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José Lourenço Cindra (*) –
Se acreditarmos na propaganda difundida pelos serviços estadunidenses de informação e seus aliados, a Coreia do Norte é o país mais isolado do mundo. É uma ditadura primitiva, onde o povo morre de fome, enquanto seus governantes praticam os maiores disparates. Será que é isso mesmo? Para entendermos a realidade da República Popular Democrática da Coreia (RPDC), precisamos conhecer um pouco da história do país.
A península coreana foi tradicionalmente considerada de grande importância geopolítica para o Império da China e também para o Japão. Em fins do século XIX, cerca de 30% da população da Coreia era de escravos. Só em 1894 é que foi abolida a escravidão no país.
A partir de 1910 a Coreia passou a ser colônia do Japão, quando foi aplicada uma política de niponização em massa dos coreanos. Posteriormente, o Japão ampliou sua dominação até a Manchúria no nordeste da China, onde fundaram o Estado fantoche de “Manchukuo”. Na Manchúria existia uma colônia de coreanos expatriados.
Alguns autores enfatizam que durante a colonização japonesa, no norte da península coreana chegou a ser implantada uma infraestrutura industrial, ligada principalmente à mineração, enquanto no sul predominava a agricultura. Isso faz sentido, pois o norte é muito montanhoso e é rico em minérios, enquanto no sul há planícies costeiras mais alargadas, propícias para a agricultura.
Exército soviético - Em 1945, em conjunto com as tropas do Exército Vermelho da então União Soviética (URSS), o Exército Popular Revolucionário da Coreia libertou a parte norte da ocupação japonesa. No sul da península, os japoneses se retiraram antes da chegada das tropas norte-americanas. Basta dizer que as forças americanas de ocupação desembarcaram em Inchon, o porto de Seul, no dia 8 de setembro de 1945, quando o Japão já estava derrotado. A presença dos militares dos EUA na Coreia do Sul só serviu para coibir o avanço da revolução popular naquela região. Os norte-americanos, unilateralmente, sem consultar a URSS, estabeleceram que a Coreia fosse provisoriamente dividida no paralelo 38. Os soviéticos entraram na parte norte em 8 de agosto de 1945 e dirigiram-se em direção ao sul, mas aceitaram a decisão dos EUA de dividir o país ao meio. Os soviéticos fizeram isso silenciosamente, sem comentários ou um acordo escrito. É o que escreve o historiador estadunidense Bruce Cumings, grande conhecedor da história da Coreia.
O desejo da maioria dos coreanos, como também do governo da URSS, que havia colaborado para a derrota dos japoneses na região norte da península era uma Coreia unificada. Inclusive é com esse espírito de união, que Kim Il-sung, que desde 1932 vinha combatendo os japoneses na Manchúria, organiza um governo provisório na atual Coreia do Norte. Reformas democráticas anti-imperialistas e antifeudais são empreendidas pelo Governo Popular Provisório. Na Coreia do Sul, desde o início, os norte-americanos não permitiram que medidas democrático-populares fossem implementadas.
Os EUA conduziram eleições em separado e estabeleceram um governo fantoche sob o nome de “República da Coreia”, tendo como objetivo servir de fortaleza avançada do imperialismo, para praticar agressões contra outros povos da Ásia e invadir o norte da península. Como chefe do governo, os norte-americanos colocaram Syngman Rhee, um coreano extremamente anticomunista, que até então se encontrava residindo na Califórnia.
Os revolucionários sul-coreanos lutaram contra essa farsa eleitoral. O objetivo do Governo Popular Provisório era a realização de eleições conjuntas e, em seguida, a unificação da Coreia sob um único governo. Mas, já que os norte-americanos violaram os acordos e estabeleceram um governo fantoche no sul, não restou outra saída para os norte-coreanos senão fundar a República Popular Democrática da Coreia em 9 de setembro de 1948. Nesse mesmo ano, as tropas do Exército Vermelho deixaram a Coreia do Norte, cumprindo o acordo de 1945, que previa a retirada de todas as tropas estrangeiras da Coreia no prazo máximo de cinco anos.
Quem invadiu? - Há controvérsias sobre quem iniciou a chamada Guerra da Coreia. A versão predominante no Ocidente é que foram as tropas da Coreia do Norte que atravessaram o paralelo 38 em 25 de junho de 1953, invadindo a Coreia do Sul.


Os norte-coreanos têm outra versão. Dermot Hudson, estudioso inglês da Ideologia Juche e da Política Songun, que são dois aspectos da doutrina oficial do socialismo norte-coreano, não tem dúvida que foram as tropas do governo da Coreia do Sul que invadiram o lado norte, na noite de 25 de junho de 1950. O Exército da RPDC havia simplesmente revidado imediatamente, levando as tropas fiéis aos EUA de volta ao Sul do paralelo 38, chegando a libertar Seul e 95% do território sul-coreano, em poucos dias.
Por outro lado, a versão de Bruce Cumings é que a chamada Guerra da Coreia tem que ser devidamente contextualizada. Segundo ele, ela nem começou em 25 de junho de 1953. Seja quem quer que tenha atacado primeiro naquele dia, isso foi simplesmente mais um episódio de um longo processo conflituoso. Cumings escreve que já havia ocorrido diversas provocações da Coreia do Sul contra a Coreia do Norte, inclusive, várias violações de fronteira, desde o ano anterior.
Bruce Cumings é muito claro em afirmar que se tratava de uma guerra civil. De fato, essa guerra havia começado em 1932, quando Kim Il-sung (na foto, abaixo) ainda lutava contra os japoneses na Manchúria. Então, segundo ele, os norte-coreanos estavam simplesmente dando mais um passo na conclusão da guerra civil. Ele chega a fazer comparação com a travessia do rio Yangtze em abril de 1949 pelas tropas de Mao Zedong e a tomada de Saigon pelos norte-vietnamitas em 1975. Em ambos os casos houve conclusões de guerras civis. Se os EUA não tivessem entrado na Guerra da Coreia, a guerra civil coreana teria terminado exitosamente com a vitória completa das forças populares, e a Coreia seria hoje um país unificado.
Na parte norte da península, a guerra contra os japoneses havia terminado com a vitória das forças populares, empenhadas na construção do socialismo. No sul, pelo contrário, o governo e o exército de Syngman Rhee estavam cheios de elementos de mentalidade fascista, antigos colaboradores da ocupação japonesa.
O que é fato histórico é que entre 1950 e 1953 a RPDC sofreu uma pesada invasão de tropas de muitos países, encabeçadas pelos EUA, foi o período da chamada Guerra da Coreia.
O país foi totalmente arrasado. Imagine o que significa saber que na capital Pyongyang não ficou sequer um edifício ou casa em pé. O mesmo aconteceu com outras cidades da Coreia do Norte. Milhões de pessoas foram assassinadas com o uso de napalm e outros meios de destruição em massa. Bruce Cumings escreveu que só de junho ao fim de outubro de 1950, os B-29 derramaram 3,2 milhões de litros de napalm sobre a Coreia do Norte.

Como a guerra continuou até meados de 1953, o que os imperialistas norte-americanos não fizeram contra o povo coreano? Foi uma guerra de extermínio, uma política de terra arrasada mesmo, com o objetivo de fazer a Coreia retroceder à Idade da Pedra. Assim que os chineses entraram na guerra, para dar apoio aos norte-coreanos, o general MacArthur deu ordens para destruir tudo que existisse entre a frente da guerra e as margens do rio Yalu na fronteira com a China. Entretanto, esse criminoso ato de guerra norte-americano, de triste memória, queria muito mais. Ele queria despejar bombas atômicas sobre o território da Coreia do Norte, e, se possível, estender a guerra até a China, utilizando bombas atômicas contra a República Popular da China.

Armistício - Em 27 de julho de 1953, os EUA foram forçados a firmar um armistício, pondo fim as ações de guerra contra a RDPC. Mas até hoje não foi assinado um acordo de paz, oficialmente, terminando a guerra. Portanto, tecnicamente, os EUA continuam em guerra contra a RPDC. A península da Coreia continua dividida ao meio, e os EUA ainda mantêm tropas e bases na Coreia do Sul. O governo da Coreia do Norte deseja a reunificação do país. No sul da península, muitos desejam a reunificação, mas o governo da Coreia do Sul não tem autonomia, para promover uma política de conciliação e promover a reunificação. Mesmo assim, graças ao trabalho do povo norte-coreano e à solidariedade internacional do campo socialista, as cidades norte-coreanas foram em pouco tempo reconstruídas (na foto, abaixo, cidade planejada na atual Coreia do Norte).

A RPDC é um país pequeno, seu território de 120.540 km2, mais ou menos igual a três vezes o tamanho do estado do Rio de Janeiro e um pouco maior que Portugal. Sua população é de aproximadamente 25 milhões de habitantes. Pode-se ver que sua capital, Pyongyang, é uma bela cidade de cerca de 3,3 milhões de habitantes, muito limpa, com grandes praças e largas avenidas, destacando-se a Torre da Ideia Juche, às margens do rio Taedong. A partir da década de 1960, a Coreia do Norte tornou-se um país relativamente avançado, com uma poderosa indústria pesada, o povo todo alfabetizado contando com serviços de saúde de qualidade. Cerca de 70% de seu comércio internacional era feito com os países socialistas, em condições vantajosas, inclusive fazendo trocas em espécies.
Perdas - Em 1991, com o fim da União Soviética (URSS), o campo socialista europeu desapareceu totalmente. A partir desse momento, os norte-coreanos só puderam adquirir certas mercadorias com divisas em dólares, no mercado capitalista, e esses dólares a Coreia do Norte não os possuía. Outra perda enorme, para a Coreia do Norte, foi a morte em 1994 do fundador do Estado norte-coreano, Kim Il-sung (15/4/1912-8/7/1994).
Ocorreu também nesse período a melhora das relações entre a China e Coreia do Sul. Isso, em geral, não foi bom para a RPDC. Para complicar ainda mais a situação, entre 1995 e 1996, o território da Coreia do Norte sofreu grandes inundações, afetando seriamente sua agricultura. Em seguida, houve secas e tufões. Tudo isso já era muito difícil. Os governos capitalistas, aproveitando as dificuldades do país, acharam que havia chegado a hora de forçarem a queda do governo popular da RPDC. Impuseram sanções e mais sanções, e, por fim, tentaram provocar uma revolta do próprio povo, mas isso eles não conseguiram. O governo respondeu com o reforço do seu sistema de defesa. Caso contrário, provavelmente, alguma aventura contra o país teria acontecido.
Amanhã publicaremos a segunda e última parte desta história.
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(*) José Lourenço Cindra é professor de física da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Guaratinguetá.
Criado em 2021-08-28 04:00:03
Alexandre Ribondi -
Você não precisa acompanhar o programa Big Brother Brasil para saber as novidades. Você tem, por exemplo, que tapar os ouvidos para não saber que a casa onde ficam os participantes do torneio foi dividida em duas, com gente de cada lado.
Com isso, a TV Globo, emissora que apresenta o programa há 17 anos, está tendo piques de audiência de lamber os beiços. Aliás, bateu recorde de visibilidade.
É de mau gosto indiscutível separar a casa por um muro e batizar um dos lados de Estados Unidos e o outro de México. Afinal de contas, é com a construção desse muro, na vida real, que o novo presidente americano, Donald Trump, está humilhando o país com que faz fronteira e, de quebra, todo o restante das Américas situado ao sul do Texas.
Mas parece que nem os participantes, nem a emissora, nem a audiência e muito menos os patrocinadores (que desembolsaram, há dois anos, cerca de R$ 30 milhões cada um, para terem seus produtos veiculados no programa) estão se importando com isso.
Os Estados Unidos são top e tudo o que eles fazem, por mais monstruoso que seja, vira fascino ou coisa de outro mundo, de tão admirável que passa a ser.
O ataque às Torres Gêmeas de Nova Iorque, em 2001, não afugentou turistas. Pelo contrário, é até hoje visto como um espetáculo que somente o país mais rico do mundo pode oferecer. E ninguém deixa de levar os filhos à Florida por causa dos freqüentes massacres que podem acontecer em qualquer lugar: na lanchonete, no cinema, no aeroporto.
Portanto, é apenas divertido erguer um muro colorido e, com ele, separar os brothers e sisters do BBB.
Na vida real, os mexicanos não estão sendo agredidos e violentados com a construção do muro de verdade, que vai percorrer 1.500 quilômetros de uma fronteira de 3.000 quilômetros, com os custos a serem pagos também pelo México, de acordo com as ideias de Trump.
Para os anunciantes, os telespectadores e para a TV Globo, tudo o que vem dos Estados Unidos é apenas bom e espetacular - nunca é monstruoso, nazista ou racista.
Por isso mesmo é que a emissora, considerada a mais importante do País, tem razões de usar o muro Tex-Mex e não um outro, aquele que separa Israel da Palestina.
Em primeiro lugar, não tem graça - envolve apenas árabes com cara de pobre e judeus de chapéu preto, que ninguém entende muito bem.
Depois, a audiência, e provavelmente os patrocinadores e com certeza os jornalistas da casa, não fazem a menor idéia do que seja isso e nunca ouviram falar de muro no Oriente Médio.
De qualquer jeito, a aceitação do muro do BBB serve para mostrar que o voyeurismo é um gozo que não tem limite. Assim como se aceita brincar com um muro que separa e segrega seres humanos, como se não fosse algo torpe e vil, aceitaremos também cenas de violência sexual, agressão física, preconceitos, exclusão.
Assim como há quem goste, e muito, de diminuir a velocidade do carro para verificar se está escorrendo muito sangue do corpo do acidentado na beira da estrada, o público do Big Brother está pronto pra tudo: muros, estupros, xingamentos, porradas e sangue.
Criado em 2017-03-07 19:43:17
Maria Lúcia Verdi –
“Só depois de haver conhecido a superfície das coisas é que se pode proceder à busca daquilo que está embaixo. Mas a superfície das coisas é inexaurível...” (Ítalo Calvino)
Sei, imagino saber o que verei. Mas não. Surpresas alimentam. A exposição de José Roberto Bassul vai além ao buscar o aquém. Nomeia-se sobre o nada. O concreto, a estrutura, o corpo arquitetónico quer ser quase nada, translúcido ou pura linha, radiografia ao avesso da alma das construções da cidade que, aos sessenta anos, nos coloca dúvidas sobre seu futuro.
Pelo olhar de Bassul, novas cidades invisíveis de Ítalo Calvino, como Marco Polo do Planalto a fixar o que viu para nossos olhares atônitos.
Onde viu, em que reino? O arquiteto-fotógrafo, como o desbravador-narrador Marco Polo quer nos contar o que vê, o além do que está aí. E nosso olhar recebe, percorre, vaga. Maravilha vagar na calma desses recortes emoldurados quando tudo em torno nos diz permaneça!

A pergunta Como ele faz ecoa. Apenas superexposição? Apenas a intervenção na quantidade de luz faz isto, faz aquilo que vemos ali, aquela mágica geométrica, abstrata? O enigma da coisa, a ambiguidade do ver, a fantasia (o fantasma) do invisível no visível. A transcendência do mistério (o além) também pode constituir-se de concreto, ferro, vidro, alumínio (o aquém).
Escreve Marília Panitz, a Curadora: “Não mais ancorado na prospecção do desenho, este ato de exposição retrospectiva (como citação) gera a figura livre das marcas da concretude da vida na cidade. É, portanto, fantasmático, como que formado no fundo do olho, ou mais além dele, no espaço aberto da imagem onírica, paradoxal, dentro da configuração limpa, equilibrada e geométrica que caracteriza as fotos do artista.”
O quase nada é um aquém. Bem-vindo o aquém desse olhar de Bassul, apenas a querer desnudar, tocar (como um vento) o osso-espírito da coisa-cidade. Cidade mãe, cidade algoz, alegria e dor, berço e túmulo.
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Serviço:
sobre quase nada
Local: Galeria Referência
Endereço: SCLN 202, Bloco B, Loja 11 SS - Asa Norte, Brasília – DF.
Visitação: até 11 de abril, de segunda a sexta, de 10h às 19h. Aos sábados, das 10h às 15h.
Criado em 2020-03-09 20:33:13
Angélica Torres –
O bonde de Bolsonaro parece ter se descarrilado do comboio que tomou de assalto o metiê da política tradicional, fazendo uso da cólera como o potente combustível que tem incendiado vários países e conquistado seguidores ao redor do mundo. As jogadas e declarações de Jair Messias para manter-se no poder não se diferem das de Trump e dos premiers do Reino Unido, da Hungria e da Itália, orientados que são por spin doctors, ideólogos, cientistas dos algoritmos, analistas da Big Data, esses criadores do novo jogo político, atuantes desde o início de milênio.
“No mundo de Donald Trump, Boris Johnson, Viktor Orban, Matteo Salvini e Jair Bolsonaro, cada novo dia nasce com uma gafe, uma polêmica, a eclosão de um escândalo. Mal se está comentando um evento e esse já é eclipsado por outro, numa espiral infinita que catalisa a tensão e satura a cena midiática”, explica o cientista político de origem francesa Giuliano Da Empoli, diretor do centro de pesquisa “Volta”, em Milão, Itália, e autor de “Os Engenheiros do Caos”. Lançado há menos de dois meses no Brasil pela Editora Vestígio, o livro revela os bastidores do trabalho empreendido nas redes por esses estrategistas do populismo, para nós, ilustres desconhecidos, à exceção de Steve Bannon.
A nova ordem política que se impõe nos EUA e na Europa é um engenho de fato incendiário, como mostra Da Empoli. França e Alemanha também caminharam por uma linha paralela à desse horizonte arrepiado, tendo os refugiados como o principal bode expiatório deles todos. Na França, 300 mil Coletes Amarelos nutriram-se de protestos explosivos ocorridos em série por todo o país. Os ingredientes: raiva de determinados segmentos populares e o algoritmo do Facebook para espalhar uma epidemia de ódio, do plano virtual ao real. É o retrato da democracia mundial, e não só a brasileira, em vertigem.
Sobre esse tema da imigração, que desperta fortes emoções como medo e ódio, a direita populista acabou se unindo com a esquerda populista, como ocorreu no Reino Unido, por ocasião do Brexit; na Itália, quando Salvini decretou o fechamento dos portos e na campanha do “Fora!”, contra ciganos; na Hungria, com a violenta perseguição por meio de mentirosas acusações de Orban e seus spin doctors (marqueteiros) a grupos de refugiados e de judeus; na Alemanha, com o movimento De Pé (Aufstehen). Tudo isso para dar cabo “da boa consciência da esquerda sobre a cultura do acolhimento, que ameaça a homogeneidade e a identidade cultural dos povos europeus”, segundo relata Giuliano Da Empoli em seu livro.
Outro denominador comum entre todos esses é a aversão que nutrem por certos temas e grupos, tal e qual os da extrema direita cá de baixo, como um front contra a ditadura do politicamente correto e dos direitos das minorias que varrem os valores da TFP de lá e de cá. Nos Estados Unidos, Trump usufruiu do mesmo expediente pela mão de Steve Bannon, este, auxiliado por videogamers da internet profunda e por outros colaboradores, a fim de conquistar o poder.
As referências bibliográficas da pesquisa de Da Empoli preenchem várias páginas do livro e atestam o olhar vigilante dos autores europeus para o fenômeno do populismo digital que, gestado poucos anos antes, eclodiu no planeta a partir dos anos 2000. Ainda em 2013, políticos de partidos tradicionais não poderiam imaginar que a besta, alimentada de ódio, da paranoia e da frustração dos outros, estava já muito próxima. O diretor da campanha vitoriosa do Brexit, Dominic Cummings, deu o seguinte recado em seu blog: “Se você quer fazer progresso em política contrate físicos e não experts ou comunicadores”.
No Brasil - Nesse contexto dos países analisados por Da Empoli, Jair Bolsonaro, o primo pobre de espírito, o bobo da corte e do mau-gosto, o colonozinho medíocre e histérico, abaixo da linha de crítica, mas muito bonzinho para os planos megambiciosos do Grande Mano em relação à nossa América, configura-se apenas como capacho da casinha do cão da Casa Branca, para o trânsito dos interesses do hemisfério Norte. Mesmo assim, o autor de Os engenheiros do Caos dedica uma página à estratégia populista que lhe deu o trono do Planalto.
Da Empoli aponta para o drible da campanha promovida pelos comunicadores desse “Messias” no Facebook, comprando milhares de contatos para bombardear usuários de WhatsApp com fakenews. “Assim foi que os brasileiros assistiram nos últimos anos a ascensão de uma nova geração de extrema direita, que soube explorar o algoritmo da plataforma para multiplicar sua visibilidade e seu faturamento”.
O autor cita o caso dos vídeos conspiracionistas pró-Bolsonaro no youtube para a difusão do vírus da Zika, a partir de 2015, contra os esforços médicos para conter sua expansão; outros vídeos, incriminando as vacinas pela propagação do vírus, levando muitas famílias a recusar os procedimentos imprescindíveis para a sobrevivência dos filhos. Também aqueles vídeos que denunciavam um suposto complô de professores de esquerda para espalhar o comunismo nas escolas e, ainda, os do Movimento Brasil Livre, fundado durante o impeachment de Dilma Rousseff por jovens como Kim Kataguiri e outros seis garotos também postulantes a cadeiras no Parlamento.
Essa gente, que ajudou com empenho na construção do antipetismo, “levou um ex-militar de extrema direita, também muito popular nas redes, à presidência da República”: conta Da Empoli: “O vídeo dos apoiadores de Jair Bolsonaro reunidos em Brasília no dia de sua posse, que gritavam alegremente os nomes do Facebook e do YouTube, rodou o mundo”.
Os trolls - A mídia tradicional e o cidadão brasileiro caem (tal e qual os norte-americanos com Trump), em todas as provocações grosseiras e nos incontáveis disparates do beligerante imitador do chefe do “troll”. No caso de Trump, os jornalistas americanos “fazem publicidade e dão credibilidade para um bilionário nova-iorquino ser o candidato anti-establishment”, ironiza o cientista político. E arremata: “sem os gritos cotidianos e escandalizados dos comentaristas políticos e os intelectuais vestidos de preto, seria difícil para Trump credenciar-se como porta-estandarte da raiva dos abandonados contra o sistema”. O beliscão, aliás, cai muito bem também aqui, para nós do ramo, quanto ao nosso caso.
Para Milo Yannopoulos, parceiro de Bannon na campanha,Trump é um troll. “E os trolls, por trás da superfície da tela, são os únicos que dizem a verdade, revelando a nudez do poder, como os bufões da Idade Média”. Nesse ponto, cá pra nós, Bolsonaro mais se assemelha a um trolado que ao conceito de troll, sem graça, sem charme, sem carisma algum para interpretar o papel. Ainda mais agora, que o resultado do exame de sua contaminação pelo coronavírus já não é surpresa para ninguém, mas o enrola em maus lençóis, dando a impressão de estar jogando a toalha – apesar de sua claque leal, sua raivosa e infeliz plateia.
Já Bannon, observando as forças poderosas e pulsantes sob a superfície das redes, pela frustração e fúria dos que se sentem excluídos da sociedade americana, percebeu ter achado o rumo certo. Foi assim que Trump, ostentando a mensagem “deixe-me ser o porta-voz de sua ira”, chegou à Casa Branca.
Ao expor com riqueza de informações e texto primoroso a situação típica de cada país nessa perigosa e inquietante plataforma digital, o autor de Os Engenheiros do Caos não deixa pontas soltas e ainda traz a revelação, dada por Steve Bannon, de que o epicentro dessa revolução é a Itália. Em 2000, o marqueteiro Gianroberto Casaleggio contratou o comediante Beppe Grillo para o papel de primeiro avatar de carne e osso de um partido algoritmo. Nascia então o Movimento 5 Estrelas, coletando dados de eleitores e suas demandas, livre de base ideológica. Casaleggio, aliás, foi o real criador e primeiro disseminador das fake news, ainda em 2007.
“Quando o muro de Berlim caiu, a Itália se transformou no Vale do Silício do populismo. A operação Mãos Limpas já representava uma abordagem populista: os pequenos juízes contra as elites corruptas. A Itália antecipou em mais de 20 anos a grande revolta contra o establishment, que hoje agita os hemisférios Norte e o Sul, mas seu caso passou despercebido, no âmbito dos alarmes sobre a ascensão da direita e do retorno do fascismo”, protesta Giuliano da Empoli.
A esquerda brasileira, portanto, que abra o olho e leia esse livro com atenção e responsabilidade, se não quer, ela própria, se ver descarrilada da História, em seus novos e desafiadores tempos políticos.
...E voltando daí para Lugano, na Suíça
Em 1999, quando o ovo da serpente já estava bem chocado, outra cientista política e escritora, a franco-americana Susan George, hoje octogenária, lançava na Inglaterra um livro aterrorizante, que chegaria ao Brasil pela Boitempo Editorial, em 2002, a tempo de ser lançado no 2º Fórum Social Mundial de Porto Alegre. O Relatório Lugano teve grande repercussão à época, mas pouco depois silenciaram-se os rumores em torno das previsões nele anunciadas.
O enredo focaliza-se em uma reunião de especialistas e intelectuais, contratados por think tanks e governos para definir o futuro do sistema capitalista, nebuloso, diante de uma população mundial de 7 bilhões de habitantes. Os debates ocorrem na pequena cidade suíça de Lugano, ponto de pouso de milionários do planeta. E a solução lá encontrada pelo colegiado, para a salvação do capitalismo, é o extermínio de um terço da população mundial.
Além da terrível saída oferecida, o grupo sugere as formas de a barbárie ser efetivada a custos baixos, pois dispensam equipamentos especiais e quase não empregam a força humana. Os princípios gerais consideram os erros dos velhos métodos de genocídios como “provinciais e incapazes” e a conclusão é de que o modelo de Auschwitz é o oposto do pretendido.
O método traçado resulta, então, no estímulo a conflitos regionais, epidemias, catástrofes e desmonte de regiões inteiras, tudo sob as aparências de inevitáveis fatalidades. No prefácio à edição brasileira, Susan George diz que o que o leitor lerá é “uma verdade fictícia ou uma fantasia realista”, escrita três anos antes do 11 de setembro nos E.U.
Mais adiante ela afirma não crer em conspirações, embora sim em interesses e que “não ficaria muito surpresa se um relatório dessa espécie viesse a surgir dos subterrâneos de algum escritório de informações de algum governo ou de um grupo de pensadores de direita”.
Vinte e um anos depois de vir a lume, quando o mundo submetido ao desastre neoliberalista e aos subterrâneos da internet vive a pandemia do Coronavírus, O Relatório Lugano continua perturbadoramente atual e com ares de arauto de profecias, deixando os desconfiados de sempre com muitas interrogações coçando-lhes a cabeça. Ficam aqui essas duas dicas de leitura para desfrute durante a quarentena, que pode ser arrastar por mais tempo que o desejado.
Criado em 2020-03-28 00:06:13
Romário Schettino –
o corpo e a mente pedem calma
o tempo corre mais que o vento
de outono
aos setenta
a vista está cansada e as pernas
já não cruzam as ruas com a agilidade
de um guepardo
mas a alma, serena,
alimenta a indignação
solidária
à dor do outro
na quarentena
Criado em 2021-04-20 02:27:20
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Acho estranho alguém das nossas fileiras sentir vergonha alheia do Bolsonaro. Vergonha alheia é uma manifestação da empatia. Você veste a pele do outro, e quando vê que alguma coisa o afeta, você também é afetado.
Sinto vergonha alheia do Lula, quando ele fala besteira. Mas do Bolsonaro eu sinto aversão, asco, nojo, enjoo, repugnância.
Pesquisadores italianos explicaram a empatia em termos fisiológicos, vinculando esse sentimento aos neurônios-espelho. Você se espelha samaritanamente no próximo. Por isso o bocejo é contagiante. E por isso muita gente chora no cinema ao ver o mocinho em apuros, ou fica eufórico quando ele beija a namorada. Alguns, ainda mais animados, chegam a entrar na tela, como a Cecília (Mia Farrow) fez ao acompanhar o Tom Baxter (Jeff Daniels) em Rosa Púrpura do Cairo, do Woody Allen.
Cólica - A empatia tem limites. Como diz o Brás Cubas, “suporta-se com paciência a cólica do próximo”. Em termos artísticos, a empatia leva à catarse. No fim da peça ou do filme, você se sente redimido quando o mocinho faz justiça munido das mais sublimes virtudes morais. Pacificado, você esquece as injustiças promovidas pela Máquina do Mundo neoliberal, e vai dormir o sono dos anjos.
O Bertolt Brecht percebeu essa armadilha e inventou um troço chamado “efeito de distanciamento” para nos lembrar de que o ator está interpretando um papel, não está agindo como cidadão do mundo real. Hoje ele faz o mocinho, amanhã, o bandido, depois de amanhã, alguém de qualidades ambíguas. Distanciando-se do ator (hypocrités em grego antigo), você se mantém alerta, ciente de que está diante de uma peça ou filme. Em vez de mergulhar no turbilhão da obra de arte, você se resguarda com o espírito crítico, pronto para enfrentar e mudar a realidade no dia seguinte, às vezes ao preço de uma noite insone.
Ora, o desgraçado do Bolsonaro faz política como quem atua no teatro. É um performático. Como escreveu a Eliane Brum, ele foi à Assembleia Geral da ONU com o objetivo de debochar do mundo. Quem não percebeu o truque, caiu na esparrela da vergonha alheia, como se ele representasse o Brasil.
Guararapes, o caralho! – Eu nunca senti vergonha alheia do general Geisel nem do general Figueiredo nem do coronel Collor nem mesmo do simplório do Itamar Franco. Pra dizer a verdade, nem dos 7 a 1 da Alemanha contra a Seleção. Sinto um efeito de distanciamento do que se chama “nação brasileira”, a suposta síntese das três raças da Batalha de Guararapes, construto ideológico pra boi voador dormir e pra justificar a origem mítica das Forças Armadas, que foram organizadas de fato só na Guerra do Paraguai. Talvez devêssemos chamar aquela batalha em Pernambuco de Guara-rapes, o segundo termo em inglês…
Eu também não engulo a história da “Roma tardia e tropical” do Darcy Ribeiro. “Nova Roma” é o caralho!
Não tenho nada a ver com o Brasil dos Bolsonaros, da boçalidade, da tortura, dos evangélicos fanáticos, do ogronegócio herdeiro da escravatura nem muito menos com o Brasil do ministro da Aeronáutica, que ainda esta semana bateu palmas para os xingamentos do escroto do presidente da Fundação Palmares contra os militantes do povo negro, desqualificados como “afromimizentos” e “senzala vitimista”.
O meu Brasil não é boçal, é o país da Bossa Nova. Não é da trevas, é do frevo. Não é o país do Ustra, é o que se vacina com a AstraZeneca. Neca de vergonha alheia do inimigo!
Alguns compatriotas simpáticos, como o Caetano Veloso, gostam de repetir uma fórmula do Bernardo Soares (Fernando Pessoa) no Livro do Desassossego: “Minha pátria é a língua portuguesa [com ódio ... (da) página mal escrita … (e da) sintaxe errada]”. A minha pátria não é isso, porque língua portuguesa é o lusitano, e a minha língua é o português brasileiro, cheia de vogais africanas, abundante em solecismos e anacolutos, vibrante na estrutura do tópico-comentário, língua irmã da precedente, sendo as duas filhas da língua galega e netas da língua latina.
Além disso eu prezo muito a cidadania do mundo, sem chauvinismo, jingoísmo, xenofobia. Mas este é assunto para uma próxima crônica & aguda.
Criado em 2021-09-25 18:53:11
Luiz Martins da Silva -
“Triste do país que precisa de heróis”. (Bertold Brecht)
Terrível, mas é dever dos brasileiros genuínos defender o país, o povo, e as instituições das ações nefastas deste esquadrão da morte cívica, pessoas torpes, cujo crime maior é se valerem da própria democracia para destruí-la. E ainda se aproveitando de um momento trágico para o país e para a Humanidade para perpetrar outra tragédia, a montagem de uma ditadura supostamente para atender “o clamor do povo”.
E o fazem glorificando a Deus e vociferando ódio e injúrias, bem como brandindo ameaças e avisando da violência de que são capazes, ‘não uma questão de se, mas quando’. Que República é esta que indivíduos se sentem capazes de quebrar-lhe a espinha dorsal com ‘rupturas’ e consequências ‘imprevisíveis’?
A quem pedir socorro, se as próprias instituições estão em risco? A uma tragédia sanitária se soma outra. Triste da sociedade que tem de se defender de quem se elegeu jurando defendê-la. Mas é um dever, ainda que estejamos fragilizados e exilados das condições de exercermos fisicamente a vida pública. Covardia é pouco para designar a tomada de assalto que está sendo tramada e até mesmo anunciada.
Na frase-epígrafe de autoria do dramaturgo alemão Bertold Brecht, “Triste do país que precisa de heróis”. No caso do Brasil, heróis são os cidadãos comuns que, no seu voto de eleitor e de confiança, empoderam pessoas que se revelam carrascos. O da Economia se gaba de ter colocado uma granada no bolso ‘deles’. O da Educação é tão elitista que não está nem aí para as condições sociais dos candidatos do Enem – “Isto aqui é um sistema seletivo”. E não vai sossegar, se permanecer, enquanto não explodir o busto de Paulo Freire que está em frente ao prédio do MEC, símbolo de uma educação popular.
Quem assistiu algo parecido, aos 13 anos de idade, em março de 1964, conhece os sintomas e as ânsias de náusea face às lufadas do enxofre. Desta vez, no entanto, há acréscimos mais perniciosos do que ideológicos: o linguajar chulo, as vinganças escatológicas, os rompantes e a prepotência: “Vou acabar com esta porra!”; “Tem que prender esses vagabundos!”; e estouros do tipo “Chega, passou dos limites”. Ora, imagine, mexer com “mídia a favor” (leia-se terrorismo digital). Em relação à “mídia do contra” (jornalismo), “Quem for elogiado por ela será demitido”.
Em meio aos desrespeitos às noções básicas da relação intrínseca entre imprensa e democracia (com responsabilidade), sempre as escusas esfarrapadas, “houve má interpretação”; ou autodefesas e advocacias com alegações cândidas, “mero exercício da liberdade de expressão” e pedidos estranhos de habeas corpus, redigidos por solícitos, porém inadequados arguidores de excludentes de ilicitude.
Importante lembrar que a velha Lei de Imprensa previa a ‘exceção da prova da verdade’ como proteção privilegiada ao Presidente e a uma lista de outras autoridades. Tradução: mesmo comprovada uma denúncia, os denunciados podiam processar os jornalistas, os veículos de imprensa e até a gráfica impressora. No momento, os mesmos locutores de impropérios não titubeiam em processar jornalistas, por matérias que julgam ofensivas à sua reputação. E quanto aos assassinos de reputações, que agem clandestinamente (o que é proibido pela Constituição), defendem também para eles uma excludente de ilicitude. Até foram recebidos pelo Presidente como autênticos comunicadores.
Tudo que os déspotas querem é: popularidade baseada em promessas milenaristas e juras de instauração de novos paradigmas morais. Uma vez no “poder”, não conseguem conviver com os pesos e contrapesos das instituições democráticas: a imprensa crítica é a primeira a ser objeto de represálias. A Advocacia Geral da União (AGU) passa a ser vista como advocacia de pessoas; a Procuradoria Geral da República (PGR) passa a ser a instância mais elevada de um sistema de blindagem de governantes; o Judiciário passa a ser visto como polícia política subordinada ao gosto e mando de quem diz com a boca cheia “O supremo, sou eu.
Jornalistas sabem, por experiência cotidiana, o quanto as fotografias desgostam as autoridades. Imagens são reveladoras das expressões faciais de quem trai os ideais em nome dos quais foram eleitos e de quem se vê, em nome da sobrevivência político-fisiológica, obrigado a desrespeitar as instituições democráticas e republicanas. Há nessas feições registros de intranquilidade interior. Também a consciência revela sinais de estafa moral. Exceção a sociopatas, a consciência moral não se ausenta de todo das mentes, mesmo quando os seus sujeitos procuram destituí-la. É mera ilusão acreditar que existam sujeitos psicológicos no exercício de discernimento à prova de remorso.
Vergonha é uma planta que rebrota. Lamentavelmente, quase sempre tarde, mas há exceções. Tenhamos esperança, mesmo quando a desonra ganha foros de autoelogios e deboches por parte de agressores. Forças hão de surgir. As de paz também têm o seu valor. E nem todas as armas têm o porte que a dignidade empresta aos injustiçados. Nem todos os que estão legalmente armados estão dispostos aos usos ilegítimos dos armamentos. Também as instituições têm reputação. As Forças Armadas são do Estado e não para estar ‘comigo’ ou ‘inimigas’.
A quebra de confiança não é algo para queixa unilateral. Também o comandante pode perder a confiança de quem legalmente é comandado, mas já não lhe concede legitimidade. A vaidade no presente pode resultar em saldo de infelicidade no futuro e na História.
Criado em 2020-05-29 18:27:16
José Carlos Peliano (*) –
Estava com a ideia de escrever este texto há dias, mas uma coisa e outra me impediram de fazê-lo. Embora empurrando os dias de isolamento da pandemia com a barriga e a cabeça, a primeira para manter a forma e a segunda para manter os pensamentos em ordem, houve muitas atividades, leituras, estudos, “lives” e laços familiares para segurarem as horas passando e sendo passadas como é possível.
Lá pelas tantas vi em minha biblioteca um livrinho de ditados Zen, abri-o aleatoriamente sem antes não deixar de perguntar qual o meu recado para os dias que virão? A resposta veio: “act without doing, work without effort”. Em minha tradução, “aja sem atuar, trabalhe sem esforço”. Em outras palavras, como diz o verso da música de Zeca Pagodinho “deixa a vida me levar, vida leva eu”.
Aja sim, mas sem intervir, deixe as coisas seguirem como são. No entanto, se precisar que se altere algo, mas sem se esforçar. Como faz um peixe no rio, as águas o levam, quando quer mudar de direção ele apenas meneia suavemente as guelras e segue por outra corrente. Se a vida lhe vem bem, siga-a, se não, mude e vá noutro vento.
Foi aí que me chegou Jung com seu toque do ato “numinoso”, o Zen e eu, “de repente, não mais que de repente”, como me lembrou o verso de Vinícius de Moraes. Me dei conta que a gente sabe o que quer, sim, lá no fundo da gente, de algum lugar que os Freud, Lacan, Jung e tantos outros da vida, tanto procuraram, mapearam e ainda procuram mapear. Ainda que não se tenha certeza, nem que se diga em alto e bom som que não se tem a menor ideia, pois fique sabendo que sabe sim, que a menor ideia está lá onde a gente mesmo muitas vezes se sabota para não ver.
Então, o dito Zen chegou a mim porque eu precisava daquela resposta, eu já a tinha pronta mas precisava de algo externo para me mostrar, me comprovar o que eu já sabia de antemão. Isso é a necessidade do “outro”, seja ele qual for, nem que seja a gente mesmo. A resposta já estava comigo guardada nos meandros da mente, além de já estar seguindo a recomendação antes mesmo de a ter lido, ela apenas me confirmou. Poderia ser sim diferente. Uma outra resposta. O que talvez me fizesse pensar e reformular em mim alguma coisa. O importante foi ver que tudo na vida é uma relação, a gente com a gente mesmo, outras gentes e as coisas. Como em duas ou mais palavras.
Então, da relação entre o que li no Zen e o que já fazia, ou seja, a relação de mim com o mundo externo, vou à comparação entre duas ou mais palavras. Elas podem se assemelhar ou não, levando ao mesmo significado ou a diversos. Tomando emprestado, atrevida e pobremente, a ideia-conceito de Lacan, quando expressa que um significante leva a um ou outros significados. Como, por exemplo, entre “acabou-se o que era doce” e “acabou-se o que era docê”. Duas frases praticamente idênticas, à diferença de um circunflexo, mas de significados distintos.
Pois bem, para onde esta digressão leva este texto? Ela leva ao seu tema central, a diferença que faz uma letra ou pronúncia pelo acento como em “acabou-se o que era docê”. Aqui, o circunflexo altera o significante e leva a frase a outro significado.
Como os “homofonetos” – vocábulo, criado por mim, que apenas mostra quando a mesma pronúncia pode levar a outro ou outros entendimentos, e voltando a Lacan, quando um ou vários significantes podem levar a outro ou outros significados.
Assim, a palavra “eternamente” pode levar a “é ter na mente”, a “éter na mente”, a “eterna mente” e a “é terna mente”. Não é o objetivo aqui, mas só para constar que os homofonetos podem levar à complicação numa relação entre o sujeito e ele mesmo ou entre dois sujeitos diferentes. A complicação surge quando, ao se referir a determinado significado, a pessoa diz e pensa se referir a outro. A constância compulsiva em repetir isso para si ou para outro é que, reduzindo a questão ao extremo, pode acabar em um divã de analista.
Voltando ao que era dos “c” (casa, cabeça e comida), portanto, agindo sem interferir e trabalhando sem me esforçar, fui reler o livreto, chamado à época por panfleto (54 páginas), O Direito à Preguiça, de Paul Lafargue, publicado pela Kairós Livraria e Editora, São Paulo, 1980. Um pequeno grande livro, escrito por nada mais nada menos do que pelo genro de Karl Marx, casado com sua filha Laura Marx. O genro foi um dos principais do movimento operário internacional, tendo esse panfleto original (1880), o trabalho mais editado, traduzido e lido pelo movimento operário europeu, depois do clássico Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels.
Só para situar seu pensamento seguem duas citações sobre sua concepção do trabalho humano: “as nações pobres são aquelas onde o povo se sente à vontade; as nações ricas são aquelas onde ele é, normalmente, pobre” e “trabalhem, trabalhem, proletários, para aumentar a riqueza social e suas misérias individuais, trabalhem, trabalhem, para que, ficando mais pobres, tenham mais razões para trabalhar e tornarem-se miseráveis. Essa é a lei inexorável da produção capitalista” (p. 26).
Guardadas as devidas e honrosas proporções, o que disse Lafargue se assemelha, pelo inverso, ao ditado Zen acima transcrito: agir sem atuar e trabalhar sem se esforçar. Ele complementa atribuindo a Cristo ter pregado a preguiça no seu discurso na montanha (Evangelho segundo Mateus, cap. VI): “olhem os lírios crescendo nos campos, eles não trabalham nem tecem e, no entanto, digo, Salomão, em toda sua glória, nunca esteve tão brilhantemente vestido”.
No movimento operário europeu, Lafargue esteve ao lado de Marx e do político e primeiro líder do movimento na França, Jules Guesde. Os dois, em especial, foram os precursores em levantar à época a luta pelas questões do lazer e do modo de vida operários, que redundou mais tarde na conquista da jornada de trabalho de 8 horas.
Desafortunadamente, ao me ver diante da leitura de O Direito à Preguiça sobre a luta operária internacional por melhores condições de trabalho e vida quando li Jules “Guesde”, me esbarra em forte pancada na mente a triste lembrança de Paulo “Guedes”, o oposto, integrante do movimento neoliberal na luta pelas melhores condições de renda e patrimônio da classe bancária e financeira. Que estrago faz um “s” em lugares diferentes em dois vocábulos de raiz semelhante, não?
Aqui não se trata de mesma pronúncia de palavras com significados diferentes, mas de uma letra em posições diferentes em duas palavras que leva a significados terrivelmente desassemelhados. É a velha e conhecida constatação de Marx que indica: “a história se repete a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Na minha leitura, o Guesde da luta operária agora vê sua farsa personificada em Guedes. A tragédia se deu na ditadura quando muitos trabalhadores sofreram no corpo e todos eles no bolso. A farsa se dá agora com a figura que descura sem fé nem piedade a nobre profissão do economista. Guedes vá ler Marx e Lagarde para você, quem sabe, conseguir ver a desgraça e a destruição que traz e provoca aos trabalhadores brasileiros.
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(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor, economista.
Criado em 2020-06-07 00:56:03
José Lourenço Cindra (*) –
No dia 23 de julho o Partido Comunista da China (PCC) completou cem anos de existência. A abertura do Congresso de fundação do Partido ocorreu em Shangai, nesse dia em 1921. Presentes estavam 13 delegados, inclusive Mao Zedong, representando 53 comunistas.
Passados 28 anos o PCC chegava ao poder em toda a China, e Mao Zedong proclamava a República Popular da China em primeiro de outubro de 1949, depois de vencer todos os exércitos do Kuomintang, sob o comando de Chiang Kai-shek, que teve de se contentar com um refúgio em Taiwan, com toda a sua camarilha de reacionários, apoiado pelos imperialistas norte-americanos.
Nesses cem anos, o PCC passou por muitas vicissitudes, sem, contudo, perder o vínculo com o povo. Como recentemente fez lembrar o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, é uma convicção geral do povo chinês que sem o Partido Comunista não haveria a nova China.
Hoje o PCC, com mais de 95 milhões de filiados, é o maior Partido Comunista em todo o mundo.
As grandes conquistas do povo chinês, no decorrer deste século, se devem ao PCC. Houve erros e acertos, houve desvios esquerdistas e desvios de direita, até chegar às reformas de Deng Xiaoping.
As reformas introduzidas por Xiaoping em 1976 foram bem sucedidas, porque o PCC não perdeu sua hegemonia na sociedade chinesa. A Perestroika e a Glasnost de Gorbatchev na URSS deram com os burros n´água, em grande parte, porque o partido já havia perdido credibilidade. O mesmo não aconteceu com o partido chinês, com sua autoridade cada vez maior.
A China avança celeremente no campo da ciência e da tecnologia. Foi-se o tempo em que a China era humilhada pelas potências estrangeiras. A pobreza absoluta foi superada, mas os comunistas chineses reconhecem que o comunismo é uma meta distante. Inclusive, quando começaram as reformas de Deng Xiaoping, eles reconheceram que a China ainda se encontrava na "fase primária da construção do socialismo". É um fato que muitos que se dizem de esquerda às vezes esquecem que o socialismo pleno só pode ser construído em uma sociedade de abundância. Mas é também verdade que sempre há o perigo de haver aumento da desigualdade social em meio à abundância.
Creio que a China moderna convive com essas contradições. Tenho a impressão que na China ainda deve haver um núcleo duro de marxistas-leninistas convictos (adeptos do pensamento Mao Zedong, como eles dizem) que quer mesmo preservar as conquistas do socialismo, e deve haver também setores entusiasmados com o "socialismo de mercado" e pouca preocupação com o futuro do socialismo.
Talvez, para a sorte do povo chinês, quando os EUA começam a fustigar a China, seus dirigentes fiquem mais espertos e mais convictos que a sobrevivência de uma China próspera só será possível enquanto existir um Partido Comunista coeso e decidido a defender o povo chinês contra as ameaças do imperialismo.
Em geral, a mídia ocidental propaga a visão de que o dirigente atual da China, XI Jinping, não brinca em serviço, ele é pragmático e decidido a defender as conquistas do socialismo.
Que assim seja!
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A essência criminosa dos EUA em Cuba
O presidente dos EUA, Joe Biden, é um demente. Não sou eu quem diz isso, foram alguns admiradores de Donald Trump durante a tumultuada campanha eleitoral do fim de 2020. Diziam que Biden sofria das faculdades mentais. Não sei se é verdade. Só sei que o homem quer superar Trump na sua sanha assassina contra o povo cubano. As 243 sanções impostas por Trump contra Cuba, para Biden ainda são poucas. Tudo isso é uma loucura total, mudam os mandatários na Casa Branca, mas não é alterada a essência criminosa do imperialismo norte-americano contra o povo cubano.
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(*) José Lourenço Cindra é professor de física na Faculdade de Engenharia, da Universidade Estadual Paulista (FEG-UNESP), campus de Guaratinguetá.
Mais informações sobre a diplomacia chinesa no site da Embaixada China:
http://br.china-embassy.org/por/
Criado em 2021-07-25 13:31:14
Em nota divulgada sábado (16/9), os deputados Ricardo Vale (líder da bancada do PT) e Chico Vigilante explicam a alternativa que poderá evitar o parcelamento dos salários e possibilitará o pagamento em dia dos terceirizados do Distrito Federal.
A proposta é uma alternativa ao projeto do governo que tinha objetivo de unificar os fundos do Iprev e gastar toda poupança dos servidores públicos do Distrito Federal.
O terceiro deputado da bancada petista, Wasny de Roure, não assina a nota por discordar da estratégia de negociação. Aliás, essa não é a primeira vez que discorda de seus colegas de bancada.
A alternativa petista está sendo construída junto à liderança do governo e inclui pontos inegociáveis como o não parcelamento dos salários; a manutenção da segregação dos fundos previdenciário e financeiro; a manutenção do montante bruto do Iprev; e a proibição da venda de estatais.
Dessa forma, estuda-se a elaboração de um projeto de lei de consenso que permita ao GDF honrar o pagamento de salários dos servidores, dos terceirizados e que mantenha a poupança do Iprev pra os aposentados do futuro.
A seguir, a íntegra da nota:
“À população e aos servidores do Distrito Federal, sobre a previdência dos servidores públicos distritais,
Nós, deputados do PT, nos posicionamos contra o projeto de lei complementar que o GDF mandou para a Câmara Legislativa com o objetivo de unificar os fundos da previdência e, principalmente, com o objetivo de gastar toda a poupança dos servidores públicos, guardada para pagar suas aposentadorias no futuro, e constituída principalmente no governo Agnelo.
Trata-se de um projeto sem preocupação com a sustentabilidade do DF, como, aliás, têm sido as ações do atual governo, que nada faz a não ser reclamar do passado.
No entanto, reconhecemos os problemas conjunturais por que passa o Distrito Federal, frutos da crise política causada pelo golpe contra a presidenta Dilma e da inércia do governo Rollemberg na busca de soluções para os problemas de seu governo.
Por isso, por termos responsabilidade com o Distrito Federal, com os servidores públicos e com nossa população, abrimos um canal de diálogo com o líder do governo para evitarmos, de um lado, a aprovação do projeto tal como proposto pelo Poder Executivo e, de outro, construirmos uma proposta alternativa que evite o parcelamento de salários dos servidores e permita que os terceirizados recebam seus salários em dia.
Nesse sentido, colocamos como princípios sobre os quais jamais abriremos mão:
1º) não parcelamento dos salários dos servidores e pagamento em dia dos de todos os servidores e todos os trabalhadores terceirizados;
2º) manutenção da segregação dos servidores nos dois fundos: o financeiro e o previdenciário;
3º) manutenção dos valores principais acumulados até o momento no Fundo Capitalizado;
4º) proibição da venda de empresas estatais.
Em razão do compromisso do líder do governo com esses princípios, está sendo elaborado um texto alternativo ao projeto do Poder Executivo para permitir que os juros ganhos no Fundo Capitalizado nos anos de 2016, 2017 e 2018 possam ser usados para pagar os aposentados e pensionistas do Fundo Financeiro.
Isso permitirá ao atual governo honrar todos os compromissos com a classe trabalhadora até o final do seu mandato, parando de uma vez por todas com atrasos e ameaças de parcelamento de salários e, ao mesmo tempo, garantindo que fique na poupança mais de R$ 4 bilhões no Fundo Capitalizado para garantir o pagamento de aposentadorias futuras.”
Assinam: Deputados distritais Chico Vigilante e Ricardo Vale.
Criado em 2017-09-18 00:48:23
A Universidade de Brasília sedia, pela quarta vez, uma das 74 reuniões anuais da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Nada mais oportuno para comemorar os 60 anos da universidade do que o lançamento do livro UnB Anos 70 - Memória do Movimento Estudantil, em três ocasiões: dias 26, 27 e 28 de julho.
O primeiro lançamento acontecerá na UnB-SBPC, dia 26/7 (terça-feira, a partir das 18h, no Anfiteatro 9, no Minhocão), com debate dividido em duas partes. Uma com ex-estudantes da Geração 70 que se dedicaram à atividade parlamentar e outro com o Conselho Editorial.
O segundo, acontecerá no Cine Brasília, na quarta-feira, 27/7, a partir das 18h, com exposição, mostra de filmes e debate sobre “a UnB no Cinema” (com Vladimir Carvalho, Fernando Duarte, Maria Coeli Vasconcelos, Dácia Ibiapina, Maria Maia, Jimi Figueiredo, Marcos Mendes, Hélio Doyle, Lino Meireles, Antônio de Pádua Rangel, Caetano Cúri e o diretor da TV UnB, Rafael Vilas Boas).
E o terceiro, será no Beirute (109 Sul), dia 28/7, o bar mais estimado e tradicional da cidade, e terá caráter festivo. Início às 18h.
Em todas as ocasiões haverá vendas e autógrafos dos 40 autores deste livro-coletivo, publicado pela Alameda Editorial (470 páginas, com mais de 70 fotos e colagens). Capa com foto de Kim-Ir-Sen Pires Leal, design de Fernando Travassos Falcoski. Apresentação de Renato Janine Ribeiro, professor de Ética da USP e presidente da SBPC. “Orelhas” assinadas pelo professor-emérito da UnB e cineasta Vladimir Carvalho.
UnB Anos 70 Memória do Movimento Estudantil tem organização de Maria do Rosário Caetano, com colaboração plena de Tereza Cruvinel, Carlos Megale, Davi Emerich, José Umberto de Almeida, Flávio Alberto Botelho, William Devoti, Luiz Antônio Nigro Falcoski, Walter Peninha e Marco Antônio Ribeiro Vieira Lima.
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A seguir textos relacionados aqui
Criado em 2022-07-22 03:32:19
Maribel Acosta Damas (*) –
Nasci em Cuba. Sou das gerações que nasceram depois da revolução. Vivo em Cuba e tenho idade suficiente para narrar parte dos últimos 60 anos com consciência de quem os viveu.
Nos anos 80 me graduei como jornalista na Universidade de Havana.
Nos anos 90 trabalhei na TV, reportando os eventos desses tempos especiais. Ninguém diz que tenha sido fácil. Várias gerações nasceram e cresceram sob a incerteza de quem será o próximo presidente dos Estados Unidos, qual será a sua política em relação a Cuba, e seu maior ou menor impacto sobre os migrantes que vivem em Miami, e seu ódio feroz em relação à Ilha.
Nascemos e crescemos sob o bloqueio imposto pelos Estados Unidos desde 1962 (ano em que nasci).
O bloqueio não é um slogan revolucionário para esconder erros do governo cubano. E o bloqueio não nos pôs a chorar e a lamentar nossa sorte. Este País tem feito muito, e ninguém decente pode duvidar das políticas corretas e óbvias na educação, na cultura, na ciência e na vida digna da população. Não importa de que lado você esteja…
Conto a minha vida porque sou apenas mais uma pessoa entre muitas, e minha história é apenas mais uma. Sou uma pessoa de uma família humilde. Me fiz jornalista, doutora em Ciências da Comunicação Social e Mestre em Ciência da Informação. Meus irmãos são profissionais. Meu filho é estudante da Universidade de Artes. É musico, e compositor…. Não me recordo de ter muitos sapatos, nem roupas caras ou não caras, nunca. Sim, me recordo de ter tido muitos livros, sempre. Toda a coleção de Tolstói e Dostoievski e Vitor Hugo, e Zola e Balzac… em edições péssimas que despregavam as páginas na medida em que se lia… mas o que importava era o que se estava lendo, e eram livros muito, muito baratos… Eu não sei o nome da maioria das firmas comerciais, me atordoam os mercados e as superlojas, as lojas de departamentos, porque não estou acostumada. Cresci com o essencial, nada mais. E sobretudo cresci com a utopia de um mundo melhor.
Existe uma frase que os cubanos repetem continuamente e que é polissêmica (tem vários significados): “Não é fácil!” A utilizamos nos momentos ruins, nos bons, nos momentos de risos, nos amorosos, nas festas de bairros, nos velórios, nos casamentos e nos nascimentos. Assim se resume nosso dia a dia, incorporando algo assim como é o que se tem para continuar adiante e ganhar a vida… E não é conformismo. É força. É esperança…
Minha vida profissional me tem levado para o mundo todo; quase toda a América Latina, Europa, um pouco da Ásia e África. Visitando universidades e outros locais para fazer reportagens dos acontecimentos. E guardo para mim a beleza do Lago Bled na Eslovênia, o horror da Central Termonuclear de Chernobyl, ou a maravilha do rio Pilcomayo na fronteira do Paraguai com a Argentina, com a imagem dos médicos cubanos ajudando as comunidades pobres.
Nunca quis ficar em nenhuma parte. A Ilha é um ímã, e como boa cubana, fico mobilizada com qualquer coisa que possa ajudar a minha família, os meus amigos e os meus vizinhos do bairro. “Não é fácil!” E aprendemos a rir de nós mesmas, as formiguinhas que carregam esse peso nas costas para o formigueiro, enquanto levamos nas mãos um poema de Jorge Luis Borges ou de Benedetti, ou As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano…
O que se passa agora? Imagens carregadas de violência têm corrido o mundo. Algumas são certas, a maioria fabricadas ou copiadas de outras partes do mundo e utilizadas como supostas situações caóticas de Cuba. É uma vergonha jornalística. Um desrespeito à dignidade humana. Sim, houve explosões sociais. Sim, houve saques e vandalismo. Sim, existe um processo de fratura social e desgaste econômico, humano e emocional que a Revolução tem que atender de maneira urgente em meio à pandemia da Covid, do bloqueio cada vez mais brutal e do próprio dano social que o País sofreu.
Mas, em minha opinião, Cuba não tem do que se envergonhar. A Revolução é um fenômeno complexo, e tudo o quanto se pode fazer tem sido feito, em condições tão duras e tão heroicas, que vale a pena lembrá-las a cada dia para que nós mesmos não fiquemos em dúvida…. e aspiro que isso continue se repetindo. O cenário de hoje é sem Fidel, com uma nova direção do País, da minha geração, que também está aprendendo a governar. Mas ninguém diz que o Presidente é um corrupto ou um inepto ou um bandido. E isso é o que se diz de muitos outros em toda a minha amada América Latina, lamentavelmente. Podemos dizer que está tudo tranquilo e que não está acontecendo nada? Isso não é certo. Aqui está acontecendo muita coisa: temos em jogo a Revolução, a história vivida e a luta de cada minuto nesses 60 anos.
“Por isso temos que ser duros – nada de lamentações! Há muito para se fazer: dialogar, participar, desbloquear, recuperar e estimular… Nenhuma internet, nem campanha suja, pode se sustentar contra a realidade e a coesão. E é na realidade que está o futuro. Não se pode ser tolo, porque seria suicídio.”
Vejo que existem sinais importantes de consenso sobre alguns dos seguintes pontos:
- No a la intervención militar estadounidense ni de lacayos.
- No a la violencia.
- No al comprometimiento de la soberanía.
- No al bloqueo.
- Repensarnos de nuevo y rápido.
- Participación popular en particular de los jóvenes.
Resultados, Resultados entre todos!
Temos que seguir observando os acontecimentos. Não aceitar o caos, nem relaxar. É muito complexo. Porém, aí está a enorme reserva moral do povo cubano, meu povo… ela pode estar fatigada, mas está viva.
Não é fácil! E cada um que ponha seu significado; o meu, extraí de José Martí.
______________
(*) Artigo publicado dia 21/7/2021 no Cuba em Resumo. E em português no site Terapia Política.
(Tradução: André Amaral e Celia Bartone, não revisada pela autora).
Criado em 2021-08-08 22:37:24
Via RT en Español
Criado em 2018-12-11 10:50:57
Alexandre Ribondi -
Ou foi em 1970 ou em 1969, e eu entrei, às escondidas, na sala Villa-Lobos inacabada. Tinha arquibancadas, mas ainda não tinha as poltronas. Penumbra no meio da tarde.
No subsolo, escuridão e um delicado barulho de água: diziam que havia uma fonte lá. Ruídos estranhos, rangidos: diziam que era o fantasma de um operário morto na construção.
E tudo ficaria pronto mesmo 10 anos depois. Afinal, a cidade inteira estava sendo construída.
Hoje, o Teatro Nacional está fechado, sem prazo para reabrir. Que o Governo do Distrital tenha deixado estragar o prédio e que tome providências urgentes para recuperá-lo faz parte da histórica incompetência e da ignorância da administração brasileira.

Nossos governantes, salvo poucas exceções, não conseguem entender a importância da cultura e a grandeza de uma obra como o Teatro Nacional. Mas surpreende, e entristece, ver que os brasilienses não sentem falta alguma das salas Villa-Lobos e Martins Pena e não se preocupem com o fato de a Orquestra Sinfônica já não ter sequer endereço fixo: ensaia ora aqui, ora ali.
A burra elite da cidade se diverte, como sempre, com falcatruas de grosso calibre e com telenovelas pífias - não precisa de salas de teatro, já que arte é produto que ela não consome.
E quando consome, é pra ver peçoilas mal feitas, com elenco que estava na última novela: querem saber se o ator é bonito também ao vivo, se a atriz está envelhecendo bem.
A trama da peça, os questionamentos da vida, o deleite diante da beleza não importam.
Esse tipo de público, acomodado em seu conforto, não quer questionar nada, é incapaz de se emocionar com o belo. Enquanto isso, a classe artística do DF se espreme nas outras salas de teatro - mas isso, acredita o GDF, não é problema dele. Isso é problema dos artistas.
Agora, é bom perguntar: quem se envergonha e se sente desprezado ao ver as ruínas do Teatro Nacional? Uma meia dúzia de gatos pingados, que acredita que a arte causa impacto, altera a alma, gera trabalho e magistralmente xinga os poderosos.
Criado em 2016-07-18 15:48:02
Maria Lúcia Verdi –
“...Todos os caracteres nobres não adquirem,
sem doloroso aprendizado, a desconsoladora
ciência que se chama ceticismo. Cada ilusão
que se desvanece é um golpe fundo no mais
sensível da alma, e os conflitos da vida social
deixam feridas que só lentamente cicatrizam...”
Júlio Dinis (Porto 1839-71)
Porto é sinônimo de chegada e partida, bem como de lugar seguro. O tempo é por excelência inseguro, instável, nele ocorrem nossas chegadas e partidas. Cada tanto encontramos algum porto mas, segundo os mestres zen, a nenhum deles devemos apegar-nos.
Volto ao Brasil, a Brasília, depois de um mês longe das barbaridades nacionais. Chego de um país atualmente socialista (alvíssaras!) e aterrissoo num país que já se considerou “abençoado por Deus”, no melhor sentido da expressão. Vontade de compartilhar algo do vivido, aprendido e cansaço frente ao confronto das realidades. Esforço para que dificuldade não se transforme em impossibilidade.
Porto, uma cidade à beira de um rio, um rio que se une ao mar. Gaivotas em permanente voo e canto. À noite, transfiguram-se essas gaivotas - o que são essas formas brancas que, iluminadas, cruzam o céu e nos fazem alçar constantemente a cabeça? Sim, são gaivotas, mas também pontuam um aqui e agora: estou à beira mar, distante do planalto central.
Pelas ruas, nos jardins, nas casas, no chão, por toda parte árvores repletas de camélias, laranjeiras, limoeiros e tangerineiras. Cidade assim pontilhada de rosa, branco, vermelho, laranja e amarelo – contraste permanente com o azul e branco dos icônicos azulejos. Natureza e cultura, tranquilidade, segurança, diálogo do antigo com o contemporâneo, uma cidade humana. Duro demais ver Brasília, planejada para ser tranquila e igualitária, transformada numa ilha de bem-estar e beleza pontilhada pela miséria sem cor.

Exílio
Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades
(Sophia de Mello Breyner - Porto, 1919-2004 - Prêmio Camões 1999)
Na biblioteca Almeida Garrett, nascido no Porto como outros grandes - cito os mais conhecidos por aqui: Júlio Dinis, Sophia de Mello Breyner, Agostinho da Silva, Manoel de Oliveira – situada nos jardins do antigo Palácio de Cristal (“Jardins dos Sentimentos” – leia-se e escute-se com a pronúncia lusa, que intensifica a beleza do nome) peço para ver o filme “Porto da minha infância”, realizado por Manoel de Oliveira, por encomenda, em 2001, quando aquela cidade foi capital europeia da cultura.
Manoel de Oliveira (Porto, 1908-2015) ama-se ou odeia-se, dizem. A estética realista, lenta e sutil reitera detalhes. Uma filmografia sintonizada com o que percebo (que se escute o sotaque) desse norte de Portugal. São fundamentais a presença do Tempo, da História e da Literatura em sua obra, assim como nas marcas que essas três grandes categorias deixaram na cidade. Do Porto da infância de Manoel restam poucos espaços que se mantêm mais ou menos como eram.
Diz o cineasta português: “O Cinema é o espelho da vida. E não só é o espelho da vida como não há outro, é o único espelho da vida. E sendo-o é também a memória da vida.” O amante da literatura afirma a predominância da imagem em movimento sobre a palavra romanceada ou teatralizada; o cinema permitindo que a complexidade das elipses, dos silêncios, dos labirintos do humano se faça intuir nos rostos, nos corpos dos atores que têm sua atuação congelada em película. “Os rituais são muito importantes. Sem eles, a vida seria indecifrável. O cinema não filma senão isso, um conjunto de signos, de convenções. A vida é um enigma, não é legível. São os rituais que nos permitem lê-la.” Decifram verdadeiramente a vida os rituais ou ela os supera? A ilegibilidade da vida é questionada pelo cinema de d´Oliveira.
Esse poeta da imagem e do mistério retira seu material do concreto: “Desconfio sempre da imaginação.” Mostra-nos a angústia dos personagens, sem nunca as desvelar completamente, em enredos que “são histórias de agonia, da agonia no seu sentido primeiro, no sentido grego, `a luta`”. Manoel desenvolveu essa percepção da luta, da agonia, do mistério, no cenário em que nasceu, entre o rio Douro e o Atlântico, observando as gentes a lutar com o mar, a caminhar por entre as ruas escuras, os prédios barrocos, as inúmeras igrejas, os azulejos que recordam, onipresentes, o peso do tempo e da história, a angústia da finitude e o apelo à divindade.
Humanista, libertário sem rótulos, recorda com propriedade: “O que mais me marcou, no aspecto social e mundial, foi o 25 de Abril. Foi o ato que mais me marcou. Por quê? Porque o 25 de Abril, em si, tem um momento extraordinário: os militares, que fizeram o 25 de Abril, não desejavam tomar o poder. Fizeram-no para entregar o poder democrático ao país. Este é um caso raro e único”. Enquanto nós, vivemos o que vivemos e estamos a ver a triste repetição de militares por todos os lados.
Dos nascidos no Porto, me deterei em Agostinho da Silva (1906\1994) por ter ele tido intensa relação com o Brasil. Ao contrário de Manoel de Oliveira, confiava na imaginação, tendo-a como essencial, mas, como o grande cineasta, convivia com o mistério. Foi filólogo especialista nos clássicos, filósofo, pedagogo, poeta (da linha de Fernando Pessoa, seu mestre) e tradutor, tendo vivido no Brasil de 1947 a 1969. Fugindo da ditadura de Salazar, Agostinho trabalhou na Fundação Oswaldo Cruz (RJ), onde estudou entomologia; lecionou filosofia nas universidades federais do Rio de Janeiro, Pernambuco, Minas, Goiás e Paraíba, bem como Filosofia do Teatro na Universidade Federal da Bahia. Em 1954 colaborou na organização da Exposição do Quarto Centenário da Cidade de São Paulo. Em 1961 foi assessor para a política externa de Jânio Quadros. Criou o Centro Brasileiro de Estudos Portugueses da Universidade de Brasília. É um dos fundadores da Universidade Federal de Santa Catarina e idealizador do Centro de Estudos Afro-Orientais, de Salvador.
Utopista, recriou o sebastianismo português, imaginando o Brasil como capaz de vir a ser uma grande força civilizatória, acreditando, mesmo, ser este o destino de nossa pobre nação. Releiam gentilmente a citação inicial desta matéria.
Agostinho, além de ter revisto o sebastianismo português, era, como o Padre Antonio Vieira (1608-1697) milenarista, acreditava num futuro longo tempo de paz, sob o império de Cristo. Vieira acreditava ser Portugal predestinado a ser um Quinto Império do futuro, a propagar a paz e a fé. No século XX, Agostinho viu o Brasil como a potência destinada a ter esse papel. O milenarismo, relacionado ao místico sebastianismo português do século XVI (o retorno do rei perdido na batalha de Alcácer Quibir e a retorno de um Portugal poderoso e independente), ecoou no Brasil em três movimentos, o mais importante deles o de Antonio Conselheiro pregando, em Canudos, a volta da monarquia. Na Ilha de Lençóis, no Maranhão, acreditam que Dom Sebastião aportou por lá e se transforma, periodicamente, num touro negro e Encantado. Como diz Fernando Reis, autor de Falta um Cão na Vida de Kant e do ainda inédito “Vidas paralelas – o Padre e a Rainha”, (sobre Antonio Vieira, sua relação com a rainha Cristina da Suécia e o tempo em que viveram): “Viva a ilusão!”
Humanista provocador que se auto definia como um “nacionalista místico”, Agostinho foi amigo e influenciador de Glauber Rocha, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Mautner e do parceiro Roberto Pinho. Pensador polêmico, aproxima o panteísmo ao cristianismo milenarista, comprometendo-se, sobretudo, com os ideais da liberdade e da justiça social. Para este portuense peculiar todos têm um poeta, um criador dentro de si– a imaginação é qualidade fundamental a ser descoberta e estimulada desde a infância.
Crítico radical do consumismo capitalista, diz coisas como: "Os economistas tinham sobretudo a obrigação de não nos andarem a calcular inflacções e a taxa de juros e essas coisas, mas dizerem de que maneira é que nós podemos fazer avançar a gratuidade da vida." Gratuidade também no sentido do que é gratuito mas, creio, sobretudo no sentido poético da gratuidade da vida, sem justificativas, sem explicações lógicas para a vida. A gratuidade de que trata a obra de Clarice Lispector, por meio das epifanias que acometem seus personagens.
"Temos, sobretudo, de aprender duas coisas: aprender o extraordinário que é o mundo e aprender a ser bastante largo por dentro, para o mundo todo poder entrar." Largueza esta que nos está a faltar, haja vistas os radicalismos atuais. Personalidade, a de Agostinho, que poderia ser aproximada à do Papa Francisco, quem, segundo Leonardo Boff “é o único na história dos papas que ataca de frente o sistema hegemônico mundial e toma a posição das vítimas, defende os pobres do mundo, um novo tipo de relação com a terra, não de uso, mas de cuidado, para que se possa atender a toda humanidade, e não só os ricos.”
E para terminar as citações de Agostinho da Silva, compartilho uma que certamente provocará desconforto: "Podes, e deves, ter ideias políticas, mas, por favor, ´as tuas´ ideias políticas, não as ideias do teu partido; o ´teu´ comportamento, não o comportamento dos teus líderes; os interesses de ´toda´a Humanidade, não os interesses de uma ´parte´ dela. E lembra-te de que ´parte´ é a etimologia de ´partido´." Muito antes de que se falasse no tema, Agostinho imaginava um bloco de países independentes, não alinhados nem aos EUA nem a antiga União Soviética.
Partido, parte, me traz à mente os que estão apartados, emprisionados no espaço embora não necessariamente no tempo. E decido terminar esta matéria retornando ao Porto histórico e ao atual. O imponente prédio da antiga prisão do Porto (a Cadeia e Tribunal da Relação, construída no final do século XVIII) foi reformado e hoje abriga o esplêndido Centro Português de Fotografia, que contem museu e espaços para mostras e seminários; lá pude ver a mostra Murmúrios do Tempo, composta por tocantes fotografias de antigos presos.

Entre os que lá penaram, encontra-se o poeta romântico Camilo Castelo Branco. Preso por ter tido um caso com a mulher de comerciante rico (e brasileiro…) lá escreveu, a propósito, Amor de Perdição; de sua cela divisava uma bela vista e recebia visitas, inclusive a do Rei Don Luís.

Outros tempos esses em que um simples amor fora da lei justificava um encarceramento. Os tempos que são outros e o mesmo pois ainda hoje os exercícios de liberdade amorosa são penalizados de todas as formas sendo que delitos imensamente maiores não são punidos com justiça.
Por outro lado, felizmente, permanecem ainda parcialmente as mesmas as tantas caras do Tempo, expressas nas artes, em cidades como o Porto. Porto onde nasceu, pela imaginação de Fernando Pessoa, o médico-poeta Ricardo Reis (1887-1919) tendo, como Agostinho, vivido como expatriado no Brasil. Verdade e ficção, tempo e memória – tudo verdade.
Uns, com olhos postos no passado,
Veem o que não veem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, veem
O que não pode ver-se.
Por que tão longe ir pôr o que está perto –
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Criado em 2020-02-27 00:42:43
Angélica Torres (*) –
O amor plurinacional de Mário
amo e Mário eu amaria
se o Tempo nos brindasse
contemporâneos
Mas ele não gostava de moças
E eu restaria engastada nas matas
ou nas águas de Wyara
silvícola selvagem solitária
Pensando bem quem sabe assim
ele me amasse Talvez
assim Mário me amaria em nossa breve escala em Pindorama
Assim minh'alma teria sentido:
eu seria toda uma casta de árvores igarapés veredas planetária
a seu amplo e libertário espírito
Juntos nós dois
teríamos sido
um invencível exército
anti-império capitalista.
(*) Poema dedicado a Mário de Andrade, pelo aniversário de 75 anos de sua morte (25/2/1945), mas também à Escola de Samba Unidos de Vila Isabel com o desfile "Gigante pela Própria Natureza", na madrugada desde mesmo dia - pela grandiosidade e generosidade do carnaval do colégio de bambas do Rio, a cada início de ano reaquecendo o orgulho pra com a cultura brasileira e mais ainda: reafirmando o talento artístico do povo afrobrasileiro e sua fundamental importância na constituição da brasilidade. Mário de Andrade se sentiria parte legítima do desfile se o assistisse e certamente que chorando de emoção (também de tristeza, pelos tempos tão cruéis pra com o país). Angélica Torres Lima.
Criado em 2020-02-25 14:28:11
Romário Schettino –
A confirmação de que os processos contra Lula na Lava Jato foram extintos por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal (STF) provocou frisson na imprensa corporativa e nos meios políticos. Essas pessoas procuram, desesperadamente, por uma terceira via.
No Palácio do Planalto, a coisa tomou as costumeiras proporções. Bolsonaro esbravejou, xingou todo mundo e fez ameaças: “Isso que está aí não vai ser possível continuar”. Hã, entenderam? Ninguém sabe a que ele se refere porque não são palavras de um estadista, mas de um provocador barato, amante da instabilidade e do caos.
Bolsonaro fala para sua turma com o objetivo de garantir o eleitorado, que, aliás, vem diminuindo a cada derrota política e jurídica. Mesmo assim, Bolsonaro não é desprezível eleitoralmente. Ele, que tem a chave do cofre, e Lula, que possui história e experiência acumuladas, ainda são os nomes nacionais de maior visibilidade.
A novidade dramática da semana foi a reação de Bolsonaro à decisão da ministra Carmem Lúcia, que deu cinco dias para o presidente da Câmara, Arthur Lira, dizer por que não instalou processo de impeachment contra o presidente. Numa daquelas laives, que mais parece a de um refém falando de um esconderijo secreto – só falta o capuz –, Bolsonaro disse: “Só Deus me tira da Presidência”.
Imediatamente circularam na internet piadas mostrando Lula como aquele que pode operar esse milagre (foto) e livrar o Brasil do pesadelo que as classes dominantes vêm alimentando desde 2013.
Mas, voltando aos efeitos da decisão do STF sobre o futuro na nação. É curioso que analistas na televisão, jornais, portais e revistas insistem em dizer que a decisão do STF não entrou no mérito e que considerar Lula inocente destrói o que eles chamam de brilhante trabalho da Lava Jato no combate ao maior esquema de corrupção da história.
Na verdade, eles não sabem o que fazer com o power-point do Dallagnol, endeusado por todos os anti-Lula. Talvez devessem enfiá-lo naquele lugar aonde não bate sol.
Esses sanguessugas da vida nacional estão prevendo uma enxurrada de pedidos de revisão de sentenças para liberar corruptos das prisões, como se isso fosse automático.
Convenhamos, um erro judicial não pode ser corrigido a tempo de salvar uma reputação? Lula ficou injustamente preso durante 580 dias, teve seu nome achincalhado durante cinco anos por um juiz suspeito em uma vara incompetente. Retiraram dele o direito de concorrer em uma eleição, numa vergonhosa manobra que uniu o juiz suspeito e a imprensa pra lá de corrompida.
O que esses analistas e políticos de direita querem é afastar qualquer possibilidade de Lula ir para o segundo turno com Bolsonaro. Por isso, procuram construir um nome competitivo vendendo a ideia de que Lula é o diabo e Bolsonaro o chefe do inferno.
O problema é que não podem esconder que Lula sabe governar, já demonstrou isso. Bolsonaro, não sabe e não quer governar, quer atazanar a vida de todos e todas. Envergonha o Brasil mundo afora e destrói o país.
Essa turma, que reúne Doria, Huck, Mandetta, Ciro Gomes, Moro, dificilmente construirá uma unidade no primeiro turno. Lula costura com Dino, PCdoB, PSOL, PSB, e alguns setores do MDB e do PSDB. A eleição em dois turnos dá essa possibilidade.
A bola está de novo em campo, Lula organiza seu time. Bolsonaro esbraveja na beira do gramado xingando o juiz. Pode ser expulso. Os bandeirinhas escolhem de que lado querem ficar. O Brasil resiste à incompetência bolsonarista e exige providências na saúde, na economia, na segurança.
O resto é com o eleitorado e com quem tem a obrigação de trabalhar por um país melhor, mais justo e orgulhoso de si mesmo.
Criado em 2021-04-17 14:21:43
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Quase três séculos depois de ter sido encoberto por uma grossa camada de tinta, restauradores da Alemanha revelaram um Cupido nu no fundo da tela A menina lendo uma carta na janela do mestre holandês Johannes Vermeer.
Depois de quatro anos de restauro, a tela, agora mais detalhada e dramaticamente mais luminosa, foi apresentada ao público na exposição de dez obras de Vermeer ao lado de outros mestres da Era de Ouro dos Países Baixos, como Pieter de Hooch e Gerard ter Borch, inaugurada no dia 9 de setembro na Pinacoteca dos Antigos Mestres de Dresden, Alemanha. O evento foi prestigiado pela primeira-ministra Angela Merkel e pelo primeiro-ministro holandês Mark Rutte.
A menina lendo uma carta na janela é uma preciosidade especial entre as 35 obras-primas conhecidas de Vermeer. Escapou abrigada num túnel do bombardeio de Dresden pelos Aliados durante a Segunda Guerra, que não deixou pedra sobre pedra. Foi levada pelo Exército Vermelho para a União Soviética e devolvida em 1955 para os alemães.
A figura do Cupido aparece em outros quadros do pintor, mas neste, especificamente, o moleque está pisando uma máscara de teatro, o que abre novas interpretações para o quadro. O que significaria o gesto do pequeno deus? O fato de o amor superar obstáculos, como a hipocrisia, o engano, a desonestidade? A carta que a moça lê seria do noivo dela ou de um amante?
Historiadores e especialistas nas artes da Holanda sempre caem na tentação da hipótese de Vermeer (1632-1675) ter conhecido o filósofo Bento de Spinoza (1632-1677), seu contemporâneo, separado dele por apenas 70 quilômetros. A hipótese ganha força com o fato de Spinoza ter sido um polidor de lentes de telescópios e microscópios, o que seria de grande interesse do pintor, que, segundo outra hipótese, teria usado uma espécie de camera obscura para projetar imagens sobre as telas para garantir sua fidelidade naturalística.
Verdadeira ou não a elucubração, muitos entendidos garantem que as obras de Vermeer têm uma visada imanente como a do filósofo, em que os olhos devoram o mundo não de uma janela mas desde dentro, no meio dele, colados a ele, como diz Marilena Chauí. Uma perspectiva bem diferente da dos pintores italianos, que contemplavam o mundo como se os olhos fossem espelhos.
Por outro lado, os italianos tinham a figura masculina como centro e medida da razão e da proporção. Para Vermeer, em contraste, a mulher comum, doméstica, é a figura central, e mais, a mulher autossuficiente, sem crianças por perto, surpreendentemente, como anota Svetlana Alpers em Arte da Descrição.
Filósofos e pintores nos ensinam a ler o mundo de maneiras diferentes, abrindo e fechando possibilidades!
Criado em 2021-09-22 20:30:44
Luiz Martins da Silva –
Eu já imaginava o baixo nível, os palavrões e outras grosserias, mas, a tal reunião ministerial é pra lá de escatológica, é a prova dos horrores de um "banco de talentos" reunido por suas 'competências' e disposto aos propósitos mais horripilantes. A baixaria vai bem mais além de agredir as instituições da frágil democracia existente no país. A fúria não é somente em relação à Praça dos Três Poderes. O Banco do Brasil ficou assim no filme, digo, no vídeo: "Tem que vender logo esta p...". Patrimônio público, desde Dom João VI. Agora, de quem?
É um propondo a prisão dos ministros do STF; outro propondo se aproveitarem da pandemia para passar leis "infralegais" (passar boiada); é mais um dizendo para a "ministra dos direitos humanos" que se f... as vítimas do turismo sexual; e o próprio presidente xingando de b... o governador de São Paulo e de estrume o do Rio de Janeiro.
Em relação ao que se tem revelado nestes dias, o ministro militar mais próximo do Chefe de Estado acha inconcebível (hoje) vasculhar-se o celular do PR, como querem parlamentares. E isto acrescentaria alguma coisa? Se não tirarem proveito da tragédia sanitária para dar vazão ainda mais à coleção de ódios contra quem se oponha aos desatinos, já é alguma coisa.
Já é um holocausto as vidas brasileiras entregues ao Covid-19 (21 mil). Por que defender que se deve armar a população? Para os brasileiros se matarem, uns aos outros? Que mentalidade! Aonde estamos! Aquela pergunta de outrora, de um antigo presidente da Câmara dos Deputados e que provocou a patética indagação de Renato Russo – "Que país é este?" –, ganhou dimensão astronômica.
Agora, é pouco perguntar que país é este. É doloroso perguntar se os nossos filhos e netos encontrarão ainda algum país. E também não é mais a constatação do passado colonial – "Triste Bahia!" (Gregório de Matos – 1636-1696). Hoje, é triste Brasil. Triste país. Tristes de nós que ainda temos alguma esperança. Pergunta não menos dolorosa é: Há governo?
Convenhamos, isto que está aí não é um governo. Pela amostra do conteúdo da tal reunião ministerial, é de ter medo, pois é algo bestial, um bestialógico. Peço que ninguém use palavrões. Se palavrão fosse solução, já teríamos deles um palácio cheio. Triste a pusilanimidade dos senhores 'ministros'. Em vez de baixarem a cabeça e pedirem o boné, renderam-se todos à defesa de quê? Governo, já se temia que não. De agora em diante, ufa!
Criado em 2020-05-23 00:25:05