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NdoE: Este artigo foi publicado originalmente no site Brasil Popular, em abril de 2016 -- quatro meses antes, portanto, de Michel Temer oficializar o golpe que destronou a presidenta eleita Dilma Rousseff. Decidimos republicá-lo aqui, porque, como diz com humor a colunista, o texto acabou se tornando "meio profético", com a indicação de "Democracia e Vertigem", de Petra Costa, ao Oscar de melhor documentário.
Angélica Torres (*)
O mundo de olho crítico na nossa vergonha nacional. Merecemos. Sempre se disse que somos um país nada sério, onde significativamente são acolhidos notórios estrangeiros fora da lei. Precisava acontecer no poder uma mulher sem eira nem beira política, mas, compromissada com uma postura de banana à hipocrisia governamental, para que se provocasse o desmoronar das máscaras.
Mulher é um ser fadado a quebrar protocolos. Mulher, mãe e avó, sem marido ao lado para se impor no universo dos machos, para apoiá-la nas angústias do cargo máximo, atenuar sua solidão palaciana, seus traumas de jovem guerrilheira torturada, a presidente nunca se arrogou em ser a bacana no ramo. Sabe que não tem o jogo de cintura e o carisma exigidos para o aceitável exercício do cargo, mas nem por isso empenhou-se em agradar paulistas, mineiros, nordestinos, goianos.
Trancada com a austera lisura de sua figura bizarra e guiada pela intuição feminina, talvez tenha tentado forçar a retirada do vice traidor e de aliados idem, logo na chegada ao Palácio do Planalto, sem ponderar que o mundo à sua volta poderia por isso vir a desabar no quadro da crise atual a que chegou.
Esperavam que ela governasse segundo os métodos da escola masculina tradicional. Que se prestasse a negociações, ao jogo espúrio do toma-lá-dá-cá com seus aliados-adversários, tendo no meio de campo a forte, idônea e solitária persona que a distingue.
Criticam-na sem, no entanto, vislumbrarem que os erros atribuídos à sua tresloucada gestão podem no futuro vir a ter uma leitura de viés positivo, uma vez que os efeitos despertaram a população como nunca antes para o debate político, com informações e opiniões circulando via internet e a movimentação cidadã polarizada nas ruas.
Vive-se hoje um clima de abertura do sétimo selo brasileiro, com revelações estarrecedoras da cena política vindo à tona e levando o país a flagrar o seu grotesco retrato ali refletido, e a se manifestar, se posicionar, participar contra ou a favor de seu afastamento do governo. O Brasil está em processo de amadurecimento e a "culpa" não é da mãe, mas da mulher que está à frente dessa desordem momentânea.
Se Deus escreve certo por linhas tortas, Dilma Rousseff escreve sua participação nesse drama épico com o direito à liberdade de interpretação que ela própria se permite. Porque longe de ser um simples quadro técnico, alguém despreparado para comandar o país, ou como queiram (des)qualificá-la, ela se constitui em uma personagem literária – quem, na mesma existência, teve o destino de habitar, como vítima, em porões de tortura e em salões de palácios, como mandatária?
Pode-se ainda, portanto, aguardar um inesperado desfecho para o enredo e para o seu papel de protagonista nessa História, que não se encerrará nos próximos dias, nem no amanhã de um futuro próximo.
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(*) Angélica Torres é jornalista da área de Cultura e poeta.
Criado em 2020-01-15 00:12:14
Romário Schettino -
O polêmico projeto de construção do Museu Nacional da Bíblia em Brasília vem recebendo críticas desde que foi anunciado em 2019. Este site já publicou quatro matérias e artigos sobre o assunto (veja a lista aqui, ao final). Finalmente a Justiça resolveu interditar o edital e a obra em curso.
A ação contra a construção do monumento à Bíblia foi movida pela Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA). A entidade entende que essa obra é uma afronta à religiosidade e à laicidade do Estado.
Em matéria publicada hoje (28/3) o jornal Correio Braziliense informa que a ATEA tenta decisão da Justiça do DF desde 2019, quando o Governo do Distrito Federal (GDF) anunciou a construção do monumento, no Eixo Monumental, em uma área doada pelo Executivo local.
A suspensão das obras e dos procedimentos administrativos foi decidida pelo juiz Paulo Afonso Cavichioli Carmona, da 7ª Vara da Fazenda Pública do DF logo após a Secretaria de Cultura e Economia Criativa ter publicado edital com concurso público para selecionar um estudo preliminar de arquitetura do denominado Museu Nacional da Bíblia. O recebimento de propostas seria até 1º de março, na próxima quinta-feira.
Em outubro do ano passado, o magistrado havia negado a suspensão por não haver "notícia de que a obra impugnada” pudesse ser construída num futuro próximo, pois não havia licitação para a escolha de projeto arquitetônico nem contratação da construtora.
Com o edital publicado pela Secec, segundo a Justiça, o "perigo de dano se mostra adequado à tutela, pois haverá risco ao resultado útil do processo, uma vez que o Poder Público deu andamento no projeto e já se mostra iminente o gasto de recursos públicos”. Dessa forma, portanto, estão suspensas as obras e todos os procedimentos administrativos, inclusive aquele decorrente do edital, "ficando proibido o Distrito Federal de efetuar pagamento de prêmio ao vencedor", conclui a sentença.
O secretário de Cultura, Bartolomeu Rodrigues disse ao jornal que, até o momento, não havia recebido nenhuma notificação sobre esta decisão.

Leia aqui matérias e artigos relacionados a este tema publicados neste site:
1) Museu da Bíblia ou Teatro Nacional
2) “Futuramente aqui: Bunda!” - Considerações sobre o projeto do Museu Nacional da Bíblia
3) Museu Nacional da Bíblia: arquitetura, entre a laicidade e o fundamentalismo
4) Brasília, uma cidade sem museu
Criado em 2021-03-28 23:52:29
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Encontro no hall do elevador o moleque do 5º com a namorada, eles dizem bom dia, e eu lasco um “Como vocês estão?”, que deve soar cringe pra eles. Ledo lapso! A menina me responde assim na lata, a cara da Camille Paglia: “Levando, entre Verstappen e Bezos”!
Não dá nem tempo de rir. Engulo em seco a epifania, e aperto o oitavo andar com a primeira pensata do sábado, véspera do Centenário de Paulo Freire.
Vocês já notaram que há um complô contra as crianças e os adolescentes, que muita gente considera seres inferiores em quase todos os sentidos? O boicote do sinistro da Educação contra os jovens pobres do Enem e a tentativa do sinistro da Saúde de lhes negar a vacina da Covid-19 são apenas os últimos atentados dos gurus inspirados em Herodes contra os guris e gurias do Brasil.
Pairam no ar preconceitos do tipo: “São estúpidos, na nossa época éramos mais engajados”; “Não leem, não juntam lé com cré, se comunicam com grunhidos”; “A música deles é um lixo”; etc etc e lero-lero e mimimi e chororô… Nhenhenhém! Xurumelas!
Quanta bobagem! Se essas imbecilifrases fossem verdadeiras, como explicar que 59% das pessoas com idade entre 16 e 24 anos reprovam o governo Bolsonaro, seis pontos acima da média, como demonstra a última pesquisa do Datafolha? A moçada tá ligada, essa é que é a verdade!
Se a escola pública é ruim, se as manifestações culturais são sufocadas, se faltam oportunidades de trabalho etc etc etc, a responsabilidade não é da garotada, certamente. Diante da escassez e da bagaceira, a turma vai se virando como pode, e nos surpreende volta e meia como aconteceu de manhã no meu elevador.
Tendo alcançado a pós-adolescência com alergia crescente às idealizações, tomo como verdade o verso do Goethe para quem “a juventude é a embriaguez sem vinho” (Jugend ist Trunkenheit ohne Wein). E sigo o conselho do poeta, inspirado nas Odes Anacreônticas: devemos beber até ficar bêbados para voltar a ser jovens!
A verdade continua no vinho, mesmo com excesso de sulfitos.
Criado em 2021-09-18 17:42:24
Luiz Martins da Silva –
Numa República, saúde é coisa pública e, portanto, objeto de políticas sociais e políticas públicas, não pode ser objeto de política partidária ou eleitoreira. Saúde é direito humano, fundamental, social e universal. Neste exato momento em que escrevo, pela primeira vez em sua existência, a Organização Mundial da Saúde faz uma reunião online, face a pandemia que se abate sobre o mundo. E o Brasil, que já foi protagonista na OMS e louvado por liderar mundialmente o enfrentamento a uma pandemia, HIV, é uma voz dissonante, e o que é pior: consta como tendo um dos quatro mais obscuros governos em relação à saúde, algo bem ao estilo da imposição da mentalidade do chefe, acima de tudo e de todos.
Primeiramente, vamos situar o que é política e qual o seu liame com um conceito até bem afim com o evangelismo em moda, que é o de vocação. Política, desde Aristóteles e de lá para cá, não tem mudado muito, a não ser com alguma tergiversação, leia-se Maquiavel e seguidores, é a arte do convencimento acerca do que é o melhor para o bem de todos, e isto se chama bem comum. Cito o grego, ainda, para lembrar os pilares da phronesis aristotélica que serve de base à melhor das polêmicas, a que direciona o debate a apontar acertadamente o que é o bom, o belo, o justo, em síntese, o bem. Esta visão orienta, por sua vez, uma compreensão que ao longo dos séculos veio facilitar o trabalho de Max Weber acerca do que vem a ser vocação.
O sociólogo germânico, em seus textos A Política por Vocação e A Ciência por Vocação aponta, claramente, como se dá – em prol do bem comum, ou não –, o exercício das carreiras individuais nestes campos. Na política por vocação, o político vive para a política, ou seja, para o bem da sociedade. Quando o político se vale da política para o seu benefício particular, dos seus, e da sua corporação em detrimento das outras, não é um vocacionado, mas, um fisiologista, um patrimonialista. Há, portanto, uma diferença entre viver para a política e viver da política. A mesma lógica vale para a ciência e para outros campos. Uma coisa é viver para a ciência, precisamente, viver para o progresso do conhecimento, e viver da ciência para si, para o lucro e para a dominação política ou econômica.
Agora, vejamos o encontro trilateral entre política, ciência e saúde. Em jogo, a própria sobrevivência humana e, a partir dela, algo a que se propôs o próprio Cristo: “Eu vim para que todos tenham vida e, vida plena”. Em outras palavras: se temos uma vida biológica e ela é finita e vulnerável, que vivamos uma vida correta para alcançarmos a transcendência, para que justifiquemos a própria vida como uma oportunidade para que, de acordo com as nossas ações, embasadas no bom, no belo, no justo e no bem, em síntese, mudarmos de paradigma e possamos pensar na possibilidade, com liberdade (livre arbítrio), de um dia sermos dignos de estar ao lado do Criador. De lá para cá, 2020 anos de persuasão, mas também de divergências e conflitos, acerca de como sagrar e consagrar a nossa vida. Ir além da matéria, ir além da biologia, ir além da fisiologia, ir além do patrimonialismo (a propriedade sem função social e sem função pública).
O advento de mais uma pandemia, nomeada de “O novo coronavírus”, põe em questão a maneira como as nações e seus governantes têm lidado com esse trinômio da política, da ciência e da saúde. Viver para a política não significa viver sem um bom salário e viver sem as condições dignas e adequadas para exercê-la. Viver para a ciência não significa que o cientista tenha de viver somente de trabalho (labor) e reflexão (oração), ou seja, viver solitariamente no seu laboratório, olhando para um oratório qual monge asceta, separado do mundo e de suas pragas e vicissitudes. Ao contrário, o cientista vocacionado é aquele que quer viver bem, sim, mas quer, acima de todos e de tudo, o bem coletivo.
Quanto ao cientista, não sendo um agnóstico, se sentirá santificando a sua vida se ajudar a prover o bem estar de todos e não apenas de si, dos seus e dos respectivos interesses. E o político? Haverá dedicação mais apontada para a sagração da vida e de suas ações do que estar, dedicadamente, no seu laboratório, oratório e parlatório a serviço do bem comum? E não se lhe exige sacerdócio e nem ascetismo, mas, ao contrário, ir sim, aonde o povo está, mas a serviço do povo e não utilizando o povo a seu serviço e pondo o povo a adorá-lo como se fosse um bezerro de ouro, inchado de vaidade.
Vejamos, agora, uma outra distinção, entre o que é interesse público e interesse do público. O interesse público demanda o planejamento e a ação baseados em conhecimento técnico e desejo de equanimidade e voltados para o bem coletivo, de imediato, médio e longo prazo. São as políticas sociais e as políticas públicas e todas as suas implicações com as realidades adversas a serem enfrentadas pelo trinômio Sociedade, Governo e Estado. Mais uma vez, a interveniência da categoria vocação e, consequentemente, da importância de vivermos em uma sociedade que possa ser autorreflexiva, ou seja, a possibilidade de que todos possamos ter opinião e participar dos debates e das decisões, nas mais variadas esferas da vida pública. E é isto que vai dar lastro às duas democracias: a Democracia Participativa legitimando a Democracia Representativa. E vai, igualmente, fundamentar uma ética para o Estado e, portanto, a construção de um Estado Ético, a se diferir do Estado-coerção.
O Estado ético vive para a sociedade, e não da só sociedade. Por fim, administrar o interesse público é, principalmente quando se está na condição de governante, orientar os recursos (com base no senso político, mas também do senso técnico) para a satisfação, dentro do possível, das necessidades de todos, algo diferente do que é ser demagógico: produzir efeitos ilusórios, alienação, aproveitando-se de ignorância, de crenças e de agradar os fãs (fanatismo), sobretudo quando nos seus coletivos corporificam subjetividades excludentes e antidemocráticas. É quando a política em vez de engendrar o bem comum infla fenômenos como o populismo, o culto da personalidade e à falta de reflexão, pois deixa-se estar a cargo do chefe e seus supostos iluminados. Quando isto acontece, perecem todas as saúdes, inclusive, a saúde cívica.
Criado em 2020-05-18 16:02:23
José Carlos Peliano –
não fica menor a vida
com a morte de uma flor
do cão predileto, do abacateiro
nem quando não mais estão os pais
a amiga da foto amarelada
a infância agora conto de fadas
fica sim a vida sem cor
quando as veias se rompem
se abrem mais ao longo da América Latina
nem as galés de tempos sem memória
que abriram as veias do grande oceano
perderam vida e cor mas sim história
sem a voz de Eduardo Galeano
______________
Eduardo Hughes Galeano (Montevidéu, 3/9/1940 – Montevidéu, 13/4/2015), jornalista e escritor uruguaio. É autor de mais de quarenta livros, que já foram traduzidos em diversos idiomas. Suas obras transcendem gêneros ortodoxos, combinando ficção, jornalismo, análise política e História. Galeano é considerado um dos principais expoentes do anticapitalismo na América Latina no Século XX.
Criado em 2020-04-12 21:42:13
Geniberto Paiva Campos –
Com muita precisão e inteligência, assim falou Einstein sobre a burrice humana: “Há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Sobre o Universo eu tenho dúvidas.”
Vale a pena relembrar alguns itens das pautas presidenciais propostas por políticos vencedores em eleições diretas e não contestadas: Jânio Quadros proibiu briga de galo; o uso de biquini pelas mulheres no banho de mar e namoro nas praias brasileiras. Fernando Collor confiscou os ativos financeiros da cidadania brasileira, incluindo os depósitos na poupança, no propósito de controlar a inflação. Ambos não terminaram os seus mandatos.
Na eleição de 2018, foi eleito um presidente da República absolutamente alheio às nuances do jogo político e às normas mais elementares do exercício de um mandato presidencial, mesmo quando conquistado em eleições diretas. E desconhecendo, propositadamente, os fundamentos sagrados de Democracia e da Civilização, conquistas irreversíveis das sociedades desenvolvidas. E convicto que seus filhos, identificados por números (01, 02, 03), se tornaram, por nomeação paterna, príncipes herdeiros de uma coroa inexistente.
Esta sucessão de equívocos, aliada ao desconhecimento dos limites naturais das inflexíveis regras republicanas, estaria conduzindo o país a um retrocesso gravíssimo. Absolutamente inaceitável para um povo que, há mais de um século, busca, com coragem e firmeza, os caminhos do desenvolvimento econômico, social, tecnológico, cultural. Num plano de igualdade, da aceitação das diferenças e da soberania. Características essenciais do processo civilizatório.
Os desafios impostos pelo inesperado surgimento da Covid-19, evidenciaram a total inadequação do atual governo ao seu enfrentamento. Governo que alia à ignorância, à estupidez e à mentira, gentilmente nomeadas como “negacionismo”. Adicionando, talvez, um componente de demência. Cujo trágico resultado se evidencia em quase meio milhão de mortes – a maioria evitáveis, diga-se – em pouco mais de um ano de ocorrência da Pandemia. Óbitos assumidos com estranha frieza e insensibilidade, principalmente pelas autoridades do governo federal, na vã tentativa de torná-los algo natural. E não fruto da incompetência científica e da incapacidade de coordenar as forças disponíveis (a pandemia trouxe junto as vacinas), para seu enfrentamento.
O país assistiu, entre perplexo e incrédulo, a um novo “festival de besteiras”, desta vez trazendo nefastas consequências para sua população, de todos os níveis da escala social e econômica.
Lamentavelmente, agora, a ignorância tornou-se aliada da teimosia. Uma espécie de crença religiosa, dogmática, que alguns críticos impiedosos e inconformados, já apelidaram de “jumentalismo”.
A reação natural da sociedade foi a solicitação de mais de uma centena de pedidos de impeachment à Câmara dos Deputados, todos solenemente ignorados pelos seus presidentes, os quais decidiram não apreciar, sequer, a eventual pertinência dos seus fundamentos. Com essa atitude, reforçando, perigosamente, a marcha da insensatez dos governantes.
Graças a uma oportuna e inteligente proposta do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), foi sugerida, e amplamente acolhida pelo Senado, a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), para analisar a conduta do atual governo no enfrentamento da Pandemia. Cujos momentos iniciais de funcionamento colocam alguma esperança na efetiva apuração dos acontecimentos. Vamos aguardar sua evolução. As autoridades brasileiras não poderiam ficar inertes frente ao descalabro de uma gestão infeliz e incompetente. Para dizer o mínimo. O país não merece – e nossa população já não acolhe, sem reagir - esse tipo de governantes.
O convívio da população com a estupidez de governos, mesmo temporários por natureza, resulta na criação de um clima negativo, onde a burrice tem sua vez, e ocorre a repetição de estultices, a partir do absoluto descontrole presidencial na emissão repetitiva de tolices inacreditáveis, feitas com propósitos inconfessáveis. E que parece estar em campanha eleitoral permanente.
Elegeram um presidente da República sem a mínima condição de governar, por absoluta incapacidade de tomar decisões. Com fundadas suspeitas de ser portador de doença mental. Enfim, uma pessoa absolutamente desqualificada para o exercício de cargo tão elevado da hierarquia política e administrativa do país, o qual, no desempenho atabalhoado das suas funções, promove o desmonte do país. Com a pressa dos maníacos e dos medíocres.
Repetimos: O Brasil não merece isso!
Criado em 2021-05-11 19:23:23
A Associação Andar a Pé convida para a comemoração do Dia Mundial do Pedestre no dia 8 de agosto, terça-feira, 20h, no Café Daniel Briand (104 Norte, Bloco A, Loja 26).
Na programação: Safári Urbano, exibição de vídeos, música e debate.
A Associação Andar a Pé vai homenagear os pedestres do Distrito Federal no dia em que foi feita a famosa foto dos Beatles atravessando, em fila indiana, uma faixa na Abbey Road, em 1969.
Embora a existência dessas faixas seja uma experiência consagrada em Brasília, não é possível achar que a “cultura da mãozinha” seja suficiente para os pedestres. A vida do caminhante é também aquela do “chão livre”, com calçadas confortáveis, preconizado por Lucio Costa no projeto de Brasília que este ano completou 60 anos.
A Associação Andar a Pé – O Movimento da Gente tem como objetivo promover o direito à cidade para o pedestre em todo o Distrito Federal (acompanhe a página no Facebook e escreva para o e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.).
Agende, celebre o Dia Mundial do Pedestre com a turma da Andar a Pé.
Criado em 2017-07-19 01:53:40
A revista que fez a primeira grande entrevista com Manoel de Barros
No ano em que celebramos o centenário da Semana de Arte Moderna de 22, data inaugural para a moderna cultura brasileira, a revista Bric-a-Brac emerge do seu silêncio de anos e volta a circular desafiando os limites da estética do modernismo e o cerco que se abateu sobre a cultura nacional.
A revista terá 110 página, toda em papel couchê, colorida para quebrar o tempo cinza-fumaça. Na pré-venda, durante o pré-lançamento em junho, foram vendidas 120 revistas de uma tiragem de mil exemplares.
A BRIC XXII será lançada nacionalmente em Brasília na próxima quarta, dia 13/7, no Bar/restaurante Beirute Sul – Comercial da 109. Depois em Belo Horizonte no espaço cultural Asa de Papel. No Rio, em agosto temos um convite para lançá-la na Associação Brasileira da Imprensa (ABI); e em São Paulo na Casa das Rosas, na Avenida Paulista. A BRIC poderá ser lançada também na tradicional Feira do Livro de Porto Alegre.
A revista contou com um apoio publicitário governamental e de algumas pequenas e médias empresas de Brasília. Sua gestação durou exatamente nove meses: um parto.
Poesia é tensão e a provocação começa pela capa, onde um poema-visual legenda-realidade anuncia: 2022, O PAU-BRASIL SANGRA. Um retrato brasileiro que teima em resistir numa fotografia-fogueira do poeta carioca Xico Chaves: a árvore que dá nome ao nosso país queima e sangra no Jardim Botânico do Rio – saudade de Tom Jobim.
O visual, criado pelo designer mineiro Rômulo Garcias, editor gráfico da BRIC, retrata a angústia das florestas sob o ataque dos incêndios criminosos e do corte da madeira bruta por seus exploradores na região amazônica e no Pantanal.
E, na “folha de rosto” da revista, lá vem a SANTA BALA, uma bala de fuzil vestida de santa, visual do eterno Luís Eduardo Resende, o Resa, o designer que criou a visualidade das seis (6) revistas editadas de 1985 a 1992; além de um álbum de poemas em lâminas serigráficas, e um catálogo de 112 páginas da exposição “BRIC-A-BRAC – 21 ANOS”, que ocupou o salão principal da CAIXA Cultural, em Brasília, em 2007.
A revista nas suas primeiras páginas, mostra os dentes antropofágicos. Nesta edição, fazemos uma homenagem à memória do querido Resa.
A atual edição reúne mais de 60 participantes com textos poéticos, crônicas, artes gráficas e grafismos, além de textos que sustentam a proposta acadêmica e histórica da edição. BRIC XXII, um “biscoitão fino” realimentando a invenção na Poesia para as massas.
Atenção especial ao artigo 22 e Noigandres (pg 32), do mestre Augusto de Campos que, aos 92 anos, pesquisou e relembrou fatos até hoje ainda inéditos da convivência entre os concretistas e os modernistas de 22, especialmente Mário e Oswald de Andrade.
Uma viagem-pesquisa nos oferece o poeta, professor e acadêmico Antonio Carlos Secchin em conversa informal com o editor Luis Turiba, onde apresenta e comenta os dez livros que mais lhe chamam a atenção na fase heroica e provocadora do Modernismo. Ao longo de oito páginas, cada um desses livros, foram comentados e fotografados em sua grandeza secular e canônica.
Uma surpreendente carta-manifesto assinada pelo poeta negro Arnaldo Xavier (falecido em 2008), comenta o livro O CIO DAS CORES de outro poeta negro, o também professor Éle Semog. E, amarrando as questões levantadas pela carta, um ensaio do poeta-crítico Ronald Augusto. Um papo de “criohoulo para criohoulo”.
A professora e pesquisadora de Pós-Graduação da UnB, Sylvia Cyntrão nos brinda com o ensaio Ecos Contemporâneos dos Manifestos Artísticos de 22 – Reflexão sobre Arte e Cultura Nacional.
O jornalista-poeta Paulo José Cunha relembra, numa carta saudosista, a angústia do poeta tropicalista Torquato Neto, quando este estava às voltas com a edição da histórica revista NAVILOUCA nos anos 70.
Além de tudo isso, uma entrevista com o antropólogo-poeta Antônio Risério sobre o marketing político tão em voga no Brasil de hoje.
A BRIC XXII se apresenta envolta em textos, poemas e visuais que retratam o Brasil de hoje, seu radicalismo, a negação, o vou-não-vou, mas a esperança-viva está resistência da palavra poética.
Afinal, “armar-se não é amar-se. E assim fez-se o mar que engolirá o ser-tão”, anuncia o editorial O PAU BRASIL SANGRA.
E propõe: “Múltiplas encruzilhadas. Não à uniformidade. A vitória do conflito sobre o confronto: 100 anos depois, o carnaval continua sendo a festa da raça. Viva a Vaia! Cala a boca já morreu!
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Editor: Luis Turiba (whatZap: luis turiba) – (21) 98288-1825
Conselho Editorial: Romulo Garcia (Editor gráfico); Editores auxiliares: João Diniz, Jairo Fará e Luca Andrade
Criado em 2022-07-08 02:29:45
Representantes da sociedade civil no Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC) divulgaram Moção de Repúdio às declarações racistas do Secretário de Cultura do governo Bolsonaro.
O secretário Mário Frias ofendeu o professor Jones Manoel em um post publicado quinta-feira (15/7) em uma rede social dizendo que “ele precisa tomar um bom banho”. Em seguida o Twitter apagou a postagem do secretário.
Manoel, que usa cabelo afro e barba, respondeu em suas redes sociais: "Olha o ex-ator frustrado e atual fascista cometendo um crime de racismo diário".
Frias fez o comentário em resposta a um post do assessor da Presidência da República Tércio Arnaud Thomaz. Arnaud compartilhou uma matéria do site Brasil 247 com a frase: “Jones Manoel diz que já comprou fogos para eventual morte de Bolsonaro”.
Manoel rebateu também pela internet. "Governo liberal-fascista de Bolsonaro é lotado de racistas, nazistas e tudo que não presta”.
O historiador, que é militante do PCB, disse que ainda não tinha prestado queixa por causa dos ataques, mas que avalia entrar na Justiça.
A nota do CNPC, divulgada no dia 16 de julho, afirma ainda que é preciso dizer “não ao totalitarismo neo-obscurantista nas políticas culturais brasileiras”.
A seguir, a íntegra da nota do CNPC:
“Os representantes da sociedade civil no Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC), composto por organizações e entidades culturais dos segmentos técnico artístico, patrimônio cultural, culturas populares e expressões culturais afro-brasileiras e indígenas do Brasil vêm a público externar todo seu repúdio aos constantes atos de racismo explícito e flertes às práticas do nazismo, demonstrados contra a cultura brasileira e seus representantes, refletindo a covardia e a crueldade destes que se sentem à vontade publicamente e, de forma vil, para verbalizar declarações abertamente racistas.
Repudiamos as frases racistas desferidas contra o professor Jones Manoel pelo secretário de Cultura de Bolsonaro, Mário Frias, na quinta-feira (15/7).
Tais ofensivas se somam a diversas outras condutas que já extrapolam a coerência e o bom senso humanitário ausentes neste governo. Fica cada vez mais claro, o projeto racista e de ódio ao povo brasileiro, que em sua grande maioria é negro, inclusive quando o próprio presidente associa o cabelo Black Power a um criadouro de baratas, ofendendo negros, quilombolas e suas tradições.
Repudiamos veementemente o cancelamento por parte da Funarte da captação de recursos pelo Festival de Jazz do Capão via Lei Rouanet. Este posicionamento flagrantemente baseado em fundamentalismo e ideologização, se configura como um grave desvio de finalidade das políticas culturais. Infelizmente estamos convivendo diariamente com desastrosos pareceres em desconformidade com as demandas da cultura afro-brasileira. Lamentável esse governo descabido de informações que não reconhece a arte como fator de multiplicação e ação transversal em nossas múltiplas linguagens para a nação e bem fazer Cultural.
Repudiamos o processo de perseguição e tentativa de controle político partidário ideológico por parte de alguns gestores do governo federal a servidores públicos dentro da Secretaria “Especial” de Cultura, que estão sofrendo assédio moral e institucional.
Repudiamos o frequente mal-estar e o desconforto que vem sendo gerado aos servidores da Secretaria Especial de Cultura diante da postura, do secretário, que anda e despacha, visivelmente armado, no ambiente de trabalho. Esse clima de tensão somado aos escândalos, ofensas, os gritos comumente deferidos aos servidores, representa uma ameaça constante à integridade física e psicológica desses trabalhadores, além de ser inadmissível essa postura dentro do órgão de representatividade cultural.
Repudiamos o histórico de banalização das vítimas do nazismo e as falsas analogias atribuídas a um dos fatos históricos mais trágicos da humanidade, o Holocausto, promovidas como agenda contra as medidas de restrição à pandemia adotadas pelos governadores, resultado da falta de políticas públicas sanitárias, do negacionismo e dos interesses escusos que impediram a imunização do nosso povo brasileiro.
Comparar as medidas de combate à pandemia impostas por governadores e prefeitos ao Holocausto, como fez recentemente o ex-ator Mário Frias em falsa analogia entre a matança de milhões de judeus durante o período nazista e os decretos dos governadores que na tentativa de conter o avanço da pandemia de covid-19, que já deixou mais de 500 mil mortos no Brasil, serve apenas para banalizar a memória das vítimas do nazismo.
Vivemos tempos em que as instituições democráticas precisam demonstrar categoricamente sua intolerância a qualquer forma de censura, bem como asseverar que não haverá complacência com o pensamento totalitário de quem quer que seja, indivíduos, grupos, organizações ou governos. É necessário afirmar com veemência que a liberdade de expressão, os direitos humanos e o estado democrático de direito, são valores civilizatórios dos quais não abriremos mão.
Prezamos pelo livre debate de ideias e acreditamos que as disputas ideológicas partidárias, jamais devem se confundir com erros históricos. Como um representante da diversidade cultural brasileira, ao promover discursos racistas, desrespeita todos os brasileiros que têm compromisso com a democracia e a formação cultural do nosso povo.
Os assuntos da cultura brasileira devem ser debatidos pelos atores da cultura brasileira, dentro do espírito da diversidade cultural e da pluralidade das ideias. Todos os brasileiros e brasileiras devem lutar para que atos dessa natureza sejam extintos e que fiquem somente nos registros da história para que possamos lembrar o quanto o ser humano pode ser cruel com seu semelhante.
Portanto, na defesa destes valores e princípios os representantes da sociedade civil do Conselho Nacional de Política Cultural - CNPC se manifestam, expressando publicamente sua contrariedade e apoiando esta Moção de Repúdio.
Brasil, 16 de julho de 2021.”
Assinam:
Conselheiras e Conselheiros da Sociedade Civil
Conselho Nacional de Política Cultural - CNPC
Leonardo Ferreschi - Conselheiro Representante da Região Sul
Rita Andrade - Conselheira Representante da Região Centro Oeste
Mãe Tuca d'Osoguiã - Conselheira Representante das Expressões Afro-Brasileiras
Luciano Rocha dos Santos - Conselheiro Representante Região Nordeste
Giovanna Penido - Conselheira Representante Região Sudeste
Sebastião Alberto Vieira de Moura - Conselheiro Representante Região Norte
Renato da Silva Moura - Conselheiro Representante da Região Norte
Iriadney Alves da Silva – Conselheira representante da Região Centro Oeste
Soraya Amaral - Suplente Região Sul
Cleide Façanha – Suplente Região Norte
Criado em 2021-07-18 03:49:42
Alexandre Ribondi -
O filme de Lorenzo Vigas, De Longe Te Observo (Desde Allá), em cartaz no Liberty Mall, serve para que os brasileiros, bombardeados por informações lançadas por morteiros e catapultas, vejam que a Venezuela não é apenas terreiro para lutas sociais, pobreza, perigo urbano e homofobia.
É também terra que produz uma obra narrada, fotografada e interpretada de maneira a mostrar, com a força de um impacto certeiro, os problemas que enfrenta a Venezuela: lutas sociais, pobreza, perigo urbano e homofobia.
Armando (o ator é o chileno Alfredo Castro) é um homem de meia idade, dono de um laboratório de prótese dentário, que passa seu tempo livre ocupado em duas tarefas: primeiro, seguir o pai, com quem parece nunca ter vivido, para observá-lo de longe. A segunda tarefa é aliciar rapazes pobres e perigosos das ruas de Caracas para que se exibam nus enquanto ele os observa, de longe, e se masturba.
O público compreende que esse homem silencioso e estranho tem ótima situação financeira porque paga bem. Acontece, no entanto, que um dia ele conhece Elder (o ator iniciante Luís Silva), chefe de uma gangue de bandidinhos, que finge aceitar o convite para, ao chegar na casa de Armando, derrubá-lo com um soco, roubar dinheiro, documentos e um bibelô da sala e fugir.
É a partir daí que os dois passam a se procurar, cada um a seu modo, e criam um relacionamento carregado de desejo, desprezo, ódio e, sobretudo, luta social: o rico e o pobre frente a frente, incapazes de conviverem, perigosos um ao outro, e onde o rico é capaz de cometer atrocidades silenciosas.
O final da história mostrada em De Longe Te Observo é capaz de deixar o público boquiaberto ou sem palavras pela compreensão que situações semelhantes acontecem todos os dias diante de nossos olhos: apreciar a beleza e a sensualidade de uma empregada doméstica, por exemplo, e ser incapaz de tratá-la com respeito.
Além disso, a câmera do filme (que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 2015) também é uma observadora de longe. Junto com as personagens, ela caminha em silêncio pelas ruas de Caracas, umas sujas e pobres, outras arborizadas e ricas. O ator Luís Silva, que tinha 19 anos quando encarnou o ladrão Elder, faz questão de informar que "também sou pobre, também sou das ruas, também cresci sem meu pai".
Quando ele anda pela cidade, o requebro de suas cadeiras é um elemento essencial para o drama que se apresenta na tela: a sensualidade e o erotismo do pobre podem ser comprados pelo rico. Outro ponto marcante são os silêncios e a imobilidade. Momentos assim servem de brecha para que o espectador penetre na história e a escarafunche, mesmo correndo o risco de achar mais crueldades.
De Longe Te Observo é baseado num conto do escritor e roteirista mexicano Guillermo Arriaga, conhecido dos brasileiros que gostam de cinema: é dele a autoria de Babel, 21 Gramas e Amores Brutos, todos dirigidos por Alejandro Iñárritu.
E, caso você esteja interessado em ver que a vizinha Venezuela é mais do que conflitos violentos entre a elite e as ruas, e que a sua produção cultural pode ser resultado justamente desses conflitos, não deixe de De Longe Te Observo.
Aliás, vá correndo.
Criado em 2016-08-02 14:30:43
Maria Lúcia Verdi –
Keilah Diniz nascida em Nova Aurora, sul de Goiás, em Brasília desde 1970, conheceu o Acre em 1977 e não mais parou de frequentar aquele espaço de força e mistério, fonte de inspiração. Em 1969, no Festival Universitário de Música Popular Brasileira de Goiânia, apresentou-se pela primeira vez. Sua chegada em Brasília, cantada em “O futuro chegou”, de seu novo CD “Dons”, explicita que “saí de casa com uma asa cortada\ pra não voar além do que resistia\ mas fui morar numa certa cidade\ que por ter asas da terra subia”.
Keilah, servidora pública efetiva do Ministério da Cultura, desde sua criação, em 1985, também trabalhou na Fundação Cultural Palmares, sempre engajada com as questões socioculturais e ambientais brasileiras. “Dons” reapresenta, após muitos anos afastada dos palcos, seu compromisso com a natureza e os povos da floresta.
Em “Fios”, homenageia o Jalapão por meio das mulheres que tecem o capim dourado, as “guerreiras do sol”. “É muito bonito” descreve o céu, as nuvens, os pássaros que nos viciam neste Planalto Central e sintetiza: “é belo de se ouvir\ o cantar das sabiás\ juritis e bem-te-vis revoando\ alvoraço das araras\ periquitos e cigarras\ cachoeiras despencando das serras\ é isso que se vê por aqui\ no planalto central do país.”
Capitolino - música de Keilah, feita em 1981, para uma peça de teatro de Maria Helena Kührner, “As aventuras de um diabo malandro” - é “cabra espertalhão”, personagem emblemático do capitalista que deseja enriquecer destruindo a floresta. Capitolino, escutada quarenta anos depois, ecoa o que ainda vivemos: “capitolino captou o medo\ capitolino captou o mal\ capitolino captou a fome\ e foi assim que fez seu capital”. Como diz a autora, infelizmente, “a história se repete”.
“Juruá” é um canto do homem da floresta que pede ajuda: “só uma coisa me entristece\ quando escuto um passarinho\ cantando pede socorro\ à rainha da floresta\ salve a casa do meu pai\ salve tudo que ainda resta”.
Em “É verde” a amante da floresta e da tradição ancestral do ayahuasca louva os ritmos e cantares que unem seus adeptos: “e assim louvamos a vida\ dando viva à natureza\ viva todos que vieram\ e os que estão por chegar\ viva o povo brasileiro\ o povo daqui e de todo lugar.”
A última música, “Dons”, clama pela utopia de justiça e paz: “viva o sonho de justiça\ entre os homens, paz na terra\ viva a sabedoria do universo\ contra o mal\ salve os mestres do oriente\ orixás e os pajés\ a cultura que enlaça\ netos, filhos e avós\ voz, voz.”
No disco, as músicas de Keilah Diniz estão registradas com a maestria de músicos brasilienses, numa miríade de instrumentos: flauta, cordas, cello, cavaquinho, percussão, bandolim, pandeiro, violões, baixo elétrico, piano, acordeom, guitarras, bateria, violão de sete cordas, trompete, viola caipira, clarineta e sax.
Na noite da próxima terça-feira, dia 15/10, no Clube do Choro de Brasília (Eixo Monumental), Keilah estará acompanhada pelos músicos Eugênio Matos, piano; James Fernandes, violão e baixo elétrico; Nilton de Castro, acordeom; Marcos Ramalho, percussão; Mariana Burlamarqui, flauta; Flávio Fonseca, violão e voz; Stela Brandão, voz solo; pela Banda Cheers e por um coro.
Abraçar Keilah dia 15 será insistir na fé de um Brasil atemporal que resistirá a esses tempos bárbaros. Há cinquenta anos a artista milita pelo Brasil que sonhamos - justo, equânime, biosustentável, onde o povo tenha direito à educação, à saúde, à liberdade e nossas riquezas continuem nossas.
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FICHA TÉCNICA
Arranjos, Produção e Direção musical: Flávio Fonseca
Concepção: Keilah Diniz
Técnico de gravação: Pedro Tavares
Mixagem: Valério Xavier
Gravado no Estúdio 1 2 3 4, outubro/novembro/2018
Flávio Fonseca: Violões
Hamilton Pinheiro: Baixo elétrico
Eugênio Matos: Acordeom e Piano, em Dons
Daniel Baker: Piano
Paulo André: Guitarras
Célio Maciel: Bateria
Marcos Ramalho: Percussão
Valério Xavier: Pandeiro
Fernando César: Violão de 7 cordas
Moisés Alves: Trompete
Marcos Mesquita: Viola caipira
Ademir Júnior: Clarineta e Sax
Diana Mota: Flautas
Ivan Quintana, Fabianne Gotelipe, Antônio Fábio, Guilherme Ficarelli: Quarteto de cordas
Guilherme Ficarelli: Cello
Victor Angeleas: Bandolim
Pedro Vasconcellos: Cavaquinho
Stela Brandão, soprano, participação especial em Iemanjá
Coro: Ana Villalba, Eurilinda Figueiredo, Flávio Fonseca, Gabriel Kuran,
Marco Burlamaqui, Nayara Lopes, Silene Farias, Tatiana Diniz.
Desenhos: Rômulo Andrade
Fotos: Terza Hezim, Lu Maia, Arquivo pessoal
Agradecimento especial ao maestro James Fernandes.
Criado em 2019-10-10 19:33:41
Angélica Torres –
Leitores e mesmo escritores têm razão quando dizem que ler um bom livro de pessoa que se conheceu muito proximamente é uma viagem emocionada, daquelas que permanecem pairando no imaginário e no lado esquerdo do peito por dias seguidos, rumo ao para sempre. É o caso de Casaco Marrom, O amor nos tempos da guerrilha, de Giselle Nogueira.
Publicado em 2010, pela Record, na coleção “Galera”, o livro cativou o público juvenil estudantil. Atraiu escolas que levaram a escritora para dar palestras à rapaziada e ganhou dois prêmios, um em Manaus outro no Rio de Janeiro. Mas não se restringe à juventude, também encanta adultos que o descobrem tempos depois (um viva à Estante Virtual!), como foi o meu caso.
Ainda mais atual do que quando foi lançado, Casaco Marrom (na foto, abaixo) vai por uma narrativa inteligente, bem construída, saborosa, com uma elegância e um bom humor que diferenciam a autora de outros escritores desse tema espinhoso da luta armada, ocorrida na segunda metade de 1960, durante a ditadura militar, no Brasil.

Se foi uma surpresa descobrir o livro de Giselle Nogueira, a guerrilheira, dos 16 aos 20 anos, que no romance adota o codinome Raquel, não posso dizer o mesmo dos ingredientes que fazem o livro ser devorado de um fôlego. Giselle sempre foi brilhante, aplicada, curiosa, interessante, misteriosa. Desde menina. É daquelas personagens que passam pelas nossas vidas com uma aura que as distingue, embora só mais tarde se constate ter notado isso lá atrás, com nitidez.
Filha de um capitão do Exército transferido para o interior de Goiás, ela passou a infância estudando no colégio das freiras e lendo Monteiro Lobato, vendo filmes no Cine Estrela, andando com latas presas nos pés e mãos com barbante, jogando baliza, pulando corda, brincando de pique e passa-anel, subindo nas grimpas de cajueiros e fazendo piruetas de patins, junto com a meninada da vizinhança.
Além de estudiosa e moleca, era sonhadora e romântica, tanto que precisou se recolher e colher suas memórias torturadas para saber, 30 anos depois, onde e como teria de fato começado a perigosa aventura que daria uma guinada radical em seu destino.
Não à toa, portanto, o título do livro, inspirado no da canção de Renato Correa/Danilo Caymmi e Guttemberg Guarabyra, vencedora do Festival de Música de Juiz de Fora (MG), em 1969, que começa assim: “Eu vou voltar aos velhos tempos de mim, vestir de novo o meu casaco marrom (...)”. Foi um hit que marcou época na voz de Evinha: iluminou aqueles tempos pra lá de sombrios e compôs bem com o resgate da trajetória revolucionária de Giselle.
"Foi ali, naquela pequena cidade goiana, que Raquel, aos 12 anos, ouvira falar pela primeira vez em ‘justiça social’. Aprenderia a ler nas entrelinhas do Evangelho. Tomaria consciência de que era líder e, como passo seguinte, ingressaria na JEC (Juventude Estudantil Católica)”, ela narra no romance.
Brincamos juntas por anos seguidos como grandes amigas, até que nossas famílias se mudaram de cidade e perdemos contato. A dela foi para Minas Gerais, aonde, aos 17 anos, ela se engajou no movimento estudantil, que sob a liderança da UNE (União Nacional dos Estudantes) enfrentava a repressão noutras partes do país.
A partir de então, Giselle embarcaria em direção à clandestinidade como militante do Colina (Comando de Libertação Nacional), surgido em Minas em 1967 e que em 1969 fundiu-se com a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), de Carlos Lamarca, dando origem à VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares).
O romance captura o leitor logo na primeira frase, quando o relato acelera o coração e o impulsiona a curtir as valentes, às vezes, divertidas aventuras de Raquel, sem querer interromper a leitura. À trama tecida em flashbacks, Giselle Nogueira, jornalista de profissão, intercala informações verídicas sobre os fatos políticos e culturais que ocorriam com vigor naqueles anos de brava resistência. Natural e despretensiosamente, leva o leitor a imaginar as cenas com clareza, como num longa-metragem com toques de documentário.
As notícias que tínhamos dela naquele período, nós, os seus amigos de infância – e mesmo depois que “caiu” prisioneira – eram controversas, talvez fantasiosas. Talvez nunca saibamos de fato o que se passou, as ações desempenhadas junto à organização, nem o seu real codinome e as barbaridades que sofreu nos porões dos órgãos de repressão. Ela se dá ao direito, todo dela, de relatar o possível que sua memória humana suporta.
Daí deduzo porque o subtítulo O amor nos tempos da guerrilha. A paixão vivida aperiodicamente com um companheiro de luta durante a clandestinidade sustenta de ponta a ponta o sopro de esperança por liberdade e justiça, no furacão de sua saga. “Foi pensando nos jovens de hoje que decidi escrever este livro”, confessa na apresentação do romance. Claro, porque entre seus pendores e formações, Giselle Nogueira tem também o magistério. Lecionou na UFMG e na PUC-Minas.
Por isso o saque, de mestra, de dirigir o livro às novas gerações, com um recado conciso e sábio. Quando convidada em 2010 a falar em colégios sobre sua militância política, no final ela ouvia de estudantes que a vida hoje não tem graça, que não há mais causas pelas quais lutar e mais batalhas a serem vencidas. Pois ao ler o seu relato, o que me fica de substrato é a imagem da colegial, a menina sensível, perspicaz, que conheci, capaz de uma entrega obstinada à sua causa, mas fadada a equívocos e fracassos porque feita de carne e osso e não de película de filme.
A história, aliás, foi adaptada por uma turma de faculdade de cinema, em Belo Horizonte. Mas merecia ganhar uma versão que entrasse em circuito. Giselle na pele da Raquel me evoca o anjo caído, Cassiel, de Wim Wenders em "Tão Longe Tão Perto". Tão puro, tão ingênuo, que se estrepa todo ao final da história. Mas isto é só uma metáfora. Raquel escapou com vida e Giselle vive, vitoriosa, em algum lugar recôndito do país. Mas essa é uma outra história. Felizmente, também real.
E este texto é só uma homenagem à guerreira amável e desprendida, que recusa, não tenho dúvidas, o título de mártir de uma história tenebrosa – essa, de brutalidade, ignorância e terror, que repudiamos com todas as nossas forças e aspiramos que se vá, de uma vez por todas, para muito longe de nós.
Criado em 2020-01-06 00:35:56
Romário Schettino –
Com o número de mortes chegando a 3.600 por dia, com tendência de alta, a Covid vem se tornando uma bomba de alto poder explosivo nas mãos de todos aqueles que se articulam no Legislativo, no Judiciário e na sociedade civil. O papel da imprensa é exigir mais ação e responsabilidade do governo.
É fato que Bolsonaro é o principal responsável pela situação ter chegado a esse ponto – mais de 300 mil mortos até o momento –, mas constatar isso não basta. Chamá-lo de genocida não o comove, Bolsonaro tenta silenciar as vozes com uma truculência alarmante.
O tardio Comitê de Gestão anunciado pelos presidentes da Câmara e do Senado é tímido. Faltam nele seriedade e confiança, pois está, aparentemente, restrito aos governadores que apoiam o presidente. A picuinha prevalece e disputa de egos confundem o brilhante trabalho do Instituto Butantan.
Por tudo isso, passou da hora de pensar seriamente nas eleições de 2022. A possibilidade de um impeachment de Jair Bolsonaro por crime de responsabilidade na condução da pandemia está praticamente descartada. Não há unidade nesse ponto nem nas oposições. Por enquanto, o índice de aprovação do governo, apesar de tudo, é um entrave.
Enquanto isso, a ventoinha enlouquecida do Palácio do Planalto se move de acordo com o interesse eleitoreiro do presidente. Depois de comprar votos suficientes para garantir sua estabilidade política na Câmara, Bolsonaro vai se equilibrando aqui e ali. Quando sair o auxílio emergencial, agora em abril, por menor que seja, diante da miséria em que estão vivendo milhares de brasileiros, Bolsonaro pode faturar prestígio.
Aparentemente Bolsonaro está cedendo espaço para o Centrão, mas sempre de olho em sua reeleição. Há quem diga que essa estratégia não resistirá à tragédia que se avizinha na economia e no plano social, com o desemprego e a fome se alastrando.
Pelo sim, pelo não, a união das esquerdas encontra dificuldades de avançar, mesmo diante do efeito Lula pós-STF e sua vitória histórica sobre o ex-juiz Sérgio Moro. Todo dia ouvimos dizer que é necessário unir as esquerdas, mas a verdade é que faltam aqueles e aquelas que vão reunir todas as peças. Elas estão espalhadas, e a urgência é grande.
Não podemos dizer que ainda é cedo para reafirmar que a união de todos para derrotar Bolsonaro passa pela retomada e ampliação das políticas públicas de proteção social, defesa do SUS, geração de emprego e renda. O crescimento econômico não virá com o povo passando fome.
O Brasil não pode esperar para ver o que vai acontecer com esse governo tresloucado. Nunca a Esplanada dos Ministérios esteve tão cheia de figuras bisonhas, irresponsáveis, moleques, cínicas, machistas, misóginas, homofóbicas, criminosas, em postos chaves nas Relações Exteriores, no Meio Ambiente, na Educação, nos Direitos Humanos etc. Nunca se viu tantos militares da ativa em cargos civis. É a familiocracia miliciana no comando.
A direita, ou terceira via, como querem certos editorialistas da grande imprensa, está desnorteada com a devolução dos direitos políticos de Lula. O governador de São Paulo, que se apresentou para a disputa, recuou diante do bombardeio que recebeu de seu ex-aliado Bolsonaro. Huck, que ameaçou levantar vôo, está sendo abatido ainda em solo.
Aí tem aqueles que me lembram do Ciro Gomes. Eu respondo: tem o Flávio Dino, governador do Maranhão; Fernando Haddad; Lula; Rui Costa, governador da Bahia etc. Em qualquer hipótese, a chapa ideal terá de ser de centro-esquerda. O efeito Lula está colocado e é irreversível. O centro civilizado sabe disso.
A pandemia vai arrastar o país até as eleições de 2022, infelizmente. Por tudo isso, a hora de agir e pensar no futuro é agora.
Criado em 2021-03-27 01:44:55
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Ainda está no ar a discussão sobre a sinceridade da mea-culpa do capitão Bolsonaro, pela qual ele supostamente teria recuado dos ataques ao Supremo Tribunal Federal.
Vejam bem, “está no ar” além das portas da minha casa. Julgo que a declaração do Bozo não passou de um solerte artifício de simulação, de hipocrisia, a expressão mal-ajambrada de um recuo tático, que obviamente serviu para tirá-lo das cordas do impeachment. Logo mais, não tenho dúvida, o genocida, seus filhotes e asseclas voltarão a afrontar as instituições do Estado de Direito. Esses canalhas são de natureza fascista!
Menciono essa questão como nariz de cera para levantar outra que me parece um obstáculo à formação da frente ampla necessária para afastar o Bozo da Presidência no domingo, 12 de setembro, em que ocorrem manifestações antifascistas em todo o País, dessa vez convocadas por movimentos e partidos da direita liberal. Refiro-me à exigência de parte de setores do campo progressista de auto-crítica dos que apoiaram o golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff, uma espécie de salvo-conduto para poder participar da frente.
Ora, uma frente desse tipo não inclui compromissos programáticos para o futuro governo. Tendo em vista que o seu programa tem um único ponto – o afastamento do genocida da Presidência –, essa frente não tem que ser formada exclusivamente por militantes democrático-populares e por militantes convertidos aos ideais verdadeiramente republicanos auditáveis. Nessa aliança provisória cabem desde ativistas da esquerda comunista até políticos da “direita civilizada” (que valha o oxímoro!).
Na guerra em curso parece lógica, sensata, a atitude pragmática de desfalcar ao máximo as hostes do inimigo. Quantos mais Alexandres Frotas e Kins Kataguiris se descolando do lado de lá para o nosso lado, melhor, com ou sem autocrítica!
Um cálculo frio – A aritmética do Poder Legislativo deveria ajudar no esclarecimento dos que exigem a pureza de Nossa Senhora da Conceição dos “companheiros de viagem”: para aprovar o impeachment, precisamos contar com 342 deputados, mas o diabo é que nós, a esquerda e a centro-esquerda, só temos 131: PT (53), PSB (31), PDT (25), PSOL (9), PCdoB (8), PV (4) e Rede (1).
Só pra lembrar, se e quando chegar a hora de impedir o impeachment do nosso futuro presidente, precisamos de pelo menos 171 votos. A Dilma só mobilizou 137 deputados, contra 367 e sete abstenções. Por isso não pôde impedir o golpe.
Obviamente, não é necessário de jeito nenhum estender o compromisso com a frente ampla, pontualíssimo, para as eleições do próximo ano. Não seremos obrigados a apoiar a candidatura do PSDB (Doria ou Eduardo Leite) nem a do PSD (provavelmente, Rodrigo Pacheco, saindo do DEM) nem a do DEM (quem sabe, Luiz Henrique Mandetta) nem a do MDB (Simone Tebet) nem a do Cidadania (Alessandro Vieira) ou a do PDT (Ciro Gomes). Antes, porém, precisamos garantir que haverá eleições em 2022.
Pessoalmente, eu apoio a candidatura do Lula, amplamente frentista, juntando desde o PCO até políticos do Centrão, parcelas dos evangélicos etc etc.
Legado triste – A penitência, rebatizada de autocrítica foi um dos legados mais tristes da Igreja Católica abraçados pela esquerda. (Pô, eu devia ter botado em latim o título dessa crônica, algo como De pœnitentia vel propria reprehensione). Não bastasse a sua imposição aos próprios militantes, os líderes da esquerda moralista costumam cobrar essa obrigação de pessoas e instituições que jamais abdicarão de suas identidades políticas.
Um exercício inócuo, aliás! De que adianta exigir da Folha de S. Paulo, por exemplo, a autocrítica pelo apoio que deu ao golpe militar de 1964 e ao golpe parlamentar de 2016? A meu juízo, mais produtivo é valorizar criticamente a produção atual desse jornal, que em geral (nem sempre!) questiona o governo Bolsonaro. Imaginem como teria sido mais difícil a nossa luta contra a Covid-19 se não fosse a sistematização diária dos dados da evolução da pandemia feita pelo consórcio de imprensa que inclui a Folha.
De que serve exigir autocrítica de ex-golpistas como a Míriam Leitão, o Reinaldo Azevedo e o Felipe Neto? A bem da verdade, os dois últimos até já explicitaram uma, mas o que importa mesmo é que os três têm combatido o governo do genocida todos os dias, às vezes de maneira entusiasmada. Por que excluí-los do esforço geral que visa derrotar o Bozo?
Uma nota engraçada: a Míriam Leitão não fez ainda a sua autocrítica mas guarda da época da militância de esquerda essa mania. Por isso ela fica pedindo uma autocrítica do PT. Um porre!
Eu sempre gosto de lembrar, nessa discussão, o exemplo de um militante da direita que passou para o nosso lado a ponto de conquistar um lugar no panteão dos nossos heróis: o senador Teotônio Vilela! Antes de ser o Menestrel das Alagoas, Teotônio havia apoiado o golpe de 64. Só durante o governo Geisel mudou de posição, aderiu ao MDB, em 1979, e passou a percorrer o País na luta pela anistia. O Teotônio fez uma autocrítica prática, não declarativa, como se fosse um católico praticando a autoflagelação.
Paixão ou virtude? – Seria a penitência uma paixão ou uma virtude, discutiu Tomás de Aquino na Questão 85 da parte III da Suma Teológica. Tomás chegou à conclusão de que pode ser uma paixão ou uma virtude, nesse caso, quando implica uma escolha pela reta razão. Já o filósofo holandês Bento de Spinoza considerou que a penitência (arrependimento) não tem nada de virtuosa, sendo uma paixão triste, derivada da ilusão de que nossos atos deploráveis no passado foram tomados por livre decisão da mente. Daí, disse ele, que os arrependidos, coitados, sofrem duas vezes!
Se eu fosse padre ou pastor, eu escolheria, nessa discussão teológica, o partido de Tiago, defensor da tese de que a salvação exige obras além da fé, contra o partido de São Paulo, segundo quem só a fé garante a salvação. Em se tratando da salvação política, terrena, podemos trocar aqui a fé pela declaração de princípios. A questão é que os atos são mais fáceis de averiguar, como sabia Tiago. As declarações de fé, porém, podem ser disfarces da hipocrisia dos fariseus, como sabia São Paulo.
O sociólogo alemão Max Weber discutiu a questão da crítica e autocrítica na conferência A Política como Vocação, quando opôs a ética dos fins (os princípios morais atemporais que norteiam as ações dos “puros” supostos) à ética da responsabilidade (os princípios seguidos pelos políticos vocacionados, que devem prestar contas das consequências de suas ações).
Ora, diz Weber, “(U)ma ética preocupada em lançar o peso de responsabilidades a atos cometidos no passado cria uma questão insolúvel, porque estéril, despreocupando-se com aquilo que interessa ao politico de vocação – o futuro e a responsabilidade perante este. Atuar dessa forma é politicamente condenável”.
Como não existem militantes ontologicamente puros, como as pessoas são muito complexas, racionais e emocionais ao mesmo tempo, é prudente calibrar o melhor das duas éticas, evitando os extremos. Nem principismo nem oportunismo sem princípios, é o que eu acho, pois um nos conduz ao fanatismo, e o outro, à depravação da política.
Eu sei que é limitada a minha responsabilidade de palpiteiro sem filiação partidária. Antes, porém, de livrá-los desses comentários semianarquistas, permitam-me sugerir a audição no YouTube da sensacional Sinfonia nº 5 de Dmitry Shostakóvich (1937), um dos maiores exemplos do classicismo heroico. Dou a dica porque a obra é um monumento de ironia aos burocratas. Após ter sido esculhambado por sua ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk (1934), Shostakóvich descreveu sua Quinta Sinfonia como a “resposta criativa de um artista soviético a uma crítica justa”. Desde então, a obra do genial compositor trilhou multidimensionalidades, como dizem os críticos russos.
Criado em 2021-09-12 20:16:55
Luiz Martins da Silva –
Fato inédito, um mandatário entrar no receituário e interferir em decisão médica. Num momento em que procura se defender de acusações de interferência na Polícia Federal, entra em conflito com a classe médica, desde os médicos ministros da saúde aos atos médicos extremos em face de um vírus para o qual o mundo inteiro tem a humildade de dizer que pouco sabe sobre ele, não tendo para o tal certezas, em prescrição e tampouco vacina à vista. Sobrepõe-se, porque como afirmou, trata-se de uma guerra. Em uma semana, o ministro-interino, um general, deverá apresentar ao chefe de Estado um protocolo de procedimentos quanto ao uso da cloroquina como arma poderosa contra o Covid-19.
Bolsonaro, que sempre diz não entender de economia, teima em entender de farmacologia. Mas, este não é o problema principal. O principal é que ele não aceita que ninguém discorde dele. E até já tinha um nome de acordo com a prescrição da cloroquina. Teich, no entanto, havia contribuído com os seus conhecimentos, quando da campanha. Mandetta entrou na história, a pedido do DEM. Agora, que seja alguém que não o questione acerca dos milagres da cloroquina.
Mesmo num momento em que os centros de ciência e pesquisa médica desautorizam a cloroquina, Bolsonaro aposta tudo nela. E, finalmente, vai ter alguém de acordo, até mesmo porque já mandou deslanchar a produção do fármaco no Brasil. Destaco que há médicos (não esses da linha de frente) que defendem ardorosamente o uso da cloroquina e ainda ressaltam que é de baixo custo. Argumentam que a oposição à mesma estaria ligada ao lobby de outros produtos, de altíssimo valor, novidade por conta de grandes fabricantes norte-americanos.
Quanto à cloroquina, contará com uma testagem em massa, no Brasil. Logo se vê, pois, se funciona. Os resultados têm de aparecer mais do que na urgência e na emergência, na extrema unção. Mesmo quanto ao momento de medicação, há divergências. Há médicos que dizem: a cloroquina, para o Covid-19, é indicada no desespero, ou seja, no vale tudo. Bolsonaro quer no entanto que seja utilizada precocemente, logo no aparecimento dos sintomas.
Na concordância com Bolsonaro, já foi chamada em Palácio uma infectologista, a sorridente senhora Nise Yamaguchi. Hi!!! (saudação japonesa). Nos bastidores corria uma lenda de que o fabricante brasileiro do remédio é um empresário amigo de Bolsonaro. Agora, a conversa é outra, é um assunto de segurança, quem vai produzir é o Exército. Aí, a saudação é outra, é continência, ou seja, obediência acima de tudo e de todos.
Detalhe para este momento: o ministro interno da Saúde já é um general. E as notícias mais recentes são as de que um “protocolo” a ser seguido para a cloroquina será emitido pelo Ministério da Saúde. Ou seja, prescrição médica vertical. Se nem o isolamento vertical foi aceito, esta outra verticalização pegará? A cada momento, os informes são de que o bicho que está pegando e matando é o Corona.
Não funcionando o receituário conforme a orientação do mandatário, via ministro-general da saúde, certamente haverá culpabilização de quem não aderiu. Parece estranho que isto crie situações políticas no cotidiano das UTIs. Não bastasse em alguns contextos os médicos terem de decidir qual paciente ficará com o respirador, terá de polemizar com um divergente acerca de uma decisão: cloroquina, ou não.
Criado em 2020-05-15 23:49:52
José Carlos Peliano (*) –
estar dentro de volumes de figuras geométricas de três dimensões
barraco, casa, apartamento, tenda, coberta de viaduto
jaulas sem barras forçadas por um vírus coroado
cheio de pontas, quase alfinetes, arpões, lanças, punhais
que os olhos não veem, o tato não toca, o olfato não sente
sanha de um guerreiro invisível, ameaçador, contagioso
nesses espaços contados aos passos vezes sem conta
ir de um lado a outro, voltar, virar, abaixar, curvar
todos os verbos em movimento são conjugados
a imaginação ultrapassa os limites do silêncio e da interrogação
a leitura de livros não dá conta da ansiedade, da ocupação das horas
de que história cabe para contar a história do isolamento
da falta de andar na rua, de sair de carro, de ver vitrines
de ampliar o espaço do corpo ao espaço do espaço dos outros
até que a imposta rotina da quebra de rotina tropeça no estalo
que vem da própria rotina descorada, sem bússola ou trilha
a tímida voz vem de não se sabe onde indicando caminhos:
“abra as janelas para tentar ver os pássaros
descosturando pena a pena, asa a asa, a madrugada
destranque as portas da frente e de trás
para ter como entrar a claridade equilibrista
na corda bamba de sombras, mofos e escuridão
que acabam virando pó debaixo dos móveis”
“procure receber a manhã antes da primeira piscadela de luz
para não ficar mais preso aos ponteiros do despertador
deixe a chuva respingar nos umbrais, parapeitos e soleiras
ou o sol chegar pelas frestas sem ter sido chamado
repare se puder algumas lagartixas subindo a parede
como se fossem uma trepadeira de pregos”
“convide todos os que habitam em você sob sua forma
a saírem do piloto automático, das agendas, dos celulares
ponha 19 lugares à mesa, real ou imaginária, convide 19!
os pratos seguidos e espremidos um ao outro
mesmo que a soma de todos eles e dos lugares
não chegue a tanto nem refazendo a conta”
“experimente cuidar de cada dia por estes dias,
com vontade de se ver sentado à mesa
servido com o que tiver sobrado nos lugares dos guardados
pouca banana, pão dormido, leite talhado, meia dúzia de biscoitos,
garanta a companhia do café quente caneca a caneca
deixe as cadeiras e bancos conversando por ali ao se levantar
até chegar o almoço e o jantar se vierem a ser postos
enquanto você volta a conversar e fazer junto com você seja o que for”
“afinal sua casa pode voltar a ser realmente a sua casa
se sentir reconfortado, preferido, companheiro
seu aconchego de chegar e sentar como quiser,
seja ela qual for e do jeito que puder,
não mais um dormitório, uma lanchonete, uma passagem
lá reside com você um sentimento sem crachá nem uniforme
que tem tudo para ser aprendido e destravado
à espera de renascer, espreguiçar, ouvir Barry White, esticar as pernas
levantar e ir se contaminar porta adentro por todos os cantos
ver da janela pingos de chuva, de sol e de orvalho das árvores”
“como uma epidemia que te assoma para alastrar por suas mãos
suas manias, seus cacoetes, suas lembranças, sua pulsação
a vida se vendo contaminada pelo vírus de você
aquele que vem junto desde sempre correndo pelas veias
e você não vê, não quer ver ou tem receio de entender
até dar a luz ao outro que fica e o olha lá de dentro
trancafiado à espreita esperando finalmente a hora da sua chegada
para te levar daí em diante cheio de surpresas e cores
feito um caleidoscópio que desdobra várias imagens
e conseguir mostrar que os momentos também passam fora dos computadores
que você não enxergaria nunca com seus olhos de ontem”
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(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor, economista.
Criado em 2020-03-21 22:04:04
Roberto Seabra (*) –
Em janeiro deste ano, quando terminei de ler o livro A república das milícias: Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro (Editora Todavia), de Bruno Paes Manso, pensei em escrever uma resenha para mostrar a quem quisesse saber que na leitura desse livro estaria uma das chaves para entender o Brasil de hoje. O tempo passou, a resenha não saiu, outros assuntos mais urgentes (para mim) surgiram e esqueci o assunto.
Esta semana o livro me chegou novamente, por uma mensagem, em versão PDF, com um alerta: “Esse livro explica tudo”, escrita pelo remetente, e numa referência clara à chacina de Jacarezinho, no Rio de Janeiro, onde morreram 28 pessoas, das quais pelo menos 13 não têm qualquer envolvimento com o crime organizado, além de um policial que estava em ação. As demais 14 pessoas, ainda que sejam criminosos – o que está por se provar – deveriam ter sido presas para averiguação e início de inquérito policial. É assim que diz a lei. É assim que funciona no resto do mundo.
Mas o livro de Bruno Paes Manso trata das milícias e a chacina de Jacarezinho foi obra da Polícia Civil do Rio de Janeiro. O que uma coisa tem a ver com a outra? Bem, vamos à obra e, talvez no final, essa relação fique óbvia.
O que mais me impressionou no livro do jornalista e pesquisador Bruno Paes Manso foi a capacidade do autor de aliar pesquisa histórica, análise sociológica e denúncia jornalística numa só obra. Não é um livro de um historiador, não é um tratado de sociologia e também não é uma reportagem. Mas consegue ser, de certa forma, as três coisas.
A república das milícias em certo momento volta no tempo para analisar as origens históricas dos grupos paramilitares no Brasil. Um trecho que destaquei explica bem isso:
O primeiro grupo a se organizar para a prática de extermínio se formou em 1957, quando o general do Exército Amaury Kruel, chefe de polícia do Distrito Federal, achou necessário responder às pressões da Associação Comercial e da população, atemorizadas com o crescente aumento do crime de roubo. (...) Kruel montou um grupo para combater assaltos à mão armada, pesadelo do carioca naqueles dias, que ganhou o nome de Turma Volante Especial de Repressão aos Assaltos à Mão Armada (TVRAMA), ligado ao Serviço de Diligências Especiais (SDE) da Delegacia de Vigilância, responsável pela captura de bandidos que a cidade toda considerava perigosos. Depois da criação desse grupo, surgiram nos jornais notícias e fotos de corpos de diversos suspeitos, apontados como ladrões.
Logo em seguida, o autor faz a relação entre aquele banditismo oficial nascente dos anos 1950, ainda durante o governo de JK, e a ditadura militar implantada a partir de 1964:
Muitos policiais que agiam em grupos de extermínio ingressaram na máquina de guerra urbana, atuando no combate a opositores (do regime militar) nos dez Departamentos de Operações de Informação (DOIs) espalhados pelo país, somados aos policiais do Destacamento de Ordem Política e Social (Dops) e aos militares do Centro de Informações do Exército (CIE), Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa) e Centro de Informações da Marinha (Cenimar), órgãos que formavam a espinha dorsal da repressão.
A análise sociológica aparece quando o autor vincula a polícia e o regime militar com a contravenção do jogo do bicho, mostrando como esse modelo está na base do nascimento das milícias:
A proximidade entre os policiais matadores e os porões do Exército trouxe a reboque a influência dos bicheiros — que já era forte em ambas as instituições — para o coração do poder do Estado. A mistura de violência policial e militar com a contravenção formou a base da rede clandestina de violência paramilitar que está na origem dos modelos milicianos.
Ou ainda quando relaciona os números da violência com os dados demográficos:
De 1990 a 2019, mais de 200 mil pessoas foram assassinadas no Rio de Janeiro — a maioria negros, homens, com menos de trinta anos, moradores de bairros pobres.
Mas o livro de Manso é também jornalismo de denúncia. Especialmente quando ele analisa as relações entre a milícia e a família Bolsonaro.
Fabrício Queiroz sempre foi um soldado fiel de seu comandante Jair Bolsonaro. Um mero sargento reformado do subúrbio carioca que, se rompesse seu silêncio, com um simples sopro teria força para derrubar as estruturas do frágil castelo de cartas que sustentava a república das milícias.
É um livro que se explica em sua leitura, tamanha é a quantidade de dados, informações e análises que ele faz, tudo isso exposto de forma didática e transparente em 298 páginas que se lê como uma grande reportagem. Recomendo a sua leitura, para entender não apenas o que originou o governo Bolsonaro, mas, principalmente, para compreendermos as origens da violência urbana no Brasil, que ameaça fazer explodir o que resta da nossa sociedade democrática.
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(*) Resenha publicada originalmente no blog Leitores sem fim
Criado em 2021-05-09 17:55:11
Música, dança, poesia, teatro e audiovisual fazem parte da programação do evento que acontece gratuitamente no terceiro domingo do mês, dia 18 de junho
O Parque Ambiental do Bosque em São Sebastião recebe neste domingo uma festa junina da cultura e das artes, regada à música, dança, poesia, teatro, audiovisual e comidas típicas. Esse evento marca mais uma edição do projeto “Domingo no Parque”, realizado pelo Movimento Cultural Supernova. As apresentações começam a partir das 14h, são abertas ao público e livres toda família.
Entre as atrações confirmadas, a poetisa Cristiane Sobral e os poetas Júlio Cesar e Ni Brisant, que fará lançamento do livro “A revolução dos feios”. A música, no clima de festa junina, é por conta da quadrilha Num Só Piscar e do grupo de forró Cangaceiros do Cerrado. Além disso, a performance teatral terá um toque nordestino com Lília Diniz apresentando o espetáculo “Miolo do Pote em Cantigas e Versos”.
O público poderá conferir ainda ao curta metragem Fragmentos, de Antônio Balbino. Durante todo o evento, serão vendidas comidas típicas e um correio elegante vai dar uma forcinha para os apaixonados. Outras atividades que serão oferecidas são: bazar, slackline, design de sobrancelha, doação de roupas, feira de trocas, dicas de moda e massagem. Para as crianças tem ainda pintura de rosto.
O projeto
O Domingo no Parque é desenvolvido desde 2010 em São Sebastião pelo Movimento Cultural Supernova. Esse projeto acontece todo terceiro domingo do mês. O principal objetivo é levar lazer à comunidade e ocupar o espaço público, alertando para a necessidade de revitalização do Parque. Neste ano a iniciativa é financiada pelo Fundo de Apoio à Cultura do DF (FAC).
Serviço:
Domingo no Parque
Data: 18/06 a partir das 14h
Local: Parque Ambiental do Bosque em São Sebastião
Endereço: Bairro Residencial do Bosque
Atrações:
Música:
Dj Nicko (música mecânica)
Quadrilha Num Só Piscar
Cangaceiros do Cerrado (Forró)
Poesia:
Cristiane Sobral -
Júlio César
Ni Brisant – A revolução dos feios
Performance:
Lília Diniz - Miolo do Pote em Cantigas e Versos
Audiovisual
Fragmentos – Antônio Balbino
Diversidade
Bazar – Casa Frida
Feira de Trocas + massagem – Jéssica Santos
Pintura de rosto – Roberta Santos
Slackline – Gabranjo Muniz
Doação de roupas – CARIC-UCB
Design de sobrancelhas – Fabíola Vieira
Zines – Ateliê itinerante título provisório_
Moda + café – Boom alternativa
Comidas típicas – Boom alternativa
FICHA TÉCNICA
Coordenação Administrativa - Priscilla Sena
Coordenação Geral - Isaac Mendes
Coordenação Executiva - Nanah Farias
Produção Executiva - Raony Almeida
Assistente de produção - Nanda Pimenta
Apresentação - Isaac Mendes
Assistência de Palco - Vanessa Rodrigues
Decoração - Josélia Pereira
Sonorização e DJ - DJ Nicko
Assistente de som / carregador - Gabranjo Muniz e André Neri
Fotografia - Edvair Ribeiro, Cristiano Silva e Nanah Farias
Cinegrafia - Nilmar Paulo
Assistência de Cinegrafia - Calcifer Oreba
Programação visual - Ricardo Caldeira
Ilustração - Lully Veloso e Ricardo Caldeira
Webdesigner - Wan Gazzu
Assessoria de imprensa - Larissa Souza
Repórter - Nanda Pimenta
Consultoria em comunicação - devana babu e Ricardo Caldeira
Mídias Sociais - Estela Sena
Elaboração de projeto - Paulo Dagomé
Realização Movimento Cultural Supernova
Parceria: Administração Regional São Sebastião, Ateliê itinerante título provisório, Boom Alternative Store, Lambe Lambe Estúdio, Nanah Farias Fotografia, Nilmar Paulo / Mundo Voraz, Olaria Cultural -
Apresentação FAC / Secretaria de Cultura/ Governo de Brasília
Criado em 2017-06-15 10:45:23
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Guia Musical de Brasília n° 10
A Brasília Popular Orquestra (Brapo), uma das mais antigas big bands do Brasil, completa 40 anos no próximo dia 28 de outubro. Seu fundador, o maestro Manoel Carvalho de Oliveira, 74, continua firme à sua frente, tentando voltar à normalidade na pós-pandemia.
O maestro recebeu o editor e o publisher do Guia Musical de Brasília na sua aprazível casa próxima à Ermida Dom Bosco, cercada por uma densa mata com córregos e bichos, onde ele costuma fazer caminhadas. Foi um papo inspirador.
De início, o maestro contou a sua origem em Palmares, Pernambuco, filho, entre uma turma de onze, de um ferroviário que arranhava o violão e tinha ligação com a banda de música municipal. Quando completou nove anos, Manoel ganhou uma clarinetinha e a ordem para começar a estudá-la. Logo um vizinho que tocava saxofone foi contratado para lhe dar aulas. Com a demonstração de certa facilidade, iria ganhar o próprio saxofone aos 13 anos.
Foi nessa época que ele passou a estudar com o maestro paraibano José Ramos da Justa, que lecionava música e canto orfeônico. Diz Manoel que José da Justa nunca lhe deu uma aula de clarineta. Preocupava-se muito mais com as lições de solfejo e com a “essência da música”. Dispunha de uma vasta biblioteca musical. “Era um músico completo, compositor, arranjador, um gênio perdido no interior de Pernambuco. Foi o melhor professor de música que eu tive na vida”, crava.
Logo em seguida o nosso maestro cogitou a formação de uma banda, provavelmente inspirado na Jovem Guarda. O nome foi emprestado do band leader ítalo-americano Henry Mancini, pioneiro em levar o jazz para as trilhas de cinema. Mesmo sendo o caçula da turma, o nome que sugeriu pegou: “Os Mancines”, com “e” mesmo. Durante cinco anos a banda fez grande sucesso, percorrendo várias cidades de Pernambuco e Alagoas. Uma vez, acompanhou um dos ídolos da Jovem Guarda, Vanderley Cardoso.
Fraseado - O gosto e o conhecimento musical do maestro continuariam, em casa e nas turnês dos Mancines. Em casa, seu pai continuava comprando discos de 78 rotações, incluindo os vozeirões de Orlando Silva, Nelson Gonçalves e Ângela Maria, sempre acompanhadas por orquestras brilhantes. (Aqui o maestro imita um fraseado de acompanhamento do Nelson Gonçalves com um clarone, a clarineta baixo: “totot.. ototototo… tototo”. É claro que todos nós rimos).
O palco da Rádio Cultura de Palmares também serviu para o aperfeiçoamento dos Mancines. Seu dono, Paulo Marques, convidava a turma para ensaiar no auditório e quando alguma música ficava pronta, ele pedia: “Vamos jogar no ar”!
A banda de música municipal, conta Manoel, tinha ligação com a prefeitura e com a Great Western, a companhia inglesa que explorava a rede ferroviária de Pernambuco. “Os ingleses eram muito ligados à música, e fizeram lobby para convidar um sargento da PM do Recife para ser o regente da banda, a Banda 15 de novembro”. A manobra deu certo. Logo chegou a Palmares o sargento Getúlio, que além da regência da banda, assumiu também o posto de delegado da polícia local. “O Getúlio era um cara espetacular. Foi meu segundo pai, inclusive. Ele acompanhou meu crescimento, a minha trajetória. Mas eu só tinha 14 anos, e meu pai ficava preocupado. Daí ele disse ‘Deixe o menino aproveitar seu tempo’”.
“Tempos depois – continua o maestro –, o Getúlio me perguntou se eu não queria um trabalho mais definitivo do que a banda, ‘quem sabe fazer o concurso para a banda da PM no Recife? Se quiser eu te aviso quando você completar 18 anos’. Foi o que aconteceu. Quando eu completei a idade ele mandou me chamar, eu fiz o concurso. Era uma banda enorme, mais de 100 homens. O regente pediu para eu tocar alguma coisa, eu toquei uma polca do Jair Pimentel, a Risada da Chiquinha – pápápápá rapapá papá! Como já dominava o palco, foi fácil. O pessoal parou, gostou, aplaudiu. Daí o regente perguntou se eu lia partitura, e pediu para eu pegar uma na estante, antes de me mandar fazer o teste escrito. Resultado: fui aprovado e contratado como terceiro sargento”!

Manoel trabalhou ano e meio na banda da PM, alternando os finais de semana com os Mancines em Palmares, a 100 km de distância. Só saiu de lá quando se mudou para Brasília. “Certo dia um oficial da PM, o Soares, um pernambucano, mandou um aviso procurando candidatos para entrar na banda da PM que ele estava organizando em Brasília. Os candidatos deviam se apresentar na casa da mãe dele no Pina, um bairro do Recife. Eu fui, ele mandou eu tocar algumas coisas, e no final fui aprovado”. Manoel teve que pedir demissão da PM e despedir-se da família e dos amigos, mas o mais difícil foi inventar uma desculpa para encerrar o namoro com uma mulher mais velha do que ele. Disse que iria para Brasília fazer um “curso de aperfeiçoamento”.
O maestro chegou em Brasília em 1968, quando a cidade tinha apenas oito anos desde a inauguração. “Muita poeira, muita coisa nova, tudo muito vazio. O aeroporto ainda era de madeira. Uma aventura, com muita esperança”. Ele ficou hospedado no hotel de trânsito da Base Aérea quase um ano. Estava terminando o científico e tinha ideia de fazer engenharia, embora não fosse bom de matemática. Fez um acerto para rachar a gasolina do fusquinha de um colega que também estudava à noite, no Colégio Elefante Branco. A banda da PM de Brasília, diz, era uma das melhores do País. Participava das solenidades oficiais, inclusive da posse do general Costa e Silva.
Santoro - Para não ficar parado na Base Aérea, ele resolveu continuar estudando à noite, Ciências Econômicas, na UDF. Surgiu então a oportunidade de fazer o curso de clarineta na UnB. O professor, Gonzaguinha, montou o curso mas faltavam alunos. O problema é que o curso era de dia. Quando descobriu que um regente da banda da PM estava cursando música na UnB, perguntou-lhe se não poderia obter uma autorização para fazer o mesmo. A autorização foi concedida. Em princípio, ficou como aluno especial, depois matriculou-se regularmente, aproveitando créditos do curso na UDF. Quando estava concluindo o bacharelado, descobriu que precisava da licenciatura para fazer o concurso da Escola de Música de Brasília. Tomou providências e completou as matérias necessárias. Em seguida surgiu a oportunidade para integrar a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, criada em maio de 1980 pelo maestro Cláudio Santoro, de quem havia sido aluno na UnB. Obviamente, teve que se desligar da banda da PM.
O maestro Manoel Carvalho lecionou durante 30 anos na Escola de Música, de início como professor temporário. Sob o comando do maestro Levino de Alcântara, fundador da escola, organizou bandas sinfônicas com as turmas matutina, vespertina e noturna. A organização das big bands tornou-se inclusive disciplina regular nos tradicionais Cursos Internacionais de Verão. Depois, na gestão de Carlos Galvão, incubou ali mesmo a Brasília Popular Orquestra (Brapo), da qual participaram vários professores da Escola. Desde o início a Brapo conheceu o sucesso. Tocou na Sala Martins Pena do Teatro Nacional, e sempre se apresentava no antigo restaurante Moinho.
Quem teria inspirado o nosso maestro para criar a Brapo? O primeiro nome que aparece, claro, é a Orquestra Tabajara, comandada durante 70 anos pelo maestro Severino Araújo. Também foram referências as bandas dos maestros Cipó e Nailor Proveta.
À queima-roupa, perguntamos quem seriam os seus três compositores favoritos? “Clássico ou popular?”, pergunta ele. “Compositores de música boa”, provocamos! O maestro ri e carimba: “Duke Ellington é o carro-chefe, um gentleman!”. Menciona também Stan Kenton, Woody Herman, Quincy Jones, e só depois cita Glenn Miller e outros maestros “mais comerciais”, como Paul Mauriat e Ray Conniff.
Nossa conversa chega ao fim. Com grande paciência o maestro nos convida para mostrar os fundos de sua casa, voltados para a exuberante mata referida no início deste texto. A gente agora compreende por que o trombonista paraibano Radegundis Feitosa costumava dizer que Manoel Carvalho de Oliveira “é tão calmo que dá sono em pé de maracujá”. Com seu jeito de professor nato, disposto a compartilhar sua rica experiência de vida com os interlocutores, é óbvia a razão do maestro ser digno de tanta admiração por parte de dezenas de músicos de Brasília.
Criado em 2022-07-06 23:45:35
Centenas de trabalhadores saíram às ruas hoje, 17/7, em defesa do sistema sócio-economico e da paz na ilha de Cuba. O ato político-cultural foi realizado no calçadão de La Habana com a presença do general de Exército Raúl Castro Ruz, o primeiro-secretário do Partido Comunista de Cuba, Diaz Canel e outros líderes das organizações de massa.
"Viemos aqui para mostrar que estamos dispostos a defender a obra da Revolução, que é de todos", disse Héctor Román, educador do município de Guananacoa. "Não quero guerra para meus filhos e netos, não quero o egoísmo do capitalismo, por isso estou aqui, para exigir o fim do bloqueio econômico dos Estados Unidos, que não nos permite desenvolver", acrescentou.
Alguns cantam ‘Pa’lo que sea Canel, pa’lo que sea’ (Pelo que for Canel, pelo que for), em apoio ao presidente do país, Miguel Díaz-Canel. Nos edifícios próximos foram penduradas bandeiras de Cuba.
A frase do Herói Nacional José Martí que diz que os homens vão em dois grupos: os que amam e fundam, e os que odeiam e destroem, também esteve presente na manifestação, rechaçando os vários participantes que praticaram vandalismo do domingo passado.
O Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas publicou no Twitter uma nota exigindo a libertação imediata de todos os manifestantes detidos no exercício do direito fundamental de protestar. Junto, foi publicada uma foto da cubana Betty Pairol Quesada envolta numa bandeira de seu país (na foto, abaixo) como se ela estivesse apoiando os anti-governistas.
Betty, por sua vez, publicou no Twitter nota denunciando “energicamente o uso e a manipulação” de sua imagem como símbolo dos protestos “dos delinquentes e vândalos em Cuba”. E concluiu: “Somos continuidade, viva a Revolução. Não ao bloqueio a Cuba”.

Criado em 2021-07-18 03:39:39