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Zuleica Porto -
“Se todos os artistas fossem primeiros violinos, não seria possível manter uma orquestra. Portanto, respeite a posição de cada músico”.
Este é um entre os sessenta e seis conselhos aos músicos aprendizes que o compositor romântico Robert Schumann publicou em 1848, em forma de epílogo ao seu Álbum para a juventude, uma entre suas diversas obras destinadas aos jovens pianistas.
Tenho em mãos a primeira publicação desses Conselhos aos Jovens Músicos – regras musicais para a casa e para a vida em Português do Brasil, com tradução a cargo do trio de instrumentistas e professores Luciana Gifoni (flauta doce), Heriberto Porto (flauta transversal) e Nelma Dahas (piano), a partir do cotejamento das versões em alemão (Ludwig Richter, Hamburgo, 1849) e francês (Franz Liszt, 1860) em preciosa edição da Lumah, editora localizada em Fortaleza, Ceará.
A revisão foi feita pelo professor Francisco Aragão, e as graciosas ilustrações ficaram a cargo do produtor de vídeo e quadrinista Gabriel Lage. Desse “concerto a dez mãos”, executado com cuidado e talento, resultou uma preciosa edição.
O Prefácio, escrito pelo professor e maestro Márcio Landi, traz valiosas informações sobre a vida de Schumann, principalmente para o público leigo no qual me incluo.
Por ele fico sabendo que entre os jovens músicos estavam os filhos do compositor com a pianista Clara Schumann, quatro à época da primeira publicação, sete no total. Que era um pai dedicado, como revela seu diário, no qual anotava as atividades e descobertas dos filhos.
E que sofria de um temperamento “intempestivo e perturbador”, que o levou, como à escritora Virgínia Woolf (1882-1941), a procurar a morte atirando-se num rio, no seu caso, o Reno.
É bem verdade que Virgínia não “se atirou”, andou rio Ouse adentro com pedras no bolso do casaco, mas os sofrimentos dele e dela, os momentos dolorosos de insanidade, os levaram a destinos semelhantes.
Sou apenas uma ouvinte e amante da música e nada entendo de sua teoria. Se me atrevo a falar sobre os conselhos contidos no precioso livrinho, é que suas reflexões são valiosas não só para aprendizes, professores e profissionais desta arte. Mostram-se providenciais para quem almeja o bom viver, em qualquer época e lugar.
A leitura da recomendação que transcrevi na abertura deste texto permite uma fácil analogia da orquestra com a sociedade do tempo moderno, na qual muita gente quer ocupar a posição do “primeiro violino”, e tem quem despreze e maltrate quem está em lugares de aparente menor destaque.
Para que haja afinação e harmonia é preciso respeito mútuo, seja qual for a posição que ocupa cada componente da orquestra, seja ela de músicos ou de simples viventes.
Outros conselhos dispensam analogias, o autor vai direto ao ponto, como o que diz: “seja proficiente na vida, tanto quanto nas artes e nas ciências”.
Proficiência no ofício de viver depende, como no exercício de qualquer profissão, de um infinito aprendizado, diz Robert Schumann aos jovens músicos.
Conhecer a obra dos grandes mestres, não se deixar seduzir pelos aplausos, amar o instrumento, ler os grandes poetas, passear ao ar livre nos momentos de descanso são atitudes que levam a evoluir no aprendizado, não só da música.
Talvez por ter sido o compositor um apaixonado também pela literatura, sua escritura permite que os conselhos sejam lidos isoladamente, abrindo-se o livro ao acaso, ou em linha reta, ou mesmo numa ordem escolhida aleatoriamente; o leitor percebe que um encadeia-se e remete a outro, anterior ou posterior, formando diversos textos ou um só.
Quase uma miniatura romântica do Jogo da amarelinha de Cortázar.
Nesta edição da Lumah, depois da recomendação final, o leitor é agraciado com mais uma ilustração – o músico que percorre a publicação está sentado numa poltrona, lendo um livro à luz de um abajur, com outros livros e um violino ao lado.
Aliando o desenho de Lage ao texto de Schumann, aquele que alerta que “o aprendizado não tem fim”, torna-se mais possível ainda considerar o livro uma obra aberta.
Além do mais, é um regalo para o espírito.
__________________________
Serviço:
Título: Conselhos aos jovens músicos: regras musicais para a casa e para a vida
Autor: Robert Schumann
Tradução: Nelma Dahas, Luciana Gifoni & Heriberto Porto.
Ilustrações: Gabriel Lage.
Editora: Lumah (contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.).
Nº de páginas: 84.
Valor do livro: R$ 24,90.
Como adquirir: www.lumahcultura.com.br
Criado em 2017-03-31 02:10:57
Maria Lucia Verdi –
Movo o relógio antes de sentar
As batidas do tempo não são
necessárias
O ruído da máquina de lavar
acalma
Vigoroso, vital
O relógio entre os livros
na estante
Beethoven no ar
Lembranças da minha relação
com a água
Nadar, amar
essas rimas inquietam
Mergulhos, flutuações
entregas
No quê? Em quê? Ao quê?
O relógio na estante repousa
entre livros de arte
Criado em 2021-04-24 03:15:16
Angélica Torres –
Cineastas têm lá suas birras e razões contra o advento do streaming. Mas graças ao Telecine, após rever Acossado, o clássico dos clássicos de Godard, e de encafifar, ué, onde anda Jean Seberg, a estrela do filme? (bem, nem todo mundo sabe tudo de cinema), abre-se então um curioso circuito de sincronias e coincidências, por informações inesperadas. Estupefatamente, você descobre o que jamais cogitaria sobre a atriz que se tornara símbolo do novo cinema francês dos anos 1960.
Com aquele rosto lindo e realçado pelo corte curtíssimo do cabelo (copiado até por Twiggy, a top model da década), aqui batizado de "joãozinho" em referência a seu nome (Jean), aquela garota, que também marcou época com as hoje clássicas fusô, camiseta e sapatilhas, nas antológicas cenas ao lado de Jean-Paul Belmondo, como vendedora de jornal pelas ruas de Paris – pois, aquela atriz, caramba, você fica sabendo que morreu aos 40 anos, em 1979, e mais: em decorrência da perseguição sofrida pelo FBI, por sua adesão à causa dos direitos humanos; em especial à dos negros americanos. E o queixo cai...

Certamente que cinéfilos até podem ter visto, nos telões mesmo, o filme Seberg (foto acima), baseado em dados biográficos de sua intensa, trágica e curta vida, com o foco nessa fase de sua atuação política. Dirigido pelo australiano Benedict Andrew, aqui, intrigantemente rebatizado como Seberg contra todos, o filme foi lançado no Brasil em 5 de março do ano passado, quando o coronavírus começava a chegar entre nós, como um exército de tártaros.
Pois, seria coincidência ou sincronia que, Acossado, o filme que deu início ao movimento da Nouvelle Vague e que a projetou mundialmente, tenha sido lançado em 7 de março de 1961, portanto, 60 anos antes desse Seberg contra todos ? (Este, por sinal, também está disponível na plataforma Telecine). Coincidência que o título de Acossado em francês (À bout de souffle) signifique ao pé da letra "sem fôlego", conectando-o com o trágico atual tempo pandêmico, e que a atriz tenha vivido sufocada, por uma história pessoal de violência policial?
Coincidência, ainda, que sua personagem icônica no filme, a Patricia Franchini, fosse uma jornalista apaixonada por literatura e que revela ao namorado Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo) estar escrevendo romances? Anos depois, Jean Seberg casou-se com o escritor Roman Gary, e ela própria escreveu e publicou os livros Blue Jean, um ensaio sobre a esquizofrenia e How top Escape Oneself ("Como escapar de si mesmo"), um manual de instruções para suicídio.

Uma década radical
Acossado é o filme inaugural de uma estética artística mas também fashion. Ou seja: a moda teve nele, de fato, papel de destaque, influenciando sucessivas gerações. (Foto acima, o músico brasiliense Marcelo Lima, com figurino inspirado no de Belmondo para o clipe de “Skapada”, música de seu último CD*).
Outro forte registro no filme é o de comportamentos como o machismo da época em contraponto ao de pureza dos jovens protagonistas, saindo poesia da mão de Godard em uma crônica policial. Mas muito mais viria da década que só começava. Notadamente um intelectual marxista-existencialista, Jean-Luc Godard construiria uma obra calcada em linguagem fragmentada, admiravelmente inteligente e repleta de suas posições políticas.

Os anos 60 foram marcadamente tempos de juventude revolucionária, com protestos contra a presença dos EUA na guerra no Vietnã; década de rebeliões contra o racismo na África do Sul e no território norte-americano; de insurreições contra as ditaduras impostas e financiadas pela América do Norte na América do Sul; época de consagração de líderes como Ho Chi Minh e Nelson Mandela, Martin Luther King e Malcom X, Fidel Castro e Che Guevara; tempos também da explosão do feminismo.
A pergunta que fica no ar é: até onde a americana Jean Seberg, que deixou Iowa aos 18 anos para se candidatar e conquistar o papel de Joana d'Arc, no filme de Otto Preminger (diretor de Bom dia, tristeza, em que ela também atuou, e de Porgy and Bess), ela, que viveria até a morte em Paris, até que ponto teria sido influenciada pelo Godard das passeatas de protestos, engajado que era como artista e como cidadão, mas também pela grita universitária que, liderada por Daniel Cohn-Bendit, eclodiu no movimento Maio de 68?
Quando teria se formado em sua cabeça a consciência e o comprometimento sociopolítico, que, de volta aos E.U., já famosa por sua carreira na França, manifestou-se, ao conhecer Hakim Jamal, um integrante dos Black Panthers, no avião que os levava a Nova York?
Sabe-se daí em diante de seu envolvimento amoroso com Jamal e humanitário com entidades de defesa dos afro-americanos, doando aos Panteras Negras vultosas somas, até a sua morte. Mas nada se sabe da história de Jean Seberg em solo americano, antes dela se ingressar no universo cinematográfico parisiense. Também não há esclarecimentos consistentes sobre sua trajetória em Seberg contra todos, nem em materiais biográficos disponíveis na imprensa brasileira e na internacional, inclusive sobre sua misteriosa morte.
“Contra todos”, quem?
No entanto, está aí à mão o filme que homenageia sua memória como uma das estrelas americanas engajadas em causas humanistas – outros seriam Marlon Brando e Jane Fonda, Robert Redford e George Clooney, Angelina Jolie e River Phoenix, para lembrar alguns. Seberg é o segundo longa de Benedict Andrew (na foto, abaixo), de 49 anos, que disse em entrevista preferir o cinema como uma ferida aberta. "Quero que a plateia saia se fazendo perguntas". Pois, conseguiu, já que são muitos os que se queixam de vários aspectos indefinidos pelos seus dois roteiristas.

Mas não é o caso aqui de criticar o resultado do filme. Nem mesmo a atuação de Kristen Stewart como Jean Seberg, embora seja flagrante a falta de algum traço da beleza carismática, do charme natural e, ao mesmo tempo, da sofisticação à francesa da atriz que atraiu Godard para imortalizá-la no papel da suave e enigmática Patrícia Franchini – sobretudo se você revê, ou vê, este filme num dia e na noite seguinte vê o outro. A propósito, na autobiografia Mil vidas valem mais do que uma, Belmondo revela que Godard convidou Jean Seberg para o papel, porque nutria uma paixão secreta por ela e que pensava em se aproximarem durante as filmagens. Entretanto, nada aconteceu entre eles.
Voltando a Seberg de Benedict Andrew, o que vale muito, em tempos neofascistas, é ver como se estruturaram os métodos do serviço de inteligência norte-americano, desenvolvidos para pirar suas vítimas: a perseguição e o assédio implacáveis de seus agentes, com invasão da intimidade e disseminação de mentiras de fundo moral e conotação sexual, inclusive plantadas por eles na imprensa.

A intimidação, os danos, a destruição de reputação e carreira dos que vão contra os interesses do governo americano, ou até mesmo da vida, como ocorreu com Jean Seberg, por vulnerabilidade à devastação psicológica sofrida, não consistem em outra banal "coincidência" flagrada no filme. O diretor parece mesmo resgatar, consciente ou inconscientemente, a real personagem da atriz e espelhar a realidade do avanço da extrema direita hoje no mundo. As técnicas de tortura psicológica reveladas são as mesmas aplicadas ainda hoje – apenas de modo mais prático, agora, pelo avanço da tecnologia.
The End
Encontrada pela polícia em 1979, enrolada em um cobertor no banco traseiro de seu carro, dez dias depois de morta, na rua do prédio em que vivia com seu quarto marido, em Paris, Jean Seberg se tornou não o retrato de uma tragédia própria para cinema, mas mais um número nas estatísticas dos suicidas com barbitúricos. (E o corpo se decompondo na rua em que vivia, por tantos dias, sem que vivalma percebesse??)
Sua biografia revela que ela tentou o suicídio por nove anos seguidos; que por seu desequilíbrio emocional, perdeu um bebê no 8º mês de gravidez, que se chamaria Nina**, fruto de um seu romance com um ativista mexicano; que teve sua história pessoal mexida e remexida em fuxicos preconceituosos quanto ao seu livre modo de ser, como mulher, evidenciando os reflexos de uma sociedade conservadora, não muito diferente da atual.
Com tudo isso exacerbado pela perseguição do governo americano, o que sobra e ressalta em sua personagem é a paranoia, que a levou ao fatídico e até hoje mal explicado desfecho. Roman Gary, o marido à época em que ela foi acossada, acusou o FBI como autor da morte dela. Poucos anos depois, ele próprio cometeria suicídio.

Seberg contra todos poderia render uma história narrada de diferentes outras maneiras (e "todos" quem, cara pálida?; “Todos contra Seberg” não seria um título menos equivocado, menos suspeito?). Mas pelo menos a tiraram do ostracismo a que foi confinada por obra de policiais sociopatas, misóginos, com poderes hierárquicos, e que continuam existindo impunes, aqui, lá, ao redor do mundo – e, no caso dela, mesmo que o FBI, no ano seguinte, tenha reconhecido a sua culpa na tragédia.
And last but not least: seria coincidência a escolha da voz para rematar o filme com um toque especial de beleza e tristeza do diretor ao público? A canção é de Bob Dylan, mas quem interpreta é a diva negra, eterna ativista contra o racismo, de mesmo nome que teria a filha da atriz.
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(*) Ouça aqui na voz de Nina Simone a canção “Just like Tom thumb's blues”, que encerra Seberg contra todos.
(**) Assista aqui ao clipe de “Skapada”, do CD Marcelo Lima e os Procurados (2020), que conta com a participação de Linhos, artista da companhia brasiliense de comédia Os mais famosos do mundo. Além de Acossado, o clipe faz também referências a Daunbailó, clássico de Jim Jarmusch.
Criado em 2021-05-01 21:51:45
Romário Schettino –
Pelo número de acontecimentos negativos para o presidente Jair Bolsonaro em uma única semana pode-se afirmar que se trata da maldição do cocar. Acredita-se no meio político que aquele que desrespeita os indígenas, ao usar o cocar, será amaldiçoado. E mais, se a ave que cedeu as penas tiver morrido, o azar é ainda maior.
Pré-candidato à reeleição, Bolsonaro, em maio deste ano, em São Gabriel da Cachoeira (AM), posou ao lado de um índio com um cocar na cabeça. Daí para cá as coisas só pioraram para o seu lado. Pelo visto, essa ave morreu e a floresta lançou sobre o presidente a sua fúria.
Muitos índios foram golpeados pela PM na Esplanada dos Ministérios enquanto defendiam seus direitos contra projeto de lei que dificultará o processo de demarcação e facilitará obras e exploração de recursos naturais em terras indígenas. A situação ficou tensa.
Em suas andanças pelo país, o presidente tem se irritado toda vez que sai para fazer campanha. Ofende jornalistas, especialmente as mulheres, grita com seus subalternos em público e comete absurdos inimagináveis para uma autoridade. No Rio Grande do Norte pegou uma criança no colo, retirou acintosamente a sua máscara e desafiou as instituições republicanas, que defendem a vacina em massa contra a Covid-19, o distanciamento social e o uso de máscaras protetivas.
A situação foi piorando quando a CPI da Pandemia convidou o deputado Luiz Miranda (DEM-DF) e seu irmão Luiz Ricardo Miranda, funcionário do Ministério da Saúde, para revelarem as suspeitas na compra da vacina Covaxin.
Os desmandos do governo federal estão escancarados, passam pelo líder na Câmara Ricardo Barros (PP-PR) e chegam ao filho mais velho do presidente, senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ). Segundo a revista Veja, Flávio teria intermediado a visita do dono da Precisa Medicamentos ao BNDES. A Precisa é exatamente aquela empresa toda enrolada e que deu golpe milionário no Ministério da Saúde, na época do ministro Ricardo Barros (governo Temer).
Em meio a todo esse tumulto, o primeiro a cair foi o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Agora, nem passaporte pode ter. A ministra Carmem Lúcia mandou confiscar o documento do ministro para que ele não fuja do país enquanto estiver respondendo a processo no STF. Pode ser que ele consiga ser julgado na justiça comum por ter deixado de ser ministro, mas isso não significa que ficará impune.
Para piorar o desespero de Bolsonaro, pesquisa do Ipec (ex-Ibope) dá Lula como vencedor no primeiro turno se a eleição fosse hoje. Bolsonaro arranca os cabelos, ameaça denunciar fraude caso perca a eleição. Exige que o voto seja impresso, mas onze partidos se unem para impedir essa manobra estapafúrdia do Palácio do Planalto.
Analistas políticos vislumbram insatisfação em setores militares e empresariais com o desempenho de Bolsonaro. Já pensam em desembarcar dessa canoa furada. Admitem que o impeachment pode ser uma saída honrosa, colocando no lugar Hamilton Mourão e preparando alguém com capacidade de derrotar Lula. Estariam eles buscando uma terceira via que pode se tornar a segunda? Lula está cada vez mais consolidado como candidato de uma centro-esquerda em construção.
O ministro das Finanças Paulo Guedes bem que tentou desviar as atenções ao levar à Câmara projeto que eleva o mínimo de isenção do Imposto de Renda de R$ 1,9 mil para R$ 2,5 mil, mas Bolsonaro foi atropelado pelo deputado Luiz Miranda (DEM-DF), que entregou o líder do governo na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros (PP-PR), aos leões da CPI da Covid.
Bolsonaro, de volta às motociatas, hoje em Santa Catarina, afirmou que a CPI da Covid é conduzida por "sete pilantras" e ignora solenemente as acusações dos irmãos Miranda.
A CPI da Covid considera que agora o foco das investigações será o presidente da República. Resta saber se ela pode fazer isso. Juristas estão debruçados sobre as leis, os usos e os costumes para decidir, na próxima semana o que fazer. Uma possibilidade é apresentar notícia-crime ao Supremo Tribunal Federal por suposta prevaricação do presidente. Nas redes sociais, o deputado Luiz Miranda admite que tem como comprovar que Bolsonaro sabia quem estava por trás das tramoias no Ministerio da Saúde no caso da Covaxin.
Como no Brasil nada é para valer, teremos que esperar mais uma semana. O que é certo é que o Fora, Bolsonaro tende a aumentar de volume nos próximos dias. O que é certo é que Bolsonaro derrete nas pesquisas de opinião.
Criado em 2021-06-26 21:23:58
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) -
Por artes de berliques e berloques, o chanceler Sergey Lavrov conseguiu armar uma conversa no Telegram entre o Putin e o Zelensky. O papo transcorreu em russo, língua materna dos dois presidentes:
- Ô, Zelensky, ou você aceita as minhas condições, ou eu te oblitero, meu! Ou dá, Odessa!
- Você é que será obliterado pelo nosso nazicomando Azov, seu cossaco asqueroso! Por falar nisso, já vamos raspar seu último dólar e seu último euro!
- Idiota, a minha carteira só tem yuans e bitcoins, bobão! E se vocês congelarem as nossas reservas, como é que vou te pagar as taxas pelos gasodutos que passam pela Ucrânia?
- Porra, Vlad, pare com essas ameaças! Cê não viu que o Biden já mandou uns aviões pra Romênia, não? Sua hora está chegando!
- Só podia ser na Romênia, aquele vampiro! Mudando de assunto, Zelensky, me disseram que você vai fazer um filme sobre a minha inv... hum, a minha operação militar especial em defesa dos legítimos interesses dos patriotas do Donbass? Êta pravda?
- Óbvio, né, Vlad! O roteirista é o Stephen King. Estamos discutindo o título, mas se você quiser dar uma sugestão! Por enquanto estamos pensando em "Putin, o Estranho", "Dead Zone in Donbass" e "The Dark Tower of Maidan".
- Sem graça, né! Eu prefiro "Os russos estão chegando" ou "Chamem a Merkel!".
- Vlad, você continua de bom humor, apesar de tudo! Passando essa crise, a gente precisa tomar umas vodcas, továrich!
- Que vodca, o caralho, Zelensky! Antes eu vou reduzir você a pó! Aliás, não vai sobrar vodca nenhuma... pelo visto, só tédio! As suas você gastou nos coquetéis molotov, né!
- Ô, Vlad, não precisa apelar!
- Quer saber, Zelensky? Eu nunca confiei nos ucranianos! Bando de fingidos! Nas últimas décadas, vocês sempre sabotaram os interesses da Rússia...
- Ah, já vi que essa conversa vai azedar!
- Vocês só fazem merda, desde o Trotsky e a Anna Akhmátova...
- Calma, Vlad. Respire fundo ou você vai ter um trots... um troço!
- Aquele bosta do Lysenko, um bioterrorista! O Nikita Khrushchov, ultra-stalinista mas só até chegar ao Presidium Supremo. Depois vieram o imbecil do Brejnev, o Chernenko, o Shcherbytsky, o Soljenítsin...
- Ah, não, Vlad, o Soljenítsin, não! Esse cara era um traíra, um grão-russo, pô, com aquele papo de Santa Mãe Rússia!
- Hum, sim, não, talvez, quer dizer... Putz, acho que dormi mal essa noite...
Nisso entra o Lavrov:
- Presidente, se o senhor puder interromper essa discussão literária, seria bom! Acabamos de fazer um grande avanço em Kharkiv... E o Shoygu já tem o último boletim do teatro da operação militar especial em defesa dos legítimos interesses dos patriotas do Donbass!
- Davay, Lavrov, vamos lá! Será que pediram meu frango à Kiev pro almoço?
- Sinto muito, mas o Ifoodsky acaba de suspender as operações no País. Sobrou um pouco do canard à l´orange que o Macron mandou semana passada!
- Eca! Ô, vida, Lavrov! Será que o Kremlin e a Crimeia compensam?
Criado em 2022-03-02 18:29:00
Luiz Martins da Silva –
I
Lá, desde o inatingível,
Não mais susto, não mais surto,
Não mais exposta à sanha
Imoladora e incendiária,
II
A árvore arquétipo,
A árvore espírito,
A árvore altiva,
A árvore da vida,
III
A árvore de todas as árvores,
A árvore zelo e nutriz
De toda espécie, de todo Ser,
Retornará de seu silêncio.
IV
Tudo o que perece recomeça
Para a prece da essência.
O que fere seja horto,
O que mata seja morto.
V
Sandice, miragem.
Inútil ilusão do fútil
A espalhar o infortúnio,
De quem vai desaparecer.
VI
A marcha da ignorância,
A inconsciência do tudo para si,
Atrairá inevitáveis consequências
Para os que estão a destruir.
VII
Um dia, de Norte ao Sul,
A profecia há de se cumprir.
A árvore matriz voltará a fluir.
E outra vez o ar será verde e azul.
Criado em 2020-09-21 15:19:41
José Carlos Peliano (*) –
Este conto em homenagem aos operários construtores de Brasília e desbravadores das terras do Planalto Central foi escrito para o Concurso Alan Viggiano de Literatura oferecido pelo Sindicato dos Escritores do Distrito Federal neste início de 2021. Da seleção dos trinta finalistas ficou entre os 10 premiados finais tendo recebido menção honrosa.
A homenagem se estende ao meu grande amigo Manfredo Caldas †, cineasta e documentarista de câmera, coração e pés no chão, ganhador de vários prêmios cinematográficos, que já tinha realizado documentário sobre a história da construção de Brasília, Romance do Vaqueiro Voador de 2008, inspirado no cordel de João Bosco Bezerra Bonfim.
“Lá estava, um a mais na procissão de dias, acocorada, cotovelos nos joelhos, mãos apoiando a cabeça, parecia corcova de cupinzeiro, imóvel, olhar fixo, onde? Nem a respiração preguiçosa lhe movia, tampouco o friozinho conseguia tirar dela alguns arrepios, manhãzinha bem cedo, somente ela e alguns quero-queros trocando passos pela beira do lago, encoberto por uma larga e rala cobertura, qual algodão doce.
Genésio faz é tempo notava toda manhã ao acordar para suas tarefas de amarração e armação de vigas e colunas no canteiro de obras da construção da capital do país que ela, Genoveva, a dona Gê, permanecia ali naquele mesmo lugar perto do acampamento dos peões, agachada, parada no alto de um monturo de terra, feito galinha chocando. Ali ficava por um tempo desde antes da luz do dia chegar ao chão e findava no toque da sineta chamando os operários para acordar, saírem do chão, levantarem os corpos e esticarem as pernas para irem também levantar os prédios da cidade nascente de Brasília.
Ela por igual se desenroscava da corcova para voltar e terminar de aprontar o café matinal acompanhado de pão dormido, manteiga quando tinha, um grande bule de café e de vez em quando, e insistentes pedidos, queijo ou tapioca. Ela era quem dirigia a cozinha improvisada para dar conta do grupo de 8 amigos operários companheiros de Genésio, entre eles Bento, seu filho pedreiro. Com ele viera das entranhas do agreste nordestino, como dizia, não tão de junto de Juazeiro em Pernambuco, para tentar a sorte na nova terra.
Rio não passava por onde morava. Chuva? Algumas gotas descompassadas entre luas de distância umas das outras. Assim o Agreste vivia, um teste de vida de seus habitantes, heróis viventes, cada um deles um ser tão forte para segurar a vida que no sertão quase sempre ganhavam as quedas de braço com a morte. Cada qual um ser tão vivo que a morte adiava a chegada para quando o sangue já virasse pó de terra e não desse mais para escorregar pelas veias aramadas, um trançado de filetes secos e endurecidos.
Ao revés, começo do ano ali naquele pedaço de chão do planalto central as gotas de chuva desfilavam cortinas e cortinas de águas varando o céu das nuvens carregadas até se estenderem por todos os cantos, empoçados, rios, lagos e vertedouros. Nem os troncos retorcidos pelos bafos de seca na segunda meia do ano na região deixavam de pipocar em sua cobertura de casca dura e ressequida brotos de verdes suspiros e arquejos.
Curioso e intrigado com a mania de dona Gê na beira do lago todo dia bem cedo espiando sabe-se o quê, Genésio animou-se meio sem jeito e, de repente, perguntou-lhe naquela manhã o porquê de ela ir lá acordar as águas tantas vezes nos últimos meses. Era o fim do café e ele remanchara de propósito para estar a sós com ela e lhe lançar a pergunta. Um silêncio demorado tomou conta do ambiente, os dois sem graça espiando o chão.
Ela respirou fundo depois de uma lapa de tempo e disse: “Gê, tinha eu de vê as nuve de água subi e pará no ar”. Sorri docemente. “Nunca vi coisa iguá lá no Agreste, mutcho lindo”.
Genésio seguiu-a no sorriso e respondeu que já conhecia essa água que vira nuvem no lago. Lá no interior de Minas, entre rios, de onde viera, a esse tipo de nuvem o povo chama de névoa, quando rala, ou neblina, quando fechada, continuou. Um chão encharcado de chuva ou um lago inteiro ou porções dele ou ainda fatias de rio, cada um debaixo do frio do dia, pode criar arrepios do jeito de suores d’água que parecem gelo bem fininho virando espumas de gotas d’água, completou.
Genésio se despediu de dona Gê, sem antes lhe dizer que gostou da prosa. Sorriu e arrematou, dona Gê, olhe, você fez um bonito verso. Uma nuvem que fica em cima do lago como fosse o lago no ar. Então, essa nuvem é a mesma água do lago que sai dele, ela sente o frio em sua pele molhada pelo ar mais frio que vem de fora. É feito a gente soprar o ar no inverno bem frio e o sopro virar uma nuvem de fumaça úmida. Aqui o lago meio que sopra o ar de frio, o sopro sobe e fica no alto no ar. Lago que para no ar. Ela sorriu e disse baixinho pensar em viver por essa terra, “aqui tô feliz, pra vivê numa terra nova, de esperança, de nuve e de água”. Despediu-se e foi tratar de tirar a mesa do café para já deixar pronta a do almoço. Ele seguiu sabendo agora o porquê da mania de dona Gê toda manhã e do jeito dela foi ele agora montar os ferros das armações que também, pensou, param no ar.
Um lago que para no ar, no alto, ou lagoa como se fala no Nordeste, saiu dali remoendo a ideia. Ao pegar as barras de ferro na montagem das armações para as colunas e vigas da estrutura do Palácio do Planalto se deu conta que planalto era também uma terra que para no alto, ar acima. Como as nuvens de poeira na seca do Agreste quando o chão pega uma lapada de vento e vira uma terra que sobe e para um tempo no alto do ar. Como o lago que dona Gê viu subir e parar no ar”.

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(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor, economista.
Criado em 2021-04-13 16:58:16
Roberto Amaral (*) -
“[...] a revolução não é um ato sobrenatural, é um processo dialético de desenvolvimento histórico”. Gramsci, O desenvolvimento da revolução (1919).
O artigo A eleição que o mundo espera, do historiador Lincoln Penna, publicado na página do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos-IBEP (https://www.ibepbrasil.org), retoma o debate em torno do caráter do processo social brasileiro contemporâneo, a disjuntiva revolução ou reforma, ou, mais precisamente, as distinções entre meio e fim, e suas derivações gramscianas – revolução passiva, revolução permanente.
O texto discute as vias da revolução, como tese, e se apoia em Darcy Ribeiro (o mais indignado dos grandes pensadores brasileiros), para quem “não é impensável que a reordenação social se faça sem convulsão social, por via de um reformismo democrático”. Penna admite que “o enfrentamento pela via do rompimento institucional tem um alto custo social, ao passo que a negociação, sem que se dê margem para que tudo permaneça como está – ressalva – pode fazer avançar as pautas sociais de natureza popular, mediante iniciativas que venham a acumular forças e mudar definitivamente a situação do povo brasileiro”.
Para isso, porém, e não está esquecido o historiador, é preciso elevar o nível de compreensão política das grandes massas, ofício de que, lembremos, abdicou a esquerda socialista, desatenta a propósito da lição do autor dos Cadernos do cárcere, para quem não tanto os fatos econômicos são artífices da história, mas, sim, o homem e a sociedade. O ser humano agente de transformações, a sociedade como um processo sempre inconcluso.
O preço cobrado pela omissão é sempre muito caro, e tem implicado, com força de lei incoercível, o fortalecimento da direita, e, portanto, a contenção revolucionária. No Brasil de hoje estamos correndo o risco do declínio sem havermos conhecido o apogeu.
Não carecemos de exegetas para compreender o significado da emergência do bolsonarismo que hoje tanto nos assusta como ameaça, seja ideológica, seja eleitoral. Trata-se do primeiro movimento de extrema-direita de bases populares em todo o curso da vida republicana, e, também, a primeira vez que a corrente ultrarreacionária conquista o poder valendo-se do processo eleitoral. Está hoje sentada no terceiro andar do palácio presidencial, tem o respaldo da cúpula militar e das forças de repressão, o apoio do grande capital e, em conluio com os conservadores de todos os naipes, controla o congresso nacional. E deve aprofundar esse controle nas eleições vindouras.
Não se trata, porém, de um “ponto fora da curva”, ou mero descuido dos deuses do Olimpo.
A opção oportunista pelo eleitoralismo, navegando nossas hostes nas vagas dadivosas do lulismo, levaram os socialistas a renunciar a qualquer sorte de proselitismo ideológico-político. Por havermos perdido a visão histórica, perdemos de igual modo a compreensão de nosso papel no processo político. Não está aqui a crítica à opção democrática das esquerdas brasileiras, historicamente correta, mas ao fato de, a ela aderindo, os socialistas haverem confundido tática e estratégia, via e objetivo.
A consequência, inevitável nas condições dadas, significaria o abandono da crítica ao capitalismo e, com ela imbricada, a renúncia à defesa do projeto de uma sociedade sem classes.
Perdida a causa, rota a bandeira, restou-nos a disputa de espaço na institucionalidade. Renunciamos ao nosso caráter distintivo, à nossa própria organização, necessariamente coerente com o projeto revolucionário de longo prazo. Terminamos exercendo o papel de correias de transmissão do projeto hegemônico, animados com a esperança de, nele, intervir a favor dos trabalhadores.
Há mesmo, entre nós, os que, muito impressionados com os bons êxitos econômicos da China, chegam a defender, como via tática da revolução (transferida para as calendas gregas), o desenvolvimento do capitalismo como remédio em si para o nosso atraso. Diz-se que essa é a única opção possível diante do atraso político brasileiro: não se pode fazer política contra a realidade, senão lidando com os fatos objetivos. Mas, saltando do desvio idealista-voluntarista, que é atuar sem considerar a realidade, esse caminho nos leva à contramão antirrevolucionária, em que assumimos o papel de conservadores do statu quo capitalista que, como socialistas, propusemos derruir. A possível e futura hegemonia dos trabalhadores seria, assim, cedida de pronto à burguesia.
Por conveniência, é posto de lado o Marx das Lições sobre Feuerbach, para quem o conhecimento da realidade não se justifica como ato contemplativo, senão como o primeiro passo para a intervenção revolucionária.
Lênin advertira a propósito da necessidade do encontro das condições objetivas (a exploração capitalista) com as condições subjetivas (a consciência proletária), embora ressaltando que nem toda situação revolucionária leva à revolução. Nem muito menos é inteligente esperar que o capitalismo colapse como consequência inexorável de suas próprias contradições. Esse fatalismo, anticientífico, versão metafísica do determinismo histórico, não encontra amparo na realidade, simplesmente porque o processo social não conhece autogênese e a revolução não é fruto do acaso, “um raio em céu azul”, como advertia o Marx de O 18 Brumário de Luís Bonaparte, filósofo e revolucionário.
Na política, como na natureza, não há efeito sem causa.
O conceito de revolução pouco diz respeito à via de conquista do poder, mas às transformações econômicas e sociais levadas a cabo. A tomada do poder pelos sovietes liderados por Lenin mais se associa a um golpe de Estado, embora tenha resultado no primeiro projeto de implantação do socialismo e a mais importante revolução social do século passado.
De outra parte, o processo de construção do comunismo na China se deu na culminância de uma longa revolução camponesa, que, sempre sob o comando do Partido Comunista, transitaria para a revolução capitalista de nossos dias, cujo pontapé inicial foi dado em 1977 por Deng Xiaoping, regressando de seu segundo exílio para ocupar o trono onde antes se sentara, reinando, Mao Zedong. Não foi a tomada do poder pelos guerrilheiros, em janeiro de 1959, de origem um movimento democrático-libertário, que deu a Cuba o título de revolução socialista, mas a opção adotada em 1961.
Nem os revolucionários reivindicam, para o justo merecimento do conceito, a necessidade da convulsão social, ou do conflito armado. Tampouco rejeitam o reformismo democrático experimentado em diversas contingências. Esta via, porém, é sistematicamente vedada pela direita. O exemplo mais notório, dentre tantos que podem ser arrolados, talvez seja o da guerra fascista contra o governo republicano espanhol (1936-1939). Não é diverso o testemunho de nossa república. Um golpe de Estado deitou por terra, em 1964, o projeto nitidamente reformista e democrático de João Goulart (porque reforma – menos evidentemente aquela quem aprofunda a ditadura do capital sobre o trabalho -- é, para a direita civil-militar brasileira, sinônimo de comunismo), e outro golpe de Estado interrompeu, em 2016, o processo de emergência das massas iniciado pelo primeiro governo Lula sem qualquer pretensão de alterar a correlação de forças que assegura, desde a colônia, o domínio da casa-grande sobre a nação e o país.
A direita demoliu com a violência conhecida, em 1973, a experiência reformista de socialismo na Argentina, na Bolívia, no Equador, no Panamá, em Honduras e em qualquer país latino-americano ou caribenho que tenha aspirado a um governo popular. E, em regra, os projetos democrático-reformistas foram sucedidos por longas ditaduras, as vagas de institucionalidade democrática acompanhadas da tutela militar. Esta é a saga de centenas de golpes de estado da direita em todo o mundo, levados a cabo pelas burguesias locais, condicionadas pelos interesses estratégicos do colonialismo (seja inglês, seja belga, seja francês...) e do imperialismo, este de mãos e pés livres desde o fim da Guerra Fria.
As vias do processo revolucionário não são decididas pela sua vanguarda, mas pelas condições objetivas do processo social, e dentre elas releva considerar o papel conservador/contrarrevolucionário da classe dominante.
Cabe registrar, no quadro brasileiro presente, a crise do bloco hegemônico, que, em benefício do país, pode nos levar a uma alternância de poder nas eleições de outubro.
Não é desprezível, porém, que, diante da possibilidade de retomada de um processo democrático levemente reformista, a direita brasileira venha, com tanta insistência e ênfase, acenando com a ruptura da ordem constitucional. É preciso deter-lhe o ímpeto.
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A direita que joga nas quatro linhas – Paralelamente ao projeto golpista radical do bolsonarismo, a direita bem-comportada, que não zurra, cuida de intervir no processo eleitoral, tentando domesticar a candidatura mais à esquerda, impondo-lhe toda sorte de condicionantes – a pauta de campanha, a escolha do vice e do comando da economia... – e oferecendo-lhe mimos para adiante cobrar a fatura.
Como vimos, o arauto do altar global abriu a entrevista de Lula no JN concedendo ao candidato: “O senhor não deve nada à Justiça”. A esquerda liberal festejou, aliviada, ao ouvir a voz do patronato nativo, sem entender que ele simplesmente dizia: “Resolvemos, por ora, não insistir em patrocinar o processo de lawfare que o tirou do pleito de 2018 e o levou à prisão. Aguardamos mostras de gratidão.”
Morre o genuflexo – O anúncio da morte física de Mikhail Gorbachev, após décadas de ostracismo, traz à lembrança uma observação de Marx: “a luta de classes na França criou circunstâncias e condições que possibilitaram a um personagem medíocre e grotesco [Luís Bonaparte] desempenhar um papel de herói”.
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(*) Com a colaboração de Pedro Amaral.
Criado em 2022-09-12 15:27:08
O Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS) divulgou hoje (27/3) carta aos poderes constituídos, às reguladoras e prestadores de serviços públicos de saneamento básico, em que propõe a implementação de medidas urgentes “que permitam a todos, especialmente aos mais pobres e vulneráveis, o acesso à água para reduzir os impactos da crise” do coronavírus.
Em Carta Aberta à sociedade brasileira, o ONDAS lista onze medidas que precisam ser tomadas imediatamente sob pena da epidemia do Covid-19 ser ainda maior e muito mais grave.
O documento conclui reafirmando que “a dramaticidade da conjuntura comprova que sem políticas públicas articuladas de emprego e renda, moradia, saúde e saneamento básico de caráter universal, seguiremos vivenciando riscos cada vez maiores. Basta de Estado mínimo! Água e saneamento são direitos e não mercadorias!”
O ONDA foi criado em abril de 2018, no âmbito do Fórum Alternativo Mundial da Água – FAMA –, que aconteceu em Brasília. Entidades sociais, sindicais e acadêmicas resgataram o antigo projeto de criação de um observatório nacional “com o objetivo de ser um canal de produção e difusão de conhecimento e de atuação política direcionado ao direito à água e ao saneamento e à prestação por entidades públicas dos serviços de saneamento básico universalizados, acessíveis e de qualidade, com participação e controle social”.
A seguir, a íntegra da Carta Aberta do ONDAS à sociedade brasileira:
“O Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento - ONDAS, face à pandemia da COVID-19 vem a público demandar do poder público, incluindo reguladores e prestadores de serviços públicos de saneamento básico, a implementação de medidas emergenciais e estratégicas relativas ao saneamento e acesso à água para reduzir os impactos da crise nos segmentos mais pobres e vulneráveis da nossa população.
Este posicionamento parte do pressuposto de que a disponibilidade da água potável, para a devida higiene das mãos, é a principal barreira para a contenção da epidemia. Contudo, parte significativa da população brasileira não dispõe desse acesso de forma contínua e segura.
É indispensável reconhecer que as populações que atualmente vivem em situação de vulnerabilidade serão triplamente afetadas neste contexto: por se encontrarem mais expostos ao risco de contágio, especialmente devido às condições de moradia e trabalho; por sofrerem maiores consequências ao contrair a doença, muitas vezes em função de problemas de saúde pré-existentes, e por sofrerem mais diretamente os impactos da crise econômica associada à pandemia. Esses grupos necessitam de políticas públicas e da ação estatal para acessarem direitos, o que se torna ainda mais evidente nesse momento de crise.
Há também que se destacar que, em termos de saúde pública, não existe uma linha que separe os setores mais vulneráveis dos demais, ou seja, o impacto diferenciado da crise nesses grupos afeta indistintamente toda a sociedade e, portanto, essa prevenção é de interesse geral. Impõe-se assim, urgentemente:
1. suspender por um período de quatro meses os cortes de fornecimento de água devido a inadimplência do usuário, bem como reconectar aquelas famílias que atualmente têm suas ligações cortadas por inadimplência, considerada a possibilidade de prorrogação desse prazo caso a crise da COVID -19 se prolongue. Após a superação da crise, adotar estratégias para, mesmo em casos de inadimplência, assegurar o fornecimento mínimo de água para proteção da saúde;
2. interromper a cobrança das contas de água por um período de quatro meses, para os segmentos mais pobres e vulneráveis da população, considerando a possibilidade de prorrogação desse prazo e de ampliação da população beneficiada, caso a crise da COVID-19 se prolongue. Preliminarmente, o recorte do público beneficiário deve incluir as famílias inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), e aquelas com direito à tarifa social ou tarifa de favelas, entre outros critérios a se definirem em função da realidade local;
3. assegurar água de forma regular, em quantidade suficiente e com qualidade adequada, às comunidades que habitam em ocupações nas áreas centrais e periféricas das cidades, bem como em localidades e assentamentos rurais, garantindo diálogo e participação da comunidade nas soluções a serem implementadas;
4. interromper procedimentos de redução da pressão de redes de água que abastecem comunidades, favelas e periferias onde vivem famílias mais vulneráveis, sem renda ou com trabalho precarizado, visando garantir disponibilidade de água com pressão necessária para todos os moradores dessas localidades 24h por dia;
5. expandir o abastecimento para as áreas não atendidas das favelas e periferias, considerando que a exigibilidade do direito à água e ao saneamento para o enfrentamento da COVID-19 é fundamental e imprescindível para a efetividade das ações de saúde pública nos territórios;
6. garantir o abastecimento de água e o esgotamento sanitário nas unidades de saúde, inclusive as emergenciais, por motivos óbvios;
7. assegurar o abastecimento de água, esgotamento sanitário e disponibilidade de equipamentos para realização da higiene pessoal em asilos e demais residências comunitárias que abrigam idosos com baixa capacidade financeira, considerando o maior risco da população idosa em casos de contaminação;
8. cadeias e presídios, considerando o risco de rápida disseminação da doença nesses espaços, em função da aglomeração;
9. criar estratégias emergenciais para garantir a saúde da população em situação de rua, em especial com relação às demandas de água e provimento de condições para realização da higiene diária e de alimentação. Como exemplo, prover torneiras comunitárias, bebedouros, chafarizes banheiros químicos e outras soluções que assegurem o acesso à água bem como instalações sanitárias adequadas, em locais onde há concentração dessa população. Recomenda-se que a instalação dos equipamentos ocorra mediante entendimentos com a população diretamente interessada, visando assegurar o bom funcionamento e a efetividade das medidas adotadas. Quando adequadas, a utilização de instalações disponibilizadas por instituições solidárias deve ser apoiada;
10. apoiar os pequenos municípios e as comunidades rurais que operam diretamente seus serviços públicos de saneamento de forma a garantir o pleno abastecimento de água;
11. assegurar informação ampla sobre os direitos à água e ao saneamento, destacando a prioridade de atendimento das populações vivendo em situações vulneráveis e a relação entre saneamento e saúde.
Reafirmamos que a dramaticidade da conjuntura comprova que sem políticas públicas articuladas de emprego e renda, moradia, saúde e saneamento básico de caráter universal, seguiremos vivenciando riscos cada vez maiores.
Basta de Estado mínimo! Água e saneamento são direitos e não mercadorias!"
Brasília, 27 de março de 2020
Assina: Coordenação Executiva do ONDAS
Criado em 2020-03-27 23:23:44
Dentre as marcas incuráveis que um ser humano pode ter, certamente a ausência parental está entre as mais fortes. E é sobre como se forja um ser humano a partir de uma ferida como essa que se desenrola "Depois Desse Dia Feliz". O texto, de Alexandre Ribondi, que também dirige e atua na peça, é apresentado em curtíssima temporada entre sexta (14/10) e domingo (16/10), no Espaço Multicultural Casa dos Quatro, na quadra 708 Norte.
Para desenrolar a trama, são apresentados dois homens: Amado (mais velho) e Benvindo (mais jovem). O mais velho toma a iniciativa de escrever uma carta de próprio punho a quem ele sabe que existe, mas que nunca viu, e com quem nunca conversou. A carta tem um convite sucinto: “Venha”. O homem mais novo aceita, sem ter ideia do que se trata.
"Quando os dois finalmente se encontram, pisam em ovos. Não sabem como se olhar, não sabem sobre o que conversar. Pouco a pouco, velhas fotografias, de mais de 25 anos, são apresentadas. E são elas que começam a contar o que deve ser dito. E antigas histórias passam a ser lembradas: os sorrisos de alguns, a solidão de outros, as bocas, as coxas, a cintura, o sexo", revela o autor.
Finalmente, as personagens descobrem, com palavras e ações, o que cada um representa para o outro. "Mas os eles não são apanhados por sentimento de culpa, não se curvam diante dos possíveis pecados cometidos, não acham que criaram motivos para a destruição dos corações. O que eles sabem é que, a partir desse primeiro encontro, suas vidas tomarão rumos inesperados", completa Leonardo.
Sobre os artistas
Alexandre Ribondi se dedica, cada vez mais, à direção teatral em suas oficinas na Casa dos Quatro, da qual é diretor artístico, e à escrita. Com mais de 50 anos de atuação e militância pela arte cênica na capital, lançará, em breve, o quarto livro de sua trajetória na escrita: "O Amor ao Meio-Dia", pelo novo selo editorial Droperia Cultural.
Leonardo Vieira Teles, da geração de novos atores da cidade, está em sua segunda produção com direção e texto de Alexandre Ribondi: em 2020, atuou em "Virilhas", um dos grandes sucessos do dramaturgo. No cinema, esteve em "Vagabunda de Meia Tigela" - grande sucesso de Octávio Chamorro (diretor de Rensga Hits) e "Tenho Local", de Mauro Carvalho e Thiago Cazado, entre outras produções.
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FICHA TÉCNICA
"DEPOIS DESSE DIA FELIZ"
Texto e direção: Alexandre Ribondi
Elenco: Alexandre Ribondi e Leonardo Vieira Teles
Operação técnica e luz: Josias Silva
Produção: Casa dos Quatro
Duração: 50 minutos
Classificação: 14 anos
Local: Casa dos Quatro - SCLRN 708, Bloco F, Loja 42 - Asa Norte - Atrás do Restaurante Xique-Xique (na Rua das Oficinas).
Horários: Sexta e sábado às 20h e domingo às 19h
Ingressos: R$20 (meia) no Sympla!
Criado em 2022-10-12 19:45:44
Prof. Thomas de Toledo (*) -
Joe Biden conseguiu. Pela irresponsabilidade do atual governo dos Estados Unidos em insistir na expansão da OTAN para as fronteiras russas, agora temos uma guerra na Ucrânia que pode escalar para um conflito de média intensidade ou até para além disto. Por envolver diretamente uma potência nuclear, há sempre um fantasma pairando no ar. Entretanto, é precipitado classificar este conflito como uma 3a Guerra Mundial. Seja como for, o Brasil precisa manter uma equidistância pragmática sem tomar lado. Vamos aos dados.
A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) foi criada pelos Estados Unidos em 1949 com o objetivo de combater a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Após o fim da Guerra Fria em 1989 e a dissolução da URSS, a OTAN perdeu o sentido de existir. Mas, ao contrário, os Estados Unidos decidiram expandi-la para países do Leste Europeu. Nas últimas 3 décadas, a OTAN foi cercando a Rússia com a inclusão de novos membros. Entretanto, nenhum país nas fronteiras russas havia sido acrescido na aliança atlântica.
Em 1991, George H. Bush bombardeu o Iraque para mostrar ao mundo que só havia no momento uma superpotência. Bill Clinton atacou e destruiu a Iugoslávia em 1999, fragmentando o território daquele país e criando um estado postiço no Kossovo. Isto foi uma afronta direta a um aliado histórico da Rússia, que naquele momento não teve como reagir.
Com os ataques em 11 de setembro de 2001, a Doutrina de George W. Bush declarou que os Estados Unidos poderiam fazer guerras preventivas sem o consentimento da ONU e que quem não estivesse ao lado deles seria seus inimigos. Os resultados concretos foram duas grandes guerras: a do Afeganistão em 2001 e do Iraque em 2003. A primeira foi para controlar o heartland da Eurásia e a segunda, para atender ao interesse da indústria petrolífera. Ambas visavam drenar recursos públicos para a indústria bélica.
Desde o fim da URSS, a Rússia teve que confrontar guerras em seu próprio território ou nas fronteiras, muitas das quais tendo os Estados Unidos como patrocinador. Um a um, os regimes aliados à Rússia no Leste Europeu foram sendo derrubados com as chamadas “revoluções coloridas”, que eram operações de mudança de regime empregando as modernas técnicas de guerra híbrida. Em 2014, um golpe de estado articulado pelos Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia derrubou o governo ucraniano, então aliado a Moscou. O objetivo era retaliar a Rússia por ela ter contido a operação de mudança de regime na Síria – uma guerra criada para redesenhar o mapa geopolítico do Oriente Médio na complexa geopolítica dos hidrocarbonetos que também envolve o peso russo no comércio de gás e petróleo. Também visava impedir o acesso russo a mares quentes através do Mar Negro. Planejava ainda expandir a OTAN para as fronteiras russas e assim conter a possível retomada da sua influência na área da antiga URSS.
A subjetividade é um elemento central das modernas guerras híbridas. Assim, foi preciso construir um sentimento de desagregação da identidade eslava russo-ucraniana. Para tanto, foram financiados grupos ultranacionalistas, neonazistas e bandeiristas. Saíram do armário ideias que estavam adormecidas desde a 2a Guerra Mundial com financiamento europeu e estadunidense. Grupos como Svoboda e Setor Direita formaram bancadas no parlamento ucraniano após o golpe. Em 2 de maio de 2014, neonazistas promoveram um massacre de sindicalistas em Odessa, resultando na morte de mais de 40 pessoas e 200 feridos gravemente por terem sido queimados vivos na sede de um sindicato. Nem Estados Unidos nem União Europeia condenaram as ações dos neonazistas.
A Rússia agiu rapidamente para garantir seus interesses estratégicos: reanexou a Crimeia e o poderoso porto de Sabastopol no Mar Negro. Apoiou grupos separatistas na região fronteiriça de Donbass, das autoproclamadas Repúblicas Populares de Luganski e Donetsky. Apesar de ter uma grande população étnica russa, o idioma russo foi banido da oficialidade e sentimentos de xenofobia passaram a ser promovidos amplamente na Ucrânia. Mesmo assim, em 2014, foram estabelecidos os Acordos de Minsk, no qual a Rússia prometeria não atacar a Ucrânia e a Ucrânia deixaria em paz os russos étnicos.
Em 2019, um comediante de televisão, Volodymir Zelensky, foi eleito presidente da Ucrânia com a promessa de retomar a Crimeia, massacrar os separatistas em Donbass e solicitar o ingresso da Ucrânia na OTAN. Ou seja, sua plataforma era rejeitar os Acordos de Minsk. Logo, o conflito se escalonaria para a situação atual.
Desde a crise de 2008/2009, os Estados Unidos e a União Europeia vêm passando por um declínio relativo, enquanto a China e a Rússia vivem uma ascensão – o primeiro na economia e o segundo militarmente. Estes dois países, afastados durante a Guerra Fria, seguiram num processo de reaproximação estratégica. Grupos como o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e a OCX (Organização para a Cooperação de Xangai) contribuíram neste sentido. O projeto chinês da Nova Rota da Seda conta com a Rússia, que também procura retomar sua influência na região eurasiana, particularmente no estratégico Cazaquistão e nas outras antigas repúblicas soviéticas, inclusive as do Leste Europeu.
Com a eleição do republicano Donald Trump em 2017, os Estados Unidos distanciaram-se das hostilidades com a Rússia. Os democratas acusavam-no de ter recebido apoio russo nas eleições. Em 2020, Trump retirou as tropas estadunidenses do Iraque. Joe Biden foi eleito e em 2021, removeu o exército do Afeganistão. Os Estados Unidos foram derrotados nas duas guerras iniciadas na gestão Bush e que tiveram quase duas décadas de duração. Para completar, a guerra na Síria, iniciada no governo Barack Obama, foi contida pela Rússia. Ou seja, os três principais movimentos militares estadunidenses das últimas décadas fracassaram. Mas nada teve impacto tão visível quanto a retirada desesperada dos Estados Unidos de Joe Biden do Afeganistão, derrotados por um grupo de pastores de cabra fundamentalistas religiosos.
Para completar, Biden faz internamente um governo desastroso. Sem ter interesse em mexer nos interesses dos ricos, o país vem enfrentando uma crise econômica e social. A pobreza extrema cresce a olhos vistos e, ao mesmo tempo, os bilionários lucram como nunca antes na História. Com carisma inexistente, Biden precisava de algum tipo de diversionismo. Assim, passou a instar Zelensky a provocar a Rússia em direção a uma guerra que também atende aos interesses do complexo militar-industrial que, fora do Afeganistão e do Iraque, precisava de um novo conflito para receber dinheiro público. Em outras palavras, enquanto o povo dos Estados Unidos passa dificuldades na vida cotidiana, a indústria bélica se deleita com verbas federais.
A Ucrânia seria o cenário perfeito para os Estados Unidos criarem uma guerra por procuração. Biden, o alto escalão de seu governo e a grande mídia estadunidense passaram a provocar a Rússia sob a ameaça de aceitar um pedido de ingresso da Ucrânia na OTAN. Entretanto, isto fere mortalmente os interesses estratégicos russos. Caso a Ucrânia entre para a aliança atlântica, esta finalmente ficará encostada nas fronteiras russas. Isso significa que qualquer conflito que se inicie na região, colocaria todos os membros da OTAN em guerra automática contra a Rússia. Para um país que foi invadido pelas guerras napoleônicas e nas duas guerras mundiais, tal risco é inaceitável. Por isso, a Rússia tentou por todas as vias diplomáticas evitar este conflito.
Em 23/02/2022, Putin ordenou a invasão da Ucrânia. Foi uma resposta a sucessivos ataques ucranianos a russos étnicos na região de Donbass e a uma sabotagem por forças especiais na fronteira. Putin deixou claro que não irá negociar os interesses estratégicos da Rússia. Os Estados Unidos e o Reino Unido querem o conflito e estão enviando armas e dinheiro para a Ucrânia. A Rússia quer garantia de que a OTAN não alcance sua fronteira e que russos étnicos não sejam hostilizados, mas sabe os custos de uma guerra duradoura com ocupação territorial. A União Europeia está dividida. A Alemanha depende do gás russo e sua elite econômica possui grandes investimentos na Rússia. A França, que ingressou à OTAN no governo Sarkozy, não deseja uma guerra de grandes proporções na Europa. Entretanto, será difícil manterem a neutralidade num conflito que pode redesenhar as fronteiras europeias e pode ser entendido como uma onda de expansionismo russo em direção ao oeste.
Brasil - Qual a posição o Brasil deve adotar? O Brasil deve agir como estado e não como governo. Uma guerra de grandes proporções não é do interesse do Brasil. Como atual membro do Conselho de Segurança da ONU, o Brasil não pode tomar lado neste conflito e precisa manter uma equidistância pragmática. Mas também o país não pode fazer vista grossa ao expansionismo da OTAN. Hoje, o Brasil está cercado de bases militares dos Estados Unidos em vários países sul-americanos e em algum momento este tema terá que ser tratado. Da mesma forma, é preciso que os cidadãos brasileiros não se deixem contaminar pela propaganda de guerra estadunidense ou russa. Ter posição de torcida organizada neste conflito, independente do lado que se escolha, é um grande erro. O Brasil tem que pensar em seus próprios interesses. E o interesse do Brasil é a paz.
Por último, Putin não é santo nem demônio. Ele pode ter ações condenáveis internamente mas neste caso ele está agindo para garantir a sobrevivência da Rússia com a ameaça de expansão da OTAN. Esta guerra não se trata ainda de uma 3a Guerra Mundial, nem de um conflito termonuclear. Mas a depender das movimentações, corre o risco de escalonar para desdobramentos mais complexos. A paz precisa ser negociada. Mas este conflito jamais teria se iniciado se não fosse a sanha do governo Biden em recuperar sua popularidade e de sanar a ganância do complexo militar-industrial dos Estados Unidos. Basta os Estados Unidos cumprirem o acordo feito com a Rússia no fim da Guerra Fria de não expandirem a OTAN pras fronteiras russas e a Ucrânia cumprir os acordos de Minsk que a Rússia não terá mais motivos para seguir em guerra. Guerra e diplomacia caminham lado a lado. Por isso, só a diplomacia pode levar à paz.
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(*) Thomas de Toledo é professor de Relações Internacionais da UNIP, historiador pela USP, mestre em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp e especialista em BRICS.
Criado em 2022-02-26 01:38:27
Elika Takimoto nos responde!
Criado em 2020-02-12 19:32:57
Alexandre Ribondi –
Quando Danilo, personagem vivido por Chay Suede entrega um presente para sua namorada Camilia (a atriz é Jéssica Ellen), era de se esperar que se tratasse de um frasco de perfume ou de uma caixa de bombons para que a Rede Globo de Televisão pudesse se aproveitar do marketing. Mas, para surpresa, o presente era um livro com a obra completa de Vladmir Maiakovski, o “poeta da revolução russa”.
Novidades assim, como dois moradores do subúrbio carioca que leem e admiram Maiakovski, estão se tornando marca registrada da telenovela Amor de Mãe, que estreou em 25 de novembro de 2019 e que, desde então, tem provocado bochichos de baixa audiência e de apresentar tramas que não são de interesse do público. Mas a obra tem mudado tudo: diálogos inteligentes e possíveis na vida, personagens calcados na realidade nacional, cenários grandiosos e uma história que pode ter saído diretamente do cinema brasileiro para o universo dos dramas televisivos.
Não é para menos. A autora de Amor de Mãe, a baiana Manuela Dias, é a primeira dramaturga que, sem ter escrito nenhuma outra novela, nem para a Globo nem para outra emissora, a estrear diretamente no nobilíssimo horário das 21 horas. Ela marcou presença em vários roteiros para o cinema, em participado em festivais aqui e fora do país (como o Sundance) e já ganhou prêmios por suas escritas, inclusive com O Céu Sobre os Ombros, dirigido por Sérgio Borges, e que ganhou cinco prêmios no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
A trama tem sido considerada complexa. Há uma mãe (Regina Casé) que, depois de ter matado o marido abusivo, fugiu com sua penca de filhos para o Rio de Janeiro, onde trabalha como doméstica. Há uma mãe rica, advogada de sucesso (Thais Araújo) que, graças a um teste de DNA, descobre que o seu motorista particular é, na verdade, o filho que ela, 25 anos antes, tinha entregado a uma vendedora de bebês. E tem, também, uma mãe obcecada pela maternidade (Adriana Esteves) que descobre ter uma doença fatal mas que se recusa a morrer antes de ajeitar a vida do filho.
O argumento de Amor de Mãe chegou à Rede Globo em 2016 e, de cara, entrou na fila para o horário das 21 horas. Mas teve que ser mexido, remexido, alterado, transformado para que a Globo pudesse inovar sem correr riscos. Ou que pudesse inovar sem apresentar nada de chocantemente novo. Ainda existem os pobres felizes e amantíssimos, os ricos indiferentes e de coração amargo, há amores complicados pelos quais haveremos de torcer muito. Se querem uma novidade, aqui vai uma: nesse mundo criado por Manuela Dias, cheio de empregadas domésticas, ativistas ambientais, motoristas de aplicativo, professoras de escola púbica e milionários interessados em ficar mais ricos ainda, não há ninguém que seja inteiramente bom ou completamente mau. Sempre há uma olhar humano em quem comete um crime ou uma certa derrapada moral em quem ajuda o próximo.
O cenário de Amor de Mãe é impressionante. A novela está sendo gravada no Módulo de Gravação 4, novo estúdio da Globo. Lá, os cenários não precisam ser desmontados e os criadores puderam se dar o luxo de fazer um bairro inteiro, com ruas sombreadas por um viaduto que lembra a Linha Vermelha. As casas são completas e o telespectador por ter uma visão geral, com corredores, quartos e salas.
Agora, resta saber se o público vai querer ver uma novela tão ousada e diferente. A julgar pelas demonstrações do gosto, da ética e da moral do brasileiro padrão, é provável que ele queira de volta das novelas simplórias, onde os maus são apenas maus e onde o bom vem para nos defender. Mas verdade seja dita: a TV Globo tem mostrado que, apesar de tudo, também consegue mudar aqui e ali. Essa semana anunciou que demitiu o autor Aguinaldo Silva, que já escreveu grandes sucessos para a casa. Há quem jure que a demissão se deve, em grande parte, ao fato de Aguinaldo Silva ter deixado claro o seu apoio a Jair Bolsonaro. Pode ser que a rede de televisão esteja querendo mostrar que, ela também, não é apenas daninha à sociedade e que pode tomar atitudes honrosas.
Criado em 2020-01-05 15:29:26
Marcos Bagno (*)
Faz tempo que ouço falar dos vídeos que uma moça desvairada e ridícula publica querendo combater “erros de português”. Nunca me dei ao trabalho de assistir, porque não preciso ver para saber o que é.
Minha tese de doutoramento tratou precisamente dessas manifestações do que se chama há bom tempo de purismo linguístico.
Quem tiver interesse pode ler meu livro Dramática da língua portuguesa, que é o resultado da pesquisa que fiz em torno do que tenho chamado de “comandos paragramaticais”, um conjunto de manifestações do purismo linguístico (e, por tabela, do reacionarismo político) presentes na mídia contemporânea.
O uso da tecnologia mais avançada não elimina o que essas manifestações têm de velho, obsoleto, antiquado e bolorento.
O casal de linguistas ingleses James e Lesley Milroy chegaram mesmo a cunhar a expressão “tradição da queixa” para rotular esse fenômeno social velho como as pirâmides do Egito.
O purismo linguístico é uma ideologia sobre língua e, como toda ideologia, não tem nenhum outro fundamento a não ser as crenças infundadas de quem a defende.
O purista é um personagem trágico, porque já nasce fadado à derrota, destinado ao fracasso, à decepção, a ser subjugado pelas forças da realidade.
E isso por uma razão simplíssima: as línguas mudam, as línguas se transformam com o tempo, e é precisamente essa certeza que leva essas pessoas a se desesperar e a querer interromper o que não pode ser interrompido.
Elas querem fazer como o Josué da Bíblia: interromper o trajeto do sol, imobilizar a língua no tempo. Mas isso, como muitos dos relatos bíblicos, é um mito, um exemplo desse gênero de literatura fantástica que são os textos religiosos.
Ninguém nunca deteve o sol em sua marcha, ninguém nunca deterá a mudança linguística.
A única forma de deter a mudança linguística é eliminando todos os falantes de uma língua. E isso tem acontecido desde que o mundo é mundo.
O genocídio de populações inteiras também é um linguicídio, quando a língua falada por essa população dizimada deixa de existir.
A história da colonização do Brasil, de todo o continente americano, da Austrália e de outros lugares está repleta desses genocídios linguicidas.
Mas enquanto existirem pessoas falando uma língua, essa língua passará por mudanças. Porque, afinal de contas, não é “a língua que muda”: são os falantes, em interação social que, inconscientemente, vão transformando a língua que falam.
A língua que hoje a maioria da população brasileira fala se chama “português” por motivos exclusivamente não linguísticos.
Do ponto de vista histórico, no entanto, existe uma linha contínua, ininterrupta que, em retrospectiva temporal, parte de cada um de nós em 2017, chega até
Portugal no século 16, sobe rumo ao norte até a Galiza, envolve os romanos que, no primeiro século a.C., conquistaram a região, e se dirige até a Itália, onde surgiu a língua que tradicionalmente chamamos de latim.
Pois é: nós falamos latim, nada mais, nada menos. Falamos o latim que, levado para o noroeste da Península Ibérica, foi passando por lentas, graduais e ininterruptas transformações durante mais de dois mil anos até se tornar isso que falamos e ouvimos hoje em cada canto do Brasil.
Os nomes que essa mesma e única língua foi recebendo ao longo da história (latim, galego, português, português brasileiro etc.) refletem apenas as vicissitudes políticas, sociais, econômicas e culturais dos povos que a falam e a falaram.
Repito: do ponto de vista exclusivamente linguístico, é uma e a mesma língua.
Mas e o latim? Ah, o latim também só tem esse nome porque era falado no Latium, o Lácio, a região da Itália onde se localiza Roma.
De resto, o latim também pode ser reconduzido a uma língua ainda mais antiga, que os linguistas chamam de indo-europeu, e que deve ter sido falada inicialmente nas estepes da Ucrânia próximas ao Mar Negro por volta de 4.000 anos a.C.
Se formos levar esse raciocínio a ferro e fogo, a língua que falamos hoje no Brasil é, de fato, o indo-europeu que passou por milênios de transformações.
Aliás, não sou eu que digo isso: já no seu “Curso de linguística geral”, publicado em 1916, Ferdinand de Saussure teria escrito que uma altíssima porcentagem do que se chama “francês” (e, no nosso caso, “português”) é herança direta do indo-europeu.
O nosso pronome “tu” é igualzinho ao pronome “tu” do híndi, uma das línguas mais faladas na Índia, ela também descendente do antigo indo-europeu.
E você sabe como é que as línguas mudam? As línguas mudam por causa da variação.
Em todo e qualquer momento da história de uma língua existem formas que chamamos de variantes e que podem ser definidas como duas ou mais maneiras de dizer a mesma coisa.
Essas formas variantes entram em concorrência e, em geral, uma delas vence a disputa e se torna a forma mais empregada, enquanto a outra desaparece ou fica restrita a pequenas comunidades de falantes.
Mas logo a forma mais empregada também começa a sofrer concorrência de uma forma inovadora, e assim vai, enquanto tiver gente falando aquela língua.
Quando a gente lê a carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em 1500, topa com um verbo escrito assim: “leixarei”.
Também na gramática de João de Barros, publicada em 1540, ele fala das coisas que os portugueses “leixarem” nas terras conquistadas.
Esse verbo “leixar” procede do verbo latino “laxare”. Ele é da mesma família de outras palavras que nós usamos com muita frequência, como “relaxar”, “laxante”, “laxismo” e “desleixo”.
Ora, com toda a certeza, já na época de Caminha e de Barros, algumas pessoas deviam pronunciar o verbo “leixar” como “deixar”, numa troca muito habitual de “l” por “d” e vice-versa, porque são duas consoantes muito aparentadas, pronunciadas em pontos muito próximos na boca.
A palavra latina “lingua”, por exemplo, era “dingua” no latim arcaico.
Com o passar do tempo, a concorrência entre “leixar” e “deixar” foi se acirrando, cada vez mais pessoas passaram a dizer “deixar” até que “leixar” simplesmente desapareceu do repertório dos falantes.
E a forma nova “deixar” também sofreu concorrência, porque a grande maioria de nós, brasileiros, pronuncia mesmo “dexar”, sem o “i” do ditongo (um processo chamado assimilação), enquanto os portugueses abriram o “e” do ditongo e pronunciam “dâixar” (um processo chamado dissimilação).
Mas o que é que estou dizendo? Nós, brasileiros, em situações de fala espontânea, dizemos “dexá”, por que o “r” dos infinitivos quase sempre é apagado na fala não monitorada (um processo chamado apócope), enquanto os portugueses inserem um “e” depois do “r” (“dâixare”), um processo chamado paragoge.
Mas nem sempre a forma antiga desaparece. O grupo consonantal “-ct-“ do latim se transformou em “-it-“ na história do português (e do espanhol, do catalão e do francês também, aliás).
Por isso é que temos “noite”, “oito”, “peito”, “leito” (do latim “nocte”, “octu”, “pectu”, “lectu”) entre tantas outras muitas palavras.
Curiosamente, algumas das palavras que desenvolveram esse “-it-“ perderam o “i”.
Assim, na fase antiga da língua, existiam “teito”, “luita” e “fruita”, devidamente documentadas em textos escritos.
As formas “teto”, “luta” e “fruta”, porém, foram ganhando terreno e assim acabaram por se firmar como as formas cultas dessas palavras.
Quando estive em Santiago de Compostela e um amigo me perguntou, em galego, se eu queria passear pelo “teito” da catedral, senti um arrepio de emoção percorrer todo o meu corpo: eu estava ouvindo ali, de viva voz, uma forma que não é mais usada em português há séculos!
Ninguém mais em português diz “teito”.
Pois bem, as formas “luita” e “fruita” não desapareceram totalmente, porque são empregadas em variedades rurais do português brasileiro, sobretudo no sertão nordestino.
Aliás, em Pernambuco, “fruita” é uma das muitas maneiras desrespeitosas de se referir ao homossexual masculino.
O que aconteceu foi a síncope do “i” do grupo “-it-“ dessas palavras.
É provável que, com a difusão dos meios de comunicação e o acesso à escolarização dos habitantes daquelas regiões, as formas antigas “luita” e “fruita” desapareçam.
A pessoa que acusa as outras de serem “burras” por usarem formas variantes dá prova absoluta de sua própria burrice.
Ela não tem ideia do que seja assimilação, dissimilação, apócope, paragoge, metátese, epêntese, sândi, suarabácti, síncope, aférese, haplologia, analogia, reanálise, gramaticalização e por aí vai.
É burra porque se mete a falar do que não sabe e, para piorar, além de burra é arrogante e preconceituosa, porque só vê as mudanças que ocorrem na fala das pessoas humildes, sem instrução formal, que costumam levar as mudanças da língua mais adiante e mais depressa do que as pessoas que se submetem ao policiamento da escrita e da escola.
Mas burrice e preconceito nasceram para andar juntos.
O purismo linguístico é uma das muitas faces do reacionarismo social, do conservadorismo político, da discriminação contra quem não pertence aos grupos dominantes.
E em tempos de fascismo disseminado, como o que estamos vivendo neste triste Brasil pós-golpe, não surpreende que ele volte a emergir com tanto vigor e com tanta sanha inquisitorial.
Felizmente, o purista, como eu já disse, é uma personagem trágica, fadada a nunca ter sucesso, derrotada de antemão.
Trágica, senão patética. Quando lemos as manifestações histéricas de puristas do passado e vemos que tudo o que eles combatiam pertence hoje à língua mais normal, escrita, literária, o máximo que podemos sentir por eles é pena.
Imaginem pessoas esbravejando contra o uso de “leixar” no século 16! De nada adiantou...
Assim como o fascista, que não aprende com as lições da história que os verdadeiros valores humanos, mais cedo ou mais tarde, acabam por vencer, o purista também se recusa a aceitar com tranquilidade a mudança na língua.
A única diferença é que o purista é inofensivo, mas o fascista, se puder, prende, tortura e mata. Com ele, todo cuidado é pouco e toda luita é mais que bem-vinda!
____________________________
(*) Marcos Bagno é professor do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (UnB). Escritor, poeta e tradutor, já publicou mais de 30 livros, entre obras técnico-didáticas e literatura. Autor de Gramática Pedagógica do Português Brasileiro - Parábola Editorial, 2012 - www.parabolaeditorial.com.br
Criado em 2017-04-10 03:19:45
Sandra Crespo -
O rapaz estava sozinho no ponto de ônibus. Comecei a divisá-lo a uns 70 metros, era raro alguém no ponto em frente à Concha Acústica, isso eu já tinha notado nas minhas incipientes caminhadas pelo novo bairro.
Mais perto, vi que tinha por volta de 35 anos. Moreno claro, um tipo comum, estatura média, barba rala. Calça jeans e camiseta, não lembro a cor, só sei que era sem mangas, e seu braço forte era bem bronzeado de sol.
Levava uma mochila nas costas e uma espécie de cavalete em uma das mãos. De perto, pude ver uma caricatura colorida no cavalete, e deduzi que era um artista plástico das ruas.
Com a outra mão, ele sinalizava para os carros, polegar em riste, vibrando no ar. Pedia carona - não acreditei.
Dei bom-dia ao me aproximar. Ele respondeu, sorriso amigável, e perguntou, Passa ônibus aqui para a rodoviária do Plano Piloto?
Sim, mas a cada 40 minutos, mais ou menos, eu disse - e não resisti: Hoje em dia ninguém dá mais carona...
É, é muita televisão, ele rebateu de bate-pronto, ainda com o sorriso do bom-dia.
Eu acenei a cabeça em acordo, meio atônita com o que em seguida classifiquei como um superpoder de síntese. Nem o Veríssimo seria tão rápido no gatilho...
E prossegui na caminhada, torcendo para não encontrá-lo na volta, pois terá sido muita espera pelo busu, ele vai demorar pra chegar na rodova do Pp... que dó.
Qual o quê... vinte minutos de marcha depois não vi nenhum ônibus passar, e fui voltando, mas também sonhando, Quem sabe estávamos errados e rolou uma carona...
Qual o quê, ele lá permanecia de pé, a prancheta agora junto à mochila esparramada no banco de concreto da parada de ônibus. Que é meio avermelhada pela terra do Cerrado.
Meio que pedindo desculpas pela demora (do ônibus), eu arrisquei: Transporte público nota zero em Brasília. Ele apenas riu e disse, Valeu, valeu.
Criado em 2017-08-12 02:12:48
Zuleica Porto -
“A modernidade elidiu a ideia da morte. É um dos fatores mais negativos de nossa sociedade. Deveria se ensinar às crianças na escola, da maneira mais natural, que temos que morrer”. Antonio Tabucchi, + 2012, em “Tristano morre”:
A verdade é que não gostamos muito de falar sobre ela, não é mesmo?. E no entanto, a partir do momento em que nascemos, temos um encontro marcado com a “indesejada das gentes”, como diz Bandeira em “Consoada”, um de seus poemas mais conhecidos.
O poeta viveu mais de 80 anos, muito mais do que prometia a tuberculose que contraiu ainda adolescente. Foi longo o seu convívio com a Dama Branca, a ponto de saudá-la com intimidade: “alô, iniludível”.
Num aparente paradoxo, tal proximidade com a morte o fez um grande amante da vida. É o que se percebe nos versos de “Não sei dançar”: “Sim, já perdi pai, mãe, irmãos. / Perdi a saúde também. É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band”.
A pulsão de vida presente inclusive no último alento, a vida que quer se perpetuar mesmo diante da morte, foi percebida pelo poeta durante a morte do seu pai, que ele presenciou e que relata numa das numerosas cartas que trocou com seu amigo Mário de Andrade: “O que se chama morte propriamente é manifestação de vida, e às vezes de uma intensidade prodigiosa. Pensei na agonia de meu pai. Todo o organismo intacto e rijo. Apenas – os canalículos renais não funcionavam. O último estertor foi um arranco desesperado para a vida. Eu senti! E estava debruçado sobre a boca dele”.
Encontro ressonâncias entre a voz do poeta e a do filósofo Paul Ricouer. Em “Vivo até a morte” ele medita sobre a morte e o luto, e sobre a nossa impossibilidade de representar onde estão e aquilo em que se tornaram os nossos próximos que morreram; de imaginar a nós mesmo mortos ou moribundos; e por fim, do caráter informe da massa indistinta dos mortos que são estatísticas, que pululam, abstratas, à nossa volta, nos jornais, tvs, meios digitais.
A impossibilidade de imaginar um além, a existência de um mundo oculto qualquer, diz Ricoeur, faz com que nossa finitude nos conduza para cá, para nosso mundo da vida, o único que temos – a vida de “aquém-túmulo” a que se refere Bandeira em um de seus poemas tardios.
Assim, o momento da agonia é visto, ao mesmo tempo, como de recusa e consentimento, recusa de deixar a vida que tanto amamos e a aceitação do desconhecido, do que virá quando “eu” não mais estiver.
Essa aceitação é o que Ricoeur chama a “boa disposição”, a despreocupação quanto a não estarmos mais, transferindo aos que ficam (e aos que virão depois) o nosso intenso desejo de viver.
A compreensão dessa aporia permite que nos entreguemos mais facilmente à fraternidade sóbria (quase franciscana, diz o filósofo) de ser por entre as criaturas.
Sendo por entre os outros, posso ser fraterno com cada ser que se vai, sabendo que um dia serei eu a necessitar da ajuda de outrem na passagem para o desconhecido.
Para ilustrar seu pensamento, Ricoeur recorre ao testemunho do escritor Jorge Semprún, que, prisioneiro junto com Maurice Halbwachs em Buchenwald, em 1945, acompanha a morte do autor de “A memória coletiva”:
“Então, num pânico repentino, ignorando se posso invocar algum Deus para acompanhar Maurice Halbwachs, consciente da necessidade de uma prece, contudo, com a voz embargada, digo em voz alta, tentando dominá-la, timbrá-la adequadamente, alguns versos de Baudelaire. É a única coisa que me vem ao espírito.
‘Ó morte, velho capitão, é hora, levantemos âncora...O olhar de Halbwachs torna-se menos vago, parece espantar-se. Continuo a recitar. Quando chego a ...os nossos corações que tu conheces estão cheios de luz,esboça-se um leve tremor nos lábios de Maurice Halbwachs. Sorri, morrendo, o seu olhar sobre mim, fraterno” (Semprún, em L’écriture ou la vie, 1994). Cogita Ricoeur que o “dar e receber” ainda está presente nos momentos finais de Halbwachs, no olhar e sorriso fraternos que lança ao amigo.
As diversas tradições religiosas têm seus rituais de acompanhamento aos agonizantes: os católicos, a “extrema unção”, os santos óleos com que os sacerdotes ungem as frontes dos que estão partindo; os judeus, o Kadish, os budistas o Bardo Todol, com todo o ritual detalhado de acompanhamento do morto, em seu caminho de além-túmulo, pelos mais próximos.
Os gregos antigos colocavam na boca do morto as moedas necessárias para pagar o barqueiro Caronte na travessia do Letes, o rio do esquecimento.
Em todos, a percepção de que um dia precisaremos de quem nos providencie os santos óleos ou as moedas para a travessia, que nos diga o Kadish ou o Bardo.
A intimidade com a Morte, tão presente na poética de Bandeira, está retratada em “O Sétimo Selo” (Ingmar Bergman, 1956); o Cavaleiro joga com Ela uma partida de xadrez, na tentativa de ganhar tempo para meditar sobre o sentido da vida e da morte.

Partida perdida, pois no filme só escapam os artistas mambembes, numa cena inesquecível e emblemática, como a nos dizer que do fim só escapamos pelo que legamos aos próximos – arte, pensamentos e ações de quem é entre os outros.
Essas reflexões me ocorreram durante a semana em que presenciamos as lamentáveis manifestações de júbilo que acompanharam a partida da Senhora Marisa Letícia Lula da Silva, companheira do que foi por oito anos Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.
Antes que tudo aquilo que assombrou nossa alma caia no esquecimento, quero terminar com opoema que me deu o título acima. Ele envolve dois grandes nomes da nossa literatura, os dois mortos, os dois presentes no que temos de melhor legado para os que virão.
Contam de Clarice Lispector (João Cabral de Mello Neto):
“Um dia Clarice Lispector / Intercambiava com amigos / Dez mil anedotas de morte,/ E do que tem de sério e circo. / Nisso, chegam outros amigos / Vindos do último futebol, / Comentando o jogo, recontando-o, / Refazendo-o de gol a gol / Quando o futebol esmorece, / Abre a boca um silêncio enorme / E ouve-se a voz de Clarice: / Vamos voltar a falar sobre a
morte?”
Vamos?
Criado em 2017-02-10 01:53:53
Maria Lúcia Verdi –
A pandemia mudou muita coisa
A pandemia não mudou muita coisa
Agora tenho faxineira de 15 em 15
sou quase autossuficiente no quesito limpeza-comida-roupa
Autossuficiência é difícil em país escravista
De 15 em 15 é mais fácil
não ter com frequência aquela pessoa que te ajuda mas que te conta
te conta a vida dela toda
Já há o que te contam na rua, no sinal de trânsito, no restaurante do lado de fora
o ar livre te protege de vírus, não das falas
Assim que foi boa essa mudança
apenas duas vezes por mês escuto de perto. No mais, imagino, recolho fragmentos de frases
Mas não sou uma sacana alienada. Só não tá dando pra só ouvir
falar da morte, de entubação, só ouvir falar da mesma coisa
A coisa
aquela que estava mais distante, a gente se distraindo
se distraindo dela
Se distraindo com outras coisas tantas
Mas ontem ela veio, a faxineira. E além de ouvir sobre o filho
diabético, deprimido, trancado no quarto, dizendo todo dia
Por que eu nasci
perguntando pra mãe todo dia por que eu nasci
além de ouvir sobre esse filho ouvi sobre a casa deles
meio lote em São Sebastião
Depois de ter o barraco invadido pelas chuvas por alguns anos
Tudo encharcado, uma trabalheira, um cansaço chegar em casa
encontrar tudo no meio d´água
Ontem, que alívio, descobriram que haviam construído em cima
de uma mina d`água
Ontem, que alívio, cavaram um buraco, colocaram um cano largo
agora a água da mina escoa direto pra rua, que alívio
Trouxe do supermercado um pacote de biscoito Princesa pra
ela, para os dois filhos dela, há outro
E acordei a noite toda lembrando da minha mão estendendo o pacote
Pros teus meninos, garotos gostam de biscoitos
E a minha cara sem graça, e a minha garganta seca
vendo o filho no quarto, a mina escoando
aquela mulher eficiente, forte, educada
falando do alívio dela
Criado em 2021-03-07 04:48:58
Angélica Torres –
Elas não desciam, as lágrimas;
ficavam na moldura
os rasos d'água, riachinhos
pedindo socorro a rio.
Chorar um oceano
se preciso,
livre
como prece
de ave.
Esse vácuo
que entorna
a retorta
é desamparo?
É estado de sítio
em corpo alheio?
A dor do mundo
nos dardos lançados
A onda de mármore
em maré cheia
e todos os beijos
censurados. /
Lábios do silêncio
translúcido, o choro
se oculta no campo
gravitacional do riso
frio.
Ouve-se o coro
dos mortos/
eu ouço/
num mantra
no escuro.
Criado em 2021-04-05 14:33:26
Romário Schettino –
O sindicalista Antônio Lisboa, secretário de Relações Internacionais da CUT nacional, foi reeleito, pela terceira vez, para compor o Conselho Administrativo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), representando os trabalhadores brasileiros.
A OIT, com sede em Genebra, Suíça, é uma agência multilateral vinculada à ONU e é composta por 187 estados-membros. O escritório para América Latina e Caribe tem sede em Lima, Peru. Essa organização, que também tem representação em Brasília, é especializada nas questões do trabalho, especialmente no que se refere ao cumprimento das normas (convenções e recomendações) internacionais.
Nesta entrevista ao jornal Brasil Popular e ao site brasiliarios.com, Lisboa revela as denúncias que tem feito na OIT contra as constantes violações do governo brasileiro às normas internacionais do trabalho e como o país foi parar na “lista suja” da entidade.
A seguir a íntegra da entrevista:
Você foi reeleito recentemente, pela terceira vez, para o Conselho Administrativo da OIT representando os trabalhadores. Como é feita essa escolha? Qual é o período de cada mandato? O que isso significa para os trabalhadores brasileiros e para o país?
Fui eleito ela terceira vez para um mandato que vai de 2021 a 2024. A escolha é feita pelos delegados indicados pelos países para a Convenção Internacional do Trabalho, que está se realizando neste momento, de forma virtual, e que termina hoje, sexta-feira, 18 de junho. A cada ano os países membros indicam seus delegados (um dos trabalhadores, um dos empregadores e dois dos governos) que votam para compor o Conselho de Administração da OIT.
Alguns países, tendo em vista o nível de desenvolvimento industrial e sua população, têm vagas permanentes no Conselho. É o caso dos EUA, Brasil, Argentina, África do Sul, Inglaterra, França, Rússia, China. Todos esses países têm assento permanente no Conselho da OIT, mas os conselheiros têm que ser votados a cada três anos. Países menores são escolhidos na forma de rodízio.
Nossa presença na OIT é importante porque participamos da gestão da organização, da formulação de normas internacionais do trabalho e na fiscalização de sua aplicação.
Qual tem sido a importância da OIT diante do desmonte da legislação brasileira dos últimos anos por meio de reformas trabalhistas e outros meios?
Nos anos 2018 e 2019 o Brasil entrou na “lista suja” dos países que mais violam as normas internacionais do trabalho com base nos ataques feitos na reforma trabalhista. Mas também porque frequentemente temos feito denúncias, e isso repercute no mundo inteiro, das violações ao meio ambiente, à Convenção 169, que trata dos povos indígenas, a questão do trabalho escravo e a volta do trabalho infantil. Fazemos isso para denunciar o governo brasileiro e exigir o cumprimento das normas internacionais.
Como é visto na OIT, especialmente estes dois itens da última reforma trabalhista: prevalência do negociado sobre o legislado e acordo individual sem cobertura do Acordo Coletivo?
Esses são exatamente os dois dispositivos da reforma trabalhista que questionamos na OIT. Perguntamos aos peritos da organização se esses itens feriam a Convenção 98, que trata da negociação coletiva. Eles disseram que sim, porque esses artigos permitem o rebaixamento de direitos já garantidos em lei.
O Brasil está constantemente violando Convenções e Resoluções da OIT. O que esperar de efetivo da agência da ONU neste momento dramático das relações de trabalho?
Quando um país acolhe para si uma norma internacional do trabalho da OIT ele é obrigado da cumpri-la, o que não acontece com o Brasil, especialmente em relação à Convenção 98. O que se pode fazer é exigir que o governo cumpra a norma. Mas isso é um processo lento que é tratado no âmbito da diplomacia internacional. No entanto, com base nas normas internacionais, que têm força de lei, os sindicatos podem questionar essas violações na Justiça do Trabalho.
O trabalho escravo, ou análogo à escravidão, está se tornando um objetivo a ser consolidado no atual governo brasileiro. Como a OIT pode intervir nessa situação?
Esse é um dos temas que pioraram a partir do governo Temer, após o golpe que destituiu a presidenta Dilma Rousseff. O movimento sindical e o Ministério Público do Trabalho estão denunciando essas ilegalidades internacionalmente. Mas todo o processo é lento porque carece de investigação, o governo tem o direito de se defender etc. Mas é importante denunciar porque há países que evitam fazer negócios com nações que adotam trabalho escravo ou trabalho infantil.
Fazer parte da “Lista Suja” da OIT é um sinal de desprestígio internacional. De que maneira o movimento sindical pode se contrapor a esse avanço na desregulamentação do trabalho?
A importância da “lista suja” da OIT é que muitos países levam em conta o respeito às normas trabalhistas internacionais para realizarem seus negócios. Por isso, as denúncias constantes podem ajudar na correção de rumos da legislação brasileira em defesa dos trabalhadores.
A OIT tem debatido a introdução de novas tecnologias no mundo do trabalho? De que maneira é visto o emprego por meio de aplicativos (iFood, uber etc)?
A OIT tem trabalhado muito no sentido de buscar alternativas para regular e gerar trabalho decente para esses trabalhadores, garantindo a eles direitos iguais aos dos demais. Mas esse assunto ainda está no início porque depende de investigações. A CUT está desenvolvendo um projeto de pesquisa de formação e diálogo com trabalhadores de aplicativos de Brasília e Recife. Esse trabalho será um dos que será usado para a formulação de um documento que garanta atividade digna para esses trabalhadores.
Criado em 2021-06-18 19:32:00
Antônio Carlos Queiroz (ACQ)
Guia Musical de Brasília nº 9 – O saxofonista Carlos Gontijo, endorsee da Selmer Paris, é prata da casa. Nasceu em Brazlândia e lá foi criado. Muito cedo teve contato com a música, através dos discos do pai, um sujeito eclético que ouvia MPB, música clássica, música regional...
Com essa “formação de ouvido”, ele teve os primeiros contatos musicais na Banda Sinfônica da Regional de Ensino de Brazlândia. Quando conheceu o saxofone, diz que foi uma paixão à primeira vista. Mas o maestro da banda, o Josué, não o deixava praticar. Somente quatro anos depois, quando se matriculou na Escola de Música de Brasília, é que ele inaugurou os estudos do instrumento. “Ali tive a oportunidade de ser bem orientado pelo professor Carlos Eduardo, o Boogie, que formou gerações de saxofonistas. Foi ele que me alfabetizou musicalmente”.
Dali Gontijo seguiu os “trâmites legais”. Participou de muitos festivas e concursos Brasil afora. E fez o bacharelado na UnB com o professor Vadim Arsky. Num determinado festival, conheceu o professor Dilson Florêncio, “uma das maiores autoridades em saxofone no Brasil, quiçá no mundo. Eu entrei na classe dele e dali não saí mais. Ele fazia o que a gente conhece como saxofone erudito ou clássico, explorando o repertório escrito especialmente para o saxofone”.
A escola francesa – Gontijo comenta que o “berço do saxofone erudito é a França” e, quando soube disso, “já sabia que queria estudar em algum conservatório na França”. Isso aconteceu em 2008. “Ganhei uma bolsa para estudar no Conservatório de Rouen, com o professor Marc Sieffert, até 2011”. De lá pra cá, ele se especializou e passou a dar aulas em festivais e orquestras no Centro Oeste, como solista e como integrante do naipe da orquestra. Ele integra o Quarteto Brasília Sax, que contabiliza várias estreias mundiais. E toca também com um duo de saxofone e flauta, tendo como parceira a esposa, Eidi Lima, com quem já viajou mundo afora.
Gontijo diz que não faz composições, embora já tenha escrito algumas coisinhas. Ultimamente, tem trabalhado com um grupo de jovens compositores que escrevem especialmente para ele, de Brasília, Goiânia, São Paulo, e até um do México, Inacio Martinez.
Preocupado com a divulgação do saxofone, ele tem também produzido bastante material didático. “Para contribuir com a escola brasileira de saxofone”, justifica.
Aqui Gontijo nos dá uma informação muito relevante: ele gravou, pela primeira vez em todo o mundo, a íntegra do Alfabeto do Saxofonista, um conjunto de 130 lições básicas, produzidas pelo saxofonista francês Hubert Prati. “Em 2020 eu finalizei o projeto, em que explico como realizar cada uma das lições do método. Sua aceitação tem sido grande”. O Alfabeto do Saxofonista foi lançado pela plataforma Musicalll, criada para intermediar serviços na área da música através de vídeo-aulas.
Seu compositor preferido? Heitor Villa-Lobos. “Ele escreveu 269 obras como o saxofone na formação instrumental. Talvez seja o compositor que mais escreveu para saxofone no mundo inteiro”.
Ensino – Esta entrevista foi acompanhada pelo diretor do Guia Musical, Joaquim Barroncas, ele próprio saxofonista. Barroncas quer saber sobre as atividades de professor de Gontijo, mais especificamente, na Academia Brasileira do Saxofone. “Nesses novos tempos, com a pandemia, nós sentimos muita falta dos eventos, encontros, festivais, simpósios e congressos. A gente passou quase um ano sem se encontrar. Pensando nisso, eu tive a ideia do projeto da Academia Brasileira do Saxofone, com grandes nomes brasileiros e alguns convidados estrangeiros. O projeto é muito interessante. Deve funcionar um ano inteiro, até junho do ano que vem, com atividades semanais: nas quintas, temos uma palestra; nos sábados, duas master classes, pela manhã, de música erudita, à tarde, saxofone popular”.
Gontijo informa que esta é a maior academia online de saxofone do mundo. O usual é esse tipo de projeto durar um mês, mas este vai durar um ano inteiro. Sua continuidade dependerá da recepção dos alunos. “O online cansa também. Se a gente sentir que o projeto pode ter uma segunda temporada, continuamos”.
Sonoridade - O Barroncas pergunta agora sobre os fatores que interferem na sonoridade do sax. O equipamento certamente interfere na qualidade do som, mas não apenas, explica Gontijo. É preciso levar em conta também os acessórios, a boquilha, a palheta e a abraçadeira. “Sou um dos poucos brasileiros endorsees da Selmer Paris, e tenho o prazer de poder de divulgar os seus instrumentos, que são referência no mundo inteiro. Quem sabe num futuro próximo eles instalam uma filial aqui”?
Barroncas insiste: “O que é importante para se tirar um bom som do sax”? Gontijo é objetivo: “A primeira coisa é você ter uma boa coluna de ar. O som não é produzido só pelo equipamento. O que alimenta o instrumento é o ar. Se a gente não tem uma preparação para uma boa coluna de ar e uma boa embocadura, não consegue ter uma sonoridade bacana. O importante é o que está atrás da boquilha”.
Coluna de ar seria o fôlego? “Mais ou menos”, explica Gontijo. “Na verdade, é o jeito como o ar é expelido dos pulmões, e com qual pressão, auxiliada pelos músculos intercostais e pelo diafragma”.
Para o final de 2021 Gontijo não agendou nenhum concerto. Na semana anterior à entrevista, realizada dia 22 de outubro, ele havia gravado um CD com a Orquestra Filarmônica de Goiás, trabalho que lhe deu muita satisfação. Para abril do ano que vem ele programou uma miniturnê pela França, com três concertos e duas master classes, em Paris, Rouen e Bordeaux.
Criado em 2021-12-19 02:30:35