dolorosos. Aliás, é preciso avançar nos direitos trabalhistas, o que não se fez por 13 anos, nos salários, recuperar a soberania.
Outra questão: Lula sabe que é preciso ganhar São Paulo para dar mais solidez ainda a seu governo.
Se as diretas tivessem vindo na época esperada, Tancredo certamente não ganharia as eleições: Ulisses ou Brizola provavelmente seriam vencedores. Mas a hora que o Brasil atravessara indicava ser a hora de Tancredo.
É evidente que nós, das forças populares, especialmente nós do trabalhismo, queremos avanços e rápidos, a espoliação do nosso povo é dura e cruel.
A vida brasileira ficou muito envenenada, caminharemos melhores e mais seguros, avançaremos com mais solidez criando um novo ambiente na vida brasileira.
Venha, Alckmin, será útil.
______________________
(*) Vivaldo Barbosa foi deputado federal Constituinte e secretário da Justiça do governo Leonel Brizola, no Rio de Janeiro. É advogado e professor aposentado da UNIRIO.
(**) Artigo publicado originalmente no site www.viomundo.com.br
Criado em 2021-12-02 18:11:41
via Canal da Resistência - Paulo Pimenta
Criado em 2019-11-20 21:33:00
Alexandre Ribondi –
Brasília - Depois de ver o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), desviar, de uma só vez, R$ 25 milhões destinados aos artistas e produtores vencedores do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), a capital da República deve se preparar para mais um golpe. O Espaço Cultural Renato Russo (ECRR), um conglomerado de salas e ateliês que funciona ininterruptamente desde a sua reabertura em 30 de junho de 2018, vai ser fechado.
A atual direção do ECRR tem um contrato com a Secretaria da Cultura até dezembro de 2019. Mas a confirmação da renovação do contrato é para ser dada em setembro desse ano. No entanto, o Espaço Cultural já foi informado que as portas serão fechadas em setembro. E de maneira definitiva.
Quando o FAC sofreu o calote, Ibaneis Rocha, responsável pela ação considerada ilegal, declarou que o dinheiro iria ser usado para a reforma da sala Martins Pena do Teatro Nacional Cláudio Santoro (obra criada pelo arquiteto Oscar Niemeyer em 1950 e fechada desde dezembro de 2013). Nessa justificativa, dada de maneira desastrosa, o governador foi acompanhado pelo secretário de Cultura do Distrito Federal, Adão Cândido, um burocrata que sempre habitou a Esplanada dos Ministérios e que, desde o início do ano, foi içado para o governo brasiliense.
Mas, na verdade, o próprio Ibaneis Rocha afirmou que não aceitaria qualquer diálogo com a classe artística local ou com parlamentares desejosos de intervir, porque “os artistas falam mal de mim”.
Dessa forma, é natural que se pense que o fechamento do Espaço Cultural Renato Russo se deva aos mesmos motivos emocionais - uma vingança que se come no calor da mágoa. Mas a explicação oficial é a que o Palácio do Buriti e a Organização dos Estados Iberoamericanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) estão se preparando para uma parceria que criaria espaço para oficinas de economia criativa “em todo o DF”.
A expressão está, definitivamente, na moda. Recentemente, Adão Cândido informou que o órgão que ele dirige passou a se chamar Secretaria de Cultura e Economia Criativa. Mas o que é isso? É, por definição, “o conjunto de negócios baseados no capital intelectual e cultural e na criatividade que gera valor econômico”.
Dito assim parece ser iniciativa bem vinda porque visa a estimular a geração de renda, produção de receitas de exportação e criação de empregos. Na verdade toda essa movimentação vai encerrar o empreendimento governamental na área da cultura que mais deu certo no Distrito Federal. Desde a sua abertura, o Renato Russo tem suas salas e dependências lotadas pelo público que vai aos espetáculos ou por brasilienses que desejam fazer cursos gratuitos em áreas culturais.
A OEI, organização intergovernamental internacional, que se dedica a projetos em ciência, educação e cultura, deveria se atentar ao projeto com o que pretende se envolver. Trata-se de uma iniciativa lançada por um governo local que, à semelhança do governo federal, tem como objetivo desmantelar a cultura e a educação pública, usando, para isso, um discurso progressista de caráter duvidoso.
O secretário de Cultura, que até recentemente desconhecia a área, não conhece a cultura produzida no Distrito Federal e parece desprezá-la, a ponto de se recusar a comparecer a reuniões e assembleias de artistas e produtores. Já Ibaneis é homem incapaz de demonstrar respeito e admiração pela cidade que governa.
Criado em 2019-05-15 23:10:51
Marcos Bagno -
Uma querida amiga compartilhou comigo um vídeo em que um padre, isso mesmo, um sacerdote católico, de batina e tudo, critica os atuais princípios de educação em língua materna nas escolas brasileiras.
Em tom de deboche, ele diz que hoje em dia “aula de português” não tem mais nada a ver com “gramática”: ninguém ensina nem estuda mais “sujeito”, “verbo”, “complemento” etc.
Segundo ele, o importante hoje, na doutrina educacional em vigor, é “se comunicar”.
Conforme ele descreve, a aula agora se faz por meio de um “texto” (palavra que ele pronuncia em tom de desprezo, queria eu saber por quê): a pessoa escolhe um “tema social” de seu interesse, leva um “texto” e, embora esteja sendo paga para “ensinar português”, o que ela faz mesmo é “debater política”.
Isso, na opinião do tal padre, contribui para a “lenta e gradual imbecilização de uma nação”.
Quem vê o tal vídeo pode até pensar que se trata de um ator (de um bom ator até!), fingindo acreditar nas asneiras que diz.
Mas, infelizmente, o clérigo fala a sério, é bom de retórica e sabe tirar proveito dos recursos que essa velhíssima arte põe ao seu dispor.
Se a coisa ficasse só nessa história de ensinar ou não ensinar “gramática”, o vídeo seria simplesmente a milionésima manifestação de uma ideologia multissecular, que a ciência linguística, infelizmente, ainda não conseguiu fazer desmoronar.
Mas o nosso sacerdote dá um salto de qualidade nesse antiquíssimo discurso ao incluir em sua peroração a palavra “socialismo”.
Para ele, a “imbecilização” se faz para que se possa “implantar o socialismo”. Ufa, até que enfim!
Há anos venho investigando as ideologias linguísticas, sobretudo os mitos relacionados à suposta necessidade de “ensinar gramática” para garantir a “ascensão social” do alunado (me engana que eu gosto!).
Mas essas ideologias, que correm soltas por todas as sociedades ditas “ocidentais”, quase sempre se apoiam em argumentos (todos falaciosos) que giram em torno das pretensas qualidades superiores da “norma culta”, dos benefícios do “ensino de gramática” para o “raciocínio lógico” e outras bobagens semelhantes.
Ora, pois bem, o padre em questão não recorre a essas desculpas mais velhas que a sé de Braga. Ao contrário de tantos defensores daquelas patacoadas, ele prefere assumir suas posturas políticas fascistosas.
Ele é explícito, dá nome aos bois e os chama de “anti-intelectuais”. Termina sua breve arenga dizendo que as pessoas ali presentes e que o escutam certamente nunca ouviram falar de Antonio Gramsci, mas que elas conhecem muito bem o gramscismo porque “na escola, na universidade e em outros lugares” aquelas pessoas foram instruídas segundo uma “cartilha marxista”.
E assim se completa a santíssima trindade: gramática, religião e delírio anticomunista. Amém!
O discurso desse padre, que poderíamos rotular tranquilamente de “conto do vigário", é tão rançoso e bolorento que parece copiado de algum folheto de propaganda anticomunista dos anos 1950.
Mas ninguém se engane: é novinho em folha, fresco e reluzente, pois são essas histerias conservadoras que estão ganhando o primeiro plano mundo afora e Brasil adentro.
Com o nome ridículo de “direita alternativa”, essa subgente está aí, elegendo trumps, crivellas e dórias, torcendo pela ascensão ao trono de marines le pen, fraukes petry e bolsonaros, hidras-de-lerna que babam ódio e sonham em rasgar com as próprias unhas as carnes de quem não é como elas.
Quanto a mim, penso que “lenta e gradual imbecilização de uma nação” é alguém continuar apregoando que virgens podem dar à luz sem intercurso sexual e fazendo medo nas crianças com esse terrorismo psicológico de que “Deus está vigiando”, quando Deus nunca se deu ao mero trabalho de sequer existir.
Vade retro!
Criado em 2017-03-01 21:54:47
Sandra Crespo -
Quando eu soube da queda do avião no qual estava o ministro Teori Zavascki, eu juro que não pensei em crime. Achei que era urucubaca. Mas depois de lembrar que o técnico ministro Teori estava prestes a homologar a bomba da Odebrecht, como não suspeitar de assassinato?
E como não temer (sem trocadilho) pela equipe dele? A quem essas pessoas pedirão proteção? À PF de Alexandre de Moraes? Meu Deus! Eu só confiaria na Guarda Suíça do papa Francisco, neste momento.
Alguns amigos no Facebook já se encarregaram de refrescar a memória da galera. Recuperaram, item por item, a escandalosa lista da turma que queria "estancar a sangria" da Lava Jato.
Então, como combinou Jucá com um comparsa, era preciso: tirar a Dilma; botar o Temer; descartar o Cunha (que não era mais útil, depois que comandou o impeachment); parar o Teori.
Talvez só saibamos a verdade sobre esse "acidente" quando estivermos em outro plano astral.
Teori Zavascki morre de acidente aéreo às vésperas de homologar a delação de 77 executivos da Odebrecht.

Agora Temer vai indicar o possível sucessor de Teori. E, mesmo que a presidente do STF decida designar de imediato o relator substituto, Michel Temer, o Usurpador, vai indicar um ministro do STF.
Lembrando: Temer é o líder daquela turma que tinha uma lista que terminava em Teori.

Teori Zavascki tinha nas mãos o destino de molto buona gente. Foi a Angra de avião num dia de mau tempo. Ótima oportunidade para sabotagem.
Golpe é como boneca russa, acredite: tem sempre um dentro do outro, do outro, do outro...
(E nos sites de notícias do resto do mundo, o Brasil brilha soberano: a barbárie do presídio de Natal faz revezamento no pódio com a morte, em acidente aéreo, do relator da Lava Jato na suprema corte do país.).
Criado em 2017-01-20 00:44:04
Zuleica Porto -
São quatro velhas senhoras, do tempo da construção da cidade. Conheço-as desde os idos de 1972, quando ainda eram conhecidas simplesmente como “Asa Norte Residencial”, enquanto as 500 eram a “Asa Norte Comercial”.
Os blocos, da 403 à 406, eram numerados, numa sequência única. Foi no então bloco 53 minha primeira morada na Asa Norte, depois de ano e meio abrigada pela generosidade dos tios Maria Neide e José Hélder, no bloco A da SQS 205.
Da república quase vizinha à antiga SAB, percorri diversas quadras e blocos, nas duas asas, até que em 1981 voltei para as 400 velhas da Asa Norte e até hoje moro no antigo “bloco 2”, hoje o H da SQN 403.

Foi onde cresceu meu filho Mateus, que mais tarde estudaria Arquitetura e Urbanismo ali pertinho, na UnB, uma espécie de prolongamento de casa, aberta aos passos e sonhos nossos.
Um de seus primeiros trabalhos, do início dos anos 2000, seria uma análise crítica das alterações ao projeto original. Lamentava a “era do mármore, quando as superquadras mais pareciam um cemitério”, e a então “era das pastilhas”.
E também que os pilares, antigamente redondos, tenham sido “enquadrados, diminuindo a área de circulação nos pilotis, proporcionando um gasto em uma obra sem nenhum sentido estrutural”, os pilotis cercados e as áreas públicas das comerciais transformadas em áreas particulares dos estabelecimentos.
E o que mais o incomodava era o crescente número de estacionamentos, ocupando lugares antes reservados a áreas verdes. “Isso aconteceu muito em áreas entre blocos, como no meu.
O agradável jardim que abrigava os jogos das crianças, pequenas hortas, e garantia a sombra do sol poente, foi destruído dando lugar a um inóspito estacionamento.
O resultado foi, além das tão sonhadas vagas, um aquecimento generalizado das habitações, além da diminuição da área de convívio da vizinhança”. Ali nascia o urbanista dedicado ao estudo das “cidades para pessoas”.
Hoje, mais de uma década depois, vivemos a era do piso em porcelanato e das janelas em vidro blindex, que dão aos velhos blocos um ar constrangido de banheiros de escritórios cafonas.
As áreas verdes continuam ameaçadas pelos carros; outro dia um grande abacateiro diante do nosso bloco foi mutilado para garantir a vaga de uma moradora...
Apesar de tais lamentáveis alterações, as velhas 400 ainda guardam certo ar de cidade pequena: moradores antigos cumprimentam-se nas caminhadas, param para trocar notícias sobre filhos e netos, colocam mesinhas e cadeiras à sombra das árvores para jogar baralho ou dominó nos finais de semana.
Casais jovens com crianças levam risadas e desenhos a giz para debaixo dos blocos. Tucanos e periquitos aparecem nos galhos do cambuí diante da minha janela.
Tenho uma especial estima por dois gigantescos fícus que remanescem na 406, pelos ipês e flamboyants deslumbrantes e pelas mangueiras que enchem as quadras de frutas e perfume em dezembro. Queridas 400 velhas...
Criado em 2016-07-19 03:06:10
Maria Lúcia Verdi –
Publicamos hoje a segunda e última parte da entrevista com o jornalista e escritor francês Eric Meyer, diplomado em Filologia Germânica pela Sorbonne. Desde 1996, Eric apresenta a China para o Ocidente por meio de sua newsletter Le vent de la Chine, que trata de todos os aspectos da vida naquele complexo país e é referência para os interessados na República Popular da China (RPC). É autor de dez livros sobre a China, o primeiro, de 1989, sobre o massacre de Tian´anmen e o último, de 2013, sobre o Tibet. Escreve o blog Le vent de la Chine
Participaram dessa coletiva Fernando Reis, embaixador aposentado, autor de “Caçadores de nuvens – em busca a diplomacia” e de “Por uma Academia renovada – formação do diplomata brasileiro”, além do romance “Falta um cão na vida de Kant”; José Alberto Bekinschtein, economista e professor argentino, autor de “China – um mundo para os negócios”; responsável pelo Setor Econômico da embaixada daquele país em Pequim entre 1981-86 e 1998 a 2006; João Lanari, diplomata aposentado, professor de cinema e ensaísta, viveu em Pequim entre 1992 a 95; Ricardo Portugal, diplomata, poeta e tradutor, viveu por quase dez anos entre Pequim, Shangai e Cantão; Angélica Torres Lima, jornalista e poeta, autora dos livros Solares, Paleolírica e O poema quer ser útil; Antônio Carlos Queiroz, jornalista e cronista; Humberto Brasiliense, educador, músico e poeta e nosso editor Romário Schettino.
Fernando Reis – O povo chinês está mais feliz agora com a "modernização"? Em 1974 estive na China. O país ainda estava no meio da Revolução Cultural. Apesar de seus erros, as pessoas eram orgulhosas e saudáveis, embora pobres e austeras. Voltei para a China em 1978, 1982 e 1994. Cada vez era diferente. Isso me impressionou muito, não apenas por causa do progresso. A China era mais poderosa, mas os chineses pareciam menos felizes. Isso é inevitável? A neurose capitalista realmente contaminou a China?
Eric Meyer – Excelente pergunta. Na verdade, você está fazendo duas perguntas: "chinês feliz?" e "neurose capitalista"? Sua segunda formulação sugere claramente uma premissa "rousseauista", a do mito do "bom selvagem" pervertido pela civilização. Mas não me parece estar em conformidade com a realidade do terreno e com a história chinesa. Então, estou tentando responder: de acordo com pesquisas do instituto "Pew" dos EUA (cito de memória), 90% dos chineses dizem estar felizes - e 95% dizem confiar no governo. Mas se arranharmos a superfície dessa quase unanimidade, aparecerão nuances importantes. Por exemplo, a impressão de felicidade deriva menos da sabedoria oriental, da arte de se contentar com o que se tem, do que de um constante aumento no produto nacional bruto de 10% ao ano por 30 anos. Mas este ano, o aumento será de apenas 2,6% no máximo, e os chineses já estão começando a consumir menos, para economizar dinheiro para os momentos difíceis de amanhã.
Uma segunda razão para dizer que você é feliz tem a ver com tradição, com o fato de que, na cultura chinesa, você não tem o direito de reclamar. De fato, a questão da felicidade é uma questão ocidental, que os chineses não se perguntam: vivem sua vida dia após dia!
Outra razão bastante bizarra para esse sentimento de satisfação que os chineses acreditam ser felicidade é o orgulho nacionalista. Isso é mantido pela brutal governança do estado, nas periferias do território nacional ou no exterior: quebrar Hong Kong, reprimir os uigures muçulmanos em Xinjiang, atacar o exército indiano em Ladakh para empurrar as fronteiras e agradar as massas. Isso explica de passagem por que Xi Jinping aceita o risco de desagradar muitas pessoas ao redor do mundo: a opinião interna sobre ele é mais importante.
A neurose capitalista, sim, existe na China. Quando cheguei a Pequim em 1987, as pessoas viviam na pobreza, uma vida tranquila, com suprimentos limitados, boa qualidade de comida, mas com pobreza de escolha e havia muitas filas para comprar. Não havia poluição por falta de indústria. Hoje, temos muito mais produtos - mas não mais necessariamente os meios para comprá-los - e temos o estresse da produção: impensável descansar no trabalho em 2020.
Finalmente, fonte de tensão, mudaram as relações entre jovens e idosos, entre vizinhos, entre o indivíduo e o Estado. As pessoas não se entendem mais, discutem, e o estado exige estar sempre mais presente na vida cotidiana. Em resumo: sem estar bem cientes disso, para alimentar seu sentimento obrigatório de felicidade, os chineses não têm mais do que o orgulho nacionalista. O que nada tem a ver com "neurose capitalista”, é, antes, o resultado do quase-totalitarismo e do populismo, uma doença global do nosso tempo.
Romário Schettino – O filme “Indústria Americana”, de Julia Reichert e Steven Bognar, produzido pelo casal Obama, ganhou o Oscar de melhor documentário. O fechamento de uma fábrica da GM em Ohio e a instalação de uma gigante de vidro chinesa, a Fuyao, cria mais de mil empregos e traz esperança aos cidadãos da cidade. Mas o conflito cultural se estabelece entre chefes e funcionários. Na sua percepção, o mundo globalizado poderia responder de maneira humanista as demandas dos trabalhadores americanos e chineses?
Eu não vi esse filme, por isso tenho dificuldade em responder. Acho que você quer me perguntar sobre a relação entre chefes e trabalhadores na China e nos Estados Unidos, fazendo um paralelo entre as expectativas coletivas das classes trabalhadoras da China e o dos Estados Unidos. Esse paralelo pressupõe que na China exista tratamento justo no mundo do trabalho, proteção dos trabalhadores, diferentemente dos Estados Unidos, onde o trabalhador seria menos bem tratado. Confesso que não estou familiarizado com a situação na América do Norte, mas tenho certeza de que nos dois países as classes trabalhadoras não têm nem diálogo, nem demanda comum e nem mesmo situações comparáveis.
Certamente, a China possui várias leis sociais progressistas, como a aposentadoria aos 60 anos para homens e aos 55 para mulheres, bem como a garantia legal de não se poder ser demitido após dez anos de trabalho. Mas, por um lado, essas leis na China não são tão vantajosas. Para as mulheres, por exemplo, atingir a idade de aposentadoria aos 55 anos as coloca em desvantagem, com uma pensão muito menor. Por outro lado, as leis são contornadas: as empresas demitem funcionários antes de completarem 10 anos de serviço.
As leis sociais chinesas são mais favoráveis ao empregador, a fim de apoiar uma economia de exportação com os preços mais baixos, obtida através da prática de dumping social. Por exemplo, os Estados Unidos reconhecem a liberdade de associação e a China não - na China, sindicatos autônomos são caçados e trabalhadores que secretamente tentam criá-los vão para a cadeia.
O sindicato único oficial não defende os trabalhadores, mas existe para supervisioná-los e fazê-los aceitar as condições de trabalho impostas pelo empregador, seja na esfera pública ou privada. Nas ocupações mais simples, nas fábricas ou na construção, dezenas de milhões de empregados precariamente recém saídos de suas aldeias, todos os anos sofrem meses de atraso no pagamento de salários ou ficam sem pagamento na época da tradicional celebração do Ano Novo Lunar, quando querem retornar à vila natal.
Da mesma forma, em 2019, classes de trabalhadores mais qualificados, como caminhoneiros ou operadores de guindastes, ousam organizar dias nacionais de greves, porque o Estado lhes impõe condições de trabalho excessivamente duras, em particular as horas extras semanais sem remuneração. Um outro exemplo dessa discriminação contra esses trabalhadores independentes é seu acesso à obtenção de trabalho, recentemente organizado pelo Estado: os contratos com operadores de guindastes e transporte rodoviário são oferecidos em «leilões negativos»: aqueles que pedirem menos para executar o trabalho são contratados, com um preço bem baixo, os demais aguardam outro leilão...
É certo que a situação dos trabalhadores nos Estados Unidos não é brilhante, com 20 milhões de empregados sem seguro de saúde, mas nunca ouvi falar de uma demanda comum de funcionários chineses e americanos, como a pergunta sugere. Isso poderia acontecer no futuro, se as empresas gigantes da América e da China puderem continuar a investir cada vez mais no país oposto e recrutar cada vez mais por lá. Então, os trabalhadores de um mesmo setor ou de um mesmo grupo (como no caso de Fuyao-EUA e Fuyao-China) poderiam se aproximar, discutir e exigir dos chefes locais tratamento igual. Mas incentivar esse tipo de diálogo não é do interesse dos governos: a guerra fria que se instala com Trump e a Covid-19 tornam, por muito tempo, ilusórias essas esperanças.
PS: nesta imagem bastante sombria da legislação chinesa e do mercado de trabalho, existem algumas exceções às profissões altamente protegidas (a cada ano, os concursos de recrutamento atraem milhões de solicitações): funcionários públicos, soldados, polícia, todos esses corpos do Estado, sem os quais o regime não poderia sobreviver.
João Lanari – Esta era da Covid-19 pela qual estamos passando traz à tona muitas engenhosidades digitais, muitas das quais já existiam em um estado adormecido e não tinham visibilidade. A China é uma das vitrines deste novo mundo digital: técnicas de rastreamento social, sistemas de pagamento, uso de mídias sociais para monitorar a população - esses são alguns desses aspectos, implementados em uma escala própria a um país colossal como a China. O que significam essas estratégias em termos de instrumentos para restrição da liberdade e da oposição política?
Uma excelente pergunta que o Ocidente acha difícil se fazer de maneira imparcial e desapaixonada. De fato, a carga ideológica é pesada em ambos os lados, especialmente na questão do crédito social. Podemos imaginar uma sociedade do futuro em que tudo seja controlado por big data, ou seja, dados privados das pessoas? Tal premissa parece terrível, assustadora, o diabo na Terra e o fim de toda a democracia: é o pesadelo do "Big Brother está te observando" de repente feito realidade. E, no entanto, o advento do big data e do grande computador é indispensável e inevitável como um novo instrumento de gestão social. Isso precisará ser feito para que o Estado possa prever de ano para ano o número de empregos a serem criados, vagas nas escolas, vagas em casas para idosos.
A China não se faz a pergunta, mas avança, e se outros países não seguem o exemplo, é ela, por meio de sua eficiência, que lhes imporá seus métodos. Já há muitos anos, mais de um bilhão de chineses pagam em seus smartphones, por meio de suas contas wechat ou Alipay: passagens de avião e de trem, bilhete de cinema, a dúzia de ovos no mercado, o médico no hospital. Os aposentados têm um cartão eletrônico que contém seus registros médicos, transporte urbano gratuito, parques, museus, conta bancária, o pagamento da aposentadoria: todas as facetas de suas vidas estão concentradas em um único cartão.
Da mesma forma, quando você revende seu carro, o mecânico não precisa inspecioná-lo: digitando o número do chassi no computador, ele encontra todos os reparos e manutenção que foram feitos no carro - o Ministério da Segurança Pública tornou esse arquivamento obrigatório para todos os reparadores e revendedores do país, permitindo grande transparência nesse mercado. Isso está muito à frente do mercado de carros usados na Europa, e permite que o vendedor cuidadoso obtenha um excelente preço pelo seu carro, sendo que todos os envolvidos (garagem, vendedor, comprador) ganham tempo e dinheiro…
Outro exemplo: os jovens podem colocar na Internet um “mini-CV” que é analisado por um computador e, em alguns segundos, está disponível em todo o país para os empregadores mais adequados à situação que eles procuram.
O único problema é a liderança totalitária que o regime está assumindo cada vez mais sob Xi Jinping. O crédito social impõe disciplina e obediência aos cidadãos e pune fortemente os erros. No início deste sistema, observa-se uma situação anormal na China e uma necessidade urgente de restaurar a disciplina coletiva: muito individualistas, os chineses têm menos espírito social ou cívico do que na Europa - isto é, é o preço a pagar pela governança autoritária e a ausência de diálogo entre Estado e massas. As pessoas só entendem restrição. O regime, e parte da classe intelectual, esperam obter do crédito social o fortalecimento da confiança entre as pessoas, como contrapartida pelo seu melhor comportamento. O patrão pode contar com a certeza de recrutar funcionários honestos. O banco pode emprestar sem medo de perder dinheiro. O pai pode dar a filha em casamento a alguém "bom".
Mas o sistema não diz nada sobre os erros de julgamento, nem sobre os abusos de poder daqueles que administram o sistema, ou seja, dos quadros do Partido. O crédito social até impôs um aplicativo para smartphone por um ano, destinado a que os moradores leiam as obras de Xi Jinping todos os dias, em troca de alguns pequenos privilégios, como não serem revistados no aeroporto, ou evitar filas.
Mas tal sistema é fundamentalmente perigoso – ele pode provocar a exclusão dos dissidentes, o ódio das multidões face ao Estado e a perda da colaboração cívica. Tal sistema coloca o problema de um regime que quer ser ao mesmo tempo "juiz" e "árbitro", ator político, econômico e moral.
Até agora, na China, 17 milhões de pessoas estão na lista negra do sistema, sem permissão para pegar o avião, o trem rápido, ou tomar empréstimos no banco. Essas pessoas nem conseguem mais telefonar porque, quando o fazem, há um som especial que toca nos dispositivos das pessoas chamadas, alertando-as de que a pessoa que liga é um bandido. Até o momento, os chineses não estão reclamando: eles acreditam que apenas os culpados têm a temer e se dizem que: “o crédito social é punir os bandidos”. Mas, obviamente, essa situação não pode durar: o sistema, como é, não é viável.
Antônio Carlos Queiroz – Tendo em conta vários indicadores – econômicos, científicos, geopolíticos, soft power, exploração espacial – muitos observadores predizem que o século XXI pertencerá à China. Um dos maiores desafios do governo chinês, que seria uma das maiores realizações do país, é a eliminação da pobreza absoluta até o fim deste ano. Este desafio está mantido? Em que media a pandemia da Covid-19, que imporá uma grave desaceleração na economia, poderá afetar este objetivo?
O governo, durante 20 anos estabeleceu a meta de erradicar a pobreza extrema até 2020. O limiar financeiro é uma renda abaixo de 2.300 yuans por ano per capita, o que corresponderia, na visão oficial a uma situação de quase autossuficiência. Em 6 de março de 2020, o Presidente Xi reiterou a promessa para dezembro. Até hoje, existem oficialmente 5,5 milhões de pessoas muito pobres na China - o trabalho está quase pronto, com o estado estimando que desde seu nascimento em 1949, ele tirou 850 milhões de pessoas da pobreza.
Para aqueles classificados como "pobres", geralmente em áreas remotas e que não falam mandarim, no oeste do país, o estado oferece um apartamento na cidade fortemente subsidiado, com 10.000 yuan cada; às vezes oferece uma parcela cultivável e um pouco de gado (ou, por exemplo, 30 galinhas). 43 milhões de pessoas classificadas como "muito pobres" recebem 3.900 yuanes por ano.
Mas há muitos problemas. Uma grande parte dos camponeses deslocados da cidade acha difícil se adaptar a ela, encontrar trabalho. Eles não falam o idioma nacional e geralmente não têm organizações não-governamentais (ONGs) para ajudá-los - o estado não gosta de ONGs.
Outro problema: pelo menos metade das pessoas muito pobres não conseguem ter seu status reconhecido e não são ajudadas. Além disso, o dinheiro enviado de Pequim geralmente desaparece no caminho, embolsado por funcionários corruptos. Finalmente, uma vez que o programa em andamento e o censo dos pobres estiverem concluídos, o Partido não vai mais querer reconhecer novos pobres. No entanto, a China oficialmente tem 236 milhões de trabalhadores migrantes e 600 milhões de pessoas vivem com menos de 1.000 yuanes por mês: a verdadeira pobreza existe, muito maior do que o Partido está disposto a admitir.
Xi Jinping quer vencer esta aposta a todo custo, porque seu sucesso deve justificar todo o sistema, diante da opinião doméstica e de outros países que consideram intensamente a China como uma esperança. Como diz o economista oficial Hu Angang, citado pelo diário britânico Financial Times: “Na minha opinião, o Ocidente é dirigido por políticos que querem ganhar sua próxima eleição, enquanto a China é dirigida por um partido no poder que deseja alcançar objetivos maiores”. As eleições valem menos que a prosperidade para todos.
Nesta perspectiva, a chegada do Covid 19 complica a questão. Pela primeira vez em 40 anos, o produto interno bruto (PIB) diminuirá em 2020. Haverá milhões de novos pobres. Não acredito que o Partido possa ter sucesso nessa aposta de erradicação da pobreza, ou mesmo que possa admitir o fracasso.
J.A. Bekinschtein – Como você vê as escolhas dos “terceiros” países da Europa, América Latina, enfrentando o confronto China-EUA. Ao mesmo tempo, você acha que haverá uma "dissociação" em vários níveis, inclusive o cultural?
De fato, Europa e América Latina, África e Sudeste Asiático estão em desacordo com a crescente rivalidade entre a China e a América do Norte: esses continentes estão estruturados em pequenos países, divididos, portanto, e os EUA e a China esperam que eles escolham seu lado.
Tradicionalmente, países de origem europeia, especialmente anglo-saxões, votam na América, que é historicamente “seu filho”. Os países em desenvolvimento tenderão a votar na China, especialmente aqueles que recebem subsídios e projetos de “Um cinturão, uma rota”. Há também o problema do pós-colonialismo, onde muitos países permanecem justamente ressentidos ou encolerizados com o passado, no qual os europeus praticavam escravidão ou ocupavam e administravam seus territórios, o que a China não fazia - pelo contrário, tendo sido parcialmente ocupada.
A China quer se posicionar como um farol de independência e também como fonte de financiamento e desenvolvimento com técnicas de baixo custo. Mas, cada vez mais, também aparece como um novo explorador, com muitos países (Sri Lanka, Sudão, Gabão) onde os projetos do “Um cinturão, uma rota” falharam, onde o solo foi confiscado pela China para se reembolsar e onde os recursos são exportados para a China a preços baixos. De fato, na própria China, existe exploração: a China se tornou o país número um para o número de novos bilionários em dólares que enriquecem explorando seus concidadãos.
Os países terceiros, em seu “voto” para “China” ou “EUA”, também devem refletir sobre a recente influência totalitária de Pequim em Hong Kong, Xinjiang e contra a Índia em Ladakh. A China está perdendo sua imagem de soft power, na qual investe há 30 anos. Parece compelida a fazê-lo, após o declínio no crescimento, a epidemia de Covid 19, e a insatisfação dos cidadãos. Consequência: os Estados Unidos, mas também a Europa, a Índia e eu acredito que o Brasil, serão menos tolerantes com a China no futuro e vão monitorar mais de perto suas exportações, seu respeito aos padrões sociais internacionais, suas compras de bens e empresas em seus próprios territórios: uma “lua de mel” entre a China e o mundo está chegando ao fim, a China não é mais vista como um país pobre, nem como um parceiro leal.
Outra possível consequência desse conflito que está se acumulando entre os EUA e a China é uma aceleração previsível da integração desses países terceiros da Europa e da América Latina. Especialmente porque outros grandes países hegemônicos chegarão no futuro, Rússia, Índia ou Turquia, por exemplo. A partir dessa integração, já podemos ver um pequeno gesto na União Europeia, sob a liderança de Merkel e Macron, que acaba de lançar o embrião de uma política orçamentária comum, com um empréstimo direto da União para ajudar os países do Sul a emergir da crise. Mas essa Europa mais integrada também nos permitirá resistir à pressão de um Trump ou de um Xi Jinping.
Do ponto de vista cultural, aqui temos que esperar que não haja guerra: a humanidade é una e indivisível, e os problemas climáticos ou de saúde só podem ser resolvidos juntos. A cultura chinesa é enorme e ótima, assim como a da Europa, que também é “mãe” da América do Norte, América Latina, África e muitos outros países. Para o nosso futuro desenvolvimento mental e cultural, nenhum país pode prescindir de um diálogo com a China, que também precisa muito de nós.
Além disso, as trocas franco-chinesas são ativas e florescentes. A longo prazo, a abertura total, a livre circulação de pessoas e ideias é inevitável, para evitar a decadência da humanidade, para aprender como projetar melhor nossas cidades, para cultivar sem água, para produzir industrialmente sem poluição, para viver livre do desejo de dominar nossas esposas ou filhos, ou ganhar mais e mais dinheiro. Mas, a curto prazo, esperemos que a crise não nos leve a interromper o diálogo com a China de Xi Jinping. E aqui nada é ganho: nossos amigos franceses ainda na China nos dizem que a polícia está usando todos os pretextos para suprimir vistos válidos e forçá-los um a um a sair sem a possibilidade de retornar!

Eric Meyer com o livro LÉmpire en Danseuse
Criado em 2020-08-05 03:15:54
Angélica Torres –
Depois de ver pessoas em lojas e mercados pressionando o litro de álcool gel à disposição dos clientes e fazendo O Nome do Pai, antes de esfregá-lo nas mãos (como faziam com o vidro de água benta ao entrar em igrejas), passei a chamá-lo de “álcool angel”, já que se tornou “O” produto de proteção contra a Covid19. No entanto, ainda muito mais que o álcool, anjos da guarda e garantia de proteção de fato quem nos oferece é o SUS, embora para muitos esta ficha parece ainda não ter caído.
Há 30 anos na ativa, dando assistência a enfermos, salvando vidas, formando médicos competentes no dia a dia dos atendimentos, cumprindo um papel diversificado e fundamental à saúde de toda a população, o SUS é um serviço que devia nos orgulhar muito e contar com a nossa total defesa, sobretudo quando ameaçado por um projeto de lei, como o do acintoso governo atual, que debilita ainda mais os seus já insuficientes recursos para tanto o que fazer.
Quem viveu dramáticas passagens, ocorridas com pessoas da família ou com amigos que, entretanto, tiveram a assistência de equipes médicas de prontos-socorros do SUS, sabe bem o que significa esta preciosidade de serviço público que o Brasil dispõe, desde 1988, quando foi criado. Agora, em tempos de Covid nos ameaçando indistintamente, a experiência e o relato são outros e acerca de suas unidades básicas de saúde (UBS/SUS).
Experiências pessoais
Incentivada por um amigo, solidário, ao saber o que eu vivia – passávamos por momento e situação semelhantes, de sintomas e suspeita do pior –, busquei uma UBS da Asa Sul do Plano Piloto para fazer o teste e saí de lá tão encantada quanto ele, com o atendimento recebido. No prédio onde se fazem as triagens e consultas há limpeza e organização, e atenção, simpatia, acolhimento por parte de médicos, enfermeiros, assistentes e vigilantes – do que mais se precisa que isso? Tudo conforta e anima o paciente, pois é um modelo padrão, ditado em princípio ao país todo.
Esta Unidade em que fomos atendidos, os testes são feitos em um barracão (foto de abertura), naturalmente ventilado, situado na parte de trás do pavilhão da entrada. O espaço é aberto e há verdes, árvores, plantas, algumas flores e um amplo terreno que se estende além do barracão; o cenário lembra o das instalações do início de Brasília – como as do Clube da Imprensa, cujo charme se devia exatamente a seu despojamento e simplicidade.
Fica-se por ali perto do barracão, enquanto se espera ser chamado pelo nome. Depois de realizado, o resultado sai em cindo minutos. Bem, há dois tipos de testes e a adequação de cada um é verificada na triagem. Quem contraiu de fato o coronavírus, recebe orientação e apoio das equipes do pavilhão principal. E quem precisa de assistência para outros casos, também tem ali atendimento, além de receber até mesmo os remédios necessários ao tratamento. Tudo gratuitamente.
Palavra de artista
O amigo que me encorajou a sair de casa para testar e parar de ficar cismada e amedrontada com a suspeita, felizmente negativada, incentiva a busca do Serviço também para outras questões. Diz textualmente, ele, Ralph Gehre (foto, abaixo):

“Tenho 68 anos e moro em Brasília desde1962, mas só agora recorri ao SUS, pois, sendo artista plástico, não tenho recurso para bancar um plano de saúde. Eu, porém, desconhecia o que o Serviço significa. Motivado por uma suspeita enganosa de Covid, fui com meu filho ao posto de saúde do nosso bairro, esta é a orientação, onde fomos atendidos, rápida, simples e objetivamente, numa tarde de um dia de semana, quando a Covid foi logo descartada. Mas lá estando, eu disse ao médico que gostaria de fazer meus exames de rotina, em especial, o preventivo do câncer masculino, se possível. Pois, prontamente agendou-se uma consulta, com ficha criada no sistema, hoje todo informatizado, e a anamnese anotada”.
Ralph Gehre continua seu relato, enfatizando a importância de se compreender que o SUS funciona como um sistema de saúde familiar, um posto de saúde próximo de seu endereço: há unidades instaladas em todo o DF. Uma das injustas críticas que fazem ao Serviço é quanto ao atendimento, que ele protesta: “90% das pessoas que o buscam vão ao Pronto Socorro, que é voltado a casos de emergência. Para o atendimento cotidiano há as UBS”.
Gehre não esconde a sua irrestrita admiração pelos médicos do SUS e a forma como atendem, o cuidado e respeito que têm para com a saúde do paciente. “Eu me sinto super bem atendido e seguro – e muito feliz por isso. O ambiente é agradável, os funcionários são todos formidáveis, desde o pessoal da farmácia que me entrega o remédio, ao médico, ao residente, à enfermeira, à recepcionista, ao segurança. Todos são impecáveis no trato, são profissionais seríssimos e considero isso um privilégio, uma coisa maravilhosa”, elogia.
Defender o SUS com garra
Defender o SUS, como Ralph Gehre salienta, é uma postura política que todos devemos assumir. Especialmente no momento em que há uma ameaça concreta de desmonte do Sistema. “A estrutura está sendo minada em suas bordas. O sistema manicomial já está corroído. E quantos precisam de seus atendimentos e medicamentos para sobreviver. A necropolítica neoliberal escamoteia a saúde pública, que é obrigação do Estado. Os governos têm apenas de cumpri-la. O desmonte do SUS não é iniciativa criminosa do SUS”, sustenta.

(Foto: Térreo UBS Asa Sul)
Assim, Gehre conta que após ser atendido, decidiu divulgar o Serviço aos amigos, com a sua história pessoal. Ele insiste: “Vá ao posto de saúde da sua vizinhança e diga no guichê que você precisa fazer exames. A partir dali, tudo vai acontecer. É fundamental que homens adotem o exame regular anual de urologia, a partir dos 40 anos ou 45 anos. Lá, eles podem receber esse acompanhamento. E eu fico ali, sem saber como agradecer a cada um daqueles profissionais que simplificam as minhas angústias, atendendo às demandas da minha saúde, e que me curam. Isso é maravilhoso. Quero dizer o meu muito obrigado a cada uma dessas pessoas do Sistema Único de Saúde do Brasil”.
Sim, o Brasil precisa do SUS. E como frisa Chico Buarque em vídeo de apoio à campanha que se inicia nesta terça-feira, “o SUS é simplesmente o maior serviço de saúde pública do mundo”. Nós precisamos apenas de apoiá-lo e defendê-lo – e de usufruir dos seus benefícios. Caetano Veloso também gravou um vídeo de apoio.
Criado em 2020-12-15 01:55:21
Romário Schettino –
Às vésperas do Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho, mais uma tragédia ocupa as páginas dos jornais. Prédio de quatro andares, irregular, no Rio das Pedras, Zona Oeste do Rio de Janeiro, território dos milicianos bolsonaristas, desaba e mata pai e filha de dois anos e 8 meses. A mulher foi retirada com vida e levada para um hospital e, segundo a imprensa, o estado de saúde dela é grave.
O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), em sua conta no twitter, disse que o desabamento tem uma explicação: “Sabem por que cai tanta casa na Zona Oeste do Rio, como agora em Rio das Pedras? Porque na periferia autoridades terceirizam, há décadas, as `políticas públicas de habitação´ ao crime. Quem tem que construir casa popular é o governo, mas o Rio de Janeiro foi leiloado ao crime organizado”.
O vereador Luiz Otoni Reimont (PT-RJ) também acha que, de fato, o Rio de Janeiro deve muito na questão ambiental e habitacional. “Há avanços sobre o que a gente chama de ecolimites, que são as matas nativas e as áreas de preservação. Esses avanços sempre colocam em risco a vida dos pobres”.
Reimont disse que “às vezes a gente pensa que são os pobres que estão invadindo, mas na verdade são empresas incorporadoras nada democráticas, nada convencionais, ligadas a milicianos, que constroem e não moram nas áreas invadidas. Fazem desses espaços apenas uma mercadoria.” Como tem acontecido na região do Rio da Pedras. Este último caso ainda está sob investigação.
“A secretaria Municipal de Habitação e a Secretaria de Planejamento Urbano têm agora uma grande tarefa. Esse é o ano do Plano Diretor da cidade do Rio e no capítulo das questões ambientais temos que discutir a moradia adequada buscando diminuir as ocupações ilegais. É fundamental ter um Plano de Habitação de Interesse Social (PHIS)”, defende o vereador.
Outra questão que incomoda os cariocas é qualidade dos ônibus urbanos. Reimont admite que a poluição sonora no Rio é um fato a ser combatido. “Temos ônibus mal conservados, barulhentos, e poluidores do ar. Para encontrarmos solução para esse desconforto é preciso abrir a caixa secreta das empresas de ônibus. Eu já participei de duas CPIs na Câmara dos Vereadores, mas infelizmente ainda continuamos sob a égide da máfia das empresas do transporte urbano.”
Reimont diz que “o prefeito Eduardo Paes (DEM) tem feito alguma coisa com os BRTs, mas isso não basta. Temos uma frota sucateada, atrasada, precisamos modernizá-la. O mundo trata hoje o transporte urbano de uma maneira muito mais civilizada. É preciso rever a quantidade de pessoas transportadas nos ônibus, e pensar no número de ônibus que transita. Mas é fundamental ter transparência nos contratos das empresas do transporte coletivo do Rio de Janeiro”.
Para comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente, Reimont acha que essa luta é essencialmente da sociedade civil. “Quando o povo participa, as coisas acontecem”, ressalta. Para confirmar o que disse, ele lembra a tentativa de se construir um autódromo na Floresta do Camboatá: “A população mobilizada impediu a obra e agora a floresta é uma área de preservação ambiental”. Outra luta importante é a que defende o Parque 100% Realengo Verde.
Criado em 2021-06-03 21:20:54
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Dava enjoo o verde repetido trivial na estrada do Rio Quente, léguas e léguas sobejando soja. No meio da roça medonha se via de vez em quando um pau de árvore servindo de poleiro pros anus.
A camionete parou pro mijo. Seu Derval comentou: “O horizonte daqui é a China, só que verde, dólar puro. Não sei se vai compensar a próxima safra com essa alta dos adubos e do diesel. A ureia passando dos quatro mil, sei não!”
O rapaz deu uma risadinha, preferiu não revidar. O pai percebeu a má-criação, mas também se calou. Nos últimos meses andava às turras com o moleque por causa de política, ele estudando Comunicação em Goiânia, já matreiro, fã do Lula.
O seu Derval pensou: “Esses comunistas…”
Adivinhando, o menino dessa vez deu pronúncia, entre os dentes: “Agro é pop, agro é tech, agro é tudo. Também, com as verdinhas dos vermelhos”!
Seu Durval bufou, os olhos fuzilando.
Criado em 2021-12-02 17:59:55