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Alexandre Ribondi -
Reza a tradição popular brasileira que "agosto é mês de cachorro doido". Esse refrão vem do fato de que é o oitavo mês do ano é o mais propício para que uma cadela entre no cio e o cheiro que ela exala basta que os machos, alfa ou do baixo clero, queiram atacá-la para garantir a sua continuidade.
Coincidência ou não, o Senado brasileiro vai se reunir para garantir os 54 votos necessários para a retirada da presidenta Dilma Rousseff do Palácio do Planalto em 25 de agosto - quando também se comemora o Dia do Soldado, aquele uniformizado que, em 1964, interrompeu a legalidade nacional e criou uma ditadura de 20 anos.
Pode ser mais uma coincidência. Ou não, porque a imagem de machos enlouquecidos atacando uma fêmea se encaixa como uma luva para o que estamos vivendo como provavelmente os últimos dias de Dilma e de um Brasil que caminhava para a famosa maturidade política, livre de golpes e quase livre de um grupo tradicional da população que há cinco séculos conta a História do País da exata mesma maneira: a riqueza da terra, os meios de produção, as instituições, tudo é deles e qualquer tentativa de alterar esse quadro torna-se crise e ameaça à democracia nacional.
Estamos, então, vivemos os últimos tristes dias, como devem também ter sido tristes os dias em 1954 que antecederam o suicídio de Getúlio Vargas - em 24 de agosto.
Dilma Rousseff escreveu uma carta à população brasileira e ao Senado reafirmando o que os brasileiros responsáveis já sabem: ela não cometeu crime que justifique o seu afastamento da presidência.
Mas isso pouco importa para os senadores que votarão pelo impeachment, porque eles não aceitaram até agora e não aceitarão até o fim do processo qualquer argumento que os faça aceitar o fato real de estão perdendo seus privilégios históricos. E é sabido, infelizmente, que contra fato não há argumento.
Além disso, Dilma reconheceu os erros de sua administração - e qualquer brasileiro responsável, de esquerda, de direita, sabe que eles existem.
Ela também admite a necessidade de mudança do sistema político brasileiro, uma máquina velha, enferrujada, que, para ser modernizada, terá obrigatoriamente que ser desmontada, com a quase totalidade de suas peças jogadas fora.
É uma fêmea quem diz isso e os machos ladram com desespero. Para quem, porventura, achar que a imagem da fêmea atacada por um bando de machos pode ser exagero, basta lembrar as pessoas que se sentiram ofendidas, ultrajadas e desrespeitadas quando Dilma pediu para ser tratada como presidenta, no feminino. Reparem o poder ameaçador da letra A.
É quase certo que teremos um interino como presidente. Não é necessário dizer o nome dele, todo o mundo sabe quem é. Há indícios de que praticou roubalheira, fraude, de que puxou a brasa para a sua sardinha. Mas ele está protegido pelos meios de comunicação, pelos empresariado, e pelo Congresso Nacional que marcou para 12 de setembro a sessão que decidirá pela cassação (ou não) do deputado e ex-presidente da Câmara que já ameaçou que, se derrotado, vai levar todos com ele.
Ora, qualquer cidadão responsável sabe que isso é ameaça de mafioso e que, se ele faz tal ameaça, é que de fato há crime. Mas pouco importa. Os novos dias serão um poço de vergonha com a qual o Brasil está acostumado a conviver desde o início da sua história.
Mas que ninguém se engane. No dia 25 de agosto, os senadores votarão contra não apenas Dilma, mas o que ela representa. Querem destruir com um Brasil novo que tem pobres e negros no ensino superior, que tem médicos espalhados pelos confins do País.
Destruirão conquistas como a carteira assinada para as empregadas domésticas. Impedirão o surgimento de uma nova classe média e a investigação da corrupção, seja contra quem for. O estado solidário deixará de existir e o direito do uso do nome social para travestis poderá também ser esquecido.
Mas um País com tantas conquistas sociais é um País que não dá lucro. É disso que sabem os senadores, os senhores da Câmara Alta, os herdeiros dos nobres da monarquia brasileira, a nossa vesga Câmara dos Lordes, que existe para defender os direitos da classe deles.
Na sua marcha pela vitória, passam por cima da fêmea, a mesma que ousou gritar em nosso nome: "nenhum direito a menos".
Criado em 2016-08-17 18:00:35
Maria Lúcia Verdi –
Maria Coeli basta, mas ela é Maria Coeli Almeida Vasconcelos, filha de político, mineira de boa família, esmerada educação, ávida por viver e se expressar em distintas formas de arte. Nos conhecemos na UnB, ela uma mulher bela e sedutora eu, uma jovem que a admirava. Fizemos uma peça de teatro dirigida pelo Geraldo de Moraes, peça que marcou o retorno do teatro à universidade, isso, se não me engano, em 1975.
“Olhei, olhei de novo.
Será que a cagaita morreu?
Uma árvore em extinção morre
porque eu construí minha casa.
Dor profunda no peito, como
posso ser tão selvagem ainda?
Qual milênio?
Sempre igual o homem na sua
estupidez.”
Maria Coeli acaba de lançar “Liberdade é”, livro instigante, editado a partir de anotações “na tentativa de transformar uma vida inteira de escritos rabiscados, palavras inventadas, memórias muito frágeis e fotos muito velhas, em livro”.

Como diz Ana Maria Lopes na apresentação do livro: “Não há como enquadrar Maria Coeli. Difícil falar de uma mulher cuja alma se revela afirmando sua humanidade e sua essência sem pudores ou fronteiras. Ela parece habitar um tempo sem tempo, sem datas, sem dias ou noites. Habita na espera, no desassossego e na mistura – tão feminina, de fel e mel.” Seu livro é o espelho dessa diversidade, dessa liberdade, espelho em que, em muitos textos a reflete em terceira pessoa, como uma outra que ela observasse:
“Jimmy Hendrix rompe sua guitarra. E já houve o tempo dos Beatles e dos Rolling Stones. Sumida, a mulher escreve. Vai riscando o papel tentando apressar a mão para acompanhar a mente. Inúmeros arrepios de frio. Sempre os cigarros numa verve de companhia. Retratos das pessoas da família, postal de indiozinhos meninos, a estátua de Buda me espanta com aquele sorriso, no meio entre o verde e o oriente cheiroso das almofadas, ela escreve ainda, não sei como.”
Neste momento em que as mulheres são mortas, agredidas e desrespeitadas é importante conhecer a obra de artistas como Maria Coeli, que não se deixaram intimidar frente à sociedade machista e a ditadura. Seus documentários, sua poesia e sua pintura são testemunhos de alguém comprometida com seu tempo e consigo mesma. Compartilho o bate papo que tivemos:
Sua poesia, bem como seus filmes são marcados pelo amor à história, ao registro da memória seja de Minas Gerais, de Brasília e seu entorno. Com a idade, o que permanece mais em você, as alegrias e dores da infância, da adolescência ou da maturidade?
Da infância. Porque na infância eu tinha o melhor professor, que foi o meu pai, e minha mãe que ensinava música e fazia com que eu assistisse às suas aulas. A infância para mim foi muito boa. Eu aproveitei. É lógico que quando cheguei em Brasília, com dezesseis anos, pude valorizar os professores do Caseb. Reconhecia o valor de todos eles, a luta que estavam tendo ao vir do Rio pra cá. Na verdade, aqui o que havia era um grande desejo de ajudar a criar uma nova cidade. Eu fiz um filme chamado Caseb 30 anos e entrevistei 30 professores – todos os que ainda estavam vivos em 1990 e que moravam em Brasília. Eles falavam sobre o que foi trazê-los para a Capital Federal. Todo mundo tinha emprego bom, todo mundo estava muito bem empregado em Belo Horizonte, no Rio e em São Paulo e, de repente, largar tudo para vir para Brasília. Isso é o que foi mais bonito. Você não imagina como esses professores deram para nós o melhor de si.
Para quem viveu a Brasília da aventura, do desbravamento, do idealismo, como é ver a realidade da cidade hoje?
Olha é bem melhor do que nós pensávamos. Uma cidade criada no Século XX, que já está com 60 anos e tem muitas coisas positivas. As árvores frutíferas carregadas e o povo passando embaixo apanha uma, chupa e vai embora. Raramente se vê uma agressão às mangueiras.
Como é ter sido aluna de Paulo Emílio Salles Gomes, de Darcy Ribeiro, de Niemeyer? Ficou algo de essencial de cada um desses mestres na sua estética?
Sim, eu tive a noção de dignidade com esses três homens. Paulo Emílio Salles Gomes era um senhor muito bem educado da sociedade de São Paulo. Ele era conhecedor do cinema, da sua história e tinha amor pela arte. Oscar Niemeyer foi meu professor também; em sala de aula pediu para os alunos fazerem um monumento para Planaltina. Essa aula foi muito importante porque eu desenhei uma gota d´água dentro de uma outra gota d´água e esse monumento existe, está lá perto do Vale do Amanhecer mas não fui eu que fiz não. Darcy Ribeiro eu conheci na Universidade de Brasília desde o primeiro dia. Um dia eu estava passando no corredor e ele perguntou assim: “Pra onde você vai?” Falei: “Vou pra aula do professor Agostinho”. Ele falou: “Eu também vou. E foi e assistiu a aula”. Um reitor muito enérgico, pena que ele assumiu várias coisas ao mesmo tempo, a Casa Civil do Jango Goulart, Reitor da Universidade e se não me engano prefeito também da cidade, não sei, só sei que eram três coisas seríssimas que ele assumiu na época.
Acha que seu amor pela música e as artes a ajudou a criar duas filhas especiais? Como é isso da transmissão materna a partir da sua experiência?
Eu quis que elas tivessem formação em música desde os sete anos de idade, quem me orientou foi minha mãe, que era professora de música. A música alivia nos momentos mais tristes. A Manoela e a Paula aprenderam línguas, ballet um monte de coisas que foram boas para a sua formação.
“É um problema para eu escrever.
A casa, a atenção a cada filho,
Mulheres, somos nós que formamos eles,
Moldamos de barro, como Jesus.
Sou eu quem amarra seus pés, homem amado?
Falo como mãe alguma coisa errada?
O mundo não é das mães caladas.
Quinze minutos depois volto a escrever a causa, é a criada?”
Como você recebeu o livro “A morte do diplomata: um mistério arquivado pela ditadura”, do jornalista Eumano Silva, sobre as circunstâncias da morte do seu primeiro marido, em Haia, em 1970?
Foi um alívio para mim e minhas filhas porque foi a primeira vez que vimos uma pessoa fazer uma pesquisa detida, responsável sobre o que aconteceu. O Eumano foi à Holanda, viu tudo, como era o clima em volta do Paulo na época da ditadura. A Manoela e a Paula aprenderam a dividir a dor comigo.
Seu livro “Liberdade é” reúne textos de todo tipo, com absoluta despreocupação em seguir qualquer linha ou se enquadrar, num interessante hibridismo. Essa liberdade parece ter sido marca sua desde sempre, mulher, mãe e profissional autônoma e vanguardista numa sociedade machista e patriarcal. Houve algum momento, ou mais de um, em que você fraquejou, em que pensou que não teria coragem?
Não. O que me fortaleceu foi exatamente a ditadura. Eu estava com 20 anos em 1964 e aquilo foi uma imposição na nossa vida, nos prejudicou muito. Muitos professores foram mandados embora, professores que tinham vindo da Suíça. Foi uma perda muito grande para a UnB, naquela época. Não só eu como todos os meus colegas tivemos coragem pra enfrentar tudo, esperamos a universidade abrir e quando ela abriu nós voltamos. Quando cheguei lá encontrei professores que eu não respeitava, eram professores que tinham se coadunado à ditadura. Mas o que fazer?
Inspirada pelo ótimo título de seu outro livro “É triste, mas não é de soluçar”, pergunto: Você se arrepende de algo?
Me arrependo de não ter conversado mais com o meu pai sobre a revolução de 30 e 32. Me arrependo de não ter ouvido mais histórias da mamãe, de ter aprendido mais músicas de Muzambinho, de Boa Esperança, com a mamãe. Me arrependo disso. Eu digo aos jovens que ouçam os mais velhos e vão aprender muito.
Poderia nos dizer algo sobre as cineastas e poetas mulheres que você mais admira?
Eu admiro muito a Tânia Quaresma, admiro muito a Maria Maia, a Cláudia Pereira, todas são mulheres que tem seus trabalhos e o cinema, para elas, é como se fosse uma diversão, mas não é. As poetisas? Ah eu não sei nada das poetisas não, sabe? Pra gente fazer a poesia da gente a gente tem que prestar atenção na gente. Eu não presto muita atenção nos outros não. Pra te dizer a verdade nem conheço a poesia delas. A da Maria eu sei mais porque ela chega, coloca, mostra pra mim e eu gosto da poesia da Maria. Eu gosto mais da minha, é lógico.
Escritora, poeta, fotógrafa, cineasta, pintora, atriz – você se encaixa mais em algum desses aspectos de sua personalidade voraz ou vem tudo sempre junto?
É onde eu e a Maria (Maia) somos iguais. Nós somos pessoas que tivemos a sorte de receber muitos dons, então quando você abre os olhos com o dom de desenhar, você já desenha, desenha no jardim, desenha no chão, desenha na areia, desenha no papel, desenha no quadro negro. Desenho é o que eu mais gosto de tudo o que eu faço.
Quando a vida cansa, exaure, o que você se diz em silêncio?
Porra.
Criado em 2019-10-05 23:54:14
Angélica Torres –
No auge dos conflitos políticos que dominaram o mundo nos anos 1960, um monge trapista francês sobressaiu-se como um crítico radical do militarismo dos EUA e tornou-se uma das mais atuantes vozes antiguerra. Defensor da não violência, da justiça social e do diálogo interreligioso com seus muitos escritos em prosa e verso e palestras mundo afora, a palavra de Thomas Merton faz falta hoje, com o planeta novamente transtornado.
Criado em 2019-12-10 15:11:34
Romário Schettino –
A deputada terrivelmente bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF), atual presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, foi condenada no Tribunal de Justiça do Rio, a pagar R$ 41,8 mil ao ex-deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) por divulgação de fake news.
Aliás, essa mesma deputada, premiada com a CCJ, é investigada em inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF), que apura a disseminação de informações falsas, e já foi convocada a prestar depoimento sobre sua participação em atos antidemocráticos.
O feitiço começou a virar contra a feiticeira desde que o ministro Gilmar Mendes derrubou a decisão judicial que havia condenado o ex-deputado Jean Wyllys a pagar indenização de R$ 40 mil à mesma deputada Bia Kicis.
Ao analisar um recurso do ex-deputado, Gilmar Mendes escreveu que aquele caso estava relacionado ao exercício do mandato e que condená-lo à indenização consistiria em violação de suas prerrogativas parlamentares, estabelecidas pela Constituição.
A foto, que deu origem ao processo de Kicis contra Wyllys, segundo Gilmar, “possui natureza estritamente política”.
Fake news comprovada
A situação agora é outra. O juiz Fernando Rocha Lovisi, do TJRJ, concluiu que Bia Kicis compartilhou uma notícia falsa (fake news) em que associava Jean Wyllys a Adélio Bispo, autor do atentado à faca sofrido pelo presidente Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018.
O juiz alertou em sua sentença que Bia Kicis “extrapolou seu direito ao caluniar o autor (Jean Wyllys), sem qualquer base verossímil, de ter participado da tentativa de homicídio do Presidente da República”.
Depois de descrever o fenômeno das fake news na atualidade, o juiz determinou a remoção dos conteúdos publicados pela deputada em redes sociais e determinou que ela publique uma retratação a Wyllys, sob pena de multa de R$ 20 mil em caso de descumprimento.
No caso da ação de Wyllys a atitude de Bia Kicis não se limitou à crítica política nem demonstrou a veracidade de suas acusações. Segundo o juiz, a deputada “publicou palavras com o intuito de caluniar o autor, sugerindo estar ele associado ao crime de tentativa de homicídio do Presidente da República. Usou o ardil de supostamente haver provas e teve como única intenção causar danos ao [ex-deputado do PSOL]”.
Como se sabe os dispositivos constitucionais, especialmente o artigo 220, determinam que a liberdade de expressão e a manifestação do pensamento são livres, mas não são sem limites.
O juiz citou, em sua sentença, estudo do professor Gustavo Binenbojin (Fake News como externalidades negativas), para dizer: “Como a poluição ambiental, as fake news devem também ser entendidas como uma espécie de falha de mercado: do mercado digital de livre difusão de informações, ideias e opiniões. Trata-se de uma modalidade de externalidade negativa, que propicia a obtenção de lucros abusivos por alguns grupos mediante prejuízos econômicos e políticos socializados entre todos. O custo das notícias fraudulentas transcende àqueles a quem elas se dirigem como alvos, alcançando, por vezes, a saúde pública, a economia popular ou as instituições democráticas. Trata-se de um custo externo à liberdade de expressão”.
O juiz ainda vai mais longe: “A postagem da ré (Bia Kicis) não tem qualquer relação com o exercício de seu mandato, com ideias, propostas, fiscalização ou qualquer outra função exercida no Congresso Nacional e, portanto, não está abrangida pela imunidade constitucional”.
Da decisão ainda cabe recurso.
Criado em 2021-03-26 21:39:34
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Na quinta-feira, 2 de setembro, discuti num programa sobre leitura veiculado no Instagram (No Sofá Amarelo), a constatação óbvia de que “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”, como disse o Umberto Eco. E deram espaço para himalaias de lixo cultural que sufocam iniciativas de natureza iluminista, completei.
Em contraponto, mencionei o fenômeno que chamo de comunismo cultural, isto é, o compartilhamento gratuito de livros, teses, dissertações, filmes, músicas, pinturas, cursos de línguas e milhares de outras criações culturais e educacionais em plataformas digitais como a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (bbm.usp.br), a Biblioteca Nacional de Portugal, a Gallica francesa, a Biblioteca Digital Hispánica, o archive.org americano, o dominiopublico.gov.br, as páginas das universidades públicas etc etc.
Nesse universo destaca-se a Wikipédia, de longe a melhor enciclopédia do mundo, atualizada diariamente “enquanto o fato ainda não acabou de acontecer”, como diria Drummond.
Ciente do espanto que provocaria, acrescentei o argumento do sociólogo americano Robert K. Merton, fundador da sociologia da ciência, segundo o qual a ciência moderna obedeceria a um “imperativo institucional comunista”. Comunista? Pois é, o Merton, um funcionalista, disse que a ciência é um patrimônio comum da humanidade, o que implica o cientista no dever de publicar as suas descobertas, de se opor à confidencialidade, e de ter sobre elas direitos morais mas não patrimoniais etc.
Por minha conta, eu disse que o princípio comunista da ciência parece ter sido inaugurado pelo primeiro secretário da Royal Society de Londres, o filósofo natural alemão Henry Oldenburg (1619-1677), junto com a adoção da prática da revisão por pares (peer review).
Fundador da primeira revista mundial dedicada exclusivamente à ciência, a Philosophical Transactions (março de 1655), ativa até hoje, Oldenburg contava entre seus correspondentes estrangeiros o dinamarquês Rasmus Bartholin; o belga René François Walter de Sluse; os franceses Adrien Auzout, Henri Justel, Pierre Petit e Ismaël Bullialdus; os alemães William Curtius, Johan Hevelius, Gottfried Leibniz, Ehrenfrid Walter von Tschirnaus; os italianos Paolo Boccone, Giovanni Domenico Cassini, Marcello Malpighi; e os holandeses Christian Huygens e seu pai, Constantijn, Antoni Leeuwenhoek, Bento de Spinoza, Peter Serrarius, Isaac Vossius etc.
CUDOS – A proposição do éthos da ciência, composto de quatro imperativos institucionais (os CUDOS), foi apresentada por Robert K. Merton (1910-2003) no artigo A ciência e estrutura social democrática de 1942. Além da norma comunista, compõe as “normas mertonianas” outras três: o universalismo, que exclui da objetividade científica critérios religiosos, raciais, políticos, nacionais, classistas, de gênero etc; o desinteresse, pelo qual o cientista, embora tenha interesses legítimos, como o direito à propriedade moral (reconhecimento público), deve agir como se não tivesse interesses pessoais nas pesquisas; e o ceticismo organizado, a atitude crítica de descartar afirmações sem o devido exame baseado em critérios lógicos e empíricos, e de se opor à credulidade e ao dogmatismo. Posteriormente, acrescentaram à lista outros princípios, como o da originalidade.
Na prática, os CUDOS sempre foram violados pelos donos do Capital, a serviço da ignorância e da estupidez, a começar pela imposição do sistema de patentes para garantir a exploração comercial dos produtos tecnológicos, rígida e convenientemente separados de suas matrizes científicas. É por isso que as grandes companhias farmacêuticas lucram os tubos vendendo vacinas contra o coronavírus da Covid-19, por exemplo.
O conhecimento sobre o comportamento dos vírus, aprimorado por milhares de pesquisadores de dezenas de países, em geral financiados com dinheiro público, é hoje desavergonhadamente apropriado por meia dúzia de multinacionais que exploram a desgraça dos povos, com a ajuda dos atravessadores, aliás.
Essas empresas violentam assim a máxima do Galileu Galilei na peça de Bertolt Brecht segundo a qual “a única finalidade da ciência é a de aliviar a canseira da existência humana”.
Espertalhões – Em 2011, a economista ítalo-americana Mariana Mazzucato demonstrou, no livro O Estado Empreendedor, que as maiores firmas de alta tecnologia, como a Microsoft, a Apple, o Google e a Amazon montaram os seus negócios com base em tecnologias chamadas “espertas” (smart), como na palavra smartphone. Mas o que teriam de “espertas” essas engenhocas? O fato de quase todas as suas funcionalidades terem sido desenvolvidas por agências do Estado financiadas pelo público, e, claro, embaladas por designers descolados a serviço dos “gênios de garagem” como Steve Jobs e Bill Gates.
Mazzucato listou no capítulo 5 do livro (O Estado por trás do iPhone) as doze principais tecnologias embarcadas no iPod, iPhone e iPad, que diferenciam esses produtos de seus rivais no mercado. Cada uma dessas tecnologias foi criada por alguma agência estatal antes de começar a dar lucros para a Apple. São elas:
1) Microprocessadores ou unidades de processamento centrais (CPU): desenvolvidos pelas empresas Bell Labs, Fairchild Semiconductor e Intel, por encomenda da Força Aérea Americana e da NASA;
2) Memória de acesso aleatório dinâmico (memória RAM): Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA);
3) Microarmazenamento do disco rígido ou discos rígidos (HD): Departamento de Energia dos Estados Unidos (DoE) e DARPA;
4) Tela de cristal líquido (LCD): desenvolvida pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), Fundação Nacional de Ciência (NSF) e Departamento de Defesa (DoD);
5) Baterias de lítio: Departamento de Energia dos Estados Unidos (DoE);
6) Processamento digital de sinais (PDS), com base nos avanços nos algoritmos da transformação rápida de Fourier (TRF): Agência de Política de Ciência e Tecnologia (OSTP);
7) Internet: DARPA;
8) Protocolo de Transferência de Hipertexto (HTTP ) e Linguagem de Marcação de Hipertexto (HTML): Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN);
9) Tecnologia de celular e redes: Exército americano;
10) Sistema de Posicionamento Global (GPS): Departamento de Defesa (DoD) e Marinha;
11) Navegação click wheel (anel de comando sensível ao toque do iPod): CERN; telas multitoque (touch screen): Departamento de Energia, CIA, Fundação Nacional de Ciência (NSF) e Departamento de Defesa (DoD);
12) Inteligência artificial com programa de interface com s voz do usuário (SIRI): desenvolvida pelo Stanford Research Institute (SRI), por encomenda da DARPA.
No capítulo 9 do livro, Mariana Mazzucato argumenta que as empresas como a Apple deveriam devolver parte de seus lucros para o Estado empreendedor, o qual, com recursos públicos, faz operações de risco para desenvolver tecnologias avançadas que depois costumam beneficiar só as empresas privadas.
Quem é radical? – Mazzucato é moderada, ela não propõe nenhum mecanismo de socialização dos meios de produção. Ela sugere apenas a cobrança de algum retorno direto (além de impostos) das firmas de alta tecnologia para cobrir as perdas inevitáveis dos investimentos feitos pelo Estado, e também para repor os fundos de inovação necessários para as próximas rodadas. Por óbvio, sua proposta é vista no mercado como “radical”.
Pensando bem, radicais mesmo são, por exemplo, as seis editoras oligopólicas mundiais de artigos científicos – ACS, Reed-Elsevier, Springer, Wiley-Blackwell, Taylor & Francis e Sage –, cujos programas parecem ter como alvo o imperativo comunista da ciência. Os artigos, produzidos por pesquisadores financiados com impostos em vários cantos do mundo, são apropriados por essas editoras caça-níqueis para serem comercializados, dificultando assim a sua divulgação entre os seus pares.
Por isso considero perfeitamente compreensíveis e louváveis as iniciativas dos sites de popularização do conhecimento como o libgen, que oferece gratuitamente milhões de livros e artigos científicos; e o Sci-Hub, fundado há dez anos pela ciberativista Alexandra Elbakyan, do Cazaquistão. Essa plataforma dá acesso a milhões de artigos científicos a partir de seu indexador DOI (Digital object identifier).
Nem vou mencionar o Pirate Bay, que distribui filmes, livros e músicas grátis, pra depois não dizerem que estou defendendo a pirataria!
Criado em 2021-09-06 19:45:16
Luiz Martins da Silva –
Uma tendência, de forma a amenizar a dor que sabemos, mas não queremos. A pandemia nos faz lidar com a morte em progressão geométrica como se os números já não dramatizassem, como se houvesse um teto para o horror, como se a partir de tal cumeeira algum mecanismo não nos autorize perceber a realidade.
Em luta, dois gigantes reconhecidos na literatura do gênio de Viena, Sigmund Freud: o Princípio do Prazer, uma vez confrontado com o Princípio de Realidade, resvala para a negação e para a sublimação, por vezes, produzindo reações hilárias, tragicômicas. Este sistema de anestesia foi contextualizado em sucessivas comparações, via Twitter, pelo escritor Lira Neto, vejamos algumas (12/05/2020):
“Até agora, são 12 mil mortos. O número já é 25 vezes maior do que o de pracinhas brasileiros abatidos pelos inimigos no front da Segunda Guerra Mundial. O Capitão Corona continua batendo recordes”.
“Já foram mortas 12 mil pessoas, metade das vítimas de Canudos. O governo federal promete abater pelo menos a outra metade já nos próximos dias. Desta vez, sem armas de fogo. Os instrumentos da morte serão apenas a negligência e a ignorância”.
Em repercussão, vários comentários parecidos, algo como: três tragédias de Brumadinho da noite para o dia, nos acréscimos de vítimas do Covid-19 no Brasil. Um desses comentadores lembrou umas frases de Bolsonaro, de 1999, quando ele teria dito que o regime militar matara poucos durante a ditadura, que deveria ter matado uns 30 mil, mesmo com alguns inocentes incluídos, pois numa guerra é assim.
Acrescento o lembrete que já estava corrente nas redes sociais, toda a população do Planeta ficou abalada com as cenas do abate das torres gêmeas em Nova York e, com elas, mais de três mil mortos. À ocasião, os heróis foram os bombeiros. Agora, os enfermeiros e as enfermeiras, contagiados aos milhares, pois faltam Equipamentos de Proteção Individual (EPI).
Recordo que houve um antigo estudo acerca de quantos mortos valem uma notícia para as agências internacionais e concluía, por exemplo, que um americano valia por três africanos. Pior, no entanto, os momentos de grande invisibilidade do continente africano, por exemplo, somados os mortos nos conflitos étnicos entre hutus e tutsis, um milhão, sendo 300 mil deles somente em 1990.
Da Guerra do Vietnã, me lembro, era bem jovem à época, o mundo se comovia com as cenas de tevê. Um dia, reunidas, dariam o famoso documentário Corações e mentes. O pesar pelos 40 mil soldados mortos no conflito foi tanto que mobilizou o cineasta Francis Coppola a dirigir um longa intitulado Jardins de pedra, uma referência ao cemitério de Arlington (Washington), dos mortos nas I e II guerras. Mas, quantas pessoas morrerem sem sair de Nova York, nos últimos três meses? Não mereceram sequer campas dignas, quanto mais caixões embandeirados e lápides brancas, geometricamente enfileiradas.
O relativismo da morte massificada também obedecia a uma proporcionalidade com a distância: mil mortos num terremoto no Irã ganha alguns segundos nos telejornais brasileiros. Neste momento, porém, o que espanta é não nos espantarmos quando de ontem para hoje o total de mortos brasileiros tenha passado de 11 mil para 12 mil. Aí era para os vivos estarem desmaiando com a notícia, mas, algum freio de mão é puxado desde o nosso inconsciente, esta invenção institucional de Freud a nos iludir, como num faz de conta, desses que passam de madrugadas nas telas de tevê.
Inevitável a lembrança de outros momentos em que, parece-me, os brasileiros sofreram mais coletivamente. Alguns: a derrota da seleção canarinho para o Uruguai, em 1950; o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954; a morte de JK, em 1976; a morte de Tancredo Neves, em 1985; a morte de Ayrton Senna, em 1994; e os 7 a 1 para a Alemanha. Pode ser que em algum dia venhamos a chorar mais os mortos de agora do que no presente. É outra concessão que nos faz o tal inconsciente, com um detalhe: melhor se realiza a catarse da perda quando há corpo presente, velório, funeral. Se não, a dor se transforma num crediário a nunca se quitar.
Criado em 2020-05-13 21:14:25
Geniberto Paiva Campos –
O recurso ao golpe de estado – assumido ou disfarçado – tornou-se, em definitivo, um procedimento de alto risco. Cada vez mais perigoso, em função das suas inevitáveis consequências políticas e administrativas. Esses erros primários dos golpistas são posteriormente assumidos por alguns agentes políticos, mas não são assimilados como lições, no sentido da preservação, a todo custo, das regras do jogo democrático. Na certeza de que o golpismo nunca vale a pena, ao contrário da Democracia, valor e princípio universais. Lembrando Churchill: “A Democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais...”
Há uma forma, definida por Norberto Bobbio, muito singela, mas precisa, ao conceituar a Democracia: “como o regime caracterizado por uma rotatividade de oligarquias políticas no poder, através da autorização política periódica do eleitor.” Simples assim. Talvez uma forma de definir, mesmo com naturais limitações, “democracia representativa”. Bobbio usou tal definição ao assumir a Democracia como valor absoluto, frente ao Socialismo. Disse o mestre: “onde havia democracia não havia socialismo e onde havia socialismo não havia democracia...” Era preciso compatibilizar democracia e socialismo. E a liderança marxista mundial estava a fazer severas (e pertinentes) revisões críticas aos fundamentos ideológicos (teológicos?) do marxismo, universalmente aceitos. Que contribuíram, com certeza, para a implosão da União Soviética.
O golpismo neofascista, principalmente na América Latina, ocorreu com frequência assustadora na região, nas últimas décadas, sendo caracterizado pelo uso da força militar ostensiva. Tropas preparadas para o confronto e o uso de armas contra a população, seguida da ocupação, pelo alto escalão militar, dos cargos nas instituições do governo. Além do Executivo, o controle ostensivo dos poderes Legislativo, Judiciário e das Comunicações, essenciais para a prática do autoritarismo. Extinção de partidos políticos; limitação da liberdade do ensino em todos os níveis educacionais; prisão e tortura de suspeitos; censura implacável na esfera cultural. Enfim, a ditadura sem disfarces. Em sua forma plena e assumida.
Modificações importantes surgiram nos últimos anos, no entanto, caracterizando o que os novos donos do poder definiram como “guerra híbrida”. A tomada do poder e o controle institucional feito por outros métodos, mais suaves. Mas de resultados efetivos, no seu objetivo final: a instalação e o funcionamento de regimes autoritários. Uma espécie de soft power. Utilizando amplamente as novas tecnologias disponíveis. Começando pela conquista do poder, executada através de manipulação do processo eleitoral, com o uso de técnicas permitidas e aceitas como “legais”. E obedecendo aos padrões éticos. E que funcionaram, até agora, nos mais diferentes países, independente do seu grau de desenvolvimento econômico, científico e tecnológico; nível cultural e estrutura institucional. Resultando no mais severo golpe já desfechado contra a democracia representativa. Aplicados, sequencialmente, na Inglaterra, Estados Unidos e no Brasil, utilizando métodos semelhantes de manipulação eleitoral. O qual já havia sido testado, com êxito, na Itália.
O Golpismo do século XXI utiliza as chamadas “Redes Sociais”, sob orientação de profissionais do ramo, os quais se tornaram bem mais importantes, atualmente, que os marqueteiros políticos tradicionais. O amplo acesso a novas formas de comunicação, não demorou a ser percebido como um método seguro de mudar os rumos do fazer político. Pois a mídia tradicional já havia escancarado as portas da manipulação mais grosseira, ao assumir como “verdade” fatos que ainda não haviam acontecido – ou até mesmo longe de acontecerem – e quando publicados, em suas manchetes e corpo dos textos, tornavam-se verdades aceitas e plenamente assimiladas por amplos e insuspeitados segmentos da população. Independente dos seus níveis educacionais e de renda. Uma mídia politizada. E lamentavelmente partidarizada. Criando, assim uma espécie de sub cidadania, pronta a aceitar notícias falsas (Fake News), e os ataques mais vulgares aos “políticos” e à Democracia.
Isso, de alguma forma despertou o Fascismo que se encontrava adormecido, estimulando o ódio, a intolerância, o medo, além de outros sentimentos negativos a contaminar o jogo político. Influenciando as eleições. Objetivo primordial dos novos doutores da Comunicação (spin doctors). Aparelhados para fazer a extrema direita alcançar o Poder e passar a exercê-lo de forma autoritária e ditatorial. E burra! Adaptando a frase de Bobbio, citada anteriormente: “onde há Neoliberalismo não há Democracia e onde há Democracia não há Neoliberalismo. (Tampouco Soberania, Liberdade e respeito aos Direitos Humanos. E a mais mínima Inteligência, essencial a todos os governantes).
É fundamental, essencial mesmo, do ponto de vista político, que surjam amplas Frentes de Resistência Democrática, para afastar do poder, interditar, a extrema direita incompetente e estúpida. Retomando os caminhos da Liberdade, da busca permanente da Igualdade, fazendo das nações sob ataque, um lugar onde a burrice não terá vez!
E, finalmente, mas não menos importante, do ponto de vista operacional, criar condições objetivas para o funcionamento do Comitê Coordenador do Enfrentamento da Pandemia, composto pela alta inteligência institucional do país, respeitando os cânones científicos, com visão estratégica e efetiva capacidade executiva. E de avaliação das ações. Na busca, sem trégua, do controle da Pandemia. E da extinção do Neoliberalismo, até da nossa memória. Assim seja.
Criado em 2021-05-07 19:44:15
A Comissão de Educação, Saúde e Cultura (CESC) da Câmara Legislativa rejeitou hoje (17/5) o projeto de lei nº 1.486/2017, do Poder Executivo, que pretende criar o Instituto Hospital de Base do Distrito Federal.
O relator da proposta na comissão, deputado Juarezão (PSB), chegou a elaborar parecer recomendando a aprovação da matéria, mas não compareceu à reunião para ler seu relatório.
Devido à ausência não justificada de Juarezão, o deputado Wasny de Roure (PT), presidente da CESC, avocou a relatoria para si e apresentou um voto em separado pela rejeição da matéria
Wasny explicou que "tentamos por quatro vezes ouvir o relatório do deputado Juarezão. Na última reunião da comissão, ele alegou que havíamos infringido os prazos regimentais e pediu o encaminhamento da matéria diretamente ao plenário. O deputado Agaciel Maia (PR) também fez uma solicitação nesse sentido. O presidente Joe Valle (PDT), porém, nos garantiu que não leva o projeto para o plenário sem que tenha sido apreciado pelas comissões", explicou Wasny, antes de ler seu relatório.
Em seu voto em separado, Wasny argumentou que a proposta de criação do Instituto Hospital de Base não foi aprovada pelo Conselho de Saúde do Distrito Federal, conforme determina a legislação vigente. Outro ponto levantado pelo distrital foi o modelo escolhido, que "é sem dúvida o modelo de organização social".
Wasny também aponta o descuido do GDF em não enviar à Câmara Legislativa informações solicitadas pelos parlamentares, citando vários ofícios encaminhados ao governo.
Wasny atacou também o modelo de contratação de pessoal proposto. "O limite prudencial com gasto de pessoal do GDF, determinado pela Lei de Responsabilidade Fiscal, já foi atingido. A proposta tenta abrir a possibilidade de se contratar funcionários sem respeitar a legislação federal, mas a medida é inócua, pois já existe entendimento judicial de que os gastos com trabalhadores de organizações sociais também são computados para efeito da LRF", afirmou o deputado do PT.
A composição dos conselhos previstos para o Instituto Hospital de Base também foi criticada por Wasny.
"O projeto faculta ao governador nomear todos os membros dos conselhos fiscal e de administração, o que retira a representatividade pública da gestão", disse o petista.
Por fim, Wasny lembrou a experiência do extinto Instituto Candango de Solidariedade para recomendar a rejeição da proposta do Instituto Hospital de Base: "Os ex-gestores do ICS estão hoje respondendo a processos e isso deveria servir de exemplo ao governo".
O deputado Wasny disse também que o projeto "é mal feito, com intenções escusas. Vejo nele uma forte tendência à corrupção, com intuito de formação de caixa dois para campanhas eleitorais".
Raimundo Ribeiro (PPS) concordou com Wasny e também votou pela rejeição do projeto. "É muito estranho que o governo não tenha enviado nenhum representante, seja um secretário ou os parlamentares da base, para debater esse projeto aqui na comissão, já que consideram essa proposta tão importante", criticou.
Raimundo Ribeiro disse ainda que "o governo incorre em crime de responsabilidade ao apresentar um projeto apenas para burlar a Lei de Responsabilidade Fiscal". Reginaldo Veras (PDT) foi o terceiro a votar pela rejeição do projeto.
Os três deputados aprovaram o parecer de Wasny de Roure, que rejeita o projeto de lei enviado pelo Executivo. Entretanto, por ter recebido pareceres favoráveis de outras três comissões da Casa, o PL nº 1.486/2017, segue tramitando.
Agora cabe ao Plenário apreciar o parecer da CESC pela rejeição e os pareceres das demais comissões pela aprovação da matéria.
Participaram da reunião de hoje (17/5) os deputados Wasny de Roure, Raimundo Ribeiro e Reginaldo Veras.
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Com Éder Wen, da Coordenadoria de Comunicação Social da CLDF. Foto: Rinaldo Morelli
Criado em 2017-05-17 19:14:36
Exposição do artista plástico Rômulo Andrade será aberta neste sábado (2/7), entre 11h e 18h, na Galeria Karla Osorio - Salas 1, 2 e 3 Pavilhão I (SMDB - Conjunto 31 Lote 1B - Lago Sul – Brasília), com visitação até 8 de agosto.
Ao final desta matéria, Rômulo assina um artigo de sua autoria.
Memórias dos rios: lugares sagrados é uma individual de Rômulo Andrade que ocorre paralelamente a mais outras duas individuais: Hiatus, de Graziela Guardino, com curadoria de Carolina Lauriano (Galerias 4 e 5 Pavilhão II), e Avesso do ocaso, de Álvaro de Santana (Galeria 6 Pavilhão III).
Embaladas com textos de Ailton Krenak e Bené Fonteles, o trabalho de Rômulo Andrade reúne mais de 30 obras, sobretudo pinturas e assemblages criadas nos últimos 20 anos. Todas em técnica mista, explorando aspectos da identidade ancestral brasileira, utilizando formas e processos que dialogam com o imaginário de povos tradicionais na América Latina.
Como diz Bené Fonteles, em texto escrito para a exposição: “São raros os artistas no Brasil que, de frente para um mar, não estejam de costas para o interior do país e a vastidão da América do Sul. Rômulo é um raro destes. Sempre com olhar muito vasto, é um visionário leal à sua utopia e a nossa ancestralidade – antenado com um ‘futuro ancestral’ do qual nos anuncia Ailton Krenak. Também visionando a Eternidade no agora, Rômulo nunca teve medo de não estar fazendo a chamada ‘arte contemporânea’, as vezes tão oportunista e duvidosa. Faz uma poética ‘cosmopolítica’ como Krenak sugeriu se chamar o movimento que os artistas lançaram na recente Bienal de SP e na mostra no MAM/SP pelo nome de Arte Indígena Contemporânea.
Rômulo há décadas vem fazendo do Planalto Central para o Brasil de verdade, uma arte ampla de sentidos e expressões, por amor à
biorregião do Cerrado e as suas águas, matriz de tantos rios brasileiros. Águas cristalinas maculadas, para elas cria um manifesto visual sem nunca separar arte da ecologia e da espiritualidade. Mais do que um esteta apurado e de muito rigor, é um poeta seminal a serviço da consciência e da Luz”.
Ailton Krenak também escreveu sobre a obra do artista:
“Uma geração inteira de pensadores artistas formada na luta política em nosso país, com suas antenas aguçadas atinaram desde cedo, lá pelos anos 70 que Natureza e criação nas artes eram matérias do espírito, e logo iniciaram uma cruzada no meio cultural com sensível abertura de espaços no imaginário e nos tímidos meios de comunicação daqueles tempos.
Artistas pela Natureza nasce com esta marca de caçadores de Beleza nos rios, nas matas, cerrados e chapadões. Entoando canções do Tom Jobim, Águas de março, chuvas, pedra e pau; Gilberto Gil, Egberto Gismonti e Bené Fonteles vieram puxando um cortejo com grandes flautas Assurini, e lançando as redes
Yanomami aos espaços da consciência – Armadilhas indígenas: Cildo Meireles, Athos Bulcão, Rubem Valentim, Lygia Pape, Xico Chaves, Amilcar de Castro, Roberto Mícoli, Marcos Benjamim, Emmanuel Nassar, Siron Franco, Miriam Pires, Marlene Almeida... muitos outros que aqui não caberia seguir a lista luminosa, e Rômulo. Ele é dessa estirpe de gente. Terra. Fogo. Vento. Ar. Rômulo vem com líquens e gravetos nos cabelos. Feito faunos, eles dançam pelas águas, pelas florestas e seus habitantes, gentes e bichos. Ecologia para Rômulo é a própria Arte em movimento, paisagens oníricas e signos gravados em pedra, símbolos ancestrais.
É isso que transpira a série “Memória das Águas”, suas pinturas ameríndias que resultaram de uma longa viagem amazônica. Viagem de argonautas, o mundo de águas e florestas visitadas pelas antenas do poeta, avistando as rupestres marcas que remontam a antigas civilizações. Inscrições feitas em relevo nas rochas, encontradas desde a América central à do Sul, com pedra dura que tanto bate que entalha, grava. Painéis a céu aberto que remetem a ritos cerimoniais, caçadas e pescarias. Armadilhas, como aquelas que ainda podem ser vistas numa releitura, dialogando com artefatos e objetos de uso cotidiano do acervo etnográfico do Memorial dos Povos Indígenas, com as obras do Rômulo, e uma provocante pergunta sobre o tempo destas criações. Com arte indígena contemporânea & Artistas pela Natureza.
Mais de três décadas de expressão da arte/ natureza engajada está ali, com um vocabulário que pode ser entendido mesmo pelas crianças que visitam as mostras deste brasileiro que se tornou defensor do Cerrado, de um sertão que teima em existir entre campos, veredas e buritizais.
Agora, Rômulo entrega essas “Memórias das Águas”, como uma dádiva para este mundo desgovernado de secas e rupturas, onde os humanos seguem como zumbis a insensata corrida para o fim do mundo. Ao mundo que herdamos de nossos ancestrais, com a missão de entregar aos nossos filhos e netos, às futuras gerações. Há momentos em que Rômulo vê sete gerações à nossa frente, e busca as memórias ameríndias em suas mirações. Com materiais e recursos dos mais diversos, aqui são lonas envelhecidas restauradas e reinventadas com arte, remos de madeira e canoas, bastões de cana de buriti entalhados a fogo. A viagem pelos sertões e veredas é sem fim, assim como o sonho de um dia a arte ensinar aos humanos a linguagem das árvores, dos pássaros e das pedras”.

Sobre o artista
Rômulo Andrade (Niterói 1954). Vive e trabalha em Brasília. Teve sua iniciação artística na infância, com seu pai. Radicado em Brasília desde 1975, onde participou do Projeto Cabeças.
Graduado em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade de Brasília (1985), conviveu com grandes artistas como Athos Bulcão, Glênio Bianchetti e Bené Fonteles. Utiliza o desenho, na gravura em metal e serigrafia, e atua também como designer gráfico. Participante ativo do Movimento Artistas pela Natureza, um coletivo que luta em defesa do bioma Cerrado, dos rios brasileiros, dos territórios e dos direitos indígenas.Integrou como artista convidado a Expedição Humboldt – Amazônia 2000. Dessa viagem resultou uma nova série de obras, 3 exposições e edição de 10 vídeos educativos. Participou de inúmeras mostras locais e internacionais. Tem longa pesquisa sobre a poética dos sertões do Brasil, focalizando o Cerrado. Usa materiais impregnados pelo tempo: madeiras nobres, metal, pigmento mineral sobre papel feito à mão, tela e lonas de grande formato. Suas obras remetem aos mitos ameríndios e sítios arqueológicos, que dialogam com a dimensão visionária e se aproximam dos povos aborígenes e selvagens do futuro.
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Serviço:
MEMÓRIA DOS RIOS: LUGARES SAGRADOS, individual de Rômulo Andrade - Galerias 1, 2 e 3 Pavilhão I
A mostra ocorre paralelamente a mais duas exposições inaugurando no mesmo dia.
HIATUS, exposição individual de Graziela Guardino Curadoria Carolina Lauriano - Galerias 4 e 5 Pavilhão II
AVESSO DO OCASO, individual de Álvaro de Santana - Galeria 6 Pavilhão III
Abertura: Sábado, 2 de julho, até 8 de agosto.
Visitação: Segunda a sexta, 9h às 18h30
Sábado 9h às 14h, sempre mediante agendamento prévio pelos telefones: (61) 3367-6303 e (61) 3367-6353 (whatsapp)
Endereço: SMDB Conjunto 31 Lote 1B - Lago Sul Brasília – DF
Facebook: https://www.facebook.com/galeriakarlaosorio
Instagram: https://www.instagram.com/galeriakarlaosorio
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Os Lugares Sagrados
Por Rômulo Andrade
O trabalho realizado na Expedição Humboldt - Amaz 2000 se desenvolveu a partir de um diário de bordo, com desenhos, estudos e anotações – eu acordava bem cedo diariamente pra meditar e aproveitar as primeiras horas, as mais frescas do dia equatorial pra estudar e produzir. Essas notas do diário de bordo se desdobraram numa coleção de pinturas sobre lona de grande formato e uma série de objetos poéticos que chamo de Caixas de memória. Organizei tb durante o percurso, algumas oficinas de desenho com jovens em algumas das comunidades visitadas.
Não pudemos entrar em aldeias indígenas por conta da burocracia da Funai mas nos encontramos com alguns personagens notáveis, como o Feliciano Lana, artista e rezador, um sacerdote poliglota da etnia Desana/ Tukano em São Gabriel da Cachoeira.
Numa visita com a Sol à sua casa na Pedra da Candelária onde ele vivia (de lá se avista do alto todo o entorno da cidade), nos conduziu e nos mostrou alguns sinais gravados em pedras que segundo ele foram feitos pelos espíritos guardiões e eram os ‘Lugares sagrados’. Em toda a região do alto rio Negro, existem inscrições misteriosas muito antigas, milenares, em grandes pedras à beira dos rios e cachoeiras, uma linguagem de ícones e grafismos, consideradas pelas muitas etnias que habitam a região esses Lugares sagrados.
Tem sido registrados e estudados por diversos pesquisadores que por lá andaram desde inícios do sec. XX: Koch- Grünberg, etnólogo alemão cuja obra inspirou Mario de Andrade a escrever Macunáima; Reichel-Dolmatoff, antropólogo colombiano com muitas obras publicadas; Kurt Nimuendajú, etnólogo que viveu entre os indios por mais de quarenta anos, entre outros.
Esses lugares míticos, milenares ou sítios arqueológicos se tornaram um foco de grande interesse para mim. Ainda durante a viagem iniciei alguns estudos em desenho. Trabalhando no atelier montado no escritório do ISA com o seu Feliciano, um grande contador de histórias, na ocasião com 63 anos, ouvi muitos relatos das suas vivências desde jovem e dos mitos de origem de seu povo.
Essa dimensão mágica da floresta é o que reverberou mais profundamente em mim e me trouxe o propósito do trabalho a ser realizado.
Criado em 2022-07-01 21:20:14
Leonardo Padura (*) –
Parece bem possível que tudo o que aconteceu em Cuba desde o último domingo, 11 de julho, tenha sido encorajado por um maior ou menor número de pessoas contrárias ao sistema, algumas delas até mesmo pagas, com o objetivo de desestabilizar o país e causar uma situação de caos e insegurança.
Também é verdade que em seguida, como costuma acontecer nesses eventos, ocorreram atos oportunistas e lamentáveis de vandalismo. Mas acredito que nenhuma das evidências tira um pingo de razão do grito que escutamos. Um grito que também é fruto do desespero de uma sociedade que atravessa não só uma longa crise econômica e uma crise pontual de saúde, mas também uma crise de confiança e uma perda de expectativas.
A esse clamor desesperado, as autoridades cubanas não deveriam responder com os habituais lemas, repetidos há anos, e com as respostas que essas autoridades querem ouvir. Nem mesmo com explicações, por mais convincentes e necessárias que sejam. O que se impõe são as soluções que muitos cidadãos esperam ou exigem, alguns se manifestando na rua, outros dando sua opinião nas redes sociais e expressando sua desilusão ou discordância, muitos contando com os poucos e desvalorizados pesos que têm em seus empobrecidos bolsos e muitos, muitos mais, fazendo filas em um silêncio resignado por várias horas sob sol ou chuva, inclusive com a pandemia, filas nos mercados para comprar comida, filas nas farmácias para comprar medicamentos, filas para conseguir o pão nosso de cada dia e para tudo imaginável e necessário.
Acredito que ninguém com um mínimo de sentimento de pertencimento, com um sentido de soberania, com uma responsabilidade cívica pode querer (ou mesmo acreditar) que a solução para esses problemas venha de qualquer tipo de intervenção estrangeira, muito menos de natureza militar, como chegaram a pedir alguns, e que, também é verdade, representa uma ameaça que não deixa de ser um cenário possível.
Também acredito que qualquer cubano dentro ou fora da ilha sabe que o bloqueio, ou embargo comercial e financeiro dos Estados Unidos, como queiram chamá-lo, é real e se internacionalizou e intensificou nos últimos anos. E é um fardo muito pesado para a economia cubana (como seria para qualquer outra economia). Aqueles que vivem fora da ilha e querem hoje ajudar seus familiares em meio a uma situação crítica, podem comprovar que existe e o quanto existe ao serem praticamente impedidos de enviar uma remessa para seus familiares, só para citar uma situação que afeta muitos. É uma política antiga que, aliás (às vezes alguns esquecem), praticamente todo o mundo tem condenado por muitos anos nas sucessivas assembleias das Nações Unidas.
E não acredito que alguém possa negar que também foi desencadeada uma campanha midiática na qual, até das formas mais grosseiras, foram divulgadas informações falsas que, do princípio ao fim, só servem para diminuir a credibilidade de seus gestores.
Mas acredito, junto a tudo o que foi dito acima, que os cubanos precisam recuperar a esperança e ter uma imagem possível de futuro. Se a esperança se perde, perde-se o sentido de qualquer projeto social humanista. E a esperança não é recuperada pela força. Ela é resgatada e alimentada com soluções, mudanças e diálogos sociais, que por não chegarem têm causado, entre tantos outros efeitos devastadores, os anseios migratórios de tantos cubanos e agora provocam o grito de desespero de pessoas entre as quais certamente havia criminosos oportunistas e pessoas pagas para tanto. Embora eu me recuse a acreditar que no meu país, a esta altura, possa haver tanta gente, tantas pessoas nascidas e educadas entre nós que se vendam ou cometam crimes. Porque se assim fosse, isso seria fruto da sociedade que os fomentou.
A forma espontânea com que um número notável de pessoas também tem se manifestado nas ruas e nas redes, sem se atrelar a nenhuma liderança, sem receber nada em troca ou roubar nada pelo caminho, deveria ser um alerta. E penso que é uma amostra alarmante das distâncias que se abriram entre as esferas políticas dirigentes e as ruas (e isso foi até mesmo reconhecido pelos dirigentes cubanos). Só assim se explica que o que aconteceu, sobretudo em um país onde quase tudo se sabe quando se quer saber, como todos nós também sabemos.
Para convencer e acalmar os desesperados o método não pode ser o das soluções de força e obscuridade, como impor um apagão digital que cortou há dias as comunicações de muitos, mas que não impede as ligações de quem quer dizer alguma coisa, a favor ou contra. Muito menos pode se empregar como argumento de convencimento a resposta violenta, especialmente contra os não violentos. E já se sabe que a violência pode ser não apenas física.
Muitas coisas parecem estar em jogo hoje. Talvez até depois da tempestade venha a calmaria. Talvez os extremistas e fundamentalistas não consigam impor suas soluções extremistas e fundamentalistas, e não se enraíze um perigoso estado de ódio que tem crescido nos últimos anos.
Mas, de qualquer forma, é necessário que cheguem as soluções, respostas que não deveriam ser apenas de natureza material mas também de caráter político. E assim uma Cuba melhor e inclusiva poderia responder às razões desse grito de desespero e perda de esperanças que, em silêncio, mas com força desde antes do 11 de julho, vinham de muitos de nossos compatriotas. Esses lamentos que não foram escutados e cujas chuvas originaram esse lamaçal.
Como cubano que vive em Cuba, trabalha e acredita em Cuba, presumo que tenho o direito de pensar e expressar minha opinião sobre o país em que vivo, trabalho e acredito. Já sei que em momentos como este e ao tentar expressar uma opinião, acontece de ser “sempre reacionário para alguns e radical para outros”, como disse certa vez Claudio Sánchez Albornoz. Também assumo esse risco, como um homem que almeja ser livre, que espera ser cada vez mais livre.
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(*) Texto escrito em Mantilla (Havana), no dia 15 de julho de 2021. Tradução de Isabella Meucci. Publicado originalmente no https://blogdaboitempo.com.br
Criado em 2021-07-18 03:32:16
Governador Sérgio Cabral e Carlos Nuzman, do COI, acusados de compra de votos para as Olimpíadas virem para o Rio de Janeiro.
Criado em 2018-06-06 16:40:05
Alexandre Ribondi –
O filme Aquarius (em cartaz no Cine Cultura do Liberty Mall) carrega em si um mistério: como é possível um filme ruim ser tão bom?
Descosido em sua narrativa, com algumas cenas excessivamente longas e detalhistas e, em outras vezes, sutil e pouco explícito, ele faz adormecer um pouco em suas duas horas e meia de projeção (ou aproximadamente isso), perde-se um bocado nas lembranças e na nostalgia da personagem central, até que finalmente faz toda a plateia torcer por Clara, a mulher que enfrenta, sozinha, um grupo de brasileiros endinheirados e sem escrúpulos.
O diretor Kleber Mendonça Filho tem feito filmes que sempre nos apanham de surpresa - foi o caso com o longa O Som ao Redor e o curta Recife Frio, que arrancou aplausos demoradas numa das edições de Festival de Cinema de Brasília.
E em Aquarius, ele mantém a mão firme em assunto que lhe parece ser caro: a fina e silenciosa crueldade nas relações entre patrões e empregadas, pretos e brancos, pobres e elite.
Clara, a jornalista viúva, amputada de um seio para curar-se de câncer, já tem os filhos criados e mora sozinha num apartamento de segundo andar do prédio Aquarius, onde sempre viveu.
Um dia, no entanto, homens engravatados batem à sua porta para avisar que todos os demais apartamentos do prédio há haviam vendidos e que irão construir um empreendimento moderno, para os ricos de Recife.
Ela avisa que não está interessada e bate com a porta na cara dos empreiteiros. E aí começa o grande duelo entre uma mulher e os homens que a querem por na rua.
Parece que não, mas é coincidência se disserem que o roteiro foi escrito para Dilma, a mulher que criou a filha, lutou contra um câncer, e que morou sozinha no Palácio da Alvorada até que homens engravatados e como a avidez gananciosa conseguiram colocá-la na rua.
Pode também parecer que a obra copiou a vida da ex-presidente quando Clara entra no grande prédio da construtora, atravessa os corredores sem abaixar a cabeça e sai em defesa própria.
Ela afirma: "Já sobrevivi a um câncer", para deixar claro que sabe e que vai lutar. É ou não é Dilma Rousseff? O filme ganha ou não ganha um peso político admirável no Brasil hoje?
Mas não é que Kleber Mendonça Filho tenha o dom da premonição ao fazer filme anterior ao caso com tanto acerto. É que está claro que já se sabe o que vai acontecer, já se reconhecem as cartas marcadas, já se sabe identificar o perigo e os ímpetos desses homens de terno e gravata que sorriem para informar que irão matar os adversários e que o nunca desistirão da sua vitória.
Prova disso é que, num dos momentos em que Aquarius passa a ter narrativa sutil, Clara e sua advogada descobrem documento que incriminam os empresários que querem derrubar o prédio.
Quando os homens veem o documento, sabem que perderão a luta - mas em momento algum o roteiro diz o que há nesses papéis tão poderosos.
Não precisa dizer, pois qualquer brasileiro sabe do que se trata: roubo, corrupção, falcatrua.
Então, como se vê, o filme é muito bom e merece os aplausos que recebeu na última sessão de domingo no LIberty Mall.
Não foi ainda dessa vez que Sonia Braga conseguiu interpretar bem: ela confia demais na sua sensualidade e nas caras e bocas.
Já o resto do elenco chega a ser excelente e até mesmo comove em suas atuações discretas e delicadas.
Criado em 2016-09-04 20:14:30
Maria Lúcia Verdi –
Brasília tomada pela energia da resistência e da renovação: mulheres indígenas de todo país; trabalhadoras rurais, as Margaridas; professores e estudantes - todos unidos na luta por um país digno.

Entristecidos, desanimados, revoltados como estamos, hoje (13/8) tivemos um banho de esperança e força que se repetirá amanhã. Em frente à Biblioteca Nacional Leonel Brizola encontramos a concentração dos professores e estudantes; daí a pouco, descendo desde o acampamento próximo ao Memorial dos Povos Indígenas, as mulheres indígenas chegam como uma onda de energia e força irradiante. Seus corpos coloridos, seus cantos e danças nos atraem para um centro, aquele que Eliane Brum aponta na Amazônia.

Amanhã essa marcha será maior pois a ela se unirão as Margaridas, trabalhadoras do campo que vieram de ônibus de todas as regiões para afirmar presença num momento chave para o país.

Presenciamos um furacão de vozes cidadãs de todas as origens que reclama um país de acordo com a nossa Constituição.

Ao ouvirmos Puyr Tembé (foto, abaixo), jovem liderança indígena, numa fala irrepreensível, vislumbramos a esperança: dos povos da floresta, da resistência da raiz (título sugerido por minha amiga Irene Castro), pode surgir a força que nos reviva como nação. Com o retorno às origens, a reconexão com as vozes da natureza e dos que possuem os saberes tradicionais, poderão os brasileiros recriar o ânimo indispensável para a luta e a transformação.

Que venham mais pessoas, que venham mais corpos e vozes para essa caminhada. O ativismo requer os corpos presentes neste momento. Que o país veja surgir na Capital um furacão irreprimível, apesar de todo aparato de repressão. E que em todo o Brasil isso aconteça!
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As fotos são de Maria Lúcia Verdi.
Criado em 2019-08-14 02:48:29
Angélica Torres –
Há um realinhamento de forças progressistas na América Latina fazendo frente ao reacionarismo bárbaro do imperialismo. E Lula chega coroando essa energia de luta, convocando o país a não se acovardar às ameaças milicianas de Bolsonaro e nem às investidas de outros aliados de Donald Trump nos nossos arredores, mas a se espelhar nos chilenos, equatorianos, venezuelanos, argentinos, uruguaios, bolivianos, que enfrentam o neoliberalismo para expulsá-lo do continente.
Lula voltou revigorado, pletórico, decidido a restaurar os direitos do povo e as riquezas do país, que puseram a perder para o capital estrangeiro Jair Bolsonaro, Sérgio Moro, Dallagnol e cia., os "ministros exterminadores" Paulo Guedes (da Economia) e Abraham Weintraub (da Educação) e todos os demais colaboradores e odiosos seguidores desse desatinado, nefasto, traiçoeiro "governo".
Ao contrário do que afirmam os tradicionais incitadores de encrencas, Lula não vem com ódio no coração. Seu discurso é a um só tempo valente e digno, amoroso e edificante, transmite garra e esperança ao povo, sobretudo aos que se encontram em situação dificílima de sobrevivência por todo o país.
O líder ex-presidente não alardeia publicamente o seu lado espiritual, de homem de fé inabalável. Não perde tempo catequisando ninguém, mas contou em diversas entrevistas que estava se trabalhando espiritualmente para não ter ódio e suportar a injustiça cometida contra ele.
Apesar da não espiritualidade em voga no mundo, é inegável o desafio do mistério, independentemente do nosso descaso e prepotência pra com ele. Inegáveis são as ditas "coincidências", sincronias, ocorrências, que depois se desconfia de uma talvez mão regente, uma direção de cena no destino de cada um.
Felizmente Jung abriu uma nesga de dimensão científica ao fenômeno - isso dito considerando os ateus, invejosamente fortes, resistentes, os autossuficientes que se apoiam em si mesmos ao longo da punk trajetória existencial. Me explico.
Oráculo para Lula
Quando Lula foi preso, naquela tarde em que se ouviam choro e ranger de dentes pelo país, entre os inconformados com aquele mando, recorri ao recurso milenar que guerreiros, reis e súditos em geral buscavam, visando o futuro. Abri um oráculo pra saber o que o "mistério" me diria daquele momento histórico, que parecia profundamente cruel e inaceitável. E a resposta dada, e compartilhada com familiares e amigos próximos no mesmo dia e hora, foi a seguinte.
"Salomão disse: eu te porei na encruzilhada e te tornarei silencioso e imóvel, e os signos dos acontecimentos passarão diante de ti. Assim restringirás tua curiosidade humana, assim lançarás uma vista no curso predestinado da torrente, pois acima daquilo que é humano, voa o pensamento do mundo. Deste modo, observai o curso dos acontecimentos como se, do alto da torre, contásseis os rebanhos de ovelhas".
Aberto ao acaso mas concentradamente no livro "Agni Yoga, 1929" (FEEU, Porto Alegre), número 123, pág. 78, este oráculo foi enviado por mim ao ex-presidente, via site de cartas criado pelo pessoal do Instituto Lula.
Se ele leu, não sei, mas lhe foi comunicada essa mensagem de aguenta aí, segura o tranco que você está protegido. E o oráculo fala por si do que se testemunhou, desde a cena do helicóptero o levando para Curitiba e sumindo ao longe, até a hora de sua libertação do cárcere.
Não é intenção cutucar com vara curta a certeza e ironia dos que negam os mistérios chamados divinos, mas aqui vai mais um relato de outra ocorrência desse universo na política da hora.
Com Sigmaringa outra "coincidência"?
Quem acompanha a política sabe da grande amizade que nasceu entre Lula e o advogado e parlamentar Luiz Carlos Sigmaringa Seixas, o Sig, falecido no dia de Natal passado. Pois bem, Sigmaringa foi lembrado pelos deputados Wadih Damous e Lindbergh Farias durante a espera da soltura do ex-presidente. À porta do prédio da PF, ambos depuseram à TV 247 sobre o quanto Sig estaria feliz se pudesse estar ali com eles, enfatizando que sua amizade e presença constantes na luta ao lado de Lula precisavam ser lembradas.
O interessante no episódio é que eles não sabiam, se não talvez teriam contado ao repórter, que o aniversário de Sigmaringa é justamente 7 de novembro, dia da decisão dos ministros do STF pelo respeito à Constituição que devolveu a liberdade ao ex-presidente.
Importante também lembrar o quanto a família Sigmaringa se sentia desolada com a doença que o abateria mais à frente e que era tida como consequência da sua profunda tristeza e indignação por ver os colegas, do judiciário e do legislativo, traindo a verdade dos fatos, claros para quem acompanhou atentamente toda a inegável armação que mais tarde o Intercept revelaria na série Vaza Jato.
Sigmaringa foi portanto um agente do mistério que ocorre em forma de pequenos e estranhos "milagres", que os céticos insistem em dizer que são uma "coincidência interessante".
Sob a estrela guerreira da América Latina
Outro saque sobre a mística que cerca os fatos históricos foi posto nas redes no mesmo dia da soltura, de surpreendente agilidade com que foi conduzida. A matemática, que tem pacto com os deuses, rendeu esta: "580 dias preso. 5+8 =13. Até a numerologia está com Lula", escreveu em tuite a jornalista Hildegard Angel, irmã do mártir da ditadura Stuart Angel, se referindo ao número da legenda do PT.
Pois os não céticos diriam que é bom crer que o universo e seu Criador, as forças positivas e os santos guerreiros da América Latina estão sim com Lula. Basta relembrar sua história de vida, a magnitude de sua personagem, a estrela desde o berço, em 1945, na casa de dona Lindu, e o berço político, em 1978, com a fundação do seu Partido dos Trabalhadores. Basta atinar com a escolha do Brasil por Glenn Greenwald como nova morada, justo ele, com seu currículo jornalístico o mais audaz e digno de reverências impossível.
E ainda antes de GG, no meio do caminho em que se andava aturdido e impotente com o bombardeio ininterrupto do golpe diário, não esquecer da aparição de outra mão, publicamente invisível, oferecendo as provas irrefutáveis do sórdido enredo criado por procuradores da República e o juiz federal depois feito ministro de Estado da Justiça!
Quantos pequenos e grandes "milagres" muitos cidadãos podem ter pra contar neste contexto e quantos de diferentes questões se vivencia ao longo da vida, sem fazer conta deles. O mesmo mestre ascensionado autor do trecho do oráculo citado, diz em outro de seus aforismos e lições de sabedoria:
"Pode aquilo que chamam milagre ser esperado? Certamente, a primeira condição de um fenômeno é a de ser inesperado. A própria essência da consciência humana torna o fenômeno imperceptível. A consciência comum cria um obstáculo, ao pressupor condições contraditórias. O adepto do conhecimento somente pode pedir: "Ó seres queridos, não perturbeis com vossos gritos de esperança, quando a retorta da essência mundial já está criando uma combinação feliz. Será possível esperar a guinada do navio para a direita, quando Nossa Mão dirige o leme para esquerda? Somente a clara consciência da inalterabilidade será a cooperadora do processo mundial. Se um quarto parece vazio aos vossos olhos, podemos afirmar que ele está realmente vazio? Que os fantasmas da ignorância não limitem o horizonte".
Indo e voltando à vaca sagrada
Mas não era essa a essência a ser ressaltada neste artigo e sim que uma leveza de passarinho feliz voltou às asas, ou espáduas, dos que sentiam uma espécie de culpa, um incômodo, por não tirar Lula do cativeiro - na marra, que fosse. Leveza porque, sem ter chegado a haver derramamento de sangue, o Judiciário fez por cumprir com seu dever de guardião da Constituição (mesmo que logo em seguida, o golpe na Bolívia tenha dado o que cismar).
Agora se espera, não como milagre mas como certeza, que o Congresso seja digno de representar o povo, seguindo o veredicto do Supremo. Mas caso venha novamente a golpear a democracia, está aí a voz de comando de Lula, ao pisar fora da maldita masmorra do Moro, para o país se unir à fibra dos hermanos vizinhos, em defesa de sua soberania.
Voltando à sagrada vaca fria, há sim um realinhamento de forças progressistas no início da era aquariana em curso no planeta. E nesse contexto, o mantra agora deve ser: Lula tem corpo fechado. Saravá!
Criado em 2019-11-12 14:27:07
Romário Schettino -
O prefeito da cidade de Maricá (RJ), Fabiano Horta, do PT, anunciou hoje (11/3) a aquisição de 400 mil doses da vacina Sputnik V para vacinar toda a população do município.
O acordo foi fechado com o Fundo Soberano da Rússia, através da incorporação de Maricá, situada na região metropolitana do Rio de Janeiro, ao Consórcio Nordeste de governadores.
“Diante da sanção de lei federal permitindo a compra de vacinas por municípios, determinei aos órgãos municipais envolvidos que tomassem as providências necessárias para a compra da Sputnik V em contrato a ser imediatamente celebrado com o governo russo”, explicou o prefeito.
Como a vacina será produzida na Rússia e enviada ao Brasil pronta para a utilização, o prazo para a chegada das primeiras doses ainda depende da logística exigida na operação, o que está para ser definido pelas autoridades sanitárias do município.
Segundo o prefeito, desde dezembro Maricá vinha fazendo tratativas para a aquisição do imunizante desenvolvido pelos russos, ao mesmo tempo em que tentava a compra da vacina Coronavac, fabricada pelo Instituto Butantan a partir de um produto da China.
“A intenção de compra não tinha sido materializada até aqui por conta da impossibilidade legal dos municípios fecharem as compras diretamente”, acrescenta Fabiano Horta. “Temos a partir de agora todas as condições de avançar mais rápido na imunização da nossa população. Estamos em um momento da pandemia que é preciso dar celeridade para vencer essa batalha”, completou o prefeito.
O marco legal que permitiu a compra é o projeto de lei 534/2021, aprovado no Congresso e sancionado quarta-feira (10/3) pelo presidente da República. A lei permite a compra por estados, municípios e pelo setor privado de vacinas contra a Covid-19 com registro ou autorização temporária no Brasil. A participação de Maricá na compra foi viabilizada um dia após a sanção da lei.
Desenvolvida pelo laboratório Gamaleya, a vacina Sputnik V alcançou eficácia de 91,6% segundo estudo publicado pela revista científica The Lancet. O estudo mostrou, ainda, que 21 dias depois da aplicação da primeira dose, ela foi 100% eficaz na prevenção de casos graves e mortes.
Tecnicamente, a vacina Sputnik V usa um método parecido com a da Astra Zeneca, que é a inserção de um pedaço do vírus Sars-CoV-2 em um chamado vetor viral (um adenovírus inofensivo), que é então injetado no corpo. Isso permite que o sistema imunológico reconheça a parte do coronavírus e então crie as defesas contra ele. A diferença entre a vacina russa e a da Astra Zeneca está no fato de que na russa cada uma das duas doses tem um adenovírus diferente, o que reduz a possibilidade de uma eventual resistência do organismo afetar a resposta imunológica.
A prefeitura informa que por enquanto não há como estimar o prazo necessário para vacinar toda a população porque essa imunização é diferente de outras campanhas específicas já realizadas. Essa vacina demanda uma estrutura que, a partir desse anúncio, está sendo planejada.
O Sistema Único de Saúde (SUS) de Maricá está preparado para atender não só a demanda da cidade, mas até de cidades vizinhas, especialmente após a inauguração do hospital municipal Dr. Ernesto Che Guevara, em maio do ano passado. Essa unidade tem 130 leitos e está inteiramente dedicada à Covid-19.
Além disso, Maricá conta com o hospital Conde Modesto Leal, a Unidade de Pronto Atendimento de Inoã e o Posto de Emergência 24 Santa Rita.
E o mais importante, a ocupação de leitos disponíveis para atendimento a pacientes com Covid, que é medida semanalmente, está em 28%. Os indicadores da pandemia na cidade mostram um platô epidemiológico, diferente da situação de outras cidades.
Com um ano de pandemia, a economia está sendo retomada. A cidade está em estágio Amarelo e as restrições sanitárias em vigor estão sendo obedecidas. A prefeitura busca conscientizar quem vem de fora no sentido de respeitar o que está estabelecido, para a segurança de todos.
Em relação ao custo desse investimento, a prefeitura informa que assim que forem concluídos os cálculos, que incluem a logística, os valores serão divulgados.
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Matéria publicada originalmente no site do Jornal Brasil Popular
Criado em 2021-03-12 01:34:47
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
E se eu disser a vocês que o Fernando Pessoa tinha visão de raios X? Numa carta enviada no dia 24 de abril de 1916 à tia Anica (Ana Luísa Pinheiro Nogueira, irmã de sua mãe), ele contou que viu, certa manhã, no café A Brasileira do Rossio, “as costelas de um indivíduo através do fato (paletó) e da pele”.
Passado o espanto, o esclarecimento: o Fernando, que se dedicou com a tia a promover sessões “semi-espíritas”, para contatar o espírito do tio-avô Gualdino, relata nessa carta que estava “desenvolvendo qualidades não só de médium escrevente, mas também de médium vidente”.
Abro aqui parênteses para imaginar a gargalhada do Alberto Caeiro, materialista empedernido, ao saber desse comentário, assim como, outra vez, havia gargalhado do julgamento que dele fizeram como poeta materialista: Uma vez chamaram-me poeta materialista, / E eu admirei-me, porque não julgava / Que se me pudesse chamar qualquer coisa. / Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Prossigo com o registro do Pessoa: “Começo a ter aquilo a que os ocultistas chamam ‘a visão astral’, e também a chamada ‘visão etérica’. Tudo isto está muito em princípio, mas não admite dúvidas. É tudo, por enquanto, imperfeito e em certos momentos só, mas nesses momentos existe. [ Há momentos, por exemplo, em que tenho perfeitamente alvoradas (?) de ‘visão etérica’ — em que vejo a ‘aura magnética’ de algumas pessoas, e, sobretudo, a minha ao espelho e, no escuro, irradiando-me das mãos. Não é alucinação porque o que eu vejo outros vêem-no, pelo menos, um outro, com qualidades destas mais desenvolvidas. Cheguei, num momento feliz de visão etérica, a ver na Brasileira do Rossio, de manhã, as costelas de um indivíduo através do fato e da pele. Isto é que é a visão etérica em seu pleno grau. Chegarei eu a tê-la realmente, isto é, mais nítida e sempre que quiser?”
Ora, muito mais interessante do que essa suposta capacidade de perceber “auras magnéticas”, e de brilhar no escuro como sucata de Césio 137, foi a eleição que Fernando Pessoa fez dos olhos como recurso central de sua poética, dele mesmo e de seus heterônimos e semi-heterônimos.
Num poema de 1932, Ele Mesmo compara os olhos e a razão (“olhar de conhecer”), para ele dons do Criador:
(…)
Deu-me olhos para ver.
Olho, vejo, acredito.
Como ousarei dizer:
“Cego, fora eu bendito”?
Como o olhar, a razão
Deus me deu, para ver
Para além da visão
Olhar de conhecer.
Se ver é enganar-me,
Pensar um descaminho,
Não sei. Deus os quis dar-me
Por verdade e caminho.
Fernando Pessoa devora o mundo com os olhos. Numa de suas páginas íntimas, provavelmente de 1910, registra: “Há poesia em tudo — na terra e no mar, nos lagos e nas margens dos rios. Há-a também na cidade — não o neguemos — facto evidente para mim enquanto aqui estou sentado: há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia na trepidação dos carros nas ruas em cada movimento ínfimo, vulgar, ridículo, de um operário que, do outro lado da rua, pinta a tabuleta de um talho (açougue)”.
O “espetáculo do mundo”, porém, ele o vê, com reforço, por meio do que chama seu “sentido interior”: “O meu sentido interior de tal modo predomina sobre os meus cinco sentidos que — estou convencido — vejo as coisas desta vida de modo diferente do dos outros homens. Existe para mim — existia — um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Encontro toda uma plenitude de sugestão espiritual no espectáculo de uma ave doméstica com os seus pintainhos que, com ar pimpão, atravessam a rua. Encontro um significado mais profundo do que os terrores humanos no aroma do sândalo, nas latas velhas jazendo numa montureira, numa caixa de fósforos caída na valeta, em dois papéis sujos que, num dia ventoso, rolam e se perseguem rua abaixo. E que poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus em plena consciência da sua queda, atónito com as coisas. Como de alguém que conhecesse a alma das coisas e se esforçasse por rememorar esse conhecimento, lembrando-se de que não era assim que as conhecia, não com estas formas e nestas condições, mas de nada mais se recordando”.
Essa visão espectral, que vislumbra “a alma das coisas”, é o exato oposto do olhar de Alberto Caeiro, o poeta panteísta da Natureza, que toma as coisas pelo que elas parecem ser, como ele diz num poema de O Guardador de Rebanhos:
(…)
«Constituição íntima das coisas»...
«Sentido íntimo do Universo»…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comig
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
(...)
Alguém já deve ter explorado os pontos de contato do Caeiro com o Bashô e os outros mestres do haicai, hipótese que merece uma boa pesquisa. Antes, quero ler as 1088 páginas da novíssima biografia do Fernando Pessoa, publicada pelo escritor, tradutor e crítico americano-português Richard Zenith (Liveright Publishing Corporation).
Vou parando por aqui antes que este comentário, que eu pretendia relâmpago, acabe virando uma dissertação sobre as múltiplas visões do vidente Fernando Pessoa, que tem um livro sobre a volta de Dom Sebastião escrito “à beira-mágoa… com os olhos quentes de água”.
Criado em 2021-09-01 21:46:43
Luiz Martins da Silva –
Diversas frentes, sobretudo na Amazônia. Grileiros, madeireiros, garimpeiros e incendiários, as principais. Denunciadas internacionalmente, em especial na Amazônia e em terras indígenas. Nenhuma novidade não fosse, agora, a participação articulada e ameaçadora, do próprio governo e suas estruturas de apoio também nos poderes legislativo e judiciário. Um acinte a proposta da Medida Provisória, olhe só o apelido dela, "MP da Grilagem". E tudo isto numa sucessão de fatos que vêm da exoneração do diretor do INPE (alguém se recorda?) às recentes exonerações de um diretor do Ibama e, logo após, a intimidação e a garrafada na cabeça de um agente do Ibama.
E exoneração e agressão por quê? Cumprimentos do estrito dever LEGAL. Poderiam até responder criminalmente se omissos em face dos flagrantes. Todavia, que perversão: foram punidos por atuar, de ofício, na autuação de criminosos. No caso pretérito, do INPE, houve indignação até por parte de funcionários da NASA, onde as metodologias climáticas brasileiras já eram, de muito, respeitadas. O governo federal tem feito de tudo para cumprir suas promessas de campanhas junto a latifundiários, grileiros, garimpeiros, madeireiros e invasões de terras indígenas. Uma espécie de liberou geral na informalidade até que as leis sejam reformuladas e que seja feita uma "regularização" das terras da Amazônia, onde as queimadas aumentaram em 64 por cento, em um ano. Houvesse dignidade, o diretor do INPE tinha de ser readmitido a bem do Serviço Público, era o mínimo.
E a Funai virou o quê? Dias atrás se noticiou que os quadros do fotógrafo Sebastião Salgado foram retirados das paredes da Funai. Fotos etnográficas. E retiradas por quê? Porque o economista-fotógrafo-sociólogo abriu uma frente de apoio com vários nomes de prestígio internacional, num apelo em favor de que o constante genocídio de nossos índios não seja, por fim, consolidado de maneira extrema, por meio do Covid-19. Reunia a Comissão da Amazônia, os seus integrantes generais tiveram de reconhecer que os dados do INPE estavam corretos e que o Brasil não pode ficar mal com o restante do Planeta como o vilão da desordem climática.
Perante o mundo, o Brasil poderá ser acusado de descumprir criminosamente as suas adesões a compromissos perante o mundo, como o de Desmatamento Zero, sem contar que já deu uma banana para o "Acordo de Paris". Internamente, mais uma vez, mete os pés pelas mãos ao subordinar o Ibama aos militares, que cuidarão da Amazônia mediante uma decretada Garantia da Lei e da Ordem (GLO). "Intervenção militar!", clamam os apoiadores, vindo o Ibama e outros órgãos de defesa ambiental e humana na retaguarda. Será que os militares estão mesmo dispostos a garantir a Lei e a Ordem como cumprimento de promessas de campanha de um candidato? Além de serem tais promessas antipatrióticas, as Forças Armadas são um poder do Estado e não uma tropa a serviço de um governo a cada dia mais disposto a passar por cima da Constituição Federal.
Criado em 2020-05-12 21:58:31
Geniberto Paiva Campos –
Seria difícil imaginar que ainda no primeiro semestre do ano em curso estaríamos vivendo as consequências do desmonte do país, comandado por um grupo, até agora incapaz de demonstrar a mínima competência de criar algo produtivo, em sua desastrada maneira de administrar o Brasil. Tendo como direção única promover o caos. E a extinção completa do país, enquanto estado-nação. E sua transformação em colônia exportadora de matérias primas. Subordinado ao mesmo “patrão” (yes man/yes sir).
A ocorrência da pandemia da Covid-19 logo no início do novo governo criou, pelo seu inesperado e complicado surgimento, um desafio não previsto. De tal modo, que o recurso ao “negacionismo” seria um mote, talvez previsível, vindo de um bando de medíocres que assumiu o poder por meio de um estranho processo eleitoral, onde predominaram a ausência de debates, a participação aberta dos eleitores e até manobras de disfarce, como o também (muito) estranho – e conveniente - “atentado” ao candidato presidencial, dessa forma impedindo-o de participar diretamente da disputa do pleito e anunciar seus “projetos”, submetendo-os ao crivo dos opositores e ao escrutínio do eleitorado. Projetos resumidos numa frase preocupante, estranhíssima, repetida pelo candidato, mandando um recado mais ou menos assim: “vou destruir e depois recriar...”
A nova roupagem adotada pelo Capitalismo resultou num novo sistema, o Neoliberalismo, com todo o seu cortejo de desgraças, que integram a sua pauta sacrossanta, anunciada pelos seus “defensores teológicos do livre mercado” (Hobsbawm, 1995): pobreza, desemprego em massa, miséria, instabilidade, e até o colapso de todo o sistema.
Ao final da II Guerra Mundial, o sistema capitalista se permitiu ensaiar algumas mudanças. A mais radical de todas foi o Neoliberalismo. Uma espécie de revanche ao modo socialista de produção e repartição dos ganhos, no qual o Estado desempenhava um papel predominante. E atribuía ao Operariado papel prioritário no mundo do Socialismo. O Neoliberalismo tornou-se uma espécie de crença, a teologia de um novo sistema econômico. E foi esta base ideológica, que tinha o “Deus Mercado” como divindade máxima, que assumiu o governo do Brasil em 2019. Com a área econômica entregue a um medíocre “Chicago Boy”.
Paralelo ao processo do desmanche neoliberal (leia-se privatizações...), surgia um outro terrível desafio. Desta vez na área sanitária: a Covid-19, no seu ataque impiedoso a todos os quadrantes do Planeta. É então, que tem início o chamado Negacionismo, a meu ver uma forma suave, até gentil, para designar o comportamento do governo frente à Pandemia, entendida inicialmente pelo presidente como “gripezinha”. Mas, sem exagero, segundo o jornalista André Barrocal, em seu texto de outubro de 2020, na Carta Capital, citando a nota dos partidos de oposição, a atitude negacionista assumiu tais dimensões, que poderia ser diagnosticada como “tentativa de homicídio”; “ameaça de genocídio” ou “crime contra a humanidade”.
Pela primeira vez, uma “revolta da vacina” seria comandada pelo governante em exercício, não pela liderança comunitária. Algum recôndito, inexplicável motivo levou o presidente de todos os brasileiros a negar a situação emergencial na qual tínhamos ingressado, e que exigia respostas imediatas e inteligentes para neutralizar a ameaça de catástrofe sanitária que nos ameaçava seriamente, a ser enfrentada com a ação coordenada e efetiva de todos os brasileiros.
É quando o presidente começa a surpreender, inclusive aos seus seguidores (exceto os fanáticos), caminhando na contramão do senso comum. Cometendo imperdoáveis desatinos, de tal modo surpreendentes, que fazia as pessoas sensatas duvidarem da capacidade administrativa, e até da sanidade mental do presidente. Cercado por uma equipe de insanos e incompetentes, totalmente incapazes de enfrentar tão grave desafio sanitário. Acrescido de um detalhe: o vírus se apresentava para o mundo, simultaneamente com a vacina. Trazendo, portanto, a possibilidade de seu controle em curto prazo. Desde que tal recurso fosse empregado de forma eficiente. E de acordo com as normas científicas universais.
Seria talvez ocioso enumerar aqui os erros e omissões cometidos pelo governo, de modo proposital ou por ignorância dos mais elementares princípios sanitários, para o enfrentamento do (seríssimo) problema. Começando pela omissão dos testes diagnósticos para a Covid, calculados em alguns milhões, disponíveis e não usados pelo Ministério da Saúde. Com prazo de validade vencido, tornados inúteis, por omissão e ignorância.
A sequência de eventos – inacreditáveis, em função das suas terríveis consequências – confirmou as piores suspeitas que se avolumavam entre os brasileiros: a total incompetência administrativa do governo, incapaz de assumir os atos mais corriqueiros da governança, e muito menos os desafios impostos pela Covid-19.
A “politização” das vacinas disponíveis e o injustificado – deliberado – atraso da sua aplicação, deu início à fase do verdadeiro GENOCÍDIO, cometido por um bando de ignorantes irresponsáveis, elevando número de óbitos, a maioria evitáveis, pela Covid, o qual já começa a se aproximar de meio milhão de vítimas da insanidade. Tolerada, e até estimulada, por brasileiros silentes e cúmplices da ignorância assassina e cruel de inocentes.
Nas outras fases do “Negacionismo”, o governo decidiu recusar o uso de máscaras protetoras, como “coisa de maricas”, à falta de argumentos científicos convincentes; o uso de álcool gel; e enfim, estimular as aglomerações. Fazendo funcionar livremente comércio, escolas, academias, restaurantes. Enfim, voltar às atividades definidas como “normais”.
E, finalmente, a tentativa de influir na conduta terapêutica da Pandemia, defendendo o uso da Cloroquina e Ivermectina, na fase aguda da Covid. Medicações que se comprovaram inócuas e com efeitos colaterais deletérios para a saúde dos usuários.
Tal comportamento será avaliado, a partir da próxima semana, através de Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI – instalada no Senado Federal, o primeiro obstáculo para contenção dos desatinos governamentais, na sua desastrada e infeliz condução das medidas de enfrentamento da Pandemia.
Aguardemos os resultados.
Criado em 2021-04-24 02:58:04
Carlos Gandra (*) -
Os deputados distritais aprovaram nesta terça-feira (16/5) o projeto de lei nº 1.459/2017, do Executivo, que cria o programa de compensação financeira temporária aos catadores de materiais recicláveis que exercem atividades no Aterro do Jóquei – mais conhecido como Lixão da Estrutural.
O objetivo é garantir trabalho e renda durante o período de instalação do Aterro Sanitário de Brasília, em Samambaia, e a construção dos sete centros de triagem de resíduos, em licitação pela Novacap.
O projeto vai beneficiar 1,2 mil pessoas, e o GDF estima que o programa vai ter um impacto orçamentário anual de cerca de R$ 5 milhões.
Os recursos, segundo o projeto de lei aprovado, são oriundos dos orçamentos fiscal e da seguridade social. O Serviço de Limpeza Urbana (SLU) é o órgão responsável pela coordenação do programa e da construção dos galpões de triagem.
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(*) Carlos Gandra é jornalista da Assessoria de Comunicação da CLDF
Criado em 2017-05-17 19:00:29