Comemoramos nesta sexta-feira, 28, os 487 anos de nascimento do filósofo Michel de Montaigne, autor do primeiro estudo psicológico da natureza humana, inventor dos ensaios e, segundo Jorge Luis Borges, talvez da própria literatura moderna.
O dia em que eu peguei no pé do Montaigne!

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Estando em Paris em meados de 2008, fiz questão de ir até a rue des Écoles, place Paul-Painlevé, para pegar no pé do Michel de Montaigne. Quer dizer, no pé desgastado da estátua de bronze do filósofo, que fica na frente da entrada da Sorbonne, como sempre fizeram os estudantes, para dar sorte. Plant: como goiano só conhece as coisas pegando nelas, confesso que no dia anterior eu havia passado a mão na lustrosa bunda d@ Hermafrodit@ adormecid@ no Louvre.

Pegar no pé do Montaigne teve um motivo filosófico, digamos. O que é que eu tinha a ver com esse pensador gascão seiscentista (1533-1592), inventor dos Ensaios, o gênero literário que tornou o Eu transparente? Bem, naquela época tínhamos em comum pedras nos rins. De três em três anos eu costumava expelir calhaus do tamanho do Bendegó, uivando de dor que nem o coitado do Michel. A minha vantagem é que a medicina já havia evoluído um pouquinho desde o século 16, e eu podia contar com uma boa dose de Buscopan pra conter a agonia. Minhas crises sumiram há tempos, mas delas ainda tenho cicatrizes... na alma.

Além das dores sisifianas, no entanto, a minha identidade com o francês vinha da convicção dele de que qualquer caipira que nem eu podia (e pode!) pensar o mundo e a condição humana sem ser versado em filosofia. Tanto melhor sendo eu um jornalista daqueles que a custo conseguem encadear duas ou três frases.

Com uma taça de Bordeaux de 50 reais, comemoro nesta sexta-feira, 28, os 487 anos de nascimento do Montaigne. Há pelo menos 30 anos, os três volumes dos Ensaios, edição Hucitec/Editora da UnB de 1987, na bela tradução de Sérgio Milliet, fazem parte do patrimônio da família, quer dizer, das nossas estantes. Temos também a edição mais recente da Pléiade, de 2007.

Motivos - Por que tanto interesse nesse sujeito? Porque Montaigne é um puta escritor, direto, honesto, leve, engraçado, irônico, antidogmático, franco até os ossos e os tendões, sem rebuscamento nem enrolação. De vez em quando é também chato que dói! Ao falar de si, de seus gostos, moléstias, dúvidas políticas, filosóficas e religiosas, é como se ele estivesse falando da gente.

Sabe aqueles textos que você diz, pô, eu podia ter escrito isso? Então, assim são os Ensaios do cara. Aliás, foi ele mesmo quem enfatizou esse compromisso com a veracidade de sua pessoa, com quem logo nos identificamos. Na advertência ao leitor constante do prefácio dos Ensaios, ele pede: “Quero que me vejam aqui em meu modo simples, natural e corrente, sem pose nem artifício: pois é a mim que retrato… sou eu mesmo a matéria de meu livro...” Em outro lugar, diz que assim como compôs o livro, foi o livro que o conformou. 

Muitos escritores já haviam falado de si próprios, como Santo Agostinho nas Confissões. Mas não da maneira de Montaigne, tomando a sua pessoa como o principal objeto de investigação. “Se cortar as palavras dele, sai sangue”, comentou Ralph Waldo Emerson, o inventor dos ensaios nos Estados Unidos. “Elas têm veias, estão vivas (vascular & alive)”.

Modelo para Hamlet - O crítico Harold Bloom atribui a Shakespeare “a invenção do humano”, isto é, a invenção da personalidade na história da literatura, mas também a personalidade comum, a minha e a sua. Para Bloom, uma das raízes dessa invenção da modernidade foi justamente Montaigne, cujos Ensaios o Bardo teria compulsado mais do que o seu exemplar da Bíblia de Genebra. É provável que Shakespeare tenha lido os Ensaios ainda nos manuscritos da tradução de John Florio, que viriam a ser publicados em 1603. Os dois podem ter se encontrado antes, quando Florio servia o Conde de Southampton, Henry Wriothesley, patrono de Shakespeare e talvez o “Lord of my love” de seus sonetos.

Diz Bloom: “Nada pode parecer tão shakespeariano como o clímax da obra de Montaigne, o grande ensaio intitulado “Da experiência”, composto em 1588, quando, creio eu, Shakespeare terminava o primeiro Hamlet. Montaigne diz que somos vento, mas o vento é mais sábio que nós, pois gosta de fazer barulho e se agitar, e não anseia por solidez e estabilidade, valores que lhe são estranhos. Sábio como o vento, Montaigne tem uma visão positiva das pessoas que sofrem mutações, metamórfica e surpreendentemente livres. Montaigne, como os grandes personagens shakespearianos, passa por mutações porque é capaz de ouvir a si mesmo. Ao ler seus próprios textos, Montaigne torna-se precursor de Hamlet na representação da realidade nele próprio e através dele”.

Os especialistas especulam que as dúvidas existenciais de Hamlet e a agonia espiritual do Rei Lear podem ter sido sugeridas pelas dúvidas do próprio Montaigne. O certo mesmo é que alguns trechos de A Tempestade foram transcritos do ensaio Dos canibais, dedicado aos tupinambás levados do Brasil. Uma hipótese, inclusive, é que o nome de um dos personagens da peça, Caliban, seria um anagrama da palavra “canibal”.

Canibais - Nesse ensaio, Montaigne conta que chegou a conversar com um dos três tupinambás que visitaram a corte do rei Carlos IX em Ruão, em 1562. Ele comparou a sociedade indígena à francesa, sem deméritos para a primeira, muito embora essa estivesse entregue às leis da natureza, sem lei nem rei nem fé nem livros. Bárbaros, dizia ele, é como chamamos os povos que não têm os nossos costumes. Os tupinambás foram considerados bárbaros por comerem gente, mas não assim os seus patrícios franceses, que deixavam – para espanto dos índios – as suas “metades” (seus concidadãos) morrerem de fome na sarjeta. Dizem que foi Montaigne o inventor do “bom selvagem”, tornado famoso por Jean-Jacques Rousseau.

     

Montaigne criou os Ensaios para falar de suas intimidades talvez porque não tivesse grandes aventuras para contar. Ele nasceu em 1533, no mesmo ano da rainha Elizabeth I na Inglaterra. Provinha de uma família rica, judia por parte de mãe, proprietária de vinhedos no Sudoeste da França. Durante 13 anos foi juiz em Bordeaux, e depois prefeito da cidade por mais quatro anos. Passando dos 40, fez uma viagem “etnográfica” pela Itália, Suíça e Alemanha, quando comparou os hábitos de suas gentes com a sua. Teve seis crias, das quais cinco morreram ainda pequenas.

Um fato realmente marcante foi a sua amizade com o poeta e escritor Étienne de la Boétie, de quem editou o Discurso da Servidão Voluntária. O amigo morreu vítima da peste que grassava no Sul da França, o que o deixou completamente arrasado, ele que já estava impressionado com a desgraceira das guerras religiosas da época. Dizem que vêm desse tempo os sombrios pensamentos de Montaigne sobre a morte, problema que enfrentou aderindo à doutrina dos estoicos, para quem “filosofar é aprender a morrer”. O truque: ficar sempre alerta contra a possibilidade do pior, anestesiando os efeitos da eventual desgraça. Os críticos dizem que agindo assim você sofre duas vezes…

Na torre - Cumpridas as obrigações públicas, e achando que já não teria muito tempo de vida, Montaigne refugiou-se na sua biblioteca, organizada no segundo andar de uma torre circular de sua propriedade com vista para as vinhas. O espaço existe até hoje. Ali ele aprofundou as leituras dos clássicos – Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro, Lucrécio, Virgílio, Catulo, Horácio, Lucano, Terêncio, Plauto, Sêneca, esse tipo de gente. Plutarco foi o seu autor predileto. Mas essas leituras, ele adverte, foram importantes só na medida em que abonavam as suas próprias ideias, derivadas de suas experiências. Embora falasse apenas de si, acho que se ele carregasse um patuá, a frase do papelzinho seria a máxima do Terêncio: “Nada do que é humano me é estranho”.

Tendo sobrevivido às piores expectativas, Montaigne trocou o pessimismo dos estoicos pelo otimismo dos epicuristas, para quem filosofar é, ao contrário do que pregava Cícero, aprender a viver. Afinal, disse Montaigne, qualquer pessoa saberá morrer quando chegar a hora. Nem é preciso estar doente para morrer, basta estar vivo. Imagine que você está caminhando em busca da verdade que nem o Tales de Mileto, sem prestar muita atenção no caminho e de repente cai num buraco – babau!  Ora, já que a natureza vai se encarregar de pôr um fim à sua existência, à sua revelia, compensa muito mais você se preocupar não com a morte mas com a melhor maneira de viver. Foi o que Montaigne pregou e foi o que ele fez quando decidiu escrever seu autorretrato.   

Os temas de alguns Ensaios dão a extensão de suas preocupações: Da tristeza; Dos nossos ódios e afeições, A hora das negociações é perigosa, As ações julgam-se pelas intenções; Da ociosidade; Dos mentirosos; O bem e o mal só o são, o mais das vezes, pelas ideias que deles temos; Da covardia; Da educação das crianças; Da solidão; Do sono; Dos nomes; Das vãs sutilezas; Dos odores; Da embriaguez; Da consciência; Dos livros; Da crueldade; Da presunção; Da liberdade de consciência; Do útil e do honesto; Do arrependimento; Da diversão; Da vaidade; Da experiência; e por aí vai.

Como gênero literário, os ensaios inventados por Montaigne carecem da densidade e da dignidade outorgada aos tratados, estudos e teses acadêmicas. São relatos de temas livres, soltos, aparentemente sem método, impressionistas, baseados em geral nas vivências de quem os escreve. Acabaram se tornando a forma mais popular de os pensadores, cientistas, filósofos, críticos literários e até mesmo jornalistas levarem até as massas as suas ideias ainda em processo de fermentação. Num país de poucas letras como o Brasil, onde se considera o Nelson Rodrigues um pensador profundíssimo, o gênero só podia frutificar alegremente, como de fato frutificou. 

O inventor da literatura? - A aparente modéstia colada aos Ensaios de Montaigne talvez esconda, no entanto, algo mais grandioso. É o que disse o argentino Jorge Luís Borges, ao atribuir ao francês nada menos do que a invenção da própria literatura moderna. Numa crônica publicada dia 24 de novembro de 1957, sobre Montaigne e Walt Whitman, Borges cogitou que, estando lendo Plutarco em sua biblioteca, no quentinho da  lareira e talvez ouvindo o latido inútil de um cachorro no pátio –  “Desde el patio, para Montaigne; desde el siglo XVI, para nosotros” – , o filósofo francês certamente compreendeu que o historiador grego “não era só um mestre e uma doutrina, mas também uma entonação individual a que se havia acostumado, um homem e seu diálogo”.

Borges anotou: “Desde aquele instante em que percebeu que entre alguém e um livro pode existir uma relação de amizade, Montaigne já era o autor da obra encantadora. O resto está nas enciclopédias. Em 1580 apareceram os Ensaios, o primeiro livro que deliberadamente busca o que Plutarco achou em outro país, mediante outra língua, ao cabo de séculos de morte: o afeto de um homem desconhecido. Os ensaios que abrem o volume são impessoais; também é lícito conjecturar que Montaigne se havia proposto compilar uma miscelânea, uma coletânea de vários assuntos, ao gosto da época, e que, relendo os rascunhos, reconheceu neles a sua voz, o som de sua alma, e decidiu incorporá-los numa obra que fosse a sua imagem verdadeira”. Por fim, Borges sugeriu: “Seguir a descendência da obra, a multiplicação de sua linhagem por toda a Europa, seria reescrever a história da literatura”.     

Uma salada! - Até hoje os especialistas terçam armas (nosso herói detestava as histórias da cavalaria!) para enquadrar o pensamento de Montaigne, tarefa complicada pelo fato de ele não ter erigido um sistema de ideias como fizeram o Descartes, o Spinoza, o Kant ou o Hegel. Seria ele um filósofo de verdade? Um filósofo moral? Um filósofo acidental? Seria um estoico? Um epicurista? Um cético? Humanista ou anti-humanista? Um teórico da Educação? O inventor do liberalismo? Um precursor da filosofia da práxis? Relativista? Pioneiro do multiculturalismo? Um quase ateu disfarçado de católico conservador? Um pioneiro dos direitos dos animais e das florestas? Um precursor dos blogueiros?

Bem, pode se dizer que Montaigne incorporou um pouco de todos esses atributos, mas não ao mesmo tempo. Uma frase dele, escolhida por Machado de Assis (seu grande fã) como epígrafe da Páginas Recolhidas para chamar a atenção sobre a variedade dos textos da obra, talvez sirva também pra gente distinguir as múltiplas facetas do pensador: “Quelque diversité d'herbes qu'il y ayt, tout s'enveloppe sous le nom de salade”. (“Seja qual for a variedade das ervas, tudo é embrulhado com o nome de salada”).

Bem antes de Walt Whitman, pode se dizer que Montaigne também “continha multidões”, daí uma explicação para o fato de ele agradar ao mesmo tempo públicos de todo o espectro ideológico. De uma salada ou de uma Bíblia você escolhe só o que gosta, não é verdade?

Nosso herói nunca escondeu que era uma pessoa contraditória, eclética. Pelo contrário, até chamou a atenção para isso! Talvez a marca mais forte de seu pensamento, contrariando a doutrina da essência aristotélica, tenha sido a tentativa (éssais) de flagrar o ser humano em ato, em desenvolvimento, em construção, como as correntes do rio de Heráclito (a imagem é dele mesmo). Pode ser que Montaigne tenha sido um cético, mas ele mantinha algumas certezas, ainda que provisórias, e é possível perceber alguns de seus rumos mais nitidamente do que outros.

Imanência - Pessoalmente, acho que ele pode ser considerado um precursor do Spinoza quando nos retrata como seres regidos tanto pela razão como pelas emoções. Também quando trata da natureza como realidade imanente e não transcendente, enovelando a graça e a verdade nos complicados fenômenos naturais na segunda parte da Apologia de Raymond Sebond, um teólogo catalão do século anterior, autor da Theologia Naturalis. Com alguma imaginação, a gente pode perceber ali um rascunho do futuro conceito de Amor Intellectualis Dei do filósofo holandês. Ele ainda me faz lembrar do Spinoza quando defende o grude indissociável do corpo e do  espírito, obviamente ainda na semente do Parmênides. E finalmente quando valoriza a nossa corporeidade (tripas, gosmas, ventosidades, pensamentos e sonhos), tudo muito frágil, sem dúvida, mas suporte de nosso ser no mundo etc. Em Montaigne, me parece que a fisiologia e a psicologia são faces de uma só medalha.

Embora tenha ajudado a preparar o terreno para a revolução de Descartes, ao questionar a tradição filosófica, Montaigne também antecipou algumas importantes críticas ao mecanicismo cartesiano, que continha mais certezas sobre a alma do que sobre o corpo, afirmava que os animais são autômatos sem alma, uma exclusividade nossa por obra do Espírito Santo etc. 

Precursor de Darwin? - Também na segunda parte da Apologia, Montaigne contesta a tradicional ideia de que a humanidade seria a culminação da obra da natureza, de que o mundo teria sido criado para satisfazer os nossos interesses, de que é para nós que o “mundo existe, … brilha o sol, ribomba o trovão”. Nesse texto, que parece um manifesto contra o antropocentrismo, ele dedica grande espaço à equiparação dos animais ao ser humano, reconhecendo a inteligência deles e até as suas linguagens. Na trilha de algumas correntes do cristianismo (mas longe de Santo Agostinho) e do racionalismo, ele os toma como modelos para a sociedade humana, levando em conta que “são muito mais regulados do que nós e se contêm com mais moderação sob os limites que a natureza lhes prescreveu”. Mais, “eles se conduzem de maneira ordeira, sem erudição”. Para Montaigne, formamos com os animais e as plantas uma  comunidade no seio da Mãe Natureza.

Para escrever essas ousadias, nosso filósofo se baseou no testemunho dos pensadores antigos e, claro, na sua própria experiência – “Quando brinco com a minha gata, como saber se não é ela que está brincando comigo?”, escreveu. Por esse motivo foi alvo de ataques de críticos como Nicolas Malebranche, cuja própria salada misturava Descartes com Santo Agostinho. Séculos depois, porém, Montaigne seria vingado pelo florescimento de uma ciência inteirinha dedicada ao comportamento dos animais – a etologia –, alicerçada na teoria da evolução de Charles Darwin e ideias semelhantes às suas.

Aqui me vem à lembrança a Baleia de Graciliano Ramos (outro fã de Montaigne), a cachorrinha que amarra o romance Vidas Secas com suas atitudes e dedicação aos donos, mas também com egoísmo e modorra, e que sonhava com um mundo paradisíaco cheio de preás. “Exatamente o que todos nós desejamos. No fundo somos todos como a minha cachorra Baleia e esperamos preás”, disse Graciliano numa carta à sua mulher, Heloísa.

Tataracrítico de Feuerbach? - Um atrevimento meu (gozação!) é dizer que dois séculos e meio antes de Karl Marx, Montaigne já pregava a primeira parte da lição contida na 11ª tese contra Feuerbach, isto é, que “os filósofos apenas interpretaram o mundo de maneiras diferentes; o que importa é mudá-lo”. Na Apologia, Montaigne percorre várias páginas dizendo exatamente isso, por meio de divertidas ironias contra dois mil anos de extravagâncias proferidas pelos filósofos, cuja imaginação ele compara à dos poetas. “A filosofia não passa de poesia feita com sofismas”, tascou. A filosofia nos apresenta “não o que é ou crê ser, mas o que imagina como solução mais elegante e adequada às aparências”, completou. Essas ironias, porém, não o impediram de dizer logo em seguida que ele próprio havia se tornado um filósofo, embora sem querer! Ele era contraditório? Era, mas e daí?

Agora falando sério: uma faceta importante do nosso filósofo, segundo o professor George Hoffmann, do Departamento de Línguas Românicas da Universidade de Michigan, é que foi ele quem iniciou o primeiro estudo psicológico da natureza humana. No ensaio sobre a experiência, Montaigne compara-se de maneira brincalhona a Aristóteles para dizer que o estudo de sua mente é uma espécie de física. “Eu estudo a mim mesmo… Essa é a minha metafísica, essa é a minha física”, disse. Como já registrei, em Montaigne a fisiologia e a psicologia estão entrelaçadas.

A façanha desse pioneirismo, segundo Hoffmann, foi alcançada com modestos instrumentos, mais precisamente, algumas ideias da Rerum Natura de Lucrécio, que o levaram, na análise da natureza, a trocar as relações entre os meios e fins da tradição medieval pelos nexos das causas e efeitos, afastando, além disso, a teleologia, isto é, a doutrina da finalidade herdada da tradição platônica e aristotélica.

Ainda no capítulo da psicologia, Harold Bloom diz que Montaigne contribui para fixar o cânone ocidental – a lista dos grandes literatos do Hemisfério que o próprio crítico escolheu – porque “um leitor individual pode localizar o Eu, ainda que esse possa ter se desmoronado, usando Montaigne como um guia. Até o advento de Freud, nenhum outra moralista secular nos ofereceu tanto, e agora me parece que o tributo mais acurado que podemos prestar a Freud é vê-lo como o Montaigne da nossa Era Caótica”.

Filósofo por acaso - Para definir o estofo de seu próprio pensamento, Montaigne escreve: “Minhas ideias são as que fez a natureza. Para formá-las procurei não seguir nenhuma regra; e no entanto, por fracas que sejam, quando as quis exprimir e publicar nas melhores condições possíveis, achei de meu dever apoiá-las em raciocínios e exemplos, e maravilhei-me ao perceber a que ponto se amoldam a inúmeros raciocínios filosóficos. A que doutrina se ligam? Só o soube depois de as expor e julgar do resultado: pertenço a uma nova espécie, sou um filósofo que se tornou filósofo por acaso e sem premeditação”.

Os conservadores, puxando a brasa pra sardinha deles, dizem que Montaigne seria uma pedra angular do liberalismo, por centrar as suas preocupações no indivíduo e não nas relações sociais. Acontece que o filósofo, mesmo isolado em sua torre (nada a ver com a expressão “torre de marfim”, que seria inventada apenas no século XIX por Sainte-Beuve) guarda um profundo senso comunitário, muito além da ideia liberal de sociedade como uma coleção de indivíduos.

Vejam o que ele escreve no ensaio sobre o desmentido: “O primeiro sintoma de corrupção dos costumes está no desamor à verdade. A sinceridade é, como dizia Píndaro, o ponto de partida da grande virtude, é a condição primeira que Platão impõe ao governador de sua República”, diz ele. “Entre nós, hoje em dia, a verdade não é o que é, mas o que consegue persuadir os outros”, lamenta-se. Mais adiante, acrescenta: “Nossas relações recíprocas estabelecem-se pela palavra; faltar à palavra é, pois, trair a sociedade, porquanto é o meio de comunicar  nossos sentimentos e nossas vontades e o único intérprete de nossa alma. Se esse intermediário nos falta, desfaz-se a associação, não mais nos reconhecemos uns aos outros; se nos ilude, rompem-se nossas relações, destroem-se os laços que nos prendem”.

Viram? Eu acho que o Montaigne continua atualíssimo e pode oferecer lições preciosas para nos ajudar a refletir sobre as taras da nossa época, na qual a mentira, agora apelidada de fake news, constitui um método de governo para alguns poucos e um instrumento para estraçalhar os laços que unem o povo.

Payoff: Ao terminar essa conversa, que já vai passando da medida, refresco a memória d@s prezad@s leitor@s com a menção feita no primeiro parágrafo à bunda d@ Hermafrodit@ adormecid@, objeto do desejo e das mãos pensas & bobas dos turistas que passam pelo Louvre, se arriscando a levar um processo não por assédio mas por dano ao patrimônio cultural da França. Juro que mencionei essa calipígia não para épater les petits-bourgeois que nos dão a honra da leitura desta crônica, mas simplesmente para terminar os meus imprudentes comentários sobre o Michel de Montaigne com um pensamento dele mesmo sobre a autenticidade do ser humano.

No final do ensaio sobre a experiência, suma de sua filosofia, Montaigne diz que de nada servem os truques que usamos para nos alienar de nossa condição natural, lembrando que é com o nosso próprio traseiro que sentamos no mais alto trono do mundo. Aproveitando essa ideia, o filósofo espanhol José Ortega y Gasset dirá, na Rebelião das Massas, que “o poder não é tanto uma questão de punhos quanto de nádegas (posaderas)”.

Eis o que diz Montaigne: “A graciosa inscrição com que os atenienses homenagearam Pompeu concorda com minha maneira de pensar: ‘És tanto mais divino quanto reconheces que és apenas um homem’ (Plutarco). Saber lealmente gozar do próprio ser, eis a perfeição absoluta e divina. Nós só desejamos condições diferentes das nossas porque não sabemos tirar partido daquelas em que nos achamos. Saímos de nós mesmos porque ignoramos o que nos compete fazer. Embora usemos pernas de pau, temos de mexer as do corpo para andar, e é com o traseiro que nos sentamos no mais alto trono do mundo. As mais belas vidas são, penso, as que se adaptam ao modelo geral da existência humana, as mais bem ordenadas e de que se excluem o milagre e a extravagância”.

Por mais que a gente se julgue importante ou excepcional, carregando nas ilusões e preconceitos, somos o que somos, seres individuais socializados, obrigados a lutar pela sobrevivência no dia a dia com os meios e contra os empecilhos que nos apresentam a natureza e a sociedade, tudo ao mesmo tempo. Nascemos, crescemos, comemos, bebemos, cagamos, vestimos, trabalhamos, rimos, choramos, filosofamos, cantamos e contamos histórias e lorotas durante a jornada. Essa é a lição básica do Michel de Montaigne, pelo menos para mim. Parabéns, Michel, nesta data querida!  

Neiva do Céu, será que eu acabei de escrever um ensaio?

 

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