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Página 27 de 95

Capitalismo, desigualdade e pandemia

José Carlos Peliano (*) –

Há um ditado árabe que se expressa mais ou menos assim: “se uma coisa ruim acontece e logo em seguida outra também ruim, com certeza virá uma terceira pior”. Transpondo-o para o caso do Brasil, é possível afirmar com as devidas ressalvas que veio o impeachment de Dilma, em seguida a eleição do Coiso e por fim a chegada da pandemia. É muita desgraça sem tamanho para um povo que se achava vivendo num país abençoado por Deus e bonito por natureza. Que beleza!

O que faz uma crença arraigada há anos de que a proteção divina do país o livra de maiores perturbações sejam elas quais forem. Parte desta crença, no entanto, muito provavelmente vem de cima e de baixo. De cima, das classes mais ricas, é uma forma de empurrar os problemas da sociedade com a barriga, de um lado, e de se deixar enganar a si mesmas e aos demais das classes menos aquinhoadas. De baixo, das classes mais pobres, é uma forma de se fazerem aceitar a vida que têm do jeito que é possível, mas também, e principalmente, o lenitivo que encontram na religião, seja ela qual for, de acreditarem que o céu abençoa a eles e seus semelhantes para levarem em frente a saga da pobre vida. O sacrifício que levam no dia a dia será um dia recompensado.

Pois essa crença, como se depreende de seus efeitos, consegue aos trancos e barrancos camuflar as diferenças sociais e econômicas gritantes entre os dois grupos de classes e dentro delas. A justificativa mais conhecida é a da competição que se manifesta na meritocracia. A sociedade capitalista se assenta nesse predicado. Assim, quem tem mais condições se estabelece. É preciso tirar vantagem em tudo - a famosa Lei de Gérson. Não conseguiu ser ninguém na vida porque não estudou, ou se preparou, ou é vagabundo. Há uma disputa velada entre um e outro em cada atividade como padrão de comportamento para se sair bem na vida. Nem que um se aproveite da ingenuidade ou da falta de conhecimento do outro.

Pois, então, em meio a essa flagrante desigualdade social e econômica presente no Brasil, a qual vem aumentando cada vez mais no atual desgoverno, junta-se as consequências diretas do golpe político que começou no impeachment e termina na eleição do capitão, tornando o país um caldeirão fadado a transbordar de indignação, ódio e transgressões de toda ordem. Para completar o quadro, chega a pandemia do coronavírus. Os números de infectados e mortos aumentam a cada dia levando as estatísticas sanitárias a chegarem próximas às primeiras no ranking mundial. Uma situação certamente preocupante para não dizer catastrófica. O isolamento social e o consequente distanciamento atualmente entre as pessoas dificultam reações de rua em proporções significativas.

Todos os países foram abalados pela pandemia, uns mais outros menos, mas todos se viram corroídos pelo vírus da desigualdade trazido direta ou indiretamente pelo capitalismo. Conseguem mal ou bem começar a reduzir os efeitos maléficos do vírus na população e na economia, mas se veem com dificuldades enormes para saírem razoavelmente bem da crise. Como voltar a retomar as atividades? Quando será isso? Do mesmo jeito ou diferente? Quão diferente? O que fazer? Como fazer?

Em entrevista ao Le Monde, o filósofo e sociólogo francês Edgard Morin põe o dedo na ferida ao relembrar que por trás de toda essa desordem social e econômica mundial, na qual o Brasil é um dos destacados representantes, há uma “crise da humanidade que não consegue se constituir em humanidade”. A chegada do vírus conseguiu trazer à tona em todos os países as contradições do sistema não só público no atendimento dos serviços à população, como privado quanto a parada na produção e nas vendas. Os efeitos têm sido severos, sofre a natureza pelo descuido e devastação constantes; a economia pela desarticulação das relações de produção entre atividades e setores; o trabalho pelo aumento considerável do desemprego e da desocupação nas atividades ambulantes, e a desigualdade entre pessoas e países pelo aumento do fosso entre ricos e pobres e o desamparo desses pelos serviços de assistência médica e social. Destaca Morin a falta geral de solidariedade, o consumismo exacerbado e uma franca alienação frente ao sentido da vida saudável e confortável.



Mas vamos à sabedoria milenar chinesa. A crise é conceituada como a situação em que o perigo e a oportunidade andam de mãos dadas. Ou se erra o passo ou se acha o caminho. Na atual conjuntura mundial os países se encontram nessa encruzilhada. Para onde e como prosseguir? A pandemia chegou para evidenciar que as estruturas sociais e econômicas estão gastas e imprestáveis. Não há de ser com o neoliberalismo que o mundo conseguirá ficar de pé novamente. O seu pressuposto da competição desenfreada para chegar na frente os mais eficazes e eficientes está com os dias contados.

O reverso da medalha da competição é a derrota para milhões e milhões de competidores alçados que serão para os degraus mais baixos da pirâmide social e econômica. É hora de cuidar desses derrotados pela desumanidade do sistema. Afinal os que chegaram na frente só conseguiram porque existiram derrotados. Uma forma de solidariedade às avessas. Está na hora de tratar essa solidariedade de frente e construir uma solidariedade justa, social e econômica, direitos e oportunidades realmente iguais. A humanidade pede isso para progredir afortunada e com bem-estar. Caso contrário, o contrário em que já vivemos continuará nos massacrando e destruindo um futuro que ainda nem começou.

A pandemia é a grande oportunidade de nos livrarmos de um sistema injusto e desigual para construirmos uma nova maneira de nos relacionarmos na sociedade e na economia. Inclusive na natureza ao tratá-la como nos tratamos a nós mesmos. Ao mesmo tempo, renovarmos nossas forças, direitos e justiça para eliminarmos toda forma de tirania, ditadura e fascismo da face da Terra. Nos livrarmos de regimes autoritários e desumanos com déspotas de toda ordem. Façamos da paz, solidariedade, humildade e compartilhamento, nossas imagens e semelhanças.

Um belo exemplo de um ser humano digno e justo com quem devemos nos orgulhar de ver e conviver veio hoje pelo WhatsApp. Barruada é um senhor que trabalha vendendo cachorro quente na frente do colégio Salesiano em Recife. Por conta do desaparecimento de todos por conta do isolamento social pediu ajuda para poder passar pela falta de vendas. Enviou mensagens com os dados de sua conta bancária. O dinheiro começou a chegar de alunos, professores e familiares a ponto de ultrapassar as suas necessidades. O que ocorreu então? Ele envia nova mensagem a todos pedindo para interromper as transferências porque já tinha atingido o limite pretendido. Esse é o homem novo para a reconstrução do país após a pandemia. Não é querer tirar vantagem, não é obter lucro a qualquer custo ou oportunidade, mas é pedir colaboração, uma forma de cooperação entre quem tem e quem não tem. Um sistema informal de cotas para desfazer com humanidade e generosidade o perfil da desigualdade secular do nosso país.
_______________
(*) Jose Carlos Peliano, poeta, escritor, economista.

Criado em 2020-05-22 04:23:52

Habemus ministro

Geniberto Paiva Campos (*) –

Acompanhei, com um misto de espanto e satisfação, a fala do sr. ministro da Saúde, Marcelo Queiroga na CPI do Senado Federal sobre a Pandemia.

O ministro Queiroga foi submetido a um denso interrogatório, mas dentro dos limites do respeito, emitindo as suas opiniões de médico conceituado e presidente (licenciado) da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Eventualmente, ministro de um governo polêmico, cujo comandante-em-chefe parece ser portador de algum tipo de distúrbio mental, ou estar orientado por uma bússola que perdeu o prumo.

Trata-se do quarto ministro a ocupar a pasta da Saúde em dois anos meio da gestão Bolsonaro, enfrentando, Deus sabe como, o imenso desafio da Covid-19. É o segundo interrogatório – perdão, depoimento – ao qual o ministro é submetido, em curto espaço de tempo. Tendo, a todo instante, a sua fala interrompida pelo relator, quando este não obtinha a resposta desejada. E, também, interrompido, aos gritos, por um senador integrante da Comissão, o que provocou um educado protesto do ministro: - “V. Excelência não pode gritar comigo!” Talvez o incidente mais desagradável do seu depoimento.

Por que a minha surpresa, seguida de satisfação, com o depoimento do ministro Queiroga? É que, pela primeira vez, consegui perceber que não há preocupação, subjetiva ou manifesta, com a sua permanência no cargo, ou de gerar insatisfações no instável humor do seu chefe.

Ficou claro, bastante evidente até que algo mais relevante passou a ocupar o pensamento e as atitudes do ministro, mesmo correndo riscos eventuais, por ser partícipe de um governo de comando instável e imprevisível, inadequado a um desafio sanitário que está a exigir inteligência e aplicação de planejamento estratégico permanentes. Com mínimas – talvez nulas – possibilidades de cometer erros. E, sabidamente, uma ação coletiva.

O dr. Queiroga, agora falando mais como Médico (com maiúsculas) do que ministro, foi extremamente claro e explícito ao falar sobre temas controversos no âmbito do atual governo, principalmente quando o assunto é referente ao enfrentamento da Pandemia. Tal mudança tornou-se evidente na sua fala tranquila, hoje no Senado.

Do ponto de vista do ministro: 1) o uso da cloroquina não se justifica nos portadores de Covid-19, desde que “não existem evidências científicas” para esta indicação; 2) “o uso de máscaras” é de fundamental importância para evitar o contágio; 3) o mesmo vale para o ato de “lavar as mãos e o uso de álcool gel”; 4) “é preciso evitar aglomerações”; e, 5) finalmente, e não menos importante, “é a vacina que irá controlar a pandemia!”

O dr. Queiroga faz a defesa destas ações sem alarde e sem arrogância. Com a humildade dos homens verdadeiramente sábios. E reconhece que exerce um cargo para o qual não foi eleito. E deixa claro que não está preocupado em punir os que cometeram erros. Ou controlar os arroubos presidenciais. Sua missão prioritária atual é fazer o enfrentamento eficiente da pandemia. Salvando vidas preciosas dos brasileiros. Sua sagrada missão como médico e eventual ministro da Saúde. Boa sorte, doutor! Que tenha êxito em sua difícil tarefa.
_________________
(*) Geniberto Paiva Campos é médico cardiologista e integrante da CBJP/CNBB.

Criado em 2021-06-10 00:04:20

Brasília – capital mundial do pedestre

Hoje (8/8), às 20h, no Café Daniel Briand (104 Norte), a Associação Andar a Pé comemora o Dia Mundial do Pedestre. Compareça! Em homenagem a esse dia, Wilde Cardoso, membro da associação, escreveu este artigo: -

Num distante 8 de agosto de verão, um grupo de músicos passou por uma faixa de pedestre e registrou a foto para a capa de seu último álbum. Um mês mais tarde, o disco Abbey Road dos Beatles era lançado.

Seu sucesso musical não foi maior que a capa do LP. Nada mais emblemático para que se propusesse que tal data fosse dedicada ao Dia Mundial do Pedestre ... mesmo em Brasília, por mais contrarie o mito de que os brasilienses são feitos de cabeça tronco e rodas.

Brasília tem sim seus motivos para comemorar. Afinal, o projeto de Lúcio Costa eliminava barreiras no solo para que “tramas autônomas” fossem oferecidas “para o trânsito local dos pedestres a fim de garantir-lhes o uso livre do solo”.

O comércio local foi projetado voltado para as residências, com acesso exclusivo aos pedestres por meio de calçadas arborizadas.

No mall dos ingleses, como Lúcio se referia à Esplanada dos Ministérios, haveria “extenso gramado destinado aos pedestres”. Praças seriam construídas na plataforma superior da rodoviária para o livre trânsito das pessoas, o tráfego dos automóveis se processaria sem cruzamentos e o chão seria restituído às pessoas a pé.

Eram os anos 1960, do nascimento de Brasília e dos Beatles. Brasília fazia muito sucesso no mundo dos arquitetos. Crescia e muitas pessoas e carros passavam por ela.

Os Beatles experimentavam tamanho sucesso que já em 1966 pararam de circular por meio a multidões, isolaram-se no estúdio da Abbey Road e isso os esgotou. Ao terminarem sua obra, buscaram resgatar o que já não podiam fazer como os demais cidadãos: atravessar tranquilamente a rua em frente ao seu trabalho. Assim aconteceu a foto de 8 de agosto de 1969.

Na década de 1990, Brasília começou a se distanciar do seu projeto original e já estava sufocada pelos automóveis. O eixão impedia os amigos de irem à casa da “Noélia” e as passagens subterrâneas não davam a mínima segurança aos trabalhadores que delas se utilizavam.

A cidade ficou escandalizada com o número de pedestres vitimados no trânsito. Ela também precisava de uma faixa de pedestres para se libertar. Era 1º de abril de 1997 quando bem coordenada campanha pela paz no trânsito resultou em lei impondo o respeito às faixas e às pessoas que nela passavam.

Seus cidadãos ficaram orgulhosos. Um pé na faixa e os carros paravam. Enfim, a cidade poderia ser novamente o seu refúgio ... ledo engano. A cidade relaxou e em 2016 morreram 132 pedestres no trânsito, sendo 6 atropeladas sobre a faixa.

Esta, como mito, não foi suficiente para garantir o chão livre aos cidadãos proposto por Lúcio.

Era preciso resgatar o projeto original, quiçá, refundar a Brasília – capital do pedestre. Com tal intenção (ou pretensão), nasceu em dezembro de 2016 a associação Andar A Pé – o Movimento da Gente.

Uma de suas primeiras iniciativas foi avaliar as calçadas do plano piloto a partir da percepção do cidadão. Foi realizado Safari Urbano em cinco roteiros recorrentes na cidade.

As qualidades se destacaram, sobretudo, pelo prazer de andar pelas alamedas das quadras residenciais, pela disponibilidade de equipamentos públicos a curtas distâncias, pela existência de calçadas em boa parte dos trechos e pela razoável sinalização da cidade.

A avaliação, no entanto, anotou muito mais problemas, e de várias ordens. Desde a farra dos veículos estacionados em áreas verdes e calçadas sem serem incomodados, o piso descuidado das calçadas construídas pelo governo ou por particulares, a falta de acessibilidade adequada a todos, seja nas áreas comerciais, junto a faixas de pedestres ou nas passagens subterrâneas, a falta de iluminação na plataforma superior da rodoviária ou a aridez incômoda da inexistência de gramado e árvores no museu da República.

Regiões centrais da cidade avançam rapidamente contra o direito de se andar a pé. Esse é o caso dos setores comerciais e bancários, cujo abandono é notável à noite e aos finais de semana.

Situação também presente nas passagens subterrâneas sob o eixo rodoviário, aqui a qualquer hora ou dia da semana. A ocupação das quadras 700 contraria frontalmente o livre circular das pessoas. As casas se fecham em grades, as grades invadem as áreas públicas, estas restam abandonadas e escuras e os pedestres solitários e muitas vezes apavorados ao passar por seus caminhos.

Diferentemente dos Beatles, não é possível atravessar uma faixa de pedestres e dizer bye-bye. Há muito o que fazer na nossa vila e é por esse mesmo motivo que há muito o que comemorar nesse dia mundial do pedestre.

Aliás, Brasília é por si só uma comemoração ao desafio. As pessoas não acreditavam na sua criação. Quando decidida, não acreditavam que seria construída. Quando construída, não acreditavam que seria habitável ou habitada.

Quando se consolidou, disseminaram vários mitos sobre a cidade: as árvores não cresceriam, e ela virou uma cidade bosque; a cidade não tinha calor humano, e emergiram relevantes movimentos culturais; a esplanada dos ministérios era grande demais para manifestações populares, e o povo encheu seus gramados muitas e muitas vezes para protestar e para festejar.

É preciso comemorar Brasília, a capital do pedestre. Comemorar o projeto do modernista que pensou a cidade para as pessoas. Comemorar nossa obrigação de adequar tal projeto à dinâmica social dos nossos dias. Comemorar para poder andar a pé por suas calçadas em quaisquer setores onde se possa observar os i-pês(sic) que resistem lindos a cada estação.

Viva Brasília, Capital do Pedestre!

Criado em 2017-08-08 14:43:11

Os dias isolados

Este novo livro de José Carlos Peliano reúne contos, textos e poemas sobre os dois anos e pouco de pandemia, quando a Covid-19 se irrompeu, espalhou, assolou e abalou o mundo provocando mortes e sequelas na saúde dos infectados de toda ordem.

A pandemia pressionou os serviços de atendimento à saúde, além de influenciar e destampar os desajustes sociais, econômicos e ambientais graves e desiguais com impactos políticos acentuados pelos quatro cantos do mundo.

O poeta, escritor e economista José Carlos Peliano abordou várias facetas, implicações e repercussões observadas nesse período e preparou um livro com material crítico e reflexivo, ao mesmo tempo duro e sensato, às vezes lírico, com opiniões próprias e de especialistas na tentativa de mostrar um panorama de qual tem sido o lugar da pandemia nesse mundo dominado em grande parte por um capitalismo ubíquo e sem limites, gerador de desigualdades de toda ordem.

Paulo Saldiva, médico, pesquisador e professor titular de patologia da Universidade de São Paulo, gentilmente ofereceu um prefácio ao livro onde destaca:

“Peliano dissecou os detalhes do viver e seu ofício com compaixão e alteridade nos tempos em que solidão, incerteza e infecção caminhavam pelas ruas de nossas cidades e vielas de nossos pensamentos. Com isso produziu textos, contos e poemas. Coisa sublime, bem-feita, análise perfeita. O livro fala da força da vida, sustentada pela seiva da esperança”.
_______________
Livro: Os dias isolados
Autor: José Carlos Peliano
Editora Livraria da Física, São Paulo - 118 páginas, R$ 30

Criado em 2022-07-21 15:23:18

Chico, Eric, Morais, Betto e Stédile abrem campanha de solidariedade a Cuba

Chico Buarque, Eric Nepomuceno, Fernando Morais, Frei Beto e João Pedro Stédile iniciaram uma campanha nacional de solidariedade ao povo cubano. “Em 1992, durante o Período Especial enfrentado por Cuba, fizemos no Brasil ampla campanha que resultou no Voo da Solidariedade. Recolhemos toneladas de donativos e lotamos uma aeronave com mais de uma centena de pessoas que estiveram em Havana”, escreveu o grupo em mensagem que circula na internet.

“Agora, devido às dificuldades agravadas pela pandemia, pelo garrote de Donald Trump ao bloqueio (243 novas medidas ainda não revogadas por Joe Biden), a queda brutal do turismo (uma das principais fontes de ingresso de moeda estrangeira no país) e os reveses de importações (refluxo do comércio marítimo, alta dos preços dos produtos, entre outros motivos), decidimos deflagrar nova campanha de solidariedade”, explicam os autores da iniciativa.

Várias outras campanhas têm sido promovidas no Brasil pelos Comitês de Solidariedade a Cuba. “O MST doará 240 quilos de sementes de hortaliças de vários tipos. São 24 caixas de 10 quilos. E dispõe de 10 mil toneladas de arroz orgânico que poderiam ser enviadas, mas o custo da remessa é calculado em US$ 10 milhões, o que é inviável!”.

Como ainda os aeroportos da Ilha não estão abertos a voos turísticos, os donativos do Brasil chegam lá graças à Câmara Empresarial Brasil-Cuba, que se encarrega de adquirir os produtos mais urgentes indicados pelas autoridades cubanas e impedidos de entrar pelo bloqueio econômico do governo dos Estados Unidos. A Câmara Empresarial sabe como fazê-los chegar ao país com a devida nota fiscal. Em data recente, remeteu à Ilha um milhão de agulhas e seringas e, agora, neste agosto de 2021, 400 mil sondas vesicais.

Caso você queira se somar a este mutirão solidário, ainda que doando R$ 1, favor depositar nesta conta da

Câmara Empresarial Brasil-Cuba:
Banco do Brasil
Agência 4770-8
Conta: 13.844-4
Pix CNPJ: 34.131.511/0001-64

Os organizadores da campanha pedem para adicionar aos centavos de seu donativo 0,1. Por exemplo, se for doar R$ 10 reais, deposite R$ 10,01. Assim, facilita a identificação da doação a essa campanha específica. Desta forma, “teremos noção do valor total para a obtenção de insumos sanitários, medicamentos, alimentos e outros produtos”.

Os autores da iniciativa pedem que a campanha seja divulgada em todas as redes digitais e outros meios.

Criado em 2021-08-05 00:38:01

Fica EBC

Em apoio a Empresa Brasileira de Comunicação!

Criado em 2018-10-31 15:07:17

O velho e bom Almodóvar está de volta

Alexandre Ribondi -
 
Para quem gosta de Pedro Almodóvar, para quem já riu e derramou lágrimas com a Lei do Desejo, Carne Trêmula e Tudo Sobre a Minha Mãe, a notícia é boa: o cineasta espanhol voltou a fazer um filme inesquecível. "Julieta", que está em cartaz no Cine Cultura Liberty Mall, tem a cara, o cheiro e as cores vibrantes que ganharam admiradores em boa parte do mundo.
 
É o vigésimo longa-metragem do diretor, baseado, de maneira mais ou menos vaga, em três contos tirados do livro Runaway, da canadense vencedora do prêmio Nobel de Literatura versão 2004, Alice Munro.
 
Almodóvar chegou a conversar com a atriz norte-americana Meryl Streep que disse sim ao projeto. Mas a idéia não vingou, porque o diretor achou que não conseguiria fazer um filme falado em inglês e acabou por filmar na Espanha, em espanhol.
 
E graças a Deus que assim foi porque o castelhano, com seus "seseos" e sua cadência quase sempre dramática, são acessórios almodovarianos insubstituíveis.
 
E não só isso. Todas as manias e obsessões de Almodóvar estão finalmente de volta. Há as roupas inusitadamente coloridas, os papéis de parede que, incapazes de combinar com o que quer que seja, acabam por combinar com o filme inteiro, e também há os azulejos - e em Julieta, os azulejos que forram as paredes da cozinha da casa das personagens centrais são cópias dos criados pelo artista plástico brasileiro Cândido Portinari para os painéis do Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio de Janeiro. E como se sabe, Almodóvar tem um caso de amor com o Brasil.
 
Tem também a atriz Rossy de Palma, velha companheira do cineasta, que surge madura, sempre portadora de um grandioso e esfuziante nariz. Ela faz as vezes da empregada doméstica da casa de Xuan, um pescador galego (vivido por Daniel Grao).



É ela quem dá o toque de humor à obra, mesmo que seja um humor sinistro e perigoso, como se se tratasse de uma governanta saída de filmes ingleses de suspense. Ou, mais precisamente, do filme Rebecca, de Hitchcock.
 
Duas atrizes interpretam a mesma personagem. As belas Adriana Ugarte ( a mulher quando jovem) e Emma Suárez (a mulher quando madura) vivem uma história que, na verdade, acompanha quatro gerações.
 
Elas são a filha que somente consegue compreender as razões do pai (que ela quase nunca vê) quando se sente julgada e abandonada pela filha que, por sua vez, volta a procurar a mãe quando perde o filho mais velho.
 
Por isso mesmo, o romance de onde saiu o roteiro chama-se Fuga. Na tela, todos fogem e se escondem da aparente desgraça de ter os pais que tiveram para depois entenderem, a golpes de dor, que o laço de amor que os une é mais salvador e modificador que o ato de fugir.
 
Curioso é saber que Almodóvar pediu que as atrizes criassem a mesma personagem sem terem contato uma com a outra - elas se viram apenas na filmagem da belíssima seqüência dentro de um trem que vai de Madri para a Galícia.
 
E pediu que elas não criassem momentos de choro, por mais que a história desabasse em dramas e mortes.
 
O que o diretor queria, segundo suas próprias palavras, era "um filme seco, sem lágrimas". O que ficou estampado na tela, então, são mulheres rodeadas por uma atmosfera de cansaço emocional e de melancolia.
 
Por isso, alguns críticos consideram que a obra é fria - o que não é verdade, em absoluto. Somente com uma espécie de aceitação da vida e de suas crueldades, elas seriam capazes de passar por morte e abandonos.
 
Aliás, nunca se morreu tanto num filme de Almodóvar como em "Julieta". As personagens entram em cena para em seguida se suicidarem, se afogarem, ou morrer após doença longa e incurável. E as que permanecem vivas, somem sem dar explicações.
 
Julieta é uma melodrama, estilo com que Almodóvar sabe lidar muito bem. Os diálogos são muitas vezes açucarados e comovem justamente por causa dessa ousadia de tentar entender nossos corações por meio da pieguice sincera, das frases de efeito, dos olhares de soslaio.
 
Se uma telenovela brasileira tivesse um autor como o espanhol, estaríamos salvos.
 
É impossível não se emocionar com "Julieta". Agora, se você for mãe (porque se trata de um filme sobre mulheres), aperte o coração quando as luzes do cinema se apagarem e a tela ganhar vida.

Trailer Oficial

Criado em 2016-07-19 01:10:46

O Rinoceronte de Hugo Rodas – Ionesco deglutido

Maria Lúcia Verdi –

“O senhor idoso – (ao Lógico). É bonito, a lógica.
O Lógico – (ao senhor Idoso) Contanto que não se abuse.

Criado em 2019-12-27 21:47:33

Como precisamos de um carnaval esperpêntico!

Angélica Torres –

Bem vindo o espírito folião coletivo que baixa no país no bendito mês de fevereiro! – ou março. Em tempos de dementes apedeutas ocupando os espaços das decisões, de foras da lei tomando conta da Justiça, nada como Momo reinando e inspirando as manifestações de rua e as do Sambódromo.

Hora de tomar de volta, ao menos nestes dias de folia, caramba!, a garra perdida pelo caminho, ante tanta afronta criminosa à nossa grandeza cultural-continental. Nem é preciso dar nomes aos bois e bufos da babel bolsonarista, reencarnados no Brasil atual. Valle-Inclán que o diga, de sua tumba, do quanto o esperpentismo cai como figurino de alta costura ao nosso momento. Sapeca aí, Sapucaí!

Mas não só escolas como a Mangueira, a Portela, a Beija Flor, a São Clemente, a Tuiuiú, a União da Ilha aprontam sua estética esperpentista. Mais do que nunca as ruas esperam nos próximos dias os blocos e os foliões de carreira solo com caricaturas e alusões às situações absurdas dos vilões da hora, até porque nunca precisamos tanto de uma catarse! – vá lá, uma revolução, com a arma que melhor sabemos manusear: o deboche inteligente e corrosivo.

Serpentinas esperpentistas – Os personagens da Esplanada dos Ministérios e da Praça dos Três Poderes deixariam babando de inveja o romancista e dramaturgo espanhol que criou, há um século, a estética do grotesco para caracterizar os protagonistas políticos de seu país naquele tempo.

Ramón María del Valle-Inclán viveu de 1866 a 1930 e se antecipou a Beckett e Ionesco, os vanguardistas do Teatro do Absurdo, com os "esperpentos". Suas peças cutucavam com vara curta a decadência da sociedade espanhola, seu cinismo, sua hipocrisia, as brutalidades da vida contemporânea.

A crise de 1898 da Espanha, resultante da perda de suas colônias (Cuba, Porto Rico e Filipinas) na guerra contra os Estados Unidos, foi o que provocou o surto criativo de Valle-Inclán e o nascimento de seus esperpentos.

O termo na verdade foi criado por Goya, também para expressar denúncia social. Na série de gravuras que chamou de "Caprichos", produzida em fins de 1700 e início de 1800, o pintor expôs os protagonistas de sua época, que a sociedade fingia não ver. Ou preferia não enxergar. Eis a História e sua reciclagem secular e milenar dos defeitos humanos - parece que ad eternum!

Um século depois, Valle-Inclán se apropriaria do termo mas reelaborando o sentido quanto ao empregado por seus patrícios espanhóis, que se resumia em pessoa bem feia, patética e em situações absurdas. E o esperpentismo ressurgiria como uma reprodução do grotesco espanhol, obtido esteticamente pela deformação causada por espelhos côncavos.

Os esperpentos do escritor iriam expor as inversões de valores, as contravenções, as injustiças que o mundo sempre peleja pra ocultar ou disfarçar, escancarando os disparates e anacronismos de toda sorte, provocados pelos interesses da classe dominante. Aliás, no início do século, a Espanha amargava um grande atraso sociopolítico, econômico e cultural em relação ao resto da Europa.

Qualquer semelhança com o que se passa por aqui e pelos nossos países hermanos, novos 100 anos após, seria mera coincidência?

“Deformemos a expressão no mesmo espelho que nos deforma as caras e toda a vida miserável da Espanha”, explicou-se o escritor, ao lançar o programa que tornaria possível a existência do novo gênero. “O sentido trágico da vida espanhola só pode ser representado como uma estética sistematicamente deformada”, explica seu personagem Max Estrela, de "Luzes da Boêmia", peça teatral que inaugurou o esperpento como um estilo literário – ensina a especialista Joyce Rodrigues Ferraz, no livro "Ramón del Valle-Inclán – Luces de Bohemia" (Orellana, 2001).

Doutora na obra do escritor espanhol, a brasileira Joyce Rodrigues Ferraz leva a uma percepção ainda mais acurada desse fenômeno, ao afirmar que os esperpentos abordam, na verdade, o grande problema moral do século XX: “Como não tem parâmetros para decidir, o indivíduo não pode avaliar a validade de suas escolhas sempre aleatórias” e a percepção dessa perplexidade, amargurada e irônica a um só tempo, gera a angústia pelo riso.

O ciclo esperpêntico do autor se inicia em 1920. Uma década depois ele atinge a maturidade do estilo com "Martes de Carnaval", uma trilogia composta pelas peças "As galas do defunto", "A filha do Capitão" e "Os cornos de Don Friolera".

O conjunto da trilogia jaz na referência ao controle da ordem pública pelas Forças Armadas e ao conceito de honra. Já o título "Martes de Carnaval" refere-se aos vários disfarces de Marte, o deus da guerra, que na celebração da folia sai desmoralizado pelo cômico tratamento dado segundo o código esperpêntico.

Tantas coincidências e analogias curiosas com a situação do Brasil atual levam a crer que não há mesmo nada de novo sob o céu sobre o povo. Portanto, sambemos, porque como no poema Sapeca, Sapucaí!, abaixo, sabemos que:

Parecemos um só coração
em corpo débil mental.
O que nos resta de coragem
jogamos no Carnaval
mascarados maquiados
dançando fantasiados
brincando embriagados
e rindo rindo muito
atordoados filhos de Oxalá
pelas ruas do caos.
Somos assim por natureza
a leveza nos leva da vida
as dores e incertezas.
Na folia resistimos a males
malas malucos
malassombrados dos infernos.
Momo é nosso rei e guardião
na guerra dos espantos
com nossas boas badernas.
Esperpento confete serpentina
nossas armas à esperança.
Enquanto o mundo guerreia e esperneia o brasileiro dança.
(“Sapeca, Sapucaí!”. Angélica Torres Lima, fevereiro, 2020)

Criado em 2020-02-21 02:10:56

Bartolomeu anuncia a entrega do MAB

Romário Schettino –

O secretário de Cultura e Economia Criativa do DF, Bartolomeu Rodrigues, em sua conta no Instagram, anuncia os últimos preparativos para a reinauguração do Museu de Arte de Brasília (MAB) no aniversário de Brasília, dia 21 de abril, conforme matéria publicada neste site no dia 7/2 (leia aqui).

O museu estava fechado há 17 anos, mas as visitações ainda dependem das restrições impostas em período de pandemia. É provável que haja uma atividade simbólica na semana do aniversário de Brasília. Como vai funcionar, na prática, o MAB ainda é uma incógnita.

“O novo MAB está totalmente adaptado à concepção museológica, com vãos mais espaçosos de exposição e salas para conservação e recuperação de obras”, informa a Secec.  

“Brasília merece um presente como este nos seus 61 anos, pois é o segundo aniversário em meio a uma crise sanitária que vem afastando as pessoas de atividades culturais, tão essenciais ao seu bem-estar”, disse Bartolomeu, referindo-se também às obras que pretende dar seguimento ainda este ano.

A Secec informa que está atuando diretamente em nove equipamentos: Biblioteca Nacional de Brasília (BNB), Teatro Nacional Claudio Santoro (TNCS), Memorial dos Povos Indígenas (MPI), Museu Vivo da Memória Candanga (MVMC), Concha Acústica, Cine Brasília, Museu Nacional da República (MuN), Conjunto Fazendinha e Complexo Cultural Samambaia (CCS).

Bartolomeu Rodrigues espera, ao longo de 2021, anunciar o início das obras de restauração da Sala Martins Pena, do Teatro Nacional Cláudio Santoro e do Conjunto Fazendinha, na Vila Planalto. “Trata-se de melhorias e ações emergenciais em bens materiais de importância vital para o projeto de preservação da cidade”.

Museu da Bíblia está suspenso

Depois de anunciado como mais uma obra, o Museu da Bíblia foi abatido por uma decisão liminar da Justiça a pedido da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA). O argumento principal sustentado pela Associação é que o poder público não pode, por ser o Brasil um estado laico, construir, ou sustentar, templos religiosos.

Por isso, por determinação do juiz da 7ª Vara da Fazenda Pública do DF, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), a Secretaria de Cultura foi obrigada a suspender o Edital nº 3/2021, que previa a abertura do “Concurso Público Nacional para Estudo Preliminar de Arquitetura para Equipamento Público Comunitário de Caráter Cultural, referente ao Museu Nacional da Bíblia”.

Leia aqui matéria referente a este assunto.

Criado em 2021-04-10 02:08:51

Paulo Freire, o nosso maior filósofo da práxis

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

O contista Marcelino Freire comemorou o centenário de Paulo Freire (eles não são parentes) lendo o seu conto Totonha num podcast especial da revista Quatro Cinco Um. Inspirada numa tia do escritor, Totonha habita os cafundós do Vale do Jequitinhonha, e se rebela contra a proposta de ser alfabetizada.

“Capim sabe ler? Escrever? Já viu cachorro letrado, científico? Já viu juízo de valor? Em quê? Não quero aprender, dispenso”.

Totonha diz que ler é coisa pra gente moça, “que tem ainda vontade de doutorar.” “De falar bonito. De salvar vida de pobre”. Ora, diz ela, “o pobre só precisa ser pobre. E mais nada precisa. Deixa eu, aqui no meu canto. Na boca do fogão é que fico. Tô bem. Já viu fogo ir atrás de sílaba?”

Ler pra quê? “O governo me dê o dinheiro da feira. O dente o presidente. E o vale-doce e o vale-lingüiça. Quero ser bem ignorante. Aprender com o vento, tá me entendendo? Demente como um mosquito. Na bosta ali, da cabrita. Que ninguém respeita mais a bosta do que eu. A química”.

Totonha não vê vantagem na leitura, ela que sempre leu e significou o mundo sem as letras. “Tem coisa mais bonita? A geografia do rio mesmo seco, mesmo esculhambado? O risco da poeira? O pó da água? Hein? O que eu vou fazer com essa cartilha? Número?”

De repente se percebe que ela, de fato, não quer ser nem é ignorante. Na verdade, ela recusa receber um código que as autoridades usam para manipular o povo. “Só para o prefeito dizer que valeu a pena o esforço? Tem esforço mais esforço que o meu esforço? Todo dia, há tanto tempo, nesse esquecimento. Acordando com o sol. Tem melhor bê-á-bá? Assoletrar se a chuva vem? Se não vem?”

Sabedoria Totonha diz que tem. “Morrer, já sei. Comer, também. De vez em quando, ir atrás de preá, caruá. Roer osso de tatu. Adivinhar quando a coceira é só uma coceira, não uma doença. Tenha santa paciência!”

A certa altura ela afronta a professora. “Será que eu preciso mesmo garranchear meu nome? Desenhar só pra mocinha aí ficar contente? Dona professora, que valia tem o meu nome numa folha de papel, me diga honestamente. Coisa mais sem vida é um nome assim, sem gente. Quem está atrás do nome não conta?”

A autoestima de Totonha é grande. Ela diz que “no papel” seria “menos ninguém do que aqui, no Vale do Jequitinhonha”. “Pelo menos aqui todo mundo me conhece. Grita, apelida. Vem me chamar de Totonha. Quase não mudo de roupa, quase não mudo de lugar. Sou sempre a mesma pessoa. Que voa.”

E é ciosa da sua particular visão de mundo, que considera mais adequada do que a das pessoas letradas. “Para mim, a melhor sabedoria é olhar na cara da pessoa. No focinho de quem for. Não tenho medo de linguagem superior. Deus que me ensinou. Só quero que me deixem sozinha. Eu e minha língua, sim, que só passarinho entende, entende?”

Por fim ela dispensa a moça da campanha de alfabetização, orgulhosa da sua condição: “Não preciso ler, moça. A mocinha que aprenda. O doutor. O presidente é que precisa saber o que assinou. Eu é que não vou baixar minha cabeça para escrever. / Ah, não vou.”

Ironias – Uma brilhante ironia de Totonha, peça da coleção Contos Negreiros (2005), é que Marcelino Freire utiliza a escrita erudita para retratar uma criatura do mundo dos bichos, das plantas, do sol e da chuva, em estado que ainda lembra o Éden. E é nessa chave contraditória que Marcelino problematiza o pensamento de Paulo Freire, aliás, de propósito, como ele afirmou no referido podcast.

Depois de ouvir esse conto, eu me lembrei daquele andarilho mineiro do poema de Carlos Drummond de Andrade (de Claro Enigma, 1951), que repele o conhecimento ofertado pela Máquina do Mundo que ele topou enquanto vagava por “uma estrada de Minas, pedregosa”, e que lhe diz:

“olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo
.”

Por que o caminhante recusa “essa total explicação da vida”, preferindo seguir “vagaroso, de mãos pensas” pela estrada pedregosa de Minas? Porque, em atitude parecida com a de Totonha, esse conhecimento era interesseiro, alienado, composto de cima pra baixo pelo sistema capitalista, imperialista, colonizador, dominador – simbolizado pela Máquina do Mundo que explorava as riquezas minerais daquele Estado, segundo a interpretação do professor José Miguel Wisnik, da USP.

Palavra oca – Para Paulo Freire existe a palavra (discurso) dos burocratas, dos colonizadores, das classes dominantes, dos que se arvoram em donos do conhecimento, a palavra oca ou fossilizada que tentam impor aos que estão por baixo na escola social e com a qual também adestram os seus herdeiros, os futuros dominadores. Unilateral, esse discurso serve também para calar os oprimidos, submetidos à “cultura do silêncio” inaugurada nos tempos da colonização.

Existe por outro lado a palavra que pronuncia o mundo, que o transforma, que serve de ferramenta para as ações libertadoras das classes trabalhadoras e para a criação de novos conhecimentos, chave para uma nova ordem. Essa palavra é a que rompe a cultura do silêncio e permite que os povos indígenas, o povo negro, as mulheres, os oprimidos em geral tenham a sua própria voz.

Essa última palavra Freire chama de “palavração”, e é fácil perceber de onde é que ele, inserido na tradição cristã, buscou a inspiração para criar o neologismo.  

O evangelista diz: “No princípio era o Verbo (a palavra), e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. E segue: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez”. (João 1: 1 e 3) Em contrapartida, o Fausto de Goethe diz que “No princípio era a Ação”.

Palavração – Paulo Freire compõe poeticamente a síntese dessas duas proposições no termo “palavração”. É com a palavração que se torna possível a recriação do mundo em novas bases, libertadoras, humanistas. Os agentes da nova ordem são os homens e as mulheres em situação de opressão que, de posse de suas vozes e do novo discurso, ousam tomar a história em suas mãos.

Ainda recorrendo a Goethe, a gente lembra a frase que Mefistófeles dirige ao Estudante, separando a teoria da prática como ele aprendeu com Aristóteles: “Cinzenta, caro amigo, é toda teoria/ E verde e dourada é a árvore da vida”. Freire, a contrapelo, se vale de Marx e de seu conceito de práxis, que volta a unir a teoria à prática de maneira dialética.

A teoria sozinha, livresca, concebida abstratamente nos gabinetes dos doutores, resulta no máximo em novas formas de descrição do mundo. A prática, por sua vez isolada, sem os pilares da teoria, sem hipóteses a serem testadas na realidade, tateia sem rumo e resulta quase sempre em fiascos.

A práxis, ou a sua tradução como palavração, faz a fortuna da teoria de conhecimento de Paulo Freire, no sentido de que só podemos conhecer e transformar o mundo se fizermos a análise concreta da situação concreta.

Diz Freire no livro Educação como prática da liberdade (pág. 43, Paz & Terra, 1999): “A partir das relações do homem com a realidade, resultantes de estar com ela e de estar nela, pelos atos de criação, recriação e decisão, vai ele dinamizando o seu mundo. Vai dominando a realidade. Vai humanizando-a. Vai acrescentando a ela algo de que ele mesmo é o fazedor. Vai temporalizando os espaços geográficos. Faz cultura. E é ainda o jogo destas relações do homem com o mundo e do homem com os homens, desafiado e respondendo ao desafio, alterando, criando, que não permite a imobilidade, a não ser em ternos de relativa preponderância, nem das sociedades nem das culturas. E, na medida em que cria, recria e decide, vão se conformando as épocas históricas. É também criando, recriando e decidindo que o homem deve participar destas épocas”. 

Teoria do conhecimento – Enfatizo aqui o pensamento de Paulo Freire como uma teoria do conhecimento, de caráter político, libertador e humanizador, porque, como bem demonstrou Venício A. Lima no livro que acaba de lançar, A prática da liberdade, para além da alfabetização, muita gente (por malícia ou ignorância, eu acrescento) tenta limitar as suas ideias ao campo da educação e até a reduzi-las a um método de alfabetização de adultos. 

Ora, disse Freire no Simpósio Internacional para a Alfabetização realizado no Irã, em 1975: “Não basta saber ler mecanicamente que ‘Eva viu a uva’. É necessário compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir uvas e quem lucra com esse trabalho”.

Aqui Freire condensa em duas linhas toda a questão da educação e da transformação do mundo no contexto do sistema capitalista de produção. Compreender essa totalidade concreta (com a divisão internacional do trabalho, as desigualdades Norte e Sul, o estágio neoliberal do sistema etc) exige, obviamente, uma visão de mundo muito abrangente, crítica, denunciadora da alienação dos trabalhadores e do fetichismo da mercadoria, que abre caminhos para a mudança do status quo. E é justamente essa visão de mundo que se configura como a teoria de conhecimento desenvolvida pelo filósofo pernambucano, “uma síntese de diferentes tradições filosóficas” na expressão de Venício A. Lima, e que estão vinculadas ao cristianismo, à fenomenologia, ao existencialismo, ao marxismo etc.

Fechando, ou não – Como eu não sou um especialista na obra de Paulo Freire, sou, se tanto, só um “curioso epistemológico” atrevido, vou tratar de botar um ponto final nesses ralos comentários, consciente de que talvez fosse mais adequado usar as reticências como sinal de que a matéria é vasta por demais…

Antes, porém, transcrevo a letra do belíssimo Samba da Utopia de Jonathan Silva, junto com o link para que vocês a acompanhem na voz de Ceumar Coelho no YouTube (ouça aqui).

Na minha opinião, essa música traduz quase à perfeição a filosofia de Paulo Freire, que também era poeta, criador de novas palavras e conceitos necessários para a leitura e a pronúncia do Mundo, quer dizer, a sua transformação:

Samba da Utopia

Se o mundo ficar pesado
Eu vou pedir emprestado
A palavra poesia

Se o mundo emburrecer
Eu vou rezar pra chover
Palavra sabedoria

Se o mundo andar pra trás
Vou escrever num cartaz
A palavra rebeldia

Se a gente desanimar
Eu vou colher no pomar
A palavra teimosia

Se acontecer afinal
De entrar em nosso quintal
A palavra tirania

Pegue o tambor e o ganzá
Vamos pra rua gritar
A palavra utopia

Criado em 2021-09-20 01:43:04

A grande nação dos tubaína

Luiz Martins da Silva (*) –

O Brasil, já tinha mais de 250 nações, somando-se à Nação nacional as nações indígenas, mas amanheceu com mais uma, de uns 50 milhões dos que não votaram em Bolsonaro. Pode ser até mais populosa se contadas as pessoas que discordam dele, o suficiente para serem consideradas esquerdistas, esquerdopatas, comunistas e, agora, tubaínas. Pode ser que em algum dia futuro o novo neologismo passe a figurar como verbete dos glossários e dicionários de política: ‘Tubaína – s. f., pessoa que não aderiu ao uso da cloroquina no combate ao covid-19; esquerdista’.

E, tal como disse Odorico Paraguassu, “Hoje, somos todos Tubaína”.  Ao que alguém, questionará: “Mas, Odorico disse isto?” Ao que responderei: Se não disse, deveria ter dito. Vale também para Rui Barbosa, Benjamim Franklin, Carlos Chagas, Oswaldo Cruz, Paulo Freire ou qualquer outro constitucionalista ou simplesmente quem quer que não queira cloroquina no receituário de enfrentamento do novo coronavírus.

O que dá pra rir dá pra chorar, diz o ditado, também verso de samba.  O problema é que também rende votos. O ‘falem bem ou falem mal, mas falem de mim’, na mídia, funciona, e muito. É a receita dos novos magos das campanhas eleitorais – Steve Bannon e genéricos e similares – que foram e ainda seriam estrategistas de Trump, Bolsonaro e que ostentam ter facilitado eleições de mais de 70 chefes de Estado. Entre os conselhos dos carésimos conselheiros, a pérola: esteja no topo dos acessos, polegar para cima ou para baixo, pouco importa.

No campo das ‘Ciências da Comunicação’, entre elas, o marketing eleitoral, a fórmula de estar sempre no set não é novidade. A jurisprudência teórica data de 1970, firmada pela dupla de pesquisadores norte-americanos, Maxwell McCombs e Donald Shaw. A “hipótese” do agenda-setting (agendamento), criada por eles, consiste no seguinte postulado: “A sociedade tende a discutir o que a mídia agenda”. Já os seguidores de Bannon acreditam mais além: turbinar o agendamento com agressividade dá mais votos, ainda.

McCombs e Shaw foram corroborados mundo afora e entre os próprios norte-americanos há afinidades. Antes deles, Walter Lippmann, importante estudioso de opinião pública, sentenciou (1922): “A mídia é a principal ligação entre os acontecimentos e as imagens desses acontecimentos em nossas mentes”. Outro de respeito, Bernard Cohen, escreveu (1963): “A mídia pode até não ser eficiente em dizer COMO pensar, mas tem uma capacidade espantosa em de dizer O QUE pensar”. Na Faculdade de Comunicação da UnB, a mestranda Ranata Crispim Andrada fez uma pesquisa sobre as táticas de agendamento do Greenpeace (2003). São tão eficazes que as pessoas mais memorizam os aspectos visuais e performáticos do que o conteúdo “ecologista” de suas “ações diretas”. Já obtinham mídia em todo o mundo antes de existirem internet e redes sociais.

Tal como no dilema proposto nos apelos de uma antiga marca de biscoitos, não se sabe se algo é chocante porque é bolsonarista, ou se é bolsonarista porque é agressivo. O estilo está feito e ao que tudo indica Bolsonaro é terrivelmente espontâneo em seus barbarismos. E quando se acha que ele se superou, ele e alguns de seus ministros imitadores reaparecem. E o que para outros seria desastroso, para eles faz parte do vale tudo, mesmo infames pastelões, como no uso indevido da Turma da Mônica para zombar dos chineses.

Na mesma ocasião das risadinhas fazendo pouco da valorosa Tubaína (vende, mesmo sem propaganda), Lula foi infeliz numa força de expressão. Ao reconhecer um benefício por vias perversas, soou estranho e quase se depreende que ele foi simpático à pandemia. Bolsonaro, por sua vez, parece sempre se dar bem como um político politicamente incorreto, mesmo quando atua como um cafajeste, emitindo duplo sentido imoral e jocoso em relação a uma jornalista ou quando manda um repórter calar a boca. Por vias tortas, determina: Publiquem!

O normal nas fábulas é que o abusador um dia vai provar do próprio veneno. Também um dia será ridicularizado. Todavia, não parece provável que Bolsonaro avance para um ‘novo normal’. Ele nunca será normal. Soam artificiais suas atitudes revisionistas, de usar corretamente uma máscara; de ralhar com admirador que insiste no fechamento do STF e do Congresso; e de amanhecer com pena das vidas perdidas para o novo coronavírus. É mais fácil, acho, a outra nação, a dos 53 milhões que votaram nele, fazer uma autocrítica do que ele deixar de ser briguento e vulgar. Ou não?

Se em algum dia Bolsonaro aparecer dizendo que não é mais a favor da tortura, testem a temperatura. Pode carecer de isolamento. E os bolsonaristas? Uma vez seduzidos, sempre engrossando o coro de... Mito?

Vários dos entusiastas poderosos de primeira hora desertaram e até o denunciam, haja vista, Sérgio Moro e Paulo Marinho. Quanto aos marqueteiros, creio, pouco adiantará se vierem para ele com uma de... Tá na hora de ‘vender’ outra imagem.

Já tivemos um presidente extraído diretamente da “inteligência” da ditadura pós-64, um durão, também afeito a tiradas grosseiras, porém mais dócil a retoques no figurino. Tirou a farda, tirou os óculos de tira, e se esforçou para ser o “João do Povo”. Talvez, por não ter sido, por natureza, o político gênero raposa. A moral da fábula ainda não mudou, de Fedro a Monteiro Lobato, passando por Esopo e La Fontaine: Vulpes mutat pilum nom mores (A raposa muda de pelo, não de costumes).
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(*) Este artigo foi publicado originalmente no site Os Divergentes.

Criado em 2020-05-21 17:38:11

Tudo junto e misturado

José Carlos Peliano (*) –

A poltrona preferida me aguardou até agora para me receber e eu por em ordem minhas tarefas não manuais. Pego o laptop para ver o que tenho para fazer. Venho das tarefas tipicamente manuais como, neste período de isolamento social, a faina quase diária de ajudar minha mulher na lavagem do banheiro e quarto pela manhã, depois de meia dúzia de muitas pequenas coisas feitas pela casa afora, até depois do almoço lavando talheres, pratos e panelas. À tarde consertos, arrumações e que tais.

Olha aí uma coisa que comecei a gostar de fazer ao longo da vida, que é a lavagem na pia da cozinha. Me dei conta que se trata de um exercício de paciência, organização, jeito e principalmente meditação. Sim, consigo meditar com a água escorrendo no prato ensaboado, a bucha passando no fundo da panela, a retirada de restos de comida para a lixeirinha ao lado da pia, a colocação dos lavados na ararinha de secar. Ao final, sinto um grande bem-estar depois de ver a pia vazia, limpa e grata por eu ter estado ali.

Oh, esta é uma coisa que meu cérebro me fez escrever sem eu ter pensado nela! A gente não só pensa, mas o cérebro conversa conosco através da mente o tempo todo. Freud dividiu a conversa em ego, id e superego. Como aqui não é divã de analista, vale a percepção de que ao pensarmos, ou falarmos e ouvirmos outra pessoa, de fato, estamos igualmente sendo pensados, falados e ouvidos por essa pessoa, ou por nós mesmos, quando estamos sós. Isto é, tenho hoje a intuição da certeza de que temos contatos invisíveis com as coisas, seja uma flor, uma planta, um cachorro, um pássaro, a cama de dormir, o copo d’água, o sapato. Relacionamos com as coisas o tempo todo e não nos damos conta. Nós as percebemos e elas nos percebem também.

Agora no período da pandemia essa relação me veio de maneira mais intensa porque estou mais isolado do mundo. Dá para perceber então que essa relação é uma forma de meditar junto com as coisas. Ela nos mostra que somos parte do quarto, da sala, do laptop, do livro, ah! Indispensável o livro, de todos da casa. Isso não é uma sensação literal, por mais óbvia que pareça, ela é sentida, vivida às claras, ao longo de cada dia. Uma forma de meditação na ação quando nosso universo pessoal entra em outra dimensão das coisas e dos outros seres vivos, ou noutras dimensões se cada coisa ou ser vivo também estiver nessa relação. Me aproprio da ideia dos físicos quânticos de que isso pode ser o multiverso já aqui ao nosso redor? Pelo menos um começo.

Algo como estar num holograma e ver tudo ao redor em outra perspectiva, outra dimensão. É como ver outro mundo num telescópio para as grandes dimensões ou num microscópio para as pequenas e perceber que vivemos em um patamar diferente desses dois ou mais patamares de vida. Tipo isso. E só é possível se dermos atenção para as coisas ao nosso redor, sejam grandes, pequenas, minúsculas, invisíveis. Cada um de nós é uma agulha no palheiro universal. Para não dizer nada, somos quase coisa alguma.

Se por um lado só sabemos disso por constatar que esses “mundos paralelos” existem e estamos no meio deles, por outro um diminuto vírus causa a rachadura do capitalismo. O que mostra os humanos têm questionável importância nesse multiverso. Embora haja enormes e honrosas exceções. A saber.

Hoje, 4 de maio, morre de corona vírus um dos nossos maiores letristas e poetas de todos os tempos, Aldir Blanc. O diminuto vírus levando nossa celebridade musical e poética. Ao mesmo tempo, segue junto Flávio Migliaccio, outro expoente artista do teatro, cinema e TV nacionais. Tudo indica que no seu caso foi o sofrimento com a depressão e a decepção pelos caminhos seguidos até aqui mundo afora, especialmente nosso país, há tempos sofrendo as consequências de um desgoverno de corte miliciano, inconsequente e tresloucado.

Duas perdas irreparáveis. Cada um no seu mundo de criação e arte. Sofre abalo sem precedentes a cultura nacional. O mundo artístico lamenta a falta sem tamanho que os dois irão fazer.

Ao juntar pandemia, isolamento social e perda de grandes nomes do cenário nacional, a sensação é de fragilidade, tristeza e desencanto. A vida segue, sim, em frente, mas menor, doída, saudosa. Incluo aqui a morte de nosso cachorro Chocolate, ocorrida dias atrás. Ele teve uma vida difícil. Achamo-lo atropelado no meio-fio há 5 anos. Foi tratado em duas clínicas de recuperação, mas permaneceu com as patas traseiras paralisadas. Um guerreiro solitário sem poder caminhar. Acho que meditava por calma, tranquilidade e doçura. Certamente estará correndo atrás de Aldir e Flávio.

O desapego à falta dos três deve demorar enquanto durar os absurdos e delinquências desse desgoverno sem precedentes. Ao tempo em que se avolumam nossos descontentamentos, indignações e revoltas. Quiçá consigamos nos juntar para tirar dos desmandos essa figura travestida de presidente sem postura, visão e formação. Como já disseram, não se trata de um estadista, mas de ser pequeno.

Nessa situação difícil em que vivemos, há uma saída, pelo menos para ver melhor o mundo ao redor. Recuperando nossa percepção mais detida e acurada das coisas, objetos e pessoas com as quais convivemos em casa no isolamento. Acredito mesmo que isso nos ajuda muito. Pelo menos para mim e os que vivem comigo estamos verificando isso como nunca antes. A vida agora está meio que em câmera lenta em comparação a antes. Assim, podemos ver as coisas em seus detalhes, os objetos mais detidamente, as pessoas com mais calma, solidariedade, paciência, atenção. E dando maior valor a cada dia ao simples, ao comum, ao necessário. Os supérfluos perdem sentido, lugar e significado. Até um poema passa a ser lido e apreciado para quem não tem costume de gostar de poesia.

Para Aldir Blanc

entre o bêbado e a equilibrista
não há bala com bala nem Bombril
que tire a energia do artista
na nação bananeira do Brasil
na corda bamba faz a sua pista
quando necessita usa o seu “kill Bill”
com invenção e graça que conquista
pela arte sem cara de servil
o Brasil não conhece o Brasil, sim
desde os becos de onde veio o funk
às pastorinhas nos pés do sem fim
que o samba, o xaxado, o xote nos banque
com o tambor, rabeca e o bandolim
para trazer de volta o Aldir Blanc
________________
(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor, economista.

Criado em 2020-05-05 02:31:53

13 de maio marcado por lutas e comemorações

Rafael Mattoso (*) –

Na mesma data do aniversário do Bairro do Méier (RJ),
o escritor Lima Barreto completaria 140 anos.

Quinta-feira, 13 de maio, importantes acontecimentos trazem o foco para a reflexão sobre a necessidade de seguirmos constantemente lutando contra o racismo estrutural no Brasil, e outros preconceitos. Vale destacar que o mês de maio é marcado pelo Dia do Trabalhador, pelo Dia Internacional Contra a Homofobia e o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, pautas que se tornam imprescindíveis em um momento de tamanho retrocesso político e civilizatório que infelizmente atravessamos.

O dia 13 de maio também nos remete a falar sobre a Lei Áurea, mesmo depois de transcorridos exatos 133 anos de sua promulgação pela Princesa Isabel, fica evidente que a assinatura do documento não garantiu de fato a completa abolição. Nem mesmo após o fim do Império e a chegada à República, os novos governantes conseguiram consolidar efetivamente a cidadania e garantir igualdade política e social para os ex-escravizados e seus descendentes. Porém, alguns ilustres aniversariantes deste mês nos mostram como a mobilização da luta por direitos tem trazido cada vez mais força e esperança na superação desse quadro.

Conversando com o amigo Pedro Rajão, produtor cultural, pesquisador da musicalidade africana e responsável pelos projetos Leão Etíope do Méier e Negro Muro, ficamos espantados com a extensa lista de personalidades e datas importantes, para o movimento negro, que são celebradas em maio. Entre elas destacamos o nascimento de Milton Santos, Nei Lopes, Alberto da Costa e Silva, Malcolm X, Lima Barreto, Ruth de Souza, Haroldo Costa, entre tantos outros. Assim como os 71 anos da criação do Conselho Nacional de Mulheres Negras do Rio de Janeiro e os 10 anos de falecimento de Abdias do Nascimento, idealizador do Teatro Experimental do Negro, em 1944.

Em meio a tantos aniversários e datas importantes, falemos um pouco mais sobre o Méier, Lima Barreto e as relações suburbanas. Temos que deixar claro que a história do Méier começa muito antes de 1889, ano em que a sua estação de trem é inaugurada.

Desde o período colonial, por volta do século XVIII, já havia grandes fazendas ocupando as terras situadas entre os limites das freguesias de São Thiago de Inhaúma e Nossa Senhora da Conceição do Engenho Novo.

Originalmente a maior parte dessa região era ocupada por taperas, aldeamentos tamoios. Parte dos primeiros caminhos de ligação da região do grande Méier era antigos peabirus (caminhos) indígenas. O terreno era cortado por rios, entre eles o rio Jacaré, palavra que deriva do Tupi-Guarani “yacaré”, e significa torto, sinuoso, ou seja, que corta a região serpenteando os obstáculos físicos.

Logo depois da guerra para expulsar os franceses e fundar da cidade colonial portuguesa, em 1565, as ordens religiosas passaram a ganhar grandes faixas de terras para administrar, catequizar os indígenas e proteger o território. Foi durante a ocupação jesuítica, em 1720, que uma capela dedicada a São Miguel e Nossa Senhora da Conceição foi edificada ao lado da sede de uma fazenda em uma grande área produtora de cana de açúcar.

Engenho Novo - Futuramente essas terras seriam conhecidas como Engenho Novo, para se diferenciar do Engenho Velho de São Francisco Xavier, na Tijuca. No entanto, a partir de 1759, a Companhia de Jesus, que ocupa a região, foi expulsa do Brasil, pelo secretário de estado português, o Marques de Pombal. Desde então, grande parte das terras passou a ser remanejada ou vendida, principalmente após a Lei de Terras de 1850.

A partir do Segundo Reinado (1840-1889), a região começou a se desenvolver cada vez mais. Com a abertura da Estrada de Ferro Pedro II, surge a primeira parada de trem, inaugurada em 29 de março de 1858, na região conhecida na época como Venda Velha, atual estação do Engenho Novo, que foi crescendo e ganhando destaque. Essa estação teve uma importância significativa para o processo de integração e desenvolvimento local, principalmente por se conectar, a partir de 1873, com Andaraí e Vila Isabel através da rua Barão do Bom Retiro.

O pioneiro projeto de urbanização, realizado pela Companhia Arquitetônica de Vila Isabel, também foi responsável pela montagem da primeira linha de bondes da Companhia Ferro-Carril de Vila Isabel.

Foi em meio a esse contexto que o comendador Miguel João Meyer começou a ganhar as concessões de terras que passariam, em 1884, para seu herdeiro Augusto Duque Estrada Meyer. A família portuguesa de origem alemã logo se tornaria muito influente e seus membros passariam a ser conhecidos como os “camaristas Meyer”, por supostamente terem acesso às câmaras do Palácio Imperial.

A abertura, em 1873, da maior oficina de trens da América Latina, no Engenho de Dentro, trouxe ainda mais investimento e infraestrutura para a região. Logo, em 13 de maio de 1889, também seria inaugurada a parada de passageiros do bairro do Méier. Nos anos seguintes, presenciamos muitas obras, aberturas de ruas e jardins, casas de comércio e residências que se edificaram e deram relevância a essa promissora área da cidade.

A partir de 1937, tanto em função dos investimentos do presidente Vargas na modernização e eletrificação dos trens e outros transportes, quanto no favorecimento da expansão de investimentos industriais para a Zona Norte, a região foi crescendo ainda mais até a década de 1950.

Um ilustre morador da região, que em 2017 foi homenageado pela Feira Literária de Paraty (Flip), o maior evento literário do país, vivenciou de perto o início de todo esse crescimento. Para falar com mais propriedade sobre Lima Barreto e o Méier convidei a amiga, professora e doutora em Literatura Brasileira, Elaine Brito Souza.

Por coincidência Elaine, que é moradora do Méier e escreveu a tese Lima Barreto e a memorialística: sujeito e autobiografia em crise, também fez aniversário dia 13. Parabéns para nossa amiga especialista que ainda nos brindou com o belo texto abaixo:

“’Estamos em maio, o mês das flores, o mês sagrado pela poesia.’ Assim Lima Barreto começa a crônica de 1911, anos depois da assinatura da Lei Áurea. A Abolição foi decretada no dia em que o futuro escritor completara sete anos de idade – 13 de maio de 1888. Junto com o pai, foi ao Paço Imperial para ver a ‘canetada’ da princesa e à missa no Campo de São Cristóvão.

O menino nunca tinha visto tanta alegria na vida. O sentimento de liberdade que tomou conta da multidão contrasta com a realidade do negro recém-liberto: ‘Mas como ainda estamos longe de ser livres!’. Coisas do destino. Logo ele, nascido sob a promessa de novos tempos, foi o escritor que trouxe a questão racial para a cena literária. E pagou por isso. Muito antes de falarmos em racismo estrutural, Lima nos mostra, por meio de seus personagens, as barreiras sociais e as regras invisíveis do preconceito. Escritor de talento, sem papas na língua, crítico do oportunismo intelectual e do nacionalismo flácido, acabou rejeitado pelos círculos literários de prestígio, como a Academia Brasileira de Letras.

Colorização da última foto de Lima Barreto
feita por Luis Felipe Capellão

Em 1889, um ano depois do fim da escravidão, a Estrada de Ferro Central do Brasil inaugura a estação do Méier logo em um 13 de maio, data que se tornaria marco oficial do bairro. Para Lima Barreto, morador de Todos os Santos, onde escreveu boa parte de sua obra, a estação de trem é o coração da vida suburbana, por concentrar o comércio, o entretenimento e a agitação tipicamente urbana. Em crônica de 1921, Lima fala do Méier como se fosse a capital do subúrbio: ‘Tem confeitarias decentes, botequins frequentados; tem padarias que fabricam pães, estimados e procurados’. Destaca ainda que o bairro tinha dois cinemas e um circo-teatro – ‘tosco, mas tem’.

Para muitos, a ideia de capitalidade não faz sentido, pois o subúrbio não é um, mas vários. Não por acaso, Lima emprega a palavra invariavelmente no plural – subúrbios. Discussões à parte, o fato é que Lima não esconde o entusiasmo. Para ele, ‘o Méier é o orgulho dos subúrbios e dos suburbanos’. O que diria sobre o primeiro shopping do Brasil, inaugurado em 1963 na rua Dias da Cruz?

De antiga fazenda a bairro engarrafado, o Méier também foi abrigo. Escravos alforriados formaram quilombos no morro que faz divisa com a Água Santa. A Serra dos Pretos Forros, área de preservação ambiental desde 2000, nos fala de um Brasil que Lima Barreto conhece muito bem. Chamava carinhosamente sua casa na rua Major Mascarenhas de Vila Quilombo, para, segundo ele, provocar os habitantes de Copacabana.

Bonde Méier, 1950

Ponto central ou de passagem, o Méier é lugar de encontro. A linha do trem é uma das referências da paisagem, atravessando o bairro próximo de onde ele é cortado pelo viaduto, mas bem costurado por histórias e cruzado por imagens que se misturam ao imaginário da cidade. O Méier segue firme e é claro que tem seus problemas, mas nada que diminua a sua relevância.”

Neste dia tão especial, desejamos vida longa a esse senhor de mais de 132 anos que se integra aos bairros do entorno, ajudando a tecer redes de sociabilidades, a forja identidades e paixões, formando uma grande região composta por Engenho Novo, Abolição, Riachuelo, Água Santa, Engenho de Dentro, Jacaré, Lins de Vasconcelos, Piedade, Pilares, Todos os Santos, São Francisco Xavier, Cachambi, Sampaio, Jacarezinho, Maria da Graça, Encantado e Rocha.

Para seguir homenageando o bairro do Méier visite no Facebook a página da Associação de Moradores do Méier (AMME), que completa 40 anos, e participe de ótima live. Outra opção é acompanhar o coletivo Engenhos de Histórias, também no Facebook.

Não percam!
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(*) Rafael Mattoso é historiador.
(Este texto foi publicado originalmente no blog do autor/VejaRio, no dia 14/5/2021).

Criado em 2021-05-16 19:38:21

Feira e Mostra Cultural da Reforma Agrária na Ceilândia

Até o dia 6 de agosto, na Praça do Trabalhador, em Ceilândia. Evento realizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Cerca de 200 camponesas e camponeses participam do encontro para comercializar artesanatos e alimentos produzidos agroecologicamente.

O deputado distrital Chico Vigilante (PT), que destinou recursos de emendas para a realização do evento, disse que “o objetivo é mostrar para as pessoas que não conhecem o MST, o que é o movimento. É mostrar que o MST não é o que é descrito pela grande imprensa, como sendo baderneiros ou invasores de terra”.

Chico ressaltou que “o MST tem condições de produzir alimentos orgânicos em uma escala gigantesca e pregou união entre os movimentos sociais para derrubar os golpistas que comandam o país”.

A deputada federal Erika Kokay, presidenta do PT-DF afirmou que “o MST conseguiu colocar na agenda do país a necessidade da reforma agrária”.  

Esta é a 3ª etapa do Circuito de Feiras e Mostras Culturais da Reforma Agrária do Distrito Federal e Entorno. Além da feira, que conta com a participação de assentados e acampados da região do nordeste goiano, noroeste mineiro e do DF, o Circuito traz em sua programação de seminários, rodas de conversas, música, teatro, ciranda infantil e uma praça de alimentação com comidas típicas do cerrado brasileiro.

“Encontros como este, mostram para a sociedade urbana, que os pequenos agricultores, assentados e camponeses são os grandes responsáveis por colocar os alimentos na mesa do brasileiro. Tudo isso, por um preço que não assalta o trabalhador. Defendemos a agroecologia como saída para uma alimentação sem veneno e uma produção que tem no trabalho camponês e na organização do trabalho cooperado, o contraponto à hegemonia do agronegócio”, destaca Marco Antonio Baratto, da Direção Nacional do MST do Distrito Federal e Entorno.

Cidades como Planaltina (DF) e Formosa (GO) já receberam o evento. Além de Ceilândia, o Circuito passará ainda por Unaí (MG) no final do ano.

Criado em 2017-08-05 23:06:31

Cine Bike – Festival Internacional de Cinema e Mobilidade Urbana

A partir de amanhã, 19/7 até dia 31, no Centro Cultural de Banco de Brasil (CCBB/Brasília), um convite à mudança de hábitos e à defesa da bicicleta como meio sustentável de transporte. Essa maratona inclui exibições de filmes inéditos e clássicos produzidos na França, Holanda, Portugal, Inglaterra, Suécia, Itália, Alemanha e Brasil. Além do documentário inédito A alma de um ciclista, do português Nuno Tavares, e o primeiro filme dirigido por Ridley Scott, O menino e a bicicleta.

Na extensa programação estão exibições de filmes ao ar livre, atividades educativas, oficinas, passeio ciclístico, praça de food-bikes e encontros, lançamento do livro Pedalar é suave, escrito por Josi Paz. A mostra será também online para os longas e curtas-metragens. Entrada franca.

“Pensar global, agir local”. A partir dessa máxima nasceu o CINE BIKE. A ideia é propor a reflexão e a tomada de consciência ambiental em nome da sustentabilidade, investindo na educação, na informação e na diversão.

A abertura será às 19h30, no dia 19 de julho, com a exibição de O garoto e a bicicleta, primeiro filme dirigido por Ridley Scott em 1965 (com o irmão Tom Scott no elenco), seguido da produção inédita portuguesa A alma de um ciclista, dirigida por Nuno Tavares.

Ao longo de duas semanas, serão exibidos filmes inéditos sobre mobilidade urbana realizados por diretores independentes de várias partes do mundo, clássicos do cinema que têm a bicicleta como um elemento relevante da narrativa, ficções, animações e títulos especialmente selecionados para o público infantil.

Grande parte das atividades acontecerá ao ar livre, fazendo um convite a pessoas de todas as idades. Estão na programação exibições em telão especialmente montado para o evento nos jardins do CCBB e numa tela de LED dedicada à programação infantil; passeio ciclístico contando com o apoio do Detran-DF; atividades educativas para crianças (como aprender a andar de bicicleta, por exemplo); área para food-bikes e várias outras ações.

E ainda palestras com nomes de ponta do pensamento sobre mobilidade urbana no Brasil e em Brasília, oficinas de manutenção básica para pequenos consertos de bicicletas, lançamento de livro, painel de debates e muito mais. Um grande evento de cinema, mas também um fórum de discussão, tendo a bicicleta como protagonista, dentro e fora da tela. A curadoria é do professor e crítico de cinema Sérgio Moriconi.

O FESTIVAL

Pela tela do CINE BIKE será possível assistir a filmes produzidos , em diferentes épocas do século XX e XXI. São títulos como “Carrossel da Esperança”, de 1949, comédia escrita e protagonizada por Jacques Tati; o premiado holandês “Porque pedalamos”; a célebre animação As Bicicletas de Belleville; o clássico italiano “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio de Sica; a produção inédita portuguesa “A alma de um ciclista”, de Nuno Tavares; e o sueco “Bikes vs Carros”, de Fredrik Gertten.

Também integram a programação a comédia francesa “Pânico na cidade”, de Yann Le Quellec; o curioso “Velotopia”, do francês Erik Fretel; o histórico “Meu segredo italiano”, do italiano Oren Jacoby, e a produção alemã “O quadro invisível”, de Cynthia Beatt, além de “A Rainha bicicleta”, de Laurent Védrine, o brasileiro “A volta em Minas”, a produção brasiliense “No rastro das cargueiras”, dentre muitos outros.

Entre os curtas, destaque para a produção cubana “As bicicletas de Havana” (filme gentilmente cedido pela Kauri Multimedia); o delicioso “Os pivetes”, primeiro filme dirigido por François Truffaut; o norte-americano “Todos os corpos na Bike”, tratando de inclusão; o holandês “Mama Agatha” e o clássico de Jacques Tati, “Escola de carteiros”. As exibições terão entrada franca, mediante reserva de ingresso.

No primeiro final de semana do festival, atividades ao ar livre voltadas para crianças e adultos ensinarão a andar de bicicleta, fazer pequenos consertos e melhorar as bikes, além de oferecer dicas sobre pedalar em segurança, com participação de representantes do Detran-DF e do projeto Bike Anjo. Também haverá o lançamento do livro infantil “Pedalar é suave”, uma iniciativa da ONG Rodas da Paz, escrito por Josi Paz, inspirado na história do ciclista, sociólogo e ativista Raul Aragão, voluntário da ONG Rodas da Paz, que foi atropelado e morto, em 2017, na L2 Norte, quando voltava da Universidade de Brasília.

Nos dias 21, 27 e 28, os ‘Encontros Cine Bike’ vão reunir especialistas e usuários de bicicleta para debater sobre “Os avanços dos planos de mobilidade urbana no Brasil”, “A bicicleta como meio de locomoção e liberdade para pessoas com deficiência” e “Ruas e cidades humanizadas – Slowmovement”. Estarão reunidos representantes de entidades relevantes para a área, como a União dos Ciclistas do Brasil e a ONG Rodas da Paz, grande parceira do festival.

De 29 a 31 de julho, o Cine Bike promove a Mostra online, com exibição de 05 títulos selecionados da programação. Os filmes serão disponibilizados para acesso no site do evento, através da plataforma VIMEO no site do festival: www.cinebikebrasil.com.br

Cada título ficará acessível durante 24 horas. A intenção é ampliar ainda mais o alcance e a mensagem do festival. Estão no programa os longas “A alma de um ciclista”, de Nuno Tavares (Portugal, 2021) e “Bike vs Carros”, de Fredrikn Gertten (Suécia, 2015), e os curtas-metragens “O porta-voz” (Austrália, 2013), “Todos os corpos na bike” (EUA, 2020) e “Explorando as ruas de Estocolmo” (Suécia, 2014).

E no dia 30 de julho, fechando a programação presencial do festival, ciclistas de todas as idades serão convidados a participar de um Passeio ciclístico, saindo (9h) e retornando ao CCBB Brasília, cumprindo um total de cerca de 6 km de percurso. O passeio contará com o apoio do DETRAN e, ao final, os participantes serão convidados a permanecer no CCBB para uma grande festa junina.

Um festival que deseja atuar por um mundo mais solidário e cidadão, unindo o amor pelo cinema ao prazer de andar de bicicleta. Um espaço para o diálogo sobre o uso de energias renováveis e a utilização da bicicleta como alternativa saudável, limpa e econômica nas cidades brasileiras.

Cine Bike é uma produção da Objeto Sim Projetos Culturais, realização do Centro Cultural Banco do Brasil e conta com o apoio do DETRAN-DF, Embaixadas da Itália, Países Baixos, França, Suécia e Portugal e da ONG Rodas da Paz.

PROGRAMAÇÃO

19/07 - TERÇA-FEIRA

TEATRO

19h30 - Abertura: O garoto e a bicicleta (27’, Ridley Scott, 1965). Livre + A alma de um ciclista (74’, Nuno Tavares, 2021). Livre

*Apresentação da sessão pelo curador Sérgio Moriconi, distribuição de cartazes colecionáveis. Intérprete de libra.

20/07 - QUARTA-FEIRA

CINEMA

18h00 - Pânico na cidade (38’, Yann Le Quellec, 2014) + A volta em Minas (21’, Fernando Biagioni, 2021). Livre

20h00 – Bike vs Carros (91’, Fredrik Gertten, 2015). 12 anos

21/07 - QUINTA-FEIRA

CINEMA

18h00 - No rastro das cargueiras (71’, Carol Matias, 2020). 12 anos.

Sessão com a presença da diretora.

20h00 - O garoto da bicicleta (87’, Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, 2011). 14 anos

22/07 - SEXTA-FEIRA

CINEMA

18h00 - Ladrões de bicicleta (93’, Vittorio de Sica, 1948). 12 anos

20h00 - Velotopia (52’, Erik Fretel, 2012). 12 anos

23/07 - SÁBADO

ÁREA EXTERNA

9h30 às 12h00 – Atividades educativas realizadas pelo DETRAN-DF.

Intervenção artística com repentistas, mímicos, bonecos e apresentação teatral. Acesso Livre

10h00 às 12h00 – Oficina de mecânica básica. A oficina pretende ensinar como se virar no caso de um pequeno incidente com a bicicleta, como por exemplo trocar um pneu, remendar, ajustar a corrente, ajuste de freios, entre outros.

15h00 – Oficina “Pedalando com a Bike Anjo”. Atividade para ensinar crianças, jovens e adultos a andarem de bicicleta. Inscrições prévias.

ÁREA EXTERNA – TELA DE LED – VÃO CENTRAL DO CCBB

16h00 - Sessão infantil: Um, dois, árvore (7’, Yulia Aronova, 2014) + A bicicleta do elefante (9’, Olesya Shchukina, 2014) + Escola de Carteiros (15’, Jacques Tati, 1947) + Ciclo (2’15, Sophie Olga de Jong e Sytske Kok, 2019) + Pedalando com Molly (1’46’, Sara Chia-Jewel, 2021) + Ernest e Célestine no inverno (48’, Julien Chheng e Jean-Christophe Roger). Livre

CINEMA

15h30 - Pedalar é suave, de Flora Gondim (26’30, Flora Gondim, 2018) + Lulu vai de bike (15’, Edson Fogaça, 2019)

*Sessão seguida de debate com Saulo Dal Pozzo (editor do filme Pedalar é suave), Edson Fogaça e Luiza Davison (protagonista do filme Lulu vai de bike)

17h00 - Meu segredo italiano (92’, Oren Jacoby, 2014). 12 anos.

Pensar global, agir local.

ÁREA EXTERNA – TELÃO

18h30 – Porque pedalamos (60’, Gertjan Hulster e Arne Gielen, 2020). Livre

24/7 – DOMINGO

ÁREA EXTERNA

10h00 às 12h00 – Lançamento do livro infantil “Pedalar é suave”, uma iniciativa da ONG Rodas da Paz, escrito por Josi Paz, com a presença do ilustrador, Pedro Sangeon.

- Atividades educativas realizadas pelo DETRAN-DF.

Intervenção artística com repentistas, mímicos, bonecos e apresentação teatral. Acesso Livre

- 11h00 às 12h00 – Oficina “Como melhorar a sua bicicleta” com o ciclista e terapeuta Marcelo Ribeiro. Área externa do CCBB. Inscrições prévias.

15h00 – Oficina “Pedalando com a Bike Anjo”. Atividade para ensinar crianças, jovens e adultos a andarem de bicicleta. Inscrições prévias.

CINEMA

15h00 - Elo Perdido - o Brasil que pedala (30’, Renata Falzoni, 2019) + Explorando as ruas de Estocolmo (13’, Clarence Eckerson Jr., 2014). Livre

17h00 – A rainha bicicleta (52’, Laurent Védrine, 2013). Livre

ÁREA EXTERNA – TELÃO

18h30 – As bicicletas de Belleville (80’, Sylvain Chomet, 2004). 10 anos

26/07 TERÇA-FEIRA

CINEMA

18h00 - O Caminho das nuvens (85’, Vicente Amorim, 2003). 14 anos

20h00 - O Sonho de Wadjda (97’, Haifaa Al Mansour, 2012). 12 anos

27/07 QUARTA-FEIRA

CINEMA

18h00 – As pernas de Amsterdam (13’, Wytse Koetse, 2015) + A alma de um ciclista (74’, Nuno Tavares, 2021). Livre

20h00 – Carrossel da esperança (86’, Jacques Tati, 1949). Livre

28/07 QUINTA-FEIRA

CINEMA

18h00 - As bicicletas de Havana (6’, Ian Clark e Diego Vivanco, 2014) + Todos os corpos na bike (13’21’, Zeppelin Zeerip, 2020) + Mama Agatha (16’, Fado Hindash, 2015) + Pai e filha (8’, Michael Dudok de Wit, 2000). 10 anos

20h00 - A rainha bicicleta (52’, Laurent Védrine, 2013). Livre

29/07 - SEXTA-FEIRA

CINEMA

16h30 - Curtas clássicos: Os pivetes (18’, François Truffaut, 1957) + Escola de Carteiros (15’, Jacques Tati, 1947) + O garoto e a bicicleta (27’, Ridley Scott, 1965). 12 anos

18h00 - O porta-voz (13’, Dean Saffron, 2013) + O homem que vivia em sua bicicleta (3’, Guillaume Blanchet, 2012) + Circulando pelo enquadramento (17’, Cynthia Beatt, 1988). 12 anos

20h00 - O quadro invisível (60’, Cynthia Beatt, 2009). 14 anos

30/07 - SÁBADO

ÁREA EXTERNA

09h00 – PASSEIO CICLÍSTICO – ENCERRAMENTO DA PROGRAMAÇÃO PRESENCIAL DO CINE BIKE - saindo e retornando ao CCBB Brasília. O passeio contará com o apoio do DETRAN.

ENCONTROS CINE BIKE

CINEMA

Dia 21/07

15h30 às 17h00 - “Os avanços dos planos de mobilidade urbana no Brasil”.

Com: Ana Luiza Carboni (União dos Ciclistas do Brasil), Joyce Ibiapina (Bike Anjo) e Cristina Rego de Queiroz (arquiteta e urbanista)

Dia 27/07

15h30 às 17h00 - “A bicicleta como meio de locomoção e liberdade para pessoas com deficiência”.

Com: Júlia Maia (ciclista), Cláudio Civati (representante paraciclismo no DF, Hevelym de Freitas Pereira (representante do DV na trilha), com mediação de Uirá Lourenço (Criador do blog Brasília para Pessoas. Perfil no face/insta: @brasiliaparapessoas) Encontro com intérprete de libras.

Dia 28/07

15h30 às 17h00- “Ruas e cidades humanizadas – Slowmovement”.

Com: Renata Aragão (Coordenadora Geral da ONG Rodas da Paz), Ana Júlia Pinheiro (Idealizadora da campanha “Paz no Trânsito” de Brasília), e Bruno Amaral, arquiteto e urbanista, coordenador de Mobilidade Ativa na Secretaria de Transporte e Mobilidade do DF. Mediação de Uirá Lourenço (criador do blog Brasília para pessoas. Perfil no face/insta: @brasiliaparapessoas).

MOSTRA DE FILMES ONLINE

De 29 a 31 de julho
SITE www.cinebikebrasil.com.br
*Cada filme ficará disponível para visualização por 24 horas.

29/7 – A alma de um ciclista (74’, Nuno Tavares, 2021)

30/7 – Bike vs Carros (91’, Fredrik Gertten, 2015)

31/7 – Sessão curtas: O porta-voz (13’, Dean Saffron, 2013) + Explorando as ruas de Estocolmo (13’, Clarence Eckerson Jr., 2014) + Todos os corpos na bike (13’21’, Zeppelin Zeerip, 2020)
___________________
SERVIÇO:
Local
: Centro Cultural Banco do Brasil Brasília – cinema e área externa
Data: 19 a 31 de julho de 2022
Horários, ingressos e informações no site: https://ccbb.com.br/brasilia/programacao/cinebike/
Entrada franca mediante reserva

Criado em 2022-07-19 00:33:29

Manifesto contra o golpismo exige “Vida plena ao povo brasileiro!”

“Sejamos parte ativa na reabilitação e
apoio das sociedades feridas
”
(Fratelli Tutti, nº 77, Papa Francisco)

A Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP), vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e dezenas de entidades ligadas ao movimento social e religioso lançaram dia 22/7 um manifesto condenando “qualquer ameaça ao regime democrático brasileiro contida em pronunciamentos que mencionam a não realização de eleições e intervenções militares inconstitucionais”

Segundo o documento, “o povo deve ser soberano na busca de solução para essa forte crise [política e sanitária]. Somente a democracia e a participação por meio das instituições constitucionalmente estabelecidas nos levarão à superação dessa difícil situação”

O manifesto diz     que “é hora do basta a esse governo federal que promove a morte. É hora de recompor a sociedade e retomar o caminho da democracia, do diálogo e do resgate social que a Constituição de 1988 apontou em seu nascedouro”

Por fim, conclama: “Participemos das manifestações populares, de forma segura, solidária e pacífica.”

A seguir, a íntegra do manifesto:

“Vida plena ao povo brasileiro!

A vida é sagrada. Lutar pela vida das pessoas nos distingue enquanto humanidade. Foi e continua sendo desumano não mobilizar todos os esforços e recursos para que as pessoas não morram pela Covid-19. As mortes pela pandemia, mais de meio milhão de pessoas, poderiam ter sido evitadas por meio de uma ação governamental exemplar e transparente, unificada nacionalmente e orientada pela ciência. O governo federal falhou no enfrentamento da pandemia e tem provocado grande sofrimento para as famílias brasileiras.

Todos os dias morre um número de pessoas igual ou superior a desastres, guerras e atos terroristas que abalaram o mundo. Não podemos naturalizar esses números.

Eles significam pessoas, famílias, homens, mulheres, idosos e crianças que deixaram de viver por conta de artimanhas políticas de grupos vis e desumanos.

A Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado tem mostrado como o governo federal vem agindo criminosamente em relação à pandemia.

Agentes públicos investem em medicamentos ineficazes no combate ao coronavírus, atrasam a compra das vacinas, não unificam o país com campanhas de informação sobre os melhores procedimentos para conter a contaminação, como o uso de máscaras e o distanciamento social e, por fim, transformam a compra das vacinas em um escândalo de corrupção.

O governo federal faz propaganda que o país está crescendo e saindo da crise econômica, mas o que verificamos na realidade é a volta da inflação, que consome os salários, e o alto nível de desemprego, que deixa um grande número de famílias sem perspectivas de vida.

O povo deve ser soberano na busca de solução para essa forte crise. Somente a democracia e a participação por meio das instituições constitucionalmente estabelecidas nos levarão à superação dessa difícil situação.

Nesse sentido, é um desserviço à nação qualquer ameaça ao regime democrático brasileiro contida em pronunciamentos que mencionam a não realização de eleições e intervenções militares inconstitucionais.

Não podemos deixar que o Brasil siga esse caminho. É hora do basta a esse governo federal que promove a morte. É hora de recompor a sociedade e retomar o caminho da democracia, do diálogo e do resgate social que a Constituição de 1988 apontou em seu nascedouro.

União, coragem e determinação. Participemos das manifestações populares, de forma segura, solidária e pacífica.

É o que se exige no momento.”

Assinam:

CBJP – Comissão Brasileira Justiça e Paz
Manifesto #RespiraBrasil
MST - Movimento Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra
MNFP - Movimento Nacional Fé e Política
6ª SSB - Semana Social Brasileira
CRJP/MS - Comissão Regional de Justiça e Paz - Mato Grosso do Sul
CPP - Conselho Pastoral dos Pescadores
PO - Pastoral Operária Nacional
CPDH - Comissão de Promoção da Dignidade Humana da Arq. Vitória/ES
CJP-DF - Comissão Justiça e Paz de Brasília
CPT – Comissão Pastoral da Terra
Pastoral Carcerária Nacional
CJP-AOR – Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife
Pastoral de Fé e Política - Arquidiocese de São Paulo
PPL - Pastoral Popular Luterana
Associação Nacional Vida e Justiça em Apoio e Defesa dos Direitos das Vítimas da Covid-19
ACAT Brasil - Ação dos Cristãos pela Abolição da Tortura
Comissão Pastoral da Terra do Estado de São Paulo
Cáritas Diocesana de Caicó
CAJP - Comissão Arquidiocesana de Justiça e Paz de Belo Horizonte
Pastoral de Fé e Política - Região Lapa/SP
Escola Diocesana de Fé e Política Zilda Arns - Diocese de Caicó
Pastoral de Fé e Política - Região Belém
Coletivo Mulheres Camponesas e Urbanas de MT
Escola de Fé e Política Waldemar Rossi
Comissão Diocesana para a Ação Social e Transformadora - Diocese de Caicó
Articulação Grito dos Excluídos e Excluídas de MT
Pastoral de Fé e Política - Regional Sul 1
Fórum de Direitos Humanos e da Terra de MT
MPA - Movimento dos Pequenos Agricultores
CNLB - Conselho Nacional do Laicato
Ouvidoria Geral Externa da Defensoria Pública do Estado de Rondônia
Paz e Esperança Brasil
Conselho de Leigos e Leigas da Arquidiocese de Manaus
Rede Apoio Covid - SP
Movimento Popular Lírio do Vale
Pastoral Fé e Política do Regional Sul1 da CNBB
CNLB Leste 1/ Obra Kolping
Pastoral da Mulher Marginalizada
CNLB Regional Leste 1 - RJ
Escola de Fé e Cidadania
Comitê Lula Livre - Santa Catarina
Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas
FMCJS - Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental
Pastoral Carcerária do Regional Oeste 1
Núcleo de Evangélicas e Evangélicos - Florianópolis/SC
Comunidades Eclesiais de Base- Regional Oeste 1 - MS
Pastoral do Turismo no Brasil
Centro Franciscano de Defesa dos Direitos
Rede EDUCAFRO Minas
Serviço Franciscano de Justiça, Paz e Integridade da Criação
Escola Arquidiocesana de Fé e Política Pe. Antônio Henrique - Olinda e Recife.
Centro Santo Dias de Direitos Humanos da Arquidiocese de SP
Pastoral Paroquial – Manaus/AM
Pastoral da Educação do Regional Sul1
Pastoral da Educação – Ribeirão Preto/SP
Centro da Mulher Imigrante e Refugiada
Centro de Direitos Humanos Dom Máximo Biennes - MT
Escola de Fé e Política – Natal/RN
Sindicato dos Trabalhadores da Fundação Oswaldo Cruz (ASFOC SN)
Comissão Justiça e Paz CJP Arquidiocese de Londrina
CLASP - Conselho de Leigos da Arquidiocese de São Paulo
INESC - Instituto de Estudos Socioeconômicos
CESEEP - Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular
CCAV - Casa de Cultura Arte & Vida
Marcha Mundial por Justiça Climática / Marcha Mundial do Clima
Pastoral Fé e Política da Diocese de Campo Limpo
Associação de Apoio aos Direitos do Alto Tietê e Cidades Adjacentes
MNCCD - Movimento Nacional Contra Corrupção e pela Democracia
Pastoral da Saúde Nacional-CNBB
Ilê Ase Obaluaiye ati Iya Omi
Secretariado para o 15º Intereclesial das CEBs do Brasil

Criado em 2021-07-24 13:40:19

Marielle presente: arte nas ruas incorpora imagem e luta da vereadora

Esta semana o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes completou cinco meses - ainda sem solução. Pelas ruas do Rio de Janeiro, a arte urbana acabou incorporando a memória de Marielle.

via tvbrasil

Criado em 2018-10-04 22:28:35

Liberdade ainda que tardia

Alexandre Ribondi -
 
A homossexualidade é reconhecida como parte da história do Brasil. No capítulo apresentado no dia 12 de junho, da telenovela Liberdade, Liberdade, escrita por Mário Teixeira para a TV Globo, as personagens André (Caio Blat) e o capitão Tolentino (o ator português Ricardo Pereira) caem um nos braços do outro e, juntos, caem na cama, apesar de saberem que, pelas chamas ardentes que provocam, podem ser levados à fogueira da Inquisição.
 
Era o ano de 1808, a corte de D. João VI estava instalada no Brasil e os intestinos do País se agitavam pela independência, que viria 14 anos depois.
 
E qual a importância da cena? Para a TV Globo deve ter sido muito grande, porque, com certeza, a audiência alcançou pontos necessários à restauração da sua imagem, num momento em que, também, as tripas do Brasil se reviram no cenário político - e onde se revela que a própria emissora é cúmplice da atual crise nacional.
 
Para a discussão da homossexualidade, a importância é, com certeza, imensa. Afinal, os homossexuais, historicamente acostumados a viver escondidos, querem, cada vez mais, se ver representados na arte (assim como os negros, assim como as mulheres) - e cada exposição equivale a uma martelada forte na dura barra de ferro do preconceito e da moral.
 
E foi uma cena de sexo, que marcou o capítulo da terça-feira à noite. Eram corpos masculinos nus. Lá estavam as nádegas de Ricardo Pereira e o peito e as virilhas de Caio Blat. Mas lá estava também o afeto e o amor que as personagem sentiam. Se tudo isso é de relevância, há outros detalhes que não podem passar esquecidos.
 
Nas últimas décadas do século XX. foi forjado, pelos homossexuais, um culto acentuado à masculinidade. Para a grande maioria dos gays, o erotismo é provocado por figuras másculas e a dignidade só existe se os amantes forem visivelmente viris.
 
Nessa construção da imagem ideal, os homossexuais, quase de mãos dadas com os heterossexuais, vêem a bicha afeminada e os seus trejeitos como uma manifestação ridícula e empobrecida do homem.
 
Claio Blat, no entanto, desmunheca. Usa leques, revira os olhos, suspira. E é irmão adotivo da filha de Tiradentes, o grande herói nacional. Na cena da cama, ficam evidentes os traços das duas personagens. É quando começa o balé dos gêneros, apesar de haver, ali, aparentemente um só gênero.
 
Primeiro, o capitão Tolentino avança e beija André que, assustado, se afasta. Em seguida, André tira a roupa, peça por peça. O ponto máximo de toda a cena surge quando Tolentino passa os olhos de cima abaixo pelo corpo do outro homem.
 
Ele olha para a genitália de André. Com isso, leva o público a ter certeza que se trata do pênis do homem amado o que ele vê e deseja.  O militar também tira a roupa e André, num gesto delicado, leva a mão ao próprio peito, toca um dos mamilos, enquanto espera com ansiedade.
André acaricia o corpo do capitão, apalpa os músculos, experimenta a carne firme. E vira o corpo, para que as suas costas toquem o peito do amante e para que a sua bunda reconheça o pau - e para que o público tenha certeza do que ele deseja: ser penetrado.
 
As pequenas cenas seguintes mostram carícias de Tolentino na espinha dorsal de André e a boca de André, que desce pelo peito de Tolentino.
 
A bicha afeminada ganha, assim, contornos nobres. Os seus sentimentos estão sendo expostos. Ela é capaz de amar, de delirar, de se entregar ao homem que escolheu e de ser feliz.
 
Ela, a bicha, com seus gestos, olhares e suspiros, não se apresenta com a masculinidade necessária à aceitação. Ela vai além, ela desmoraliza a rigidez dos gêneros, ela salta sobre a imaginária linha que divide o feminino e o masculino.
 
Os homossexuais, que vêem com desrespeito a bicha pintosa, que aprendam a respeitar. Porque André e Tolentino, amantes do século XIX, podem nos ensinar uma lição: não se trata apenas de Tiradentes, que correu riscos pelo Brasil. Na verdade, há uma liberdade imensa e feroz em ser quem você realmente é.

Criado em 2016-07-19 01:42:48

Alegrias e tristezas brasilienses

Maria Lúcia Verdi –

Creio que existem no mundo muito poucas capitais onde frequentemente se pode deitar na grama sob um céu de 180 graus, à sombra de árvores graficamente contorcidas a dançar para nosso olhar que se abre e fecha ao vento do planalto, balançando folhas e flores de tantas espécies.  Deitar-se e dar-se conta da distância entre nós e o espaço sideral, bem como do horizonte à esquerda e à direita. Deitar-se e respirar tentando esquecer toda a realidade em torno por um breve e necessário espaço de tempo.

Isto acontece enquanto aguardo os cinquenta minutos da lavagem do carro. Deitada, sem celular para gravar, falo em voz alta este texto sabendo que em outro momento será escrito e será outra coisa. De sobra, antes de ir, retiro uma enorme jaca do pé e reflito sobre a expressão “enfiar o pé na jaca”. É que o leite da jaca é uma gosma difícil de limpar, incômoda. Enfiamos.

Incômoda como são incômodas, desagradáveis, as passagens para os pedestres que não se atrevem a atravessar os eixos. Sujas e fétidas elas revelam o intestino da capital, fazem o link com o Entorno malcuidado, sem os intermináveis jardins brasilienses, sem grama e sombra acolhedoras.

As autoridades não lembram que existem pessoas que atravessam todos os dias aqueles espaços - é que elas só existem em época de votação, quando são facilmente iludidas. Elas votam, mas não tem direito à passagem segura e limpa, assim como não tem direito a uma rodoviária que, mesmo em (interminável) obra, ofereça ao menos escadas rolantes. Não há urgência… Há meses os idosos, as grávidas, as mães com crianças no colo e os deficientes físicos precisam enfrentar as escadarias. Mas os políticos e administradores não circulam pelas passagens e pela rodoviária.

A elitista Brasília, que nasceu do sonho utópico de comunistas bem-intencionados, mas irrealistas; esculturas magníficas ao aberto, no cenário verde e azul, se contrapõem ao descaso com os espaços de trânsito. E vivemos em trânsito, fundamentalmente. Mas aqui os carros velozes parecem ser dirigidos por seres que evitam enfrentar-se com esta verdade. Nem sempre estaremos no luxo, na ilha, no recorte, no gabinete. Parece que apenas quando as águas invadem as tesourinhas os motoristas se lembram do inferno.

Viver aqui é esse impasse. Desfrutar de luxos tão peculiares e dar-se conta de horrores e descasos tão comuns, tão brasileiros. Uma Brasília que parece mirar para São Paulo e Miami numa estética cara que invade cafés e restaurantes repletos de refinamentos gastronômicos. Enquanto isto, os que dormem ao relento sob tetos de plástico negro, montam árvores de Natal perto das pistas na esperança de comover os motorizados. Sobreviver razoavelmente equilibrada neste nosso país é um exercício diário. Ajudam demais algumas alegrias brasilienses, entre elas o Parque Olhos d´Água, demarcado e construído graças à resistência e ao esforço de um grupo de cidadãos ativistas, sobretudo mulheres.

No Olhos d´Água (é possível nome mais bonito?) podemos praticar yoga, Tai Chi e ginástica gratuitamente. As aulas de ginástica da professora Tania Reis, com exercícios de fortalecimento, alongamento e posturas da yoga, conduzidas com suavidade e atenção, são mesmo um luxo – tudo ao som da cantoria dos pássaros. Somos muito privilegiados nós, moradores do Plano e do final da Asa Norte.

O difícil é vivermos em paz com nossa consciência cada vez que paramos em um local aberto e, em uma hora, ao menos quatro pessoas sem teto vem expor a condição em que vivem. Impossível esquecer o Brasil. Como uma chaga aberta, como diz a canção final da peça Olho da Fechadura, dirigida pelo genial Hugo Rodas, outro luxo à nossa disposição. Chagas que devem estimular nossa fé na luta e na resistência, cada um à sua maneira dizendo não à ignorância.

Como colaboram os grafiteiros que deixam seus pensamentos, seus desabafos, sua revolta e sua poesia nas sujas e fétidas passagens de pedestres da capital deste amado e sofrido Brasil. Viva a Arte, expressão maior de qualquer e de todas as subjetividades.

Criado em 2019-11-28 21:27:18

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