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Luiz Martins da Silva –
Ascetismo monástico, poesia bucólica... Cotidiano embebido de álcool em gel e mãos rachadas de sabão líquido, detergente, desinfetante... E é só levantar um pouco a vista ao horizonte... cruzes!
Pandemia galopando, o apocalipse esturricando, o trânsito se engarrafando de novo, o novo normal se precipitando em feiras e shoppings, o Brasil no topo dos desacertos e, que ironia, o mais absurdo dos ministros de malas prontas, a deixar o país o mais breve possível e representar o Brasil num board multilateral, junto ao Banco Mundial e com um salário várias vezes maior do que o topo do topo, ou seja, o que embolsa um ministro do Supremo.
Quando será o último baile da Ilha Fiscal? Sinceramente, vocês acham que essa devassa no que já se sabia vai levar a alguma saída de fim de túnel? Mas, impeachment já é alguma coisa. Que venha logo a vacina, pois não suporto mais ver a morte ceifando como safra uma parte da população brasileira, em sua maioria a silenciosa legião de inocentes e pobres, pessoas ignoradas nas entrevistas comemorando o aumento na safra de grãos para a China. Acaso o hospício passa por aqui?
A Europa já discutindo como se unir para um novo Plano Marshall para o que a Angela Merkel avaliou como um arraso pior que o da II Guerra Mundial. Isto, para a Alemanha. E o Brasil? Que plano? Que planejamento? O presidente, a sua família e os seus 300 tentando se salvar das labaredas que atearam pelo caminho, ou seja, cadê governo? Alguma realização concreta? Desmontes, sim, aos montes. E os orçamentos? Para um gestor chamado Centrão, para ver se essa superbancada vai segurar o tranco.
O país sem rumo; a Saúde sem ministro; a Educação sem estratégia para um ensino a distância e o ex-sinistro, na raspa do tacho do ódio, tirando bolsas de negros e índios. No Itamaraty, um outro abrindo espaço para herdeiros monárquicos... A Justiça, preocupada em desmembrar a parte da Segurança Pública, enquanto a criminalidade rola solta e policiais espancam e matam pelas ruelas, atirando a esmo, perfurando adolescentes...Ufa! Aff!
Contar com quem? Mercosul? Trump? Europa? China? De quem tripudiaram? Do Macron chamado de micron? Como sempre, com nós mesmos, a massa dos contribuintes. Qual fênix desolada, teremos de nos reconstruir das nossas cinzas, dos nossos lutos e voltar à batalha de sempre, o batente, a luta, a labuta... Por falar nisto, já fizeram o Imposto de Renda? O prazo está se esvaindo e o Tesouro precisa de todos, embora a arrecadação não seja para todos.
Criado em 2020-06-19 22:20:55
José Carlos Peliano (*) –
A lembrança de lavadeiras cantando na lavagem de roupas na beira do rio me vem trazendo todas, em conjunto afinado, sonoro, tocante. Pensava então o que significava o canto além do próprio canto encantado de ser cantado. De repente lá de dentro me veio a intuição da resposta: é que elas não estão mais ali, elas se foram para um lugar abençoado que só elas sabem e visitam toda vez que vêm juntas lavar roupas. Assim era, assim foi, assim é e assim será.
Mesmo que elas não deem conta disso, dizendo que é só por cantar, pelo belo e simples prazer de cantar. Elas se vão dali e delas mesmo e se encontram na parte delas que vive fora lá onde há força, energia, candura, união e irmandade. Lá onde cada uma vale por todas e todas por uma, um Robin Wood tropical, não de arco e flecha na mão, mas de roupas, nas mãos duras, marcadas pelo tempo, amaciadas pela água do rio, protegidas pela lavagem, prontas para se darem umas às outras na defesa de seus ideais, sonhos, propósitos, alegrias e sorte. Um trançado de mãos, cantos e fé no trabalho feito de cantoria.
Atrás delas me vem outra lembrança de mesmo reino, a das índias nas aldeias milenares de nosso país tirando farinha da mandioca, cuidando das malocas e dos filhos de todas, olhando por todas quando os homens estão fora na caça, na extração de raízes, frutos e frutas e na pesca. Ainda cantam e dançam juntas nas cerimônias batendo os pés para conclamarem a terra a reverberar seus cantos e preces aos deuses da selva. Um colar de pureza e resistência enraizado entre elas e os espíritos da selva e os encantados dos antepassados que nunca se vão.
As cortadoras de cana que acordam as manhãs estrada afora com suas foices e balaios dependurados no corpo seguem por cantigas de ontem e de sempre dando tempo ao tempo para que ele as cuide sem vê-lo passar. Suas mãos calosas e suadas cuidam dos cortes de canas retirados para irem bem cuidados aos balaios. Encantam o calor do sol com seus cantos a ponto de o deixar menos quente, duro, cortante. Um emaranhado de folhas de cana que ligam uma à outra numa fileira verde de tenacidade, urdidura e coroação de trabalho.
As mulheres simples ceramistas do Vale do Jequitinhonha também, muitas delas, levam suas mãos em cantos na moldagem do barro, dele retirando e revelando rostos, perfis, personagens, visões e sonhos em belos trabalhos da cor das cores ou do barro. Quando não cantam por fora, cantam por dentro na pauta do silêncio revelador de uma cantoria divina que vem lá de onde as fadas se congregam. Tiram das minas de seus mistérios o barro encantado das terras das Minas Gerais, cujas minas são gerais demais.
Os cantos das lavadeiras, das índias, das cortadoras de cana e das ceramistas ecoam por todos os dias, ventos, águas e grotões em chamamento das mulheres para o movimento comum de criação do espírito de luta, esperança e glória de uma paz duradoura entre todos. Um movimento que chegue às vilas, cidades, becos, ruas e casas, dentro e fora da quarentena na atração de mulheres e homens de todas as idades para cantarem juntos a canção da libertação dos desmandos e delírios de autoridades de mãos sujas, mentes torpes e pés imundos.
Outras mulheres ou grupos de mulheres não ficam aquém na maneira de condução de sua labuta diária como as catadoras de lixo, as enfermeiras, as faxineiras, as feirantes, as cuidadoras de idosos ou enfermos, ambulantes, domésticas, entre outras. Por que as mulheres somente? Porque a maioria delas não só ajudam na renda familiar, como também são as donas da casa sendo ou não mães solteiras ou quando os maridos se foram. São elas de fato e de direito o sustento e a formação do quadro geral da família brasileira. Elas cuidam dos filhos, da casa, da renda e do carinho e amor familiar.
Na lida do trabalho e da vida é preciso cantar se faz escuro, como cantou belamente Thiago de Mello (Estatuto do Homem, na foto, abaixo), ou se faz sismo, quando há que se recuperar canções, poesias de toda arte, artes de toda poesia para que desviemos de sinais sem direção, sem rota, sem futuro. O futuro há que ser reinventado e recuperado pela criatividade de todo tipo de arte. A criação de um tempo e espaço fora do dia a dia onde todos se encontrem para se libertarem da vida criada que anda de costas em benefício de poucos e em detrimento de muitos.

Lavadeiras, índias, cortadoras de cana, ceramistas e tantas mais cantam não só para saírem da monótona entonação das tarefas diárias, dos trabalhos e serviços, mas também e principalmente para criarem uma nuvem melódica ao redor delas a fim de se juntarem todas em conjunto harmônico e se deixarem estar nesse mundo espontâneo em criação, mas duradouro em convivência. Tratar o trabalho e os serviços com canções adocicadas, com versos simples e encantados, com entonações singulares e plurais. Nessa nuvem vai a mensagem florida de união, cooperação, fraternidade, beleza e celebração.
É da forma, da cor e do som que o universo primordial surgiu do Big Bang como querem muitos cientistas ou do nada como admite Steve Hawking e querem outros, ou do mistério ainda não conhecido ou revelado onde me situo junto a outros tantos. Daí que somente a arte em suas mais variadas expressões é capaz de criar e inventar o modo de viver de cada um, de todos e da civilização de maneira rica e perene. Axé Michelangelo, Rachmaninoff, Monet, Niemeyer, Machado de Assis, Portinari, Pessoa e a miríade esplendorosa de artistas deuses ou deuses artistas que elevaram a arte humana aos píncaros da beleza imorredoura.
O valor da arte vem da criação que nasce da potência de cada um em sua expressão mais subjetiva e rica: sua moldagem de ser e em ser na vida. Essa subjetividade aceita e reconhecida em si de cada um é a maior fortaleza que pode ter um ser humano com a qual tem toda a carga de sobrevivência, vivência e luta na busca de sua própria revelação e a do mundo em harmonia com os demais.
E o lugar e a oportunidade da arte são importantes em toda etapa da civilização e mais ainda se tornam imprescindíveis em momentos de autoritarismo e despotismo. O que mais atormenta e enfurece governos nesses momentos é a arte exatamente porque ela é libertadora de todas as amarras ideológicas e mandatórias. Tanto que regimes como esses são contra as várias manifestações da arte como livros, esculturas, pinturas, teatros, cinemas, canções, entre outros, e seus criadores ou intérpretes.
Nesse embate anti-civilizatório cabe a arte se expressar mais e mais para romper as cercas autoritárias e afirmar a voz do povo incorporada nas várias manifestações artísticas. Ainda mais porque o povo necessita da arte para viver melhor e encontrar seu tempo e espaço de paz e tranquilidade nem que seja cantando canções, lendo livros, apreciando obras de arte e assistindo peças teatrais ou películas.
Faz escuro, mas eu canto como Thiago de Mello, faz sismo, mas eu canto em todos os cantos como Chico, Caetano, Gil, Tereza Cristina, e tantos tesouros como as lavadeiras, as índias, as cortadoras de cana, as ceramistas, outras tantas mulheres guerreiras e a sabiá que sabe a, e, i, o e u!
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(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor e economista.
Criado em 2020-08-31 18:17:38
Roberto Amaral (*) -
O noticiário dos grandes e pequenos meios é dominado pela discussão em torno do perfil do candidato a vice na futura chapa do ex-presidente Lula, e, em meio a mil e uma conjecturas, o nome que vem à baila é o do ex-governador Geraldo Alckmin. A maioria dos “especialistas” aposta na aproximação dos antigos adversários, e políticos com currículo em ambos os lados do alambrado reclamam sua necessidade, seja para garantir a eleição do petista, seja para assegurar a futura governabilidade.
Os mais vividos lembram a impetuosos petistas que não se deve contar com o ovo ainda no fundo da galinha; outros, gatos escaldados, recordam a frustração do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, impedida de governar, quando lhe faltaram apoio popular e maioria no Congresso. Mas há, igualmente, os que se perguntam qual campanha política e qual programa de governo pode harmonizar a socialdemocracia petista e a direita neoliberal. A última experiência deixou muito a desejar.
O nome do ex-governador paulista é apresentado em rodas conspícuas do PT como a alternativa que falaria à alma do presidente, que, certamente, estará considerando a distância ética que separa o ex-tucano do vice imposto a Dilma Rousseff em 2014. Mas outras hipóteses são aventadas (como o atual presidente do Senado) e outras costuradas à luz das velas, enquanto os habitantes da planície nos distraímos com o to be or not to be de Alckmin.
Tomando a aparência pela realidade, a imprensa, e com ela o chamado “mundo político”, termina por evitar o debate sobre o essencial: o caráter político-programático que devem assumir as candidaturas, a começar pela do ex-presidente, em face de seus compromissos históricos com as esquerdas brasileiras, e com o país que promete reconstruir naquele que pode ser o último e maior projeto de sua vida. Como desdobramento da proposta programática faz-se necessário considerar os meios de sua realização, que passam, inevitavelmente, pelo Congresso Nacional, onde as forças progressistas são esmagadas por uma maioria corrupta e reacionária. Discutir a construção de novas bancadas passa a ser, portanto, uma questão também estratégica.
Bloquear este debate é um lastimável desserviço à democracia.
São graves os riscos, para a democracia e para o futuro governo (tratando-se do projeto de um governo de centro-esquerda), se a campanha eleitoral, discutindo uns poucos nomes, ainda que ilustres, tiver como sua marca a ausência programática.
Ficará no toma-lá-da-cá que, se é da essência da “pequena política”, consagrada pelo Centrão, deve ser rejeitado pela esquerda. Não nos basta a satisfação de impedir a continuidade do processo de desconstituição econômica, política e ética do país.
Ainda que esta seja a grande tarefa, a eleição de Lula não é um fim em si mesma. É preciso dizer o que faremos, que Brasil queremos, que Brasil pretendemos legar ao fim do mandato. Essa discussão é fundamental como tática e estratégia, porque tanto assegura a eleição quanto indica as bases de sustentação do governo; é fundamental para o compromisso de todos os que aderirem à frente partidária (de factibilidade ainda discutível) e contribuirá para a elevação da cultura política das massas, uma preocupação que não pode ser descartada pelos socialistas e pelas esquerdas no seu amplo leque ideológico.
Não se trata, portanto, de um compromisso simplesmente moral, embora o procedimento ético deva ser um fundamento de nossa política. Se devemos satisfação à sociedade à qual vamos pedir o voto de confiança, precisaremos de seu apoio quando as forças do atraso se levantarem - e se levantarão, ninguém duvide - contra nosso projeto. A direita civil e militar, a burguesia reacionária, os milicianos não ensarilharão as armas. Os tempos vividos de 2016 até aqui estão ainda muito próximos para que suas lições possam ser esquecidas.
Igualmente, não podemos ignorar que no 7 de setembro último estivemos à beira da consolidação do golpe de Estado militar que o capitão desde lá atrás maquinava com o apoio de seu bando.
Como não podemos deixar de pôr as barbas de molho quando o sedicioso general chefe do Gabinete de Segurança Institucional da presidência da república declara precisar tomar Lexotan na veia “para não levar Jair Bolsonaro a tomar atitude mais drástica contra esse STF que está aí”? Que medida seria essa? A ameaça insólita foi ditada no Curso de Aperfeiçoamento e Inteligência para agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), e por essa grei de arapongas vazada. De outra parte, o presidente do TSE precisa vir a público para explicar a nomeação do ex-ministro da defesa, general Fernando Azevedo, para o cargo de Diretor-Geral do Tribunal, exatamente quando nos preparamos para uma das mais tensas eleições na história republicana, e nas quais o ex-chefe do general, despojado de escrúpulos, é diretamente interessado.
As esquerdas de um modo geral, e os comunistas de um modo mais específico, herdaram do velho PCB a crença, ou fé (pois sem apoio na realidade), no legalismo da caserna. Em 1947, no governo Dutra, viram os acordos de cúpula rasgados, quando o registro do partido e o mandato de seus parlamentares foram cassados. Em pleno 17 de março de 1964 (Conferência de Prestes na ABI), ainda apostavam na impossibilidade de golpe militar. Daqui em diante a persistência na ingenuidade chamar-se-á burrice.
Diante da história, o petismo deveria considerar que as disputas pelo poder, e é disto que se trata, são resolvidas por uma equação que se chama correlação de forças. E a força de que dispomos, ou mais precisamente, de que podemos dispor, é a da mobilização popular. Foi o povo nas ruas, sensibilizado e organizado, que derrotou o golpe de 1961. Por outro lado, foi nossa fragilidade (nela a crise de nossos partidos e do movimento sindical) que permitiu o golpe de 2016 e seus desdobramentos, como a prisão de Lula, que, sabemos, nada obstante sua violência e sua arbitrariedade, não provocou a temida reação das massas.
O ex-presidente Lula representa, na política e no processo eleitoral, a antinomia do bolsonarismo, e, por isso mesmo, galvaniza a vontade majoritária da sociedade, desejosa de ver-se livre do engodo representado pela aliança do capitão com os engalanados que o cevam e se cevam em sinecuras e doces vilegiaturas, como a que regala o inepto general Eduardo Pazuello.
Mas, para bem e para mal, a campanha que se avizinha, como qualquer outra, não se encerra na disputa clássica, simplesmente porque, como ensina a história recente, a política não entra de férias após a proclamação dos resultados pelo TSE.
Ao vitorioso cabe o ônus da governança, e esta traz à ribalta a chamada realpolitik. É quando a porca torce o rabo. O governo precisará, essencialmente, de maioria no Congresso e pelo menos da boa-vontade do Poder Judiciário, além de diálogo com o oligopólio da imprensa e com a poderosa Faria Lima, onde tem assento uma burguesia desapartada dos interesses do país e de seu povo.
Independentemente dos interesses desse mafuá de negocistas que é o Centrão, um governo de direita, ou extrema-direita como o atual, ou de centro direita, contará sempre com o apoio do establishment. Basta anunciar largo programa de privatizações, autoritarismo na política e neoliberalismo na economia, restrições aos direitos dos trabalhadores e, nas relações internacionais, alinhamento serviçal aos interesses do império hegemônico. Outro, porém, é o desafio que se colocará a um eventual governo de centro-esquerda, pois sua sustentação dependerá do apoio político que lhe possa oferecer a sociedade. O desafio será conservar (e se possível aumentar) no governo o apoio popular auferido no processo eleitoral. Em 1954, o golpe contra Vargas só foi exitoso porque o presidente não logrou preservar o apoio das massas que o levara à consagradora vitória eleitoral de 1950. Em 2016, inumeráveis fatores concorreram para a desestabilização da presidente Dilma Rousseff, a começar pela maquinação golpista de seu vice em conluio com o presidente da Câmara dos Deputados, cuja eleição não conseguira evitar. Mas o ingrediente decisivo no golpe de Estado concluído foi a dificuldade de mobilizar as grandes massas na defesa do seu mandato. A questão democrática e a legitimidade de seu mandato não se revelaram suficientes para mobilizar as ruas.
A esta altura, não é necessário lembrar que 2022 não será o repeteco de 2002, tanto quanto seu possível terceiro mandato não será um “vale a pena ver de novo” dos dois anteriores. O Conselheiro Acácio lembra que o mundo mudou nesses vinte anos, e mudou o Brasil, com ele mudaram muitas das nossas concepções, e, principalmente, mudaram as condições históricas.
Mudou também, por óbvio, o ex-presidente, mudou sua visão de mundo e do país que governou. O silêncio de Lula relativamente ao que pretende fazer tem muitas possíveis explicações, desde seu engenho tático, adiando definições para facilitar composições, às próprias dificuldades de seu partido de encontrar consenso em torno de questões centrais, como a política econômica de um modo geral, o que fazer com a privataria levada a cabo pelo consórcio governante, a reforma fiscal, as reformas trabalhista e previdenciária, a necessidade de revisão do federalismo, a reorganização política, a revogação da PEC 95 etc.
Do que pode ser o futuro governo, só podemos vislumbrar, até aqui, a política externa. A presença de Celso Amorim no grupo mais próximo de Lula, e as recentes viagens do candidato à Europa e à Argentina, indicam a retomada daquela política ativa e altiva que, nos orgulhando, tanto bons serviços prestou ao país.
Este ponto é da maior relevância. A eleição de Lula é importantíssima não apenas para nosso país. Ela é aguardada pelas forças progressistas da América do Sul como um fator de unificação, estabilidade e avanço político. Para o mundo, Lula desempenhará papel essencial na liderança da América Latina, disseminando o diálogo enquanto Joe Biden, dando continuidade a Trump, ensaia a reativação de uma guerra fria que não interessa a um mundo às voltas com pandemias, desemprego, fome e devastação ambiental. O Brasil, com Lula, dialogando, como é de seu feitio, com as mais diversas tendências mundiais, poderá ser o condutor de uma nova política de paz. Para o velho continente representamos, liderando a América do Sul, a expectativa de barreira à onda direitista.
Por óbvio, nem o Pentágono nem o Departamento de Estado ignoram esse quadro. Jamais outro governo careceu, como carecerá o eventual governo de centro-esquerda a ser eleito em 2022, do amplo apoio das grandes massas. Esse apoio, porém, não cairá do céu como benção dos deuses. Cobra muito trabalho, que já tarda.
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A retomada da temporada de caça aos oposicionistas – A agressão a Cid e Ciro Gomes atinge pessoalmente o pré-candidato do PDT, mas antes agride os fundamentos republicanos, ameaçados, e está a exigir a pronta e a mais enérgica reação dos partidos e das forças políticas comprometidas com a preservação do processo democrático e a ordem jurídica.
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(*) Roberto Átila Amaral Vieira é jornalista, professor e político brasileiro. Foi ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva.
Criado em 2021-12-19 23:54:31
O deputado distrital Ricardo Vale (PT) anuncia que a nova Lei do Silêncio para o Distrito Federal será votada na próxima terça-feira, 6 de março, 15h. A decisão da Câmara Legislativa agita a cidade.
“Hoje [1/3] me reuni com representantes do setor cultural e de bares e restaurantes no DF para discutir a votação da alteração da Lei do Silêncio na Câmara Legislativa. Já sabemos que como a lei está não dá mais pra ficar, pois ela prejudica a cultura local, a economia da cidade e desemprega trabalhadores”, disse Ricardo Vale.
Para o deputado petista, autor do projeto de lei que altera a lei em vigor, está na hora de “mobilizarmos todos os interessados no assunto para a votação e, assim, começarmos a viver numa cidade harmoniosa e tolerante”.
Se o projeto for aprovado, o atual limite de 65 decibéis, durante o dia, e 55 decibéis à noite, independentemente do endereço, passará para 70 decibéis, durante o dia, e 75dB à noite. Além disso, a norma também prevê mudanças na vistoria e na aplicação das penalidades.
A alteração divide comerciantes, artistas, especialistas e governo. Alguns cobram mais fiscalização e o endurecimento dos limites tolerados. Outros esperam a atualização da legislação para que bares, restaurantes e casas de shows tenham segurança jurídica para funcionar sem a perseguição da Agência de Fiscalização (Agefis) e do Instituto Brasília Ambiental (Ibram).
O problema está na aplicação de multas por poluição sonora. As queixas e as sanções duplicaram nos últimos anos. No ano passado foram mais 300 notificações, causando prejuízos aos comerciantes e diminuição das ofertas de renda para os artistas da noite.
A proposta de Ricardo Vale, apresentada em 2015, encontrou resistência do relator da Comissão de Meio Ambiente na Câmara Legislativa, deputado Cristiano Araújo (PSD), alinhado com prefeitos de quadras do Plano Piloto. Como o tempo de tramitação foi encerrado na Comissão, o assunto terá que ir para o plenário.
A polêmica não será facilmente contornada. Bares como o Balaio Café, que foi fechado em abril de 2015, são mencionados como exemplo da intolerância que a atual lei estimula. Após receber multas pesadas, o Balaio foi obrigado a fechar as portas.
Em 2008 foi instaurada em Brasília a Lei do Silêncio. Como o próprio nome sugere, a intenção do projeto era acabar com os ruídos da cidade. No entanto, com suas rígidas normas, o impacto acabou sendo muito maior.
A Lei em vigor, implantada em 2008, impõe limite restrito de decibéis após 22h a qualquer estabelecimento, incluindo bares, restaurantes, cafés e centros religiosos. As igrejas também estão defendendo a mudança na lei.
Criado em 2018-03-02 01:18:49
Está no ar novo episódio da República Popular das Letras (RPL), com o arqueólogo Francisco Pugliese, que participa da retomada das escavações da Gruta do Gentio II em Unaí, Minas Gerais, a poucos quilômetros do DF.
Ali foram encontradas ossadas humanas, entre elas os restos de uma menina de 3.500 anos, vestígios de fogueiras, espigas de milho e frutos silvestres, tapeçarias, pinturas rupestres, objetos de cerâmica e outros artefatos produzidos pelos grupos que ocuparam a região entre 12 mil e 400 anos antes do presente.


Veja aqui
Criado em 2022-08-30 14:04:56
José Dirceu (*) –
Assistimos, não com perplexidade nem surpresa, as Organizações Globo atuarem, mais uma vez, como partido político ou, como dizíamos no passado, fazerem o papel de estado maior da burguesia. O termo pode parecer exagerado e a atribuição injusta, mas a sua recente atuação na Lava Jato exposta pela Vaza Jato, ainda muito presente na memória do país, revela exatamente o que está começando a engendrar. Em nome da coalizão de 2016 que deu o golpe contra a presidenta Dilma, deu início a uma operação para tentar derrotar Lula em 2022.
Não se trata de derrotar Bolsonaro até porque, depois da tentativa fracassada de 7 de setembro, todo esforço é para preservar as chamadas reformas do Paulo Guedes, um tanto desmoralizado, e buscar de todas as formas enquadrar os partidos de direita e do centro numa suposta política de frente ampla contra Bolsonaro. Entre os exemplos dessa tática, está o fracassado ato convocado pelo MBL e incensado pela mídia corporativa, rapidamente abandonado para dar início, com todo peso midiático, à formação de uma opinião pública a favor de um anti-Lula batizado de terceira via para esconder seu verdadeiro objetivo.
Sem escrúpulo ou pudor nem papas na língua, assistimos a um espetáculo deplorável de três pré-candidatos recolocando a agenda da corrupção e do antipetismo, com pérolas como a de Mandetta que, com uma cara de inocente, revelou que, no início do PT, pregamos a morte de Magalhães Pinto, um dos articuladores do golpe de 64, ministro da ditadura e que na votação das Diretas se ausentou do plenário. Sobre a fusão de seu partido, o DEM, com o PSL apenas balbuciou algumas palavras, já que seu partido participa do governo Bolsonaro, assim como o MDB e junto com o PSDB todos votam a favor da agenda que resultou na atual crise social, econômica e institucional, quando a própria democracia está em risco.
Alessandro Vieira do Cidadania teve a cara de pau de afirmar que as condenações de Lula transitaram pelas quatro instâncias escondendo o óbvio: foram anuladas e o juiz declarado suspeito, parcial. Ciro fez seu papel, meio constrangido de estar ali, de líder da bancada anti-PT e Lula.
Sem propostas – Fora o fato de que Lula tem hoje votos para ir ao segundo turno e até vencer no primeiro, não ouvimos nada sobre como tirar o nosso povo da tragédia humanitária e nacional em que vivemos. Ao contrário, há uma evidente intenção de esconder o lado sombrio da obra do golpe de 2016, o fracasso total dos governos Temer e Bolsonaro no que interessa: o crescimento econômico com distribuição de renda, o combate à miséria e, agora, de novo à fome, o enfrentamento da emergência climática e social, a crise energética e a carestia que sufoca nosso povo.
O mundo caminha para uma revisão do neoliberalismo. Depois dos Estados Unidos, a União Europeia lança um programa de mais de 2 trilhões de euros para uma Europa mais verde, mais digital e mais resiliente, para criar oportunidades de emprego, aproveitando a tragédia da pandemia para iniciar um novo caminho para a transição climática e digital, com um novo programa de saúde, coesão agrícola, proteção à biodiversidade e igualdade de gênero.
Enquanto isso, aqui assistimos o pré-candidato do PSDB, Eduardo Leite que, como o seu concorrente João Doria, detém uma rejeição alta em seu estado, pregar como saída para o Brasil as privatizações e a austeridade, exatamente o que pregou Temer no sua Ponte para o Futuro e Paulo Guedes executou nos levando à atual situação onde nem confiança e segurança jurídica existem mais, muito menos crescimento ou futuro.
No fundo, o poder econômico se alia ao poder midiático para, juntos, impor de cima para baixo, sem pudor e constrangimento repito, aos partidos sócios menores do golpe e do governo Bolsonaro um candidato, quando o natural em uma democracia, como acontece desde 1989, é a disputa democrática no primeiro turno entre as diferentes propostas e saídas para o Brasil, com o eleitor escolhendo o presidente ou levando para o segundo turno dois dos candidatos.
Há sempre a saída do impeachment, mas esta não é e nunca foi a prioridade das elites que hoje querem uma alternativa a Bolsonaro. As recentes declarações de grandes banqueiros e empresários, de economistas escalados pela mídia corporativa como porta-vozes da elite, como foi o caso de Affonso Pastore que afirmou que Lula é mensalão e petrolão, fazendo de conta que não houve a decisão do STF sobre Moro e convenientemente se esquecendo do mensalão tucano e das prisões de três governadores do PSDB e do próprio Temer, evidenciam que optaram pelo caminho do ataque frontal a Lula e pela imposição de um nome único para enfrentá-lo.
Mas a vida e a realidade se impõem, os fatos estão aí. Não há esse nome, nossa direita carece de líderes reais, e lhe falta o essencial: voto. Esse é o real problema da Globo e da elite empresarial. Não têm o que apresentar para o povo. Fracassaram rotundamente e jogaram o país na sua pior crise social e econômica, ao romper o pacto democrático de 1988 e levar Bolsonaro ao poder. Agora pagam o preço do descrédito popular e rejeição de seus candidatos.
Propõem ao país o mesmo do que estamos vivendo: a continuidade do desmonte do Estado Nacional e das conquistas sociais da Constituição de 1988, um bolsonarismo sem ele e agora sem Guedes pelo visto. Abandonaram rapidamente a prioridade que é o impedimento de Bolsonaro e a defesa da democracia para retomar a odiosa guerra contra Lula e o PT, mesmo ao preço do uso e abuso de uma concessão pública de TV, fazendo abertamente política partidária e atuando como ator no processo eleitoral, um ensaio do que pretendem na campanha de 22.
Nós continuamos onde sempre estivemos, na luta pelo impeachment – dia 2 de outubro, nas ruas em todo o Brasil no grande ato “Fora Bolsonaro”- e na disputa democrática dos governos estaduais como fazemos desde 1982 e da presidência, desde 1989, sem nunca nos afastar do respeito à soberania popular via eleições livres, sem o uso e abuso do poder econômico, dos meios de comunicação, da coerção via Estado, exigências básicas para eleições democráticas.
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(*) José Dirceu de Oliveira e Silva, 74 anos, é advogado. Foi deputado estadual e federal pelo PT e ministro da Casa Civil no governo Lula. Este artigo foi publicado originalmente no site Poder 360.
Criado em 2021-09-30 23:04:45
Criado em 2019-05-06 16:33:50
Alexandre Ribondi -
A apresentadora de televisão e atriz norte-americana Oprah Winfrey, já apontada como “uma das maiores pensadoras do capitalismo neoliberal da atualidade” estava de preto quando recebeu o seu prêmio na 75a. festa do Golden Globe, em 7 de janeiro de 2018.
O preto da sua roupa representava a luta contra o assédio masculino e ela aproveitou a oportunidade para falar do surgimento de uma nova era. Muita gente se emocionou e muita gente chegou às lágrimas. Por trás das suas palavras estava também a revista Time que, no final do ano passado, elegeu como “personalidade do ano” todos os rompedores de silêncio sobre a misoginia.

Dois dias depois, o jornal francês Le Monde publicou um manifesto com 100 assinaturas (entre elas, a da atriz Catherine Deneuve) que acusa o feminismo de puritano e incitador de ódio contra os homens. Assinaram também o manifesto (cuja publicação, segundo alguns, já põe em risco a própria imagem do Le Monde) a escritora Abnousse Shalmani, que compara o feminismo ao stalinismo; a filósofa Peggy Sastre, autora do ensaio La domination masculine n’existe pas (A Dominação Masculina Não Existe) e que pretende “eliminar o feminismo”; Sophie de Menthon, empresária, que já disse que “um assovio na rua até que é simpático” e Elisabeth Lévy, jornalista, que denuncia o “assédio das mulheres contra os homens”.
E, agora, o que farão as/os feministas do Brasil, que têm como bíblia o pensamento capitalista neoliberal vindo dos Estados Unidos? - este que, com algumas fórmulas simplistas, prega que, em lugar de revolucionar a sociedade e suas injustiças, o indivíduo deve se adaptar às violências capitalistas e, apesar de tudo, vencer. A própria Oprah Winfrey é um exemplo disso: nascida negra e paupérrima, ela hoje é bilionária, sem ter contribuído para mudar o mundo. Ela ganhou na loteria da vida e, hoje, é um exemplo artificial de que o sonho americano é possível, apesar de estar rodeada de milhares de negros miseráveis. Mas se você sonhar e se tornar uma boa pessoa, você chega lá - só que nunca chega.
Mas para os signatários do manifesto publicado no Le Monde o buraco parece ser mais embaixo. Enquanto os Estados Unidos são uma nação fundada por protestantes conservadores e puritanos (eis aí a palavra), a Europa (e, sobretudo, a França) sempre foi uma encruzilhada e uma esponja de povos e culturas, o que lhe dá uma visão mais cosmopolita e mais madura do mundo.
Desse ponto de vista, é possível compreender o que o manifesto francês quer dizer ao afirmar que estamos provavelmente vivendo um retorno da “moral vitoriana”, que se manifesta através da “febre de denúncias contra os homens”. Isso, segundo as cem mulheres que assinam o manifesto, “não beneficia as mulheres, mas está a serviço dos interesses dos inimigos da liberdade, como os extremistas religiosos”. Na França, eles possivelmente pensaram nos extremistas do Islã, mas no Brasil é bom que se pense nos novos evangélicos e no reacionarismo que existe na Igreja Católica.
As francesas defendem a “liberdade de importunar”. Com isso, querem dizer que não há necessariamente mal em tocar um joelho, tentar dar um beijo, falar coisas íntimas num jantar de negócios ou enviar mensagens com conotações sexuais a uma mulher que não sente atração recíproca.
Na verdade, todos os homens, ao longo de suas vidas, já agiram dessa forma. Mas é em nome dessa retomada da moral e do desconforto com o sexo que pessoas como o ator Kevin Spacey perdeu o seu emprego e que uma mostra da obra do cineasta Roman Polanski em Paris correu o risco de ser proibida.
Mas antes de condená-los por terem cometido ilegalidades e antes de barrar suas criações, as/os feministas (como, de resto, todos nós) devem compreender que as obras costumam ser maiores e mais sublimes que os seus criadores.
Criado em 2018-01-10 17:47:38
Marcos Bagno -
Busco palavras que digam
com precisão e detalhe
sem uma letra que falhe
os vícios que em ti se abrigam
– tudo aquilo que és de fato:
traidor, abutre, rato!
Um nome que te descreva
no que tens de baixo, vil,
de covarde, de servil,
de abominação primeva
– como quem de ossos se nutre:
rato, traidor, abutre!
Meu raso vocabulário
encontrá-lo não consegue
sem que minha língua cegue
frente ao teu estercorário
– repito o que sei de cor:
rato, abutre, traidor!
Nem disseste adeus à vida
pra teu nome entrar na História
em meio à mais baixa escória
por haver e já havida
– é ali teu posto exato,
traidor, abutre, rato!
Na laia imunda de Judas,
de Catilina e Sertório,
de Calabar e Silvério,
eis o miasma que exsudas
– teu nome é desse teor:
rato, abutre, traidor!
És escorpião impávido
diante da tua presa,
é da tua natureza
ser predador sempre ávido
– ages por ser verdadeiro
verme, ladrão, carniceiro!
Não suportas a justiça,
abominas a verdade,
se te falam d’igualdade
teu pelo d’hiena s’eriça
– o pus te reveste a derme,
carniceiro, ladrão, verme!
O poder que não conquistas
roubas a quem de direito;
teu apelido é despeito,
teu sobrenome é golpista
– só vences na corrupção,
abutre, verme, ladrão!
Riscas do mapa a cultura,
a saúde, a moradia;
se pudesses já vendias
o mar, o céu e a natura
– homem não és nem no cheiro,
rato, abutre, carniceiro!
Alcagüete, cafetão,
conspirador, embusteiro,
sabujo, pulha, negreiro,
entreguista, vendilhão
– combates um povo inerme,
carniceiro, abutre, verme!
Reúnes tua mundiça,
corja de maus perdedores,
legião de estupradores,
cultores de ódio e sevícia
– vêm todos lamber teu chão,
abutre, verme, ladrão!
Mas ouve bem, interino,
de nós, que não te tememos
(nem aos juízes supremos
de um tribunal viperino):
– ontem, hoje, eternamente
nunca serás presidente!
____
Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UnB.
Criado em 2016-07-22 01:18:46
Sandra Crespo -
No badaladíssimo vídeo (disponível no Youtube), Eike Batista, o Probo, confessa um crime: pagou, segundo ele a pedido do ministro Guido Mantega, R$ 5 milhões ao publicitário João Santana, por uma dívida do PT.
Em troca, fez um contrato com Santana por lobby para suas empresas (grupo X) na Venezuela. O Probo é tratado como um gentleman o tempo todo pelos golden boys de Curitiba.
Sobre o encontro com Mantega: admitiu que foi ele próprio, Eike, que pediu a audiência. Outros encontros ocorreram no mesmo dia com "vários outros ministros".
Os procuradores não fizeram questão de entender esse "detalhe". O cara pede audiência e, em vez de achacar, é achacado. Foge à minha lógica. Não à dos procuradores.
Na audiência com Mantega: só os dois na sala, sem testemunhas, o ministro fala en passant sobre uma dívida do PT de R$ 5 milhões com Santana, e pede que ele pague. [Mantega nega que tenha ocorrido esse diálogo].
O Probo relata que, uns dias depois, Mônica Moura, mulher e sócia de João Santana, procura o advogado dele, Eike. Depois, as negociações e o contrato sobre os interesses de Eike na Venezuela se dão entre as duas empresas.
Resumo: A empresa de Eike contrata a empresa de Santana para fazer um serviço comercial na Venezuela. Paga por isso R$ 5 milhões. Então, qual a serventia da suposta intermediação de Mantega? Seria fantasma o contrato com Santana - mesmo ele, o Probo, tendo admitido que o serviço foi prestado?
A acusação a Mantega dura alguns segundos. Relato sucinto, sem detalhes. Questionado por um procurador, Eike responde que Mantega não fez nenhuma ameaça, só falou uma vez nesse assunto. E acrescentou que foi Mônica Moura a procurar sua empresa (e Eike enfatiza que nunca falou diretamente com Mônica, nem a conhece).
Aí ele conta que, democraticamente, dava dinheiro para campanhas eleitorais, com ênfase para os partidos que tinham governadores - PSDB, DEM, PMDB. Mostra a lista dos políticos beneficiados aos procuradores, que a devolvem gentilmente. Gaiato, Eike ainda elogia a educação do senador Cristovam, o único que, segundo ele, agradeceu pelo dinheiro limpinho e cheiroso.
Pois é, todas as doações foram democráticas, republicanas, patrióticas e legais, menos a que teria beneficiado o PT.
No mais, um empresário quebrado e enroladíssimo - que, no auge da glória, exibia como trunfo uma mulher cheia de curvas e de coleira com seu nome no pescoço, ao tempo que prometia nas colunas sociais alcançar loguinho o posto de Homem Mais Rico do Mundo - dá aula de gestão e lições morais, criticando as políticas dos governos do PT.
Lembrando de parabenizar a Lava Jato por passar a limpo o Brasil, o Probo enfim desabafa: Dilma golpeou-o, pois não conseguiu conviver com seu excesso de patriotismo!
(De quebra, e sem querer, o depoente espontâneo mostra aos procuradores como era correta a atuação do BNDES, que DEM e PSDB pelejam em criminalizar - já fizeram até CPI em conluio com Cunha - e nada conseguiram).
The last spoiler: lá pelas tantas, Eike Batista entrega que era persona non grata na Petrobras. "Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados", martela na minha cabeça o Barão de Itararé.
O Probo mata dois coelhos numa só "caixa d'água": vingancinha básica e habeas corpus preventivo.
A Lava Jato se lambuza.
Criado em 2016-09-24 00:52:05
Zuleica Porto -
Estado de encantamento. Aqui é uma surpresa alegre abrir a janela todas as manhãs. Tenho até medo diante de tanta beleza: o mar, o mato, os bichos, o céu, o sol, o mar...
E as pessoas que vivem aqui, uma gente morena, baixinha e muito bonita.
De que nação será que descendem? Potiguares, fico imaginando, pois viviam aqui nesse litoral quando chegaram os invasores. Mas dessas coisas de origem e etnia nem se dão conta, apenas vão vivendo a vida de cada dia, querem saber mesmo é se o mar traz o peixe e se as nuvens trazem a chuva, tão rara e necessária, se a lavoura de milho e feijão é boa.
Talvez devido ao vento constante, homem, mulher ou criança, todo mundo fala alto e agudo. E também ri muito, inclusive e principalmente de si.
Pescadores que, durante a semana, seguem mar adentro nas jangadas tão frágeis, aos domingos, quando a maré é vazante, comparecem à praia com suas jangadinhas de corrida, pequeninas e de velas bem grandes e coloridas, dando altas risadas durante as competições. Assim transformam em brincadeira o que durante a semana é trabalho.
Nunca vi uma volta do trabalho tão bonita quanto a chegada das jangadas no começo da manhã: chegam praticamente todas juntas, seis, sete, como se tivessem combinado, graças aos ventos e marés.
A volta para casa é a volta para a terra firme, depois de uma noite em alto mar, que imagino belíssima, mas perigosa e fria. E imagino que, feito Ulisses, esses homens se amarrem às jangadas para não cair com o movimento das ondas e o canto do vento, a sereia dessas praias.
O trabalho é perigoso e incerto, a jangada pode voltar cheia de pescado ou não, e, como na canção de Caymmi, pode “voltar só”.
Será a consciência da fragilidade da vida que torna essa gente portadora de uma gentileza tão assombrosa quanto a intensidade do vento?
Quando alguém morre, toda a população acompanha o cortejo, a pé, de moto, bicicleta, carro ou carroça, até o cemitério da aldeia vizinha. É dia de luto partilhado, assim como a alegria domingueira.
Gentileza sem pose de “olha como sou gentil”, ela se mostra nos pequenos gestos, atitudes e palavras cotidianas. “Cuidado quando descer, venha por aqui que é melhor”. Se falta dinheiro para completar a compra, “tem nada não, depois a senhora traz o resto. Quando puder, tem pressa não”.
Um dia, caminhando pela praia, esqueci as havaianas numa jangada. Nem tinha me dado conta do esquecimento quando me aparece um rapaz, que me seguira correndo por uns dois quilômetros para me entregar as sandálias. Fiquei pasma.
Dão o que têm de melhor. Um peixe, um doce, uma cachaça. Dão histórias também, e graças a sua generosidade em partilhar suas histórias foi que escrevi uma tese sobre a literatura oral cearense.
Alguns desses narradores, já velhinhos na ocasião, partiram para outras praias. Outros continuam por aqui, ouvindo e contando histórias de vento, de pescadores, de bichos encantados, de “Jesus mais São Pedro velhinhos andando pelo mundo”, de jangadas que voam sozinhas contra o vento...
É o caso do Sr. Lauro, que me deu de presente o belíssimo e caudaloso “Romance de Guzmán e Cadadal”, transmitido oralmente através de muitas gerações e agora registrado em papel, com sua devida autoria, para a memória de nossa literatura mais antiga. Encontro Sr. Lauro ainda em pleno vigor, lucidez e entusiasmo pela vida.
De noite o vento tem nome. É o Aracati, que chega até o sertão e empresta seu nome à cidade vizinha, que no passado foi São José do Porto dos Barcos, importante entreposto comercial e grande produtora de carne seca, graças à fartura de vento e de sal.
Na foz do Jaguaribe, a cidade até hoje mantém a tradição de terra de comerciantes, tão bons na arte de vender que a gente compra até sem querer.
Tão próximas uma da outra, a aldeia e a cidade são diferentes no tipo físico – enquanto a primeira é morena, nos casarões aracatienses revestidos de azulejos portugueses mora uma gente branca, às vezes muito branca, de lábios vermelhos e cabelos pretos.
Parecem os habitantes do Norte de Portugal e Noroeste da Espanha, e talvez dali tenham vindo seus antepassados, provavelmente pequenos agricultores, comerciantes ou marinheiros. Diferenças à parte, a gentileza permanece, talvez seja contagiosa, levada pelo vento.
Já nas praias do município de Icapuí, quase Rio Grande do Norte, o povo é louro de olhos verdes. Reza a lenda local que seriam descendentes dos holandeses que viveram por aqui antes de serem expulsos pelos portugueses.
Não sei, pode ser. Ou de franceses, que também andaram comerciando com os nativos?
Tudo são suposições, porque este pedaço de Brasil foi por muito tempo esquecido pela Corte portuguesa, ocupada com as explorações do ouro das Minas e com os negócios de açúcar de Pernambuco e Bahia.
Afinal, aqui nada havia para atiçar a cobiça do colonizador; Capistrano de Abreu data de 1610 as primeiras tentativas de ocupação. Os brasileiros daqui seguiram esquecidos pelos séculos seguintes, vivendo do mar, da pequena lavoura em terra de água pouca, recorrendo ao poder curativo das plantas quando adoecem, ou mesmo às palavras poderosas das rezadeiras que ainda existem por aqui.
Pois os médicos sempre estiveram distantes e inacessíveis, salvo nos momentos graves quando o doente era levado “nas carreiras” para o hospital, às vezes só para ali deixar o último suspiro.
Durante os últimos anos, uma mudança começou. A Escola, antes com instalações precárias e professoras que mal recebiam salário e compareciam ao trabalho dia sim, outro não, sem merenda para as crianças, agora está bonitinha, com parque infantil, sala de informática e outra para as crianças que necessitam de cuidados especiais.
Além da merenda, ganham uniforme e material escolar.Tudo isso me mostrou com orgulho o Coordenador pedagógico. Também apareceram os famosos ônibus amarelos para quem estuda na cidade. De tarde, o projeto Mais Educação oferecia aulas de música, pintura, teatro.
E o lugar agora tem Posto de Saúde, com médico toda semana.
O que permanecerá de tudo isso? A depender dos homens brancos e velhos e tristes que atualmente governam o Brasil, talvez pouco, talvez nada.
Mas essa gente morena, acostumada a contar só consigo mesma, com os santos de sua intimidade e com o que lhe dá o mar e a terra, seguirá por aqui, com suas risadas gostosas, sua generosidade, sua gentileza e a sabedoria que a vida ensina.
Afinal, são mestres na arte de sobreviver nas mais duras condições, a resistência já está gravada no DNA desde o tempo das invasões e dos primeiros extermínios. Porque cabem muitos brasis neste Brasil desgovernado.
Este é apenas um deles. Mas estar aqui alimenta a alma de beleza e gratidão por ele existir ainda.
Criado em 2016-10-25 18:35:38
Maria Lúcia Verdi –
Um avião em que se bebe champanhe, Caravelle
(Pier Paolo Pasolini, tradução Maurício Santana Dias)
Um avião em que se bebe champanhe, Caravelle
cujo comandante anuncia voar
a uma média “efetiva” de oitocentos quilômetros por hora.
Estou praticamente imóvel, bebendo champagne
(servido com mais abundância em minha taça
por prestígio literário): e sei que não tenho
"efetivamente” nenhum livro em mente, nenhuma obra.
Sou desigual ao que “praticamente” sou,
se fui feito para permanecer aos pés do mundo,
e não aqui, entre os ricos, num Caravelle
que mistura Corfu à Terra dei Mazzoni
(lá embaixo, salpicada de nuvens),
a Roma, com o Tibre como um dos mil Jordões.
Devo voltar a ser pobre? Desconhecido? Menino?
Não sei, “efetivamente”, ser pai, patrão.
É ridícula minha influência, minha fama.
Pai, o que está acontecendo comigo?
Pasolini e a militância artística. Pasolini e a paixão pelo presente. Pasolini e as utopias, o fim do capitalismo sangue-suga. Pasolini e a consciência crítica. Pasolini num tempo passado, duplamente distante graças a um vírus.
Voltava a Roma após quase vinte anos, tendo lá vivido por memoráveis cinco anos e meio, presente e passado entrelaçavam-se. Queria conhecer algo novo, o museu das artes de um futuro que se imaginava para o presente século - o Museu das Artes do Século XXI, MAXXI, projeto da iraquiana Zahra Hadid, primeira mulher a ganhar o Prêmio Pritzker de arquitetura, o Nobel da área.
Depois de ter só caminhado nos primeiros dias de reencontro, para chegar ao afastado bairro onde se construiu o museu queria percorrer as ruas de Roma de ônibus, rever ao máximo e lentamente os espaços, as construções, as gentes. Roma, que durante o confinamento, vazia, revelou com dor sua eterna beleza. Dois anos antes do doloroso deserto imposto pela pandemia, por uma hora, revi Roma em seu movimento habitual, a alegre cantata das ruas que atualiza(va) as construções legendárias. O filme à minha frente, era só gravar com os olhos.
Ando em ti, Roma de altos ciprestes e largas águas,
como atrás de mim mesma
...
Ando em ti, Roma dos altos sonhos e das largas ruínas,
como atrás de mim mesma,
atrás de um outro destino.
Ando, ando, ando
e sinto a extensão de meus antigos muros
...
escuto a longa turba mitológica
(Cecília Meireles, Caminhante)

Estava curiosa por ver, pela primeira vez, um projeto de Hadid, iraquiana sediada em Londres, influenciada por suas raízes árabes e pela Bauhaus. Sim, os volumes, a surpresa da fluidez do jogo entre eles me impressionou, mas fiquei mais tocada por uma das mostras em exibição, a do artista italiano Diego Marcon (1985) - a brevíssima videoinstalação “Ludwig”, feita por computação gráfica.
Andar devagar pelo corredor todo negro que levava à instalação, escutar num crescendo a ária cantada pela voz angelical de um menino, evocando os castrati de outros tempos e chegar à sala dominada pelo imenso telão imerso no escuro. Luzes rápidas de raios cortando a escuridão e outros sons que não o da voz, me adentravam na tempestade. Mas resplandecia a figura de um belo e irreal menino.
Dio come sono stanco\mi sento proprio giù\ Vorrei tirar le cuoia \ e non pensarci più\ e pur... Deus como estou cansado\ estou mesmo na pior \ gostaria de chutar o balde \ e não pensar mais nisso... no entanto (tradução livre aproximada).
No entanto. Assim acabava a letra da música cantada pelo pequeno Ludwig. Queria acabar com tudo, no entanto. Com uma pequena vela na mão, o menino tentava impedir que a chama se apagasse com o balanço de um navio, em meio à tempestade. Só, na escuridão do porão, ele protegia a velinha e sua chama. O medo, uma situação incontrolável e a companhia do Deus que ele evocava cantando.
Era para ter sido melhor que os outros o nosso século XX.
Agora já não tem mais jeito
Os anos estão contados,
Os passos vacilantes,
A respiração curta.
Muita coisa já aconteceu,
Que não devia acontecer,
E o que devia ter sido
Não foi
(Wislawa Szymborska, Declínio do século)
Antonio Vieira escreveu, no século XVII, História do Futuro e por todo lado, até entre nós, há os que tentam pensar essa questão, esse paradoxo. Desde alguns meses a pergunta Onde estamos é o cantochão que nos acompanha, o conceito de futuro parecendo não fazer mais sentido. O non-sense do presente, sobretudo se olhado desde nosso inimaginável Aleph (o conto de Borges, sempre ele) nacional, justifica repetir Dio come sono stanca; Pai, o que está acontecendo conosco?
Roma
as águas os monumentos
construções que se esforçam
por evocar por simular
o esplendor da vida
o movimento das águas
o som
o rumor
da vida
em boca de leões
peixes
ninfas
deuses
centauros
todos eles mudos
surdos
aflitivos
no esforço da comemoração
da vida
(MLV)
Mas esta é uma matéria mais intuída que pensada, valerá se a ária, que pode ser vista e escutada neste link – clique aqui – afagar corações doloridos. E se os que não conhecem a obra da notável autora do MAXXI forem atrás. E se alguns forem reler\rever Pasolini e sua resistência e denúncia. Que essa tragédia chegue a um nível bem menos trágico o quanto antes e que possamos testemunhar este momento.


Para mim, o mais importante na tragédia é o sexto ato:
o ressuscitar dos mortos nos campos de batalha,
o ajeitar das perucas e dos trajes,
a faca arrancada do peito,
a corda tirada do pescoço,
o perfilar-se entre os vivos
todos voltados para o público
(W. Szymborska, Impressões do Teatro)
Criado em 2020-05-20 23:41:39
Angélica Torres –
Há três anos, neste mesmo dia 19, a notícia do bárbaro assassinato de Luiz Fernando Cosac, o popular e querido Nando, atingia como uma flecha o peito de seus muitos familiares e dos inumeráveis amigos, feitos no país ao longo de 72 anos de energia e entusiasmo excepcionais. Era impensável, inacreditável, saber que aquela figura pra lá de criativa, simpática, prestativa, generosa, alegre, extravagante, irreverente, debochada, engraçada, aquele amante inveterado da vida, pudesse ter deixado de existir e de forma tão bestial.
Arquiteto e paisagista, curador e montador de mostras de artes visuais, diretor de teatro e iluminador de espetáculos, decorador e fotógrafo, apaixonado por arte popular e contemporânea, colecionador de preciosidades e de cacarias que apanhava na rua para as suas criações, ao estilo de um Farnese de Andrade, conhecedor e contador de histórias de seus antepassados árabes e espanhóis, dono de assombrosa memória, que poderia ter escrito e publicado suas muitas reminiscências, Nando Cosac era simplesmente alguém “imorrível” no imaginário de quem o conhecia.
Parecia que iria viver 100 anos e tinha tudo pra isso: vitalidade, desejo e disposição para ser longevo, além de ter se tornado o único herdeiro dos bens de família, poucos meses antes da morte. Planejava ir morar no Rio, após o falecimento de sua mãe, Amélia Edreira. Mas antes cogitava passar um tempo na Holanda, onde há mais de 30 anos vive seu único filho.
Da falta e do crime - Paulo Cosac, em meio ao barulho do bar BR-020, do qual é dono e administrador em Amsterdã, falou pelo celular sobre o pai, com quem conviveu por pouco tempo; falou também o que pôde dizer sobre o crime, ainda às escuras. “O que eu queria na verdade era só ter tido mais tempo pra aprender com ele. Meu pai sabia muito. E muita coisa que hoje eu aprecio e que antes não dava valor. Meu pai respirava cultura”.
Exausto e aflito com a situação da Covid, o abre-fecha do comércio na Holanda, Paulo continuou depois, por escrito: “Sobre a morte dele? Um dia, o doutor Roberto (Beto Ferreira, o amigo dele) me falou que já tinha avisado a ele pra tomar cuidado com as imprudências que fazia. Mas ele não dava ouvido. Nós sabemos quem foi e porquê, mas ele já está morto. A polícia de Caldas Novas não se interessou pelo caso. Nossa própria família de lá também não quis saber. Várias pessoas sabem o que e como aconteceu, mas uma versão oficial não há. É muito triste tudo”.
Beto Ferreira, médico, acupunturista e o mais próximo amigo de Nando, em Ipameri – a cidade goiana onde ele nasceu e viveu os seus últimos anos –, diz que ninguém sabe nada ao certo. Mas sabe que sente muita falta do amigo: “Penso nele todo dia”. Vanguarda até na tragédia, a morte de Cosac foi como um anúncio antecipado do estado de coisas que a violência explícita na cena política brasileira incentivaria, de 2017 em diante.
Personagem - Nando era intenso e múltiplo. O mistério de seu assassinato retrata uma de suas personagens, a do bafon, da crônica policial, da metáfora da morte ameaçada e praticada à arte e ao artista. Já outro de seus papéis dramáticos, o do homem dos palcos, serviu de inspiração à literatura de Milton Hatoum em seu penúltimo romance, ambientado na Brasília cultural dos anos 60.
Na última sexta-feira, dia 14, foi inaugurado o Museu Municipal de Ipameri e nele um espaço dedicado à arte local ganhou o nome de “Sala da Saudade Luiz Fernando Cosac, o Nando”, fazendo jus ao seu empenho de vida toda à cultura ipamerina. E aqui, agora, marcando a data de sua partida, outra homenagem.
Hatoum, Ney Matogrosso, Ana Miranda, Aurélio Michiles, Evandro Salles, Charles Cosac, Ramon Edreira e Manoel Oliveira, além de sua última grande amiga, Vânia Cristino, abrem as memórias que guardam dessa figura amada, carismática e enigmática, marcada pela comédia e pela tragédia da máscara do teatro, na cara, na coroa, no destino, ao final.
DEPOIMENTOS
Ney Matogrosso

Amigos desde os anos 1960
“Sempre lembro muito do Nando, querido amigo, que conheci logo que cheguei a Brasília. Fomos muito pra casa dos pais dele. Várias vezes íamos para lá em turmas enormes, de trem, e depois fui mais três vezes à fazenda deles. Foi um amigo muito querido, trabalhou comigo, iluminava os meus espetáculos, pessoa muito querida. Fiquei muito, muito, triste, quando eu soube dessa morte estúpida que aconteceu com ele. É coisa de gente da pior espécie. Era um grande, queridíssimo amigo, que eu lamento muito ter ido embora da forma tão violenta como foi”.
Milton Hatoum, escritor

Inspiração para A Noite da Espera
“Não fui amigo do Nando, mas me lembro dele e da Sylvia Orthof, não sei se nos encontros de dramaturgia no campus da UnB. Talvez em 68. Em todo caso, antes do AI-5, que destruiu projetos de arte e cultura. Aliás, destruiu tudo, com o agravamento da repressão e do arbítrio. O Teatro Universitário de Brasília – TUB era incrível, e certamente o Luiz Fernando e a Sylvia foram fundamentais na construção da dramaturgia da Capital. No romance A Noite da Espera me inspirei nesse ambiente de criatividade e inquietação, em que grandes dramaturgos, atores, atrizes e cenógrafos encenavam no Plano Piloto e em Taguatinga. Sem dúvida, o Nando foi um dos ícones desse movimento teatral. No romance tentei captar essa paixão pela dramaturgia, figurada por dois ou três personagens: o diretor Damiano Acante e dois atores (Dinah e o Nortista). Nosso querido amigo Aurélio Michiles abriu generosamente o baú da memória e me contou muita coisa. Ele e outra querida amiga (Ana Miranda, então aluna do CIEM) atuaram em teatro naquela época. E depois, por algum tempo, no cinema”.
Evandro Salles, artista plástico e curador, dirigiu o Museu de Arte do Rio (MAR)

Nós e a Yoko Ono
"Conheci o Nando no início dos anos 70, quando éramos ainda muito jovens, com 17, 18 anos, no tempo do jornal A Tribo que reunia parte da juventude de Brasília. Muito tempo depois, quando assumi o posto de Secretário Adjunto de Cultura do GDF, cuidando de toda a área de artes visuais e museus, o convidei para participar da minha equipe como responsável pelas montagens e cenografias das exposições. Tivemos então uma experiência muito rica: trouxemos Yoko Ono para uma grande exposição de sua obra em Brasília, sua primeira vinda à América Latina. Era um projeto muito arrojado para a época pois sua obra de artista visual, ligada ao movimento Fluxus, ainda não havia sido amplamente reconhecida pelos grandes museus internacionais como tem sido nos últimos anos. Fizemos uma das maiores entre todas as mostras que ela já realizou, ocupando todo o Teatro Nacional e Panteão. Nando foi o coordenador de montagem e execução das obras. Ele era um profissional muito competente e formávamos uma equipe harmônica com Marília Panitz, Renata Azambuja, Fátima de Deus, Kuka Escosteguy, Romário Schettino, Nilson Rodrigues e Pedro Tierra. Esse grupo produziu uma enorme quantidade de ações culturais de alta qualidade e ineditismo naqueles dois últimos anos do governo petista em Brasília. Isso nunca mais se repetiu na cidade. Guardo grandes lembranças daquele momento. Depois que saí da Secretaria, Nando continuou trabalhando comigo nessa mesma função e fizemos algumas outras mostras juntos. Ele foi um companheiro de trabalho muito colaborativo, inventivo e criativo, um grande amigo, pessoa que todos gostávamos, pessoa maravilhosa".
Aurélio Michiles, cineasta documentarista, pesquisador, blogueiro

Nando sabia fazer de um tudo
“Nando... Fernando Cosac, quando o conheci ele estava quase se formando em Arquitetura, justamente o curso em que eu havia acabado de entrar na UnB. Era o início dos anos 70. Nando era um multiartista, sabia fazer de um tudo, tinha o domínio da produção criativa de cabo a rabo. A minha proximidade com ele aconteceu através da Angélica, amiga em comum, eles eram da mesma cidade goiana – Ipameri. Foi daí que trabalhamos juntos no Teatro do Sesi-Taguatinga. Uma experiência transformadora. Naqueles tempos sombrios, Nando como diretor do Teatro Sesi nos dava liberdade para expressar nossas transgressões contra a Ditadura. Em silêncio e entre olhares, ele compartilhava. Na última vez que nos encontramos, em 2004, ele estava empolgado, trabalhando na montagem da exposição sobre o Renato Russo. Quando o escritor Milton Hatoum decidiu escrever a trilogia O Lugar Mais Sombrio, para o 1º volume A Noite da Espera (2017), que tem Brasília como ambientação, contei ao Milton sobre a minha experiência teatral no Teatro do Sesi e daí surgiu o personagem ‘Damiano Acante’, numa homenagem ao Nando e ao seu legado às Artes”.
Ramon Edreira, escritor, pintor, arquiteto, ex-diretor da FAU-UnB, primo

Privilégio conviver com Nando
"Amigo, inteligente, criativo, generoso, e às vezes negligente, conviver com o Nando foi um privilégio desfrutado ao longo de nossas vidas fraternas. Sua presença, ainda hoje, é constante em minha memória saudosa. Seu legado de invenção, criatividade e companheirismo permanecerá ao longo do tempo fazendo falta sempre."
Charles Cosac, da extinta editora Cosac Naify, primo

Foi mesmo uma pessoa muito querida
"Nando era sim meu primo, mas o conheci superficialmente. Fui próximo do irmão dele, Renato, também já falecido, que morava no Rio e que sempre frequentava a minha casa. A primeira vez que fui a Brasília – eu tinha muita vontade de conhecer a cidade –, uma prima levou-me pra conhecer o Nando; ele estava montando uma exposição e conversamos por alguns poucos minutos. No ano passado, quando voltei para dirigir o Museu da República e morar na cidade, muitas pessoas me perguntavam se tínhamos parentesco e falavam nele com carinho. Nando foi mesmo uma pessoa muito querida. Sinto não termos nos conhecido melhor".
Manoel Oliveira, ex-montador das mostras do Museu da República

Amigo, mestre e compadre
"Nando foi meu amigo, meu professor e meu compadre, me iniciou nesse mundo de montagem, me ensinou a ser o que sou hoje como profissional. Tive o prazer de conhecê-lo e de trabalhar com ele em minha primeira montagem, a da mostra Brasília 040. Tínhamos contato diariamente. Ele foi padrinho do meu filho e um amigo de verdade. Lembro-me de um acidente em que bati meu carro, com perda total, vindo de uma montagem que estávamos fazendo no CCBB, por volta de 1h da manhã. Liguei para alguns parentes, mas também pro Nando. Em poucos minutos, lá estava ele com toalhas e cobertor, porque chovia muito e estava muito frio, e com sua inseparável máquina fotográfica, tirou fotos do local do acidente e nos levou para a casa dele. Isso fortaleceu mais ainda nossa amizade. Não dá pra escrever em poucas linhas quem era o Nando, mas dá pra resumir que era um grande amigo e sei que um dia vou encontrá-lo novamente e dar um abraço tão apertado que ele não vai poder sair, assim como a saudade que aperta o meu peito".
RELATOS

“Grandes olhos verdes e muito carisma”
Ana Miranda, escritora
Conheci o Nando no grupo de teatro da Sylvia Orthof. Ensaiávamos na casa dela, no Lago Sul, ele, a minha irmã Marlui, o Vicente Pereira, que depois veio a ser o inventor do teatro besteirol, a Lena Guimarães que era uma cantora maravilhosa, a Jardelina e a Moema, que saiu e entrei no lugar dela, Carlos Roberto Edreira, primo do Nando, entre outros vários atores.
A peça era Cristo Versus Bomba e o Nando fazia a assistência de direção e a cenografia; me lembro muito dele ali, sempre alegre, atencioso, acessível, muito sensível, aquela sensibilidade de artista, de dar sugestões bonitas. A Sylvia confiava muito nele. Eles tinham uma relação de criação bem próxima. E viajamos muito com essa peça, inclusive para o Rio de Janeiro, pra participar do festival de teatro estudantil do Paschoal Carlos Magno.
Foi interessante porque éramos um grupo de Brasília, fizemos nossa apresentação e quase ninguém foi assistir – e tinha grupos do Brasil inteiro. Aí veio o resultado e nós ganhamos todos os prêmios, de melhor peça, melhor texto, melhor direção, melhor música, melhor cantora, melhor isso, melhor aquilo. Fizemos nova apresentação como vencedores e aí, com o teatro lotado. E assim trouxemos esse troféu para Brasília, em 1968.
Fomos também todos juntos para a casa da família dele, em Goiás, onde ele nos recebeu maravilhosamente bem. E estava sempre ali, conosco, positivo, nos dando força, porque já era muito difícil fazer teatro naquela época. Então, esta é a lembrança que me ficou do Nando, aquela alegria dele, os olhos muito bonitos, grandes, redondos, verdes, e muito, muito carisma. Era uma pessoa de muita presença e um anjo. A gente gostava demais dele.

Nando em versão cômica, numa festa à fantasia, com Vânia C.
Oh, metade arrancada de mim
Vânia Cristino, jornalista
Vocês já tiveram um amigo para quem podiam ligar a qualquer hora, pedir um favor, tipo venha me ajudar num jantar, vá ali para mim ver isso, vamos viajar juntos... E rir, rir muito, de qualquer coisa, conversar sobre os temas mais variados e o assunto nunca acabar? Eu tive esse privilégio. Meu amigo se chama Nando Cosac. Ele faleceu, ou melhor, foi brutalmente assassinado há três anos, em 19 de agosto de 2017. Mas continua sendo meu amigo, meu companheiro de vida e sua falta é um vazio imenso, um soco no estômago, uma dor sem fim.
Nando foi um ser único. Multifacetado, artista, excelente arquiteto, entendia de teatro, iluminação, cena, exposição. Perdeu quem não viu a mostra sobre Renato Russo, que ele montou no CCBB de Brasília; a exposição do Glênio Bianchetti na Caixa Cultural e a da YoKo Ono, no Teatro Nacional, só para citar algumas.
Um showman. Daqueles que rapidamente viram o centro das atenções onde quer que estejam. E conhecia gente, ah como conhecia. Eu costumava brincar, chamando-o de tronco de enchente. Era difícil sair em linha reta com ele, de tanto que parava para cumprimentar, bater papo com alguém, perguntar notícias de outros.
E a memória? Prodigiosa. Lembrava-se de fatos e lugares, de histórias da família e de amigos, de gente que ele nem conhecia. “Enciclopédia”, catalogava seu único irmão, Renato. E a forma como descrevia tudo, com seu olhar acurado e o gosto excelente para música, roupas, decoração?
Fizemos muita coisa juntos. Dançamos, de madrugada, num bate-coxa em Pirenópolis, naqueles bailinhos populares na beira do rio das Almas; conhecemos em Buenos Aires um restaurante erótico, que não existe mais, Te mataré Ramirez. Um espetáculo de sabores e decoração sensual. Mas do que mais sinto falta é das coisas que não fizemos, das viagens que não fomos, das conversas agora impossíveis, só vivas na minha imaginação.
Assim como roubei do Chico Buarque o título deste artigo, tiro do poeta Mário Quintana uma frase para homenagear o meu amigo. “A amizade é um amor que nunca morre”. A você, Nando querido.

Última foto, dois meses antes de sua morte, na companhia de Vânia e amigas de vida inteira
Agradecimentos a: Beto Ferreira, Cidinha de Oliveira, Vânia Cristino, Ronan, José Mesquita, Nicolas Behr e Regina Pouchain o apoio à produção deste tributo.
Criado em 2020-08-19 03:36:00
Romário Schettino –
Ao tomar conhecimento do pedido do secretário de Economia, André Clemente Lara de Oliveira, dirigido ao Tribunal de Contas do DF, para a utilização do superávit financeiro do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) em outras destinações, como combate à calamidade pública, amortização da dívida pública e até mesmo para livre aplicação, o deputado distrital Leandro Grass (Rede) pediu esclarecimentos ao procurador-geral do Ministério Público de Contas, Marcos Felipe Pinheiro.
André Clemente alega que essa possibilidade de desvinculação do superávit financeiro de fundos públicos foi permitida pela Emenda Constitucional nº 109, de 2021.
Leandro Grass lembra que a Decisão nº 461/2021, da Corte de Contas, alerta que a dotação orçamentária do FAC, para o exercício de 2021, deveria ser ajustada, para compreender 0,3% da Receita Corrente Líquida, conforme estabelecido no artigo 246, § 5º da Lei Orgânica do Distrito Federal, somado aos saldos não executados e acumulados nos exercícios de 2017, 2018, 2019 e 2020, na forma dos artigos 60, inciso I, e 80, §§ 5º e 6º da Lei Complementar nº 934/2017.
O deputado reconhece que a Emenda 109/2021 é um fato, mas observa que "essa discussão decorre, notadamente, de gestão deficiente do fundo, equalização incorreta dos valores e, por certo, eventuais tentativas de utilização diversa daquelas previstas na Lei Complementar nº 934/2017”.
“A desídia administrativa seja da Secretaria de Cultura, por não publicar editais, ou da própria Secretaria de Economia, ao não disponibilizar o recurso, ensejará única e exclusivamente em uma conclusão: o prejuízo à classe cultural”, afirma Leandro Grass.
O deputado distrital Cláudio Abrantes (PDT), por sua vez, disse que foi surpreendido com o pedido do secretário de Economia para utilizar os recursos remanescentes do FAC para outras destinações. Abrantes informou que já pediu audiência ao secretário André Clemente para verificar o ocorrido. “Desde já deixo claro que defendo o uso exclusivo dos recursos do FAC para fomentar a produção cultural do DF”, disse ele.
A deputada Arlete Sampaio (PT) postou um vídeo nas redes sociais informando que fez uma representação junto ao TCDF para impedir, por meio de liminar, que o governador Ibaneis Rocha (MDB) "faça esse absurdo de querer usar o dinheiro do FAC para outras finalidades que não seja a da cultura".
FAC Brasília Multicultural terá R$ 53,6 milhões
Enquanto a polêmica se estabelece entre o movimento cultural, secretaria de Economia, deputados distritais e o Tribunal de Contas do DF, a secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec) anuncia edital do FAC no valor de R$ 53,6 milhões.
Em matéria divulgada no site da secretaria de Cultura, descentralizar e democratizar a cultura são os objetivos que a Secec aponta como os principais focos do novo edital do FAC BSB Multicultural, divulgado quinta-feira (29/4).
Em uma live no canal do YouTube da Secec, o secretário Bartolomeu Rodrigues disse: “Estamos nos esforçando muito para que a descentralização e a democratização da cultura diminuam a desigualdade".
“Quem estava acostumado a ser excluído vai sentir a diferença, e quem estava acostumado a sempre ser lembrado vai perceber que é uma mudança necessária”, afirmou Bartolomeu. O edital vai contemplar 21 linguagens culturais. Segundo a secretaria, esse é o edital mais abrangente que já foi feito para cultura do DF e está utilizando toda a disponibilidade orçamentária que a pasta possui no momento.
A Secec apresentou como principais focos deste edital "a inovação, sem deixar de lado as políticas culturais de sucesso, como abertura de espaço, cobertura de entes que estão à margem do FAC e abrangência de mais pessoas que lutam pela cultura do DF".
Criado em 2021-05-01 16:20:12
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
O Pedro Henrique, oito anos, entrou porta adentro no maior berreiro. “Pai, pai, acabo de ver uma nuvem de pirilâmpagos!” Eliseu tentou entender a novidade embevecido pelo neologismo, lembrando o trabalho escolar que tinha escrito há 20 anos sobre os vaga-lumes do Incidente em Antares do Érico Veríssimo. Eram tantos – um que pousa no nariz da Dona Quitéria, outros que formam a tiara na cabeça da Erotildes, ambas insepultas por causa da greve dos coveiros, etc.
Despachada pra longe a recordação, o Eliseu perguntou ao moleque onde ele tinha visto o enxame luminoso. O Pedro Henrique puxou o pai uns 50 metros até a esquina, de onde se podia ver, desde o nono ou décimo andar do prédio em construção do outro lado da rua, a cascata de fagulhas saindo da tocha de um soldador, cada vez mais nítida com o dia escurecendo. “Ô, PH, cê tem razão, são mesmo pirilâmpagos!”, reagiu o Eliseu, sacando o celular. “Vamos filmar!”
Quando a vizinha Dona Santina me contou essa história, que ela jurou ser verdadeira, eu tive dois pensamentos, um de alegria, pela sorte do Pedro Henrique ter um pai amigo da ciência e da imaginação, e outro de tristeza, ao lembrar certa experiência que eu mesmo tive com um relâmpago. Eu juro que a minha história também é a mais completa expressão da pura verdade.
Deu-se assim: a gente, uma turma de onze ou doze, estava almoçando no bar Resenha, na 410 Sul, o tempo meio fechado mas sem indicar que iria chover naquela tarde. Lá pelas tantas, ouvimos um estrondo na vizinhança, e eu vi um relâmpago subindo da ponta de um para-raios do prédio do BRB. Agitado, quis saber dos meus assustados convivas se tinham percebido o mesmo que eu. Surpresa! Em vez de afirmações ou negações, choveram dúvidas sobre a própria manifestação do meu raio invertido. “Ô, ACQ, lá vem você com as suas invenções… Onde já se viu raio que sobe! Imagine! Kkkkk e talecoisa!”
Meu queixo caiu / e me fez ficar assim… Com a boca aberta, chocado com a ignorância dos meus amigos e amigas, entre os quais, se me lembro bem, havia dois engenheiros e uma engenheira, tentei argumentar que os raios ascendentes existem, sim, embora mais escassos que os descendentes. Repeti a explicação técnica do fenômeno, isto é, que os raios positivos descendentes produzem, dentro da nuvem de tempestade, depois do contato com o solo, descargas negativas de longa duração e baixa intensidade com extensão horizontal de muitos quilômetros. Essas, passando por cima de torres altas ou para-raios, podem induzir cargas positivas nas suas pontas. Se a potência for suficientemente forte, elas sungam na forma dos raios ascendentes...
Vã tentativa, ninguém quis acreditar, e eu fui embora com a cara de tacho, muito embora resplandecente. Minha vingança contra essa turma de caga-lumes foi a criação da novíssima palavra que compõe a expressão “bando de ignorâmpagos”!
Criado em 2021-10-09 00:10:11
Luiz Martins da Silva –
Quem vai querer? A morte está em promoção. Por que será que cresce no mundo a frequência de países que estão zerando por dia as mortes pelo novo coronavírus, Paraguai e Uruguai entre eles, e os número de mortes por pandemia explodem no Brasil, inclusive em estados, como Goiás, em que a curva estava em decréscimo?
Em Portugal, mesmo com estatísticas e óbitos por coronavírus reduzidos e curva pandêmica na baixa, os arraiais juninos estão proibidos. Na Argentina, bairros inteiros estão completamente isolados e com entrada e saída controlados pela polícia.
Hoje, quando em algum momento que as estatísticas brasileiras forem renovadas, contar-se-ão mais mortos no Brasil por Covid-19 do que em várias das guerras tidas como sangrentas. Torçamos para que não aconteça aqui algo paritário com a Guerra do Vietnã (1955-1975).
Mesmo envolvendo no confronto potências militares, EUA, URSS e China, o total de mortos norte-americanos não chegou a 60 mil. O número de vietnamitas e aliados, no entanto, não se sabe ao certo, teria passado de 1 milhão de mortos, no mínimo. E mais de 3 milhões, segundo outros cálculos. Ou seja, a maior potência armada do Planeta [EUA], perdeu cerc de 60 mil soldados em 20 anos. Quantos brasileiros o Brasil perderá para o Covid-19 em um semestre? Não dá para saber, mas dá para saber de não houver tanta “flexibilização” nos próximos meses.
Estamos em correria para uma promoção da morte: nas ruas, feiras e shoppings, a volta de consumidores, incentivada pelas autoridades públicas alinhadas com o Palácio do Planalto e com os ministros zelosos pela Economia. O desespero deles chama-se recessão. Quanto ao consumo, só falta uma promoção do tipo black-friday-pandemia.
Economia contraditória: bilhões para manuseio dos políticos do Centrão, de péssima reputação moral; dinheiro da bolsa-família proposto para propaganda; e corrupção em compras e faturas de equipamentos para hospitais de campanha que não se inauguram.
Mas, não é só de governos que emanam os paradoxos. Há uma adesão aparentemente incontornável de grande parte da população às aglomerações. A morte parece ter combinado com muita gente, muita gente brasileira. Outro dia, uma senhora, num caixa de um supermercado, declarou: Não tenho medo, Deus me protege.
Deus nos deu a vida e nos protege, mas os erros são por nossa conta. Quem sabe o que é errado mas o pratica com suposta fé em Deus, não cultua uma fé verdadeira, pois a fé não serve de aval à negligência. Dessa forma, não é Deus não é brasileiro. A morte é que é se faz conterrânea.
Os governos e muitas seitas têm propagado a ideia de que o Socialismo é coisa do Diabo. Raro um deles que apareça para dizer que o Diabo é sócio do Capitalismo. Em tempos de pandemia, que a vida prevaleça sobre a Economia. E se no Brasil o Estado-providência não compareceu e serve mal à Saúde e à Previdência, por que neste momento em que mais se espera dele alega não estar preparado para as "acidentalidades"?
Durante uma pandemia, o melhor sistema econômico é o do Socialismo. E o que se está vendo? Um governo de extrema direita se obrigar a mínimas medidas de amparo social. Teme muito mais desamparar a saúde da economia capitalista do que socorrer o povo, nos desastre sanitário e econômico.
Estado e Sociedade; Economia e Política, estas categorias têm se se unir para salvar o povo e não atraí-lo para o suicídio. Para que o Estado foi criado? Para servir de retaguarda à sociedade quando ela está ameaçada, de fome, de bala e da morte. Mesmo que tenha de sacrificar reservas, que depois virão, sempre vieram.
Temos, no imaginário de certos políticos, e de grande parte dos brasileiros, a fantasia de que precisamos de um regime autoritário, de preferência militar, para a força da Ordem e para o destravamento do Progresso. Mas, num momento como este, temos esses mesmos políticos e adeptos pregando a frouxidão, a lassidão e a irresponsabilidade. E exatamente num momento de guerra. Tivéssemos uma autoridade responsável, haveria repressão, sim, às condutas em favor do inimigo nacional, a pandemia.
Criado em 2020-06-15 00:26:36
José Carlos Peliano (*) –
O ano era 1979, se não me falha a memória, na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Compareci para acompanhar o 1º Congresso de Psicologia Transpessoal da América Latina, organizado, entre outros, pelo falecido Pierre Weill, fundador da Universidade da Paz, com sede em Brasília.
Convidado pelo amigo Agnaldo de Campos Neto, psicólogo falecido prematuramente, assisti várias palestras interessantes, inovadoras e provocativas sobre a maneira de pensar e sentir a vida interior e ao redor. Naquela época chegava ao país os conhecimentos da nova psicologia que buscava incorporar de forma mais efetiva o lado espiritual ao psicológico da pessoa.
Não sou do ramo, mas sempre fui interessado tanto que minha amiga Nise da Silveira chegou a me sugerir em determinado momento largar a economia pelo menos parcialmente para acompanha-la no mundo da psicologia analítica de Jung no Rio de Janeiro na Casa das Palmeiras e no Museu de Imagens do Inconsciente para aprender a técnica que ela achava eu ter jeito e sensibilidade para praticar. Mariana Alvim outra psicóloga amiga radicada em Brasília naqueles anos igualmente me recebia para conversarmos sobre psicologia e espiritualidade. Memoráveis e inesquecíveis encontros.
No Congresso de BH ouvi uma palestra de Ronald Laing um dos mais brilhantes psiquiatras ingleses da época membro do movimento da anti-psiquiatria junto, entre outros, com David Cooper e Michel Foucault. De todas as que presenciei, a de Laing foi a mais frequentada e aplaudida. Além de ser um brilhante apresentador e facilitador na condução da plateia, Laing expunha com carisma, conhecimento e perspicácia as raízes, razões e resultados de seu trabalho participativo, onde o psiquiatra vivencia as neuroses junto com o paciente para entendê-las como tais.
Deixara meu trabalho de economista em Brasília para ir ao Congresso a fim de me dar uma pausa para aliviar a cabeça dos problemas do dia a dia e conhecer de perto o que trazia a Psicologia Transpessoal. Coincidentemente, ou como diria Jung, uma “sincronicidade”, Laing lá pelas tantas abordando como lidar com as neuroses estando no meio delas fala exatamente da necessidade de se dar uma “pausa” na condução de qualquer tratamento. Uma pausa para pensar e avaliar o que aconteceu até então, o que viria a seguir e de que jeito continuar.
Ele, então, afirma que em toda canção “o que importa não são as notas musicais, mas os intervalos entre elas”. Os intervalos ao mesmo tempo em que pausam as notas eles indicam os trechos musicais a seguir e sustentam as notas na ciranda da melodia. Sem os intervalos, sem as pausas, as notas formariam um amontoado de sons sem conexão melodiosa alguma. Uma cacofonia.
Até então não tinha me dado conta da importância das pausas no quotidiano em qualquer atividade. As entendia e usufruía simplesmente como breves descansos para retomar a atividade daí a um tempo. Na realidade, nessa maneira de pensar, eu mantinha a atividade na cabeça e acabava que, de fato, não saia dela, mantendo-a sempre comigo, pois fazia a pausa para recobrar a disposição e voltar novamente ao que fazia antes. Na maioria das vezes, portanto, as pausas assim entendidas e usadas aumentavam em mim a tensão e o cansaço.
Decorre daí que toda a pausa deve ser aproveitada da maneira que cada um quiser sem se preocupar com seu término, continuar pensando no que fazia ou ainda no que vai fazer ou se ao final tiver que retomar o que fazia. A pausa deve ser encarada como o bom sono quando se recompõe a força e a energia ao tempo em que se esvazia do que vinha por dentro antes para se encher de inspiração, tranquilidade e clareza.
A pausa provocada pela pandemia do coronavírus nessa perspectiva é a oportunidade que cada um de nós tem de repensar o que até então viemos fazendo e o que temos de modificar para a retomada. E repor a saúde física e mental para recomeçar e reconstruir um novo rumo, um novo caminho, ou uma nova melodia de acordo com Laing.
Enquanto muitos de nós estiver se lamuriando e se martirizando com pensamentos de falta de alguém, ou alguéns, alguma coisa, ou coisas, de ter caído uma punição sobre as cabeças, de que nunca deveria ter isso acontecido, e que tais, a vida vai se tornar insuportável e a pausa forçada da pandemia só vai servir para ir ser procurado um terapeuta ou um medicamento para acalmar a mente.
É claro que a pausa entre uma nota musical e outra vai servir para definir qual a sequência e esta depende, claro, das notas anteriores. O mesmo deve ser usado nessa pausa da pandemia. Essa, objetivamente, serve para repensar o que veio sendo feito, se vale a pena continuar assim, o que deve ser feito para mudar ou de ação ou de rumo. O mais importante é relaxar porque a volta a sair de casa sem máscara não depende só de nós individualmente, mas de todo mundo.
Daí a construção coletiva de um espírito de congraçamento que nos leve a estarmos bem conosco e com cada um dos demais, sem ódio, sem implicância, sem disputa, sem concorrência. Construção de uma sociedade limpa de preconceitos, de discriminação de raça, cor, sexo, opção sexual, religião e de tudo o mais que não trate o próximo como companheiro de vida nessa vida que nos foi dada viver.
Afinal, a pausa da pandemia é oportuna e necessária para nos reconstruir na busca de fazer de nossa vida uma comunidade com todos os outros que nos acompanhem para revigorar a natureza que nos rodeia, os bichos, as plantas, as árvores, as florestas, os rios, os mares, os oceanos, as geleiras, os peixes e nós mesmos. Fazer da nossa Terra a verdadeira mãe, o organismo vivo que nos abriga, sustenta, renova e nos promete o futuro desde que cada um de nós faça sua parte. E bem feita.
Que não deixemos mais eleger indivíduos sem nenhuma qualidade para governar um país. Que criemos condições objetivas de, como povo, possamos corrigir o andamento deturpado das coisas impedindo nós mesmos de continuar em suas funções os falsos dirigentes e governantes. Uma revolução silenciosa, mas objetiva, positiva, progressista, sem radicalismo político ou religioso, sem violência. Nos fazermos verdadeiramente humanos e não trogloditas, misóginos, falsos, demolidores, desclassificados.
Que combatamos por fim a brutal desigualdade social que toma conta de nosso país, agravada mais ainda agora e colocada às claras pelo efeito da pandemia. Os pobres são os que mais têm sofrido e numerado a fila dos mortos pela Covid-19. Sem condições de se protegerem, pois sem renda que os mantenha têm que se expor às ruas em busca de comida, teto e trabalho. Não é a doença que discrimina os infectados e mortos, mas o absurdo desprezo público pela acolhida e tratamento desse contingente de necessitados. Assim como os indígenas lançados à sorte pela total falta de cuidado pelos órgãos que se dizem competentes comandados por um presidente fake e miliciano.
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(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor e economista.
Criado em 2020-08-24 14:42:56
Roberto Amaral (*) –
Em meio à revolução tecnológica – alterando profundamente o caráter da sociedade moderna –, a humanidade vive a transição da hegemonia ocidental para a eurásia, anúncio do fim da atual ordem mundial. Se o desfecho é certo, o novo cenário é uma incógnita.
O Brasil, que perdeu a primeira revolução industrial (porque a casa-grande optou pela persistência de uma arcaica sociedade agrário-exportadora fundada no latifúndio e no escravismo), corre o risco de mais uma vez deixar passar vazio o bonde da história; quando o mundo avança tão celeremente no domínio de novas tecnologias, abrindo um leque inimaginável de transformações políticas e sociais, com a atividade econômica exigindo cada vez mais conhecimento científico e tecnológico, ou seja, mais escolaridade, o Brasil do capitão Bolsonaro, da burguesia financeira e dos engalanados que lhe dão sustento vira as costas para o ensino, a pesquisa e a inovação. Breve, o fosso tecnológico que já nos separa dos desenvolvidos – os países produtores de conhecimento – será intransponível, condenando as futuras gerações a novas formas de subdesenvolvimento, com seu contingente de fome e injustiça social.
Quando se exacerbam as rivalidades de blocos, anunciantes do confronto entre o imperialismo norte-americano e a emergência eurasiana, liderada pela China, ensejando a países com as nossas características a oportunidade de abrir seu próprio caminho, o governo do capitão, dos generais comissionados e dos empresários sem pátria opta pela aliança subalterna à geopolítica do grande irmão do Norte. É o preço de uma classe dominante alienada e forânea, refletida no bolsonarismo.
No plano interno, o saber é visto sob suspeita; a escola pública é mal a ser erradicado; a produção do conhecimento, mormente aquele que enseja a autorreflexão, é chaga a ser combatida. O Brasil dos sonhos do reacionarismo não precisa de técnicos, de cientistas, de pesquisadores ou de professores, simplesmente porque não vislumbra projeto autônomo de sociedade e país.
Este verdadeiro antiprojeto nacional, no qual se empenha o bolsonarismo, é, contudo, obra partilhada pela classe dominante, porque dele usufrutuária; não se ouve, até aqui, um pio de protesto do chamado empresariado quando o governo, com o concurso de um congresso dominado pelo fisiologismo do “centrão”, corta quase todo o orçamento do CNPq, 90% das verbas destinadas à pesquisa. O país vai mal; o povo, desempregado, subempregado ou desalentado, de mal a pior; mas a casa-grande ri a bandeiras despregadas.
O neoliberalismo do ministro da Economia levou o país à estagnação, os trabalhadores ao desemprego; no entanto, quanto mais aumenta a pobreza, mais crescem os dividendos da burguesia rentista, beneficiária de um capitalismo de marginalização social, cujo leitmotif é aumentar o lucro dos que já têm tudo. Dos pobres se extrai o salário, a previdência, o trabalho e a esperança. Se o real –arrastado pela estagnação econômica – é desvalorizado, os especuladores, como o inominável Paulo Guedes, acumulam dólares nos paraísos fiscais onde enfurnam suas fortunas, que não param de crescer enquanto a economia nacional desliza ladeira abaixo.
Os números são escandalosos: em dez anos o crescimento de favelas corresponde a 95 mil maracanãs.
Possuímos uma orgulhosa agricultura, altamente capitalizada, de alta produtividade e de alta lucratividade, mas que não alimenta a população. Hoje, na segunda década do terceiro milênio, 112 milhões de brasileiros sofrem algum grau de insegurança alimentar e 20 milhões enfrentam a fome, diariamente (Dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar).
A produção industrial, enquanto a FIESP nem tuge nem muge, observa a quarta queda mensal consecutiva e a sétima em nove meses, imposta por redução de demanda. Caiu em outubro (0,4%) quando em setembro já estava em 19,4% abaixo de maio de 2011, assinalando um comportamento negativo persistente. Qualquer hipótese de desenvolvimento vai requerer investimento, uma dependência do mercado interno que não se conjuga com concentração de renda e desemprego.
A panaceia do especulador sentado no ministério da economia é a redução de direitos trabalhistas, mantra do sistema financeiro, enquanto o fracasso rotundo do neoliberalismo de oitiva favorece a persistente alta do dólar, alimenta a inflação e aciona a espiral dos juros que congela o investimento privado.
O perverso casamento da inflação com a recessão, constrói a estagflação, o pior dos mundos. O PIB deste ano deve girar em torno de 1% (se podemos nos fiar nas projeções do Banco Central). Já relativamente a 2022 as estimativas variam entre “crescimento” zero e 0,5% (murmúrios do “mercado”). A inflação não deve conformar-se nos 10% de hoje, índice já bem acima da meta (3,7%). Começaremos 2022 com uma expectativa de 11% de juros (Selic). A queda das vendas do varejo (o outro nome da queda do consumo) de setembro último em comparação com setembro de 2020 foi de 5,5% (IBGE). Mesmo a construção civil, que se tinha como restabelecida, revela as consequências da crise que, política, invade a economia, e se revela de corpo inteiro na queda do Índice de Confiança, calculado pelo Ibre/FGV, a primeira em seis meses.
Um general da ativa desmontou o Ministério da Saúde, e assim o exército contribuiu para o aumento das vítimas da pandemia, que o capitão batizara de “gripezinha”; um general da reserva, com salários superiores a 300 mil reais, empenha-se na destruição da Petrobrás que colegas seus de outra cepa ajudaram a construir. Quando o Brasil alcança a autossuficiência em petróleo, a gasolina atinge o maior valor do século, e é vendida nas bombas à média de R$ 8,00 o litro.
O país vai de mal a pior: queda da bolsa, queda da produção industrial, alta do dólar. A inflação de dois dígitos, com tendencial de crescimento, corrói a economia e consome o poder de compra dos trabalhadores. O desemprego – que alcança quase 14% da população ativa -- dá as mãos à estagnação econômica, e a expectativa de recuperar o desenvolvimento recua às calendas gregas; milhões de brasileiros passam fome – catando comida em caminhões de lixo e ossos em açougues. Mas a burguesia financeira tem todas as razões para soltar balões, pois os bancos jamais lucraram como agora! O trio Santander, Itaú e Bradesco vê os ganhos crescerem 28,5% no findo terceiro trimestre. É mais um “prodígio” do capitalismo brasileiro, a fazer inveja ao professor Delfin Neto, o mago do “milagre econômico” da ditadura militar. O Bradesco registrou lucro líquido de R$ 6,767 bilhões uma alta de 34,5% em relação ao mesmo trimestre do ano passado. O segundo maior resultado da história do conglomerado. Mas não deixou seus irmãos de oligopólio chupando o dedo: o Itaú anuncia um lucro de R$ 6,77 bilhões, um crescimento de 34,7% e o Santander, no mesmo trimestre, um lucro de R$ 4,27 bilhões, o que representa uma alta de 12,1% sobre o mesmo trimestre do ano passado. Não há emprego, não há renda, não há consumo, produção em queda, mas o capitalismo brasileiro é capaz de produzir assombro como esse.
Por isso, no Brasil, faça chuva, faça sol, rico ri à toa.
A retomada de desenvolvimento com progresso social está a depender de a futura nova ordem governante – na expectativa de um governo de centro-esquerda – dispor, ademais de firme decisão política, de sustentação em uma nova maioria, de que careceram os governos Vargas (1951-1954), Jango e Dilma, com as consequências conhecidas. Essa nova correlação precisará ser concertada mediante amplo e franco debate político com toda a população, quando o programa de governo (ainda só reformista) deverá ser exposto com exemplar clareza, como em um verdadeiro plebiscito. Só nesses termos a eleição do novo presidente representará a opção programática do povo, que, assim, poderá ser mobilizado para a defesa de seus interesses.
***
Um país embrutecido – É estarrecedora a quase frieza com a qual o país recebeu a morte de Nelson Freire, um dos dois ou três gênios que nossos 500 anos de desencontro civilizatório conseguiram produzir.
Abaixo o arrocho salarial – Nosso apoio aos confrades de O Globo, Valor, Estadão e Folha de S. Paulo em sua luta por condições dignas de trabalho.
Gilberto Gil imortal – Aquele abraço!
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(*) Roberto Átila Amaral Vieira é jornalista, professor e político brasileiro. Foi ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva.
Criado em 2021-11-13 15:12:53
O governador Rodrigo Rollemberg (PSB) enviou ontem (29/11) à Câmara Legislativa a proposta de Lei de Uso e Ocupação do Solo (Luos). A expectativa é que o tema, que tramitará em regime de urgência, vá à votação ainda em 2018.
Secretário de Gestão do Território e Habitação (Segeth), Thiago de Andrade, em entrevista coletiva, esclareceu pontos do projeto de lei e disse que a futura legislação vai unificar cerca de 420 normas urbanas e seis planos diretores locais vigentes.
Com isso, segundo o governo, aproximadamente 365 mil lotes urbanos registrados em cartório terão regras mais claras sobre aspectos como limitações de altura e de área construída e de quais atividades econômicas são permitidas no local.
“Hoje há uma série de instrumentos dispersos. Muitas vezes o próprio poder público tem que fazer uma grande pesquisa para saber qual norma se aplica”, afirmou Andrade. A medida atinge 90% dos moradores do Distrito Federal.
Assim, por exemplo, o texto definirá as regiões do Lago Sul, do Lago Norte e do Park Way como áreas de residência exclusiva. Ou seja, não serão permitidos comércios, exceto os já estabelecidos e que estejam devidamente licenciados.
Cada localidade tem um tipo de uso definido pelo governo — que considerou a realidade já existente no DF. Há espaços comerciais e de serviços que podem ser também residenciais, e outros que são apenas para equipamentos públicos, por exemplo.
Um dos pontos estudados para atender a população foram as alturas máximas de edificações. “Tinham alturas muito conservadoras e que eram desrespeitadas havia décadas. Criamos uma fórmula para corrigir essas distorções”, explicou o secretário.
Assim, cidades como Estrutural, Ceilândia e Riacho Fundo terão parâmetros maiores, e as construções passarão a ter, uma média de 10,5 metros de altura permitida.
Outra mudança que terá efeitos para os moradores do DF é a flexibilidade adotada para equipamentos públicos. Antes, um lote com essa destinação era muito específico. Definia, por exemplo, que um determinado espaço era destinado à construção de uma escola classe.
“Tornamos mais flexível para que não seja tão específico. Isso vai dar celeridade e garantias para que o governo preste seus serviços públicos”, avaliou Andrade.
A Luos foi feita com base nos lotes já existentes no DF. Ela não muda nem cria novos espaços. As mudanças também não retroagem. Ou seja, elas não valem para edifícios já construídos.
Quanto às áreas ainda não regularizadas, o projeto já apresenta um rito que deverá ser seguido quando forem legalizadas para que adotem as metodologias da Luos.
A proposta enviada à Câmara Legislativa não inclui o conjunto urbanístico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Dessa maneira, estão fora da legislação o Plano Piloto, o Cruzeiro, a Candangolândia e o Sudoeste. Essas áreas seguem as regras do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCub), que está sendo construído pelo governo com a participação da sociedade.
Mobilidade ativa e meio ambiente
A proposta da Luos enviada à CLDF tem regras claras, por exemplo, sobre número de vagas para veículos no interior de lotes.
De acordo com o secretário da Segeth, a mobilidade urbana é um capítulo especial da Lei de Uso e Ocupação do Solo. “Ela tem uma mudança de visão, que é a de não privilegiar o espaço do automóvel em detrimento do espaço das pessoas”, resume, em referência ao conceito de mobilidade ativa.
O projeto prevê dois conceitos fundamentais para vagas no interior do lote.
Para locais que ficam próximo a equipamentos públicos de alta capacidade, como estação de metrô e terminal de ônibus, não há exigência mínima de número de vagas, e o teto para essa quantidade é menor.
Já para lugares que não estão perto desses tipos de equipamentos públicos, exige-se uma quantidade mínima de vagas, e a máxima é maior.
“Chegávamos a ter mais área construída para automóvel do que para as pessoas”, pontua o secretário. Segundo ele, pesquisas mostram que há grande número de garagens particulares com espaço sobrando por terem a quantidade mínima obrigatória de vagas acima do necessário. “A Luos dá mais poder de decisão ao proprietário [sobre o quantitativo de vagas]”.
Os conceitos da Luos a esse respeito, além de poderem baratear o custo da obra, são uma forma de reforçar a sustentabilidade e a preocupação ambiental. “Construções, principalmente no subsolo, têm um gasto energético muito grande e interferência nos lençóis freáticos”, exemplifica Andrade.
A Luos apresentada pelo GDF considera nas áreas residenciais e nas mais populosas a realidade já existente. “No Riacho Fundo I e no II, por exemplo, em que você tinha um gabarito de 7,5 ou 8,5 metros — e a realidade não corresponde, porque as pessoas fazem suas casas em três pavimentos —, a gente está colocando a altura máxima razoável — porque não interfere na paisagem — para atender aquilo que já existe”, detalha o secretário de Gestão do Território e Habitação.
“Como não se podia licenciar antes, porque já estava construído, agora a pessoa poderá regularizar a sua edificação como está.”
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Com Assessoria de Imprensa da Agência Brasília.
Criado em 2017-11-30 19:07:21
Com o lançamento nacional do documentário Antes do prato, realizado pelo Greenpeace Brasil, produção da Theodora Filmes, inicia dia 26/8, sexta-feira, às 20h, no Cine Brasília, o 11º Festival Internacional de Cinema e Alimentação - Slow Filme.
Outra programação imperdível, no foyer do Cine Brasília, dia 28/8, sábado, às 17h, é o debate com a presença da pesquisadora Tereza Campello, uma das organizadoras do livro Da fome à fome: diálogos com Josué de Castro, em parceria com Ana Paula Bortoletto. Tereza Campello, ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, e o professor Renato Carvalheira do Nascimento, especialista na obra de Josué de Castro e autor de um dos artigos do livro farão parte da mesa.
A fome voltou
Hoje, 61,3 milhões de brasileiros têm dificuldades para se alimentar; destes, mais da metade sequer sabem quando farão a próxima refeição. Fora do Mapa da Fome desde 2015, o Brasil voltou a integrar a lista da FAO, com os países que não oferecem acesso adequado aos alimentos a sua população.
Mas por que o Brasil voltou ao Mapa da Fome das Nações Unidas? Como uma potência agropecuária mantém parte significativa de sua população em insegurança alimentar? Em 27 ensaios assinados por pesquisadores e ativistas, Da fome à fome: diálogos com Josué de Castro recorre ao legado do intelectual pernambucano para mostrar que, ao contrário do que prega o senso comum, essa terrível e persistente mazela não se combate apenas com a produção de alimentos.

O filme
Realizado pelo Greenpeace Brasil @greenpeacebrasil, com produção da Theodora Filmes @theodorafilmes e apoio do Instituto Ibirapitanga @iibirapitanga, o documentário vai a três regiões do Brasil e mostra uma mobilização social potente e diversa para combater a fome, gerar saúde e garantir um meio ambiente em equilíbrio para toda a população.
Diante de um país em crise, o filme retrata como a agricultura familiar agroecológica vem criando pontes entre as cidades e o campo para propor uma revolução no atual modelo de produção e consumo de alimentos. Uma revolução em rede, conectada, solidária.
A exibição será seguida de debate, com as participações da professora de nutrição da UnB, Elisabetta Recine, da porta-voz do Greenpeace para Agricultura e Alimentação, Marina Lacôrte @me_marinalacorte e de Rogério Dias, presidente do Instituto Brasil Orgânico @institutobrasilorganico.
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SERVIÇO
ANTES DO PRATO
Brasil, 2022, 54min, 12 anos
Direção: Carol Quintanilha @carolquintanilha
Cine Brasília | 26/08 | 20h
Entrada franca
DA FOME À FOME: DIÁLOGOS COM JOSUÉ DE CASTRO
28/08 - Domingo - 17h
Foyer do Cine Brasília
Presenças de Tereza Campello e Renato Carvalheira do Nascimento
Haverá venda do livro no local.
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Criado em 2022-08-15 23:27:07